segunda-feira, 19 de outubro de 2020

 

Imaturidade e senilidade

Esquerda e direita

Ser de esquerda e direita? Não custa muito imaginar que se há alguém assim eu sou um deles. Só que as “definições políticas” que configuram estes dois vocábulos geométrico-políticos, nada teriam a ver com as que os denominados profissionais da política usam.
Para eles ser de direita é proteger investimentos, trambicar em negócios escusos com fortunas virtuais, pagarem o mínimo de impostos possível, manterem-se bem instalados na vida, enriquecerem, enriquecerem, negociarem com moedas vitruais e depois fomentar Covides e desestabilizarem países pobres! Os de esquerda é badernar, falar mal de tudo e todos, procurar lugarzinhos e lugarzões nos governos para se alcandorarem a fazer exatamente o mesmo do que os seus inimigos de direita. E tudo isto, em nome do povo... idiota, às vezes até apoiando-se em religiões!!!
Estranho, né? São iguais, e tudo em que pensam é no seu problema pessoal. Como sacar de qualquer lado, melhor ainda metendo a mão no erário público com projetos que só servem para a próxima eleição, i. é, reeleições, qualquer deles, esmagar o próximo, o povo.
O povo?... O que é isso mesmo de povo?
Eu que não sou político, exaspero-me com a canalha que desvirtua tudo, não deixo de ter na cabeça o que considero ser de direita ou extrema esquerda.
Primeiro, a palavra “direita” está errada. Não por ser uma palavra no feminino, mas por estar conspurcada pela política. Isto de esquerda e direita, serve bem para a circulação de veículos nas estradas, tem origem na geometria: do lado esquerdo ou do lado direito! Idiotice, mas parece que terá começado assim. Daí eu me considerar ser um homem “direito”, que nem no meio me encaixo.
E não há explicação mais simples para esta postura, porquanto considero que tudo que não está certo, está errado e tem que ser endireitado. Posto a direito, doesse a quem doesse.
Vou recordar um dos mais extraordinários homens de que Portugal se deve orgulhar, e deveria ter como exemplo: o engenheiro Duarte Pacheco, que foi Presidente da Câmara de Lisboa e Ministro das Obras Públicas. Infelizmente um acidente levou-o quando tinha só 43 anos. Deixou o país dividido, mais de noventa por cento o venerava e uns poucos o odiavam porque nunca se vendeu, nunca recuou perante pedidos e/ou ameaças, sempre fazendo o que era o melhor para o seu país. Morreu pobre, mas a sua obra e os seus projetos já aprovados permaneceram por décadas.
Só uma historinha dele com o big chefe Salazar. Salazar, ex seminarista, super católico, queria que as escolas tivessem salas separadas para meninos e meninas, e dava essas ordens ao ministro. Este dizia a tudo que sim, porque com o Salazar não havia diálogo possível. Indiferente, construía as escolas e... depois de prontas tinha poucas salas, onde teriam que entrar ambos os sexos. Salazar reclamava e ele dizia que não tinha havido verba para fazer maior!
Um grande, extraordinário homem, apolítico, DIREITO.
Agora o caso mais complicado: a esquerda, extrema declarada ou disfarçada de socialista, i. é, vulgo falso comunismo.
En passant, alguns nomes do super comunismo para ver se compreendemos esta ala política.
Stalin, que não era o seu nome, mas que o acrescentou porque significa “aço”. Forte como o aço! Jamais pensou no povo, jamais. Só lhe interessava o poder, pelo poder. Matou milhões à fome quando lhes sequestrou a produção alimentar na Ucrânia, para ter dinheiro para fazer armas, mandou matar todos aqueles que ele imaginava que tinham capacidade para lhe fazer sombra e deixou um monte de países cheios de canhões, tanques, bombas atómicas e um povo miserável, além de outros milhares de mortos com frio e fome na Sibéria.
Bregenev de quem se contava uma historinha curiosa. Gostava muito de automóveis. Quando visitava um país o melhor que lhe podiam dar era o mais luxuoso carro que esse país fabricava. Guardava na sua garagem. Um dia a sua mãe, ao ver tanto luxo, lhe terá dito: “Meu filho toma cuidado! Olha se os comunistas sabem que tens tudo isso!”
Só mais um, o gangster Ceausescu. Dono da Democrática República da Roménia, que governava a ferro e fogo, quer dizer a tiros, prisões, etc., “em nome do povo”. Só na revolução de Timisoara matou 60.000 romenos, os tais do povo. Em casa vivia modestamente: as torneiras dos banheiros eram de ouro puro! Um dia o povo chateou-se, julgou-o mais a amantíssima esposa, condenou ambos que foram fuzilados.
Estes três são exemplos simpáticos do comunismo.
O mais antigo dicionário que possuo (1931) define assim comunismo:
- “Sistema dos que aspiram à felicidade do género humano pela separação dos bons e dos maus.”
Brilhante a ingenuidade do professor Francisco Torrinha! (Sr. Torrinha : gostei do género!)
Mas... face a esta explicação, fiquei a pensar quem seriam os bons e os maus! Pelo que se viu, e se continua a ver, bons seriam os que acima já citei, mais Bakunin, Mao, Fidel, Mário Soares, Lula, Zédu, o Monhé português e outros quejandos, e os maus, horríveis, eternamente apontados como péssimos, De Gaulle, Salazar, Franco, e eu, que devo estar na lista dos péssimos, até porque o meu comunismo é ligeiramente diferente. Daí que até dois velhos dicionários de francês (dos anos 30 e 40) simplesmente aboliram esse vocábulo!
Mas é simples o meu conceito de comunismo, que não é novidade alguma porque já Zoroastro falou nisso, Buda também e Jesus deixou essa mensagem bem clara. Se é para ser comum, a primeira coisa a fazer é dividir todos os bens e valores do mundo, por exemplo o PIB mundial, pelos atuais sete bilhões de habitantes. Se o tal PIB for de 100 trilhões de dólares, atribui-se a cada um o valor, resultado da divisão, que dá mais ou menos uns US$ 1.400, por cabeça/ano, configurados não em moeda mas bens.
É claro que há que levar em conta que as crianças dependem dos pais, de modo que estes poderiam ser subsidiados durante algum tempo, mas ninguém, jamais, em tempo algum, nem por alma do diabo, poderia receber por mês ou ano mais que o seu igual: qualquer outro humano, seja ele presidente, ministro, etc.
A barriga, estômago de um presidente é igual à de um pobre.
Não seria necessário dinheiro: trocas. Trabalhar para produzir o que quer que fosse e trocar por comida ou qualquer outro item.
Nesse sistema, só combustível eólico, solar ou do movimento das marés, etanol ou semelhante, renovável e pouco ou nada poluente.
Petróleo jamais explorado. Completamente abolido.
Plástico esquecido.
Veículos automóveis só para quem necessitasse dele para trabalhar, como médicos, i. é, ambulâncias dos hospitais ou postos de saúde e só usado quando alguém, longe, estivesse mal. E os bombeiros. Combustível? Solar ou etanol.
Hospitais em todo o lugar, assim como centros de saúde.
Escolas idem.
Religiões: cada um escolheria a que entendesse, mas templos não haveria. Não há necessidade de interiorização em templos, muito menos daqueles grandiosos como Notre Dame de Paris, a Grande Sinagoga de Budapeste ou a Grande Mesquita de Meca, bem com as das miríades de outros cultos. Orar para a magnificência de um templo sem olhar para a magnitude do ser humano?
Túmulos iguais para todos. Nada de Mausoléus de Halicarnasso, Pirâmides ou Taj Mahal.
Campos desportivos, quantos o povo quisesse, mas jogador nenhum ganharia mais que qualquer outra pessoa e ninguém pagaria para assistir. Eu também joguei futebol, ténis e golf e nunca recebi um centavo. Nem quando me arvorei em toureiro!
Trens – combóios – automóveis e/ou caminhões só com a energia acima citada. E até aviões se houvesse necessidade deles.
Nos navios uma mistura de energia solar, velas e, se... etanol.
Fábricas poderiam continuar a existir, sempre os donos seriam o povo, por comunidades, e nem diretores nem engenheiros receberiam mais do que qualquer outro trabalhador.
Não se fabricariam armas. Para quê? Nem para caçar.
As cidades seriam despovoadas; toda a gente teria que providenciar a sua alimentação ou trocar o fruto da sua profissão – pedreiro, marceneiro, médico, etc. – por alimento.
Moeda... para quê? Sobretudo esta, moderna, escriturada, falsa, que esmaga os mais fracos.
Morriam as bolsas de valores, as empresas de investimentos, de câmbios, etc.
Tribunais? Nada de juízes e/ou leis. Seria mais do que suficiente uma estela como a de Hamurabi (que falta faz hoje!!!) se o povo começasse a sair da linha. O bom senso é suficiente. Pode seguir-se o sistema dos Inuits da Groelândia, que o Canadá aboliu: os anciãos da comunidade ouvem o prevaricador confessar o seu crime e esperam que ele dê mostras de arrependimento. Se se arrependesse totalmente voltaria a ser integrado na sociedade. Se não... privado de quaisquer bens, morreria de fome e isolado, ou voltaria a ser um indivíduo normal. (Há hoje muitos indivíduos normais?) Juízes e ainda por cima corruptos? Toda a gente sabe distinguir o bem do mal.
Sobre juízes do STF brasileiro, o meu “amigo” Hamurabi tinha um lei magnífica, a nr. 5:
Se um juiz dirige um processo e profere uma decisão e redige por escrito a sentença, se mais tarde o seu processo se demonstra errado e aquele juiz, no processo que dirigiu, é convencido de ser causa do erro, ele deverá então pagar doze vezes a pena que era estabelecida naquele processo, e se deverá publicamente expulsá-lo de sua cadeira de juiz. Nem deverá ele voltar a funcionar de novo como juiz em um processo.
(Que limpeza faria no STF brasileiro, o prende/solta. Prende solta! Os bandidos e amigalhaços que pagam!)
Eleições? Nada. Cada comunidade escolheria, em reunião, aquele/aquela que os pudesse representar em diálogo, no ensino, em liderar grupos, etc.
Igrejas, sinagogas, mesquitas, prédios e/ou palácios para assembleias, governos ou poderosos, os que existem seriam transformados em habitações ou serviriam de exemplo para que se visse como o povo era explorado por gananciosos, ladrões ou falsos profetas, até ao dia em que caíssem de velhos. Mais ou menos o mesmo o que se passa hoje com as pirâmides do Egito que só servem para o turismo e para mostrar como era fácil juntar milhares de escravos para se “mostrar” grande.
Padres, pastores, imanes, rabinos, etc., não teriam seminários ou madrassas, estudariam como quisessem e trabalhariam para terem o que comer, como qualquer um e, quando e se quisessem iriam “proselitando” o povo, ao ar livre, para lhes exporem as suas ideias de salvação, se é que... o povo não estava já nesse caminho. Salvação??? Proselitismo sem lucro??? Onde já se viu isso?
Continuaria a escrever-se e publicar livros. Todo o povo tem direito à mesma educação e instrução. Não para depois a usar para explorar o seu semelhante.
E etecetera.
Este é o meu comunismo. O da Verdade.
Dar aos outros o que a mim às vezes sobra, amá-los como irmãos, jamais olhar de cima para baixo, será isto utopia? Creio que nem Thomas More se atreveu a ser tão utópico, porque limitou a sua utopia a uma ilha.
Comunismo como o que acima se descreve é uma super utopia. Pode ser que um dia, talvez daqui a mil ou dez mil anos venha a acontecer.
Um sonho de igualdade
Eric Blair, conhecido como George Orwell, nos seus livros mais emblemáticos, expõe também as suas utopias mas acaba por afirmar que se nem os animais são todos iguais, a afirmação de que o futuro pertence aos proletariados é uma grande inverdade. A revolução bolchevique foi há mais de um século, “previu” o domínio dos proletários (como stalins, fidéis e outros...) e cada vez mais o mundo é dominado pelos bezerros de ouro.
Alexandre Herculano, homem de total ética e integridade, afirma (em1836) a certa altura:
Os homens que entenderam ser do seu interesse ou do interesse do país fazer surgir daquele estado anormal uma situação regular viram que a primeira necessidade era elevar o motim à altura de uma revolução. ... Basta para isso a ação mais ou menos lenta, mas segura e pacífica, da liberdade da palavra, da imprensa e do voto. Mas o povo com estes recursos não sabe tirar os seus negócios das mãos de quem os gere mal, é um povo ou que ainda não chegou à maioridade ou que já se arrasta na senilidade.”
Estou a ver nestas palavras o que se passa, por falta de maioridade, em África e na América Latina, e por senilidade... Portugal, Espanha, França e praticamente toda a Europa Ocidental, incluindo os “mais avançados” Dinamarca, Noruega e Suécia. A Oriental, apesar dos ataques de EU parece estar a renascer das cinzas da URSS, o que lhe dá um vigor novo.
Face a tudo isto ter que esperar uns tantos milénios para ver se o paraíso sai do etéreo e se instala na terra. Ver se um dia o espírito consegue dominar a carne, o ego.
Vou ver lá de cima, onde o tempo não conta. Na eternidade é sempre presente, passado e futuro.

