segunda-feira, 23 de janeiro de 2017


Encontro de Escritores
(Última “Notícia” de Alcobaça)


Recordam-se vocês do bom tempo d’outrora,
Dum tempo que não volta mais
Quando íamos a rir pela existência fora
Alegres como em Junho os bandos de pardais?

- Esta quadra de Guerra Junqueiro, fez-me voltar aos tempos de Coimbra onde começavam, um pouco a medo, a chegar alguns conhecimentos sobre a história dos territórios do ultramar e do longínquo Japão de Wenceslau de Morais. Talvez se tivesse iniciado com Cadornega, Elias Alexandrino da Silva Correa, seguidos de outros, como António Enes, Mouzinho, Brito Camacho e por aí vai. Eu, insular, plantado quase a meio caminho entre a Europa e África não podia ficar indiferente. Bem mais tarde apareceram Castro Soromenho, Ralph Delgado, Alda Lara, Agostinho Neto, sobre Angola, Jorge Barbosa de Cabo Verde, Amilcar Cabral da Guiné, José Craveirinha de Moçambique e tantos outros que ficaria aqui a enumerá-los o resto do tempo que nos concederam.
Com sua barba hirsuta, branca, ar triste e cansado Wenceslau de Morais limita-se a dizer:
- Tokushima! Tokushima! E minhas amadas Ko-Haru e Ó-Yoné. Vivo agora com elas eternamente!
Cadornega, que sorrateiramente foi para Angola com 16 anos, para evitar a fúria da malfadada Inquisição:
- Vitorino! Não imaginas como foram complicados e difíceis aqueles primeiros anos em Angola! Enfrentar as sempre falsas populações do interior com quem queríamos simplesmente comerciar e levar a palavra de Cristo, lutar contra um clima insalubre e ainda ter que enfrentar os hereges holandeses! Não sei como consegui resistir tantos anos. E as guerras, sempre insanas, de parte a parte.
- Cadornega! Eu que nasci “americano-português” na Ilha de Santa Catarina, no Brasil também vivi uns largos anos em Angola, e deixei escrito o que lá vi e aprendi. Mas pouca gente sabe disso e pouca importância dão. Fui depois, cansado, acabar os meus dias na minha terra, mas sempre com uma estranha saudade de África!
- Como se admirar por isso, meu caro Elias Alexandrino? Vocês devem saber, que eu, jornalista, acabei por ser “obrigado” a ir para Moçambique, com a finalidade de pôr ordem no caos que por lá se vivia. Por um lado os nativos e, pior, os ingleses que nos queriam correr da Delagoa Bay, fornecendo armamento aos zulus para que eles corressem com os portugueses. Valeram-me aqueles homens da fibra dos que sempre fizeram história na nossa terra: Paiva Couceiro, Mouzinho, Ayres d’Ornelas, Caldas Xavier, Azevedo Coutinho e muitos outros. Pacificou-se – não totalmente – o país que pôde começar a progredir, e demos definitivamente o recado aos gulosos ingleses!
- António Enes! Antes dessas lutas e acordos de pacificação já nós, na companhia de Brito Capelo e Serpa Pinto, tínhamos corrido, a pé, a maioria do interior africano, ligando Angola a Moçambique. Tivémos nossas desavenças, o que considerámos normal, mas desbravámos parte dum mundo desconhecido da Europa. Hoje, se pudesse, repetiria a façanha!
- Queria ver hoje alguém repetir esse feito, Roberto Ivens.
Oliveira Martins, que pairava “guloso” entre tantos grupos sobre quem ele havia estudado e escrito, desde D. João I a Camões e às epopeias marítimas, ouvia entusiasmado os “africanos”. Pensava em Bernardo de Brito e suas Histórias Trágico Marítimas, nos trabalhos vividos por quem se aventurou por esses mares nunca dantes navegados, e cochichou com Joaquim Pedro Celestino Soares:
- Não acabaram as aventuras do mar no tempo das descobertas. Mas o teu livro “Quadros Navais” continuou a mostrar a valentia e determinação dos nossos marinheiros.
- Agora não há mais perigo, porque o Portugal glorioso e orgulhoso das suas marinhas, desde o grande rei Diniz, hoje quase nem barquinhos de pescadores tem. Tenho ouvido, que ainda há um português, vivo, que constantemente luta contra essa vergonha marítima e ninguém o ouve! Que tristeza.
