segunda-feira, 16 de outubro de 2017



O Brasil é, sobretudo, um país de contrastes. Da Amazônia à Caatinga, das enormes capitais às mais humildes localidades, de rios supercaudalosos a regiões onde não chove, e quando chove é uma vez em cada sete anos, já não falando nos milionários e nas favelas, na riqueza e na pobreza, flagrantes.
Mais de oito milhões e quinhentos mil quilômetros quadrados de superfície, o terceiro ou quarto produtor mundial de alimentos, mais de duzentos milhões de habitantes, onde apesar dos assassinatos, corrupção, banditismo/política, a esmagadora maioria das gentes são de uma gentileza e carinho que não se encontra em outro país, parece que teria tudo, mesmo tudo, para ser o paraíso terreal.
Mas...
Eu estou cansado. Todos estamos cansados de assistir, permanentemente, ao descaso, à impunidade, ao jeitinho corrupto, a ver sumir pelos esgotos dos bolsos dos governantes a riqueza que a população, sofridamente produz, sem que se consiga ver uma luz, uma luzinha, lá......... lá no fim do túnel!
Os jovens que não vêm qualquer futuro a prazo mediano, vão ou querem ir embora, os institutos de investigação estão sem verbas e os cientistas abandonam o país, as universidades em greve porque não têm dinheiro para pagar aos funcionários, nem sequer a conta da luz, a insegurança obriga a fecharem, quase diariamente restaurantes e bares que estavam abertos à noite, a cada quinze segundos um celular é roubado e logo aparece à venda nas cracolândias e nalguns camelôs, cargas e cargas de caminhões são roubadas (no Estado do Rio a média, este ano é de 28 cargas roubadas POR DIA !!!) e a mercadoria logo aparece à venda em lojas suspeitas e vendedores ambulantes, enfim um desregramento, um descaso, uma tristeza sem fim.
E todos, todos, estamos cansados, estamos fartos disto.
Ainda há quem julgue que terá sido De Gaulle que disse que o Brasil não é um país sério ! Há dias escrevi sobre isto. Não foi ele, mas, ao tempo, o Embaixador do Brasil em Paris, Carlos Alves de Souza (1901-1990).


