sábado, 16 de dezembro de 2017



NATAL


Meu 87° Natal. Como é de calcular não me lembro dos primeiros, mas, certamente, recebi muitos e carinhosos elogios como: “que bebé lindo, gordinho, ar de saúde, parece-se com a mãe, outros diziam que era com o pai”, (não é vaidade, não!) e hoje acho que me pareço só comigo mesmo, levemente envelhecido, há muito passado o tempo de ser um homem maduro, hoje, como a fruta, a caminho de podre!
Todos os anos, em vez do simples “Boas Festas, etc.”, aproveito para um pouco mais de reflexão, visto que o mundo está muito mais podre do que eu. Podre, injusto, covarde, ganancioso, assassino.
Vendeu-se há dias um quadro de Leonardo Da Vinci, “Salvatori Mundi”, pela vergonhosa e escandalosa soma de mais de 450 milhões de Dólares = 380 milhões de Euros = 1,5 bilhões de Reais!
E ainda há “especialistas” que dizem que o quadro é falso. Também já foi tantas vezes restaurado que da tinta original pouco ou nada deve sobrar. A verdade é que sobraram US$ 450.000.000, !
Fome por todos os cantos da Terra, guerras idem, e um quadrito de sessenta e pouco centímetros de alto arrecada um preço que daria para alimentar, durante muito tempo, uns milhões de seres que só aguardam que aumente a desnutrição!
São mais de 800 milhões abaixo do nível mínimo de pobreza,1,5 milhões de crianças definhadas nos países de África, e um indivíduo só, ou um grupo deles, vai dar quase meio bilhão de dólares por um pedaço de lona com tinta!


E quanto vale um quadro como este? Há aos milhões.

Tem pobreza em África, na Europa, nas Américas (Brasil, Venezuela, Porto Rico, ... e até nos Estados Unidos), os políticos roubam mais do que o valor desse quadro, o que significa que, cada vez mais “os lá de cima” preocupam-se tanto com “os lá de baixo” como se valessem menos do que uma barata nojenta. E morta.
E chega o Natal. Cínica e covardemente muitos ainda têm o descaramento de desejar “Boas Festas e um Feliz Novo Ano” até a quem vive em profunda infelicidade e não tem o que comer. Como desejar Boas Festas a crianças e famílias como as da gravura?
É uma bofetada na cara dos miseráveis!
Cristo, ao tomar conhecimento de que houve quem gastasse aquela fortuna por um falso retrato dele (porque nunca alguém lhe viu a cara para o pintar) deve ter chorado mais do que chorou quando soube da morte de Lázaro, ou sobre Jerusalém, antevendo a sua destruição e mais até do que as lágrimas de sangue que verteu quando orava no Horto.
Desta vez chorou pela infâmia da humanidade. Pelo desprezo que Ele vê, e que parece acentuar-se, nas atitudes para com o Próximo, pelo mais ínfimo, pelo mais humilde.
Há quem tenha esperança na regeneração da humanidade. Que um dia voltará um Messias. Confesso que eu não tenho.
Assistir pela TV ou ler nos jornais e revistas: notícias, a grande maioria é de desgraças, assaltos, assassinatos, roubos, corrupção, politiquice nojenta, um crescendo de armamento, de guerras e guerrilhas, de estrangulamento dos miseráveis pelos poderosos, e as revistas, os filmes e as novelas são um acinte, um convite à destruição da célula base dos humanos: a família.
Acaba-se com o pudor, com o respeito, tudo parecem facilidades, gasta-se em drogas e produtos para embelezar, em academias para se apresentarem mais atraentes, e tudo não passa de bonecos de plástico: vazios por dentro.
As pessoas estão a ficar como os tambores, bonitos e muito barulhentos POR FORA, e completamente vazios POR DENTRO.
Cardeais com roupas extravagantes, judeus ultra ortodoxos com roupas, chapéus e penteados ridículos,
os violentos e assassinos jihadistas e suas mulheres que parecem almas do outro mundo, todos eles parecem ter-se esquecido de sair dos tempos pré medievais.
A igreja de Roma foi a única que deu os primeiros passos em frente, quando do “Aggiornamento” do glorioso Papa João XXIII, e mais agora com o humilde e lutador Papa Francisco. Mas ainda falta muito. Esperemos que não tarde a desaparecerem do Vaticano as roupas de gala. Luxo.
Que aqueles que acreditam que Jesus foi um Messias, o sigam, sem fausto.
E todos os outros que acham que um Messias ainda virá, se vejam bem no espelho, deixem de ser tribos ou grupos fechados, mas se lembrem, mesmo que por ora ainda não aceitem, que somos todos irmãos.
Só nesse dia, se esse dia alguma vez conseguir penetrar nos espíritos egoístas e retrógrados, a humanidade começará a entrar no paraíso terreal, não se esquecendo até de cuidar da Mãe Natureza.
Por ora façamos um balanço das nossas vidas, tal como um contabilista faz, escrevendo nas colunas do Deve e do Haver.
Na coluna do Deve, demoremo-nos um pouco: será que eu fiz tudo quanto podia e DEVIA ter feito?
Na coluna do Haver: será que o Senhor me compensará pelo pouco que fiz e o muito que deixei de fazer?
Devo esperar pelo Mago Melchior que me traga ouro e me faça rico, por Baltasar com a mirra para me libertar dos males do mundo ou por Gaspar com o seu incenso, para que eu sinta o amargo da vida, o sofrimento e possa enaltecer o espírito?
Paz. Todos desejamos a Paz, mas poucos lutam por ela.
Façam um pequeno exercício: leiam, releiam as linhas em azul (sublinhadas), e meditem sobre o que ali está escrito.
Vão encontrar um pouco de Paz, mas esperemos que encontrem determinação para fazer mais e encherem a coluna do Deve!


10/12/2017

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Isto foi já publicado há sete –7– anos, e com certeza muitos já esqueceram.
De qualquer modo um novo exame de consciência não fará mal a alguém.


