sexta-feira, 11 de outubro de 2019



O Milagre da Caridade

A costa Norte de Portugal tem, frequentes vezes temporais e, nos séculos passados, a zona da Póvoa de Varzim, hoje uma cidade próspera e importante, era habitada sobretudo por valentes pescadores que enfrentavam o mar com valentia, e alguns agricultores, que adubavam as suas terras com o sargaço que tiravam do mar.
Como em outras ocasiões, no meio da minha papelada e livros encntro algo que estava até esquecido, como este.
Em 1885 um grande temporal levou consigo muitos pescadores que andavam na sua faina, deixando inúmeras vítimas entre viúvas, crianças e outros familiares. Foi uma drama profundo que abalou o país.
Francisco Gomes de Amorim (1827-1991) natural de A-Ver-O-Mar, freguesia de S. Jorge de Amorim, pertencente à Póvoa, condoeu-se das famílias e, sem dinheitro para lhes acudir, compôs o pequeno e tão bonito poema abaixo, que mandou imprimir na Imprensa Nacional, em 1885, e o cedeu para ser vendido, sendo o resultado dessa venda entregue às famílias vitimadas.
Poema que não necessita de tragédias para ser lido e meditado.
O opúsculo, mede 7,5 por 11 cm, vai aqui reproduzido, e é uma pequena peça de coleção.


Era uma vez um menino / Pequenino, / De tamanho coração /
Que aos pobres dava metade / Por amor e caridade, / Do escasso pão.

Ao pais também pobrezinhos, /  Coitadinhos, /  Matavam-se a trabalhar!
E quando, à volta da escola / O filho dava de esmola / O seu jantar,

Diziam: - Que vale o estudo /  Se dás tudo, / Augmentando a nossa cruz?! -
E o menino respondia: / - Dou, pela Virgem Maria, / E por Jesus.-

- Dá, meu filho; dá querido... - /  Comovido, / Tornava o par infeliz:
- Quando um pobre, d’outro pobre / Mata a fome, acção tão nobre / O céu bemdiz. -

O jovem filho do povo, /  Fato novo / Pôde uma vez conseguir.
Eis, quando o tinha vestido, /  Esmola, um mais desvalido, / Lhe vai pedir

Como elle, em dura pobreza, /  A tristeza / Da orphandade tinha a mais.
De trapos vis se cobria; / Com fome e frio tremia, / Soltando ais.

- Oh! Deus, ser-me-ía tão grato /  Dar-lhe um fato, / Que fosse novo também!...
Ih! Jesus, que bom conselho!... /  Torno a vestir o meu velho... / Menino, vem. -

Leva-o consigo ao quarto; /  Comer farto, / E a roupa nova lhe deu.
- Estais lindo! Sae. Depressa, /  Por essa porta travessa... / E deixa o teu.

Que guapo vai, que bonito / Coitadito! ... / Agora, toca a sumir
Os farrapos do meu sócio ... / Se os paes sabem do negócio, / Tenho que ouvir! ...

- O rapaz faz-se poupado!... /  Consolado, / Dizia o esposo à mulher.
- E verdade, nem se veste /  O fato que tu lhe deste! / Para que o quer?

- Conheceu, enfim, que a vida / comprida, / Que depressa o romperá... -
- Não é isso, eu já lhe disse / Muitas vezes que o vestisse... / Onde o terá? -

Vê na caixa. - Está fechada. ... / - Que embrulhada! / Nunca até hoje a fechou!
Chama-o cá. Foi com bom custo / Que o comprei! - Cheia de susto / A mãe, o chamou.

- Abre isto; ou dize o destino, / Meu menino / Da roupa que o pae te deu. ...
- Perdão ... - Abriu sereno: / - Dei-o de esmola a um pequeno, / Mais pobre do que eu. -

- Deste! O novo?! - E furibundo, / Volta o fundo / Da caixa, e vê reluzir
Oiro, joias pedraria; / Quantos trapos ali havia,  / A refulgir!

Ficam todos mudos, quêdos, /  Quaes penedos; / E o prodígio não se esvae!
- Bruxaria... ou roubaste?! / Filho? Onde foi que isto achaste? - / Exclama o pae.

- São vestidos do orphãozinho / Doentinho, / Com quem a roupa troquei!
Mas não eram assim d’antes... /  Que milagre os fez brilhantes, / É que não sei.

- Sei eu. - Volve, ajoelhando, / chorando, / A mãe. - Oh! Bem hajas tu,
Porque ricos nos fizeste, / Quando a Deus ouvidos déste, / Vestindo um nu.

Tornou-se a esmola thesouro; /  Fez-se em oiro / O dom do pobre, bem vês.
E, depois da vida finda, / Maior paga terás inda / No céu, talvez.

Ambos, agora, commigo, / Filho amigo,  / Ajoelhai-vos; a pedir
A quem nos deu tal riqueza, / Que nos mande mais pobreza / Para vestir. -

Paralavras não eram ditas, /  Infinitas / Vozes se ouvem a cantar.
Eram os anjos, n’um hymno, /  O feito do pequenino / A celebrar.