- Eram simpáticas, sim as viagens de navio entre Portugal e Ultramar. E tempo houve em que as relações entre as populações nativas e os portugueses eram fáceis e agradáveis. Mas depois do Tratado de Berlim tudo se complicou. Apesar disso manteve-se uma união que poderia ter sido mais um caminho para a concretização do 5º Império, como tão bem, ultimamente frisou Agostinho da Silva. Até eu que fui estudar para Portugal, porque era um pouco “a nossa terra”, acabei perseguido por tentar valorizar os povos da minha terra, e fui obrigado a pegar em armas contra um governo cego, covarde e mudo.
- Antes de ti, Agostinho Neto, comecei eu também a ficar mal visto por ter escrito o que vi e vivi em Angola e tive também de ir embora, para onde não me incomodassem. Infelizmente não tive o prazer de assistir à Independência dessa terra para onde fui acabado de nascer.
- Soromenho, até hoje o teu nome é respeitado. Tu foste um percursor da literatura “de dentro para fora”! Cantaste a triste vida do angolano pobre, como era maltratado, e isso desagradou às governanças, mas fez escola. Eu chorei a vida triste dos segregados. Nasci em Benguela, uma cidade com convívio especial mas, ainda assim com imensas desigualdades. Tentei lutar com a minha poesia. “E apesar de tudo, Ainda sou a mesma! Livre e esguia, filha eterna de quanta rebeldia me sagrou. Mãe-África!” Usando até metáforas para chamar a atenção, como “À prostituta mais nova Do bairro mais velho e escuro, Deixo os meus brincos, lavrados Em cristal, límpido e puro...”
- Alda! Alda! Como chorámos, todos, quando nos deixaste. Não havia uma só boca, independente da cor de suas peles que não cantasse os teus poemas, muitos deles a quem entretanto corriam lágrimas pela cara! Não só pela beleza da poesia como pela consciência da mensagem que transmitia.
- Meu irmão! Talvez o maior sonhador que Angola terá conhecido! O Antero de Quental de Benguela dos quintalões, sempre à procura daquilo que só encontramos quando deixamos a nossa carne entregue à Terra que nos viu nascer. Em todos os que conheceste deixaste um amigo, um admirador e... até um quanto de inveja em cada um deles por te verem alegre e triste, descontraído e preocupado mas sempre com uma palavra de esperança para todos.
- Eu que o diga, que te conheci bem, bebi dos teus pensamentos, do grande Tomaz Vieira da Cruz, aprendi a conhecer o Sul de Angola com os trabalhos do Padre Carlos Estermann, saboreei os contos do humilde Oscar Ribas, e entusiasmei-me completamente com uma simples “ordem” do Rui de Noronha que lá de Moçambique nos deu o caminho: “África, surge et ambula”! E quanto mais me entusiasmava mais me perseguiam e acabei, com a “ordem existente”, por perder alguns amigos, como o José Luandino que passou quase treze anos atrás das grades! Foi quando aproveitou para escrever. E que bem escreveu! Ganhou um duplo prémio! O Prémio da Melhor Novela, pelo livro Luuanda, que lhe atribuiu a Sociedade Portuguesa de Escritores, em 1965, quando estava preso, e o gozo que lhe terá dado ver que esse prémio provocou um tremendo pavor e confusão no covarde governo que até, tão ridiculamente, proibiu que os jornais divulgassem o prémio ganho por um presidiário!
- Tão caricata a atuação do Governo que logo extinguiu essa Sociedade de Autores. Lembras bem disso, com certeza, Mário de Andrade! Eu sempre tive presente um pequeno poema do cabo-verdiano Jorge Barbosa que, sobretudo nos Estados Unidos continua a ser como notícia, revoltante:

“Ocorrência em Birmingham”

John

de Birmingham, Alabama, USA
entrou na tabacaria.
Foi insultado
soqueado
expulso.
Na rua
o polícia
espancou
derrubou
cuspiu
prendeu o desordeiro.
Negro safado!