30/09/2020

 

 

terça-feira, 13 de outubro de 2020

 

Vovô Giuseppe

 
Siciliano, apesar de nunca ter sido mafioso, imigrou muito jovem com os pais que não quiseram participar da guerra nem das máfias.
Foram para São Paulo, alojaram-se numa modesta casinha no bairro Bexiga, onde o pai, Gabriel, arranjara trabalho numa pequena pizzaria. Com o tempo e muito tento nas despesas, acabou tendo o seu próprio negócio, também uma cantina, onde ajudado pela mulher, dona Paola, o movimento crescia bem.
Quando Gabriel Zelante faleceu, seu filho Giuseppe ficou à frente da casa durante muito tempo, com a ajuda da mamma, reconhecida e admirada como a melhor cozinheira do bairro.
Um dia mamma Paola... se foi também, Giuseppe ficou solo na cantina, já um grande restaurante, ele que tinha casado e descasado duas vezes e não tivera filhos. Lutou, muito, para manter a qualidade e a quantidade de clientes, mas ao fim de alguns anos sentiu que não tinha mais condições para continuar e vendeu o negócio.
Ficou com dinheiro, folgado, mas sem família.
De dia visitava as cantinas dos colegas e amigos, bebia uns copos com um ou outro, era bem recebido em todo o lado, almoçava as pastas, e à noite, quase sempre, como desde há muitos anos, visitava umas casas onde meninas e menos meninas, vendiam seus corpos por alguns momentos de prazer. Tornou-se um habitué, quase um viciado, mas sobretudo conhecido e querido de todas aquelas simpáticas que o acolhiam sempre muito bem.
A maioria das vezes só ia lá tomar café e jogar um pouco de conversa fora, e nunca esquecia o aniversário de qualquer uma, levando-lhes sempre um presentinho, que podia ser um perfume.
Vez por outra chegava com uma caixa de bombons, às vezes um ramo de flores, e nos anos da patroa eram pelo menos duas garrafas de champanhe!
Aos setenta e alguns anos não podia andar por ali feito garanhão, mas sempre carregava no bolso uma daquelas pílulas azuis para o caso de se entusiasmar com alguma das “bonecas”.
A casa que mais frequentava tinha em média cinco a seis meninas, que oscilavam entre os dezoito e quase cinquenta anos! A patroa... tinha-se-lhe perdido a conta, era segredo guardado a vinte chaves, mas não fugia a tratamentos plásticos, sempre que via pelancas de mais a sobrar-lhe em algum lugar.
Refez os chamados glúteos, levantando a bunda, seios firmes com 200 ml várias vezes substituídos, os liftings da cara, botox nas beiças, enfim tudo quando aparecesse de novidade, dona Garotinha mandava aplicar, – nome de guerra, e ninguém lhe conhecia outro – (Bambina, como carinhosamente lhe chama Giuseppe, que a conhecia desde... desde quando mesmo? Desde que um dia ela lhe aparecera lá no restaurante e... conversa puxa conversa, acabaram conversando deitados!) quando olhava para fotografias suas de quando tinha uns trinta anos dizia: não faço ideia de quem é esta. Volta e meia contava que em tempos... tinha tido um importante papel na política... um amante rico... muito nova casara com um sujeito que era um garotinho, metido, filho de papai, mas que não valia nada. Não tardou a que o vizinho se engraçasse com ela, deixou o estúpido e desonesto garotinho. Com o vizinho também não foi bem, arranjou um outro, e sempre lembrava aquele “tropeço” com o Giuseppe. E assim começou... aliás, continuou.
Estava agora outra pessoa, mas não queria desistir de dar a melhor assistência possível, principalmente a velhos amigos e clientes, a muitos dos quais ela mesma, amável, fornecia a pilulazinha, que enquanto não fazia o esperado efeito, aproveitava para falarem sobre bobagens e tomar um cafezinho. Forte.
Giuseppe conhecia as garotas todas, e quando chegava uma nova fazia questão de ser o primeiro a experimentar. A sua antiguidade na casa dava-lhe esse privilégio.
Tinha até um caderninho onde anotava tudo, dando uma nota a cada item: seios, bunda, coxas, cara, barriga, até cabelo, sorriso e desempenho, muito importante o desempenho, conhecimentos, exercícios preliminares, etc.
Com aquele caderninho, que guardava em segredo, conhecia os mínimos detalhes de cada “generosa” e, quando repetia a visita, voltava a analisar cada um dos pontos para ver se elas tinham melhorado ou deixado cair a nota geral.
Um dia, já noite, aguardando a hora do pique, meninas quase todas na sala, Giuseppe tomando o seu café e rindo com histórias que algumas sempre tinham para contar, entram três bandidos, assaltantes, armas nas mãos, exigindo dinheiro, procurando pela grana delas e dos clientes que não haviam ainda chegado.
Giuseppe, seu cabelo branco, não se mexeu nem se levantou, nem os bandidos lhe ligaram importância, e na falta de grana, decidiram que iam “comer” algumas das garotas. Uma rapidinha, para depois darem o fora.
Escolheram as garotas pegaram-lhes com força nos braços, levaram-nas para as alcovas e avançaram sobre elas, que berravam porque ninguém gosta de ser estuprado, e Giuseppe, sentadão foi bolando um esquema.
- Bambina! Onde tem o seu laquê? Quantas latas?
Rapidinha ela foi buscar, duas latas de spray.
Na sala de entrada havia uma espécie de moca, presente há anos oferecido a Bambina por um cacique da Amazônia que a visitou e quase se apaixonou por ela.
Giuseppe, spray numa mão e porrete na outra entra no primeiro quarto, o bandido prestes a adentrar o objetivo, ouve a porta abrir, olha para trás, leva uma sprayada nos olhos, levanta-se, grita e leva uma paulada na cabeça. Num instante a parceira pega no cinto do roupão rosa florido e amarra-o pelas costas. Depois o segundo, num outro quarto recebeu o mesmo carinho e por fim o terceiro.
Nenhum teve tempo para se livrar do azarado assalto.
Num instante estavam os três sentados no chão da sala, mãos amarradas atrás das costas, lenços bem apertados nas bocas para não dizerem bobagens, pés também amarrados, aguardando a polícia chegar, sem que algum tivesse entendido o que lhes tinha acontecido.
Giuseppe só fazia sinais às meninas para que não falassem.
A polícia, olhos arregalados carregou os três, e a festa, em honra do herói, começou. Todas queriam oferecer os seus préstimos amorosos porque, no fundo, era tudo o que possuíam.
Giuseppe recebeu inúmeros beijos na face, na testa, mas não passou disto.
Como a casa da Garotinha era num primeiro andar, e a porta da rua ficava somente encostada, não passou uma semana e nova invasão. Desta vez eram dois matulões, armados de pistolas. Encostaram à parede um cliente que acabara de entrar a quem despejaram a carteira, e depois de escolherem as garotas para completar a farra, e de muito terem ameaçado quem os atrapalhasse, levaram-nas para o quarto.
- Bambina... os sprays!
Lá vai Giuseppe e repete o que tinham feito já uma vez.
Bandidos amarrados, polícia chegando, mas ninguém explicava como tinham conseguido tal façanha.
- Bambina, vamos montar um esquema especial.
- Como?
- Eu fico sentado numa cadeira lá na entrada, todas as tardes, até umas oito ou dez da noite. Quando alguém quiser entrar eu pergunto o que querem, e se vir que é assalto, vá de sprays em cima. Mas não vai ser o seu laquê, não. Tenho um amigo da polícia, já aposentado, a quem contei o que se passou e ele vai arranjar uns sprays especiais, imobilizantes! Os miseráveis caem para o lado instantaneamente, e como isso é proibido para uso civil, depois encho-lhes a cara com os laquês, para disfarçar.
- Giuseppe, meu querido, isso é perigoso.
- Não. Deixa comigo.
- E se forem clientes?
- Ah! Isso é outro negócio. Eu vejo o que exatamente eles procuram, e como conheço bem estas queridas e sei de todas as especialidades de cada uma, já lhes recomendo qual devem procurar. Aos seus amigos, como têm livre trânsito, nem pergunto nada.
- Isso é loucura! E não esqueça que aqui há sempre uma ordem de atendimento.
- Vai ser muito divertido. E essa da ordem é falsa porque o cliente não é obrigado a ir com quem estiver na frente.
A partir desse dia, Giuseppe, ar de velhinho caquético e sonolento ficava na entrada do prédio, prédio de dois pisos acima das lojas, ambos ocupados pelas alcovas da “Maison Garotinha”.
Quando aparecia uma cara nova, era submetido a rápido interrogatório:
- O que o senhor procura?
- A casa da dona Garotinha.
- Mas quer o que?
- Uma garota, uai. Se possível bonitinha, coxa gorda, bunda generosa, aquele peitão, sabe como é, não?
- Sei.
- Olhe, quando lá chegar acima diz que quer a Georgetty. Ela gosta de supliciar quem lhe aparece, mas não desarma de jeito nenhum. E pode repetir quantas vezes quiser, porque no fim, quem saí de queixo caído é você. Tal qual o que você procura.
À saída, o minêro, porque era minêro mêmo, passava por Giuseppe, levantava o polegar e dizia:
- Vósmicê acertou na mosca.
- E você não?
Riam, e a vida seguia.
Novo assalto. Desta vez vinham cinco, entre eles um dos que lá estivera da primeira vez, raivoso, disposto a vingar-se.
- “Elas, e eles se lá estiverem, que se cuidem. Não voltam a brincar comigo.”
Viram o velhinho ali sentado, parecendo cabecear, mas que lhes perguntou o que procuravam.
- Velho. Nóis vem para dar porrada naquelas moças e sacar tudo quanto lá tiverem. Não voltam a brincar comigo, não. Desta vez vai tudo no pau.”
Giuseppe, que parecia dormitar tinha sempre o spray especial à mão. Em poucos segundo os cinco jaziam ali estendidos, parecendo mortos.
- BAMBINAAAA!!! Gritou. Manda as garotas todas aqui, rapidinho, per favore.
Pressurosas vieram com os trajes que tinham vestido, sexys, quase um nada, à espera dos fregueses. Só lá ficaram duas, ocupadas no serviço.
- Vamos pôr este lixo todo na rua e chamar a polícia. Mas vamos pôr mais abaixo. Uns cinquenta metros daqui, porque eles vão demorar só uns quinze minutos para acordarem.
Procissão de garotas, meio despidas, rua abaixo, cada duas carregando seu fardo. Transeuntes que passavam, se sós, vinham correndo ajudar as beldades, oferecer seus préstimos, nunca rejeitados, e depositar aquele “lixo”, na esquina abaixo.
Alguns aproveitavam e seguiam depois direto para o primeiro andar, agarrados à boneca que haviam ajudado.
Foi um sucesso.
A polícia, quando chegou só viu um velhinho sentado em frente a uma porta, parecia dormir, mas de olho aberto.
- Boa noite.
- Huumm!
- O senhor sabe o que se passou aqui?
- Só vi uma kombi parar e descarregar esses sacos, sacos mesmo, né? e ir embora. Não fizeram barulho, nem disseram nada.
Nessa noite, Giuseppe, folheou o seu caderninho e conferiu quem estava com a nota mais alta.
Subiu, tomou a pílula azul enquanto festejavam, e... não adiantou escolher pela nota.
Bambina estava louca para agradecer e recompensar o seu herói, mas sobretudo para se consolar pelo excitamento que o velho amigo lhe despertara, sumiu com ele para o seu quarto, todo forrado de cetins, lantejoulas, abajures com luzes coloridas, cortinas de flores com bambinelas e até ar condicionado.
Despiu-se ao som de um tango, rodopiou à volta da cama, despidona, os silicones acompanhando o ritmo, só com uma echarpe de plumas lilases em volta do pescoço, rebolando o pouco que a sua coluna já meio empedernida lhe permitia, e olhava, glamorosa, nos olhos do seu herói.
Não era o que Giuseppe planejara, mas a pílula estava a fazer efeito e quando chegou o momento agarrou a dançarina, deitou-a na cama cheirosa e florida e avançou. Bambina voava nas alturas da felicidade. Logo ela que tinha milhares de quilômetros percorridos nestas sendas, naquela noite sentia que jamais tinha tido algo tão excitante. Chorava de emoção. Mas não revelou a idade!
Giuseppe fez o que pôde.
O caderninho guardado, para uns dias mais tarde voltar para a escolhida, a da melhor nota que ele tinha ainda anotada.
 