E diziam: - “O opulento / Terá cento / Pela esmola de um ceitil;
Porém, o necessitado, /  Por cada obolo dado, / Terá cem mil.”-


Out/2019


domingo, 6 de outubro de 2019




Johannes Carolus – Quem foi lendo todas, ou só umas poucas das recordações de Amigos que escrevi, deve ter notado que foram muitos, quase todos, a quem o eterno descanso chamou e, com a graça de Deus alguns ainda por aqui andam, muitos deles com ótima saúde e quase incontáveis anos de idade. Também devem ter notado que entre eles há os que tiveram uma vida a todos os títulos notável, que marcaram gerações, se dedicaram aos outros, ensinaram, foram grandes mestres, deixaram belas obras e grandes exemplos.
Não vou destacar este ou aquele mas vou terminar esta série de textos pelo indivíduo para quem não consigo encontrar uma palavra que o defina. Eclético? Completo? Talvez.
Se não é fácil escrever uma biografia, fazer um resumo da vida de quem foi uma Grande personalidade é um desafio, que apesar de saber que será sempre pobre, decidi enfrentar.
Conheci este senhor aí por 1950, amigo do meu sogro e irmãos, e diversas vezes o visitei, por isso para escrever este pequeno texto sobre ele pedi a uma grande amiga, em Portugal, que me arranjasse alguns, dos muitos, livros que escreveu.
Nasceu em Ílhavo, em 1899 e faleceu, depois de sofrer com uma doença incurável, em Lisboa em 1961, quando a sua capacidade produtiva ainda teria imenso que nos dar.
Médico, escritor, poeta, pintor, escultor, professor, romancista, até ator, uma extensíssima cultura, conhecia os clássicos europeus, japoneses, árabes, chineses, indianos, publicou alguns livros que traduziu do alemão, italiano, inglês, e de acordo com palavras suas, numa entrevista em 1949, contava

“Aos oito anos, depois do primeiro exame já exprimia as minhas emoções com rimas e desenhos. Aos onze tive meu jornal manuscrito e desenhado, de que ainda existe, em mãos amigas, uma coleção completa. E aos dezasseis abria as primeiras gravuras para o meu jornal impresso de que saíram 4 números. A Medicina veio muito tarde, por desejo de meu Pai. A Medicina e Farmácia era tradição de família. A Arte, foi, pois, sempre o meu destino, a minha mais gostosa obrigação.”

Dizia que a sua vocação era conversar, escrever e desenhar.
Como médico, aproveitando ao máximo as suas faculdades de inteligência, e artísticas, começou a desenvolver uma atividade verdadeiramente febril, e em ambos os setores: medicina e artes.
Pouco a pouco, foi constatando a inutilidade de grande número de conhecimentos, quer em relação à arte de diagnosticar, quer à arte de curar, o que mais tarde revela nas simples e famosas crónicas “É bom poupar a saúde” que publicou no Diário de Notícias, que ainda hoje deveriam ser lidas por muita gente, porque entendia que era fundamental ensinar ao público as normas básicas de higiene. Lembro muito bem dessas crónicas que eram lidas com um prazer duplo: o ensinamento e a graça com que as escrevia.
Foi professor do Instituto de Serviço Social, conferencista, falava na rádio e na televisão, e depois a escrita nos jornais e em livros, sempre visando transmitir cultura e bom senso.
Houve, e sempre há, uns quantos que se julgam atingidos pela ironia dos mais verdadeiros e inteligentes, como ele se apresentava nas suas atitudes. Mentes complexadas. “Para os que sabem tudo e desdenham, passem o volume a outro!”
Dizem que o nosso cérebro tem dois lados: o matemático e o poético ou artista. Raros são os que têm ambos os lados equilibrados, mas raríssimos os que os têm em grande desenvolvimento.
Neste caso temos o autêntico Médico-Artista.
Para se ter uma, muito simples e reduzida, ideia dos seus inúmeros escritos, reproduzo duas pequenas passagens da série de textos “É bom poupar a saúde”:
-  Alimentação de crianças: A banana antigo regalo de sobremesa e merenda, para raros apenas, como certa poesia... Expresso em calorias, o valor alimentar da banana é de 1.012 calorias por quilograma, não contando a casca que não se come, e a sua riqueza em vitaminas B e C coloca-a, se não a par da cenoura, limão, leite, pão e batata, pelo que diz respeito à vitamina B, pelo menos no mesmo grau quanto à vitamina C. Segue aconselhando dar banana às crianças e termina: Ora a primeira condição para alimentar bem uma criança é ter boa alimentação para lhe dar – como diria o amigo (ou a banana)... Banana.
-  Sobre a hipertensão: Quando se diz que um indivíduo tem 12/8 de tensão arterial, o que significa um estado normal, quer dizer que o coração consegue impelir o sangue a uma coluna de 120 milímetros de mercúrio e a 80 no intervalo entre dois batimentos... Quem primeiro mediu a tensão arterial foi um pároco da aldeia do condado de Middelesex, na Inglaterra, o reverendo Stephan Halles (1677-1761) que, ligando à carótida de uma égua um tubo de vidro, verificou a subida do sangue a nove pés e seis polegadas de altura. Quando as paredes dos vasos sanguíneos aparecem alteradas, fibrosas ou atingidas pela esclerose, diminuindo-lhes o calibre, dizem que é isso mesmo a causa da hipertensão, enquanto outros pensam ser justamente por causa dela! ... E enquanto não há mezinha, nem remédio, nem varinha de condão que cure todos os casos de tensão elevada, o melhor é cada um ajustar a vida aos seus meios físicos, em vez de ficar aí a impacientar-se e a deixar-se vencer pelo medo – coisas que só servem para agravar a hipertensão.
Conselhos de educação sanitária. Mais vale prevenir que remediar (dar remédios!) sempre com muita graça e ironia.
Aquilo que publicava, como médico ou simplesmente como romancista ou poeta, assinava Celestino Gomes e as obras de arte, pintadas ou desenhadas, como João Carlos, algumas vezes em latim como Johannes Carolus, como em muitos dos ex-libris em que mostrou ser um dos maiores especialistas de todos os tempos. Basta ver o dele, baseado no que via pintado nos barcos dos pescadores da sua tão querida terra, Ílhavo, e que mostra a sua, sempre, boa disposição

