sábado, 10 de novembro de 2018




Em todas as famílias há uns tios ou primos de quem mais gostamos, outros indiferentes e alguns até que ficaram na memória como pouco mais do que esquecidos. Uma mistura de bem e menos bem!
Dos três de hoje vou começar pelo único que me é consanguíneo, os outros, aderentes, mas imensamente estimáveis e saudosos, também.
Primo direito, nove anos mais velho do que eu, a partir de certa altura foi até o meu encarregado de educação “oficial”! Foi ele chamado ao Liceu, quando me puseram fora! Filho da irmã mais velha de meu pai, e minha madrinha. Engenheiro civil, sempre com uma graça que fazia com que todos à sua volta se fartassem de rir, e tinha na irmã, única, a sua principal claque!
Os almoços de domingo eram, até ao fim dos anos 40, em casa do nosso avô, uma longa mesa com 19 lugares, em que a conversa fluía de tal forma animada e confusa, que um dia eu até pedi para falarem só 18 de cada vez! Alguém tinha que ouvir. Eram opiniões sobre futebol, em que as tias que nada sabiam do assunto faziam infindáveis perguntas, 99% dos presentes eram salazaristas, mas, como quem não quer nada, este primo lançava umas “confusões políticas” que punha tudo a discutir as ações do governo. As senhoras aí não se calavam, elogiando o homem que tinha salvo o país da bancarrota, que tinha construído casas para pobres, que o país vivia em paz, tudo isto dito com o calor que alterava até a temperatura do inverno, mesmo havendo em vários lugares da casa aqueles belíssimos e eficientes aquecedores, esmaltados, de querosene.
Até hoje eu não consigo entender como o meu avô, já passados os oitenta, conseguia comer tranquilo no meio daquele barulho, e ele até comia bem sem dispensar o seu copo do bom Ramisco. Sabia bem de vinhos! A avó, uma jóia que o avô encontrou no Brasil enquanto por aqui esteve entre 1877 e 1899, uma senhora maravilhosa, sempre sorrindo, por fim já muito surda, assistia àquelas discussões com um lindo sorriso, que a todos encantava. Era um amor de pessoa.
Este primo seguiu bem a sua vida professional e, quando do famigerado vintecincobarraquatro era um dos principais administradores da CUF no Barreiro, a maior empresa, a maior zona industrial, de toda a península Ibérica, reduto tradicional e complicado do comunismo. Bom trabalhador, alegre, simpático com os que o rodeavam, quando a esquerda caviar tomou conta do país, prendeu os donos desse grupo, a família Mello, e foi atrás de praticamente todos os seus diretores.
A perseguição foi feroz. Queriam julgá-lo em praça pública, repetindo o que tinha acabado há quase duzentos anos: os infames, vergonhosos e de triste memória tribunais da Inquisição.
Teve, como muitos, de fugir a salto para Espanha, e daí depois vir para o Brasil, Rio de Janeiro, onde voltou a trabalhar com os mesmos patrões, que apesar de terem sido espoliados das empresas em Portugal, tinham alguma coisa no Brasil.
Triste, porque no meio de toda esta calamidade a mulher o abandonou, e veio só com um filho, deixando os outros seis em Portugal.
Curiosamente, quando estudava um projeto de engenharia, engenharia pesada, foi ao sindicato dos engenheiros conversar sobre o assunto. Era presidente do sindicato o engenheiro Jorge de La Rocque. Como eu sou o único da família que sempre se interessou por saber dos antepassados, telefona-me a contar o encontro, onde concluíram que eram parentes, mas “o como” é que não conseguiram deslindar.
Acabei desvendando o “mistério” e até hoje mantenho um belo contato com o filho do Jorge de La Rocque, Ivan.
O meu primo, como irmão mais velho, não resistiu a tanto problema que a revolução em Portugal lhe criou. Passou a viver triste, quem sempre fora duma contagiante alegria, e a maldita doença que surge quando a vida perde a força, levou-o muito depressa, com 55 anos.
Chamou-se José Francisco Gomes de Amorim Guimarães Serôdio (Sabrosa), que desde novo os amigos mais chegados o chamavam de Meco, e ainda hoje sinto muita a sua falta.


