quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Coisas dos mares de
Angola



Vamos esquecer por uns momentos as políticas e as epidermes, e pensar um pouco naquela geografia do Atlântico sul, costa ocidental.
Já tantas vezes cantei aquelas águas, e a atração que elas exerciam sobre os meus genes de marinheiro, que um dia, com sacrifício financeiro, acabei por me fazer ao mar.
Se o tivesse feito sem qualquer dificuldade, o gozo seria incomparavelmente menor, se é que há gozo naquilo que nada nos custa, como pouco existe num encontro com as chamadas mulheres fáceis!
Só se aprecia em profundidade aquilo que nos apareceu primeiro através de sonhos, e destes, mal nós sabemos às vezes como, através de muita luta e perseverança, à sua concretização.
Um dia consegui concretizar o sonho de navegar à vela, naquela baía de Luanda e nos mares que a circundam, rumo ao norte até à foz do Dande, e sul ao paradisíaco Mussulo, chamado de ilha, como a Ilha de Luanda, mas que de ilhas pouco têm. Lugares de encantamento que o homem, qualquer homem, vai destruindo com velocidade rápida, sem que no amanhã os nossos filhos e netos possam sequer vir a compreender como era possível achar tudo aquilo uma benção da natureza.
A vela, apesar daqueles apelos, estava pouco desenvolvida em Angola, que tudo tinha para ser um grande centro deste desporto, onde não é necessário ser-se milionário para o praticar. Uma prancha de madeira, leve, que muita ainda se encontra por Angola fora, uma vara a fazer de mastro e uns panos.
Aos muxiluandos não há que ensinar coisa alguma neste aspeto, eles sabem muito bem como fazê-lo. Há só que os estimular, a eles também, e todos os que não sendo da samba, podem tirar do mar um prazer imenso.
Que ajuda podia ser dada para criar mais interesse pelas coisas do mar, quer seja vela, pesca, ou simplesmente praia?
Aquele mar sempre a cutucar na minha cabeça, com mais força do que gostosos quifunes, como a dizer-me faz alguma coisa, desperta essa gente que ainda não aproveita todas as maravilhas que, de graça, lhes oferece!
Um belo dia acordei com a idéia de organizar em Luanda um “Salão Náutico”, à imagem do que se fazia mundo afora, reduzido, como é óbvio à escala de país pequeno.
Enquanto matutava nisto, fui perguntando a outros aficionados do mar o que achavam da idéia. O primeiro perguntou-me se estava louco, porque fazer uma coisa daquelas em Angola era o mesmo que pregar no deserto. O segundo não ficou muito fora da mesma linha de raciocínio. Finalmente o terceiro foi bem mais objetivo: este gajo deve estar doente! Se matematicamente menos por menos dá mais, três vezes menos deveria dar muito mais!
E com o patrocínio do banco, para quem estava a fazer este trabalho de relações públicas, meti mãos à obra. Os primeiros contatos com gente ligada a atividades com o mar não foram muito promissores, mas aquela velha história de dizer ao segundo que o primeiro tinha abarcado a idéia com entusiasmo, e de ninguém querer ficar para trás, em pouco tempo os expositores já brigavam por melhor posição dentro do espaço conseguido para este evento, a estrutura do que se tornaria mais tarde o Hotel Panorama na Ilha de Nossa Senhora do Cabo de Luanda, a seguir ao Clube Naval, em cima da baía, olhando a cidade. Um lugar de eleição. Espetacular.
Não sei porque motivo as obras desse hotel estiveram embargadas durante muito tempo (seria alguma briga pela posse do terreno?), e a construção não tinha mais do que as estruturas de concreto em dois andares, além duma área externa, cimentada, que deve depois ter sido uma magnífica esplanada.
Compareceram construtores de barcos, entre eles um famoso, que tinha o estaleiro na Ilha, e que só o seu nome ter dito que sim, arrastou todos os outros, que apresentou uma traineira de pesca em estado de meia construção, tendo levado até carpinteiros para ali trabalharem durante a semana que durou o Salão. Também se expôs um belo dongo que os pescadores da ponta da Ilha, amável e alegremente cederam, com todo o seu equipamento de pesca dentro, e que só isso foi um sucesso, motores marítimos, desde os menores outboards aos grandes para embarcações de pesca, material de segurança no mar, material de pesca, fabricantes de velas, lojas de modas com roupa de praia, material de campismo, o que se puder imaginar relacionado ao mar, como pesca desportiva e comercial, vela e motor, surf, lazer, elegância e até alimentos enlatados que o mar fornecia.
Não faltaram maquetes dos navios das companhias de navegação, sempre uma atração para grandes e pequenos, e até um hobbista que construía pequenas réplicas de navios antigos foi descoberto na cidade e apresentou talvez uma dúzia de trabalhos lindíssimos.
Falou-se com o comando naval. Um almirante simpático que se prontificou a colaborar, mandando ir de Portugal dois grandes quadros com amostras de cordas e nós feitos na velha Fábrica Nacional de Cordoaria, que no fim da festa eu quis guardar mas... o almirante também, e pendurou na sua sala. Talvez ainda lá estejam até hoje! Quem sabe?
Tinha que se fazer um logotipo, um emblema, para anunciar e dar a conhecer o que ia acontecer. Para isso procurei o arquiteto do banco, expliquei-lhe o projeto e que queria um emblema. Ele, sarcástico e gozador diz-me:
- Um peixinho à vela, hein?
Eu não achei muita graça à observação porque estava levando aquele trabalho muito a sério, e respondi-lhe no mesmo tom:
- Sim. E com um motor de popa no cu!
De repente, naquela instantânea troca de gracejos, eu vi o emblema, rabisquei-o num papel e
- É isso mesmo. Um peixinho à vela com um motor no cu. Fica completo. Boa! Olhe! Agora desenhe isso bonitinho que é a sua arte!


Saiu um emblema, cartaz, ótimo. Fez sucesso e as pessoas quando o viram exposto iam-se interessando pelo que estava para acontecer.
Inauguração, dia 15 de Agosto de 1970, feriado da cidade que em tempos mais antigos se chamou São Paulo da Assunção de Luanda.
Fiz questão de convidar o Governador Geral para inaugurar este 1º Salão Náutico de Angola, que procurou declinar o frete. Insisti e ele acabou por dar o seu acordo desde que não houvesse discurso, e que não se demorasse lá dentro mais do que uns dez minutos. Combinado. Tudo pronto, dia e hora certos, chega Sexa. Autoridades, sabendo que ia o Governador Geral, não faltou uma só! Pudera.
Eu, responsável por aquela festa, à entrada para o receber. Mal se abre a porta do carro, o Governador olhou para mim e fez-se sinal, em silêncio, de que não havia discurso. Confirmei. Cumprimentou-me, ou antes, eu o cumprimentei, claro, nada de inverter as hierarquias, mesmo coloniais, e a seguir aqueles muene-mputus todos vieram também saudar o chefe, que não sei se teria muito defeitos, porque só falei com ele duas ou três vezes, uma delas esta, e sempre se mostrou um homem simpático.
A seguir aos cumprimentos agarra no meu braço e disse:
- Vamos dar uma volta rápida.
Interessou-se por tudo quanto ali estava, e acabou por se demorar mais de hora e meia, o que foi para mim um prémio (deixemos as políticas de lado). Se ele se interessou, o público em geral deveria corresponder do mesmo modo. E assim foi.
O policiamento e a guarda de tudo quanto estava exposto, durante as horas em que ficava aberto ao público, ficou a cargo do grupo de Escoteiros Marítimos de Angola, garotos entre os oito e talvez catorze anos, todos muito bem fardados, simpáticos, eficientes. (Nota: havia escoteiros de todas as cores!)