Coisas parecidas presenciei, sempre que um idiota se julgava superior. Fui para Lisboa onde estudei agronomia, e o que é curioso é que lá me dava bem como todos os colegas. Quando regressei à Guiné é que vi que não podíamos continuar a ser assim tratados.
- Amilcar Cabral, foste um exemplo, e sempre admirado. Malditos para sempre os que te mataram fazendo crer que foram os portugueses. Bem dizias tu: “Se alguém me há de fazer mal, é quem está aqui entre nós”. Apesar de estares a comandar a luta armada, a tua morte, em Portugal foi sentida.
- Hoje, lá onde estamos não há amigos ou inimigos, mas deixa-me tratar-me por amigo, José Craveirinha. Tu, filho dum humilde e bom português que sempre foi um simples operário em Moçambique, que “nasceste a primeira vez em 28 de Maio de 1922 entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Num bairro de pobres”, e que lutaste entre duas pátrias, pai e mãe que sempre se amaram, e assim desde cedo viste que a cor da pele só encobre os corações. Com razão és conhecido como o maior poeta de Moçambique.
- Contigo aprendi a amar ainda mais este país, e do mesmo modo sem conseguir conviver em paz entre o novo Moçambique e o velho Portugal.
- O mesmo comigo Rui Knopfli. Nasci no velho Portugal, saí de lá menino, voltei para cursar Belas Artes. Mas logo regressei a Angola que já considerava a minha terra. Não creio que alguém possa passar incólume por África. A paixão pelas belezas naturais, sobretudo pelo seu povo, amável, bonito, acolhedor. Senti-o e vivi essa paixão em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné e São Tomé e até Brasil, pela pintura e pela poesia. Eu, que no fundo não era mais do que um pintor, me atrevi com a poesia, inspirado em tantos amigos, alguns dos quais não tive oportunidade de conhecer, mas que lia com avidez.
Entretanto São Pedro fazia chegar aos ouvidos do organizador do Encontro que era preciso desocupar o refeitório. Estava quase na hora dos monges irem tomar a sua primeira refeição da manhã, e não podiam descobrir aquela “festa”.
Há muito, uns quantos convidados já se haviam retirado, a começar pelo velho Rei Afonso X. A animação agora estava em África, e pelas caras de todos via-se que ficariam ali... eternamente.
Neves e Sousa, “ouviu” também o chamado de São Pedro e pediu para terminar o Encontro, que considerou uma das grandes dádivas do Céu, com dois pequenos poemas que o levavam, como a todos os outros a se embalaram na música suave dos povos de África.
- Deixem-me terminar este nosso fantástico Encontro com uns pequenos poemas a começar por este do Grande Tomaz Vieira da Cruz, que até música tem:
Quissange - Saudade Negra
Não sei, por estas noites tropicais,
o que me encanta...
Se é o luar que canta
ou a floresta aos ais.
Não sei, não sei, aqui neste sertão
de música dolorosa
qual é a voz que chora
e chega ao coração...
Qual o som que aflora
dos lábios da noite misteriosa!
Sei apenas, e isso é que importa,
que a tua voz, dolente e quase morta,
já mal a escuto, por andar ausente,
já mal escuto a tua voz dolente...
Dolente, a tua voz "luena",
lá do distante Moxico,
que disponho e crucifico
nesta amargura morena...
Que é o destino selvagem
duma canção em que tange,
por entre a floresta virgem
o meu saudoso "Quissange".
Quissange, fatalidade
deste meu triste destino...
Quissange, negra saudade
do teu olhar diamantino.
Quissange, lira gentia,
cantando o sol e o luar,
e chorando a nostalgia
do sertão, por sobre o mar.
Indo mares fora, mares bravos,
em noite primaveril
acompanhando os escravos
que morreram no Brasil.
Não sei, não sei,
neste verão infinito,
a razão de tanto grito...
-Se és tu, oh morte, morrei!
Mas deixa a vida que tange,
exaltando as amarguras,
e as mais tristes desventuras
do meu amado Quissange!