CONFITEOR , DEO


Aproxima-se o final do ano. É época de Natal. Os sentimentos se não afloram no coração e mente, aparecem, por vezes muito bonitos e muito frios em alguns cartões de Boas Festas que se mandam por obrigação. Assim mesmo é melhor do que o total esquecimento do “outro”.
Uns momentos de solidão, no silêncio, um fixar os olhos além, no horizonte, no infinito, em nada, uma introspecção, um exame de consciência, não custa nada. E é bom.
Muita, muita gente se prepara para o Novo Ano com promessas, previamente falsas e sabidamente a descumprir (sobretudo os políticos), “desejando” que esse novo tempo venha consertar tudo quanto temos ajudado a destruir, mas... tudo, tudo mesmo, já esquecido antes da Festa de Reis!
Não é de admirar; é quando aparece o ouro, as riquezas, e as promessas... esquecidas.
Não é admirar porque todos sabemos que cheio de boas intenções está o inferno. No entanto é sempre bom – não tem efeitos colaterais – analisar o tempo que passou, ver o que se fez de errado, ou pouco, e...
De qualquer modo, venho fazer um exame de consciência publicamente, já que o blog está à disposição de quem quiser.
Comecemos por ver como vivemos dentro do estabelecido pelas Tábuas da Lei, os Dez Mandamentos!
1 - Amar a Deus sobre todas as coisas! Hhiii...! Quantas vezes tive que colocar uma venda nos olhos de Deus para ficar “amando” um carrão, sei lá, um Jaguar, outro cruzeiro à vela pelo mundo fora, apesar de sempre querer que Deus me acompanhasse. O que, aliás, Ele jamais deixou de fazer!
2 - Não invocar o nome de Deus em vão! Então aqui não há perdão. Até misturamos o nome de Deus com palavrões, como por exemplo, quando vimos um político roubar (um não, a corja quase toda) e exclamamos: “Meus Deus! Olha só o que o f. da p. agora aprontou”!
3 - Guardar domingos e dias de festa! Quem guarda? Quantas vezes trabalhei aos domingos, e até em feriados, e tive subordinados a quem estas tarefas eram fundamentais. A fábrica não podia parar! Bom, mas isso faz tempo, porque agora não faço nada! Talvez por isso não me preocupe com este mandamento
4 - Honrar pai e mãe. Creio que este sempre foi o meu maior ponto de honra. A memória deles ainda hoje me faz sentir mais responsável, e cada dia que passa maior é a sua falta, o seu conselho, o seu carinho, o seu exemplo!
5 - Não matarás. Não me recorda de ter morto alguém. Nem à bala, nem atropelamento, nem com veneno. Simplesmente não vou esquecer nunca, de ter dado um tiro de carabina, e pesada - .375 - na perna de um amigo! Mas foi culpa dele. Mas isso não me livra da culpa de pensar que anda por aí muito ser indigno, que precisava de ser transformado em picadinho. Para salsichas!
6 - Guardarás castidade! Aqui o problema complica-se, mas na minha idade este mandamento ... está já bem guardado!
7 - Não roubarás. Pensei, pensei, pensei e, com certeza, alguma vez devo ter roubado alguma coisa. Ah! Sim! Lembro bem; quando tinha os meus dez ou onze anos e voltava do liceu para casa, passava na frente duma minúscula mercearia, que tinha na porta uns sacos com castanhas piladas (secas). Ainda hoje me lembro que roubei umas quantas, e me devem ter ajudado a quebrar algum dente! O merceeiro ou não via ou não se importava, porque nunca reclamou. Saravá, amigo merceeiro!
8 - Não levantarás falsos testemunhos. Não, Deus, isso é que de todo creio que não fiz. Posso ter feito julgamentos errados; mas, quem não erra?
9 - Não cobiçarás a mulher do próximo! Outra complicação. Tem cada “avião” sobrevoando por aí... Quem podia olhar para a Sofia Loren e ficar indiferente? E a Brigitte Bardot? E a Marylin, a Silvana Mangano? Fala sério. Isto há 50 anos!!! Se não cometemos adultério, por vezes éramos obrigados a sonhar, deixando a nossa imaginação percorrer os corpos daquelas estátuas de carne! Neste mandamento estou ferrado! E poucos se safam. No entanto, a verdade, é que também nunca tive uma vizinha, boazuda que me tentasse. E... safei-me!
10 - Não cobiçarás o que a outros pertença. Cobiçar, na verdade não cobicei, mas que doi a cabeça por ter sido sempre um idiota, quando tantos bens passaram pelas minhas mãos e de nada me apropriei... Oh! Deus, acho que me podeis dar aqui uma nota baixa.
Por enquanto o descanso eterno está a ficar cada vez mais longe.
Vejamos os pecados ditos capitais:
- Ira: Senhor! Eu fico irado com tanta malandragem que nos rodeia, que rouba, que maltrata o menor, em idade ou situação econômica desastrosa, que abusa do poder, que corrompe ou se deixa corromper, que vende armas, drogas e abusam as empresas farmacêuticas fazendo os habitantes dos países pobres a servirem de cobaias, a todos os que colaboram conscientemente na destruição do mundo; se ira é um pecado, confiteor Deo...
- Gula: este também é um pecado lixado! Quantas vezes comi demais, porque me apresentavam cada petisco... Não, Senhor, na altura não podia compartilhar com outrém que tivesse fome. Não estavam a meu lado. Se estivesse, Senhor, Tu que tudo vês, sabes que eu até teria comido menos do que o necessário. Mas naquelas horas, quando nos põem debaixo do nariz um ensopado de cabrito a fumegar, ou a caldeirada do meu amigo Alberto, ou uma bacalhauzada no restaurante de outro amigo, o Pereira, não há quem não caia na gula. E a nossa feijoada brasileira??? Confiteor...
- Inveja. Inveja não tive, mas como atrás digo, algum, vago, arrependimento pelo que poderia ter feito melhor. Não fiz.
- Orgulho: Até hoje, velho, nem sei bem o que é o orgulho. Fazemos algo bem feito e se somos cumprimentados ou elogiados, o nosso ego... ri de satisfação. Será isso orgulho? Se for, já me aconteceu muitas vezes, mas foi “doença” que rápido se desvaneceu.
- Avareza: nessa não caí. Odeio avarentos, mãos de vaca, prestamistas, bancos, agiotas, investidores ou aplicadores de fortunas em jogo financeiro, corruptores, etc.
- Preguiça: aahhh! Estou cada vez mais preguiçoso! As forças vão fugindo, o corpo obedece com dificuldade, e... ficar na cama mais uns minutinhos... Quando era novo, não! Este pecadilho chegou tarde!
- Luxúria. Também não será por esta porta que vou enfrentar o famigerado Lúcifer. Nunca estive nessas bacanais que hoje são cada vez mais freqüentes, não xinguei nem maltratei nenhum subordinado. Nessa da luxúria, estou fora.
Chegamos finalmente aos chamados pecados veniais, que são tratados, como dizem nuestros hermanos, como pecadillos. Não são pecados graves. Mas por exemplo, o pecado da omissão; se a gente se omite sempre, se deixa a banditagem pôr-nos, a toda a hora, o pé na cabeça, ou se a vê fazer o mesmo a outros, sem intervir, aqui o venial passa a ser pecado covardal.
Não sei qual será a minha “nota” quando enfrentar, primeiro o São Pedro, e, se conseguir “levar este bom homem no papo”, depois a Deus.
Mas alguma coisa ainda sei: não vou deixar de lutar, e sempre me manifestar contra a vergonha dos poderosos. Se possível cada vez com mais violência.
Que Deus me perdoe.