Nota: Esta história foi-me contada aí por 1980, por um policial, o tal, já aposentado, cujo nome guardaria, mas já está esquecido. Estava eu com um cliente a tomar café quando ele chegou com um amigo. Sentaram na nossa mesa e logo lhe pediram para contar a história do spray.
Muito rimos. Ainda perguntei pelo tal vovô. Mas ou estava já velho demais, ou... porque havia uns anos que o tinha perdido de vista.
 

07/04/2014

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

 

Saudade das Gentes de África - 2

 
Falar sobre as Gentes de África, não é só sobre os amigos que lá conheci, e muitos, muitos foram, raros os que ainda são, estão.
Mas recordar, ainda que por breves momentos todos esses e mais aqueles com quem contatámos, nem que fosse uma só vez, e olhar ao que se passa hoje pelo mundo, perto ou longe de nós, logo nos vem à cabeça aquela música do angolano Bonga: “Tenho uma lágrima no canto do olho!”
Quem leu o “Mussulo – Um Abraço à Vela” (escrito em 2006!) talvez se lembre que, quando fomos lançar o livro em Angola, consegui encontrar uns compadres meus, angolanos, que não via há uns quarenta anos! Ele foi motorista da empresa onde trabalhei, um homem simples, humilde e por isso GRANDE, há meio século estava eu já noutra empresa, veio convidar-me para ser padrinho dum filho que acabava de lhe nascer. Fiquei muito sensibilizado e honrado e aceitei de imediato. Fui encontrá-los, ele e a comadre, em 2007. Ele bem doente, ela velhotinha também, mas ainda a trabalhar. Caí nos braços de ambos. Correram lágrimas. Vieram filhos, entre eles o afilhado, e netos, ver este “espécime” tão amigo dos velhotes. Uma das criança sentou no meu colo e não quis sair mais. Saí desse encontro de “marmelo atravessado” sem poder articular uma palavra.
Numa visita que fiz a Libreville, no Gabão, fui convidado para jantar em casa do diretor de um banco do Gabão (nem sei já que banco era) que eu havia recebido em Luanda. Estava ele, a mulher e o pai, gente extremamente atenciosa. Depois do jantar o filhote deles também veio sentar-se no meu colo e quando a mãe o quis levar para dormir ele reagiu.
No Congo, Brazzaville, ao dar um passeio à noite pelos arredores do hotel, entrei num pequeno comércio, onde nunca um branco tinha entrado. Estava cheio com gente a tomar cerveja e animada – sempre – conversa. Ao verem-me entrar todos se calaram. (O que faria aquele branquela por ali?!) Só perguntei se podia beber uma cerveja, que todos disseram sim. Depois vieram meter conversa. Eu ia de Angola, um país em plena guerra colonial o que lhes causou estranheza que eu ali estivesse. A conversa era quase um interrogatório. Todos queriam saber como era a guerra, porque, etc. Devo lá ter estado cerca de uma hora. Bebi duas cervejas e quando perguntei quanto devia não me deixaram pagar! A saída, abraços! (Em Portugal isto era possível? Os portugueses verem um africano entrar num bar e por fim lhe pagarem as bebidas? Não acredito.)
Uma das coisas que me fazia sempre rir era o diálogo com alguém que estivesse a vender alguma coisa. Especialmente com as mamanas, vendedeiras de produtos frescos – legumes, frutas, peixe, etc. – sempre tudo fresquíssimo. Começavam por pedir, por exemplo, 10 angolar eu dizia que era muito caro, oferecia 5, e ficámos um tempinho nessa conversa. Quando elas por fim concordavam com os 5 eu pagava os 10 ! Depois começava a segunda parte do diálogo: como fazê-las aceitar mais do que tínhamos combinado! A minha argumentação só prevalecia quando eu dizia que era para elas beberem um cerveja! Aí, sim, aceitavam e riam muito.
Como eu gostava dessa brincadeira, ao fim de pouco tempo, mal eu aparecia, elas já ficavam a rir! Que beleza.
No extremo oposto, lembro de um mercado que havia em Lisboa, aí por 1980 (?), ali, na av. Fontes Pereira de Melo, ao lado do prédio de Portugal Telecom. A minha mãe morava na Latino Coelho, e eu passei no mercado, vi uns pêssegos lindos e decidi comprar-lhe uns quantos. Peguei num saco e comecei a escolher os que queria. A vendedeira, rasca, faca na liga, linguajar alto e sujo, berra comigo que não podia escolher a fruta. Ela é que escolhia! Loucura! Eu compraria o que ela quisesse!!! É evidente que larguei tudo lhe disse para meter os pêssegos onde ela quisesse e não comprei nem um. Gaja rasca. Disto em África, não havia.
Em 1970 fui para Lourenço Marques – Maputo – diretor comercial da Mac-Mahon, cervejas, Coca-Cola, etc.
O pessoal chamado serventes, que trabalhava nos caminhões de distribuição, era muito mal pago, mal vestidos, com injustiças inadmissíveis. Uma das primeiras preocupações foi arrumar a casa, começando por rever os salários e regalias dessa gente que resultou praticamente em duplicação dos ganhos (assim mesmo muito baixos), sem penalizações por faltas de doença, etc. Poucos dias depois esses homens quiseram falar comigo, e em vez de virem à minha sala (mais ou menos um cubículo envidraçado) mandaram-me uma carta pelo correio! O chefe de vendas que estava há uns anos na companhia, soube logo quem a tinha escrito. Pedi-lhe para saber o que eles queriam. Só uns ajustes nos carros em que trabalhavam. Marcámos então uma tarde, fim do expediente deles, para nos reunirmos. Todos, eram talvez uns 30 ou 40, roupinha lavada, e eu comecei por lhes dizer que a minha sala era “ali” e quem quisesse falar comigo era só dizer. Nada de cartas!. Avançou o “escritor” e disse que havia grandes diferenças entre os que trabalhavam nos carros que mais vendiam e os outros. Foi fácil: por ordem de antiguidade, cada um vai escolher o carro onde quer trabalhar!
Um dos vendedores, branco, vem ter comigo com um servente que tinha já 11 amos de casa, e diz que não quer aquele homem no seu carro!
- Quanto tempo de casa tem você?
- Ano e meio.
- Então fazemos assim: ou este homem, que tem 11 anos de casa, vai para o seu carro ou você vai para a rua. Escolha!
Funcionou perfeitamente. Quando saí da companhia, soube que congeminavam dar-me um presente. Avisei que não aceitava nada, mas fizeram questão de se reunir comigo. Abracei um por um.
Quem sabe um pouco que seja da história de Moçambique sabe que Mouzinho de Albuquerque, o herói que prendeu o Gungunhana, e depois Comissário-Régio, foi durante muitos anos, até mesmo depois de ter morrido, considerado pelo povo moçambicano um herói que eles muito respeitavam.
Outro militar que deixou uma história digna de ser contada a todos, sobretudo em Moçambique também, e de quem já escrevi algumas páginas, foi  João de Azevedo Coutinho. Único branco, finais do século XIX, pacificou mais de 30.000 km2 (o triplo da área de Portugal). Admirado, estimado e respeitado pelas populações locais, muçulmanas, aprendeu a língua árabe porque muita vez foi consultado e nomeado juiz para resolver questões da população!
Convidado pelo mais importante chefe macua, o Rei Macuana, que ouvindo falar dele, e sem jamais ter visto um branco, convidou-o a que o visitasse na sua aldeia. Preparou-lhe casa especial, e depois de o ter recebido com todas as deferências, ainda lhe pediu que o aliviasse de 39 esposas que ele tinha a mais!
Só mais uma vivência, em Luanda, aí por 1963. Nessa altura já tinha lido muitos livros de um autor angolano, que sempre apreciei e considerei muito, Óscar Ribas, filho de pai português e mãe angolana, que nessa altura teria uns 50 e poucos anos. Por causa de uma doença grave cegara aos 36, e foram os irmãos que passaram a escrever o que ele lhes ditava.
Conheci um dos irmãos e manifestei o meu interesse em visitar o escritor. Convidaram-me para ir um domingo almoçar com a família. Um família tipicamente angolana, com a mãe ainda viva. Foram de uma gentileza impagável. Estive muito tempo conversando com o escritor, a saborear grande parte do seu saber e sobretudo da sua simpatiquíssima simplicidade. Nunca esqueci, tenho oito ou dez livros dele, que já li e reli muita vez. Ainda agora estou com mais um nas mãos.
Não há muito mais que possa dizer da “minha” África, a não ser que a saudade é muito grande.
Vou terminar com duas citações do livro “Mussulo- Um Abraço à Vela”, de 2006, A primeira do prefácio, do meu amigo “Nauta por ofício, Amante de África”, comandante da Marinha que viveu um pouco em Moçambique integrado numa missão da ONU.
- A África é um mundo diferente de tudo a que estamos acostumados a ver, ouvir e principalmente sentir. Na África ainda se pode encontrar a simplicidade perdida das relações humanas do nosso mundo tão civilizado. Não há um ser humano digno deste nome que não se torne de novo criança ao defrontar-se com este povo.”
Outra, uma mensagem que nesse livro deixei para os angolanos, sofridos pelas guerras e pelo descaso e vergonha dos governos (desgovernos) que têm tido:

                                   Não percam, jamais, a esperança.
Nem esqueçam que esperança não é plano de vida.
Há que planejar o futuro, já hoje, para todos.
Sempre com toda a esperança e muito entusiasmo.

E por último a frase com que fechou a apresentação do livro, em Luanda, o filho de amigo que eu conhecera, companheiro de caçadas, José Batista Borges:
Para que fique registado na história dos nossos dois países (Brasil e Angola) que a saudade de um abraço só pode ser diluída, com um outro abraço de saudade!
 
N.- Entusiasmo vem do grego e significa transporte divino, exaltação sob inspiração divina.  Como concretizou o americano Ralph Waldo Emerson (1803 -1882) quando disse “Nada de grande jamais foi feito sem entusiasmo.”
 
02/10/2020
 

 


segunda-feira, 28 de setembro de 2020

 

Saudade das Gentes de África

 

Não conheço alguém que tenha passado por Angola ou Moçambique e que essa passagem lhe tenha sido indiferente.
Até as dezenas de milhares de militares que, infelizmente, tiveram que enfrentar uma estúpida guerra colonial recordam esse tempo com algum aperto no coração. Parece um absurdo, mas essas duas terras, estes hoje dois países, eram um absurdo de contradições, sobretudo quando se tenta comparar a vida que lá se levava com a das colónias dos outros países.
O colonialismo, comandado por uma Metrópole pobre e gananciosa, levou à única solução possível, a Guerra Colonial. Tão absurda era s situação que os nativos não queriam lutar contra os portugueses que ali trabalhavam, mas acabar com o colonialismo explorador, e a prova é que muitos portugueses, face à injustiça da situação, pegaram em armas contra os seus, também irmãos.
Neste pequeno apontamento vou tentar mostrar alguns momentos vividos nos muitos anos que lá passei, não só com africanos, com filhos de famílias de portugueses, algumas das quais ali estavam há quatro e bem mais gerações e com os que chegaram poucos anos antes do desastre que foi a independência, porque se ofereceram aqueles países aos comunistas.
Muitas destas histórias já as contei, mas estão sempre presentes na minha memória, guardadas e recordadas com muito carinho.
O meu primeiro contato com um angolano, por incrível que pareça foi em Portugal, teria eu pouco mais de meia dúzia de anos. O meu avô materno, que vivia com folga financeira (e acabou com quase nada!) um dia foi a Angola para caçar. Isto aí por 1934. Boa vida, tinha lá amigos influentes, quando regressou levou um angolano para seu motorista!  Mas a grana do vovô, que esbanjou em maus negócios e mulheres boas, ficou curta e teve que dispensar o motorista que entretanto criara família em Lisboa.
Uns anos mais tarde, já homem dos cinquenta ou sessenta anos, que tinha arranjado muito modesto trabalho noutro lugar, decidiu ir a nossa casa visitar a minha mãe e ver os meninos, que seríamos já uns cinco ou seis. Lembro que era um homem grande, maior o sorriso na sua cara, e fez questão de apertar a mão a todos nós.
Quando apertou a minha eu fiquei muito espantado porque não tinha ficado escura! Mão escura, naquele tempo era só dos limpa chaminés, que quando apertavam a mão a alguém ela ficava preta! Todos viram a minha cara estranhando o “fenómeno”, e o pobre e simpático ex-motorista e a minha mãe riram bem. Depois disso nunca mais o vi.
O segundo contato foi à chegada a Luanda, de navio, que assim que atracou, uma quantidade de carregadores o invadiu oferecendo o seu serviço para carregar malas, caixotes, o que fosse. O que me contatou simplesmente me mostrou um crachá da alfandega com um número que tinha na camisa. Pegou mas minhas coisas e sumiu naquela confusão de gente a desembarcar e mais os que estavam no cais aguardando alguém. É evidente que um minuto depois eu já tinha esquecido o número do carregador e fui à procura dele. Tinha vista a cara dele, e naquele momento para mim todos os pretos (por que não usar este termo?) eram todos iguais! Não consegui distinguir nenhum e como não lembrava do número de identificação, pensei que estava “ferrado”! Não tardou a que o “meu” carregador me aparecesse, aquele sorriso que parecia dar a entender qual era o meu problema, a chamar-me para onde estava a minha bagagem. Pouco falei com ele. Fiz-lhe algumas perguntas sobre o seu trabalho e logo percebi que, se estavam ali uns cinquenta ou cem carregadores, todos eles eram diferentes. Esta foi a minha primeira lição africana que muito me marcou. Todos diferentes uns dos outros e todos, durante muitos anos altamente confiáveis.
Depois tive a sorte de ir viver em Benguela. Uma cidade de características únicas no Mundo. Ali não havia nem brancos, nem pretos nem mestiços. Eram todos gente. Àqueles bares, quiosques, ao ar livre, ao fim da tarde e até à noite, chegava um, depois outro, um pouco depois tinham que se juntar duas ou mais mesas, bebíamos umas cervejas, conversávamos, ríamos, e ninguém no fim saberia dizer qual a cor da pele de quem ali esteve. Festas, a sério, era nos quintalões, nas casas de angolanos, onde só se ia convidado. Fui duas vezes a essas festas. Os donos, todos pele escura ou levemente mais clara, mas uma cortesia, simpatia e educação que sem me conhecerem faziam questão de porem à vontade. Vou esquecer? Jamais.
Foi ali que conheci uma das mais interessantes, e divertidas, personagens de Angola: o filósofo, profundo, e poeta Ernesto Lara. Os seus pais, portugueses, tinham um comércio onde eu me abastecia. Pagar? Só no fim do mês.
O encarregado do depósito de máquinas do meu departamento, um português mais anti-salazar do que qualquer “centrista” ou “socialista” ou dono de órgão de informação de hoje em dia, lamentava-se que o seu sonho era ir para a Rússia. Propus pagar-lhe a passagem, só de ida, desde que ele me garantisse que me escreveria a contar como era a vida lá. A verdade. Foi sempre falando mal do governo, mas... nunca aceitou o repto. Era um sujeito simples, simpático, de quem acabei amigo.
Maior figura de legenda, o auxiliar que ajudava no armazém e fazia a limpeza do stand onde se expunham máquinas, tratores, etc. e onde eu tinha a minha mesa. O Joaquim. Já falei muito dele.
Enquanto a minha mulher não chegou de Portugal, eu estive mais de dois meses sozinho. O Joaquim foi “nomeado” meu assistente particular, a quem dava um dinheirinho para nas horas vagas – ao fim do dia – me ajudar a arrumar a casa, e sempre que eu viajava para o interior, dormir lá em casa. Impecável.
Quando no fim do dia, já noite, terminávamos o arrumo da casa, eu levava-o para o bairro onde ele morava, sentado no quadro da minha bicicleta! Quem me via passar – poucos – com um servente levado na bicicleta só ria. Era caso inédito!
Casal jovem fomos uma espécie de atração e novidade naquela terra! Não conhecíamos mais do que os colegas de trabalho, e isso só eu. Mas um dia, uma senhora que tinha os dois filhos em Portugal recebeu destes a informação de que estava ali um casal jovem. Nesse mesmo dia procurou-nos e convidou-nos para jantar. Foi pedindo desculpa porque o marido não fazia cerimónia com ninguém, ia logo deitar-se, etc. Receberam-nos como filhos, e o marido, para grande surpresa, ficou a conversar comigo até à meia noite! Passaram a ser a nossa primeira família de Angola!
Na empresa onde trabalhei tinha um colega que jogava ténis. Maravilha. Eu também. Ele conhecia um outro, funcionário de Fazenda, que era o único que até ali se sabia que jogava. A partir daí todos os sábados lá íamos nós, vestidos de branco, como era regra, jogar e deitar conversa fora.
Fomos depois morar em Luanda. Aí encontrámos uma boa quantidade de amigos de infância e até primos que já lá viviam, e a família angolana foi-se alargando. E alargou muito.
Eu ia muito à Europa e países vizinhos em trabalho, e os amigos, aliás as amigas, reclamavam que eu nunca levava a minha mulher! Um dia combinaram que levariam os nossos filhos todos para suas casas – na altura ainda eram só seis - onde tinham os seus amiguinhos, e nós os dois passámos quase um mês na Europa.
Em Portugal, nós com bastante família  genética, não teríamos conseguido isso!
