segunda-feira, 19 de junho de 2017



Um oficial em Moçambique - 5

O “nosso” heroi

Nasceu em Alter do Chão, a 3 de Feve­reiro de 1865.
Sentou praça no regimento de Cavalaria 4 em 13 de Outubro de 1880, cursou a Politécnica e passou a aspi­rante da Armada em 10 de Novembro de 1882, sendo promovido a guarda-marinha dois anos depois, a 29 de Setembro. Ainda não era oficial e já andava pela África, fazendo levantamentos no rio Muíte, defronte da ilha de Moçambique. Comandou, como guarda-marinha, na­quela colónia, os iates de vela “Luzio” e “Tungue”, e depois as canhoneiras “Maravalt e “Cherim” da esquadrilha do Zambeze, o vapor “Auxiliar”, e mais tarde a “Liberal” e o transporte “Salvador Correia”. Em 1885 combateu o régulo Sangage, que avassalou. Contava, então, vinte anos. Continuou a sua acção no Moguinquale e no Infusse.
Comandou a “Cherim” quando Serpa Pinto chegou à África com a sua missão encarregada de operar pelo lado do Zambeze, Chire e Ruo, nas vésperas do ul­timato. O fim da expedição consistia em manter o predo­mínio português naquelas regiões onde os ingleses iam captando alguns régulos e entre eles o de macololos.
Em 1889 foi encarregado de reduzir aqueles povos à obediência, em Chilomo, onde o gentio se entrinchei­rara. A tripulação da “Che­rim” compunha-se de dez brancos e trinta e quatro negros, que chegaram para vencer os rebeldes. O moço comandante viu o seu chapéu varado pelas balas. Os indígenas admirados pela vitória, espalharam a sua fama e passou a ser conhecido por Musungo Icuro ou M'Pezene. Tomou a seguir as terras de Massea e Katunga; aprisionando o filho do soba e logo o régulo Gambi, estendeu o domínio português do Ruo ao Milange.
Portugal celebrou as suas vitórias e o nome do bravo tornou-se ilustre. Comandara vinte ações militares. O consul inglês Johnston, declarou que os macololos estavam sob a protecção britânica e pretendeu impedir o avanço dos expedicionários, o que não conseguiu. Nasceu desta questão o ultimato. O seu nome ressoou mais intensamente e o Parlamento proclamou-o
“Benemérito da Pátria”, tinha vinte e quatro anos!
Paralisadas as operações em virtude das exigências britânicas, ficou comandando as forças a fim de manter a neutralidade. Nomeado para vingar no Mataca a morte do tenente Valadim, cumpriu o seu dever e, no ano seguinte, comandou a expedição denominada Júlio de Vilhena, que bateu o Maconga e logo apaziguou os povos revoltados de Muíra, bongas e baruístas. Em 18 de Novembro de 1891 ficou gravemente ferido no ataque à aringa do Mafunda, em virtude de tiros e da explosão dum cunhete de pólvora. As suas forças sofreram mais de trezentas baixas; chefiou a retirada em trágicas cir­cunstâncias, pois tinham morrido dois belos combatentes, Barbosa de Meneses e Carlos Paiva e o capitão Andrade estava tão ferido como ele. Durante dois meses esteve em perigo, tendo o corpo em carne viva. Ia ficando cego, mas logo que melhorou pensou em resgatar o desastre. Mostrara-se tão bravo soldado como hábil marinheiro e nos seus comandos de frágeis embar­cações demonstrou tanto estas qualidades que os seus camaradas lhe votaram grande admiração. Cognomi­naram-no “João Trabalhador”, tal era a sua faina. Navegou no Zambeze em péssimos barcos, mas destemidamente.
Em 17 de Dezembro de 1896 foi comandar volunta­riamente a companhia de guerra de marinha que ia combater os namarrais. Ganhou a medalha de prata de Bons Serviços, que se juntou ao oficialato da Torre e Espada e à insígnia de cavaleiro de Cristo, recebidas em 1891. Mousinho escrevera a seu respeito, ao propô-lo para aquela condecoração: “pela maneira como comandou as forças engajadas na Nagüema, Ibrahimo e Mucuto Muno e pela boa ordem e disciplina que manteve na sua companhia”, e nomeou-o governador da Zambézia.
Começara uma revolta com assassínios nas proximi­dades do Sena e tão seguramente os indígenas esperavam vencer, que chegaram a atacar, em Tete, uma lancha carregada com material de guerra e, apoderando-se de duas peças “Hotchkiss”, dispuseram-se a maior resis­tência. Era em 25 de Maio de 1897; quatro dias depois saiu de Sena à frente duma coluna de cento e cinquenta soldados indígenas e dois mil cipais irregulares de Maganja, e em 4 de Julho atacava a aringa de Mayuca, que foi defendida com a artelharia tomada no rio Tete, e a qual recaiu em poder dos portugueses. Foram arrazadas doze aringas após vinte combates.
No ano seguinte já estava em Maganja da Costa a castigar as ofensas feitas pelos cipais desta região a Aires de Ornelas e o trucidamento do l° tenente da Armada Simeão de Oliveira e de oito angolas que ali o tinham acompanhado em 1886. Tomou a aringa, subjugou o Mocuba e o Robe e não ocupou Angoche porque demorou a autorização pedida a Mousinho, governador geral de Moçambique, que o propôs para a comenda da Torre e Espada.
Quando o poderoso gentio do Barué se revoltou, muito animado por suas anteriores proesas, foi-lhe entregue, em 19 de Abril de 1902, o comando da expedição contra eles. Arrazou cerca de noventa aringas e entre elas a do célebre Inhachirondo, na qual fora morto um grande amigo dos portugueses, o índio Manuel António de Sousa, capitão-mor de Manica. Aprisionou-se o Macombe e o seu chefe de guerra, Combuemba, pereceu. Recebeu a medalha “Rainha D. Amélia”, e a Geografia entregou-lhe a sua medalha de honra.
Por decreto de 9 de Dezembro de 1904 foi nomeado governador geral de Moçambique, e, dois anos depois, adido à Comissão de Cartografia, tendo dirigido acertadamente a província que lhe fora confiada. Fez parte da comissão de reforma administrativa das províncias ultramarinas, e recebeu a nomeação de vogal da Junta Consultiva do ultramar.
Após a morte de D. Carlos, aceitou o difícil cargo de governador civil de Lisboa, e, desde 11 de Março até 14 de Maio de 1909, ocupou a pasta da Marinha, cargo que voltou a exercer em 22 de De­zembro daquele ano, demitindo-se em 26 de Junho de 1910.
A queda da monarquia encontrou-o em Sintra, pois residia naquela estância. Foi para Mafra, onde o sobe­rano se refugiara. Dispôs-se logo a defender o paço com as forças que encontrou, apesar de não lhe pare­cerem muito seguras em virtude das hesitações do seu comandante. Aconselhou a partida de D. Manuel II com a família real para o Porto, afirmando-lhe que iria ter à capital do Norte.
Foi lugar-tenente de D. Manuel.
Após a morte de Sidónio Pais, em Janeiro de 1919, estava doentíssimo no hos­pital de S. Luiz, quando ali o foram buscar para, com a sua presença, dar valor ao movimento monárquico de Monsanto. Pensou num ataque mais directo e decisivo, que Aires de Ornelas evitou, e o resultado foi cair nas mãos dos vencedores, comandados pelo seu antigo camarada, e companheiro nas lutas em Moçambique, o capitão-tenente Afonso Julio de Cerqueira, a cuja grandeza de ânimo se deveu a salvação dos presos. Esteve recluso na Penitenciária, em S. Julião da Barra, no Laza­reto e na ilha da Madeira, beneficiando da amnistia e voltando à política como julgou do seu dever.
Depois da morte de D. Manuel aceitou o cargo de lugar-tenente do pretendente, D. Duarte Nuno.
Além de grande oficial da Torre e Espada e de Aviz, por serviços distintos, recebeu a carta de conselho, as grã-cruzes de Cristo e do Império Colonial, medalha de Filantropia, medalhas de ouro de bons serviços no ultramar com as barras comemorativas das suas cam­panhas. Oficial da Legião de Honra e grã-cruz da Es­trela Brilhante de Zanzibar, comendador de Mérito Naval e Militar de Espanha. Foi ajudante de campo de D. Carlos e de D. Manuel, deputado em 1900, sena­dor monárquico, pelo distrito de Portalegre, em 1925 e 1926.
Quando governou Moçambique recebeu as visitas dos duques de Connaught, em 1906. oferecendo-lhes magní­ficas festas e o celebrado batuque de vinte mil guer­reiros que produziu assombro.
Não foi apenas decorativo o seu período governamental; fez a ocupação, com Massano de Amorim, das capitanias de Angoche e Macuama, como já ocupara mais de me­tade da área da Zambézia quando ali estivera, e tratou da reforma administrativa da província.
Publicou: Do Níassa a Pembe, Relatório da Campanha do Barué, em 1902, O combate de Macequece, as Duas Conquistas de Angoche, etc.
Este homem chamou-se
João de Azevedo Coutinho.