21 dez. 10

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017


Em 2009 publiquei este pequeno texto em homenagem às Mães.
É hoje, 8 de Dezembro, o Dia das Mães, para os católicos.
Por isso estou a repetir.

Dia das Mães

Minha Mãe a Vovó Zé

Dia das Mães

“O mundo gira às avessas
E muitos julgam que não.
Eu que me julgo por mim
Vejo que o mundo é assim
Com tanta contradição.

Há latagões Serafins,
Desventurados Venturas
E Claras que são escuras
...
Era assim que começava um dos fados cantados por uma velha fadista, lá pelos anos cinquenta, em Lisboa. Velhota, baixinha, não sei mais o seu nome, muito alegre. Já esqueci a maioria da letra, mas não esqueço nunca a verdade da contradição do mundo.
À medida que o desenfreado consumismo vai ditando e impondo as suas regras de conduta universal, mais e mais o mundo fica às avessas.
Invertem-se os valores básicos de toda a sociedade, vendo-se crescer a adulação a qualquer bezerro de ouro, e só a isso.
Cresci no tempo em que a célula base da sociedade era a família. Nos países subjugados pela super ditadura chamada democracia do povo, essa noção de família ia sendo destruída e o mundo ocidental tinha mais medo disso do que da coletivização dos bens de produção.
No fim da guerra dos canhões e dos mortos chegou a guerra fria e um brutal desenvolvimento daquilo a que se chamou neo-capitalismo, social democracia, pseudo socialismo ou qualquer outra coisa bombástica que na verdade pouco significa, e verifica-se que, se de um lado era a luta dum poder totalitário que se estribava no ateísmo para derrubar valores tradicionais e transformar homens em máquinas, do outro a ganância, coadjuvada pela inveja e egoísmo, caminhavam no mesmo sentido mostrando que o único deus vivo é o dinheiro, o poder, o mando.
Beijando ou não o anel dos bispos ou do papa, batendo com a mão no peito nas sinagogas ou encostando a testa aos seus tapetes de oração voltados para Meca, os donos do poder da banda das democracias sociais, conseguiram mais depressa derrubar os valores morais tradicionais do que a força bruta dos dirigentes soviéticos.
Mãe! Qualquer que seja a língua em que tal palavra seja pronunciada, nenhuma se lhe iguala em beleza. Mãe, a mais bela obra da natureza, como dizia Almeida Garrett!
Mas hoje em que o sexo reina desordenado, promíscuo, livre e estimulado pelo cinema, revistas, publicidade, e até como disse o Papa Bento pela facilidade da camisinha, e agora mais pela venda livre da pílula anticoncepcional do “dia seguinte”, pela facilidade do aborto, a pergunta que fica é: “Que Mãe és tu”?
No antigamente os cristãos celebravam o dia das Mães quando a liturgia festejava a Assunção da Mãe de Jesus. O mundo comercial não quis mais esse dia porque deixava de fora os não cristãos, e a data, perto do Natal, não favorecia o negócio. A força do dinheiro falou mais alto. Transferiu-se a festa para um domingo de Maio, passada a Páscoa e longe das férias, quando não há concorrência de outros festejos e as despesas possam ser encaminhadas para essa exclusividade, o Dia das Mães.
O comércio e a indústria gastam fábulas de dinheiro anunciando produtos a vender para presentear a Mãe e, ó espanto dos espantos, esse dia transformou-se numa desobriga de imensa quantidade de filhos. Uma vez por ano compram, quase por obrigação, um bagulho qualquer, vão oferecê-lo às mães e a seguir... até pr’ó ano!
Que filhos são estes? Que Mãe é aquela? De quem é a culpa? Da Mãe que os teve por “aventuras” ou que não soube manter os filhos unidos ao seu coração, ou dos filhos que cresceram esmagados pela força dos cifrões nos olhos e não veem outra coisa que não seja o amor à conta bancária?
Que bom fora que todos pudessem “cantar” com Casimiro de Abreu: 
Feliz o filho que pode, contente,
Na casa paterna, de noite e de dia,
Sentir as carícias do anjo dos amores,
Da estrela brilhante que a vida nos guia:
- Uma mãe!