Ora bamos lá cum Deus – na grafia popular

Um dia perguntaram-lhe: “Porque escreve?” – “ Sei lá porque escrevo! Ponto foi terem-me ensinado a ler e a escrever!  Desde então, suponho, tenho ‘ideias’ literárias!” – “E como escreve?” – “Escrevo onde e quando calha, ponto é que a ocasião e a disposição coincidam.” 
Os livros sempre as capas, e muitos no interior com desenhos seus, vão da medicina ao romance e poesia, tendo começado a publicar em 1920. Abaixo, um para a divulgação das boas práticas de vida, com setenta e um textos publicados no jornal Diário de notícias, edição de 1953, o outro, pequenos romances e aventuras”, edição de 1943.


Sempre muita ironia e uma profunda cultura, escreveu sobre os temas mais variados, leitura de grande sabor e prazer, como no romance Iruchi-Ko que ilustrou. E em muitos outros. Livros seus e de amigos.



Na pintura, apresentou os seus primeiros trabalhos em 1917, com 18 anos. Depois no ano seguinte, e seguinte, e seguinte e por aí fora até pouco antes de falecer. 
Definia os seus trabalhos
“Em cada um dos meus quadros eu procuro, como os antigos, os pormenores, porque todos entram na história que ali se conta. Nenhum dos objetos está ali por estar, mas porque faz parte da história.”
Conheceu a senhora com quem casou num baile em Coimbra, ainda estudante. No dia seguinte, num pedaço de madeira com uns 30 centímetros de altura, esculpiu a figura e cara da noiva com uma perfeição admirável. Esculpiu também a cabeceira da sua cama, já casado e com um filho adolescente, em que a figura central, o Cristo, está ladeado por um pescador, ele, e sua mulher, ambos ajoelhados, enquanto o Cristo tem a mão no ombro da criança. Uma obra de arte, em estilo gótico, de raríssima inspiração.
Gostava de pintar retratos com os retratados em trajes típicos, da sua terra ou do século XIV ou XV, como estes dois auto retratos, um o pescador outro o doutor.



Mas o mais expressivo será este onde se vê o pintor, o médico, o escultor, na parede o quadro da mulher e, para não esquecer, caído no chão, um retrato do filho ainda pequeno. Nada ali aparece por acaso, até a demonstração da sua simplicidade envergando roupa de um trabalhador, e descalço.



Escreveu centenas ou talvez milhares de textos, conferências, romances, poemas, estudos, crónicas médicas, desenhou e pintou outra imensa quantidade de ex-libris e capas de livros, pintou uma “Última Ceia” que está no Seminário dos Olivais em Lisboa, uma obra prima de profundo respeito pela cultura portuguesa.
Cedo demais, uma doença incurável o alcançou, e ele, sendo médico, apesar de ter procurado tratamento em Londres sabia que tinha os dias contados. A mulher, uma senhor muito bonita e muito culta, chorava. E ele:
­“Porque choras? Quem está doente, quem vai morrer sou eu, e não choro.”
Precisava acabar o quadro “A Senhora do Mar”. Faltavam-lhe as forças para chegar às figuras no alto do quadro. Era a mulher que tinha que lhe segurar os braços! Assim mesmo saiu a obra prima; a Nossa Senhora tem a cara da dona Silvina, sua mulher, ele, humilde, como criança estendendo a mão à Senhora do Mar, demonstração da sua Fé e do amor que uniu o casal, à direita o filho, já homem, o avô com a mão no seu ombro. Acima o pai, à direita o sogro capitão da Marinha Mercante, o tio-avô Arcebispo, e os amigos, os poetas Afonso Lopes Vieira, e Américo Cortez Pinto, os pintores Sousa Lopes, Eduardo Malta, Lino António e Guilherme Filipe, o escultor Luis Fernandes, o músico D. José Paes de Almeida, o contista do mar Loureiro Botas.
As Artes, a Poesia, a Família, os Homens do Mar, a Música e aqueles que mais amou.


Já o fim se aproximava, com incrível velocidade:
“O que eu queria, ao menos, era um pouco mais de tempo, para acabar umas coisitas em que tinha pensado. As mãos, só, e um pouco de força para desenhar!”
Em plena agonia final, mal se podendo mexer, mas consciente e sempre estóico, organizou a sua última exposição que não chegou a ver inaugurada.
Pela última vez que se deitou e não mais conseguiu levantar-se, pedia à mulher que lhe levasse papel e as aguarelas. Não parou. Só quando fechou os olhos.
Deixou infindáveis mensagens, na Medicina e nas Artes, mas creio que estes dois pensamentos, poéticos ajudam a ainda melhor o caracterizar 
“Comido o fruto da árvore vedada,
Por castigo de Deus suo o meu pão;
A minha féria é a hora descansada
Em que o que o Senhor me há-de estender a mão...”