Abaixo a sua assinatura, quando estava preso em Lisboa

Muito jovem, nas suas campanhas em Moçambique.
Segundo um dos seus netos, grande amigo meu, o avô teria
1,90 de altura e era robusto como um carvalho!


Vamos continuar com assuntos moçambicanos, mas, por ora deixemos o “nosso” heroi descansar.
A verdade é que gente desta estirpe parece que desapareceu. Pelo menos em Portugal !!!


Junho 2017

Junho 2017

segunda-feira, 12 de junho de 2017



Um oficial em Moçambique - 4
Grande  Milando*

Aquele cargo com o seu título eufônico de Capitão-mor era realmente interessante pela variedade e amplitude das ocupações, enquanto resistiu o espirito que Mouzinho lhe insuflara.
Em Angoche, por muito afastado de Mo­çambique e por haver substituído, com assinalada vantagem, o ridículo governo que vegetara no Parapato entre 1861 e 1897, constituía uma espécie de pro consulado à romana muito de apetecer a gente moça com ombros e animo para suportar o fardo.
O capitão-mor, Gavana, como lhe chamavam os negros, era tudo: suprema autoridade e primeiro obreiro.
É claro que na maior parte das suas quase ilimitadas atribuições tinha a competência mais ou menos regulamentada pelas leis do reino e da província - na medida do aplicável, mas havia uma esfera, inteiramente por codificar, que pelas suas instruções lhe era tão especialmente recomendada como deixada por inteiro à discrição do seu tino: era de juiz, único, em pleitos cafreaes.
O capitão-mor conhecia e comungava fielmente nas ideias gerais do comissário-régio criador do cargo e que fora seu chefe supremo assim como seu comandante-em-chefe. Achavam-se elas consubstanciadas nas modelares instruções dadas por El-Rei D. Sebastião ao Viso-Rei na Índia, Dom Luis de Athayde.
Fazei muita cristandade. Fazei justiça. Conquistai tudo quanto poderdes. Tirai cobiça dos homens e favorecei os que pelejaram. Tende cuidado com a minha fazenda. E para tudo isto vos dou meu poder. Se o fizerdes assim, muito bem, far-vos-hei mercê: e se fizerdes mal mandar-vos-ei castigar. Se al­guns Regimentos forem em contrário destas cousas suponde que me enganaram e por isso não haja nada que vos estorve isto.
E se à primeira máxima a sua condição de mísero pecador decerto o impediu de dar brilho, da última teve de socorrer-se constantemente, desde o dia da posse, no desem­penho dos seus deveres como julgador, tão inaplicáveis se lhe manifestaram os diversos códigos metropolitanos promulga­dos pelo liberalismo reinol do século XIX e logo mandados observar na África adusta.
E meteu-se a estudar afincadamente a Charia (Direito) macua. Suleimane-Issufo, o octogenário irmão do sultão Hassani e de Mussa-Quanto, fora o seu primeiro professor, logo nos tempos de simples comandante da Maravi.


Que maravilha de “máquina de guerra”! E que conforto!