domingo, 3 de dezembro de 2017


Ciclo dos Amantes

A Vida no Congo ex-belga


No tempo colonial, a Bélgica não deixava nenhum funcionário seguir para o Congo sem ir casado. Não queriam que para lá fossem solteiros e depois regressassem com uns quantos filhos mulatos, nem que os deixassem por lá exigindo a cidadania belga.
A solução encontrada por alguns, cujo vencimento proposto para trabalhar em África era de molde a juntar uma boa soma ao fim de poucos anos, foi fazerem um contrato com alguma mulher que estivesse disposta a receber uma parte dos ganhos e fingirem que eram casados.
Como é de imaginar estas situações deram aso a toda a pouca vergonha que se possa imaginar.
Os congoleses, sabendo desta desavergonhança, se já desprezavam os brancos duma forma geral, a estes então consideravam-nos abaixo de qualquer crítica.
O troca-troca entre “casais” era trivial, chegavam a alugar mulheres a quem necessitasse duma novidade, era como que Sodoma e Gomorra.
Michel foi um dos que não pôde recusar o convite para uma função administrativa no interior da colônia, onde receberia além dum vencimento, casa, carro e até alguns criados.
Informou-se com alguns “veteranos” como devia proceder, e não foi difícil encontrar a perceira ideal. Jovem, bem composta, mas que tinha necessidade de se “alugar” uns tempos, para também ajudar resolver a situação financeira da família que ficara arrasada com a guerra.
Haydée, era uma mulher atraente, com trinta e poucos, loira, forte, nascida no campo onde seus pais eram agricultores na região sul da Bélgica, Valónia, e Michel achou que a divisão dos ganhos com uma mulher bonita seria um ótimo negócio, e assinou o contrato com o governo, exibindo a certidão de casamento, entretanto efetuado na mairie. O normal seria dar à “esposa” entre 20 a 25 por cento dos ganhos, sem que ela tivesse que gastar nada no destino.
Entretanto Haydée foi avisando que o contrato não a obrigava a dormir com ele. Se lhe apetecesse, tudo bem, mas que o contrato era unicamente financeiro. Acordo fechado.
Viagem para África, de navio, onde, durante toda a viagem, alguns olhos não despegavam de Haydée, que de camponesa, ajeitada, se sentia já princesa, até chegarem ao destino, desembarcando em Pointe Noire.
Conduzidos para Leopoldville, hoje Kinshassa, Michel foi entregar a documentação ao governo central que o despachou como administrador da região de Lusambo, a cerca de 1.000 quilómetros da capital, uma pequena localidade à margem do rio Sankuru, rodeada de magníficas florestas.
Terra perdida no middle of nowhere, onde havia somente três estabelecimentos comerciais, um africano e dois portugueses, todos há anos ali estabelecidos, e uma população imensa de africanos a administrar, dos quais poucos viviam na povoação.
O clima, quente e úmido, mas suportável, uma casa confortável, três criados, um cozinheiro, uma lavadeira e um terceiro, Jonas Kipango, que tomava conta do interior, servir à mesa, etc.
Já durante a viagem Michel tinha pretendido avançar em cima de Haydée, que lhe lembrava que o acordo não era de cama, o que não impediu de ter havido, de comum acordo, algumas exceções, sem que com isso Haydée saísse satisfeita, mas que o fazia como política de bom convívio, e não lhe desagradasse. Sempre era melhor do que andar a colher batatas no campo! E lá no fundo... ambos gostavam.
Michel, chegado a Lusambo, logo fez conhecimento com os comerciantes, o que era fundamental, até porque sem a colaboração e conhecimento deles pouco poderia fazer.
Em casa, a vida para ela era duma terrível monotonia. Saía quase todos os dias. Visitava o mercado, a única escola, e a todos cumprimentava com um simpático sorriso. Os maiores atrativos era ir pescar no rio, que generoso, sempre a presenteava com bonitos e razoáveis peixes, ou, uns fins de semana assistir a caçadas. Caça grossa.
Nas caçadas foi um dos portugueses que lhes mostrou a beleza das selvas e das savanas, a fauna magnífica, a dimensão duma África completamente nova e totalmente desconhecida.
Michel agradecia, mas era Haydée quem se entusiasmava com toda a novidade, a grandiosidade, e até, por estranho que pareça, o permanente sorriso, com os alvissimos dentes atrás da pele escura das populações, era para ela um espetáculo que a atraía.
De volta a casa, a rotina. Michel saía cedo para a Administração, e só depois Jonas ia preparar o banho, numa larga banheira, para madame Haydée, onde ela se deixava ficar o máximo de tempo possível.
Ao lado da banheira sempre Jonas deixava ficar, numa cadeira, o lençol e o roupão, muito bem limpos e dobrados, com que Haydée se limpava, e o roupão para voltar ao quarto, que não era ao lado do banho, e então se vestir.
Ao almoço Michel entrava em casa e saía uma hora depois, para entretanto poder dormir uma rápida sesta, e só voltava, normalmente ao sol posto.
Haydée quando não saía para pescar, sempre acompanhada pelo fiel e forte Jonas, ficava sentada na varanda a ler, respondendo a todos os cumprimentos dos que passavam em frente. Vez por outra ia até às lojas dos comerciantes onde se abastecia e encontrava souvenirs para levar de volta à Bélgica.
Por razões de política de boa vizinhança, abastecia-se de todas as lojas, onde sempre era recebida com muito respeito e simpatia.
Uma delas, especialmente. A Maison Borges, do português José Borges, que chegara ao Congo com dezoito anos, há vinte e cinco, os três primeiros passados em Lumbumbashi de onde saíu para se estabelecer em Lusambo. Casado, um casal de filhos pequenos, todos os anos mandava a mulher e os filhos para Portugal, onde ficavam a estudar.
Quando solitário, diziam, repartia o leito com jovens africanas, e muitos fins de semana saía para a caça, que era outra grande paixão.
Logo à chegada do novo casal belga, Borges tinha ido apresentar cumprimentos e oferecer os seus préstimos para lhes mostrar África.