Um dongo em Luanda. Início séc. XX
Foi feito um catálogo da exposição, com nome e anúncios dos expositores, história de algumas maquetes, da fábrica de cordas, etc., que era vendido aos visitantes pelo preço de custo. O dinheiro arrecadado revertia inteiramente para a obra dos escuteiros.
No dia seguinte os jornais noticiaram o acontecimento com termos elogiosos, mas um jornalista, de “A Província de Angola” no final na notícia colocou uma observação desagradável:

"Se o banco... é que organizou este evento porque receber dinheiro pelos catálogos? Devia também oferecê-los."

Telefonei para o chefe da redação e comentei o assunto.
- Escreva para o jornal a explicar que a verba se destina aos escuteiros, que nós publicamos.
Sem prática de polémica nos jornais, assim foi feito, e no outro dia lá vinha
Recebemos do banco... a carta que a seguir transcrevemos.
E no final a mesma observação do jornalista:

"Continuamos sem entender porque o banco não ofereceu os catálogos."

Liguei de novo para o jornal:
- Já não me lembrava que não adianta discutir com quem tem acesso diário ao jornal e pode dizer o que lhe apetece. As minhas armas são outras: enquanto eu estiver neste banco, e sou eu que destino as verbas de publicidade, nem mais um cêntimo irá para o vosso jornal. Passe bem.
Era o principal jornal de Angola. Mas até eu sair daquela terra, não lhe foi dada nem mais uma linha de publicidade
Cada um luta com as armas de que dispõe, além de que amor com amor se paga!

de "Loisas da Arca do Velho" de Francisco G. de Amorim, 2001, inédito !
 
 
25.fev.10

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Histórias (não tão) secretas
de Angola
.
.O  BOATO.


Angola. 1963.