Cinco anos depois, elevado a capitão-mor, já falecido o velho Suleimane, valeram-lhe o Mualimo (Bispo) Xá-Daúde e outros. Nem lhe faltava tempo para estudar e anotar princípios fundamentais, porque no transcurso de cada doze meses os cinco da época das chuvas de todo impediam passeios pelo mato. Dois anos de estudo e prática va­leram-lhe nesse capítulo certa nomeada pelo sertão, até ao ponto de um belo dia vir de Sangage uma deputação de notáveis convi­dando-o a ouvir o velho pleito do xecado e a sentenciar sobre a matéria arrumando o caso de uma vez para todas. Aceitou, como era seu dever, e trasladou-se em correição para o posto militar durante nove dias, que tanto durou o julgamento da causa. Por terem algum interesse, visto darem uma tal ou qual ideia da formidável divergência existente entre a Charia tribal macua e o Direito europeu se resumem aqui as alegações procedentes recolhidas em nove fatigantes audiências de sol a sol.
Era o que se chama na Contra-Costa um “milando grande”, arrastado durante gera­ções seguidas e recheado de incidentes de toda a casta que corriam de lés-a-lés o teclado da jurisprudência. Na sua origem assentara sobre uma questão dinástica, causa pri­mária de conflitos máximos entre povos. Pertencer o xecado de Sangage ao Uazir Mussa-Piri (Vizir) ou ao usurpador Momade-Omar, era o nó górdio. Cortado este, fácil se­ria liquidar perante a Charia a vasta série de assaltos, morticínios, roubos, raptos e ofensas intertribais praticadas du­rante mais de cem anos pelos partidários de um ramo dinástico contra o outro.
Momade-Omar, nascido e educado entre os brancos do Parapato, como o haviam sido já, em Moçambique, seu pai e seu avô, co­nhecia pela observação do seu atento espí­rito de velhaco as noções gerais do Direito europeu reveladas pela conduta correntia da gente do Rei.
Querendo agradar, “pintou-se de branco” na defesa do seu pleito, alegando direitos, muitos direitos, e negando a cadeia de deveres que tanto aperta e man­tém a Charia macua.             
A sua primeira negação em defesa própria foi a do “princípio de responsabilidade”, ba­silar entre os cafres por ser o alicerce do or­ganismo tribal. Mussa-Piri não teve dificul­dade em rebater-lha expondo, com aplauso de todos os ouvintes, que o xecado exercia autoridade sobre várias tribos, cada uma das quais estava subdividida em regulados, e es­tes em povoações compostas por agrupamen­tos de famílias; e que assim como os filhos eram responsáveis para com o pai pela sua conduta pessoal, assim este respondia perante o chefe da povoação pela sua família, os chefes de povoação para com os seus régulos e estes perante o xeque, chefe supremo do povo. E exemplificou com o caso de furto (Momade-Omar tinha praticado muitos) mostrando na fase inicial das investigações o local do crime e o ponto de partida, tornando responsável o chefe da família ocupante do terreno até que prove a saída desse terreno da cousa furtada, quer por mostrar para onde ela foi, quer por patentear o seu rasto; e salientando como pela prova de saída feita de grau territorial em grau territorial - local ocupado por uma família, área da po­voação, território do regulado - sempre es­teve assente na Charia macua o “princípio da responsabilidade” como cavilha mestra do edifício tribal. Eh-Eh; Aiô-Aiô; Aíomai - aplaudia a assembleia,
E confortado pela impassibilidade do branco, aquecido pelo auditório, reforçou: Que não, que o cafre não tem direito algum a fa­zer o que lhe apraz. Que o macua, como fi­lho, sempre pertenceu absolutamente ao seu régulo como pai da tribo, em tudo e para tudo, ele próprio e até a sua machamba (horta) pois nem tem direito a tocar no milho ou no feijão colhido senão após o Festival das Colheitas, de centenária tradição, depois de o régulo ter apartado as quantidades pre­cisas para satisfazer os espíritos dos antepas­sados e para as compras de armamentos ne­cessários à defeza da tribu. Que seria da sal­vação desta se a gulotonaria de um Momade-Omar lhe permitisse faltar ás suas obri­gações tribais? Sem prosperidade e seguran­ça para a sua tribo, o macua não teria defesa alguma, visto não haver Charia que re­gulamente as relações entre tribos, as quais sempre se têm por inimigas umas das ou­tras. Não tinha Mussa-Quanto uma vez chegado mesmo a proibir que as pessoas morres­sem sem sua licença? Porquê? Porque antes deste Momade-Omar também naquele tempo tinham aparecido heréticos do mesmo estofo a enfeitiçar gente fazendo-a morrer, quando todos os homens válidos eram poucos para a guerra contra a Imbamela e quando todos muito bem sabem pelas revelações do Liputu (Satanaz) que as pessoas só podem morrer de maneira natural por velhice ou na guerra - e nunca sendo moças senão por efeito de feitiçaria maligna apontada contra a grandeza e contra a existência da tribo, tão dependen­tes do número e da força dos seus homens.
E volvendo-se acusador, Mussa-Piri exprobava a Momade-Omar todas as suas com­provadas malas-artes. Para achincalhar a sua autoridade de xeque, Momade tinha-se oposto a que a ele Mussa fosse pago pela gente do Etagi, a indenização devida pela fratura do braço de um estafeta seu, persuadindo essa gente a indenizar diretamente o pró­prio ferido. Jamais se vira semelhante atro­pelo dá Charia. O estafeta era seu, mesmo dele, como membro da sua tribo, e a indenização pertencia-lhe como único dono do homem que ficara inutilizado e de todos os demais homens. O contrário seria uma imo­ralidade, um incitamento ao egoísmo, uma ofensa à tribo.
Eh-Eh; Aiô-Aiô; Alômai - apoiava a assem­bleia. E seguiu-se, com muitos pormenores, o rosário de todas as culpas do réprobo. A sua atitude em casos de propriedade pes­soal - favorecendo o espírito da ganância tão antagónico do ideal de fraternidade na tribo, pois só à custa do seu semelhante e roubando-o ou explorando, o um homem pode enriquecer enquanto os outros con­tinuam desprovidos, A sua oposição crimi­nosa, e ruinosa, contra o sistema miliciano de defesa da tribo pela imposição da serviço militar obrigatório a todos os homens validos - e a sua propaganda favorável às guardas de corpo permanentes, á moda dos brancos, mantidas na ociosidade à custa da tribo mesmo em tempo de paz.
As suas infrações constantes à Charia da caça - caçando só para ele, como as feras, a pouca caça comestível restante, que o costume imemorial mandava ser reservada às grandes caçadas coletivas depois das colheitas, em benefício de todos. Ofensa máxima - aquela sua prática de se apropriar de terrenos, absorvendo e vedando os melhores, os mais produtivos, com prejuízo da única dona do solo, que o nacionalizara empossando nele somente o régulo, para que este, com justiça igual, confiasse a cada qual aquela área que por si próprio e pelas suas mulheres pudesse cultivar, e não mais. E suma injúria - a do apelo para os tribunais brancos em questões da alçada judiciária tribal, sujeitando todos os demais às iniquidades do Direito europeu, em tudo antagônicas da Charia destruindo a vera essência do viver social macua. Ao branco, ao “filho do Rei”, só é licito recorrer em casos como aquele sob julgamento, que vão além da Charia., E, mesmo assim, só não desconvém fazê-lo quando, como naquelas circunstân­cias, visivelmente o Rei mandou para Angoche um “filho” com ordem de acatar a Charia.
Eh-Eh; Alô-Alô; Alômai - apoiavam todos, amigos e inimigos do Mussa, estimulados pela invocação da boa doutrina milenária.
Momade-Omar ainda replicou, outra vez ferindo a nota dos direitos, de muitos direi­tos, de todos os direitos ouvidos nas cantinas do Parapato e de Moçambique a outros de­senraizados da tradição tribal. E se não citou leis promulgadas em Cortes, se não in­vocou a letra dos venerandos Códigos do liberalismo reinol, porque a tanto não che­gava a sua sabença, não deixou de referir de­cisões tomadas à face do Direito europeu pelo comando da polícia e pelo julgado municipal nos dias, que ele considerava gloriosos, do antigo Governo de Angoche, anteriores àquela ominosa ditadura militar instituída por Mousinho de Albuquerque na pessoa do capitão-mor, a quem ele errando todas as passadeiras, supunha suspirando, também, pelo título antigo e mais pomposo de senhor governador. E para mais “engraxar” pedia “indulgência para aqueles brutos do mato” que nunca tinham tido a fortuna de viver, como lhe acontecera, em localidades administradas diretamente pelos brancos, onde havia muitos, todos gente grande, um governador, outros secretários, outros juízes, outros es­crivães, outros administradores dos concelhos, outros comissários da polícia com secretarias e livros e papel e tinta. Ao contrá­rio de Mussa-Piri, não falava voltado para o auditório, e não tinha um só Eh-Eh; Aiô!Aiô; de aplauso.
É claro que houve mais, muito mais dis­cursos de parte a parte.
Terminadas as alegações, ao nono dia, o branco, cheio de sede, antes de proferir a sentença pediu chá, que tomou com vagar em presença de toda aquela multidão abso­lutamente silenciosa - talvez por imaginar que a inocente libação fizesse parte do ritual judiciário, ou fosse mezinha inspiradora de justa decisão.
A sentença conformou-se com a Charia macua: Momade-Omar, com enorme surpresa sua, foi desapossado do xecado que usurpara, proibido na sua pessoa ou na dos seus des­cendentes de reabrir a contenda, e dester­rado para Moçambique com prisão na velha fortaleza quinhentista de S. Sebastião. Se­gundo a Charia, foram também resolvidos to­dos os crimes, como tal considerados à face da lei cafreal, cometidos durante a luta di­nástica e à sua sombra.
Para os meros delitos políticos pratica­dos de parte a parte foi decretada amnistia e perpétuo silêncio. O Uazir Mussa-Piri foi reintegrado no seu poder de xeque e prestou excelentes serviços, dedicados e leais.
Parece que mais tarde voltaram a prevale­cer os Códigos do liberalismo reinol sobre a Charia e que o Mussa foi destituido o que se afigura erro, mas não surpreenderá nin­guém, pois destas alcatruzadas está cheia a nossa história - e a dos outros também.