*          *          *          *          *

Cunhado deste, casado com sua irmã, quase treze anos mais velho do que eu, um bom 1,90 de altura e largo arcabouço, durante os primeiros anos demo-nos pouco, até porque ele, de família com bastantes haveres, foi trabalhar para fora de Lisboa, eu fui estudar em Évora e não tardou que depois me fosse para Angola.
Uma das empresas da sua família, tinha alguns negócios com Angola, que não cheguei a saber o que seria, porque nem me interessava.
Aí por 1960 teve que se deslocar a Luanda, tinham lá uns dinheiros a receber, o que parece estava difícil. A sogra, minha tia e madrinha, disse-lhe que não deixasse de me ir visitar, saber como estávamos, etc.
E aparece lá em casa perto da hora do almoço, só a minha mulher em casa, ainda no andar de cima providenciando o arrumo dos quartos, nosso e já de quatro filhos. A porta da rua sempre aberta (bons tempos!), entrou, chamou por ela que quando o viu pensou ser uma “miragem”.
Durante o resto da vida sempre gostava de lembrar a cara de espanto que a minha mulher fez quando o viu entrar em casa! Muita alegria, telefona-me para a Cuca, e eu corro para casa. Almoçámos, muita conversa, o visitante, sempre apressado nos seus negócios, chegado na véspera, diz-me que voltava já nessa noite para Lisboa.
- Não deves ir. Ainda não viste nada.
Não deixei. Disse-lhe que ele só estando dois dias em Luanda não teria estado em África, o que era um contrassenso e um desperdício!
Para o dia seguinte, fim de semana, eu tinha-me inscrito para entrar num rali à Cela, hoje Waku Kungo, a uns 400 quilómetros de Luanda.
- Eu nunca entrei num rali, nem gosto de corridas.
- Não vamos correr nada, nem o meu carro, um humilde Simca Aronde 1300 cc, é para isso. O rali é mais de controles de regularidade, e além disso vais ver um pouco do interior de África, que é o que tem interesse.
Relutantemente acedeu, alterou a ida para Lisboa e no dia seguinte lá fomos África adentro! Foi gostando, estava encantado. No regresso a Luanda quebrou-se uma peça dentro da caixa de velocidades (caixa de marchas) o  que impedia de as trocar, o que nos deu uma canseira miserável. O caminho, estrada ainda de terra, não era todo plano, havia que atravessar uns riachos, mesmo secos, o que obrigava a abrir a tal caixa de marchas, engatar à mão a 1ª, atravessar aquela “vala”, voltar a parar, desengatar a 1ª e engatar a 3ª, prosseguir devagar sem esforçar o motor (o carro tinha quatro marchas), e assim o tempo foi passando e fez-se noite.
Perto da meia noite surge a placa duma empresa de construções que, perto da estrada, tinha montado um grande acampamento, com oficinas e tudo o necessário porque estavam a construir uma ponte. O curioso é que o diretor geral dessa empresa era irmão deste “aventureiro”!
Parámos o carro junto à entrada do complexo, todo vedado com tela alta e decidimos que passaríamos ali a noite e de manhã os mecânicos nos ajudariam a consertar o carro.
O visitante, grande, que não conseguia posição confortável para passar a noite dentro do carro, ainda me diz que não consegue dormir sem primeiro satisfazer as suas necessidades.
- Não há qualquer problema. Tens à tua vista uma imensidão para te desobrigares disso!
Encontrámos uns pedaços de papel dentro do carro e lá foi ele. Voltou, aliviado. Tentámos dormir, e assim que o dia começou a clarear já os trabalhadores da empresa apareceram para ver o que estava um carro a fazer ali encostado ao portão.
Foi fácil explicar, mais ainda quando souberam que um de nós era irmão do diretor geral. Chamaram-nos para tomar o mata bicho com eles, enquanto os mecânicos se ocuparam a resolver o problema do Simca, o que fizeram com magnífica rapidez e qualidade.
Durante aquele simpático convívio o visitante contou que de noite teve de “ir ao mato” resolver os problemas intestinais.
- No mato? À noite? Teve muita sorte!
- !?!?!?
- Há uns 15 dias um dos nossos funcionários, capataz dum grupo de trabalhadores angolanos, que durante a noite cavavam terra necessária para se continuar o trabalho de manhã. O sujeito deixava os cavadores sozinhos, disfarçava e ia para trás duma árvore dormir. Nessa manhã os homens estranharam que ele não os viesse chamar, porque o horário deles terminara, mas o capataz... nada. Chamaram, nada. Saíram à procura e acabaram por achar um corpo mutilado. Pouco mais sobrara do que a cabeça e uns farrapos. Um leão fizera a festa.
Quando isto ouviu, o nosso visitante português empalideceu. Podia ter sido comido por um leão!
Brincando com esta história, real, todos acabamos rindo, menos o atemorizado estreante de África!
Sempre que nos encontrámos, até ao fim da sua vida, lá vinha à baila a história do leão! Conheceu África dum modo bem especial, o que não o impediu de ter-se quase apaixonado pelo magnífico interior daquele continente.
Depois do tal 25/4, fez alguns investimentos no Brasil, onde morou poucos anos, andando sempre cá e lá. Quando o lula foi eleito presidente, escreveu-me temeroso a pedir a minha opinião. O que achas que se vai passar com um governo de esquerda?
Eu sempre tive uma pequena bolinha de cristal, daquelas mixurucas que se iluminam com uma pilha AAA, e resumidamente lhe mandei dizer:
O sujeito já disse que teve uma herança maldita, que vai aumentar a renda dos pobres, que vai fazer isto mais aquilo, etc., aquele grasnar de quem promete e ... mas que ele não podia deixar de obedecer aos capitais, mundiais, porque, primeiro eles são grandes credores do Brasil, e porque ninguém vive sem isso. Daí que não estou muito preocupado.
(Ainda tenho comigo cópia dessa carta que lhe mandei)
Creio que o sosseguei, mas quase na mesma ocasião escrevei ao dito presidente, par lhe dizer que não se esquecesse do principal: para distribuir renda, primeiro tem que gerar renda, o que significa apoiar a indústria, comércio e agricultura. (Parece que ele esqueceu!)
Quando ele casou eu tinha 14 anos, era um moleque atrevido. Depois da nossa aventura africana e de algum convívio mais no Brasil, a nossa amizade sempre foi crescendo.
Até porque a sua mulher, minha prima, era considerada também, não só por mim, mas também por todos os meus irmãos, como a nossa irmã mais velha. Quando vou a Lisboa e passo em frente da casa onde moravam, o meu coração se aperta.
O visitante chamou-se Rodrigo Cardoso d’Orey. Um dia tentei fazer o seu retrato.