Quando Haydée ia à sua loja, a visão de uma atraente europeia, deixava-o com os olhos presos e pensamentos a perturbá-lo, o que, se a mulher nenhuma passa desapercebido, Haydée sentia como um cumprimento.
A partir de certa altura Borges já convidava a cliente para sentar um pouco na varanda da sua casa, que ficava atrás da loja, para tomarem um café, que acabou por ser aceite. Conversavam sobre a família que ele tinha em Portugal, sobre a vida em África, caçadas, pescarias, etc.
Foi assim que não tardou em convidar o administrador e a mulher para o acompanharem nas caçadas, o que faziam com alguma regularidade, e mais ia aproximando o português da madame belga.
Jonas, sempre respeitoso, quando saía para acompanhar a patroa nas idas à pesca, vestia uma espécie de calção e o tronco nu, exibindo um físico forte, atlético, que cada vez mais chamava a atenção de Haydée. Era uma estátua grega feita em ébano!
A pesca, nas margens do rio poderia envolver alguns riscos. Haydée sentava-se por baixo duma frondosa árvore, bem na margem a uns dois metros acima do leito, que lhe dava uma bela sombra e visão, e Jonas a ajudava e pegar os peixes que ela eventualmente pescasse. Naquele lugar a possibilidade de aparecer algum jacaré era muito remota, mas poderia era escorregar e cair dentro de água, o que um dia veio a acontecer. Rápido, Jonas, entrou na água, pegou na sua madame, toda molhada e assustada, que ao escorregar havia torcido um pé, e não conseguia andar.
Não lhe custou nada, carregou a madame até casa, e cuidadosamente deixou-a estendida numa cadeira na varanda. Foi buscar panos quentes, massageou, depois amarrou com uma ligadura e Haydée passado umas horas sentia-se recuperada, e, sobretudo agradecida.
No dia seguinte quando entrou na sala do banho, como de costume encontrou a banheira cheia com a água na temperatura que ela gostava, e o lençol e o roupão dobrados na cadeira. Tudo normal.
Parou, olhou para aquelas peças e decidiu levar o roupão de volta para cima da sua cama.
Tomou o seu banho, sempre demorado e, quando saíu começou a limpar-se com o lençol. Não “vendo” o roupão, chamou pelo Jonas, que num instante estava atrás da porta a perguntar se madame precisava de alguma coisa.
- Jonas. Não tenho aqui o roupão. Pode trazê-lo?
Jonas ficou confuso, porque nunca se enganava, bate outra vez na porta para lhe passar o roupão e pede desculpa.
Haydée envolta no lençol, abriu a porta, recebeu o roupão, e pediu a Jonas se lhe dava mais uma massagem no pé.
Jonas sentou-se na frente dela e, sempre com cuidado, procurava repetir o tratamento da véspera.
- Pronto, Jonas. Creio que está bom. Por favor ajuda-me a vestir o roupão.
Jonas pega no roupão, tenta desviar o olhar, mas Haydée deixa cair o lençol que mal a cobria e veste o roupão, sem, no entanto o apertar pela frente. Vira-se para trás e Jonas, que impassível aguardava ordens, quando vê a bela madame toda despida na frente dele, quer retirar-se.
Haydée agarra-lhe na mão.
- Jonas eu não lhe agradeci o que você fez por mim. Vem cá.
E leva-o para o quarto.
- Por favor despe essa roupa.
Jonas, nervoso tira a camisa, e depois que a patroa lhe diz para tirar tudo, aparece-lhe uma bela escultura, forte, seguro, maravilhoso, e sempre com cuidado leva-o para se deitarem.
Acaricia-o, repara que aquela pele negra era mais macia do qualquer outra que alguma vez tivesse sentido, Haydée deita-se e arrasta-o.
Jonas não estava a gostar daquilo. Se fosse apanhado com uma branca poderia custar-lhe até a vida, mas não podia mais retirar-se.
Como era um homem grande e pesado e Haydée preferiu dar a volta por cima.
Estava agarrado, com força, e Haydée se contorcia e ajeitava de modo a que ele a levasse ao fim do mundo.
Quando aconteceu ela gritou. Gritou, não sabia se de dor se de prazer. Certamente dor não era. Só se fosse de não ter há mais tempo aproveitado o que sempre estivera ali a seu lado.
Jonas fez o quanto podia e via na cara da sua madame como ela estava “voando”, segurando o mais tempo que pudesse, antes de dar por findo o “trabalho”.
Haydée ficou na cama. Suava, esgotada. Jonas vestiu-se e com ar de quem vem do mercado, foi até à cozinha, onde o cozinheiro, ar “apimentado”, lhe perguntou porque demorara tanto com a senhora.
- Ela está mal do pé que torceu ontem, e não quer sair da cama. Tive que massagear de novo.
- ?!
Michel chegou para o almoço, Haydée na cama, disse que lhe custava a andar e que Jonas lhe levasse ao quarto alguma coisa, leve, para comer.
Michel fez a sua sesta na varanda para não incomodar Haydée, e quando saíu, Jonas voltou ao quarto para saber se estava tudo bem.
Estava. Quase.
Haydée queria repetir a sessão da manhã!
- Madame, se alguém sabe disto eu estou perdido. Eu gosto muito da senhora, mas sei que corro perigo.
- Não te preocupes. Ninguém vai saber. Tira a roupa e deita aqui.
Jonas com todo o seu belo físico, magnífico equipamento, estendeu-se ao lado da madame e não tardou a pôr Haydée no topo, tanta era a força para segurar o parceiro que lhe deixava as costas marcadas.
Desta vez porém o transe demorou um pouco menos porque ela ainda estava cansada do programa anterior.
Antes de deixar Jonas se levantar, Haydée puxou a cabeça dele e deu-lhe um profundo beijo, hábito não praticado entre as populações da região. Jonas no primeiro momento não entendeu, nem concluiu se tinha gostado ou não.
- Jonas!
- Madame.
- Obrigado.
Os dias seguiam e quase todas as manhãs o ritual se repetia e Haydée querendo introduzir Jonas no jogo paralelo do beijo na boca, profundo, que este, sem se excitar com isso, aprendeu rápido.
Haydée inventava posições, queria sempre mais, mais prazer, e Jonas cumpria todo aquele jogo, com algum prazer, sim, mas sem muito entusiasmo, até porque deixou de ter consideração e de respeitar a senhora. Agora ela era a patroa, sim, mas uma sem-vergonha.