Quem foi este Gavana?
Veja o próximo e último “capítulo”!
* Milando: em Angola seria “Grande Maca” e em português “Grande problema”!

Maio, 2017






Maio, 2017


segunda-feira, 5 de junho de 2017


Um oficial em Moçambique - 3
Salvo pela Monogamia

M’cuépêre-muno, senhor de Mihéhé, devia medir 1m, 90 e pezar na balança os seus 110 kilos.
Em 1904 andaria pelos 35 anos e cogno­minava-se a si próprio, alternadamente, de “Macua-muno” e de “Macuana-muno”, o que queria dizer rei dos macuas ou rei da Macuana. E, não exagerava muito porque de facto era o mais poderoso régulo de toda aquela vasta região, quase como Portugal in­teiro, exigindo e recebendo preito de vassa­lagem em larguíssimo círculo.
Nunca tinha visto brancos: há 5 anos* todo o sertão entre a Zambézia e os territó­rios de Cabo Delgado estava inteiramente por penetrar. Mas mandara enviados a Moçambique, um deles fora filado, alistado, e em três anos de serviço militar nada volun­tário, observara muito: de regresso à terra havia sido nomeado (como diremos?) almo­xarife-encarregado-do-depósito-de-material-de-guerra, e era o grande informador de M’cuépêre no tocante aos usos e costumes, especialmente militares, desses fenomenais homens brancos, dos Alungo, isto é, dos portugueses.
Ora começou chegando a M’cuépêre o boato de que em Angoche estava um Gavana (capitão-mor) que andava pelo mato, umas vezes com gente de guerra em expedições militares, mas as mais delas a passear assim mesmo e sozinho.
A princípio não queria crer, e com razão porque o caso não tinha precedentes conhecidos em recordação de velho ou sequer por tradição mais antiga. Mas como os boatos se acentuassem mandou verificar e certificou-se.
Tanto bastou para logo arder em desejos de ver o branco. E informado de que este se dava com o seu amigo Mussa-Piri, a quem mesmo reintegrara no xequado de Sangage, serviu-se do velho xeque como intermediário para expedir um convite de visita.
O emissário voltou logo com uma sur­preendente aceitação e com a notícia de que o Gavana não tardaria meia-lua a chegar. E foi uma azáfama de preparativos.
Na raia da linda terra de Mihéhê, logo ao desembocar da densíssima floresta de M’lay, o branco teve a surpresa de se ver esperado pelo chefe do estado maior do grande régulo a desejar-lhe as boas vindas e a pôr-se à sua dis­posição como uma espécie de oficial às ordens.
Chegados à povoação, o Gavana foi enca­minhado para uma grande palhota, nova em folha e retangular, com telhado de duas águas, construída de propósito, à imitação das casas de Moçambique*, única no seu gé­nero, dotada de quintal privativo e rodeada de palhotas redondas para a sua gente e montada.
M'cuépére-muno não estava presente. Mas o seu chefe do estado maior, renovando as boas vindas em nome do amo, explicou que o régulo presumia haver o branco chegado fatigado, após dez dias de marcha e seis horas na sela aquela manhã, pelo que não im­portunava logo ao apear; que comesse e descansasse em sossego, e o mandasse chamar quando lhe aprouvesse. (Andou entre 250 e 300 quilômetros para o interior!)
Luiz XV não teria procedido com maior requinte.
Juntando os atos ás palavras, o favorito do régulo fez um sinal: e logo começaram desfilando em frente do Gavana, grupos de escravos ajoujados com arroz, farinhas de milho e de mandioca, frutas, cabras, galinhas, ovos, peixe do rio, toda a ucharia local. Chegavam, ajoelhavam, arriavam os presentes, batiam as palmas três vezes seguidas, e seguiam ao seu destino.
O terreiro da povoação em cuja orla o branco fora alojado, devia andar pelo tamanho do Terreiro do Paço, em Lisboa (uns 20.000 m2 !). No meio uma pa­lhota circular enorme, erguendo a sua cúpula à altura de um segundo andar, era a do régulo; na periferia talvez meio-cento de outras palhotas pequenas, e por detrás des­tas, em toda a volta, aquela bem conhecida faixa de mato, densa, mas de pequena lar­gura e de terra remexida, cujo letreiro, se o tivesse, poderia limitar-se às simbólicas ini­ciais: W.C. Para lá desse mato as machambas (hortas) com mandioca de 4 metros de altura e milho capaz de esconder um lanceiro montado.
À primeira indicação do branco, M’cuépêre-muno compareceu logo, com imensa pompa, acompanhado por todos os seus di­gnitários e, também, por meia dúzia de moleques e outras tantas molecas já destina­dos, desde a mais tenra idade, a acompa­nhar para o outro mundo o seu senhor quan­do lhe findasse a preciosa vida.
Cumprimentos, apresentações, discursos, seguiram-se até, em plena Macuana, num pro­tocolo nada dissemelhante daquele que rege os encontros de chefes de estado na Eu­ropa.      
A salva de artilharia que o “almoxarife” muito recomendara a M’cuépêre-muno, pelas recordações do que observara na fortaleza de S. Sebastião em Moçambique, sofreu percalço e ficou limitada a um só tiro. Foi disparada por uma daquelas pequenas peças que ainda a esse tempo artilhavam os pangaios mujojos de Mascate; mas como o «almoxa­rife» a atacara de pólvora até à boca, o recuo excedeu a resistência do velho re­paro que todo se esbandalhou ao dar en­contro a um morro de muchém, formiga térmite.