*          *          *          *          *

Pai do primeiro e sogro do segundo, o meu tio, e padrinho, era uma pessoa, como hoje se diria, completamente zen. Tranquilo, animadíssimo quando bebia um copo a mais, nas festas de família, herdou bem do pai e parece que ainda mais da mãe, uma escocesa que, pelo que chegou aos nossos dias, era filha duma milionária... brava.
Tão brava que, teve duas filhas e quando morreu deixou no testamento tudo quanto tinha para uma e para a outra... uma corda para ela se enforcar!
Os herdeiros entraram na justiça para que o testamento fosse anulado. Não demorou para verem que os advogados iam comer tudo e decidiram, prova de inteligência, dividir o espólio irmãmente! Até porque as irmãs se davam bem e os concunhados também.
De qualquer modo o que sobrou deu até para os netos não terem preocupações na vida, aplicando o capital de onde lhe viesse bom rendimento, o que significa que este tio não precisava trabalhar.
Quando se encantou pela minha tia, irmã de meu pai, foi, educadamente, pedir a mão da gentil menina ao meu avô, que era um homem correto... e duro.
-A minha filha não casa com quem não trabalha.
Não fez qualquer diferença. O noivo pediu a um amigo que lhe desse um emprego qualquer, o que não foi difícil de obter e deste modo conseguiu a paternal autorização.
Casou e deixou o emprego!
Era um artista. Tinha em casa um autêntico museu onde se ocupava retocando cerâmicas, pintando aquarelas, e consertava o que fosse preciso.
Sempre calmo e bem disposto, não me lembro de o ver mal encarado. A não ser uma única vez: quando fui expulso do liceu estava a morar lá em casa dos tios, enquanto a minha mãe, com tremenda dificuldade, procurava onde se instalar, com o pouco dinheiro com que ficara quando enviuvou.
O meu primo foi chamado ao liceu para que o reitor explicasse porque me punha na rua, e levou-me a casa. Quem abriu a porta foi o meu tio, já a par da situação, e mal passei a porta enfiou-me uma boa chapada na cara! Malandro, eu, tive que fingir que chorava.
Quando, muitos anos depois eu contava esta história à minha prima ela não queria acreditar.
- Não é possível. O nosso pai nunca nos tocou.
Ao que eu retorquia:
-  Pois eu acho também que ele fez muito mal. Eu andava completamente fora dos carris. Em vez duma chapada ele devia ter-me dado duas!
Nunca deixei de o respeitar e ter por ele muita ternura e simpatia, até porque essa chapada me fez muito bem.
Lembro-o sempre. Tenho na minha sala uma fotografia dele. Era uma ótima pessoa.
Esse querido tio chamou-se Frederico Davidson de Guimarães Serôdio (Sabrosa). Foi embora muito cedo; tinha só 51 anos. Não tive tempo para lhe mostrar o quanto bem me fez.

9 nov. 18

segunda-feira, 5 de novembro de 2018




Apresentando um Fascista?
Será Nazista? Ou... ?

O que é um fascista? E um esquerdista? E extrema esquerda? E extrema direta? E ...
Pela luta que tenho travado contra os “ultras-super-intelectuais” portugueses, e até alguns brasileiros, pelo ódio e a cizânia que têm tentado espalhar entre os brasileiros, insurgindo-me contra a baixaria da linguagem reles usada por “mestres”, “doutores” e quejandos, estou a imaginar que já me devem ter rotulado, no mínimo de nazista!
Só para os tranquilizar, informo que ainda uso um nome alemão, Frick, e ainda por coincidência houve um colaborador de Hitler com esse mesmo sobrenome. Esta foi pendurado pelo pescoço, e se eventualmente era parente dos meus antepassados vindos no século XVIII, da Suíça Alemã, eu nada tenho com isso. Tenho é um passaporte prussiano, importantíssimo, que não vale nada, mas tem graça!
O meu curriculum demonstra bem esta minha faceta nazista.
Em 1938, fardado de menino da Mocidade Portuguesa, participei do início da reflorestação do Parque Florestal de Monsanto, em Lisboa, e tenho uma fotografia minha, tirada quando animadamente tentava cavar para plantar uma árvore, e que está assinada pelo Salazar. Olha o fascismo a revelar-se.
Até aos 13 anos de idade fui membro, importantíssimo, da tal MP, onde me deliciava praticando atletismo. Desfilei várias vezes, duas a tocar tambor e uma como estafeta, transmitindo as ordens do comandante para os esquadrões que vinham atrás, cantando e rindo. Como é de supor a família ia à janela para verem passar o grande militar!
Passei um ano no Colégio dos Jesuítas em Santo Tirso, sempre à bordoada com o “prefeito” que tomava conta dos mais novos, e que me deu mais chutos nas canelas, nesse ano, do que todos os outros que levei até hoje.
No ano seguinte voltei ao Liceu Pedro Nunes de onde, dado meu comportamento sossegado... acabei expulso! Briguei com o professor de matemática, que era pior do que um cretino, e com um colega filhinho de mamãe que fazia queixinhas.
Já em Évora para fui onde estudar em 1946, entre 1948 e 1951 participei em mais de uma dúzia de touradas e garraiadas, o que prova, uma vez mais o meu background das “direitas”.
Ah! É verdade, logo a seguir cumpri o serviço militar obrigatório em Cavalaria 7, e gostei do espírito de ordem e hierarquia, se bem que tenha provocado algumas pequenas confusões no quartel, querendo endireitar algo que considerava errado. Não consegui nada, mas tentei. Quase fui preso!
A partir daí fiquei livre para iniciar a minha vida profissional.
Não demorou a minha partida para Angola, na maravilhosa cidade de Benguela, como responsável pelo departamento de máquinas agrícolas de uma grande companhia com sede em Luanda.
Com o meu feito de não aceitar, JAMAIS, ordens erradas, a briga com o meu superior, e meu colega, bem mais velho, que estava na capital, depois de demonstrar que eu estava certo, achei que não podia ali continuar e despedi-me! Com pena, porque gostei dos meus ajudantes, somente dois. Um, o humilde angolano que já não sei se se chamava Joaquim ou António, era uma figura de legenda. Já escrevi sobre ele, mas, para que conste este meu feitio de extremista, vou repetir um pouco: o António foi “nomeado” meu auxiliar pessoal. Quando eu estava fora da cidade, em viagem, ele dormia em minha casa e tomava conta de tudo. E no regresso, normalmente ao fim do dia ou à noite, levava o António, no quadro da minha bicicleta até casa dele. Típico fascista.