Anos depois fui um dia com uns colegas e amigos da Cuca, em Nova Lisboa, já sol posto, fazer um churrasco numa sanzala, aldeia indígena, a uns tantos quilómetros da cidade (não lembro quantos) onde chegámos com toda aquela gente já a dormir nas suas modestas casas. Tínhamos comprado um monte de frangos e levado uma tantas caixas de cervejas. Quando os carros chegaram ao alto do morro onde eles moravam, o barulho dos motores e os faróis levaram uns quantos a abrir as portas e indagar o que se estava a passar. Perceberam que era para fazer festa e em poucos minutos não sobrava ninguém a dormir! A minha especialidade não era a dança. Isso é com africanos, que ninguém supera, nem Nijinsky!
Fiquei toda a noite até o dia começar a clarear, sentado ao lado do soba. Conversámos muito, gozei a quietude mesmo com aquela música e tudo o mais, um céu feito para encantar, e uma sensação de que naqueles momentos Deus está lá, a sorrir para nós. Não sabemos quem é esse Deus, Mas estava lá, sim, no meio de gente simples e alegre.
Numa ida a Portugal comprei um Morris Minor de 1932! Um brinquedo que levei para Luanda, dei-lhe uma “garibada” e fazia um sucesso imenso. Era brinquedo que não dava para passear com a família porque só cabiam dois e... bem juntinhos.
Mas era raro ser eu a andar no carro. Começaram a chegar de Portugal amigos de infância, militarizados, porque a guerra colonial tinha começado. É evidente que não levavam meio de transporte privado! Então o nosso valente Minor era cedido com uma única condição: como leva devolve. Se avaria nas vossas mão... o problema é vosso! Nunca avariou. E foram oficiais do exército e da marinha, capelães, alguns sargentos, que aproveitavam férias ou alguma folga para se deslocarem em Luanda. Era assim. Família.
Um dos amigos, muito amigos, que me honraram com a sua amizade, na altura cónego, natural de Cabinda, pele muito escura e batina impecavelmente branca, que sempre olhara para os brancos com olhos de pouca amizade, até ao dia em que passou a ver nos portugueses pessoas que não eram responsáveis pelo desastre que sempre fora o colonialismo/Metrópole. Estávamos ali a trabalhar e a ajudar a desenvolver o país.
Quando o conheci logo reconheci naquele ser, calado, baixinho, uma pessoa rara. Inteligente, perspicaz, educado. Atrevi-me a perguntar-lhe se ele nos daria o prazer de um dia almoçar em nossa casa. Disse imediatamente que sim.
Os nossos filhos receberam-no com imensa alegria e passaram a tratá-lo por “tio Muaca”! Criámos um vínculo de amizade muito forte. Dom Eduardo Muaca, depois Arcebispo de Luanda. Uma personalidade que admirei, e ainda hoje admiro muito, e sinto muito a sua falta.
Sempre houve, e vai continuar a haver gente boa e gente, não direi má, mas perdida. A estadia dos portugueses em África, Angola e Moçambique, não parece que tenha ainda sido estudada por alguém isento, sociólogo ou filósofo, mas tem histórias que contadas muita gente teima em não acreditar.
Em Luanda havia um hospital, grande hospital militar, onde mercê da guerra, quase todos os dias chegavam doentes ou estropiados daquela maldita guerra. Eu tive lá alguns amigos médicos, e um dia fui visitar o hospital. O diretor, amável,  mostrou-me, creio que tudo, mas o que mais me impressionou foram as enfermarias. Numa delas, com umas oito camas, tinha um soldado à porta, armado. Por quê? Numa das camas estava um combatente angolano, (inimigo-terrorista!), que tinha sido ferido num combate. Foi levado para o hospital, e tratado como qualquer outro, na mesma enfermaria, ao lado de soldados portugueses, alguns deles bem estropiados.. E o diretor ainda acrescentou:
- “Este já é a segunda vez que ele é ferido e volta para ser tratado aqui!”
- “E depois o que lhe fazem?”
- “Nada. Damos-lhe alta quando estiver bom, e ele vai à sua vida! Quem sabe se ainda o voltaremos a ver!”
- “E os soldados portugueses não reclamam por o terem mesmo ao lado?”
- “Não. Até conversam!”
Alguém sabe de situação igual com os ingleses, por exemplo?
Quando cheguei a Angola, tive que percorrer grande parte daquela terra. Fui a Nova Lisboa, hoje Huambo. Terra pequena, lá encontrei uma ou duas pessoas conhecidas e logo tinha uma porção de amigos. Um deles, uma meia dúzia de anos mais velho, que eu não conhecia, tinha recebido de Portugal uma carta que o informava que eu para lá ia e que ele, no que pudesse, me ajudasse.
Felizmente não precisei de ajuda, mas criámos uma amizade tão forte, que muitos anos mais tarde, estava eu já no Rio de Janeiro, ele em Portugal, muito doente, sabia que pouco tempo tinha de vida. Veio ao Brasil para se despedir de nós! Cada vez que penso nele...
Só África para estas amizades.
Em Moçambique, onde passei quase seis meses dando o meu tempo para a Casa do Gaiato, tinha o visto de estadia a caducar e precisava de mais uns dias para não ter problemas na saída. O muito querido AMIGO, padre Zé Maria, conhecia um moçambicano que seria, talvez, o chefe dos serviços de informação. Posto importante no governo, mas um homem simples, simpático. Mandou dois funcionários de carro buscarem-me à Casa do Gaiato (45 kms de Maputo) e levarem-me a Mbabane, na Suazilândia, para que lá me dessem novo visto de entrada. Fomos em muito animada conversa, na ida e na volta. O Consul de Moçambique pegou no meu passaporte, chamou um funcionário e mandou pôr o visto. Uns minutos depois devolveu-me e quando lhe perguntei quando devia pagar, olhou para mim e disse:
- “Aqui os amigos não pagam!”
A poucos dias de ir embora recebo um telefonema de um dos que me acompanharam a Mbabane. A convidar-me para almoçar em sua casa em Maputo, porque queria que a sua família me conhecesse! Lá fui. Estavam lá os dois e mais uma porção de casais amigos. Recebido com um carinho e atenções que nem pessoa importante. As senhoras pareciam estar num concurso de culinária. Cada uma fez um petisco melhor do que outro, e todas faziam questão que eu comesse de tudo! Impossível. A meio do almoço tive que capitular e pedir que me desculpassem. Não podia comer mais.
Fizeram 90 kms para me irem buscar e outro tanto para me levarem de volta.
Vou esquecer ou guardar bem aqui dentro?
No meu livro “Mussulo - Um Abraço À Vela” falei da minha “paixão” pelo mar, por velejar, que começou quando eu teria uns 10 anos. Só consegui concretizar esse sonho (parte dele) quando, quase trinta anos mais tarde, consegui comprar o primeiro (e quase único) barco, veleiro famoso o “Argus”. O barco ficava fundeado quase na ponta da Ilha de Luanda, perto de casas de pescadores. Um deles, um cara forte, atlético, que “herdei” com o barco, o Agostinho, era quem tomava conta do barco, o limpava e preparava para nos fins de semana sair a gozar aquele mar. O Agostinho era impecável e muito me ensinou. Tinha um ou dois filhotes pequenos e estes uns amiguinhos, claro, que faziam uns brinquedos para “velejarem” (os brinquedos!) na praia. Lembrei-me um dia de chamar essa criançada toda e propor-lhes fazer uma “regata” com os barquitos feitos por eles, com muita habilidade infantil (tinha barcos de uma e até de três velas). Montaram uns cinco ou seis no meu barco, saímos e a uns 100 metros da praia puseram os barcos na água. O entusiasmo deles foi uma maravilha. Logo os devolvi à praia. Esperámos pela chegada da regata e houve premiação! Já não lembro bem o que lhes dei, mas foi outra festa para todos.
Nunca fomos domos, nem sócios de restaurantes, mas às quartas feiras, durante alguns anos, tínhamos a nossa casa aberta para os almoços das quartas feiras, a que demos o nome dos “almoços dos solteiros”! Quem estivesse em Luanda só, sem a família que estaria em férias em qualquer outro lugar, podia aparecer. Não precisava avisar, nem nós nunca sabíamos quantos convivas iam aparecer. Normalmente entre um ou dois e às vezes meia dúzia.
Não havia cerimónia. Havia muito boa disposição, muita amizade que, naqueles que ainda por aqui andam permanece firme como rocha.
Como disse um amigo meu, militar, brasileiro, que esteve com as forças da ONU em Moçambique:
- África é um mundo diferente de tudo a que estamos acostumados a ver, ouvir e principalmente sentir.
Só quem por lá andou, e ainda hoje, sabe como é ser “recebido à angolana”. Só por ter feito a travessia do Atlântico, no “Mussulo” ganhei mais umas dezenas de amigos. Amigos de verdade
Por hoje fico-me por aqui. Mas tem mais para contar. Muito mais.
 