Verdadeiro sucesso de novidade, para o régulo e para todo o seu povo, tiveram três cousas: a montada (velhíssimo macho que fizera parte de uma expedição enviada da metrópole 3 anos antes), a Browning, que despejava 8 tiros com um só puxar de gati­lho, e os garfos com que o branco segurava os alimentos sem precisar tocar-lhe com os dedos.
A própria pessoa do branco impres­sionou aquela gente, como não podia deixar de ser, que nunca tal vira. Mas as damas não se agradaram e bem lho fizeram sentir com remoques—“olha como ele é feio, que cor de pele, parece uma galinha depenada” - quando, escondidas, o examinaram da outra margem, na ocasião em que ele, despreve­nido, tomava banho no rio, com agua só pelo joelho não aparecesse algum jacaré.
Os motivos do convite de M’cuépêre-muno tinham sido múltiplos e complexos, como sempre acontece com as determinantes da ação humana, na Europa como na África adusta. Os objetivos políticos, comerciais e militares, transpareceram logo às primeiras palavras e foram tratados adequadamente, primeiro em conferências secretas e depois em assembleias magnas, durante os quatro dias da visita. Mas o branco pressentia que no espírito de M’cuépêre-muno ainda havia mais um propósito que até então não fora desvendado: e maravilhava-se de qual seria.
A revelação veio na última tarde, à hora do cocktail que foi substituído por uma ópti­ma cerveja de milho fino (pôbe) tomada na grande palhota do régulo, e importou na confidência dos grandes apuros em que vivia aquele homenzarrão, senhor incontestado de toda a Macuana.
O caso, realmente, apresentava-se tão difícil que era insolúvel. M’cuépêre-muno tinha 39 mulheres, e este batalhão de beldades tor­nava-lhe a vida um inferno. Não fora por sua culpa nem gosto que tanto bigamara. Obrigações do cargo. Para melhor firmarem com ele tratados de paz e amizade, todos os outros régulos das redondezas o haviam que­rido para genro, e o dilema havia-lhe sido posto diplomaticamente numerosíssimas ve­zes: ou paz para o seu povo e mais uma mulher às costas, ou a sua independência conjugal e o país a ferro e a fogo. Como bom pai da sua gente submetera-se, sucessivamente: eram já 39 - e tinha motivos para recear que ainda viessem a ser mais...
“Não poderia o branco valer-lhe? Levar-lhas quase todas, deixando-lhe só duas ou três? Podiam combinar aquilo particular­mente entre eles e anunciar depois pelo ser­tão inteiro que era “ordem do Rei” - à qual todos tinham de submeter-se, a começar pelo Gavana e por ele próprio M’cuépêre-muno”. 
“Anda, dize que sim. Pois não és tu muana-a-rey o filho do Rei? Podes falar em nome de teu pai.”
Ao Gavana valeu naquela conjuntura o “almoxarife” de M’cuépêre-muno, o tal que durante três anos serviu como soldado em Moçambique. Fê-lo vir, e sem lhe dizer por­quê obrigou-o a responder à pergunta clara e categórica – “se vira na fortaleza algum branco casado com mais de uma mulher”. O “almoxarife”, que chegara a impedido do coronel-comandante da praça de S. Sebastião, na Ilha de Moçambique, e que por isso observara de perto o viver conjugal dos brancos, disse a ver­dade, afirmou e jurou a monogamia euro­peia.
assim aquela primeira visita não con­cluiu por um desaguisado.


* Refere-se a 1899.
** Da Ilha de Moçambique, de duas águas. As do interior, Norte, de Moçambique eram circulares.

Fonte: “Escola de Mouzinho” – Eduardo Lupi, Lisboa - 1929

21/05/2017


segunda-feira, 29 de maio de 2017


Um oficial em Moçambique - 2
Resposta à letra!

Dos três chefes negro-árabes que no interior de Angoche durante meio século suces­sivamente se opuseram, entre 1855 e 1903, à soberania portuguesa, cada um tinha o seu feitio. Mussa-Momade-Sabo, por abreviação Mussa-Quanto, o primeiro, grande político e hábil general, manifestara-se realmente magnânimo. O segundo Üsseni-Ibrahimo, ou «Mènhênhuà», deixara recordação da sua crueldade. Farelay, o terceiro e último, era, acima de tudo, insolente. E quando se certificou de que o novo capitão-mor, ape­sar de vir expressamente do reino, não trazia soldados, para logo de entrada o achincalhar e assim o impedir de ganhar prestígio, encarregou o Muápála-muno, em audiência pública, de dizer-lhe “que preparasse a melhor cama na Residência porque ele Farelay dentro de poucos dias nela se iria deitar”.
O Muápála-muno, pequeno régulo situado a trez legoas da vila, não, ousou, é claro, levar o recado ao Parapato (que depois se chamou Angoche, António Enes e hoje é Angoche). Mas sabendo que o recém-chegado todas as tardes saía a cavalo e prevendo que breve o veria em Nhamuápála, não se esquivou á incumbência e prometeu ao Farelay que, se tivesse ensejo não deixaria de comunicar a mensagem. E, se bem o disse, melhor o fez. Como o capitão-mór, de facto, lhe aparecesse em casa logo no dia seguinte, Muápála-muno, habilissimo diplomata, a meio da palestra, dando informações sobre o Farelay, repetiu com o melhor dos seus sorrisos, a insolência do rebelde.                              
Aos 28 anos a paciência não é muita. Na volta de Nhamuápála ao Parapato o capitão-mór foi todas aquelas trez légoas cogitando na melhor maneira de responder ao desafio.
Amor com amor se paga. O Farelay mandava-lhe preparar a cama para nela se deitar? Não lhe enviava resposta alguma. Mas iria fazê-lo levantar da sua própria. E iria já amanhã, visto não haver tempo para partir hoje mesmo. Se o prendesse seria ópti­mo; liquidava-se a campanha e a contenda. Se o matasse, as consequências seriam às mesmas. Se ele escapasse, ao menos fica­ria desprestigiado.
Havia outras probabilidades contrárias, mas com essas não se prende gente de espada.
Da tropa, havia um alferes e vinte praças. Era pouca gente para visitar tamanho sobe­rano na sua capital. Mas os novos cipaes já com quinze dias de recruta intensiva, aumentavam a hoste. E como se tratava de um ataque de surpresa, a fazer de madrugada, após uma marcha de noite, o adversário não teria tempo de concentrar o êcôto (brigada) de 300 homens que sempre o acompanhava.