Quase nada a Wikipédia nos diz sobre este senhor. É pena.
Procurei e encontrei, com facilidade, usado, o livro que ele escreveu, quase dezoito anos depois de se ter aposentado em 1961, «um embaixador em tempos de crise», que retrata um pouco do que era o Brasil entre os anos 20 e 60, do século passado.
Muito bem escrito, por um homem extremamente culto e educado, que viveu momentos importantes na história da Europa e do Mundo, de caráter impecável, a sua leitura leva-nos do riso à indignação em poucas linhas.
O descalabro dos serviços públicos no Brasil, o infernal tráfico de influências, o desbarato das finanças públicas, o descaso do Itamaraty perante problemas cruciais, a negligência dos mesmo serviços que não respondiam a assuntos angustiantes como, por exemplo, quando o Embaixador telegrafou de Belgrado informando dia e hora em que a Alemanha ia invadir a Polônia, dão um retrato que parece sair quase dos tempos das capitanias quando um assunto era enviado à corte, em Lisboa e, quando havia boa vontade e bons ministros, a resposta voltava ao Brasil largos meses ou anos depois... quando...
E a correspondência que chegava às Embaixadas, com um ou mais meses de atraso, era toda censurada pelo DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda - órgão de propaganda no governo Getúlio Vargas.
A certa altura, em 1937, depois da Revolução de 1932, o Embaixador escreve: «conclui que liberdade e democracia no Brasil eram utopia e não valia a pena fazer sacrifícios inúteis».
Mais adiante, depois de relatar um curioso caso em Belgrado, sobre passaportes, diz que hoje, 1977, « está tudo facilitado: basta a declaração de um diplomata que é casado com fulana de tal, sem apresentar qualquer quer certidão, e o Itamaraty manda passar passaporte diplomático. Acontece que há (ou havia?) casos em que um funcionário aparecia casado com duas ou mais esposas. »
(Ainda hoje não estamos muito longe disso: o ex-presidente, agora oficialmente bandido, mandou passar passaportes diplomáticos a toda a família, e apesar de ter deixado a presidência há dez anos, alguns continuam a usufruir dessa regalia. E muitos outros comparsas.)
No fim da II Guerra, o Brasil tinha direito a indenizações. Além das muitas vidas humanas que se perderam, teve 33 navios afundados por submarinos alemães.
Em 1942 «o Almirante Ingram, Comandante da Esquadra Americana do Atlântico Sul, solicitou ao Governo brasileiro quais as categorias de navios que precisávamos. O assunto foi levado ao Presidente (Vargas) que pediu ao Ministro da Marinha, que consultou o Estado Maior da Armada, que consultou o Almirantado, etc. Ficámos na eterna discussão se deveríamos pedir destroiers, scouts, encouraçados ou submarinos. O tempo foi correndo e nenhuma resposta. Chegou o fim da guerra e o Brasil jamais enviou a resposta solicitada! »
Em 1945, o Brasil tinha um bom saldo em dólares nos Estados Unidos. Quando o Embaixador foi a Nova Iorque tomou conhecimento «de um tremendo escândalo na venda de automóveis, novos e velhos para o Brasil, que por ter pouco combustível tinha pouquíssimos carros. Os automóveis eram muito baratos nos Estados Unidos e caríssimos no Brasil. E assim desapareceu o saldo em dólares, que o Brasil possuía nos Estados Unidos, única vantagem de ordem material que o nosso país havia obtido pela sua participação na Segunda Guerra Mundial. »
1946-47 – Embaixador em Havana. «Naquela época eu julgava que todos pagavam, normalmente, as passagens nos aviões da Panair do Brasil. Puro engano. Pagar excesso de bagagem era considerado humilhação, e muito poucos pagavam a passagem integral. Um dia assisti a uma discussão curiosa: um multimilionário reclamava por estar a pagar pelo excesso de bagagem e ameaçava o agente da Panair de demissão. O agente foi demitido. Um dos meus secretários disse-me, num voo a caminho do Brasil, que eu era a única pessoa a bordo que tinha pago a passagem integral. A Panair só não faliu antes porque um dos maiores acionistas era a Companhia de Seguros Ajax, que fora agraciada com o monopólio de todos os aviões e autarquias. Assim, concedia passagens e até hospedagem nos hotéis aos protegidos do Governo. Esse escândalo era sabido de todos que viviam no exterior. »
(E hoje... como é?)
Há um mês em 12 de Setembro, escrevi um apontamento sobre a célebre frase atribuída a De Gaulle, mas agora, com o livro do Embaixador apareceram mais detalhes que fazem da Guerra da Lagosta, uma página, não épica mas hípica, aliás asinina, “guerra” tão caricata que até o menestrel, Ari Toledo fez chalaça com isso, “que barcos franceses, de volta à França levavam lagosta que lá no France todo o mundo gosta”!
Nada mais ridículo do que a chamada "guerra da lagosta", que apenas demonstrou a falta de entrosamento da Secretaria de Estado com as Embaixadas e a leviandade dos nossos governantes. Tudo se passou de modo completamente diverso do que os jornais publicaram.
O Sr. Pleven, antigo Presidente do Conselho da França, amigo e correligionário do General De Gaulle, presidia a maior companhia de pesca da Bretanha. Estava escasseando a lagosta na costa francesa, e os navios iniciaram a pesca na África, tendo Dakar como base. No fim de algum tempo, acharam que a lagosta também era pouca na costa da África. Pleven pediu ao Quai d'Orsay para telegrafar ao Embaixador da França no Brasil, a fim de solicitar ao Governo brasi­leiro licença para pescarem na costa nordeste do Brasil. O Embaixador obteve uma audiência com o Presidente João Goulart, que deu instruções às autoridades competentes para que os pesqueiros franceses iniciassem a pesca. A Embaixada do Brasil nunca teve a menor informação da gestão do Embaixador da França, e do Brasil tampouco mandaram à Missão Diplomática em Paris uma só pala­vra sobre esse assunto. Como tudo foi tratado no Palácio do Planalto, tenho dúvidas de ter sido o Itamaraty informado dessa permissão.
Os pesqueiros franceses começaram a trabalhar e transportavam a lagosta para Dakar, de onde eram expedidas por avião para Paris.
Anual­mente, em Genebra, se reúne a Conferência dos Direitos do Mar e o representante do Brasil era sempre o Embaixador Gilberto Amado. Na última Reunião, mais uma vez, o Delegado do Brasil defendeu a tese de que deveria continuar a ser mantido o mar territorial de 12 milhas. Outros países queriam estendê-lo para 50 e até 100 milhas, mas o Delegado brasileiro manteve firme sua posição. Nada ficou resolvido; não foi as­sinado nenhum tratado e tudo ficou adiado para a próxima Conferência anual. Os franceses estavam pescando a 30 milhas da costa brasileira, onde constataram haver maior quantidade de lagostas. Tudo isso ignorava a Embaixada do Brasil em Paris.