1954 

O outro colaborador era um português aí dos seus 40 anos, magro, baixo, que vivia só e triste sonhando que na União Soviética é que era bom! Anti salazarista até ao tutano. Várias vezes lhe propus pagar-lhe a viagem para a Rússia, só de ida, com uma única condição: estabelecíamos previamente um código de escrita e ele mandava-me postais ilustrados da Praça Vermelha ou de outra maravilha, dizendo se estava satisfeito, se aquilo era o paraíso com que ele sonhava ou... pelo contrário se estava arrependido.
Se fosse o paraíso eu ia ter com ele. Eu não levava muita fé nesse paraíso, mas...
Várias vezes lhe disse que quando quisesse ir eu compraria logo a passagem. Ria, disfarçava, aquilo era muito bom, mas nunca saiu de Benguela. Éramos amigos. (Os comunistas e esquerdistas são assim: falam muito mas não vejo ninguém emigrar para a Venezuela, Cuba ou Coreia do Norte! Enfim, vamos em frente.)
Mais tarde fui trabalhar para as cervejas, a Cuca. Quando assumi a parte comercial reestruturei todo o esquema de salários do meu pessoal que foram substancialmente melhorados. Briguei com os patrões e ganhei. (Deviam ter medo dum nazista!) Uma outra briga, sem nada a ver com dinheiros fez com que eu pedisse demissão da Cuca.  Foi um escândalo. E nessa altura tinha seis filhos. Depois ainda chegaram mais dois. Numa grande empresa com um diretor geral e quatro chefes de serviço (eu, um deles) pedir demissão foi uma bofetada. Pois é, mas eu não levo desaforo para casa, nem do Papa (que jamais o faria!). Só de pobre que sempre precisa de xingar alguém ou alguma coisa para desabafar.
O mesmo fiz em Moçambique, na cervejeira 2M. Essa briga, dos salários, foi mais fácil com o administrador, porque era burro que nem uma tranca, e mais difícil com o pessoal, branco. Estranho, né? Os idiotas, depois de os vestir com fardas novas, impecáveis (nem farda tinham) e que passaram a ter uma confortável melhoria nos seus proventos. Um dia reclamaram. Deram-se mal porque eu não gosto de gente estúpida. Os serventes, moçambicanos, passaram a ter quase 50% a mais de salário, e consideravam-me como um pai... fascista?
Já no Brasil, depois de ter comido o que diabo amassou, e foi amargo, um dia consegui montar uma marcenaria, onde trabalhavam quatro marceneiros. Quando me fartei daquilo, sabem o que aqui o fascista/nazista fez? Ofereceu todas as máquinas aos trabalhadores, um dos quais até hoje é mestre e ainda tem algumas dessas máquinas em bom uso.
Tem mais umas historinhas.
Em outra empresa, quando lá entrei, era hábito o pessoal vender as suas férias. Alguns com 10 anos de casa nunca tinham descansado. Obriguei todo o mundo a sair de férias. Reclamaram de entrada mas quando regressavam ao trabalho vinham agradecer-me. Mas isso são coisas de extremista de... direita! Perigoso.
Eu era o depositário dum relativamente pequeno, mas muito interessante espólio do meu bisavô e homónimo. Valia um bom dinheiro. Mas fascista, extremista, ávido por dinheiro, decidi fazer uma proposta à Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, terra do meu antepassado: se eles assumissem a edição dum livro sobre a biografia do meu bisavô, magnificamente escrito pelo grande jornalista Dr. José Rodrigo Costa Carvalho, porque não sendo esquerdista não encontrava editora que o quisesse fazer, eu ofereceria o espólio para a Biblioteca Municipal. Assim se fez, e fui criticado por não ter vendido! Mas o livro saiu e é uma maravilha.
Mas enriquecer para que? Eu já recebo uma generosa aposentadoria da Segurança Social em Portugal no valor de €271. Por extenso: duzentos e setenta e um Euros. Para que mais? Isto depois de 24 anos de trabalho em Portugal e nas Colónias.
É evidente que, com este tsunami de dinheiro entrando na minha conta, só podia ser fascista.  
Teria MUITO mais para contar.
Só uma pequena explicação porque me pus do lado do Bolsonaro.
Primeiro porque, como os outros 55 milhões de brasileiros, estava mais do que enojado e espoliado com a canalha que durante anos andou a roubar, de forma para lá de absurda, o país, isto é o povo. Depois porque não gosto de mentira, coisa que o PT só soube fazer durante 14 anos. Depois porque continuo a considerar a família a base da sociedade, e jamais aceitaria a ideologia do género que o sr. Hadad quis impor, ele, um adulador das obnóxias e aviltantes ideias de extrema esquerda.
Como consequência só uma alternativa se apresentava, mesmo não sendo enviada pelo Arcanjo Gabriel, e que trazia uma proposta séria: Ordem. Ordem. Respeito pela família. E pela Nação.
Diz o Presidente eleito, Bolsonaro, que bandido, se aparecer com arma na mão, vai levar bala.
Há anos que temos mais de 60.000 assassinatos por anos. Mais mortos do que na guerra da Síria. Então não estamos em guerra? Vamos deixar a pilantrada à solta a fazer o quer? Não, não vamos. Talvez dentro de pouco tempo já possamos sair à rua sem medo de sermos assaltados ou assassinados.
Mas continuar a engolir a barbaridade de escritos de portugas esquerdistas, dói até no estômago. Sobretudo porque eu também sou português, e considero um atrevimento covarde e uma baixaria o linguajar dessa gente.
Pobres de espírito.
E foi assim que cheguei a ser um “extremista, nazista, fascista” e outras coisas mais!
Mas creio que o meu “rótulo”, se há um, seria mais ou menos o seguinte: só aceito a verdade, hombridade, ética, decência, respeito. Para isto a ordem é fundamental.
Se enfrentei touros, e em África animais ainda mais perigosos, não vou enfrentar agora essa corja de covardes? Vou, “até que voz me doa”, como cantava a Maria de Fé. É verdade: até a grande Amália chegou a ser acusada de fascista!
Para terminar vou falar-lhes duma pessoa que conheci muito bem, que muito estimava e admirava, republicano até à medula, do grupo de revolucionários que apoiaram Manuel de Arriaga, anti salazarista a cem por cento, médico e professor de Belas Artes, uma figura ímpar. Casado com a irmã da minha avó materna. Nasceu em 1866 e morreu uns dias depois de fazer 95 anos, tinha eu 30 e por isso tive ocasião de o conhecer bem e ter estado muita vez com ele.