Parapato, hoje Angoche; 
no retângulo, localização aproximada da aringa do xeque Farelay
(Clique na imagem para ampliar)

Amadurecido o plano, guardou-o para si. Do Parapato a M’zeia eram só 7 légoas e o telégrafo em África é rápido nas transmissões. Tinha ido sózinho a cavalo, a Nhamuápála. Ninguém mais ouvira o insulto. Ninguém, por­tanto, nem mesmo à última hora, poderia prescrutar-lhe o desígnio. Só às cinco horas da tarde no dia seguinte começou a expedir as ordens e ainda assim com a maior reserva. Sob se­gredo, determinou ao capitão comandante da 6a companhia que às 9 e meia da noite lhe mandasse apresentar o alferes com todas as praças disponíveis: 20 homens, como ele já sabia.
Obrigado moralmente, por compromisso anterior para com dois brancos, o tenente-secretário e o destemido chefe da alfândega a levá-los consigo quando pela primeira vez saísse para o mato em qualquer empresa, convidou-os para jantar e os preveniu.
Para despiste resolveu fazer parte do trajeto embarcado, pelo Sucubir, (que desagua em frente a Angoche) mas dizendo que ia para o Sul.
A maré enchia até à uma hora, as lan­chas estavam a nado na testa da ponte, os remadores dormiam no quintal: por aí não haveria empeno.
Às oito mandou chamar Üsseni-Câximo, comandante dos cipaes, e ordenou-lhe que reunisse imediatamente metade da sua gente, outros 20 homens.
Tudo saiu certo, e ás dez horas a expedi­ção largava em duas lanchas e um escaler velejando para o Norte: 4 brancos, 4 monta­das, 20 soldados landins, 20 cipaes, nenhuma bagagem.
Primeiramente navegou-se, depois marchou-se toda a noite sem ver ninguém, que em África não há outros noctívagos senão feras. Às 5 horas da manhã o primeiro cla­rear da alvorada permitiu ver na frente a três quartos de légoa, a colina da M’zeia com a povoação do Farelay na crista. Encurtou-se o passo na testa para facilitar a reorde­nação da coluna, fatalmente alongada durante a noite a despeito de todos os cuidados. Mal se tinha normalizado a marcha, ouviu-se se de repente o clássico sinal do alarme macua, o báu-áu-áu um grito agudo entrecortado pelo bater da palma da mão contra os beiços. Era uma escrava que descendo a colina a buscar água, ouvira no silencio da manhã o tilintar das armas e a estrupida dos cavalos.
A surpresa estava frustrada. Espada alta, os quatro brancos montados carregaram encosta arriba direitos á povoação, seguidos pela gente de pé a marche-marche, O báu-áu-áu estrugia de todos os lados. Soou uma palapata. Berravam cabras. Estalaram os primeiros tiros, poucos porque o êcôto estava disperso nas massassa (abrigos de campanha).
As palhotas foram encontradas vazias. No terreiro da povoação, aparvalhados, um velho e duas velhas. Já se ouviam mais tiros. Urgia concentrar. No terreiro fez-se a reunião. Seguiram-se: o saque, o incêndio, e o início da marcha de regresso.
Duas légoas ao sul da M’zeia, em terreno bem aberto e à beira de um regato, armou-se o bivaque para merecido descanso, das 8 horas da manhã às 3 da tarde. Cozinhou-se e dormiu-se por quartos, metade da gente, brancos e pretos, sempre em armas. Mas não houve novidade. Só mais tarde se veio a sa­ber que o fator psicológico da paralisia na reação fôra precisamente o contraste fla­grante entre a propaganda depreciativa do novo capitão-mor, que o Fareley fizera, e a conduta ousada dos portugueses. Tanto o caudilho rebelde, como os seus sequazes, fica­ram tão apreensivos com o receio de uma repetição do caso, sem precedentes, que nunca mais, durante três anos, consentiram em se quedar a menos de três dias de mar­cha de quem «saltava de noute como o tigre».
E como o capitão-mór, no decurso do seu governo, retraçou o território com itinerários que excederam cinco mil quilómetros, muitas e alongadas foram as marcas de quadrilha que o seu fusco opositor deixou, ora avançando em direção do litoral, ora retirando até ás fronteiras do Nyassalanda.  
A pequena coluna no seu regresso teve o último alto horário em Nhamuápála. Paragem de um quarto de hora; todos estavam moídos.
Ao preparar para montar, o capitão-mor, que o Muápála-muno tornado solicito não abandonava um momento, virando-se para o régulo observou-lhe: «Dize ao Farelay que a sua quitanda não prestava para nada, por isso a queimei; a minha cama é muito melhor, que venha, pois, deitar-se nela, que eu cá o espero no Parapato. E se lhe fizerem falta a cabaia, a bura e o alfio que ele deixou quando fugiu de mim semi-nu para o meio do mato, que vá lá buscá-las também, à Residência, porque fui eu próprio por minhas mãos que as filhei na sua palhota.»
A minúscula força poz-se novamente em marcha e entrou no Parapato depois das 10 da noite.
O seu comandante não sabe bem como correram as cousas nas 3 légoas daquela última parte do trajecto. Disseram-lhe depois, o tenente-secretario e o chefe da alfândega, que ele tinha vindo todo o tempo dormindo a sono solto, mesmo a cavalo; e que, para lhe evitar uma queda, no caso de se desiquilibrar, tinham cavalgado a seu lado estribo contra estribo.
Aos 28 anos essas cousas acontecem, e passada a tensão do momento a natureza impõem-se... e dorme.