Vivia-se intensamente a guerra colonial, e à imagem do que tinha acontecido por toda a África, só quem não queria é que não antevia o desfecho que veio a ter: a independência das colónias. Uns não queriam ver, outros não podiam, outros iam fingindo não pensar nisso, como a grande maioria, à espera que o tempo resolvesse as coisas a contento de todos. Impossível. O tempo não resolve nada. Quando muito ajuda a esquecer.
A guerra só se sentia nas cidades pelo movimento intenso de tropas e a chegada, constante, de feridos ou mortos dos dois lados da contenda. A guerra passava-se sobretudo entre militares, de ambos os lados, que se confrontavam nas matas, em emboscadas, em luta de guerrilha. As cidades viviam em paz, e a prova disso é que as famílias continuavam ali, com filhos a nascer, as escolas a funcionarem normalmente, e a cada vez chegarem mais imigrantes e investimentos.
Parecia um contrassenso, mas a realidade estava à vista. A sensação era de que a guerra seria uma coisa lá entre eles, na mata, tal como o que se passa com o povo brasileiro em relação aos políticos e às eleições: aquilo é negócio deles (se é!). Gente sabendo que guerra toda a que é sempre uma coisa estúpida, persistia em não abandonar uma ténue esperança de que pudesse um dia acabar e Angola alcançar uma independência multirracial. Um outro Brasil. Ilusão pura, idílica, idiota. Podia ter sido assim se cinquenta anos antes se tivesse pensado nisso e atuado. Os homens que desenvolveram o dom da fala para se entenderem, não queriam mais entender-se, e o mundo também já não queria esse entendimento. Era tarde.
Angola poucos anos antes do inicio da grande arrancada da guerra de libertação, no começo de 1961, arrancou também para um crescimento económico de forma incrível. Deve ter-se feito mais nos últimos vinte anos de domínio colonial do que nos vários séculos anteriores, e todo o tempo posterior! Havia já as bases, é verdade, mas parece que nunca terá havido interesse ou facilidades do governo metropolitano para o seu desenvolvimento. Dos responsáveis houve atitudes tão estúpidas como as de um então ministro das Colónias, a quem os colonos de Moçâmedes foram orgulhosamente mostrar as vinhas e oliveiras que ali davam esplêndidas uvas e azeitonas. Mandou arrancar tudo, proibiu a sua plantação e exploração para que não fizessem concorrência às da metrópole! Outra ordem absurda - ou também criminosa? - foi a de à última hora ter sido proibida a fabricação de fósforos em Luanda, com a fábrica pronta a entrar em funcionamento, edifício próprio construído para essa finalidade, maquinaria, tudo, porque Portugal ia perder aquele mercado!
Mais incrível ainda era apôr-se nas certidões dos brancos nascidos nas colónias um carimbo com Branco de 2ª, atitude esta que só acabou quando a um familiar de um ministro, o mesmo das vinhas e oliveiras, nasceu uma criança, não parecendo bem aos competentes responsáveis desse serviço - cartório - que se taxasse um parente do ministro como de 2ª! O homem podia não gostar, e assim acabou esse hábito infamante!
Portugal sempre pensou nas colônias unicamente como fornecedor de matérias primas!
Aliás o pensamento de Salazar, um pacóvio (ver dicionário) era dificultar a imigração para as colónias, porque podia perdê-las para os brancos como tinha acontecido com o Brasil. Preferiu perdê-las para os pretos! Quais? Aquela ínfima minoria que hoje rouba às escâncaras deixando o povo morrer de fome? Se tivesse visão podia tê-las ganho para todos!
Mas governante, só o chinês sabe definir: o que prevê o futuro. Os outros são gerentes, e nisso, que perdoem os eventuais saudosos salazaristas, este homem foi uma excelente dona Maria. Daquelas velhas governantas gordas ou magras, sérias, solteironas, dedicadas, buço como um sargento de cavalaria, que, na abstenção das Donas Sinhás administravam a casa senhorial com zelo, devoção e muita parcimônia, deixando o futuro a Deus. Assim foi a visão do tal Pacóvio de Santa Comba, grande professor acadêmico, um autêntico provinciano sem a menor visão do amanhã! Futuro é palavra que parece não entrar na mente dos governantes da terrinha! Até em relação ao Brasil, cuja independência só reconheceu oficialmente três anos depois do famoso Grito do Ipiranga!
Mas em Angola, depois de 1961 foi um frenesi económico. Investimentos contínuos em muitas áreas industriais, estradas, que em 1954 só tinham noventa quilometros asfaltados e em 1974 ultrapassava os três mil, prolongamento de vias férreas, exploração de petróleo, mineira, agrícola. Chegou a ser o segundo exportador mundial de café, exportava também milho para todas as outras colônias e metrópole, algodão, tabaco, sisal no tempo da guerra, celulose e papel, mariscos, peixe e farinha de peixe, de tão boa qualidade quanto a melhor do Peru, etc., etc. Sem falar no petróleo, diamantes, cobre, ferro, e até carne bovina. Quer isto dizer que era um país com autonomia económica folgada. Se todo este interesse tivesse começado no principio do século, Angola teria alcançado na mesma a sua independência, porque era inevitável, mas com muito mais estabilidade, e com paz.
Mas como poderia ter isso acontecido numa colônia, quando a metrópole nunca evoluiu e só teve visão nos primeiros séculos da sua existência?
A Cuca era a maior companhia de cervejas, e dominava largamente o mercado, não só civil, como nas forças armadas, que beneficiavam de um preço muito inferior ao do mercado, uma vez que não pagavam impostos. Cerca de metade do preço. E os soldados consumiam bem.
Aquartelados, a grande maioria pelo interior do país, ou guerreavam, ou patrulhavam, ou bebiam cerveja! Mais ainda num clima tropical, e sem outras distrações.
Nessa altura era eu o responsável comercial da companhia. Tinha que me deslocar por todo o país com regularidade. Apesar da situação instável, a maioria das estradas eram transitáveis sem preocupação de maior, e o carro o melhor meio de deslocação porque permitia chegar quase a todo o canto.
Com o hábito de viajar de noite, por encontrar as estradas sem trânsito, mais frescas - ar condicionado em carros nem ficção era! - e poder andar mais depressa porque os faróis sempre mostravam se vinha alguém em sentido contrário, regresso uma noite a Luanda, de uma dessas viagens, chegando a casa de madrugada.
No dia seguinte levantei-me mais tarde, e enquanto tomava banho foi lá a casa a parteira da companhia, ver se a mãe e sexta criança a nascer estavam passando bem. Estavam, com saúde e a graça de Deus!
Como a parteira, simpática e ótima profissional, não vivia sem meter o nariz na vida dos outros, estando com ela logo se tomava ciência de tudo o que se tinha passado e até o que se ia passar! Sabia tudo, e de todos!
Quando ela saiu perguntei por desfastio, à minha mulher:
- Que novidade trouxe ela hoje?
- Nada de especial. Disse que o Manuel Vinhas deu duzentos contos aos terroristas.
- Ah! Ótimo. Interessante. Duzentos contos também não é lá grande coisa!
Manuel Vinhas era administrador da Cuca, o homem com mais influência nos destinos da companhia. Baixinho, esperto, inteligente, e vaidoso. Gostava de aparecer, de ser notado e falado.
Como a notícia era absurda, ridícula, a conversa ficou por ali. Desta vez parecia que a fofoca era pura invenção de quem nada mais tinha a dizer.
Fui para a companhia, a meio da manhã, e comecei a preparar o relatório da viagem. Pouco depois entra na minha sala um colega, o Samuel, o que sabia de tudo dentro da empresa, com voz abaixada e ar de segredo:
- Já sabe o que se passa?
- Não sei nada. Acabo de chegar.