24/09/2020


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

 

De Volta aos Primeiros Passos - 4 . final -

 

Gabriel chega a Portugal com 45 anos, de onde tinha saído 28 anos antes. Lá na terra quem por lá estaria ainda? Enquanto em Angola trocou alguma correspondência com Maria Rita, que se formara, era professora no liceu em Lamego, o mais que conseguiu saber foi do falecimento da sua mãe, e ainda que Maria Rita tinha casado com um colega da faculdade que pouco depois fora chamado para cumprir o serviço militar na Guiné e onde, dias antes do regresso à Metrópole, teve um acidente quando o jeep em que seguia pisou uma mina. Ficou todo estropiado e acabara por falecer no hospital em Bissau.
Maria Rita não voltou a casar.
Assim que chegou foi direto para Lamego, instalou-se num pequeno hotel que ficava a pouco mais de vinte quilómetros da sua terra, da sua velha casa. No dia seguinte foi a um banco, abriu conta, alugou um cofre onde depositou a sua esperança, as garrafinhas, pegou um taxi e foi ver a sua casa.
Muito abandonada, mas que permitiria um bom restauro, o terreno na mesma, invadido por mato, mas pela primeira vez na vida Gabriel foi invadido pela beleza da vista que se alcançava lá do alto, coisa que em criança nunca dera importância.
Sentou-se num penhasco e chorou a saudade dos pais e da sua querida Catxi. Como ela deveria apreciar estar ali com ele.
Na descida foi a casa da Maria Rita. A mãe dela ainda estava viva e de muito boa saúde. De entrada não reconheceu o antigo vizinho, mas logo se lançou ao seu pescoço, beijou-o de saudades “daquele menino tão amigo da nossa Rita.”
Uma boa hora ou mais de conversa, ela disse-lhe que Maria Rita estava em Lamego, professora no liceu, deu-lhe o telefone dela, e que ela sempre aparecia nos fins de semana. Como ele podia ver, a casa fora aumentada, deixara de ser uma casa pobre para ser uma casa modesta, mas muito acolhedora.
Outro abraço, uma ou outra lágrima de saudades, “qualquer dia volto aqui, até porque também vou fazer obras na minha casa”, e logo regressou a Lamego.
A primeira coisa que fez foi telefonar a Maria Rita, que quase largou um grito quando percebeu com quem estava a falar, e mais, que ele estava ali, ao lado. Combinaram jantar juntos. Foi outro encontro emocionante.
- Gabriel, tantos anos! E eu, mesmo tendo casado, sempre pensava em ti.
- Também eu. E o mais engraçado, se é que tem alguma graça é que tendo casado com uma mulher negra, que me surgiu quase como caída do céu, uma mulher simples do interior, apaixonei-me por ela, pela sua humildade, uma vida dedicada à casa, ao marido e aos dois filhos magníficos que nos deu, que como angolanos que são, ficaram por lá.
Contou-lhe a tragédia da sua vida, mas tinha que seguir em frente. E falaram, falaram, falaram, contando coisas da vida de cada um desde que se separaram, e relembrando passagens de quando estavam juntos.
Só saíram do restaurante quando o dono lhes veio dizer que tinha que fechar as luzes e a porta!
- Maria Rita, eu tenho que ir à Bélgica fazer lá um negócio. Só vou na próxima semana, porque preciso primeiro de tirar o passaporte, mas amanhã podemos voltar a nos encontrarmos. Que tal ao almoço?
- Para mim o almoço não dá por causa das aulas. Mas jantar sim.
- Combinado.
Gabriel deixa-a à porta de casa dão um forte abraço... e um beijo.
Logo pela manhã começou por tratar do passaporte, procurar um mestre de obras e até um arquiteto para estudarem a recuperação da casa, que queria que começasse imediatamente, e alguém que lhe aconselhasse o que fazer em todo o terreno, que, mesmo no meio dos penedos ainda tinha um tamanho razoável.
Sugeriram-lhe até que naquele lugar uma pousada daria dinheiro. “Não quero nada disso. Por enquanto quero descansar, o físico e a cabeça. Trabalhei muito durante quase trinta anos, e um hotel é preocupação maior que não estou disposto a enfrentar. Para já vamos fazer dali uma casa, modesta mas com o conforto possível.”
Novo jantar com Maria Rita. Escolheram o melhor restaurante, sobretudo o mais sossegado e discreto. Maria Rita vinha mais elegante, mais bonita, ou... seriam os olhos dele que começavam a ver melhor? Os dois praticamente da mesma idade, ambos bem conservados, sem jamais terem esquecido aquela primeira e única aventura amorosa, sentiam, ainda sentiam, atração um pelo outro. Via-se nos olhos deles, e mesmo que estivessem ainda chocados com os seus desastres pessoais, a companhia da velha amiga e uma espécie de namorada da adolescência, ia-lhe anuviando a visão e a sentir o magnetismo que parecia adormecido.
- Maria Rita. Nós já fomos uma espécie de namorados.
- Ah! Criancices.
- Eram, mas não podes negar que estávamos os dois a gostar cada vez mais um do outro. E essas coisas, importantes, da juventude, não se esquecem.
- Eu também não esqueci nada, e a tua companhia, agora, parece que me faz andar anos para trás!
- Eu perdi a mulher há muito poucos dias ainda, o choque foi brutal, mas a tua presença ameniza a minha dor e, o que é mais importante está a fazer despertar aquilo que nós calámos tantos anos. Eu vou querer casar contigo!
- Gabriel! Não falas sério!
- Nunca falei tão sério na minha vida. Não casamos já amanhã. Deixa-me arrumar a minha vida, ir à Bélgica, entretanto pensamos nisto – eu já pensei tudo – e decidimos.
- Estás a deixar-me confusa. Nem sei o que pensar.
- Pronto. Já disseste tudo. Se não sabes o que pensar é porque sabes o que não pensar!
Riram, continuaram a conversa que nunca tinha fim, e marcaram novo encontro para o dia seguinte.
Maria Rita estava um pouco baralhada, já habituada à sua solidão. Não esperava aquele tão rápido desfecho, mas no fundo acolheu a proposta com entusiasmo que fazia o possível por não mostrar.
- Amanhã jantamos em minha casa. Eu preparo um jantarzinho.
Sabendo a que horas Rita chegava a casa mandou-lhe um imenso e lindo ramo de flores, e quando chegou para jantar levava várias garrafas de vinho. À escolha!
Um ambiente muito acolhedor, mais conversa que não acaba, o café na pequena sala, ambos sentados no sofá.
Enquanto ela serve o café ele está nervoso, pensa em abraçá-la, mas hesita.
Quando ela se vira, olhos nos olhos, o que antes lhes tinha parecido uma longa espera, ele avança para a abraçar e trocam um longo beijo há mais de 28 anos esperado!
- Como eu afinal continuo apaixonado por ti, Maria Rita!
- Mas não vamos dormir juntos. Esquece. Eu também te tenho no meu coração, mas agora somos suficientemente maduros para não fazer nada com precipitação.
- Também não era minha intenção dormir aqui! Vamos casar brevemente e, se Deus quiser, teremos muitos anos pela frente. Mas não vou deixar de te abraçar ainda muitas vezes antes da cerimónia!
Com o passaporte pronto foi à Bélgica, com a mala “especial”, o comprador estava avisado da sua visita que Carlos providenciara, a negociação demorou algumas horas porque tudo precisava ser muito bem analisado e por fim quando o comprador lhe diz quanto pode pagar por tudo – era muito mais do que imaginava – quase teve uma síncope! Estava milionário e não sabia!
Fechou negócio, depositou o dinheiro numa conta que abriu em Anvers, e regressou a casa rico, riquíssimo! A primeira coisa que fez, assim que chegou a Lamego foi mandar um telegrama aos filhos: “NEGÓCIO FECHADO MAGNIFICO STOP POR TELEFONE VOS CONTO STOP ABRAÇOS BEIJOS PAI.”
As obras da casa estavam a andar bem, ia ficar muito bonita e confortável, sem esquecer as necessárias licenças. Pediu instalação eléctrica, e ainda telefone, para o que teve que pagar os postes serra acima. Calculava que tudo estaria pronto em menos de dois meses. Três trabalhadores rurais vieram limpar o mato e com a sua experiência aconselhar o que plantar ali; sobretudo cerejeiras.
Com Maria Rita estava acertado o casamento. Teve que ser nas primeiras férias para poderem ter uma lua de mel. Poucos convidados, só a família, alguns amigos dela, e uns raros de quem Gabriel mal se lembrava da infância. 
Entretanto já havia comprado um carro magnífico que naquela altura, com o desastre da política em Portugal, se vendiam por metade ou a quarta parte do preço normal.
E foi assim que saíram de Lamego para Espanha, para passarem a primeira noite na pequena e linda vila de Puebla de Sanabria.
Os dois estavam ansiosos para se encontrarem, para se amarem, para repetirem o que haviam deixado por tantos anos.
Em vez de jantar, um pequeno lanche, correr para o quarto e se amarem.
Começaram, sem vergonha, por se examinarem bem quando acabaram de se despir. Eram um casal maduro, mas mantinham no corpo um belo vigor, e em poucos instantes caíam na cama já abraçados e sufocando-se com beijos.
Pareciam os mesmos adolescentes, porque se amavam com a mesma vontade, cada um pensando ter-se encontrado num céu novo, muito desejado.
As mãos não paravam de percorrer todo o espaço oferecido, procuravam não se precipitarem para poderem gozar o máximo que os anos não lhes haviam permitido.
Já não tinham vinte anos, mas a noite foi passada quase sem descanso, a imagem de Catxi aparecendo a sorrir, como a dizer-lhe que continuasse, até que por fim, sempre abraçados adormeceram.
Levantaram-se tarde, passearam pela rica povoação de mãos dadas, e à tarde seguiram para norte até um hotel em frente às praias do mar das Astúrias onde ficaram alguns dias.
Passeavam de dia e amavam-se, muito, à noite.
Apesar de ambos terem sofrido desaires, graves, na vida, pareciam agora felizes, seguros, sensatos.
- Rita, logo que a minha casa fique pronta mudamo-nos para lá. Entretanto ficamos no teu apartamento.
- Mas não é cómodo percorrer todos os dias aquela estrada. Com os meus horários no liceu parece-me melhor manter, por enquanto o apartamento.
Gabriel estava com dinheiro e não tinha idade para ficar em casa. Procurou informar-se onde aplicar algum capital, e decidiu-se por comprar uma parte, majoritária, numa exploração vinícola. Precisava da experiência dos primeiros donos, por isso não comprou tudo. Com a sua capacidade financeira e experiência de trabalho, em breve a produção aumentava e o mercado, apesar da economia em Portugal estar em decadência, alargava-se para a exportação.
Como seria de imaginar o primeiro mercado extra foi para Angola!
Rita conservava o seu professorado e ele, diariamente se dirigia um pouco para norte da Régua, desenvolver o seu negócio com os vinhos do Porto e do Douro.
Dos filhos tinham regularmente boas notícias pessoais: António já era professor da faculdade e Carlos chefe do gabinete do ministro da indústria. Angola é que estava mal com a guerra, e os filhos queixavam-se, dissimuladamente, da corrupção que grassava.
Ao fim do dia quando se voltavam a encontrar parecia que não se viam há muito tempo e corriam para se amarem.
Catxi e Angola já estavam muito longe, mas... durante a noite, no sono mais profundo, Catxi continuava a sorrir para ele.
A vida continuou, um quarto de século passado, com algumas idas a Angola, sempre que podiam.
Uma noite Maria Rita sentiu-se mal. De urgência para o hospital, um ataque de coração levou-a em poucos dias.
Gabriel, com pouco mais de setenta anos, sentiu-se perdido.
A paz chegara a Angola, onde já cresciam quatro netos, e quase bisnetos a caminho.
Para lá foi.
Os filhos que tomassem conta do que ele tinha deixado em Portugal. Não queria para lá voltar sozinho.
Avisou-os que queria ir a Xá Muteba. Que não se preocupassem; iria sozinho, de combóio até Malange e lá arranjaria um taxi. Queria ver se ainda encontrava algum dos sobas que tinha conhecido. Sobretudo deixar algumas flores na campa da sua Catxi.
Se ao chegar a Malange o seu espanto foi grande, Xá Muteba então parecia um sonho. Como tudo estava diferente, sobretudo a escola e a sede do novo munícipio! Continuava a ser um município modesto, mas tudo estava arrumado. Mas praticamente não aumentara de população. Pouco trabalho, os que atingiam idade iam embora para a capital.
A primeira parada foi junto à igreja, à procura do túmulo de Catxi. Sabia exatamente onde o tinha feito. Cansado e emocionado acabou por encontrar uma pequena área, com um resíduo do que talvez tenha sido uma cruz em madeira. Ajoelhou e chorou!
Depois foi falar com o administrador do município. Contou-lhe que ali tinha vivido quase vinte e oito anos, que lá tinha deixado alguns amigos, sobretudo entre os sobas cujos nomes ainda lembrava. O administrador não conhecia ninguém desse tempo; chamou um velho funcionário que, para seu grande espanto, se lança nos braços do Sr. Gabriel e deixa correr duas lágrimas. Tinha sido um dos seus trabalhadores!
Gabriel mal podia falar. Pergunta-lhe pelos outros colegas, pelas famílias e sobretudo queria notícias dos sobas seus amigos. Um só parecia estar ainda vivo, mas muito velhinho.
- Podemos encontrá-lo?
- Creio que sim.
O administrador dispensou o velho funcionário e, no mesmo taxi foram à procura do velho soba, o kota mais respeitado na região.
O encontro foi emocionante. Reconheceram-se e ficaram abraçados um longo tempo. Não conseguiam dizer nada.
Por fim Gabriel disse-lhe que tinha um pedido a fazer. Queria acabar os seus dias em Xá-Muteba e proporcionar um túmulo decente para Catxi, no cemitério. Sabia que isso era complicado, e caro, mas dinheiro continuava a sobrar-lhe, e se houvesse impedimentos burocráticos pediria ajuda aos filhos.
Propôs ao seu amigo construir-lhe uma casa maior, com um cómodo para ele.
Foi complicada a papelada para não só procurar os restos mortais de Catxi, como transferi-los para o cemitério. Nada que o dinheiro não pudesse comprar. E logo mandou fazer um pequeno jazigo para que ele, em breve, viesse a ficar junto da sua companheira querida.
O tempo estava contado.
Pronta a casa do soba que entretanto arranjou guarida para o seu amigo, e resolvido o problema funerário, com poucos dias de diferença, ambos, finalmente descansaram.
 