Uma noite, já cama, deitados:
- Estás acordada?
- Estou. Precisas de alguma coisa? Ainda não é hora do remédio.
- Está bem, deixa lá isso. Queres ouvir uma poesia que tenho estado a pensar?
- Quero, mas não dormes? Assim não descansas nada.
- Ouve lá isto, tenho muito tempo para descansar, tenho a Eternidade.

Quando de alma em alvoroço
Com uma etiqueta ao pescoço
A hospedeira o levar
E o Guarda lhe perguntar
P’ra onde é que o menino vai,
Ela dirá pelo menino:
- é o filho do senhor Zézinho Celestino
E vai ter com o pai...

23/09/2019




Os meus Amigos


Vou colocar aqui no blog o último texto sobre Amigos, porque me parece que já começa a cansar muita gente !
Ver a seguir
Este de hoje foi uma das figuras que eu mais admirei, vão ver r porque, e assim termina com chave de ouro as pessoas sobre quem vim escrevendo
Como têm vindo a acompanhar, comecei, em Abril de 2018 a escrever sobre AMIGOS.
Ainda faltam uns quantos mas não vou pôr mais no blog – e, apesar de recear ter-me esquecido de algum, conto pequenas ou maiores vivências com 150 – cento e cinquenta – Amigos e/ou pessoas que conheci e com quem convivi que, mesmo não tendo sido exatamente amigos, marcaram a minha vida e deixaram saudade.
Reuni todos num livro, não impresso, porque não há $$$ para isso, e terei muito gosto em mandar por e-mail para quem quiser.
Formato Word, em A4 – 21 x 29,7 cm – cerca de 180 páginas, ou mais bonitinho, formato livro, ou A5 – 14,9 x 21 cm – e 330 páginas.
Fiz uma capa (desculpem a imodéstia, mas acho que ficou muito bonita !) e a contra capa... para não esqueceram a minha cara !
Quem quiser (e estiver depois disposto a mandar fazer cópias de tudo – é bom frente e verso) só tem que me avisar e em qual formato quer.
Só "anunciei" no Facewbbok e já tenho quase 30 pedidos; grande negócio!!!
Excecionalmente posso imprimir aqui e mandar, mas, infelizmente isso tem algum custo. Não arruina ninguém mas dá-me muito trabalho.





domingo, 29 de setembro de 2019



AMIGOS - 37
Mais um irmão de toda a Vida

Já os nossos pais eram amigos em solteiros. Crescemos juntos, entrámos juntos para o Liceu, cada um seguiu a sua vida, mas a magia de África nos uniu ainda mais.
Uma magia que não tem a ver com a cor da pele dos indivíduos. Quem viveu África esqueceu até da cor de alguns com quem partilhou vivências inesquecíveis, porque a atmosfera era outra.
Tanto se dormia num bom hotel, como no chão, no meio do mato, encostado à cabana de algum nativo. Não era o mesmo luxo, mas um luxo a que poucos tiveram acesso, na mesma serenidade e certeza da mesma atenção e confiança, além da boa disposição e natural acolhimento que os povos nos faziam.
Tudo simples, alegre, natural. Melhor que os 5 estrelas. Ali, em noites bonitas víamos miríades delas!
Para recordar um pouco mais estas vivências, temos de voltar à caça.
1958, outro visitante, João, solteirão ainda, experiente caçador na Europa, como não era diretor ou dono de empresa teve que ficar inspecionando Angola durante seis meses. Tempo mais que suficiente para por ela fatalmente se apaixonar. Várias e profundas foram até as suas paixões, terrestres e aéreas. Físicas e psíquicas! Angola é assim, todos tinham que se apaixonar por ela e por algo mais. Sobrava paixão naquela terra.
Numa das primeiras caçadas em que participou, equipado com uma caçadeira calibre 12, dois canos, porque os animais visados eram de pequeno porte, teve o seu momento de glória. Ninocas conduzindo o jeep que corria num terreno irregular, João em pé na traseira no meio de dois companheiros, todos ferozmente agarrados à estrutura tubular que sustenta a capota, retirada e dobrada no fundo do carro, vê aparecerem no alto de uma pequena colina dois veados! Nome genérico dado às diversas espécies de antílopes de porte médio, pouco maiores do que uma cabra, e naquele dia, concretamente os Golungos (Tragelaphus scriptus) muito bonitos, com cerca de noventa centímetros de altura de espádua e uns cinquenta quilos de peso.