Um dia mandou encher a banheira com água bem morna. Chamou Jonas, pediu-lhe que se deitasse, nu, evidente, no fundo da banheira e ela entrou também. Não se saciava. Excitada, mexia-se de tal modo que à volta da banheira ficou tudo molhado, mas ela não parava e, felizmente, Jonas tinha capacidade para aguentar toda a loucura sem se cansar.
Haydée só interrompia estas festas nos períodos férteis em que pudesse engravidar.
Ao fim de um ano, Michel tinha direito a duas semanas de férias e foi passá-las na capital. Haydée disse logo que não ia. Não conhecia lá ninguém, era uma cidade suja, muita balbúrdia. Preferia ficar em Lusambo, onde levava uma vida traquila (!) e era estimada por toda a população. Combinado.
Michel foi embora, e logo nesse fim de semana José a convida para uma caçada.
- Neste fim de semana, não. No próximo.
Iriam procurar búfalos ou elefantes, o que deixou Haydée emocionada.
Sairiam sexta feira à tarde e voltariam no domingo, dormindo numa confortável barraca de campanha. Teve o cuidado de dizer que levava uma barraca para cada um, e outra para os pisteiros.
A pouco menos de cem quilômetros encontraram o local para acampar. Logo montaram as barracas, as duas principais encostadas uma a outra para eventual defesa e a dos pisteiros mais afastada.
Apanhada uma braçada de lenha, um fogo que servia para os aquecer da umidade da noite, um jantar com alguns acepipes que José levara, o indispensável vinho, e por fim, satisfeitos, recostados nas cadeiras de lona, o café a ser saboreado debaixo daquele céu imenso, límpido, cheio de estrelas.
Haydée estava a respirar devagar para saborear o íntimo contato com a natureza que achava deslumbrante.
Conversaram um pouco, e José avisou que era melhor irem dormir, porque de manhã se levantariam antes do sol nascer.
Cada um se recolhe a sua barraca, mas ambos sabendo que isso era só encenação, para que os pisteiros não dessem conta.
- José! – chama Haydée – não me sinto nada segura dentro duma barraca de pano, sabendo que estamos rodeados de animais ferozes.
- Não se preocupe. Espere um momento.
Em silêncio, e de rastos para não ser visto, saíu da sua barraca, carregando as armas, e passou para a de Haydée.
- Eu durmo aqui ao seu lado. Assim não tem com que se preocupar.
- José. Não seja tonto. Vai dormir aí? No meu colchão, com boa vontade cabemos os dois.
É evidente que José esperava esse convite, e tinha muito mais do que a simples boa vontade, num instante estavam debaixo da mesma coberta e bem agarrados. Não porque o espaço fosse curto, mas porque era assim que ambos queriam.
- Haydée. Desde que você chegou a Lusambo que a sua imagem não sai da minha cabeça. Eu esperava este momento com uma imensa ansiedade. Você é linda.
- Bondade sua José, mas não vamos conversar muito, os pisteiros podem ouvir, e além disso não temos muitas horas para dormir...
José não a deixou terminar de falar. Agarrou-lhe a cara e... Haydée correspondeu com o melhor.
Entretanto os dois corpos já se tinham encontrado, despidas as roupas que impediam de se tocar, e as mãos não se aquietavam.
Haydée logo percebeu que José era um experimentado garanhão. Sabia como fazer as mulheres gozarem o máximo, e isso Haydée agora também aprendia.
Acabadas as manobras, ficaram um tempo assim agarrados, até que, tarde acabaram por adormecer.
Não dormiram tanto quanto seria de esperar para quem no dia seguinte tem uma caçada pela frente. Mas o fim de semana se tivesse terminado ali já teria sido uma maravilha.
Durante o dia, metade do tempo de jeep outra metade a pé pela savana, sempre dava algum resultado, e no primeiro dia caçaram um belo antílope. Um churrasco de lombo desses animais é uma delícia, como se deliciavam os pisteiros e o povo que aparecia para levar a maioria da carne, os dois sempre em volta da fogueira, a boa garrafa de vinho, conversa para passar o tempo e sobretudo uma vontade imensa de se esgueirarem para dentro da barraca, onde repetiriam o acalorado encontro dos corpos sedentos de amor e sexo.
Regresso a Lusambo.
Nos primeiros dias Haydée não chamou Jonas, o fim de semana tinha sido uma festa divina, e ela queria manter essa imagem viva, dentro de si.
Poucos dias passados, o truque do roupão alertou Jonas que tinha “trabalho” a fazer, e comparecia, sempre com o seu corpo de atleta, e ar humilde, “ás ordens” da madame.
Haydée não precisava dizer-lhe muita coisa. Com ar quase militar Jonas despia-se, avançava para a cama, e quase mecanicamente cumpria o dever de subalterno!
Michel continuava na capital. Telegrafou a perguntar se tudo estava bem, o que Haydée confirmou, e avisou que regressava dentro de uma semana, o que para ela era indiferente.
Quando regressou, contou sobre sua estadia, e a falta que ela lhe fizera, mas com sinceridade lhe disse que tinha encontrada bonitas parceiras em Leopoldville, que muito o tinham ajudado a passar o tempo.
- Que bom. Ainda bem que aproveitaste.
- E tu?
- Eu também tenho aproveitado esta calma, fui uma ou duas vezes à caça, mas o que eu gosto mesmo é de me estender aqui na varanda e olhar em volta, ou então de ir pescar.
Naquela noite Michel e Haydée se juntaram. O “casamento oficial” também sugeria encontros, mesmo que raros e casuais. Foi uma espécie de sessão de boas vindas.
Haydée em pouco tempo começou a estranhar que a menstruação não aparecese, mas nada disse a alguém. Pensou só que não teria muito mais tempo para aproveitar os encontros com José, raros e difíceis, e que teria que parar com as maravilhosas aventuras com Jonas. Talvez uns dois meses. Depois diria que se sentia mal, não sabia o que era, não tinha febre, mas alguma coisa se estava a passar, e que teria de voltar à Bélgica.
Regressou. Foi para casa dos pais, agricultores, onde deixou a barriga crescer. Como tinha “casado” com um belga, tudo foi bem aceito pela família e vizinhos.
No momento certo, Haydée foi para o hospital. Parto normal e o bebé nasceu fortão e saudável como o pai.
Um pouco mais escuro do que os avós esperavam.
Mas igual ao Jonas.