Chamou-se João Barreira. Professor Dr. João Barreira.
Nunca da boca daquele SENHOR ouvi uma palavra reles, ordinária. Comentava o seu desacordo com a política de Salazar, mas com a classe dos homens com letra maiúscula. Correto, educado, inteligente, simpático, cultíssimo.
Não devia ter mais de 1,50 m de altura, mas era grande. Por fora é só embalagem.
Eu ouvia-o, procurava guardar cada uma das suas palavras, sábias, tranquilas, uma fonte de história. Um mestre.
Era um Homem da oposição. Mas se ainda estivesse entre nós se horrorizaria com a baixaria que sai da boca dos que se fingem do contra.
Coitados.

04/11/2018

segunda-feira, 29 de outubro de 2018


Do Brasil                                                   por Francisco G. de Amorim

aos “artistas” e “intelectuais” portugueses

Finalmente acabou aquele terrível ambiente de tensão, desagregação, típico perfil da EXTREMA esquerda vomitando ódio e mentiras sem parar, dividindo as famílias, os amigos, o povo. Um povo conservador, mas inculto, que não consegue enxergar onde a esquerdíssma quer alcançar.
Há anos que a esquerda lhe vem mentido (e sempre roubando) comprando votos sem criar empregos, financiando sindicatos que ficam nas mãos de apaniguados (no Brasil há mais de 117.000 sindicatos!), financiando grupos terroristas como o MST, aparelhou todas as universidades públicas com reitores e dirigentes comunistas que abusaram de mentalização dos jovens, nomeou para cargos de alta responsabilidade indivíduos pouco mais do que analfabetos, e conseguiu com isso manter-se no PODER, com os sonoros aplausos de quase toda a mídia esquerdista mundial.
Até a Universidade de Coimbra, vetusta, infiltrada, infeliz, entregou o barrete de “Honoris Causa” a um ladrão que começou já a cumprir pena, mas que ainda falta ser condenado por mais de 80 bilhões com que se locupletou.
Cargos de “confiança” são mais de 50.000. Quiseram impor a “ideologia do género” para alunos a partir dos 11 anos, informando os pais que podiam ter relações sexuais com os seus próprios filhos a partir dos 6 anos de idade.
Avalizou empréstimos do Credit Suisse a Moçambique e à Venezuela que não pagaram, e agora o Brasil teve que desembolsar US$ 1,6 bilhões. O Morales da Bolívia nacionalizou a NOSSA refinaria de gás, não pagou e Lula “ofereceu-a”. Etc., etc., etc.
Com tudo isto, e muito, muito mais, passou a ser o líder querido da esquerda, aliás extrema esquerda, da América Latina, aplaudido, referenciado e protegido pela Internacional Comunista.
O PT ultimamente estava a ser financiado pelos bandos de narcotráfico.
Continuamos com mais de 60.000 assassinatos por ano.
Em dois anos o desemprego passou de 5 para 12 milhões de trabalhadores.
O país estava, e ainda está, num completo caos.
Aparece um homem, sozinho, sem dinheiro nem ninguém que o financiasse e desafiou não só a esquerda brasileira, mas toda a esquerda internacional que não aceita perder.
E começam a surgir, de todo o lado retratos desse homem, honesto, determinado e valente, com as mais vis mentiras, comparando-o a Hitler e outros infantis absurdos.
Artistas e pseudo-intelectuais fizeram inúmeros manifestos, atirando-se ao candidato como hienas esfaimadas, cheios de veneno, insultando, mentindo, mostrando até um misto de xenofobia e de colonialismo irritados por terem perdido a jóia da coroa, o Brasil, com que se arrogam ainda o direito de quererem dar ordens neste país.
Não esqueçam senhores pseudo artistas e intelectuais, que foram mais de 55 milhões de brasileiros que votaram em Jair Bolsonaro, e meia dúzia de complexados portugueses têm o descaramento de insultar os que, conscientemente souberam exatamente o que estavam a fazer. Julga essa pobre pseudo elite que só ela tem o poder de saber o que é bom para OUTRO país?
Que arrogância, que descaramento, e sobretudo que vergonha.
Felizmente, no entanto, o povo daqui nem lê essas patacuadas do Manel e Joaquim.  Além de os ignorarem, desprezam-nos.
Eu que sou português e vivo no Brasil há mais de 43 anos, envergonho-me, e neste momento, estou completamente ao lado do novo presidente eleito, a quem vou procurar ajudar com tudo quanto possa.
O candidato que perdeu, por fim discursou. Mal educado, péssimo perdedor, porque a esquerda não quer, não sabe perder, em vez de ter mostrado um mínimo de dignidade cumprimentando o vencedor e desejando, para bem do país, um bom governo, continuou a vomitar ódio, a assegurar que vão ferozmente lutar contra... para defender a democracia, palavra tão gasta já, que na boca dessa gente, chama-se impor a ditadura bolchevique.
Por fim, 12 horas passadas mandou uma mensagem ao presidente eleito: "Presidente Jair Bolsonaro. Desejo-lhe sucesso. Nosso país merece o melhor. Escrevo essa mensagem, hoje, de coração leve, com sinceridade, para que ela estimule o melhor de todos nós. Boa sorte!"  Deve ter sido a única atitude decente na sua vida!
Não se iludam senhores intelectuais lusitanos.
O “golpe”, a vitória da decência, não foi só no Brasil. Foi mundial, onde o marxista disfarçado continua a estender a sua teia, e por isso se vêem tantos “crâneos” dos eleitos fazerem previsões catastróficas, apocalípticas, para o novo governo.
Permita Deus que tudo corra bem.
A tarefa é imensa. A economia está de rastos, o desemprego, a saúde, a educação, a segurança, o narcotráfico, mas uma das tarefas a enfrentar desde já, talvez a mais difícil, seja desmontar toda a máquina administrativa.
Deixo só mais uma pequena mensagem para esses “assinantes de manifestos”: não venham ao Brasil, não fazem aqui falta nenhuma. Se quiserem passar férias e adular os da vossa laia, vão à Venezuela e entretenham-se a conversar com o “intelectual” Maduro. Talvez ele ainda se lembre como se conduz um ónibus.

