domingo, 2 de abril de 2017


O Rio de Janeiro
Histórias da sua História
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No texto anterior já se falou no Passeio Público, executado para aterrar um pântano, o Boqueirão, para o que se desmontou o Morro das Mangueiras que estava encostado ao Morro de Santa Tereza, que começou por se chamar Morro do Desterro, e que Mestre Valentim ficara com o encargo de o projetar e embelezar com as suas belas esculturas.
Mas Mestre Valentim sabia que para isso precisava de muito dinheiro e os cofres do governo estavam sempre vazios, e disse ao vice-rei::
- Senhor, Vossa Excelência tem empreendido tantos e tão grandes trabalhos que não sei se haverá recursos para os executar todos. Vossa Excelência faz milagres, mas... dinheiro não abunda. Além disso faltam-nos os necessários trabalhadores.
- Não se preocupe. Farei aparecer dinheiro e gente. Isso fica a meu cuidado. Quero ver esse jardim pronto antes de ser substituído no governo do Brasil.
Mestre Xavier meteu mãos à obra e os engenheiros iam dessecando a lagoa do Boqueirão.

Lagoa do Boqueirão – séc. XVIII

Pela sua parte Luiz de Vasconcelos cumpriria com a sua palavra.
Como disse o próprio vice-rei, “poucas são as rendas da Fazenda Real”, mas a cidade abundava de vadios; lembrou então que uma carta régia mandara construir no Rio uma “casa de correção, que sendo utilíssima, ficou no esquecimento, apesar de ser bem projetada para reprimir os vícios, promover o trabalho e tirar dessa ociosidade uma espécie de lucro!
Mandou para a Ilha das Cobras todos os vadios que se encontraram, e que ali praticassem nos seus ofícios, e vendendo esses produtos, os cofres do governo tiveram uma melhora, mesmo pequena.
Os trabalhadores foram recrutados pelo mesmo sistema: vadios sem ofício, mandou que fossem trabalhar na construção do Passeio Público!
O certo é que Luiz de Vasconcelos cumpriu com o prometido, fazendo aparecer dinheiro e trabalhadores, e em menos de quatro anos inaugurou-se o Passeio Público “ao bom povo do Rio de Janeiro”, que teve imenso sucesso.


Aberto ao público em 1783, muito estimado pelos cariocas, e não só, foi-se deteriorando com os anos, em que D. João V e os primeiros tempos do Império o negligenciaram. Finalmente, em 1863, reabriu novamente, por imposição de D. Pedro II, e mesmo tendo sofrido algumas alterações ainda hoje é um ícone, infelizmente quase esquecido, nesta cidade... maravilhosa... ?

Tem muita história por aqui. As antigas vão sendo esquecidas, atropeladas pelo desconcerto e desabamento da moral e da ética que o país atravessa, e que sufoca o povo, que já não acredita em nada.
Mas foram diferentes os tempos passados.
Por razões de ordem filosófica ou teológica os religiosos que vinham para o Rio, nem todos, como é de supor, viviam em constante luta com os outros habitantes, comerciantes ou agricultores, por causa da questão dos escravos. É evidente que muito religiosos os queriam livres porque também se aproveitavam da sua mão de obra quase de graça! E as desavenças eram muitas.
Em 1639, Filipe III(/IV) requereu à Sé Apostólica a elevação da prelazia do Rio a bispado, e nomeou, como administrador eclesiástico o dr. Lourenço de Mendonça. Nessa época já o Rio vivia numa desmoralização... avançada.
O dr. Lourenço chega ao Rio em Setembro de 1932 e quatro dias depois já sentia uma violenta oposição, chegando ao ponto de os seus inimigos terem introduzido na sua residência um barril de pólvora, com quatro pavios, e o colocaram junto à cama do prelado. Por muito sorte o dr. Lourenço escapou à tentativa de assassinato, mas a casa ardeu e desabou!
Procedeu-se a uma devassa, e o resultado foi contra o prelado que teve que pagar a conta! Contra ele “choviam libelos inflamatórios” recorrendo a crimes inventados, e por fim, sem conseguirem vencê-lo, tramaram levá-lo preso num bote até fora da baía e abandoná-lo no mar aberto, ao sabor do frio e das vagas!
Avisado, o prelado embarcou numa nau que o levou a Portugal, em 1637, onde não só foi inocentado como eleito bispo do Rio de Janeiro, cargo que ficou só na honra porque não voltou para este inferno!
Os cariocas podiam repetir esse tipo de “bota-fora” a tanto malandro que por aqui vagueia e se enche!