Os dois veados destacando-se imóveis lá no topo, numa posição quase desafiante, o capim alto, João sem se largar para não cair, o carro parado, instinto treinado, aponta, sai o primeiro tiro, um veado some, segundo tiro e o segundo veado some também.
- Hurraaah! Um duplo aos veados!
Mal tinha acabado de pronunciar este grito de justificada satisfação e glória, o carro arranca e chegou a vez do jeep por sua vez cair num buraco e tombar de lado! João, como os outros cai também, e fica com os canos da arma, felizmente já descarregada, pressionando-lhe a barriga. Um parceiro por baixo, outro por cima, uma pequena confusão que logo se resolve, todos a quererem levantar-se o mais rápido possível. Num instante estão de pé, cada qual procurando certificar-se que nada mais que uma ou outra pancada ou esfoladela, coisa comum, os tinha atingido. Todos, exceto o João, que continuava deitado, a gemer!
- O que foi? Onde te dói? Dá cá a mão que a gente te ajuda a levantar.
Os companheiros preocupados.
João levanta-se bem devagar, confere com a mesma lentidão a completa integridade do físico e quando se certifica que nada lhe tinha acontecido, respira fundo.
- Estás ferido?
- Não. Não. Graças a Deus.
- Então porque estavas a gemer?
- Eu estava “à rasca” naquela posição, os canos da arma enfiados na barriga, sem saber se tinha quebrado alguma coisa, achei melhor começar logo a gemer, para o que desse e viesse!...
Gargalhada geral. Eram uma animação aqueles incidentes!
Foram procurar os dois veados que deveriam estar caídos a vinte ou trinta metros dali. A elevação onde foram vistos dava para uma profunda barreira em acentuado desnível, talvez com cinquenta metros até à base, onde por sorte o jeep não caiu porque o tal buraco o segurou primeiro! E os dois veados “abatidos” num brilhante duplo de mestre? Onde estão? Bem os procuraram, mas é de crer que eles se assustaram com os tiros, fugiram barreira abaixo, sãos e salvos, e até hoje não consta que tivessem sido encontrados! Um grande duplo aos veados!
Mais uma aventura de caça que dava muita luta, muita conversa, anos de recordações, muito boa disposição no regresso a casa, ao fim do dia, quase sempre com aquela paradinha obrigatória no mesmo bar que ficava a uns dez quilómetros de Luanda, no Cacuaco, uma pequena enseada de pescadores. Esse bar, misto de casa comercial, tasca, restaurante, etc., era paragem compulsória para matar sede e fome, e fechar o dia comentando com tremenda animação aquela e outras caçadas. Os petiscos habituais eram as gambas, o magnífico camarão grande de Angola, uma delícia, choquinhos en su tinta, e outras pequenas maravilhas que permitiam que a cerveja ainda melhor corresse pelas gargantas poeirentas e ressequidas.
A cerveja de Angola, naqueles tempos era a Cuca, onde ambos trabalhávamos. E, para quem voltasse daquela zona de caça era quase obrigado a ir beber Cuca no Cacuaco. A cacafonia ajudava a divertir os bebedores, atraídos sobretudo pelos petiscos, sem dúvida. Quantas vezes se chegava ali ainda de dia, só para lavar a garganta, cheia de pó do mato, e saia-se já noite entrada, bem petiscado e bem bebido. As tais paradinhas!  Mas ao chegar a casa ainda havia muito a fazer: dividir e preparar a carne que se trazia, quando se trazia, limpar e arrumar as espingardas, e por fim tomar um belo banho!
Como tudo aquilo era bom...


Em 2002, quando me aventurei pelos ensaios pinturísticos, fiz-lhe estes dois ensaios de retratos, um deles lembrando o famoso “duplo”, o outro com uma pacaça no canto, lembrando as inúmeras vezes que andámos atrás delas.
Em 1961 telefonou-me, de Lisboa para Luanda, convidando-me para assumir a administração duma empresa familiar, no Norte de Portugal. Angola era já a minha terra (?), e voltar a Portugal, mesmo com uma situação que se apresentava promissora estava fora do meu mundo. Tive, depois de muito lhe agradecer, que rejeitar a oferta.
Trocámos durante anos razoável correspondência e foi ele quem me incentivou a escrever. Sobretudo as histórias das caçadas. Comecei a escrever por aí e não parei mais.
Grande amigo, grande irmão, teve um fim de vida muito sofrido, triste.
Foi-se embora há poucos dias, e ainda me custa muito falar dele. Deixou um imenso vazio, muita saudade e o coração ferido pelo que sabíamos que sofrera.
Descansa agora, meu querido João Cardoso Salgado. Jamais te vou esquecer e, com saudade, rir das nossas aventuras.

07/08/2019

segunda-feira, 23 de setembro de 2019



Histórias da Baía dos Tigres
Angola


Lá... bem no sul de Angola, perto da foz do rio Cunene, há uma formação de areia, uma duna do deserto, em pleno mar! Durante muitos anos foi ligada a terra, formando uma baía a que se deu o nome de Baía dos Tigres, não porque lá tenha aparecido alguma vez um tigre, mas pela formação das areias do deserto, junto ao mar, sempre batidas por ventos fortes, que acabou separando os grãos da areia conforme o seu peso: claras e escuras dando a sensação de representar a pele dum tigre.

Esta foto não representa bem mas espera-se que dê uma ideia

Toda aquela costa é batida pela rápida corrente de Benguela e seus constantes ventos e por mais de uma vez separou a “península” do continente, transformando-a numa ilha, como está hoje.
Ali apareciam muita vez pinguins e focas e o mar era de uma generosidade incomparável.