- O patrão Manel deu quatrocentos contos aos turras!
- Puxa. Há pouco eram só duzentos, segundo a Adriana.
- Olhe, que parece que é verdade.
Saiu com ar grave. Continuei achando um absurdo aquela conversa, e sem pensar mais nisso tentava coordenar idéias, enquanto frescas, para redigir o relatório.
Não tardou que entrasse outro colega, o Antonio Nuno, que me diz com um ar ainda mais grave, aliás o ar dele, mesmo que não seja para mais do que perguntar as horas, voz rouca e pausada, congénito ar patriarcal, costas meio curvadas, mirando desconfiado ao derredor como fazem os saloios quando querem negociar uma besta por preço especulativo:
- Sabes da última?
- A última não.
- O Manel Vinhas deu oitocentos contos ao MPLA.
MPLA era o Movimento Popular de Libertação de Angola, que depois da independência assumiu o governo de Angola. Até hoje.
- SENSACIONAL! Imagina que quando estava a tomar banho a Adriana foi lá a casa e disse que ele tinha dado duzentos contos. Mal tinha acabado de chegar aqui o Samuel veio contar, em segredo, claro, que eram quatrocentos. Agora tu já vens com oitocentos. Por este andar o homem vai à falência. A dobrar a parada com esta velocidade... é preciso uma estrutura financeira e tanto!
- Tu nunca levas nada a sério, e o assunto é grave. Um dia ainda te lixas.
- Olha lá, nós sabemos que o patrão é metido a intelectual e adoraria estar na política, por Angola, mas estúpido não é. Por alma de quem ele ia dar duzentos ou oitocentos contos aos turras?
- Sei lá, mas parece que é verdade.
- Estás louco, tu. Se ele se quisesse pôr ao lado do MPLA não ia dar uma esmola desse valor, mas com os conhecimentos que tem conseguiria arranjar muitissimo mais do que isso. De qualquer forma a conversa cheira mal. Essa coisa do parece que é verdade, a mim sempre cheirou mal. Olha, vou cumprimentar o Albano, e perguntar-lhe o que está acontecendo.
Albano era o diretor geral da companhia. Ótima pessoa, incapaz de resolver o que quer que fosse, há muitos anos em Angola, com conhecimentos que facilitavam não se sabe bem em que circunstâncias a vida da companhia junto aos órgãos oficiais. De qualquer modo eu teria que lhe fazer um relato sucinto da viagem, mas preferia ter começado por alinhavar as idéias, o que a insistência deste boato não permitiu.
Entro na sala do diretor.
- Bom dia.
- Bom dia. Fez boa viagem?
- Ótima. Mas antes de falarmos nisso, diga-me, por favor: quanto dinheiro o patrão Manel deu aos turras?
O homem deu um salto, quase cai da cadeira, ficou roxo, e mandou-me calar.
- Você é doido. A falar assim alto, e as janelas aqui todas abertas!
- Mas qual é o problema? O senhor acredita nisso?
- Não... sim... eu não. Nada! Deve ser mentira, com certeza. Mas nós é que não devemos falar nisso.
- Espere um pouco. Se corre por aí um boato desses, gravissimo, para o homem, e por reflexo para a companhia, como é que podemos ficar aqui quietos e calados? Alguma coisa temos que fazer. E na minha opinião, se quer ouvi-la, a primeira coisa é falar com o patrão para que ele se explique. Eu não acredito, nem um pouco, nisso tudo, mas não posso é ficar de braços cruzados.
- Mas eu também não posso falar numa coisa dessas pelo telefone.
- Então meta-se num avião e vá a Lisboa, mas faça alguma coisa.
Como de costume, nada fez. O boato, como todo o boato, sobretudo numa terra pequena e quando se refere a alguém conhecido e de destaque, cresce rápido, e como é fácil bater em quem está caído, muitos aproveitaram para malhar no homem, cada um inventando as patranhas mais absurdas sobre ele e a companhia. A Cuca.
Os carregamentos de cerveja para os soldados aquartelados bem no meio da mata, de difícil acesso, quando chegavam ao destino, faziam a festa. A rapaziada não esperava. Bebia até a cerveja quente. O risco do transporte, quer de tropas como de mantimentos era grande. Estradas desertas, no meio de matas cerradas, as emboscadas eram frequentes. O transporte tinha que se organizar em comboios, escoltados, e assim os aquartelamentos lá dentro das matas chegavam a estar semanas sem nada mais para beber do que água dos rios. E o acesso aos rios era muitas vezes também um risco tremendo.
Um dia chega-nos a notícia de que um carregamento com a nossa cerveja tinha sido devolvido intacto pelos soldados de um desses aquartelamentos perdidos no meio da mata.
- Não querem mais Cuca. Dizem que beber Cuca é dar dinheiro aos turras!
Agora só queriam a da concorrência, que até àquela altura não representava nem vinte cinco por cento do mercado militar!
Onde já ia o boato! O caso estava a ficar demasiado sério.
Aluguei um pequeno avião monomotor e fui direto ao interior, visitar um regimento espalhado por uma zona quente de guerra. Conhecia bem o comandante, e queria ouvir dele como o boato estava a correr, sua possível origem e os efeitos que produzia.
Ouvi. De entrada uma porção de piadas indiretas de alguns capitãesinhos metidos a espertos. Depois de falar com o comandante que me disse que as notícias, como tudo o mais, vinham de Luanda, até do Quartel General, perdi um pouco a calma, e adverti aquela gente:
- Se alguém aqui tem a certeza do que diz, que o prove. Vocês que são oficiais do exército sabem que a melhor arma do inimigo é o boato. Qualquer que ele seja. Todo o boato tem por finalidade desmoralizar, desestabilizar. Agora, atenção, se falam só porque alguém disse, ou ouviu dizer a não sei quem, ou à vizinha, ou parece que, isso é uma covardia incrível. E até hoje não me consta que o nosso exército tenha alguma vez sido composto de covardes.
Fez-se algum silêncio, uns quantos engoliram em seco, e entretanto naquele regimento o assunto ficou pelo menos tranquilo. Mas em Angola estavam cinquenta mil militares, e pelo exemplo que acabara de ver tudo devia estar minado. A concorrência a rir, claro, e quem sabe se a ajudar! Não constou nem que sim nem que não!
Regressei a Luanda e no dia seguinte logo cedo fui ao QG onde tinha amigos com quem podia falar à vontade.
Nada havia de oficializado, como era de esperar, mas o boato corria à boca cheia. E boato é mal que não se extirpa com facilidade. O que é fato, é que as pessoas têm dificuldade em acreditar nas verdades, mas no boato, por mais inverosímil, mais disparatado, todo o mundo acredita, e espalha.
Num golpe de teatro, que eu sabia não levar a lugar algum, pedi para falar ao general comandante a quem manifestei o meu espanto por permitir que no seu Quartel General um boato estúpido e maldoso, grassasse.
- Tem razão. - e morreu o assunto.
Era um homem já velho, de idade e espírito, que poucos meses depois passou à reforma. Nunca devia ter sido mandado para Angola um homem que todos sabiam que seis meses depois atingia o limite de idade! Mas foi, e como é de supor, nada fez. Ou antes, na minha presença, eu vi, assinou uma requisição de quatro vassouras! Ah! Grande general!
Continuei a minha batalha, o tempo a passar e ninguém tomava qualquer atitude, nem em Portugal, onde, covardemente, o governo e a polícia deixavam o assunto correr.
Talvez um mês depois do começo disto o Manuel Vinhas ao passar pela polícia de controle de fronteiras no aeroporto de Lisboa, a famigerada PIDE, com destino a Copenhagen, para a convenção anual dos cervejeiros, vê-lhe interditada a saída do país.
- Porquê?
- Isso eu não sei, respondeu secamente o polícia. Não pode sair do país.
Estupefacto, homem importante, ficou vexado. Não lhe deram qualquer explicação, e isso só acontecia a quem tinha algum delito grave. Covardia de polícia política. Soube depois, através de amigos influentes no governo, que estava com residência fixa e não podia ausentar-se de Portugal, nem para ir a Angola, que supostamente era também parte de Portugal. Com que acusação? Nenhuma. Prepotência de governo ditatorial!