Estácio de Sá, em 1567, depois de bater os franceses, fundou a cidade do Rio de Janeiro num dos morros dominantes, ponto alto, com bela vista para todos os pontos da baía, morro esse que depois de ter sido conhecidos por diversos nomes terminou sendo o Morro do Castelo. Aí se fortificou, se edificou a primeira igreja de São Sebastião o orago desta cidade, a residência do governador e por aí mesmo começou a cidade, que não tardou a preferir instalar-se nas áreas baixas do que ficar lá no alto. O Rio era uma região de lagos, pântanos e morros, mas foi mesmo na parte baixa que a cidade se desenvolveu, e o Morro do Castelo foi assim votado ao ostracismo.

O Morro do Castelo em 1855

Volta e meia desciam pelas encostas do Morro uns deslizamentos que sempre faziam os seus estragos, ajudados pelas chuvas, algumas escavações e por particulares que se utilizavam do seu barro. Em 1759 foi o primeiro, não muito grave, que assustou menos do que a inundação de três anos antes, de que Baltazar da Silva Lisboa nos seus Anais do Rio de Janeiro, deixou este relato:                     
As trovoadas ocasionavam na cidade grandes inundações. Em 4 de abril de 1756, depois de uma hora da tarde, choveu tão grossa e copiosa chuva, precedida de veementes con­clusões do ar e espantosos furacões, por três dias sem interrupção, que o temor e o susto se apoderaram de tal sorte do ânimo dos habitantes, que desde a primeira noite muita gente desamparou as casas, as quais caíram, fugindo sem tino para as igrejas. Desde então, as águas cresceram de tal maneira que inundaram a rua dos Ourives e entraram pelas casas, por não caberem pela vala. No dia 5 do dito mês, saindo o Santíssimo da Sé, o sacerdote que levava o Senhor foi descalço, e bem assim os irmãos da irmandade do Santíssimo. Todo o campo parecia um lagamar. Vadeavam-se as ruas de canoas, e no dia 6 uma nave­gou desde o Valongo até à Sé (que estava na igreja do Rosário dos pretos) com sete pessoas.
O segundo e terrível desmoronamento do Morro do Castelo aconteceu em feve­reiro de 1811.                                           
No dia 10 de fevereiro desse ano, pelas 11 horas da manhã, começou a cair uma violenta chuva, que continuou incessante por sete dias. As ruas e casas fica­ram inundadas. A rua da Vala conservou-se durante todo esse tempo com cinco palmos d'água, e no campo de Sant’Ana (hoje da Aclamação) navegavam canoas. O príncipe regente ordenou que se conservassem abertas as igrejas, onde, apesar da inundação, rezavam os padres e os fiéis.
E fácil compreender o susto da população, que falava tremendo, em um novo dilúvio.
E pior do que tudo isso, em um desses tristíssimos e amargurados dias correu uma das abas do Morro do Castelo, ficando soterradas muitas casas da rua da Misericórdia e no beco, hoje rua do Cotovelo, e morrendo sepultadas em vida famílias inteiras.
Já no século XVIII se cogitara por várias vezes arrasar o monte, mas a população em vez de concordar zombava com a ideia.
Foi somente em 1922 que o governo decidiu desmontá-lo, com a argumentação que seria necessária aquela área para abrigar a grande Exposição Comemorativa do Centenário da Independência do Brasil. As suas terras foram usadas para aterrar parte da Urca, da Lagoa Rodrigo de Freitas, do Jardim Botânico e outras áreas baixas ao redor da Baía da Guanabara, e desafogou a baixa da cidade.

24/03/2017

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