29.10.18
  


domingo, 28 de outubro de 2018


Amigos – 14

Afinal o que é um amigo? Tem uma definição magnífica de Vinícius de Moraes, muito divulgada, e uma simples que diz que “o amigo é quem está contigo, quer estejas rico ou pobre. Mais ainda se estiveres pobre ou doente”.
Estes de quem vou lembrar hoje, teria, um, talvez mais de cento e cinqüenta anos; o outro cento e vinte e um.
Um com a idade do meu avô, outro do meu pai.
Teria eu poucos anos, muito poucos, aí três ou quatro e, quando chegava o verão, uma alergia extremamente incómoda, atacava-me as curvas dos braços e pernas, o que me dava uma tremenda coceira, que acabavam feridas. Para evitar que me coçasse ligavam-me as mãos, formando uma espécie de luvas, e o tratamento, era com um líquido pastoso (creio que uma mistura de oxido de zinco, ácido bórico, enxofre coloidal e talco ???) com que me pincelavam com uma brocha de pintar paredes. Punham-me nu em cima de uma mesa e vá de fazer a criança sofrer! Ardia p’ra caramba!
Secava um pouco as feridas, mas só passava esta maleita quando o verão chegava ao fim.
Os meus pais lá encontraram um médico, que na altura teria talvez uns sessenta anos (isto é bem chutado, mas era bem mais velho do que o meu pai) que passou a cuidar de mim.
Casado, pai de dois filhos já homens, independentes, fora de casa, sem netos, ao fim de algum tempo, mesmo sem me ir visitar como médico, passava lá em casa e pedia aos meus pais que o deixassem levar-me para dormir lá em casa dele. Lá ia, ele e a mulher, de quem não me lembro, tratavam-me como neto, cheio de  atenções e mimos, e no dia seguinte quando saía para o consultório, deixava-me em casa.
Numa dessas vezes parou no caminho, numa loja de brinquedos e comprou talvez um carrinho para me dar. Enquanto ele dentro da loja fazia o pagamento, eu esperava na porta, onde havia um monte de outros brinquedos, coisa pequena, mesmo à mão. Eu era o terceiro filho, e achei que se ele me dava um brinquedo eu poderia muito bem levar alguns mais para os meus irmãos, e passei a mão em dois ou três, certamente com o ar de inocência que essa idade permite, sem sequer os ter escondido.
Entrámos no carro, um belo e grande Renault, deixou-me em casa e à tarde telefonou à minha mãe para perguntar quantos brinquedos eu tinha levado.
-Três ou quatro. Porquê? – O dono da loja disse que eu lhe devia um dinheiro, porque o menino tinha levado mais uns brinquedos!
Quando me perguntaram eu respondi que peguei um para cada irmão. Nada mais simples.
Como é evidente ninguém se zangou comigo, o médico achou a maior graça e foi lá pagar a imensa dívida.
Quando uns bons anos depois fui ao Porto, talvez em 1950, a primeira pessoa que quis visitar foi o meu velho amigo e médico, desta vez ao seu consultório na Avenida dos Aliados. Estava velhote e muito zangado com a Renault, porque toda a sua vida só tivera carros desta marca e por último um lindo Viva Sport, mas que já velho tivera que trocar.