Como era                              e como está

Mar muito rico em peixe de primeiríssima qualidade, no tempo colonial a Baía dos Tigres era um lugar cheio de pescadores, algumas pequenas indústrias de secagem e de farinha de peixe, edifícios da administração - que não perdia a oportunidade de sacar uns impostos aos homens do mar - tinha igreja e até pista para aviões, onde regularmente iam os famosos Dragon, que todos ali acabaram  com as rajadas de vento transversal que passava entre as casas.
Estes aviões, magníficos, de construção tubular e forrados de lona, para 7 passageiros, acabaram sendo ali desmantelados e levados em traineiras para... para sucata.
Era razoável a colónia de pescadores que fóra da pesca nada tinham o que fazer, nem para onde ir.
Cerveja... bebia-se bem, não havendo outros atrativos!
Um dia fui visitar aquela comunidade, boa cliente da Cuca. Era sábado. Fui de avião alugado o que causou enorme espanto naquela gente. Coisa rara. Logo uns quantos acorreram a casa do distribuidor da cerveja, que amável, nos recebeu em sua casa, porque todos queriam ver quem seriam os alienígenas!
Após os óbvios cumprimentos e “como andam as coisas” – pergunta de grande profundidade socio-filosófica – a  primeira coisa que o anfitrião fez foi perguntar o que queríamos para almoçar: camarão, mexilhão, caranguejos, santolas do fundo do mar, peixe acabadinho de pescar, enfim, um sem número de iguarias que ainda hoje me fazem crescer água no bico.
E entretanto fluíam já as histórias daquela gente que vivia quase isolada do resto do mundo. Todos tinham alguma coisa para contar, o que não havia era ouvintes! Lembro bem de duas delas.
Toda a ilha estava assente em cima de areia, como está, de modo que mesmo se chovesse muito, o que jamais acontecia, não havia perigo de inundação; as areias absorviam logo tudo. Assim mesmo as casas eram construídas sobre palafitas de cimento para ficaram afastadas da areia.
Um dos “causos”: uns quantos pescadores, nos fins de semana, juntavam-se para jogar cartas. A famosa bisca lambida, ou somente bisca, e há quem lhe chame sueca.
Os jogadores sentavam-se, dentro de casa, à volta duma mesa de jogo, e cada um colocava a seu lado três - 3 - caixas de cerveja de 12 garrafas de 0,6 litros cada o que dava uns 10 litros por caixa.
Durante o jogo ninguém se podia levantar para... “verter águas”, e o passatempo só terminava quando as cervejas estavam todas bebidas!
Solução para ir descarregando aqueles 30 litros que iam bebendo: cada um colocava o seu “vertedouro natural” enfiado numa mangueira com o comprimento suficiente para despejar o líquido fora de casa, naquelas infindas e absorventes areias!
E assim aqueles maduros pescadores jogavam a tarde toda sem se levantarem, quase que nem no fim do jogo, porque os 30 litros bebidos dificultavam demasiado o esforço de se levantarem, a movimentação, e certamente o carteado!
Mas era uma das raras, raríssimas, distrações daquela terra sem distração alguma, e tenho ideia de que isso acontecia quase todos os fins de semana!
Aqueles que por obras valerosas se iam assim do tédio libertando, e cantando espalhavam por toda a parte, porque a tanto os ajudava o seu  engenho e arte... e o álcool.
Outra história contada aos visitantes:
Um dos homens que acorreu para ver quem seriam os estranhos ali chegados, trabalhava numa das pescarias. Sobre o baixote, aí talvez menos de 1,60 m., quis contar também a sua vivência naquele desterro.
Vinha um dia, ainda no continente, de jeep, quando avista, aparentemente dormindo na areia, uma foca. E foca naquela terra que só raras vezes era abastecida de carne, cheirava a bom petisco. Ótimo.
Aproxima-se, pára o carro, deixa-o a trabalhar, e como não carregava nenhuma arma de fogo, lembrou-se de levar a chave de rodas e com ela dar uma marretada na cabeça do bicho que ressonava tranquilo.
Devagar, andando de mansinho por detrás, mas o caminhar na areia sempre faz um barulhinho que as focas conhecem e distinguem desde antes mesmo de terem nascido.
Ao chegar perto, arma já levantada para dar o golpe na pobre bichinha, esta sentiu o perigo, deu um berro e ergueu-se.
O nosso amigo, o preposto caçador, contava então:
- Aproximei-me muito devagar, e quando estava quase a poder dar-lhe a martelada, ela se pôs em pé e foi quando eu vi que era enorme. Aí da minha altura!
Os presentes, todos da terra, que o conheciam bem, quase em uníssono disseram:
- Se era do teu tamanho não era muito grande. Era até pequena.
O “caçador” engoliu o comentário e não gostou que lhe tivessem chamado baixinho. Corou e emburrou!
Foi uma gargalhada geral, quebrada logo de seguida com a chegada dos mariscos que se tinham ido buscar, e com o correr da Cuca que eu, ali representando a Companhia, liberei com generosidade!
A independência de Angola, fez desaparecer toda aquela atividade de pesca. Não ficou ninguém e a povoação entrou em total ruína.
Houve portugueses que conseguiram de lá sair nas suas traineiras e chegar a Portugal. Um feito e tanto.
Hoje lembra aquelas vilas do Oeste americano construídas com a febre do ouro e abandonadas quando este acabou!

Ruínas! Casas dos antigos funcionários, resquícios da pista de aviação,
e ao fundo a vila dos pescadores, vendo-se chaminés de fábricas.