Glossário:
Cabaia – Roupa de luxo, normalmente de seda, usada pelos chefes.
Bura e alfio – serão outros instrumentos de chefe
Mujojos – indivíduos, árabes ou arabisados, de nobreza local

Fonte: “Escola de Mouzinho” – Eduardo Lupi, Lisboa - 1929


28-05-2017

quarta-feira, 24 de maio de 2017


Um oficial em Moçambique - 1

Vão seguir alguns textos com histórias de um oficial português, em Moçambique. Final do século XIX.
Uma demonstração clara do modo como se lidava com os nativos, soberanos e ciosos do seu poder e do seu povo, o respeito que nos mereciam e o respeito que as nossas atitudes igualmente granjeavam.
Obrigados a guerrear os povos moçambicanos mercê da política inglesa que os estava a financiar e mentalizar para que combatessem os portugueses e ocuparem todo o Norte do país.
Guerras são sempre tristes, mas fazem parte da história e não podem ser “varridas para baixo do tapete”! Mais do as guerras travadas, falam alto o valor, a educação e a inteligência de muitos desses militares que por lá fizeram nome. Não só para Portugal, como para Moçambique.

1.- A Pacificação de 30.000 km2


1893 - O ministro da Marinha e Ultramar, o Capitão de Mar e Guerra João António de Brissac das Neves Ferreira, tinha recebido do governador geral de Moçambique, o Capitão Tenente Rafael Jácome Lopes de Andrade, o seguinte telegrama:
«Massacrada interior... pacífica caravana objectivos mineiros comerciais composta en­genheiro ..., ex-sargento... , 5 mercadores Bombaim, 3 Goa, 40 carregadores. Cônsul britânico apresentou grave reclamação. Mas­sacre seguido sublevação geral. Território até hoje nunca penetrado sequer. Governa­dor distrital calcula população sublevada 200.000 almas incluindo 15.000 combatentes, requisita urgência brigada mixta europeia mais 5.000 cipaes zambezianos. Secundo re­quisição.»
Também o comandante-ministro não conhecia o território de ... apesar dos seus serviços na província que chegara a governar. Mas apurou que havia um oficial, um único, que por ordem de Mousinho estudara a região e que esse oficial estava em Lisboa.
Na manhã seguinte, sobre a secretaria mi­nisterial cadernos de marcha, esboços topo­gráficos, o rascunho de um relatório - e o telegrama.
Sentados frente a frente: o ministro, 60 anos, e o oficial 28.
A conferencia estava a findar e o ministro dizia: “Por motivos de ordem política interna e financeira ao governo não convém organizar uma expedição de tamanho vulto e dispên­dio. Por outro lado, considerações de política internacional impõem uma ação imediata para castigo dos rebeldes e submissão do território. Precisava que algum oficial conhe­cedor da região se prestasse a ir tomar conta dela com carta branca para tudo meter na ordem. Mas não dou um soldado nem uma moeda de vintém: quem for terá de se de­sembaraçar aproveitando os elementos locais.”
O jovem oficial, como resposta, só perguntou: “Em que dia embarco?”
O dia do desembarque, mês e meio depois (em Angoche ou Quelimane?), foi tomado pelo acto de posse, pelos discur­sos da praxe e pelo banquete oficial.

Deve ter desembarcado em algo parecido com este “paquete”!

Logo para o dia seguinte o recém-chegado encomendou um batuque na povoação indígena situada no arrabalde a oeste da vila. E foi presenciá-lo acompanhado do inter­prete Usseni-Caximo, também chefe da po­voação, seu antigo conhecido e experimen­tado companheiro de imprudências cinco anos antes.
A um lado, os dois iam escolhendo: este, aquele, fulano, cicrano. Apartaram 5o rapa­gões, fortes, alegres, os melhores bailarinos, apesar de só 40 serem precisos: 10 seriam para eliminar depois.
No terceiro dia, logo ao romper do sol, começou a instrução de recruta, intensiva e secreta, no fundo do enorme quintal murado da residência. Muito embora paisanos o não entendam, só a escola de recruta faz solda­dos, tanto de pretos como de brancos.