Um dia foi procurar João Goulart o Senador Barros de Carvalho, amigo do Presidente, para informar-lhe que as companhias brasileiras de pesca, com sede em Recife, estavam indig­nadas com a licença dada aos franceses pelo Governo. Estavam elas perdendo cerca de quatro milhões de dólares anuais com essa pesca de lagosta pelos pesqueiros da Bretanha. O Presidente, provavelmente sem pensar nas consequências do seu ato, com a mesma ligeireza que dera autorização, a revogou. O Ministro da Marinha, Almirante Suzano reuniu a imprensa e solenemente anunciou que o serviço secreto da Armada obtivera informação segura que o porta-aviões Clemenceau, a mais poderosa embarcação da Marinha de Guerra francesa, escoltado por dois destroiers e uma fragata, navegava para o Brasil. Suzano, pavio curto, mandou a esquadra sair para o mar, “pronta para o que der e vier”, e sequestrou e levou para Recife dois navios pesqueiros franceses, já carregados de lagostas. A Embaixada em Paris continuava tudo ig­norando.
Da França não veio nada.
Certo dia, o Embaixador Chabornel, Secretário-Geral do Ministério, pedia-me para ir vê-lo e, pela primeira vez, soube de todas essas gestões de Pleven e do sequestro dos dois pesqueiros. Pedia-me que telegrafasse ao Governo brasileiro solicitando a liberação imediata das embarcações e a continuação da pesca, autorizada pessoalmente pelo Presidente da República, na presença do Embaixador da França. Tele­grafei imediatamente ao Itamaraty. Pelos jornais franceses soube que ti­nham sido liberados os pesqueiros, mas o Itamaraty não respondeu ao meu telegrama. O Embaixador Roché confiou-me que o Governo francês não se conformava com o sequestro, que poderia ter consequên­cias graves. A permanência, em Recife, de navios de guerra brasileiros patrulhando a costa, agravava a situação. No dia seguinte, fui novamente chamado pelo Secretário-Geral do Quai d'Orsay, que me comunicou haver o Governo francês mandado uma canhoneira da Marinha de Guerra para proteger os pesqueiros franceses, que estavam a cerca de 40 milhas da costa brasileira, e, consequentemente, fora das nossas águas territoriais. Te­legrafei ao Itamaraty e continuei sem resposta. Da minha casa, resolvi telefonar ao Chanceler Araújo Castro, que disse-me haver conversado com o Presidente. Jango considerava o assunto sem importância e narrou-lhe a conversa com o Senador Barros Carvalho. Disse-lhe mais que o sequestro fora coisa do Almirante Suzano, Ministro da Marinha. O Araújo Castro não conseguiu convencer o Dr. João Goulart de que o caso poderia tornar-se sério e pediu-me para reforçar seu ponto de vista, telefonando diretamente para o Presidente da República. Foi o que fiz. Disse ao Presidente que eu conhecia bem o Suzano, desde o meu tempo de Marinha, que, apesar de ser considerado um bom oficial, sempre foi atrabiliário. Retrucou-me Jango que o Araújo Castro e eu estávamos "levando a sério um caso sem a menor importância".
Os jornais franceses não mais falaram no assunto, porém a imprensa brasileira, com rara infelicidade, fazia comentários inverídicos sobre o problema e diziam que a Marinha brasileira tinha dado uma boa lição aos franceses.
Certo dia, quando os jornais franceses não mais falavam sobre a "guerra da lagosta", a Secretaria da Presidência da República comuni­cou-me que o General De Gaulle desejava ver-me no dia seguinte, à tarde. Eu sabia o que me esperava. Ia advogar uma causa ingrata, pois sempre achei que a França, estava coberta de razões e o incidente tinha sido envenenado pela imprensa brasileira. Aliás, recordo-me que no auge da crise, fui procurado pelo Sr. Luiz Edgar de Andrade, correspondente do "Jornal do Brasil" em Paris, com quem mantinha boas relações. Neguei-me a dar-lhe uma entrevista, pois havia lido no seu conceituado jornal notícias inteiramente inverídicas. No dia seguinte, fui avistar-me com o General. Começou fazendo um histórico sobre o caso da la­gosta, a permissão do Presidente Goulart para a pesca, o sequestro dos pesqueiros, as notícias inverídicas da imprensa brasileira e as críticas a ele e à França. Era sabido que o Presidente De Gaulle tinha o hábito de misturar sua extraordinária e real personalidade com a própria França. Tudo que ele disse era a verdade nua e crua. Argumentos sérios para responder, eu não os tinha e peguei-me numa falha cometida pelo Governo francês. Disse-lhe que o Governo brasileiro havia ficado chocado com a ida de um navio de guerra para proteger os pesqueiros. Respondeu-me, prontamente, que a canhoneira francesa tinha ficado, ao lado dos pes­queiros, a 40 milhas da costa brasileira, e que as águas territoriais continua­vam a ser de 12 milhas, tese aliás defendida pelo Delegado do Brasil em Genebra. Finalmente, o General pediu-me transmitir ao meu Governo nossa conversa. Assediado pela imprensa e correspondentes dos jornais brasileiros, respondi que nada tinha a declarar, e se quisessem informações solicitas­sem à Secretaria da Presidência da República. Telegrafei ao Itamaraty e, pouco mais tarde, compareci à recepção que oferecia na sua residência o Presidente da Assembleia Nacional, Sr. Jacques Chaban-Delmas. Repentinamente, surgiu diante de mim o jornalista Luiz Edgar de Andrade. Insistiu para que eu lhe dissesse algo sobre minha entrevista com o General De Gaulle. Respondi-lhe que não daria nenhuma entrevista. Mas, não poderia deixar de ter uma conversa amistosa com uma pessoa por quem sempre tive a maior consideração. Falei-lhe sobre o tal samba carnavalesco, "a Lagosta é nossa", as caricaturas do Presidente De Gaulle e terminei a conversa di­zendo: Luiz Edgard, "le Brésil n'est pas un pays sérieux". Provavelmente, ele telegrafou ao Brasil não deixando claro se a frase era minha ou do General De Gaulle, com quem eu me avistara poucas horas. Luiz Edgar é um homem correto, e estou certo de que o seu telex ao jornal não teve intuitos sensacionalistas. Mas, a frase "pegou". É evidente que, sendo hóspede do General De Gaulle, homem difícil, porém muito bem educado, ele, pela sua formação e tem­peramento, não pronunciaria frase tão francamente inamistosa em relação ao país do Chefe da Missão que ele mandara chamar. Eu pronunciei essa frase numa conversa informal com uma pessoa das minhas relações.
Muitas outras histórias, interessantes e ridículas conta o Embaixador Carlos de Souza, que termina o seu livro com este desabafo:
Na minha vivência de mais de 50 anos nos meios militares, diplomáticos, políticos e sociais, cheguei a duas conclusões melancólicas:
“A primeira é a de que a argila da qual foi feito o brasileiro, não é de boa qualidade. E a outra, em que foi acertada a minha frase, atribuída ao General De Gaulle:
"le Brésil n'est pas un pays sérieux".