É uma pena e um enorme desperdício. Mar riquíssimo de peixe, crustáceos – como o tão saudoso como delicioso caranguejo dos fundos, pescado a uns 800 metros de profundidade... huumm... – e marisco, que bem explorado podia dar interessantes divisas para Angola.
Mas... onde estão os angolanos interessados???

15/08/2019

segunda-feira, 16 de setembro de 2019



O Tangapema

Quase trinta anos em África e vinte no Brasil, onde se refugiara depois das independências das colónias portuguesas, já a bater perto dos noventa, mas ainda cheio de saúde, foi viver parte do ano em Portugal onde um filho conseguira alguns bens, entre eles uma razoável propriedade agrícola, onde construiu uma pequena moradia para os pais, ambos vivos.
De qualquer modo precisavam de alguma privacidade, em vez de se sentirem hóspedes em casa do filho, o que pressupõe sempre alguma cerimónia e consequente desconforto e liberdade.
Que fossem para lá viver ao lado dele, sem preocupações com finanças, pessoal para limpar a casa, etc.. De tudo isso o filho se ocuparia.
A propriedade não muros à volta, nem cerca, como praticamente todas são, mas o lugar era bonito, bons ares, uma serra ao longe que lhes enviava ar fresco durante o verão, horta, árvores de fruta, vinha e olival, belas caminhadas pelo sossego dos campos, onde aqui comia um figo, além umas amoras ou outras delícias, de vez em quando via passar correndo um coelho a quem desejava boa sorte, enfim, um fim de vida que se aproximava com descanso e conforto.
Ninguém se preocupava muito com uns assaltos que alguns agricultores na região tinham já sofrido, normalmente de imigrantes ilegais ou estrangeiros, e a vida continuava sem que se pusessem trancas nas portas.
O velho pai fazia questão de ajudar o filho nas suas fainas agrícolas, dentro das fracas forças que ainda lhe restavam, sobretudo na época de provar o vinho, vivia despreocupado, sem deixar de continuar a devorar livros que lhe ocupavam as horas em que necessitava de se sentar e repousar um pouco.
Levantava-se normalmente cedo, assim como se deitava com as galinhas, ou até com os pintainhos, e preparava sozinho a sua refeição matinal, que se compunha duma fruta e alguma aveia, como os cavalos (!) que lhe diziam, ser muito bom para o trato intestinal. Naquela idade todo o cuidado era pouco.
Um belo dia, ainda o sol não raiava, passando uma leve claridade entre os ramos das oliveiras, vê que lhe entram pela cozinha dois indivíduos, mal encarados, com alguma coisa na mão que não percebeu se se tratava de faca ou pistola, vozes de sotaque estranho, roucas, pensando aterrorizar os que lhes aparecessem pela frente, e logo começam a ameaçar.
- Ó velhote vai buscar o dinheiro e as jóias quando não quebramos isto tudo e deixamos-te as tripas de fora.
Raimundo – o seu nome – só pensou na mulher que habitualmente se levantava mais tarde e na pequenina bisneta que dormia também, e ficou desejoso que ambas dormissem ainda mais. Se alguém podia perder a parada seria somente ele.
Tranquilo respondeu:
- Na minha idade já não há mais jóias nem dinheiro. O mais que vos posso dar é um café da manhã, e fingir que nunca aqui vocês vieram. É bom que aceitem.
Os assaltantes, nervosos.
- Deixa de conversa, ó pá. Vamos revistar a casa. Anda, levanta-te. Nós vamos atrás.
Raimundo não gostou da segunda ameaça. Guardava de recordação, pendurado na porta da cozinha, um “tangapema”, arma que os índios da Amazónia usavam nos rituais ao sacrificar um inimigo. Madeira dura como ferro. E um pouco mais dentro de casa outra “arma” ainda mais perigosa, um “javite” africano, peça antiga de muita estimação, mas... ai de quem leve com ela! Abria-o ao meio.
                                                                   