A coisa estava preta para ele. E até alguns amigos, os da onça, começaram a abandoná-lo. Outros mais espertos faziam piada do assunto e ajudavam a espalhar a dúvida, o boato!
Com o evoluir da economia, não ficava bem as empresas continuarem a manter a sua administração em Portugal, e somente um diretor em Angola. Foi então nomeado administrador residente da Cuca, um homem que tinha saído do governo local, simpático, tranquilo, mas cuja função pouco mais era do que relações publicas. Figura decorativa. As instruções continuavam imanando todas de Portugal, e como a cerveja dava bastante dinheiro, não valia a pena mexer nas estruturas.
Tive com este administrador um longa conversa sobre a crise que nos estava a atingir, a queda nas vendas, a boataria a crescer e contra a qual os meios de luta são difíceis quando não impossíveis, e que de Lisboa não vinha uma única palavra de orientação.
- O senhor faça um relatório sobre isso. Confidencial, claro. Eu tenho que escrever hoje para lá e vou já avisando que em breve segue um relatório seu.
Comecei a preparar esse difícil relatório. Se não era fácil falar sobre o assunto, pô-lo num relatório era bico de obra. Esquematizei o que deveria ser exposto, e deixei ficar uns dias na gaveta à espera que me viesse inspiração para escrever tudo sem ferir alguém.
Dias depois recebo um telefonema de Lisboa, de um outro administrador, o Jorge Matos Chaves, grande amigo:
- Você está sozinho?
- Não. Estou com mais dois aqui na sala.
- Então ligue para mim, de sua casa, à hora do almoço, mas não fale com ninguém sobre isto.
Mistério! Fiquei preocupado. Naquela manhã não via as horas passarem. Saí mais cedo do que o habitual para ir telefonar. Ligo para Lisboa.
- Não mande o relatório.
- O relatório? Qual relatório? - eu já nem me lembrava do que estava a ser preparado.
- O que o administrador daí disse que você ia mandar.
- Porquê?
- Você sabe que eu sou seu amigo. Confie em mim, e não fale mais nisso. Um abraço.
Fiquei ainda mais encucado. Não mandar o relatório, porquê? Que mal haveria? Porquê não me dizem nada, vendo as vendas caírem vertiginosamente?
Tudo isso me intrigava, mas conhecendo e confiando bem no administrador e amigo que me telefonara, de volta à companhia rasguei o rascunho, e procurei esquecer o assunto, o que era impossível, porque todos os dias algo tinha que enfrentar de desagradável na área comercial, sempre com base na evolução do mesmo problema.
Os meses corriam, as vendas depois de uma queda muito grande estabilizaram por baixo!
A Marinha e a Força Aérea tinham pouca gente em Angola, e não levaram o boato tão a sério. Nestes dois ramos a luta foi menos dura, e a recuperação mais rápida, mas nunca total. No exército, que teria talvez noventa por cento dos efetivos, as consequências foram muito mais graves e estavam difíceis de reverter. Para estes a cerveja era comprada pela Manutenção Militar -MM- com quem sempre procurámos manter as melhores relações. Tínhamos até um promotor de vendas exclusivo, o Luis Monteiro, que bem arrancava os cabelos para tentar reverter a situação, sem qualquer resultado. A gravidade do caso levava a atacar o assunto diretamente, e um dia recebo um telefonema de um dos chefes de departamento da MM, um capitão, conhecido e amigo dos tempos de rapaz. Estavam em Luanda todos os seus colegas para reunião com o diretor, e vinham convidar-se para uma visita à fábrica, onde aliás quase todos tinham já estado individualmente .
Achei a idéia magnifica, mas estranhei que uma condição tivesse sido colocada: só eu devia recebê-los! Nem promotores de vendas, nem diretores. Só eu!
Finda a visita às instalações, era de praxe provar a cerveja, aliás beber uns copos dela, acompanhados de muita variedade de aperitivos, num bar próprio para receber visitas, muito confortável, e onde normalmente se bebia muito. Ora não, a cerveja era ótima e barata!
O major diretor, oito capitães, e eu. Ninguém mais para podermos estar à vontade. Até o barman foi dispensado.
Conversámos, bebemos, bastante, e pelas nove da noite terminou a festa. Foram saindo de barriga cheia de finos e bons petiscos, cabeça um tanto alta.
O meu amigo foi-se deixando ficar para trás e pediu-me que o levasse a casa porque estava sem carro. Pretexto. Quando todos os outros tinham ido embora:
- Nós somos amigos há muitos anos, e todos os meus camaradas sabem disso. Por essa razão me escolheram para ser o porta voz da seguinte mensagem, que é de todos os chefes da MM. Eu também incluído, quer queira ou não, e não posso ser ovelha ranhosa. Tu já me conheces e vais compreender.
- Desembucha.
- Com esta brincadeira do boato, as vossas vendas para a MM caíram de setenta e cinco para vinte e cinco por cento! É incrível mas é verdade. E não baixa mais ainda porque todos nós temos feito força para isso. Como não podemos lutar contra a vontade das companhias e regimentos que requisitam a cerveja, e com a argumentação, meio furada, de não queremos perder tempo com promotores de vendas, o máximo que podemos fazer é dar uma ordem lá dentro para se passar a comprar cinquenta por cento de cada fábrica.
- Mas como é que assim eu posso vir a recuperar um dia os meus setenta e cinco?
- Não podes, nem creio que isso venha a acontecer tão depressa, da maneira como as coisas estão.
- Bonito serviço! Paciência. Se não tem outro remédio...
- Se aceitas a proposta, o que te vou dizer só pode ficar entre nós os dois. Ninguém mais pode tomar conhecimento.
- Prossegue.
- O major quer quatrocentos contos, postos em Portugal. Metade logo que os possas arranjar e a outra metade dois ou três meses depois. Ele se encarrega de dividir o dinheiro entre todos. Espero que não me leves a mal, mas eu por muito que quisesse, não posso ficar de fora!
Fiquei perplexo! Nunca esperava ouvir tal coisa.
- Mas eu não tenho como conseguir esse dinheiro sem que ele saia da administração. Eu não sou o dono disto. Infelizmente.
- Problema teu. Mas não esqueças, é super confidencial. Quando tiveres notícias telefona para minha casa.
Fomos embora. Eu com a batata quente na mão! Como sair desta?
A primeira coisa que fiz na manhã seguinte foi falar com o diretor geral adjunto. Era um indivíduo mais válido, a quem pus o problema. Passei-lhe a batata quente para as mãos. O problema não era mais meu!
Ele não podia falar com Lisboa pelo telefone, porque se a conversa fosse ouvida seria o fim da picada, e era bem possível que os telefones tivessem escuta! A solução foi escrever ali mesmo, à mão, para os patrões de Lisboa, a proposta que tínhamos recebido e ir ao Aeroporto na esperança de encontrar alguém conhecido que levasse pessoalmente a carta, o que não foi difícil.
Dois dias depois chegou a resposta, quase em cifra.
- De acordo. Como proceder?
- O chefe da banda segue para Lisboa de férias, no avião do dia tal, e vai hospedar-se no hotel X só no dia da chegada, porque depois vai para a terra dele lá no norte.
A administração confirma, e dá-me instruções para seguir no mesmo vôo. Assim que chegasse, fosse à sede da companhia receber o dinheiro e depois levá-lo ao tal hotel.
Assim se fez. Recebi um envelope, gordo, que não abri, corri ao hotel, passei-o às mãos do major, e... boa tarde.
A segunda parcela foi muito mais fácil e descarada! Chegada a altura, ele mesmo voltou a Lisboa e se entendeu com um dos administradores! Corrupção habitua! Até se torna rotineira.