25/03/2014



                                                                                         


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Ciclo dos Amantes

A tia da perna curta

Há uma velha anedota que parece terá vindo da Saxónia, lá das bandas de Dresden, dum pequenissimo lugarejo perto de Reichenberger, onde vivia uma família de agricultores, pobres, o que era normal naquele tempo, século XVIII ou começo do XIX.
O casal pouco mais fazia do que cuidar de alguns animais e da horta, e à noite, sobretudo no inverno, quando o frio aperta... mais um filho.
Gerhart, o mais velho, com quatorze anos, tinha aprendido com os pais as primeiras letras, e as lides camponesas, mas eles queriam que fosse para a cidade para se instruir, seguir os estudos e, se possível, encarreirasse pelo seminário o que lhe daria uma vida mais folgada, e os próprios pais subiriam de conceito no meio dos camponeses.
A mãe tinha na cidade uma irmã um pouco mais nova do que ela, solteira, que quando menina tinha caído num penhasco e ficado a mancar, com uma perna cerca de quatro centímetros mais curta do que a outra, o que sempre afastou pretendentes, apesar de ter o restante físico bem composto e uma cara saudável. Vivia fazendo um trabalhinho aqui, outro além, e morava igualmente numa casa pobre, só com duas divisões, a entrada, onde estava a cozinha com uma pequena mesa, e por cima, o sótão, esconso, com um enxergão onde dormia, e um pequeno baú onde guardava o pouco que tinha, como roupa.
Gerhart acolhido na escola oficial na cidade, foi morar com a tia, porque dinheiro para mais não havia. Nos fins de semana voltava a casa, uma dúzia de quilômetros de distância, e sempre regressava com alguns produtos da horta, salsichas e pão, aquilo que os pais tivessem para que a tia não gastasse dinheiro com o sobrinho. Só a colhida em sua casa tinha sido uma ajudo imensa.
Gerhart, como a tia, à noite vestia uma camisola de dormir, que lhe descia até aos pés, e dormia no sótão, naquele enxergão não muito largo, mas nunca frio. Da cozinha subia um pouco de calor e as cobertas eram suficientes para passarem a noite agasalhados.
E ainda tinha o abraço da tia que o agarrava junto a si, para se aconchegarem melhor... e não só.
Sempre dormia de costas voltadas para a tia, não se sentia muito à vontade, mas habituado como estava, desde sempre a dormir no chão com mais quatro irmãos todos alinhados a seu lado, achou aquilo normal e sempre aproveitava o pouco mais de calor que a tia compartilhava com ele.
Os quatorze anos são o despertar da primavera e não demorou muito que Gerhart sentisse o peito da tia amaciar lhe as costas, e alguma sensação nova ia aparecendo pelo seu corpo, sem que ele soubesse exatamente o que era, mas sentia nas faces que, se aqueciam, deviam corar.
Começou por estranhar aquele calor e aquele encosto suave e firme, que lhe causava cada dia mais prazer.
É evidente que a tia ia percebendo e sentindo as reações do sobrinho e uma noite, depois que percebeu que ele adormecera, passou uma perna entre as dele, e assim se deixou ficar até de manhã.
Quando acordou, Gerhart sentiu que alguma coisa estava acontecendo. Gostou. Levantou-se, foi para a escola e à noite ao deitar-se fez o possível por ficar acordado o máximo de tempo que pudesse.
A tia deitou-se a seguir, levantou um pouco a camisola e voltou a colocar a perna entre as do sobrinho.
Bem devagar foi mexendo a perna, afagando... Gerhart, que pela primeira vez sentia fenômeno novo, foi “ver” o que estava a acontecer, sentindo-se nervoso. Passou também a mão na perna da tia, que acariciou, gostou, mas ficou sem saber o que fazer, tanto mais que se sentia em alta tensão!
Virou-se, pensou até em perguntar à tia o que aquilo era, mas tinha vergonha de o fazer. A tia fingia que dormia, mas a camisola deixava à mostra todo o seu corpo da cintura para baixo.
Com a claridade, fraca, que entrava pela janela do sótão, Gerhart destapou-a mais um pouco, pesquisou com cuidado todo o espetáculo, sentido-se a despertar para algo que mal sabia o que era, achou que podia juntar-se mais e mais, o que o instinto natural lhe ditava.
A tia, “a dormir”, foi-se ajeitando para que Gerhart se encaixasse todo. Como sonâmbula, com ambas as mãos ajeitou o sobrinho, conduzindo-o até ao “abrigo” certo.
Ambos fingiam que dormiam, mas quando Gerhart adentrou com o rompante da vontade e da muita juventude, ela soltou um gemido que o assustou, e disse:
- O que é isso Gerhart?
- Desculpa tia. Eu não queria fazer-lhe mal. Desculpa, eu vou sair daqui.
Gerhart pensou tê-la machucado e quando se preparava para se afastar ela agarrou-o com força.
- Não Gerhart. Olha, já que está assim, deixa ficar! Não fizeste mal nenhum, eu é que não esperava. (Mentira!) Deixa ficar como está, que nos agasalhamos melhor!
Gerhart não sabia o que fazer, não queria de forma alguma deixar aquele encontro que estava a saber-lhe como nunca havia pensado. Ficou quieto enquanto a tia o arrumava bem em cima dela, sentindo então toda a força daquela mulher que se coxeava a andar, ali se mexia duma forma que o levava às alturas.
A tia, Gertrude, parecia dançar debaixo dele, primeiro a um ritmo lento que foi crescendo, bem como a sua respiração acompanhada de respiração profunda. Gerhart também suava, e uma espécie de chorinho da tia preocupavam-no. Receava que a estivesse machucando! Aquela estreia, inesperada, e já há algum tempo pressentida no subconsciente, compensava-o de todo o esforço que fazia desde que saíra de casa. Apetecia-lhe gritar, cantar, dançar, mas não sabia o que fazer, abraçado à tia que o mantinha acorrentado nos seus braços.
Terminada a estreia, a tia, antes de voltarem a dormir, fez o sobrinho prestar um solene juramento de jamais, com quem quer que fosse, falar no que tinha acontecido ali entre eles. Se o fizesse ela iria queixar-se que ele a tinha atacado, que não o queria mais em casa, etc.
Gerhart jurou tudo o que podia. Por todos os santos conhecidos e a conhecer mais tarde no seminário. Não queria igualmente que alguém viesse sequer a desconfiar do que se passou, e passaria entre eles, muito menos perder aquela cama e as noites que, de certeza se seguiriam.
E seguiram.
Ao chegar a casa Gerhart tinha sempre que estudar, pelo menos uma hora, enquanto a tia arrumava alguma coisa e preparava o parco jantarzinho, que mesmo como pouco, hábil cozinheira, fazia milagres. À noite passaram a comer depressa para se irem deitar mais cedo e poderem ficar na cama o máximo de tempo possível.
