terça-feira, 28 de março de 2017


O Rio de Janeiro
Histórias da sua História
- 1 -

Sempre foi assim e não vai mudar nos próximos séculos.
O Brasil bateu todos os recordes do mundo em ladroagem e corrupção, tem uma classe política com uma abissal falta de educação, cultura, ética, classe e conhecimentos, mas continua a ser um lugar meio mítico com o seu carnaval, as suas praias e as suas gentes, sempre amáveis.
Corrupção houve desde sempre, sempre. Lembremos só o Bezerro de Ouro, a ter-se passado foi há mais de 3.500 anos, os 30 dinheiros que o pobre Judas recebeu, os presentes que davam a Khrushchov quando premier dum mundo eufemisticamente chamado comunista, o governo do general Grant no EUA, considerado o mais corrupto de toda a história daquele país (incluindo Busch) e centenas, milhares de outros, entre eles o Príncipe Bernardo da Holanda que recebeu mais de um milhão de dólares de para que usasse sua influência junto ao governo neerlandês na aquisição de aviões de combate... americanos! No melhor pano cai a nódoa! Haja panos!
Joaquim Manuel de Macedo, médico, escritor e jornalista brasileiro (1820-1882) deixou-nos uma preciosidade histórica no seu livro “Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro”.
É deste livro que vos contar algumas histórias, ao mesmo tempo que vos desafiamos a visitar os lugares nelas citados.
Sabemos que é difícil andar pelo centro da cidade à procura destas histórias, sobretudo para quem, como eu, que já não pode andar quilómetros, e quase também não hectômetros, sem ter que parar para repor o folego que se gasta rapidinho.
Comecemos por algumas que não requerem visitas.
Entre 1769 e 1778 governou o Rio de Janeiro, como vice-rei, o Marquês de Lavradio, chamado modestamente Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão d'Eça e Melo Silva Mascarenhas! Aqui chegou com 40 anos, dinâmico, encontrou o Rio num estado de quase abandono, sujo, ruas de terra, praticamente sem esgoto, e deu nova cara à cidade. É considerado um dos melhores governadores que por aqui passou. Quarenta aninhos, na força da vida, cheio dela e de energia era um “rabo de saias”, e ia “traçando” as meninas e senhoras fáceis que, normalmente depois, se vangloriavam de terem acolhido o marquês em suas alcovas... e suas pernas!
O governador saía de noite, todo encapuzado, quase irreconhecível e sabia bem a que portas bater, levemente, para não despertar a curiosidade dos vizinhos; ali fazia o que “tinham” a fazer e regressava altas horas ao palácio. Como é de imaginar os vizinhos não eram cegos nem surdos, era sabida a fama e proveito de Sua Excelência, e das parceiras (óbvio) mas ninguém se atrevia a comentar.
“Vice-rei! Acima dele só Deus, porque o rei, mesmo estava a meses de distância e, muito ocupado com a vida das freiras!!!  (Só de uma prioresa, D. João V teve três filhos)
Havia nessa época no Rio um conhecido doido, pobre e inofensivo, que vagava pelas ruas, e dizia o que lhe apetecia. O povo sempre gostou de puxar pela língua daqueles que nada têm a recear. Um dia sua excelência seguia a cavalo pela cidade, para visitar o andamento das obras que mandara fazer e cruzou-se com o doido, Romualdo.
Achou graça ao vê-lo, parou o cavalo e perguntou-lhe:
- Romualdo! Que dizem de mim aí pela cidade?
- Dizem que Vossa Excelência limpa as ruas mas suja as casas!
O povo que estava por perto ouviu a resposta, não conteve o riso e o Marquês picou o cavalo e saiu a galope!
Alexandre Dias de Rezende era um homem pardo, filho de um reconhecido carpinteiro trabalhador, que lhe deixou uma pequena fortuna que ele soube aumentar, entregando-se ao comércio. Passado algum tempo já tinha comprado uma grande chácara no caminho de Mata-Porcos (hoje rua Estácio de Sá). Com meios de fortuna, mulato, Alexandre sofria da inveja de muitos incapazes, dizendo que ele teria desenterrado um tesouro escondido no morro da Conceição e não o teria partilhado com os verdadeiros donos, que não havia! Se isso o perturbou, ele continuou seu caminho, honrado e acabou respeitado.
O vice-rei, entre o bom governo que fez, foi organizar os terços ou regimentos auxiliares da cidade do Rio de Janeiro, dispôs que o 4° regimento fosse de pardos e nomeou capitão de uma das companhias ao invejado Alexandre de Rezende.
No comando desse regimento ficou um português, major Melo, austero, violento e grosseiro.
Os pardos desse regimento eram frequentes vezes vítimas do mau génio do comandante, e atribuíam também esses maus tratos por influência do Marquês que tinha sido humilhado pelo pobre Romualdo.
Entretanto, terminado o seu mandato, o governo passou para Dom Luis de Vasconcelos e Sousa, 4° conde de Figueiró, cujo coração também se descompassava ao ver as lindas Moreninhas ou outras de quaisquer variados tons de pele das cariocas, mas não consta que tenha sido um Casanova. Afável, duro quando necessário, duas pequenas passagens atestam a sua personalidade.
Continuemos com Alexandre e o major Melo que se manteve no posto no novo governo, quando um dia tratou indignamente o capitão, que, à noite, foi a casa do major expondo o acinte que sofrera e que não devia passar sem uma satisfação a todo o regimento.
O major olhou-o com desprezo, e disse-lhe com tom de idiota zombaria:
- Homens, vocês que são mulatos, lá se entendam.
O capitão Rezende cada vez mais ultrajado pelo major foi direto ao palácio e pediu para ser recebido pelo vice-rei, no que foi logo atendido. O vice-rei ouviu as queixas, despediu-o e mandou chamar o major.
Como é evidente o major acudiu “correndinho” ao chamado e, interrogado, orgulhoso, expôs tudo como se tinha passado.
O vice-rei, repreendeu-o severamente deixando claro o seu descontentamento e o insulto com que ultrajara o capitão Rezende e ordenou-lhe que se recolhesse, sob prisão, a uma das fortalezas.
O major ao ouvir a ordem de prisão:
- Preso, eu? Pois é verdade que V. Exma. me manda prender?
Dom Luis de Vasconcelos, respondeu-lhe tranquilamente:
- Homem, nós que somos brancos, cá nos entendemos.
O major Melo perdeu o comando do regimento, foi mandado lá para o Sul, e Alexandre Dias de Rezende terminou a sua carreira como Sargento-Mor, posto equivalente a coronel.
O “nosso amigo” Alexandre Dias de Rezende, homem bom, generoso, prestigiado, quis entrar para a Irmandade de S. Pedro de quem era devoto. Sabia que sendo pardo a sua entrada não seria fácil. Um belo dia lá se decidiu e fez a sua proposta a um dos padres daquela igreja – Luiz Gonçalves – que a levou a uma reunião da mesa. Para votar a entrada desse personagem, a reunião tinha presentes todos os membros, e a discussão foi renhida. Não suportavam a ideia de ver um pardo lá “misturado”! Um dos padres que depois foi senador do Império, foi de tal violência contra, que a mesa não o aceitou.
Quando o padre Luiz a quem Rezende tinha feito o pedido o informou da negativa o pobre-rico Alexandre, de tão chocado até chorou!
- Paciência. Os senhores padres não me querem. Paciência.
Alguns anos mais tarde Rezende vendeu a sua chácara (onde está hoje a sede da Prefeitura do Rio) e, apesar de estar já bem velho fez construir duas casas na rua de S. Pedro, uma delas ao lado da Igreja. O padre Luiz estranhou que ele, velho, ainda se metesse em obras e perguntou-lhe qual era a sua ideia.
- É um segredo que só será conhecido depois que eu morrer. Tenho muita pena dos senhores padres que, sendo pobres e estando velhos e doentes não tenham onde ficar e celebrar.
Não durou muito mais. Ao abrirem o seu testamento:
“Declaro que entre os bens que possuo são duas casas com sobrado na rua de S. Pedro... que deixo à irmandade de S. Pedro... para assistência aos Rev.mos sacerdotes que se acharem enfermos...” etc.
Alexandre Dias de Rezende morreu sem fazer parte da Irmandade, mas enriqueceu-a. (Nesta ocasião os padres não discutiram se deviam ou não aceitar o legado!)
Como benfeitor, teve ofício de corpo presente na igreja de S. Pedro e foram os padres que por fim carregaram nos ombros o caixão do pardo para a igreja da Ordem Terceira de S. Francisco de que era irmão. E mais: quando chegaram perto do convento de Santo António os “terceiros” estavam presentes para receberem o caixão que os padres de S. Pedro não queriam entregar! Quase brigaram pelo morto os que o tinham desprezado em vida!
Uns bons anos mais tarde a administração da irmandade de S. Pedro mandou colocar na sacristia um retrato de Rezende!
A bonita igreja de S. Pedro foi demolida em 1943 quando se abriu a Avenida Presidente Vargas.
Estava onde é hoje uma das faixas da mesma avenida.