Eu quase me senti um agente secreto. Tomaram conhecimento desta negociação, dentro da empresa, só o tal diretor geral adjunto e eu, além dos patrões que soltaram a grana. Durante muitos anos, e até ao fim de Angola colônia, nunca alguém soube porquê o exército nunca mais quis saber de promotores de vendas de qualquer marca de cerveja. Cinquenta-cinquenta, e estava o assunto resolvido.
A companhia pagou e eles cumpriram!
Nessa ida a Lisboa para entrega da primeira parcela de dinheiro, a minha demora naquela cidade foi somente de um dia e meio. As primeiras horas foram dedicadas às finanças que assim entregues me liberaram. Voltei à companhia onde fiquei sabendo que o caso do patrão era complicado porque ninguém assumia, nem o acusavam de coisa alguma. Nada. O próprio acusado não fazia idéia do que lhe estava acontecendo! Continuava com residência fixa. Era uma situação enxovalhante. Nem o sogro, pessoa de muita influência junto ao governo salazarista conseguia romper aquele mutismo covarde.
Meu sogro, juiz de direito em Lisboa, a quem expus a situação, sabia que isso só podia ser da alçada do Ministério do Interior, e naquela altura, por coincidência, o chefe do gabinete do ministro era um antigo delegado seu junto a uma das comarcas por onde passou.
- Vamos falar com ele.
Recebeu-nos muito bem, com a maior simpatia e consideração para quem tinha sido o juiz da comarca onde começara a sua carreira e, depois de exposto o assunto Manuel Vinhas, disse que já tinha ouvido falar nisso lá no ministério, e até lhe parecia não haver nada de concreto. Mas ia informar-se.
- Vou falar com o ministro e a seguir ao almoço lhe dou notícias.
À hora prevista telefona ao meu sogro e diz-lhe que o ministro, considerando que não havia qualquer acusação nem provas, tinha mandado arquivar o processo. Que eu fosse lá ainda nessa tarde que me entregaria uma carta dirigida ao interessado com esse despacho! E assim foi.
A carta, assinada pelo ministro dizia simplesmente que o processo que sobre V. corria neste ministério, foi arquivado. Tchau e bençãos!
Finalmente o assunto estava oficialmente enterrado. Podia até sair do país.
Por um mero acaso, acabou sendo por meu intermédio que, passando em Lisboa pouco mais de trinta e seis horas, se conseguira resolver o problema! Incrível.
No entanto para mim o assunto não estava resolvido. O que de fato se tinha passado? Porquê uma acusação que não tinha acusação? Donde tinha surgido toda esta trama?
A PIDE conseguia obter provas de tudo, mesmo quando não existissem! Constava até que os egiptólogos quando se viam em dificuldade para decifrar alguma descoberta arqueológica, sobretudo múmias, recorriam à PIDE que num instante as obrigavam a confessar-se! Técnicas de persuasão.
Alguma coisa de estranho ficara no ar, por decifrar. Decidi continuar a pesquisar.
Pouco a pouco, uma informação daqui, outra dali, o puzzle começou a mostrar os seus contornos.
Quando da sua última estadia em Angola, o Manuel Vinhas regressara a Portugal, via aérea, como é de supor, mas em vez de ir num vôo direto, Luanda-Lisboa, foi via Genève na Suíça, onde sua mulher tinha ido tratar dos dentes! Rico é assim, trata os dentes na Suíça. Nós, os outros, às vezes temos mesmo que usar o alicate porque o custo dos dentistas é fogo! Mas tudo bem, problema dele.
Os vôos para Genève, saíam de Leopoldville, hoje Kinshasa, no Zaire, na altura ainda Congo ex-Belga, e entre a chegada do vôo de Luanda àquela cidade até à saída do avião da Suissair, havia uma espera de quase oito horas. O que fazer todo esse tempo?
Na Cuca tinha trabalhado alguns anos antes uma mulata, bonitona, talvez mesmo mais do que bonitona. Segundo constava pela língua dos invejosos, o Manuel Vinhas tinha devidamente apreciado, com mais intimidade do que os que só olhavam e falavam, aquela estátua de apetecíveis carnes vivas. E se não havia esquecido, é porque as tais carnes deviam ser muito saborosas.
Verdade? Mentira? Indiferente para mim, porque não é coisa que me preocupe.
Entretanto essa mulher teria casado com um sueco, que trabalhava para a ONU em missão no Zaire, e viveriam nessa altura em Leopoldville. Ela daria a sua colaboração na sede do MPLA, o que era natural.
O Manuel Vinhas, sempre metido, gostando de aparecer e estar bem informado, de meter o nariz onde não era conveniente nem chamado, mandou que procurassem a boazuda, para a informarem da sua passagem por aquela cidade, que gostava de a rever, de conversar com ela, etc.
Para a localizarem movimentou-se pessoal de dentro e fora da companhia que tivesse quaisquer ligações com o Zaire, tentaram-se vários telefonemas, mas as comunicações telefônicas nesse tempo não eram fáceis.
Nas vésperas da sua saída de Luanda, convencido ainda que ia encontrar a garota, esteve, durante uma recepção no consulado americano, com um jornalista conhecido e muito chegado ao governo. No meio da conversa disse-lhe o que fazia tenções de fazer durante as oito horas de espera de passagem no país vizinho, com quem Angola não mantinha relações diplomáticas, por causa da guerra colonial.
- Você que é jornalista, e tem fácil acesso ao governador - ao tempo o coronel Silvino Silvério Marques, um homem reto, sisudo e duro - pergunte-lhe se ele quer que eu tente saber alguma coisa do MPLA. Conheço lá uma garota.... e contou a historia.
O jornalista, malandro, querendo marcar mais pontos junto ao governo, que sempre alimenta quem lhe puxa o saco, foi falar com o governador e contou quase a mesma coisa, mas covardemente só quase:
- Governador! O Dr. Manuel Vinhas vai amanhã a Leopoldville falar com o MPLA! E mandou perguntar se o senhor quer que ele trate de algum problema com eles!
A meia verdade! Menos de meia. A virgula fora do lugar! Uma ou outra palavrinha a menos! Não era exatamente assim! Dito deste modo era delatar e condenar um traidor.
O governador ficou bravo com a pretensa intromissão de um civil em assuntos graves, mais ainda em se tratando da sede de um movimento que combatia a presença portuguesa, e avisou imediatamente para Lisboa o que tinha ouvido, entregando o caso à tal PIDE, aquela polícia simpática.
O boato, saído da boca de um jornalista, espalhou-se como água em dia de temporal! Fácil.
Já em Lisboa, depois de ter passado pela Suíça, Manuel Vinhas foi chamado à PIDE.
- O que o senhor foi fazer a Leopoldville?
- Nada. Conexão do vôo para a Suíça, onde estava a minha mulher.
- Com quem o senhor se encontrou naquela cidade?
- Ninguém. Nem saí do aeroporto.
Era a verdade. Por mais esforços que se tivessem desenvolvido em Luanda para localizar a tal mulher bonita, tudo foi em vão. Ninguém soube mais do seu paradeiro. O viajante esteve mesmo as tais oito horas previstas, sentadão num desconfortável banco do desconfortável aeroporto em Leopodville até embarcar na Swissair!
A PIDE bem deve ter procurado provas. Mas encontrá-las, onde? A estadia tinha sido só aquilo.
O boato voou muito mais longe, pelos quatro cantos, com uma velocidade incrível, e teve consequências funestas. Tudo resultado de uma vaidadezinha idiota e da covardia da grande maioria dos homens.
Tudo o que fiz foi procurar a verdade. Julgo tê-la encontrado. Como agradecimento pelo que lutei, sozinho, porque todos os outros sempre tiveram receio que alguma coisa se tivesse passado, e também por ter conseguido o arquivamento do tal processo, tudo quanto recebi foram... dois coices!
Parece que o anúncio daquele relatório, que não cheguei a fazer, terá ferido a vaidade do patrão! Ele não gostou e depois de ter a sua liberdade recuperada, para me agradecer, "marrou" comigo.
E fui-me embora da Cuca!