Com esta nojeira a que estamos a assistir na política, na justiça, na segurança, etc., parece que infelizmente o Embaixador continua cheio de razão.


13-out-17

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Soltas e misturadas

2017 - Luis Fernando Veríssimo.  O grande escritor e jornalista escreveu um dia esta frase lapidar:
O ateísmo é aborrecido como um mundo sem loiras!
Sensacional. Como tudo que ele escreve.

1968 - Capucine. Há uns 50 anos um milionário português deu uma baita festança em Portugal, convidando ilustres, políticos, ricaços, artistas e gente do cinema. Muita festa, muita música e uma das convidadas era a lindíssima modelo e atriz Capucine, com quarenta aninhos e no auge da sua glória (e olha que “glória”!)


Às tantas um dos convidados convidou-a para dançar. Aquela mulher lindona atraía qualquer um, e o parceiro estava já naquele ponto de animação que alguns bons copos permitem. Par na pista, o “macho” começou a “aconchegar-se” cada vez mais, e ela, tanquila, diz-lhe:
- “Je dois vous prevenir, monsieur, que je n’aime pas les hommes, je n’aime que les femmes”.
E ele:
- “Oh! Tal como eu! Eu também só gosto de mulheres!”
Foi um sucesso para quem ouviu e viu que ele não a largou. Terá sido um dos pontos altos da festa.

213 dC - In Hoc Signo Vinces
Ainda em Portugal se ensina (ou ensinava?) que o 1° Rei, Afonso Henriques, tinha ganho a batalha de Ourique, que ninguém sabe se houve ou se é papo de historiador puxa-saco, porque teria avistado no céu uma cruz e esta frase “In Hoc Signo Vinces”. Isto em 1139!
Ourique serve, a partir daí, de argumento político para justificar a independência de Portugal. A bandeira de Afonso Henriques não era mais do que um fundo branco com duas linhas azuis cruzadas (igual á atual bandeira da Finlândia), mas diz-se que, tendo vencido em Ourique cinco reis mouros e visto os sinais de cristo, Afonso Henriques adota como brasão de armas de Portugal cinco escudetes (cada qual com cinco besantes), representando as Cinco Chagas de Cristo e os cinco reis mouros (teoricamente?) vencidos na batalha.
(Alguma coisa aconteceu, onde, como e quando é que prevalece misteriosamente na lenda!)



O mais estranho é que a primeira referência conhecida ao milagre ligado a esta batalha é do século XIV.
Já, em 312 d.C., pouco antes da batalha contra Marcus Aurelius Valerius Maxentius Augustus, um usurpador do trono imperial romano, o Imperador Constantino, ao olhar o sol, viu uma cruz luminosa acima deste, e com ela as letras gregas (X)  e (P),  as duas primeiras letras do nome de Cristo. Segundo a lenda, Constantino adotou como lema, essa frase grega "εν τούτ νίκα" (em grego, que foi traduzida para latim in hoc signo vinces), e o Rei de Portugal foi na carona!
Camões, na sua obra maestra, sempre procurando enaltecer os feitos dos portugueses, não podia deixar de se referir a esta “batalha” e lembrar a origem dos escudetes que ainda hoje a bandeira ostenta:  

Vós, tenro e novo ramo florescente
De uma árvore, de Cristo mais amada
Que nenhuma nascida no Ocidente,
Cesárea ou Cristianíssima chamada
(Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitória já passada,
Na qual vos deu por armas e deixou
As que Ele pera si na Cruz tomou)

Os escudetes continuam a ter, cada um cinco besantes. Há quem os represente em onze. Gostos. Besante, de Bizâncio, moeda trazida do oriente. Afonso Henriques ao incluir os besantes dentro dos escudetes quis mostrar que era já rei e assim poderia emitir moeda própria.

1958 - Leonor. Quando a conheci, na Cuca, em Luanda, Leonor era a secretária do diretor geral. Teria uns 30 anos. Inteligente, culta, um físico que captava e causava inveja a outras colegas e tremores de emocionais desejos aos homens! Alta, corpo cheio com precisão, o peito de volume igualmente atraente, bem alinhado para a frente, andava com estudado bamboleio, por onde passasse deixava estúpidos suspiros nos infelizes! Infelizmente, em criança tivera varíola, que lhe deixou alguns resquícios, o que não impedia que fosse uma mulher muito atraente.
Naquele tempo, apesar de passado já século e meio desde a chegada da família Real ao Brasil, parece que nos escritórios da Cuca só haveria uma máquina de escrever, visto que era a Leonor que “batia” os relatórios do Diretor Geral, e até os corrigia porque o tal diretor, ótima pessoa, mas bastante fraco diretor era certamente também fraco redator.
Chegou a minha vez de precisar datilografar um relatório para a Administração (em Lisboa!) com um estudo sobre a implantação duma fábrica de rações; procurei uma máquina para isso, mas só a Leonor detinha tal preciosidade!
Sempre sorridente e prestável, datilografou tudo num instante, e quando mo devolveu constatei que se tinha dado ao “luxo” de alterar algumas frases minhas. Não gostei, e fui dizer-lhe que mesmo que ela não gostasse da minha escrita, ela era minha e eu não deixava que a alterassem. Acatou muito bem, não se perturbou e corrigiu tudo.
Os escritórios da Companhia, estavam num armazém que teria uns 15 ou 20 metros de comprimento e uma meia dúzia de largura, onde mais tarde passou a ser lugar onde pernoitavam os caminhões da distribuição. O diretor geral tinha a sua sala numa ponta, a da secretária ao lado, e eu uma mesa na ponta oposta.
Um dia a Leonor saiu da sua salinha, atravessa a galpão dos “manga de alpaca” e vem me pedir se a levava a casa, porque se estava a sentir mal. Disse logo que sim, avisei que voltaria ainda antes do almoço. Estava mesmo com febre e ficou uns dias em casa.
Mas a turma dos babosos machos, ao verem-me sair com a Leonor, fofocaram logo que entre nós haveria alguma “coisa”. Pobres invejosos!
Nunca houve nada, a não ser uma amizade simpática que crescia à medida que melhor nos íamos conhecendo dentro da companhia. Sempre a respeitei e tive também como um dos meus melhores amigos um seu irmão, o meu querido e saudoso Bartolomeu.
Soube mais tarde, já eu não estava na Cuca, que ela havia casado com um colega. E sei que tiveram um filho, mas nunca mais os vi.