02/06/2014

 

 


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

 

(continuação)

De Volta aos Primeiros Passos - 3 -

  

Os anos iam passando e os dois filhos que entretanto tiveram, António, o nome do avô paterno e Carlos, o mais “perto” que encontraram para se parecer com o da mãe, estudavam já na escola que entretanto se construíra na povoação.

O negócio crescera bem, as viagens mais frequentes eram a N’Dalatando visitar os tios e prestar contas da sociedade que estava bem sólida financeiramente, e também para darem a conhecer ao pai de Catxi a sua nova família. Esta visita foi uma festa em casa do kota e sua nga, que estavam felizes por verem a filha bem casada, com dois lindos netos e um genro, mesmo português, que os respeitava.

Não tardou também que numa dessas visitas Gabriel convidasse os tios, quase solenemente, para serem seus padrinhos de casamento. Já tinham tudo combinado com o Padre de Xá Muteba.

Casariam naquela pequena igreja, e fariam a festa na casa nova que tinham construído.

Os dois serventes iniciais, com o tempo e muita dedicação eram agora empregados a quem se podia entregar a loja quando se ausentava, e duas ou três vezes, toda a semana, Gabriel saía na carrinha para visitar áreas mais afastadas, entregar algumas encomendas mais pesadas, como tambores de 200 litros de petróleo, muito usado na iluminação, ver como corriam as plantações, sobretudo algodão e mandioca, visitando os sobas e mantendo esse entendimento e bom relacionamento com todos.

Nessas viagens não conseguia segurar-se e o alargar mais os seus horizontes para os lados femininos passaram também a ser um pretexto. E começou a experimentar outras delícias. Chegava a casa mais à noite, por vezes cansado, quando encontrava uma parceira mais bonita e mais fogosa, mas nunca nenhum destes “encontros” se fazia a menos de 30 ou 40 quilómetros de casa! Todas eram excelentes parceiras para os exercícios sexuais mas, perder Catxi, isso estava fora de cogitação.

Xá Muteba também tinha crescido, Posto Administrativo com o respetivo chefe de posto, uma espécie de presidente da câmara, telégrafo, telefone, enfim um progresso que, em 1949, quando Gabriel ali chegou era quase impensável.

A sua casa comercial continuava a ser a maior e mais importante, aquela que os sobas visitavam com alguma frequência e onde eram recebidos como amigos, nunca indo embora sem terem bebido uns copos de vinho e comido uns bolinhos que Catxi, mestra na cozinha, preparava.

Em muitos fins de semana Gabriel levava a família para caçar. Barraca de campanha e todos os apetrechos para passarem uma boa noite no “mato”, onde sempre lhes aprecia um pisteiro que os levava a abater alguns animais, a maioria dos quais ficava com a população. Para eles chegavam uns lombos e duas pernas, que consideravam comida dos deuses.

Desde muito pequeno o grande entusiasta pela caça era sobretudo Carlos; aos nove anos, com a carabina do pai já tinha abatido um sengue, antílope aí com uns noventa quilos, que fez questão de mandar embalsamar a cabeça e guardar no seu quarto!

Gabriel que percorria constantemente a região vinha sentindo um mal estar geral entre as populações, devido principalmente ao escandaloso preço porque obrigavam os agricultores a vender o seu algodão. Percebia que esse mal estar preparava algo que poderia ser grave, mas com a confiança que ganhara em tantos anos, não temia por ele nem pelos seus, mas pelo negócio que, de um dia para o outro poderia acabar.

1961. Os filhos, nove e onze anos, Catxi continuava a mesma mulher simpática, sempre sorrindo, muito carinhosa com a família e com todos, uma tarde dois sobas vieram falar com Gabriel. Conversa confidencial.

Avisaram-no que o pessoal decidira fazer greve e não entregar o algodão, já colhido, a menos que o preço fosse aumentado de forma considerável, e que isso poderia trazer consequências graves porque “pairava no ar” que algum tipo de levantamento estava a preparar-se.

Em toda a região sabia-se que a sua casa comercial tinha sido o seu apoio durante muitos anos, e por isso era respeitada, e nada faria prever que alguém se atrevesse a prejudicá-la, antes pelo contrário queriam protegê-la, e manter as ligações respeitosas que sempre prevaleceram. Mas... aconselhavam-no a mandar a família passar uns dias com os tios-avós até que o problema estivesse resolvido.

Depois de ter ouvido tudo quanto os sobas lhe contaram, mais preocupado ficou, sabendo que nada podia fazer. O preço do algodão eram os poderosos da Metrópole que fixavam. Ele estava ali, como sabiam, há quase treze anos, e praticamente não tinha ganho nada em milhares de toneladas que mandara para Luanda. Os sobas sabiam disso, mais uma razão para o considerarem um amigo e uma pessoa a respeitar sempre. O problema é quando as multidões se enfurecem!

À saída, baixinho, disseram ao seu amigo:

- O senhor Gabriel tem sido sempre um amigo do nosso povo. Nós estamos-lhe muito agradecidos. Guarde estas duas garrafinhas em lugar bem escondido. Nós aqui não precisamos disso. Talvez no futuro o possam ajudar a viver. Tudo por aqui está muito confuso.

As duas “garrafinhas”, embrulhadas em velhos papeis de jornal eram duas garrafas grandes de cerveja, 0,6 L, da velha Cuca, cheias. Cheias... de diamantes!

O diamante! Um monopólio oligárquico, poderosíssimo, controlava o contrabando dessas pedras de forma violenta. Aquele “presentinho” que os sobas lhe tinham dado valia uma fortuna, e não era qualquer um que podia sair por aí e encontrar comprador. Era, sim, um magnífico seguro de vida, só que para o negociar teria que ir à Bélgica ou Holanda.

Sem que alguém visse, guardou tudo no mais escondido buraco que encontrou em casa e jamais falou sobre o assunto com alguém.

No dia seguinte foi a Malange levar a mulher e os filhos que seguiram no combóio para casa dos tios.

A agitação crescia e os chefes dos postos administrativos, chamaram o exército, diminuto e inexperiente exército para tão grande país, com a ideia de segurar alguma possível sublevação.