De "Contos Peregrinos a Preto e Branco", 1998, por Francisco G. de Amorim

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

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Máscaras, músicos e mussalo

Máscaras, várias. A máscara é uma escultura tradicional de África cuja feitura se perde nos tempos e terá começado como peça destinada a ritos religiosos. Há máscaras maravilhosas e valiosissimas nos principais museus do mundo, e constitui uma tradição muito arreigada aos costumes africanos.
Com interêsse histórico, só uma, em pedra sabão. Foi-me oferecida no Gabão.
Do Gabão. Pedra sabão rosa.
Depois da revolução em Portugal, logo que se anunciou que uma das primeiras atitudes do novo governo seria dar a independência às colónias, grande revolução aconteceu por toda a África. Primeiro no meu trabalho. No Banco, a meu cargo estavam as Relações Públicas, o que, face à nova perspectiva de todo o mundo dar o fora, e inevitável paralisação da economia, não tinha mais razão de existir. Relações do quê e com quem?
Por outro lado começaram a aparecer em Angola delegações de africanos, empresários, bancários e homens ligados a diversos setores governamentais para verem como eram os territórios que os portugueses tinham tão intransigentemente mantido sob sua posse.
Menos de vinte anos antes ainda alguns dirigentes africanos de países já independentes, acreditavam que estar sob o domínio dos portugueses era uma opção perfeitamente aceitável, até boa, segundo foi dito ao grande político Amilcar Cabral, que o deixou escrito! Parece impossível, mas é verdade! Entretanto a propaganda anti portuguesa era maciça por todo o mundo, com todos os exageros que os erros cometidos permitiam.
Alguns vizinhos, do Senegal, Gabão, Nigéria e outros chegavam a Angola e encontravam uma realidade que nada tinha a ver com as notícias que corriam nos seus países. Foram constatar que Luanda era, de longe, a cidade mais importante, mais desenvolvida e de melhor convívio racial de toda a África Negra! Tirando Benguela, é claro! A mim, portanto sem o ouvi dizer, foi-me dito por um diretor de banco da Costa do Marfim, durante um jantar num restaurante de Luanda, o Clube Naval:
- Foi pena que nós não tivéssemos sido colonizados pelos portugueses! Teria sido muito melhor. E eu que pensava que Abidjan era a melhor cidade da África negra!
Fez-se muita asneira, cometeram-se crimes, considerados quase normais para a época, hediondos aos olhos de hoje, lá isso é verdade. Mas ouvir isto de um africano, faz bem ao ego lusitano!
A verdade é que no banco eu não sabia o que fazer, o que era desagradável. Mandei um dos colaboradores ao Zaire ver a possibilidade de estabelecer relações comerciais mais íntimas, mas depois de ter sido recebido pelo diretor geral do banco nosso correspondente, via França, claro, que se deslocava num belo Mercedes último modelo, encasacado e engravatado a preceito, com sandaletes de plástico azul translúcido nos pés... não se anteviu qualquer hipótese de entendimento profissional!
Lembrei-me então de ir ao Gabão. Porquê ao Gabão? Porque estava em Luanda, vivendo como um grand seigneur um gabonês que se dizia amigo pessoal do Presidente do Gabão, Cristian Bernard Bongo, que encontrei diversas vezes em reuniões sociais! Bem falante, sabendo insinuar-se, foi fácil termos prolongadas conversas, acabando por me animar a visitar o seu país. Não precisava de visto. Nem reservar hotel. Havia dois bons hotéis e sempre quartos vagos.
Pedi, ao principais clientes industriais do banco, amostras de seus produtos, tabelas, catálogos, etc. e lá vou eu, uma pequena mala de roupa e uma enorme mala cheia de bagulho: amostras de escovas, tapeçarias, material elétrico para construção civil, catálogos de equipamento industrial diverso, metalo-mecânica, tintas e vernizes, pneus, roupa, sapatos, sandálias, perfumaria de preço popular, alimentos enlatados, cerveja, rações, café solúvel, enfim um monte de tranqueira. Comigo foi um colega, o Correia Martins, diretor de obras do banco, para ver que perspectivas haveria para a sua profissão de engenheiro civil naquele país.
Vôo Luanda - Libreville, uma vez por semana. Aos domingos. Depois de fazer escala em Brazzaville, desembarcamos no Gabão. Além de nós, somente uma dúzia de passageiros africanos embarcados na única escala, que logo passaram a polícia, e por fim os dois turistas, brancos, sem visto nos passaportes! Deu logo confusão! Um jovem tenente, solícito e muito educado, quando lhe disse que um amigo pessoal do Presidente nos garantira que não necessitávamos de visto, pensou um momento e telefonou para um chefe que o instruiu para que nos desse um visto provisório por três dias, mas que nos apresentássemos no dia seguinte no departamento de... já nem sei o quê.
De táxi a caminho do centro da cidade paramos no primeiro e melhor hotel, pertencente a uma das muitas conhecidas cadeias internacionais de hotelaria. Cheio. Completamente cheio. Havia uma convenção qualquer de países africanos e os hotéis estavam todos cheios! Quartos, nem unzinho, sequer!
Os dois bobocas, carregando duas maletas e uma mala enorme, sem lugar onde ficar!
Conhecimentos no país: um jovem, autêntico gentleman, diretor jurídico de um banco gabonês, que tínhamos recebido em Luanda, a quem logo telefonei pedindo socorro. Simpático e prestável conseguiu através de seus conhecimentos um quarto numa clínica onde um tio seu era médico, e creio até que dono! Ficámos então hospedados numa clínica, onde nos foram dadas rigorosas diretrizes, de não entrar depois das dez das noite, o que nunca cumprimos!
Chegávamos todos os dias depois dessa hora, ouvíamos um monte de repreensões das zelosas enfermeiras de serviço e por fim, mesmo fazendo-nos um grande favor, pagámos mais caro do que se tivéssemos ficado num hotel de cinco estrelas!
O meu colega do banco gabonês, Cristian também, marcou uma série de entrevistas com uns quantos comerciantes a quem fui apresentar o mostruário dos produtos angolanos. Eles simplesmente não acreditaram que em Angola se produzisse mais do que café, diamantes e petróleo, que a propaganda internacional não podia esconder! Teimavam que eram produtos importados que queríamos revender. Um território colónia a produzir alguma coisa? Impossível. Quando por fim os convencia que eu não estaria ali para bancar o vigarista, ficavam espantadissimos. Quase virei herói à conta do que em Angola se produzia, e a notícia de que andavam por ali dois brancos de Angola, a mostrar coisas incríveis, correu a pequena cidade e chegou ao conhecimento da rádio local.
Mandada também pelo Cristian, aparece-me uma tia, solteira ou desquitada, já nem sei, feioca, em bem mais de meio uso, jornalista da Rádio Libreville, para me entrevistar! Achou uma maravilha Angola produzir tudo aquilo, até porque no Gabão não se produzia rigorosamente nada! Tudo ali era importado de França, que muito mais inteligentes do que os descobridores portugueses, haviam descoberto a maneira de ficar quase eternamente a sugar as antigas colónias. Ainda hoje o neo-colonialismo é a maior desgraça de África.
Imaginem! A tia, entusiasmada com o grande furo jornalístico africano, levou-me à emissora onde me fez uma longa entrevista, a que não faltaram aquela perguntas fáceis para quem não é político, sobre o que se ia passar agora, isto é, a seguir à declaração de Portugal que dizia ter como prioridade dar quase imediatamente a independência às quase ex-colónias. Devo ter respondido algo como Sim, não, claro, é lógico e evidente, etc. tanto mais que naquela altura ninguém podia ter idéia do desenrolar dos acontecimentos. Nem o governo português sabia e tinha perdido o controle de qualquer negociação inteligente. Esta conversa durou talvez uma hora. Além do interesse que Angola despertava em todos os países sobretudo de África... deviam ter poucos programas!
O Correia Martins sempre comigo, porque como não falava francês, nem quando eu estava ocupado me largava!
Depois da entrevista a tia levou-nos a sua casa, apartamento simples mas bem cuidado, bebemos um copo, e a seguir convidámo-la para jantar. Não sei se foi de algum copo a mais, acho que ela viu em qualquer um de nós uma conquista garantida e, empolgada como estava, foi dizendo que um podia ficar na casa dela... mais à vontade do que na clínica... sem necessidade de horário de entrada... e free of charge! Apesar do convite ser tentador, delicadamente declinámos com a argumentação de não nos podermos separar porque o Correia Martins sozinho corria o risco de se perder!
Ela deve ter argumentado que não o deixaria jamais perdido, muito pelo contrário, mas assim mesmo nenhum de nós se abalançou a deixar-se envolver nos braços daquele simpático, ostensivo, conciso, preciso, mas um tanto velho convite! Não era bem um convite, era muito mais uma grande cantada!
No dia seguinte procurou-nos de novo. Desta vez para nos convidar para almoçarmos, sábado, dia seguinte, na casa de praia de um primo seu. Não nos preocupássemos com o transporte porque íamos no carro dela, e levaria mais uma amiga! Assim ambos teríamos companhia! Vejam só que programaço se estava a preparar!
Uma dúzia de quilómetros a norte da cidade lá estava a tal casa de fim de semana, tosca, agradável, debaixo de frondosas árvores que a defendiam do sol equatorial, junto à praia, um lugar bonito, e sossegado.
O primo era o diretor do Departamento de Estatística do Ministério da Agricultura. Para um país que na altura não tinha nem meio milhão de habitantes, pouco mais fazia do que exportar madeira, aliás de primeira qualidade, porque a maioria do seu território se situa em região de floresta equatorial, um cargo desta importância não tinha muita lógica, mas... mas era um sujeito simpático. Grandão, bonacheirão, boa praça.
Durante o descontraído almoço, bem servido e razoavelmente bebido, atrevi-me a perguntar-lhe o que poderia fazer o diretor de um departamento de estatística agrícola quando até as bananas vinham do país vizinho, Camarões, a sua única resposta foi sorrir para mim, e dizer-me:
- Tem razão!
Para rematar o banquete o anfitrião ofereceu-nos algo que supunha nos faria grande surpresa, e com isso poderia botar figura. A nós, os que vínhamos lá de Angola, terra de colonos, uma espécie de matumbos brancos, apresentou-nos uns pedaços de favo de abelha com mel, acabados de colher.
- Sabem o que isso é?
Sabíamos. E mais. Sabíamos como tratar o mel, retirá-lo do favo, derreter a cera, embalar o mel, comercializar este e a cera, etc. O mel, daquelas florestas, floresta equatorial ainda relativamente bem conservada, que ia até ao mar, era uma delícia. Sugerimos-lhe que o embalasse e comercializasse, que daquela qualidade, puríssimo, teria sucesso garantido. Podia até exportar para França. O homem ficou encantado com os nossos profundos conhecimentos. Prometi-lhe que após regressar a Luanda lhe mandaria, pelo correio, alguns livros sobre apicultura, o que não deixei de fazer.
Agradecido, ofereceu-me aquela pequena máscara feita de pedra sabão rosa.
Almoço e papo chegados ao fim, o anfitrião foi dormir a sesta mais a esposa. A tia e a amiga - acho que deviam estar todos mancomunados - logo nos convidaram para ir até à praia. Fomos. A praia era linda, as raízes da floresta banhando-se no Atlântico, areia limpissima, um mar com diversas tonalidades de azul, um lugar para fotografar e propagandear ao turismo mundial, para a seguir os turistas destruírem!