1960 – Jornal “A Comarca de Arganil”. Era relativamente grande a colónia de arganilenses em Luanda. Um deles, que bem conheci, era dono da famosa Cervejaria Suiça, “ali” no Largo Serpa Pinto (hoje Largo Amilcar Cabral) e muito amigo do homem das Relações Públicas da Cuca, o famoso e de longa e profunda saudade, o Renato Lima. Creio que o jornal de Arganil, “A Comarca de Arganil” já com meio século de existência, pertencia, em todo, ou em parte aos irmãos Castanheira Nunes. O Vitor, da cervejaria em Luanda e o irmão diretor do jornal lá no “puto”.

O jornal tinha em Luanda bastantes assinantes e um dia vieram da terrinha, o “patrão” Castanheira Nunes e o diretor “oficial”, um padre, cujo nome esqueci. (Para ser diretor de jornal era necessário ter um curso superior! Então o dono geria e o padre assinava!).
Calhou nessa altura eu ter que me deslocar (de carro, no robusto Jeep Station da Cuca) a Porto Amboim e Novo Redondo (hoje Sumbe), e o Renato diz-me que estavam em Luanda os diretores do jornal, irmãos do Vitor, etc. que gostariam muito de dar uma volta pelo “mato”.
Igual a este, pintado de amarela e com “Cuca” nas portas!

O Vitor, homem grande, aí uns cento e uns quilos, o Renato, baixo com outros tantos, o irmão portuga de robusta estatura... mais modesta, o padre mais ou menos como eu, e o ajudante da carrinha, indispensável para viajar por Angola, angolano alto e forte, mas não gordo, perfazíamos seis passageiros a encaixar naquele Jeep que não era exatamente um Cadillac.
Entrou tudo, bem encostados uns nos outros e lá vamos. Seguimos por dentro do Parque da Quissama onde se viram alguns animais e, bem mais adiante, deitada no meio da estrada (estrada? Picada e olha lá!) uma bela onça (ou leopardo) gozava o sol e a tranquilidade da tarde. O padre que seguia no banco da frente (no meio o ajudante e eu a conduzir) ficou animadíssimo. Com a aproximação do carro o animal calmamente se levantou, saiu da estrada e sumiu no mato. O padre pensou que o resto do caminho seria uma verdadeira aventura de zoológico. Enganou-se. Até chegarmos a Porto Amboim, carregados de pó do caminho, nada mais vimos!
O Renato já tinha avisado pelo telefone, ao nosso agente, que chegaríamos nesse dia e queríamos um jantar digno de reis, melhor, de imperadores. O que ali não faltava eram lagostas e gambas de fazer inveja a qualquer restaurante de 50 estrelas Michelin! Uma maravilha!
E os quartos do hotel, reservados.
O restaurante dava frente para o largo principal e as traseiras para uma rua mixuruca onde, do outro lado, ficavam os quartos do “palace”. Todos com porta para a rua, e um só banheiro, com a mesma serventia. A rua!
A primeira coisa que todos quisemos fazer foi tomar um banho e livrarmo-nos dos quilos de poeira no corpo. Mas havia que esperar uns pelos outros. O nosso querido Renato, mais a sua respeitável barriga, despiu-se no quarto, envolveu-se com uma toalha que não lhe tapava quase nada e postou-se à porta do banheiro. Pouca gente passava nessa rua, mas os poucos que tiveram o privilégio de ver tão caricata quanto simpática figura ainda hoje devem estar a rir!
E o jantar foi de nababos!
Gostaria de encontrar entre os meus muitos papeis o jornal onde depois os visitantes contaram esse passeio!
Lembro que escreveram que o condutor (era eu) corria muito e todos iam com o credo na boca! Não sei em que boca, pois os três passageiros do banco de trás, bem encaixados e apertados, foram quase todo o caminho a dormir e... a ressonar em tom bem audível.

*          *          *

O tempo não espera por ninguém.
Ontem é história.
Amanhã é um mistério.
O hoje é uma dádiva, por isso é chamado de presente.


10/10/2017

sexta-feira, 6 de outubro de 2017


Direitos Humanos

Leis de Direitos Humanos, ONGs de Direitos Humanos, Ministros de..., muitos direitos, muitas leis.
Esqueceram os legisladores das LEIS dos Deveres Humanos.
Fácil. Há cerca de 3.600 anos foram inscritas em pedra e entregues a Moisés. Basta recordar estes poucos Mandamentos: (Mandamento é o que MANDA que se faça: o que se deve fazer)
Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra.
Não matarás.
Não adulterarás.
Não furtarás. (Nem roubarás!)
Não dirás falso testemunho.
Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo (nem o marido da próxima!), nem o seu escravo, ou a sua escrava, ou o seu boi, ou coisa alguma do teu próximo, e de qualquer outra pessoa."