 Tangapema
Javite


Levantou-se, devagar, virou as costas aos bandidos, e pareceu caminhar para o interior da casa, seguido pelos assaltantes.
Discretamente tira a “arma amazónica” do seu lugar e voltando-se, sempre devagar, para trás, um dos bandidos muito perto, acerta-lhe com o tangapema na cabeça que o prostra logo no chão. O outro fica uns momentos petrificado e não tardou a levar a mesma dose.
Sempre com muita calma, o velhote pega numas tiras de pano e cordas, enquanto os agredidos tentavam acordar, sangrando da cabeça, e amarra os dois, pés e mãos pelas costas, sem largar a arma, não fosse o caso de ter que dar mais uma dose em quem necessitasse.
Para que não aparentassem muita ferida vai buscar um frasco de água oxigenada, limpa-lhes as cabeças e ainda lhe deita um pouco de tintura de iodo! Deve ter ardido, mas era para o bem deles!
Depois, pelo telefone chama a GNR e o filho, este que logo acorre assustado, e fica perplexo ao ver o panorama daquela cozinha.
- Dá uma mão aqui.
Amarram melhor os dois, separados, guardam a arma dos assaltantes - um ameaçador e grande facão - dentro dum saco de plástico para guardar as impressões digitais e, com muito esforço, carregam os dois na mala do carro para depositá-los à entrada da quinta.
Passado um pouco chegam a GNR, vê o quadro, insólito, algemam os estúpidos, vêm os estragos nas cabeças de ambos e convocam o “agressor” para um depoimento, o que este recusa, e encenando, de bengala na mão a mostrar mais velhice.
- Foi você que fez isto ou o seu filho.
-Eu.
- ???!!!
- Sou assaltado em casa e vocês querem que eu vá agora contar a história lá no vosso quartel. Não. Não vou. Já não tenho idade para essas coisas. Venham vocês a minha casa que lá eu conto como tudo se passou.
Ali mesmo deu fez uma descrição do que acontecera, deixando os zelosos guardas desconfiados que fosse um velho a fazer aquilo, além do que deveriam ter deixado os dois onde os amarraram em vez de os levarem para fora.
Mas não quiseram mais conversa, foram embora com as duas prendas.
Passado pouco tempo o “agressor” recebe uma intimação do Tribunal Judicial da Comarca de ... , para  ir depor perante o juiz. Aí teve que ir, acompanhado do filho e da mulher, mas sem advogado.
Por mais incrível que pareça era acusado de ter agredido dois indivíduos!!! Passava de vítima a agressor!
Quando o juiz lhe lê o relatório em que ele era acusado de agressão e de não apresentar evidências do assalto, e pede explicações.
Raimundo, a bater nos noventa anos de vida e muita experiência, assume:
- Doutor juiz, excelência, como se usa dizer no Brasil. Imagino que o senhor, com idade para ser meu neto, não deveria gostar de ver entrar às 7 horas da manhã dois bandidos pela sua casa ameaçando-o até de morte. Olhe, senhor doutor juiz, eu também não gostei. E como vi que eles estavam armados, com um imenso facão que imagino esteja, como prova, na posse deste tribunal, que na altura nem distingui se era faca ou pistola, e vendo que a ameaça se estendia até à minha mulher – que está ali, olhe – e mais a pequenina bisneta, que estava em nossa casa, tive que reagir o mais rápido que a minha idade permitiu.
Sabe senhor doutor juiz, eu vivi em África, muitos anos, desde 1950. Andei por todos os caminhos possíveis, incluindo no tempo da guerra. Nunca fui ameaçado, era sempre muito bem recebido pelas povoações locais. Enfrentei perigos de outra ordem, inclusive nos meus quase vinte anos no Brasil onde são assassinadas mais de cinquenta mil pessoas por ano. Tive por duas vezes revolveres apontados para a minha barriga. Nem um só disparou e um dos assaltantes acabou preso. O outro fugiu. Sempre pensei que, quem sabe, um dia, eu teria que me defender, e fui-me sempre mentalizando para saber como reagir se isso acontecesse. Aconteceu agora. E vou-lhe dizer mais. Só não acabei com a vida desses dois vermes porque respeito muito a vida de quem quer que seja. Até dos meus inimigos. Mas ficar quietinho e deixar que roubem e maltratem a família, ainda hoje eu não consinto. Ver dois delinquentes me ameaçarem e à minha família que estava ainda a dormir... Essa não. Só não entendo, excelência, porque sou eu o acusado, e ficarei muito grato se vossa excelência me explicar.
- Interessante a sua explicação, mas o senhor agrediu duas pessoas, e como as retirou do local do crime, não permitiu que os agentes da autoridade pudessem certificar-se do que se tinha passado.
- Mentira, doutor juiz. Eu defendi a minha vida e a dos meus, e pelo que agora se está a passar eu deveria ter dado mais umas mocadas na cabeça dos dois imprestáveis até que eles entregassem a alma do demo! Só me faltava que fossem eles agora as vítimas. Pode vossa excelência me condenar. Mas creia, deveria ser o maior absurdo jurídico deste país.
Porque os agentes da GNR não foram a minha casa conferir? Veriam o sangue no chão, pelo menos. E eu tirei os bandidos de casa porque não queria que a mulher e a pequenita se levantassem e vissem aquele horrendo espetáculo. E os senhores agentes limitaram-se a algemar os bandidos e foram embora. Ainda lhes disse que fossem lá a casa conferir. Havia sangue no chão. Mas não foram.
O juiz engoliu em seco. Chamou o promotor e um dos guardas da GNR, segredaram entre eles. Ninguém sabia o que dizer ao “réu”. Se estava certo ou errado. Por fim sentenciou:
- Levante-se o réu.
Raimundo ficou sentado.
O juiz repetiu, não viu reação e mandou que o oficial de diligências avisasse o réu, que lhe responde:
- Isto é brincadeira? Eu é que sou o réu?
- É melhor o senhor se levantar quando não pode ser considerado um desrespeito ao tribunal.
- Pois eu não me levanto. Não sou réu. Sou a vítima. Podem até me mandar para a prisão.
O juiz percebeu que tinha perdido a partida, e, voz cordial, pediu então:
- O senhor quer fazer o favor de se levantar?
- Pedindo, assim, com todo o prazer.
Levantou-se
­- Parece que efetivamente há aqui um erro, quando a GNR apresenta queixa pelas lesões sofridas pelos dois meliantes. Assim sendo considero o “réu” não só inocente, como injustamente chamado a este tribunal como réu. Encerrada a sessão.
O tribunal inteiro bateu palmas.
Raimundo não sabe se as palmas foram para ele ou para o juiz.
O tangapema, depois de bem lavado, voltou a ser colocado em local estratégico.

14/09/2019