Assim preparados em poucas semanas os elementos locais de que o ministro falara vaga­mente, seguiram durante dois anos e meio inúmeros episódios. Muitas marchas de pe­netração (durante três épocas secas somaram 5.000 quilômetros como rezam os Boletins Ofi­ciais) em som de paz e em guerra aberta, acabaram com a lenda cafreal, fundada em fa­ctos, de que “o branco tinha navios para o mar, mas não tinha homens para o mato”.
Na impossibilidade de todos citar segue, para amostra, um dos últimos, talvez o mais curioso por mostrar, pela banda de dentro, os costumes da guerra na Macuana.
Mussa-Momade tinha acabado a parte nar­rativa e concluía repetindo textualmente o recado verbal do sexagenário xeque de Sangage, seu tio-avô:
«Tu, Gavana (capitão-mor), tens-me proi­bido de fazer guerra por minha conta, mes­mo com a maior das razões. Prometeste vir em meu socorro quando eu to pedisse, assim como eu sempre tenho acudido aos teus cha­mamentos. Ouviste a história da horrível ma­tança de pessoas da minha família e de de­zenas dos meus homens praticada por esse celerado Agy-Allaue, Que palavra sai agora do te coração?”
Sem um gesto, o branco respondeu:
“Dize ao teu tio Mussa-Piri que se vá jun­tar comigo na confluência do Mutuguti com o Moriosi daqui a 72 horas, levando toda a sua gente de guerra.”
Eram seis da tarde. Mussa-Momade e a sua pequena escolta largaram logo em direção a Sangage pela grande langua de Malatane.
Ficando só com o interprete Usseni-Caximo, chefe de terras do Inguri, o Gavana ajuntou:
«Vae já buscar-me seis estafetas de confiança, um para ir a Nhamuatua, outro para Namecoio, o terceiro para Mihéhé. E prepara a guarda-grande-do-quintal, mais trin­ta carregadores, para marcharmos daqui a quatro horas, as dez da noite”.
Às sete abalaram os três estafetas. Cada um levava como credencial um botão dou­rado, de ancora e coroa, e como instruções a mesma ordem de concentração confiada Momade Mussa.
Ás nove formaram no quintal, a um lado os 40 cipaes da guarda-de-corpo e a outro lado os 30 carregadores. Seguiu-se a distri­buição já costumeira: aos primeiros as Martinis e 60 cartuchos, aos segundos as latas com pólvora e os barriletes com zagalotes. 
Tanto a uns como a outros, 5 quilos de arroz por cabeça—a ração de ferro desse tempo.
Às dez em ponto a pequena hoste, põe-se em marcha com mais um cozinheiro, um moleque e o Gavana. Esse também a pé, que a ferida aberta por uma operação recente lhe não permitia montar a cavalo. E marchou-se durante dez horas, toda a noite e mais alguma cousa, ca­minhando 40 quilômetros. De dia dormia-se, por estar quente demais para andar. Em três marchas iguais atingiu-se a confluência do Muiuguti como Moriosi.
No campo de concentração, em plena flo­resta, as massassa (abrigo temporário) já es­tavam armadas. Eram o xeque Mussa o Namecoio-Muno dos Kopjies Erati que ti­nham chegado adiante com as suas êcôtos (colunas) de cerca de 5oo homens cada.
Pelo meio-dia entrou o gigantesco M’cuépére-Muno de Mihéhé com um soberbo con­tingente de mais de 1.000 homens. Ainda o sol se via quando chegou o de Nhamuatua, rude montanhês armado até aos dentes ca­pitaneando outro meio milheiro de guerreiros.
A concentração findara e a força excedia 2.700 homens de guerra: das tropas regulares - uma pessoa só.
Solenemente, os quatro chefes indígenas dirigiram-se, juntos, para o Quartel-General (uma arvore de boa copa) e pediram licença para murrapo-mácuê (literalmente: lavar com remédio). Já experimentado naquelas praxes o comandante-em-chefe logo concedeu. E começou a cerimónia que durou toda a noite, á luz do luar, e a maior parte do dia seguinte.
Traduzindo, cada um dos quatro cirurgiões de brigada (Chamulla) seguido pelo seu ajudante (mulupa-saco) começou passando revista sa­nitária aos guerreiros da sua hoste, um por um, ao mesmo tempo fazendo-lhes com uma faquinha pequenas incisões na epiderme so­bre os dois bíceps, sobre o peitoral esquerdo e sobre o frontal, que logo eram cauterizadas com um remédio tirado do muila (rabo da guerra, cauda de antílope ou de zebra) trans­portado pelo mulupa-saco. Coragem, força, inteligência, eram os três estímulos que a cerimonia era suposta incutir.   
Libertos das mãos dos chamulla e mulupa-saca os homens partiam em carreira aberta para o rio e procediam a rigorosas lavagens. Após o que cingiam em volta das cabeças e dos braços o licata, digamos o distintivo da unidade.
Com não menor seriedade, Usseni-Caximo, o intérprete, armado em chamuilo da guarda-grande-do-quintal e auxiliado pelo moleque Alaue, que funcionava de mulupa-saco, mas, por garoto, abusando da arnica contida na ambulância, preparavam os 40 cipaes do Gavana. Para estes porém, o distintivo, que já vinha vestido, era uma espécie de camisola sem mangas feita em filleli (tecido de algodão) vermelho forneci­do pelo armazém de bandeiras da Capitania do Porto.
Na segunda (e última) noite passada no bivaque fez-se a cuma. Das 9 às 11 os cazembes acompanhados pelos mulupa-á-tuié, homens das campainhas, recitaram os deveres militares: idênticos aos nossos em substância, mas com um acrescentamento repetido com a maior ênfase no mais cru palavreado - a recomendação de guardar rigorosa cas­tidade durante toda a campanha sob pena de desgraças terríveis, fatais e inevitá­veis.
Agy Alaue, meio-árabe, meio-preto, julga­va-se um espertalhão porque já tinha feito a peregrinação a Meca e vira na Maganja cons­truir aringas. Insubmisso e insolente, havia dois anos que abusava da paciência do Gavana.
Tinha este querido evitar a guerra e che­gara ao extremo de meses antes, ir sozinho ao covil da fera exprobrar-lhe a conduta e dar-lhe o último aviso. Ao mesmo tempo fizera discreto reconhecimento do território, da gente e da célebre aringa—que não valia muito).
Seguindo sempre oculta pela floresta, a hoste negra avançou contra o rebelde cuja povoação atingiu após duas curtas marchas de quatro léguas cada uma. Curioso. Não adoptava a tática de marcha da falange gre­ga ou a da legião romana, nem a de nenhum outro povo que houvesse tido contato com negros. Como a gente da Dácia e da Floresta Negra, avançava em três colunas paralelas que passavam à ordem de batalha com centro, n’tundu e duas alas, mono-mulopuana e môno-m’tiâna
A floresta adelgaçava. De súbito divisou-se a aringa a 150 metros. Ao toque de palapáta (corneta feita de chifre de antílope) a hoste coseu-se com o chão. O centro estacou e estendeu-se; as duas alas, correndo de gatas, de­pressa cercaram o inimigo cobrindo uns 300 graus da circunferência.
De novo os quatro chefes indígenas se di­rigiram ao comandante-em-chefe e tratando-o, dessa vez, por Munéné-á-vita-á-Ré (dono da guerra do Rei), disseram-lhe: “Agy Allaue está ali: quando quiseres dá o sinal.”
O branco avançou, sozinho, a passo, de chibata na mão, perante toda aquela gente deitada, imóvel e calada ao alcance dos espingardões da aringa (80 metros), acelerou e correu para o tapume, chibata alta. Só os defensores faziam fogo. Soaram então as grandes palapátas dos assaltantes.  
E com uma vozearia ensurdecedora todos aqueles 2700 homens se atiraram à carga contra a fortificação do rebelde, que não re­sistiu ao embate e se desmoronou com fragor.


O final não pode ser descrito por horripilante. Deve compreender-se: um homem só não podia impor preceitos cristãos, quan­to ao tratamento dos vencidos, a uma horda de 2700 selvagens enfurecidos.
Celebrando a vitória, toda aquela noite estrugiu o batuque de guerra da gente macua: N’áuâna carêma nauânéla êhânofui à guerra cortei cabeça, cortei cabeça do meu ini­migo.
Costumes dos elementos locais a que se referira o ministro. Mas só com eles, sem soldados brancos e sem gastar um vintém, recompensando-os com o saque, mulheres e gados, se sufo­cou a rebelião.

Glossário:
Aringa: defesa, tipo paliçada, feita de paus e pedras
Cazembes: os comandantes de uma ensaca - 250 homens
Langua de Malatane: grande delta acima de Angoche

Tem continuação, a ação deste jovem oficial. A continuar.

Fontes:
“Escola de Mouzinho” – Eduardo Lupi, Lisboa, 1929
“A República Militar de Maganja da Costa”, José Capela, Maputo, 1988

“Foto” – Blog Gurupez