A orla da floresta sombreava parte da praia. As duas mininas, afastando-se discretamente uns convenientes passos uma da outra, logo se reclinaram dengosamente sob aquelas acolhedoras sombras convidando-nos a acompanhá-las, quem sabe se com a finalidade técnica de testarem a qualidade da circuncisão angolano-portuguesa! E algo mais.
Não sei já que medíocre argumentação tive que desenvolver em nome dos dois para declinar tão óbvios e calorosos convites. As mininas ficaram bravas, desenganadas, desprezadas, traídas! À alegria esfuziante e prometedora (de quê?) seguiu-se um frio distante e mudo. No caminho de regresso à cidade nem mais uma palavra trocámos, nem as voltámos a ver!
Se não fosse a máscara de pedra sabão, talvez já tivesse esquecido esta viagem, e até, quem sabe, os assédios que afoitamente a tia e sua amiga, esta aparentemente menos ávida, mas quiçá mais curiosa, nos fizeram! Se mostrámos que não éramos tão matumbos ao falar de abelhas e mel, a fama de português que não perde oportunidade de acariciar uma pele mais escura e macia, ali se desvaneceu! Se a tia não estivesse já tão pouco macia... quem sabe?!
De qualquer modo devo reconhecer que os créditos dos portugueses como colonizadores multirraciais devem ter ficado seriamente comprometidos. Lamento.
Angola. Máscara decorativa, cerca de 1 m. da altura

Uma outra estatueta em pedra sabão cinza, uma mulher ajoelhada com o filho nas costas, comprei na ex Rodésia do Sul, que depois era só Rodésia quando a do norte virou Zambia, e hoje Zimbabwe. Na estrada, a um artesão, quando fui visitar o monumento que deu nome ao país: o Grande Zimbabwe.
Do Zimbabwe. Pedra sabão

Muitos historiadores, arqueólogos e outros cientistas têm-se debruçado sobre este monumento e, tudo lido, não se chega a qualquer conclusão segura. A sensação que tive quando ali cheguei, além de admirar aquela estranha e bela construção é que seria um entreposto comercial, onde, em segurança se juntavam escravos e ouro que depois eram levados para negociar lá para as costas de Zanzibar. Posso estar muito enganado, mas até hoje não li nada que desminta esta hipótese.
É todavia algo de grandioso e impressionante, lá isso é. Pode-se ficar ali sentado horas sem fim refletindo sobre...
Outra maravilha que este país divide com a Zambia no rio Zambeze, são as quedas Vitória, ainda hoje assim chamadas, apesar deste nome ter sido uma homenagem à velha e macha rainha inglesa. É um espetáculo impressionante. Um dos poucos, pouquissimos, diplomas, dos muitos que me foram passados durante a vida, que guardo como recordação, é o da rápida visita que ali fiz em 1972.
Os nativos da região chamavam às quedas "O fumo que ressoa!"
Visto de avião é que se compreende bem a razão deste nome. A terra um belo dia abriu, rasgou-se, criando um vale profundo de curvas sinuosas e apertadas. As águas do rio que correm tranquilas no planalto, de repente despencam nesse vale, e por ali seguem o seu caminho. Desde longe vê-se uma nuvem de umidade que se eleva no ar como fumaça de fogueira, e ouve-se um ressoar contínuo como o respirar de um imenso e roufenho leão. O fumo que ressoa.


Bonito. Voltaria lá, se pudesse.

Ainda das pequenas recordações que guardam pela vida fora e não deixam esquecer o que vivemos quando as adquirimos, na Suazilândia. São três bonequinhos, pequenos, feitos de sementes de árvores e um pouco de pele de cabrito do mato. Os músicos. Eram mais, mas uns... ficaram-se pelo caminho ou talvez se tenham incorporado a alguma banda célebre!
Os "musicos" Suazi
 
Por fim, região de Malange, Baixa de Cassange. Como se pode ver pelo que guardo de artesanato é fácil imaginar que gosto muito. Mas do que é usado pelo povo, e raramente do “para turistas”.
As mulheres desta região, que vai até aos Luenas, fazem, tudo com produtos da terra, vegetais, um tipo de peneira, extra fina, que é uma verdadeira obra de arte, a que chamam Mussalo.

Uma obra de arte, em prfeição. "Mussalo"

Para peneirar fazem o mussalo rolar entre as mãos e a farinha que dali sai é de uma finura incrível.
Durante muitos anos umas quantas serviram de abatjours nos quartos das crianças. Deixavam passar uma luz bem suave que nos permitia entrar nos seus quartos sem os acordar.
Hoje, infelizmente sobra uma só, mas em estado impecável, apesar de ter entre 40 e 50 anos. Peça de exposição.
E são estas pequenas coisas que ajudam a nossa memória a não enfraquecer tão depressa, e nos transportam, com saudade e simplicidade aos locais de suas origens. São uma espécie de “túneis do tempo”!

30 jan. 10