Um pouco antes, cerca de 4.000 anos houve um rei, Hamurabi - Khammu-rabi, rei da Babilônia no XVIII século A.C – que decidiu pôr alguma ordem na casa e, para isso criou um código de leis que, para mal da humanidade, muitas delas foram esquecidas ou postas de lado, pelo sofisma dos nossos dias a que, só por piada, e de mau gosto, chamam “Direitos Humanos”.
Primeiro: o que são Direitos Humanos? Uns fazem o que querem, matam, roubam, estupram, violam criancinhas, roubam o país e o bem estar do povo, traficam drogas e armas, desestabilizam as comunidades, desviam materiais nas construções de casas, ruas, pontes, etc., etc., etc., e depois a sociedade, sacrificada, de luto, ainda tem que os tratar nas palminhas? Famílias que perdem filhos, mães, pais, irmãos, parentes, amigos, ficam a ver os assassinos e os bandidos à solta e bem tratados? Os Direitos são de quem ataca, mata ou rouba ou deveriam ser de quem sofre com tudo isso?
No Brasil há 630.000 presos e as cadeias, TODAS, só têm lugar para 420.000. O que acontece aos que vão presos? Especializam-se em cada vez mais delinquência, assassinatos, etc. É lá que mora a maior parte dos grandes chefes de quadrilhas. É de lá que se comandam assaltos, guerrilhas, assassinatos, e, como não há prisão perpétua, qualquer dia estão cá fora, ricos e assassinos.
Vejamos algumas situações que deveriam ser enquadradas em novas/velhas leis. Comecemos por descrever alguns dos crimes que também se deveriam declarar hediondos e não prescrevíveis.
a.       Crimes sexuais: estupro e pedofilia.
b.       Crimes de morte: assassinatos, assaltos à mão armada – que pressupõe intenção de matar – rebeliões e badernas por questões de tráfico de drogas, de armas, contrabando ou outras semelhantes. Assaltantes a bancos, residências, a pedestres, empresas. Ladrões em geral. Uso de armas de guerra.
c.        Crimes financeiros: corrupção, desvio de verbas públicas, enriquecimento ilícito, improbidade administrativa (favorecer apaniguados, família, etc.)
d.       Engenheiros, arquitetos ou construtores desonestos ou ineptos, cujas obram desmoronam e ferem ou matam alguém e levam muitos a prejuízos enormes. Entidades com a obrigação de fiscalizarem edifícios se estão habitáveis ou não, se têm o conveniente equipamento e estrutura para evitar incêndios, etc.
e.        Juízes que vendem sentenças ou decidem por compadrio. O mesmo para policiais e outra gente que deveria pertencer à Segurança do país e da população.
Para todos estes, Hamurabi previu sanções apropriadas, algumas das quais o avanço da ciência pode hoje resolver com facilidade, para situações como
a1.- Estupro: na primeira vez, tratamento de castração química, durante, no mínimo, um ano. Um tipo de imunocastração como se utiliza nos bovinos. Prevaricou, castração cirúrgica.
a2.- Pedofilia: é uma doença que parece incurável. O único tratamento eficaz é a castração cirúrgica para homens e a química, se necessário por vários anos, para mulheres.
Hamurabi era mais eficiente: pena de morte.
b1.- Quem porta uma arma de guerra, sua intenção não é exibir-se ou assustar; é matar se for enfrentado. Então que morra ele primeiro. Guerra é guerra, e ninguém no seu estado mental normal, ao ver um inimigo vai perguntar-lhe se ele quer matar ou só meter medo. Ele quer meter bala. Então, primeiro eu, se puder. Se for feito prisioneiro e tiver no seu curriculum algum assassinato, chamamos o bom velhinho rei Hamurabi, e dá-se ao assassino uma bala das dele, que se lhe envia através do cano da sua própria arma.
b2.- Traficantes de drogas e armas: os traficantes, mesmo que não dêem um tiro (meio difícil de conceber tal situação) estão a destruir vidas; a primeira vez que forem apanhados, corta-se lhes uma mão. Se insistirem, à segunda vez, a outra. E se quiserem continuar... corta-se a cabeça. O mesmo para contrabandistas, assaltantes, ladrões e semelhantes.
c.- Crimes financeiros. Em primeiro lugar o criminoso deve ser obrigado a repor cinco vezes o que roubou. A seguir corta-se lhe uma das mãos. Se insistir, vai a segunda mão e depois... Crime de improbidade administrativa: obrigado a repor, no valor de cinco vezes, os prejuízos causados à res publica. E se houve também ladroagem... lá vai a primeira mãozinha.
d.- Diz-nos Hamurabi que se um arquiteto (ou construtor ou engenheiro) construir uma casa, ou uma ponte ou outra obra, e que esta caia e mate o proprietário, o arquiteto deve morrer. Se morreu o filho do dono da casa morre o filho do construtor. O mesmo para os técnicos responsáveis pelas vistorias, o “habite-se”. (Isto leva-nos a pensar na ciclovia Tim Maia, onde morreram duas pessoas, no prédio Palace II construído pela Construtora Sersa de Sérgio Naya, que matou oito moradores, no incêndio na boate Kiss que matou 242 pessoas e feriu 680. Em todos estes casos houve muitas mortes, mas até hoje... os responsáveis... )
e.- São inúmeros os casos, conhecidos e divulgados, de juízes corruptos. Raros são exonerados, mas ainda vão para casa com um enorme salário da aposentadoria que daria para viverem BEM mais de dez famílias.
Hamurabi foi bem explícito: Se um juiz dirige um processo e profere uma decisão e redige por escrito a sentença, se mais tarde o seu processo se demonstra errado e aquele juiz é o responsável de ser causa do erro, ele deverá então pagar doze vezes a pena estabelecida naquele processo, e se deverá publicamente expulsá-lo de sua cadeira de juiz. Nem poderá voltar a funcionar de novo como juiz em qualquer processo.
Isto será a apologia da pena de morte? Não. Se eu me visse em frente a uma arma pronta a me atingir, eu faria o impossível por atirar primeiro. Defesa da vida e dos meus.
Implica somente responder à letra. No caso dos assassinos, ladrões, traficantes, aqui entra a famosa, e tantas vezes saudosa, Lei de Talião.
Deve perdoar-se? Quem perde um ente querido por assassinato será que tem capacidade de perdoar? Se perde na guerra não sabe sequer a quem perdoar.
Mas sempre, jamais, esquece.
Tempos houve em que se obrigavam os presos a trabalharem... DE GRAÇA. Já têm, que a sociedade paga, cama e comida, (abaixo de miserável, no Brasil) mas praticamente nenhuma hipótese de reabilitação.
Este sistema, que em França se chama TIG -Trabalho Institucional Gratuito - tem ajudado a repor na linha muitos que praticaram delitos relativamente menos graves. E trabalham como garis, jardineiros, serventes em empresas, com a grande vantagem de custarem à sociedade menos de 10% do que custa um preso encarcerado, e ainda em quase 50% das vezes o delinquente se regenera porque teve uma oportunidade na vida de se mostrar útil.
Na Suécia as cadeias começam a ficar vazias e algumas há que estão hoje alugadas para pequenas empresas!
Eu tenho o DIREITO de viver em PAZ – o Estado é responsável por isso - e o DEVER de me comportar segundo os Mandamentos, com só um pequenino acréscimo:

Fazer pelos outros o que gostaria que fizessem por mim.

06/10/2017

sábado, 30 de setembro de 2017



Crónicas de há 13 anos...

Ou de hoje?  Mudou alguma coisa?

1.    A  amarga  esperança


Não é preciso ser economista e, quem sabe?, talvez seja até melhor nada saber dessas ciências, para, com olhos de “inocência infantil”, perceber quando o rei vai nu!
As esperanças que animaram este país, há pouco mais de um ano, quando um batalhador homem do povo chegou ao topo da governança, começaram já a desvanecer-se. Que com isso viesse somente a desilusão... era muito bom. Mas antes da desilusão chega a nudez. Não só a do rei, mas sobretudo a nossa, que além de nos vermos despidos do nosso poder de compra, ainda continuamos a ser também despidos na nossa dignidade de seres “iguais perante a lei”.
As promessas de “mundo melhor” choveram. O programa “Fome Zero” sacudiu o mundo inteiro que aplaudiu. Faz agora um ano e foi festejado pelo governo. Com direito a discurso e tudo, na presença das individualidades mais altas (e mais bem pagas) e sem aqueles que adorariam aproveitar as “sobras” do festejo.
Os investimentos não avançam, nem na infraestrutura do país nem na área privada, o custo de vida continua a subir e o ensino a cair.
Só para se ter uma idéia, existem no país cerca de 800 “faculdades” que ministram o curso de Direito, das quais menos de 20% têm a aprovação do órgão conselheiro, a OAB.
Formam-se assim juristas “a martelo”, a um dos quais, já juiz, se ouviu dizer “eu quero condenar esse indivíduo”! Quer dizer: o sujeito não quer praticar justiça; quer condenar! E o pior é que pode. Ele tem a respaldá-lo a “lei” que pode ser manipulada. Lei? Que lei? O que é a justiça dos homens? É o interesse dos homens! Quais? Os que têm poder e acesso à feitura e execução dessas mesmas leis. Assistimos a juízes que condenam e a seguir vem um outro que absolve! Qual está certo? Possivelmente nenhum deles. Mas quem paga sempre é o mais fraco.
O governo domina a câmara federal. O judiciário não admite interferências na sua esfera, a não ser e quando lhe convém, sobretudo na nomeação dos juízes conselheiros, e a câmara está no “bolso” do governo!
Como sair deste tripé de três poderes que se resumem a um? Onde está a garantia da igualdade?
Volto sempre a lembrar-me do chinês: se os teus planos foram a 100 anos... educa o povo! E todos sabemos que há uma abissal diferença entre instrução e educação, e que só se alcança a segunda depois da primeira bem sabida e assimilada!
Será que vamos ter que esperar ainda 100 anos? É bem possível que sim, mas começando a contar somente depois de ter o povo a conveniente instrução para que possa compreender a educação.
Valha-nos Deus, uma das raras esperanças que ainda podemos, e devemos conservar e alimentar, sem no entanto deixar de lutar por dias melhores e ... mais brevemente.