Gerhart fingia que se deitava para dormir, mas assim que a tia se metia por debaixo das cobertas ele sentia as suas mãos procurando-o ao que ele não se fazia rogado, e logo aparecia disponível. Do mesmo modo as mãos do jovem percorriam o corpo da tia com muito cuidado, apreciando e excitando-se cada vez mais, mas logo se viravam um para o outro e seguiam em frente. Gertrude já não se deitava com a camisola. No escuro do sótão e o sobrinho de costas, despia-se toda e só depois se tapava com as cobertas. Folgada e carente, as mãos de ambos todos os dias descobriam novas sensações, tudo era novidade e ela beijava-o na cabeça, depois no pescoço, onde quer que pudesse.
Não podia durar muito tempo nestas cavalgadas. O sobrinho era muito jovem e até lhe parecia que começava a emagrecer. Ela era forte e resistente, mas tinha que ter muito cuidado para não estragar a sua “galinha dos ovos de ouro”, cansada de fazer inúmeras promessas para que tal lhe caísse um dia em casa. Aliás, na cama.
E tratou de o forçar a comer melhor. Mais salsichas e ovos e leite e batatas, tudo quanto pudesse contribuir para a robustez do jovem que acabara de fazer quatorze anos e a botar corpo e... o resto.
Felizmente ia bem nos estudos e logo seria chamado para o seminário. Aí acabaria aquela cama gostosa, quentinha e sensual, o que, só de pensar, lhe dava tristeza. Tinha que arranjar uma maneira de, mesmo quando no seminário, poder continuar a visitar a querida tia que tão bem o havia acolhido e introduzido nas artes do amor.
Gerhart só descansava nos fins de semana, e nas poucas férias, apesar de ter sempre muito trabalho, a ajudar os pais nas fainas diárias, a contar histórias aos irmãozinhos menores e a fazer, nos fins de semana, aquela caminhada de ida e volta, tanto no verão como no rigoroso frio do inverno.
Acabou o ano letivo. No dia seguinte Gerhart voltaria para casa e quando regressasse já tinha o seminário para onde ir. Na véspera Gertrude passou o dia a limpar as lágrimas. Ia ficar sem aquele calorzinho, aquelas pernas gostosas enroscadas, e o resto! Nos últimos tempos economizara o quanto podia, sempre abaixo de pouco, para preparar uma bonita ceia de despedida.
Quando o sobrinho entrou em casa ela agarrou-o logo, encheu-o de beijos e nem mais lembrou da tal ceia especial. A despedida tinha que ser de outra forma.
Subiram atabalhoadamente os poucos degraus até ao sótão onde chegaram já despidos. Ela chorava de e saudade antecipada, ele parecia um cavalo na corrida, até que por fim, amainaram.
Descansaram um pouco e:
- Gerhart! Tinha preparado uma ceia especial de despedida. Vamos descer de novo.
Vestiram as camisolas e foram para a festa do estômago, acompanhada com um copo de vinho para cada um.
Mas não era esta comida que cada um mais desejava.
- Tia. Eu acho que vou conseguir uns momentos livres quando entrar para o seminário para vir visitá-la. Ainda não sei bem como, mas de certeza que vou continuar a aparecer.
Ela levantou-se emocionada, beijou-o e:
- Vamo-nos deitar. Não podemos comer mais nem perder mais tempo.
As mesmas cenas, as lágrimas, tudo.
De manhã Gerhart, ao sair, para ficar uns dias de férias em casa dos pais, sem nada dizer levou um sapato da tia, que ela calçava do lado da perna mais curta. Em casa, com habilidade, de madeira forte fez uma sola espessa, que compensasse a diferença de altura das pernas, forrou a sola com um pedaço do couro de porco. Por fim pregou tudo com muito cuidado, pintou a madeira de preto e calculou ter feito um bom trabalho.
Acabadas as férias, Gerhart saiu de casa dos pais um dia de antes da entrada para o seminário e, além de levar mais alimentos para ajudar a tia, carregava, como surpresa, o sapato.
Quando chegou foi recebido com imensa alegria e muito “atraso” nas lides escusas. Depois de se terem reposto as saudades, Gerhart pede à tia que lhe mostre o pé, calça-lhe o sapato e pede-lhe que ande, para ver o resultado.
Para espanto dela, quase não coxeava, e como as saias iam até quase ao chão ninguém se aperceberia do “truque”. Outra vez teve que agradecer, e muito, este carinho que o sobrinho lhe levara. E os agradecimentos eram sempre calorosos.
Ele teve que se apresentar no seminário, prometendo que apareceria sempre que possível, e assim foi acontecendo durante algum tempo, com intervalos mais regulares do que imaginara.
Um dia um dos professores, simpático, no meio da aula avisa os alunos que ia que deixar o seminário. Fora mandado para uma paróquia em Zwickau, a mais de 100 quilômetros dali. No fim da aula em conversa com Gerhart lamentou-se, porque gostava muito de lecionar, e no novo cargo, solteiro, iria ter que tomar conta da igreja, da casa, viver sozinho, o que lhe parecia sombrio.
Gerhart lembrou-se logo da tia, que bem merecia um homem bom com quem casasse.
- Herr Lehrer. Eu conheço uma senhora, minha tia, solteira, muito simpática e educada, que seria uma esposa ideal para o senhor. Pobre, irmã de minha mãe, muito trabalhadora. Venha comigo que eu vou apresentá-la.
- Gerhart. Casamento não se faz como quem vai comprar batatas! Precisa tempo.
- Mas primeiro precisa conhecer. Depois... é problema de ambos.
- Vamos então lá conhecer a sua tia.
- Deixe-me ir uns cinco minutos na frente para a avisar que vem um amigo, para ela se poder arrumar um pouco, mesmo não sendo pessoa de se exibir, nem dinheiro teria para isso.
Quando entrou em casa a tia agarrou-se logo a ele, e Gerhart teve dificuldade em se desenvencilhar.
- Tia, vem aí um amigo meu, um professor que a quer conhecer.
- Ahhh! Mas eu estou nesta figura miserável!
- Que nada. Dê um arranjo na aparência e deixe as coisas correrem.
Conforme o combinado, pouco depois o professor bate à porta, Gerhart vai abrir e logo a seguir Gertrude desce do sótão. Corada, roupa modesta, cuidada, e uma cara que logo agradou ao pretenso pretendente.
Apresentações, um pouco de conversa cerimoniosa, Gerhart diz que tem que sair por uns minutos e deixa os dois sós.
Meia hora depois, ao voltar ainda estavam os dois em animada conversa.
Professor e aluno saíram juntos. Um beijo na face da tia. um Auf Wiedersehen, bis bald, meteram-se a caminho do seminário.
- Muito simpática a sua tia. Sabe que gostei dela?
- Eu já sabia. Ela é ótima pessoa, e o senhor precisa e merece alguém assim. Tenho a certeza que farão um belo casal e que serão felizes.
Gerhart não voltou a procurar os carinhos da tia. Queria mesmo que ela fosse feliz. Ela bem merecia.
Nos dias que se seguiram, o professor aproveitava todos os momentos livres para visitar Gertrude. Ao fim de um mês tinham casamento marcado.
Fizeram a festa em casa dos pais de Gerhart, que começou a tomar consciência que a vida de pastor não se coadunava com sexo libertino, e sentia-se feliz por ter ajudado a tia.
Ajudou-a muito... e ela a ele, mas isso eram águas passadas.
Agora a vida era outra, para todos.

Maio/2014