Acontece que a Renault, com a guerra, só voltou a fabricar automóveis em 1944, mas fazendo um carrinho minúsculo, aliás ótimo, o 4CV, que não servia para um senhor que teria talvez oitenta anos, e era um homem alto. A Renault não o deixou comprar um carro de outra marca. Enquanto não saiu o novo Fregate, só no fim de 1951, o representante do Porto pôs às ordens dele um carro seu, grande e confortável.
Foi a última que o vi e depois nada mais soube deste senhor, de quem até hoje, guardo na memória a sua simpatia e ternura.
Chamou-se Dr. Vasco Nogueira de Oliveira, e acreditem ou não, ainda hoje me lembro onde ele morava: na Estrada da Circunvalação, e nós na Rua Faria Guimarães!
Descanse em paz, querido amigo. Não tarda que nos voltemos a encontrar!
E eu prometo que não vou “roubar” mais brinquedos.
Esta coisa de memórias de amigos é como quem come pinhões, dumas coisas passa-se a outras.
Já em Lisboa, 1937, tínhamos uma empregada “ótima”, alta, desembaraçada, que se chamava Conceição. Era ela que me pincelava, e eu chorava com a ardência do tratamento. Estava ela um dia a torturar-me quando a minha mãe entra no quarto e vê a sobredita a enfiar-me aquele imenso pincel na boca quando eu chorava!
Mamãe não era para brincadeiras! Deu umas bem assentes chapadas na besta e correu com ela porta fora!
A minha alergia de criança só passou, teria eu uns catorze anos, e até lá em todos os verões era a mesma farra de me pincelarem.
Foi um médico em Sintra que sugeriu fazer um “auto-sangue”: tirar da veia e introduzir intramuscular. Mas foi avisando: essa alergia deve passar, mas outra vai aparecer. Apareceu: a febre dos fenos! Não lembro quantas sessões fiz, acabou a coceira, mas até hoje, só em Portugal, quando chega Maio e Junho, espirro que nem um bode. Nos trópicos...nada.

§          §          §          §

Este outro amigo, que nasceu em Copenhague em 1897, e de quem já referi, muito de passagem no texto Amigos 11, conheci-o em situação professional, e de maneira curiosa.
Apareceu-me um dia na firma Herold, onde eu trabalhava, para apresentar uma série de máquinas agrícola, de pequeno porte e uns quantos aparelhos para uso em laboratórios de controle de sementes e outras agronomices, que me pareceram interessantes, e iriam preencher uma faixa de equipamentos em falta em Portugal para o pequeno agricultor e para laboratórios simples, que muito foram, depois, ajudar os técnicos espalhados pelo país.
A história deste homem, bem alto e forte, na altura nos sessenta anos, filho de um dos maiores engenheiros e empreendedores dinamarqueses, sócio da maior empresa mundial de cimentos, e de engenharia é muito interessante,
Sempre sorridente, bem disposto, alegre, disse-me que não trabalhava na empresa que o pai deixara ao falecer, porque não entendia nada daquilo e então “eles lhe pagavam para ele não ir lá”! O irmão mais velho era o presidente do grupo.
Engenheiro civil, trabalhou com seu pai na FL Smidth até este falecer em 1925, depois foi como autónomo para Paris. Durante a ocupação alemã volta à Dinamarca envolve-se nos serviços de inteligência, e foi um dos fundadores do Conselho de Liberdade da Dinamarca. Obrigado a fugir para a Suécia ali atuou como enviado especial. No fim da guerra foi um dos elementos de reconciliação com a Alemanha Ocidental.
Ficou famoso pela sua atuação na resistência e uma placa simples, como devem ser as grandes homenagens, o recorda em cima da sua campa.
Erling Foss – 1897 – 1982
MEDSTIFTER DANMARKE FRIHEDSRAD
Cofundador do Conselho de Liberdade da Dinamarca