Só mais uma do vice -rei Dom Luis de Vasconcelos.
Descia um dia o vice-rei, a pé, o morro da Conceição, acompanhado do mestre Vitorino a quem encomendara a execução do Passeio Público, para o que foi necessário desmontar o Morro das Mangueiras (que ficava entre o de Santa Teresa e o de Santo António) para aterrar a famigerada lagoa do Boqueirão, de águas paradas, sujas, malcheirosas, quando se cruza com uma liteira carregada por dois escravos que, com o imenso calor que fazia, suavam como se estivessem debaixo dum chuveiro.
Mandou parar, abriu a cortina que dentro escondia o “amo”, homem gordo. Ordenou-lhe que descesse do “bem bom”, e no seu lugar mandou entrar um dos escravos. Ao “patrão”, depois de o descompor pela vergonha e maldade que fazia aos seus escravos, ordenou-lhe que subisse ele a carregar a liteira para ver como era!
Vice-rei mandou, ninguém discute! Onipotente. E lá seguiu o “patrão” a carregar, encosta acima, sentadão na liteira, um dos seus escravos!
O mais curioso é que esse homem era rico, e até hoje, a ladeira tem o seu nome: Ladeira de João Homem!
Parece que o Dom Luis de Vasconcelos e Sousa faz, hoje, a maior falta no Rio de Janeiro... e não só!


04/03/2017

Nenhum comentário:

Postar um comentário