07/02/04

2.    Quem  semeia  ventos...

Brasil! Terra abençoada por Deus! A viver um momento histórico de tal magnitude e profundidade que nem os cientistas conseguem explicar!
A história não refere muitos casos em que um humilde metalúrgico chega à presidência de um país, ainda por cima com uma esmagadora maioria de votos. Isso aconteceu por aqui.
Também não há memória, desde há pelo menos 60 anos, quando se começou a monitorar, via satélite, as condições meteorológicas do Atlântico Sul, de por aqui se formarem ciclones. Deus havia deixado isso para o primeiro mundo - USA, Japão, Austrália e pouco mais.
Mas chegou o poder popular ao poder, berrando, vociferando, prometendo milhões de empregos, redistribuição de renda equitativa e justa para todos, acabar com a fome, acabar com o analfabetismo, acabar com a corrupção, e acabar com a mamata dos poderosos - FMI e quejandos - que mamam em cima da miséria de milhões de pobres e inocentes.
Berrou, prometeu, amaldiçoou os governos anteriores, prometendo exorcizar o diabo que se teria infiltrado, através dos tempos, nas classes dirigentes e financeiras do país.
O país estagnou à espera de ver o milagre acontecer. E continuou a esperar. E espera. Os novos donos do poder, cansados talvez de fazer discursos mais ou menos fantasiosos e/ou infantis, como o menino imberbe que promete ao irmãozinho que lhe vai dar um brinquedo de luxo, começaram a discursar menos, a prometer menos, atribuindo as culpas da sua inépcia ora aos tais governos anteriores, ora ao próprio Cabral e agora à máquina administrativa que, sendo demasiado burocrática, não permite que os megalómanos projetos/promessas se realizem. Nem que comecem.
Semear ventos foi fácil. Fácil foi convencer o povo esperar o milagre com a sua meia, mesmo rota, pendurada na chaminé!
O povo é bom. É ótimo, e quere acreditar em alguém. Precisa disso. É crime desiludi-lo. Ele quer ver a sua meia começar a receber o que lhe foi prometido em troca daquele voto que foi uma espécie de cartinha ao Papai Noel.
Os altifalantes das campanhas eleitorais, e não só, gritaram aos ventos que tudo ia mudar.
Parece que finalmente começámos a mudar. A pertencer também ao primeiro mundo. Pela primeira vez chegou ao Brasil um vento “quase” ciclônico.
Os serviços competentes (???!!!) estavam avisados do fenómeno, perigoso, que chegaria, em dois ou três dias à nossa costa. Nada se fez. Chegou. Não trouxe nada de bom. Morte e destruição.
Os ventos semeados enfureceram-se e vieram castigar-nos.
Bem diz o povo, e o povo, que é a voz de Deus, tem sempre razão:
“Cuidado! Quem semeia ventos colhe tempestades!”

29/03/04

3.- As  telhas  de  Paraty

Paraty é uma cidade cheia de história. E como em toda a história do Brasil sempre há uma larga parcela de sofrimento humano. Os índios, que se viram em confronto com uma nova raça mais forte e determinada, tal como os neandertal ao se encontrarem com os homo sapiens, os africanos infamemente vendidos pelos seus iguais e forçados a uma vida miserável e duríssima, e até os próprios colonos numa terra nova, agreste, de clima difícil, uma teórica terra de promissão e futuro, de um futuro que tarda a chegar!
Mas nem por isso, ou talvez por tudo isto, Paraty, uma cidade antiga, que guardou ao longo dos anos as suas características arquitetônicas coloniais, é muito bonita. Orgulho do Brasil. Orgulho da beleza que foi legada por toda aquela gente que construiu este país, e de quem se pretende ao mesmo tempo renegar e ridicularizar as raízes.


Paraty acolheu a 2ª Festa Literária Internacional, organização em tudo louvável, e que trouxe ao país muitos dos grandes nomes da literatura mundial.
Um deles, Lídia Jorge, a quem é dedicada mais de uma página, com fotografias dela e da cidade que a recebeu e elogiou, no jornal “O Globo”.
Mas... há sempre uma pedra de complexo de ex-colônia no sapato de boa parte deste povo. Agora no sapato da entrevistadora Rachel Bertol, que em grande manchete, em vez de elogiar a escritora portuguesa, se lembrou de desfazer no tempo colonial dizendo que as telhas daquela cidade, por irregulares, teriam sido feitas nas coxas das escravas! Aquelas telhas simples antigas.
Não sei se a Rachel é do tempo da escravatura, mas... duvido!

             
Que absurdo! Eu não sou historiador, nem investigador da história. Sou aquilo a que talvez se possa chamar de um curioso, e interessado, em história. Cometeram-se violências terríveis contra os escravos. Sem dúvida. Mas jamais vi escrito, onde quer que fosse, que as telhas tivessem sido moldadas nas coxas das escravas.
E o absurdo apresenta-se flagrante: nas coxas de quais escravas? Das moças bem-feitas de corpo, pernas roliças, duras, ou das velhas já imprestáveis para qualquer outro serviço?
O molde para aquele tipo de telha seria a coisa mais barata de se conseguir: um pedaço de tronco de árvore! Alguém imagina que um oleiro proprietário de escravas iria usar um “molde” tão precioso como as coxas das bonitonas, impedindo-as assim de renderem muito mais em outros trabalhos, desde a cozinha à lavoura e até ao seu aconchego nas noites mornas dos trópicos?
Os escravagistas eram, alguns deles, muito violentos, desumanos. Dificilmente seriam tão estúpidos a ponto de deixarem uma escrava bonitona deitada, sem nada mais fazer do que permitir que outro escravo lhe amaciasse as coxas com o barro úmido! Nem que o escravo fosse eunuco! Porque ao fim de amaciar duas ou três telhas...
Tudo isto que se conta, se divulga em largas manchetes, em jornais de responsabilidade, sem fundamento histórico e comprovado, é fruto dum tremendo complexo de inferioridade. Faz-se um imenso esforço para se conservar uma cidade histórica na sua maior beleza, declara-se até que a cidade é Patrimônio Mundial, e ao mesmo tempo procura denegrir-se o passado dos seus construtores.
A ignorância da história é lamentável e, às vezes, desculpável. A sua deturpação de modo intencional é, a todos os títulos, condenável.
Além disso, querer renegar o nosso passado é o mesmo que renegar os nossos pais, cortar as nossas raízes.
E, é bom repetir, povo sem passado é povo sem futuro! Talvez por isso o tal futuro custe tanto a chegar.

11/07/04

Se tivesse, hoje, que comentar os mesmos assuntos... repetiria o que está escrito e reescrito, por mim e mais umas dezenas ou centenas de outros!

28/09/2017