Voltemos aos negócios.
O senhor tinha montado uma empresa de exportação de produtos dinamarqueses, que vendia sem um centavo de lucro. Mas viajava por todo o lado, como vendedor e, dos impostos a pagar, que eram bem altos, deduzia todas as despesas da viagem com a firma! Inteligente.
Eu achei que tudo quanto me mostrara se adequava bem à nossa área de trabalho, tanto mais que a Empresa Herold já estava com a corda no pescoço, e apresentei o problema ao diretor, um menino rico que nunca trabalhara, saía no meio da manhã para ir a casa trocar de gravata para almoçar (verdade, verdadinha), a tarde aparecia de fato – terno – diferente, não sabia nada de coisa alguma, nem fazia p. nenhuma, mas tinha um carrão sempre novo. Disse-me com ar imbecil: Isso não vale nada. Não nos vamos meter nessa.
Comprometido com o senhor a tratar do assunto com todo o interesse, envergonhado, escrevi-lhe a contar do “desastre” na empresa. Ele, tranquilo só me disse: Não se preocupe. Faça o que entender.
Não tardou a aparecer uma consulta de preços para uma boa quantidade de equipamento exatamente daquele tipo, para Angola, a distribuir por regiões várias, para auxiliar no aumento de rendimento das populações locais.
Decidi apresentar, individualmente, uma proposta, na altura qualquer coisa como US$35.000. Há sessenta anos era uma grana boa! Ninguém mais apareceu e eu ganhei a concorrência... sem concorrentes.
O meu amigo ficou eufórico lá na Dinamarca, e eu aflito sem saber como lhe abrir o crédito, porque não tinha nem US$1! Este problema acabou por se resolver de forma muito simples. Abri conta no Banco Nacional Ultramarino, com 500$00 que o meu sogro me emprestou (e saquei logo a seguir!), entreguei toda a documentação ao banco, incluindo o recibo para o comprador, e... vapt-vupt, tudo resolvido e eu com uma bela maquia na minha conta!
Logo me interessei pelos outros equipamentos, mas como estava “preso” a horário de trabalho foi com o meu colega e amigo Henrique Godinho (ver Amigos – 11) que começámos a vender em Portugal uma série de outros equipamentos.
Em 1961, quando andei pela Europa, pedi que me dessem uns dias de férias e fui visitar o meu amigo em Copenhague, onde ficámos perto de uma semana. Foi amabilíssimo.
Deu uma volta conosco pela cidade, em meados de Março nevava, mostrou-me a estátua que fizeram em memória do pai, e convidou-nos depois para jantar em sua casa, às seis e meia! Ainda lhe pedi para repetir o horário e ele confirmou: 18h30. Eu nunca tinha jantado tão cedo, mas...
Casado de novo há pouco tempo (1958) um filhotinho que devia estar para chegar, meia hora depois do jantar tinha acabado a conversa! Mas ir deitar às sete da tarde?
Sabendo que eu trabalhava na Cuca, e sendo pessoa muito influente no país perguntou-me se gostaria de visitar a Carlsberg e a sua Fundação. Claro.
De manhã telefona-me e diz que estão à minha espera na fábrica. Das oito da manhã ao meio dia, visitei, com muito gosto, tudo aquilo, e aprendi mais algumas coisas.
À tarde perguntou-me se tinha sido bem recebido e se me tinham convidado para almoçar. Bem recebido, sim, almoço não. Ficou indignado. Telefona ao presidente da Tuborg a contar o “escândalo” da Carlsberg! Um amigo meu, cervejeiro, vem de Angola e não o convidam para almoçar! Logo feito o convite, para o dia seguinte.
Às oito da manhã, um frio do cão, dois diretores da Tuborg na porta da companhia, me aguardavam. Depois da visita e da troca de impressões, fomos almoçar num restaurante da fábrica. Ótimo.
Uma larga travessa circular cheia de peixe e frutos do mar e o indispensável e ótimo pão. Smorrebrod!
Começa o garçom por trazer três belos copos de cerveja e três cálices para bebermos a famosa Akvavit, aquavita, um destilado de origem escandinava. Do latim, aqua vitae, "água da vida'", álcool quase puro! Entre 40 a 50º. A garrafa vem muito gelada, completamente coberta por gelo.
Os “hospedeiros” pegam no cálice, miram todos os parceiros e saúdam: “SKOL”! Aguardente goela abaixo!
Logo que o primeiro copo de cerveja chegou ao fim vêm mais três, e nova dose de akvavit. Eu queria não beber, mas, vá lá, deve ser o último! “Skol!” Goela a queimar. À terceira vez eu neguei a aguardente, mas os dois diretores seguiram alternando a cerveja com a akvavit, e já na segunda parte do almoço, smorrebrod com carnes, só falavam um com o outro. Eu tinha sumido do campo de visão deles! No fim levantaram-se da mesa e eu tive que os seguir e assim foram andando pela rua. Eu atrás. A certa altura houve um que realizou que deviam ter esquecido alguma coisa: eu! Muitos cumprimentos, agradeci muito e os dois muito bem bebidos seguiram a vida deles! Foi sensacional. Valeu muito a pena.
No outro dia o meu amigo Erling convidou-nos para almoçarmos fora da cidade e visitar a sua belíssima casa de campo, numa área onde criavam, à solta, faisões, para depois caçarem.
Ele, com 64 anos, começava a ficar um pouco surdo e distraído, e quando ligava o pisca-pisca do carro ele depois não desligava sozinho! Para resolver o assunto instalou uma campainha para o alertar!  Engenheiro é para isso: inventar!
Talvez em 1964 decidiu fazer-me uma visita a Angola. Foi quando me contou que viajava de graça por todo o mundo! Sabendo-o caçador de faisões decidi levá-lo num fim de semana para caçar uns bichinhos um pouco maiores: pacaças.
Um grupo de caçadores, dois jeeps, lá fomos para as matas do Ambriz (hoje coutada). Ele não quis carabina, emprestei-lhe uma caçadeira. Saltaram duas perdizes, ele matou com "um duplo" e ficou encantado. Um pouco adiante, numa clareira entre a mata, viu uma árvore alta, isolada, e pendente um grande favo de abelhas. Confirmado que era de abelhas, admirou-se, mas mais se admirou quando ao regressarmos ao acampamento, voltou a ver a árvore, mas o favo... tinha desaparecido!
No meio do mato onde não se vê vivalma, quem teria sido? Os “terroristas”! O nosso convidado não queria acreditar! Como é que nós andávamos ali no meio de guerrilheiros com toda a calma? Podiam atacar-nos.      
- Não! Eles não estão interessados em gente que nada tem a ver com o colonialismo. O problema dos guerrilheiros era o sistema e não as pessoas.
Adorou a caçada, já nem sei se caçámos algum bichão grande, e no fim desse ano mandou-me, pelo Natal uma foto dele como filho mais novo, Toke.
Para despedida levei-o ao famoso restaurante Vilela, lá... nos fins da Estrada da Cuca, para comer o que era, na época, o melhor bacalhau do planeta.
Quando encomendei e lhe disse o que íamos comer, bacalhau, code fish, ele fez uma cara estranha e disse-me que era isso que o seu pai lhe dava, de castigo, quando, em menino fazia asneiras!
- Se não gostar pede-se outra coisa. Mas primeiro prova.
Veio o tal famoso bacalhau assado no azeite, com batatas, e o senhor exultou! Ele, alto e forte, apreciou imenso e comeu muito bem!
- Que pena o meu pai não me ter dado este castigo!

Em 1974, depois da revolução dos cravos (!) escreveu-me, preocupado com o que se iria passar nas colónias.
Respondi-lhe, andei uns tempos perdidos na nossa diápora, e foi a última vez que tivemos contato.
Guardo deste amigo uma imagem de muita simpatia, alegre, simples, inteligente, sempre muito atencioso comigo. Um grande homem.
Um abraço etéreo, Erling Christian Foss.

25 out. 18