O encontro entre a tropa e o povo foi de total desentendimento. Os feiticeiros queriam que os sobas dessem ordem para atacar com as armas que tivessem: canhangulos, catanas, paus e foices, e completamente drogados procuravam convencer o povo que as balas dos portugueses eram água e não feriam ninguém.

Tentaram os oficiais que comandavam a tropa dialogar, mas não foi possível. O povo gritava, ninguém se entendia e de repente começa o tiroteio.

Ninguém sabe ao certo quanta gente morreu. Soldados portugueses poucos, porque eram os que tinham as armas. Da parte do povo falava-se em centenas e até em milhares. Um desastre completo. E o desmonte da última réstea de confiança que poderia existir.

Poucos dias depois, Gabriel, acompanhado de alguns sobas, corajosamente, foi visitar as áreas da chacina. Era um dos raros portugueses que mantinham amizade junto daquela gente, mas o que viu deixou-o extremamente abalado, determinado a continuar com a sua casa e tentar melhorar a situação da região.

Passado esse susto, esse perigo, Catxi e os filhos regressaram a casa. O mais velho já estudava no liceu em Malange. Carlos deveria para lá seguir também em Outubro, e Catxi tinha que dividir entre acompanhar os filhos e o marido, sabendo que se o deixasse sozinho, novo, ainda o mesmo aspeto de rapagão forte e bonito, o seu lugar na cama corria o risco de ser ocupado por outra!

Gabriel entendeu que a melhor solução seria comprar um andar em Malange para não ter que entregar os filhos aos cuidados de outras pessoas e Catxi para lá se mudou. Raro era o fim de semana que não passava com a família. Ou dormia em Malange, quase sempre aproveitando para dar uma volta à caça, ou quando podia chegava sexta à tarde para os levar para Xá Muteba, onde logo Catxi desconfiou que naquela cama, na sua cama, várias deviam andar a passar. Como sempre, não disse nada. Só uma vez, com ar meio distraído, é que perguntou ao marido se ele não sentia frio de noite, dormindo sozinho! Entendeu o recado! Respondeu que os cobertores eram quentes. A verdade é que já experimentara, aproveitara, algumas boas ofertas que umas mais atrevidas lhe tinham feito. Mas nunca levara nem uma para a sua cama. Arranjava outros meios de realizar os encontros com as oferecidas, muitas das vezes com manobras e desempenhos violentos e prolongados, em quaisquer lugares.

O tempo corria, a luta colonial espalhava-se por Angola, e Gabriel tinha dificuldade em gerir a sua posição face a ambos os contendores. De um lado a população da região que o conhecia tratava-o com a mesma atenção, avisando-o até de possíveis situações de maior perigo. Do outro lado o exército português desconfiava que ele tivesse ligações com os “terroristas” pelo simples fato de ter sido sempre um comerciante honesto e amigo do povo.

Na verdade ele conhecia muitos dos combatentes, há anos seus clientes e muitos até amigos, mas com quem não falava do problema político militar.

Começava a ver a sua situação difícil, e sobretudo calculava que o futuro certamente não lhe reservaria a tranquilidade que qualquer um almeja na vida.

Numa conversa com o tio percebeu que a situação lá na zona dos Dembos, ao lado de N’Dalatando, não era melhor. Pelo contrário, o perigo era constante. Já tinha até começado a transferir para a metrópole todo o dinheiro que pudesse, reduzindo o movimento da loja, sem o entusiasmo que pouco anos antes o movia.

Os filhos tinha-os mandado para Portugal, um a estudar no Porto outro em Coimbra, ambos na universidade e em riscos de serem chamados para o serviço militar e voltar para Angola, para uma guerra que não aceitavam. Já tinham posto o problema ao pai de se ausentarem para França, mas a questão financeira, de os manter lá dificultava a decisão. Só eles a podiam tomar.

Achou a decisão do tio muita sensata, prudente e começou também a trocar o dinheiro de que podia dispor, não por escudos de Portugal mas por dólares. Parecia-lhe mais seguro.

Em pouco tempo, a Angola, finalmente, tinha chegado a universidade. António desde criança dizia que queria ser médico, e se tudo corresse bem em Outubro estaria já em Luanda. Carlos, sempre mais vivo e despachado, ainda tinha tempo para pensar entre engenharia ou... logo veria.

Com dificuldade venderam a casa de Malange e alugaram um andar na capital, sempre com Catxi acompanhando os filhos. Só que agora as visitas de fim de semana se tornaram muito mais raras, porque, mesmo com a estrada em bom estado, alcatroada, mais de 750 quilómetros para cada lado, além do tempo e custo da deslocação, já se corria perigo de ser atacado no caminho. O melhor meio era o avião, que de qualquer forma tinha que apanhar em Malange com horários que não lhe davam grande possibilidade de aproveitar bem o fim de semana.

Aos pais esta separação era difícil, mas necessária. Só nas férias é que se juntavam todos em Xá Muteba, região bastante patrulhada pelo exército português, com grande influência do MPLA sobre toda a região. No entanto os combates naquela zona eram mais raros por haver muitas áreas abertas que não permitiam emboscadas e nem os angolanos estavam preparados para um enfrentamento aberto.

Como é evidente toda a família tinha muitos conhecidos e os filhos até muitos amigos nas fileiras dos combatentes angolanos, que de vez em quando até se atreviam a aparecer, um ou outro, em casa deles, sempre disfarçados de agricultores. A maioria das vezes vinham pedir ajuda para algum doente ou ferido, o que constituía um perigo para os hospedeiros.

António avançava na medicina e sugeria ao pai abrir um posto médico para ajudar a população; Carlos estava em engenharia civil e, em férias, não perdoava as caçadas. Com o conhecimento que tinha da região e de muitos bons pisteiros, tornara-se um grande caçador. Era isto que ele queria, muito mais do que a tal engenharia.

Terminado o curso, António ingressa logo no serviço militar, sem sair de Angola segue com um batalhão para o interior, responsável pelo serviço de saúde. Carlos foi também chamado para o serviço militar, mas entretanto a guerra acabara!

Grande euforia nas populações com o anúncio da independência que Portugal proclamara, Gabriel fez uma festa convidando os chefes indígenas para comemorarem.

Não durou muito a alegria. Os movimentos revolucionários que lutavam contra o colonialismo dividiam-se pelo país: o norte com a influência do Congo e o FNLA que queria absorver essa parte de Angola, a metade sul com o povo umbundo apoiando a Unita e o centro-norte nas mãos dos quimbundos, o MPLA, aquele que melhores elites tinha e que, sobretudo, estavam apoiados nos sovietes.

Até à data da independência, um ano e pouco depois do desastre português, os três movimentos estavam completamente desentendidos, como estiveram sempre durante a guerra colonial, e agora pegavam em armas, entre eles, no que foi uma horrorosa guerra civil que durou vinte anos.

Os portugueses fugiam, abandonavam tudo, e o abastecimento de todos os bens começava a tornar-se raridade; o pouco que havia, muito especulado.

O pecúlio em moeda posto nos Estados Unidos tinha já um volume razoável e jamais esquecia daquelas duas garrafinhas que lhe tinham sido oferecidas, que nem filhos nem a mulher sabiam da existência. Foi visitar um dos sobas que lhe dera esse presente e pediu-lhe para lhe arranjar mais um “pouco”. Ele lhe pagaria. Não foi necessário. Poucos dias depois recebia mais duas garrafinhas, que ele sabia terem um valor muito grande, mas sem noção do quanto.

A loja a ficar com inúmeras faltas de mercadorias essenciais, Gabriel disse a Catxi que iria na sua camionete a Luanda comprar tudo quanto pudesse. Claro sempre aproveitando para ver os filhos que já estavam integrados nos quadros do MPLA, e que lhe facilitavam os contatos para comprar alguma coisa.

Dois dias depois estava de volta a Xá Muteba. Ao aproximar-se da terra sentiu alguma coisa errada. Muito fumo. Algum incêndio, mas onde? O seu coração bateu forte e quando entrou na povoação viu o desastre que o deixou estarrecido: Xá Muteba tinha sofrido um ataque de grupos do Congo, saquearam tudo quanto puderam e quem se lhes opôs foi barbaramente morto. A sua loja e a casa estavam ainda a arder. Com dificuldade entrou, procurou por Catxi. Acabou por encontrá-la estendida no chão, assassinada, pescoço cortado, possivelmente teria sido estuprada.

Abaixou-se e chorou convulsivamente agarrado ao cadáver mutilado. A custo embrulhou-a num lençol e num cobertor e carregou-a nos braços para fora. Correu a pedir ajuda aos seus amigos algumas tábuas que improvisassem um caixão e para abrir uma cova ao lado da igreja, tão profunda quanto pudesse ser para aí depositar aquela que, durante vinte e seis anos, tinha sido a mulher da sua vida.

Desesperado procurou só alguns detalhes pessoais, como fotografias e as tais garrafinhas especiais. Depois, mais uma vez foi visitar os sobas, um dos quais tinha também sido assassinado, para lhes agradecer e despedir-se deles, dizendo que deixava de vez tudo o que lhe sobrava, incluindo a carga que levava na camionete e que ficava para eles. Sem custo. Pediu-lhes só que cuidassem do túmulo da sua querida esposa.

A sua idéia era ir embora de Angola, mesmo sabendo que os filhos ficariam, certamente em condições razoáveis, porque estavam ambos com estudos superiores e integrados no movimento a quem estava a ser entregue o país.

Voltou a Luanda, chamou os filhos, contou-lhes todo o desastre, e que ia embora. Quando as “coisas” estiverem mais calmas voltarei para estar com vocês. Agora estou abalado demais vou para Portugal, aproveito para regularizar a casita e o terreno que eram de meus pais, e vou dando notícias.

Tinha um segredo para eles: as garrafinhas, que levaria o mais escondidas que pudesse.

Também lhes disse que a conta em dólares estava bem fornecida, o que eles sabiam, e que se precisassem de alguma coisa lhe telefonassem. Quando chegasse a Portugal mandaria um telegrama a dizer onde ficava. Carlos garantiu que no dia seguinte lhe indicaria como, onde e a quem vender o famoso conteúdo das garrafinhas! Ele sabia quem, em Angola, estava totalmente por dentro desse assunto. Não podia vender a qualquer um; tinha que ir direto ao melhor comprador.

No dia seguinte à noite, com a interferência dos filhos e seus amigos que, não tardaria, alguns seriam importantes membros do governo, não teve dificuldade em arranjar lugar no avião e levar as malas sem que alguém lhes tocasse.

 

(continua)