E da nossa África negra, que procurámos cantar e pintar, uma saudação de Mário de Andrade:
Minha avó negra, de panos escuros
da cor do carvão
Minha avó negra, de panos escuros
que nunca mais deixou.
Andas de luto.
Toda é tristeza

De repente o refeitório ficou vazio!

18/01/2017


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Encontro de Escritores

- 3 ?-

Continuava animada a conversa naquele inusitado encontro em Alcobaça.
Rodeavam agora Dom Dinis todos aqueles que haviam passado pela sua Universidade lembrando que fora este grande rei que, em 1290 instituira o Estudo Geral Português, com a assinatura do documento “Scientiae thesaurus mirabilis”. Parecia, e era (e continua a ser!) a maior figura da história de Portugal.
Propunham até, os antigos alunos, ali fazerem uma serenata ao grande Rei, e o lembraram, meio em segredo, para não melindrarem a memória de Dom Afonso o quarto, de seu filho Pedro Afonso que tanta obra deixou. Ainda ensaiaram uma pequena trova de D. Dinis, mas em voz baixa já que os outros convivas estavam, também em animada conversa: "Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo! ai Deus, e u é?
João Rodrigues, depois Amato Lusitano, lamentava ter ido estudar em Salamanca por ser considerado na altura de sangue sujo. Brilhou pela Europa, assim como Abraão Zacuto Lusitanum de quem Dom João III se serviu, mas não impediu que fosse igualmente expulso de Portugal. António Vieira conversava com eles que sabiam que ele também havia sofrido semelhante perseguição, bem como outro brilhante conviva Garcia de Orta.
- Até o grande mestre Damião de Gois, de família nobre, por melhor e mais profundamente pensar foi perseguido pelo mesquinho clero e acabou, ao que dizem, assassinado! E espero que ninguém se esqueça do que sofreu o também grande Diogo do Couto.
Lamentavam todos os presentes que os sefarditas tivessem sido expulsos dum país que eles tanto amavam e continuaram a respeitar mesmo longe. E, pior, expulsos por quem deles se serviu, D. João III, esmagado sob o peso da beatice dominicana. Herculano, ouviu falar neste rei e não se conteve, seu ar austero: 
- Era um homem medíocre, inábil, fanático, inábil para governar por si próprio". 
António Vieira, mais cordato:
- Aproveitemos este encontro, este convívio e procuremos esquecer as nossas desventuras. Vamos beber um bom vinho das terras de Garcia de Orta, não direi à nossa saúde porque... mas ao nosso encontro.
Muito mais grupos se formavam sem que alguém fosse impedido de circular.
Já Dom João, o primeiro, beijara a mão de seu bisavô, e presenciado o respeito de que ficou sempre merecedor, num instante se viu rodeado pelos amigos, entre eles Dom João de Ornelas cujo semblante não negava o prazer de estar no “seu” antigo mosteiro!
E pelos cronistas! Fernão Lopes, que elogiava o trabalho de Duarte Nunes ao refundir as crônicas dos reis da primeira dinastia, e a dos três primeiros reis da dinastia de Avis, na Segunda Parte das mesmas crônicas, o que foi apoiado por Gomes Enes, de Zurara, e Herculano que ainda acrescentou:
­- Na opinião do 1° Marquês de Alegrete, foi Duarte Nunes de Leão quem abriu caminho à crítica da História em Portugal, escrevendo com juízo e madureza, certamente enquanto apreciava o seu tão famoso e elogiado vinho!
O que ele também fez. Herculano estava eufórico. Ele, sempre aquela cara fechada, enigmático, exultava com os personagens que tão bem conhecera no Tombo.
E chegados estavam agora os filhos Dom Duarte e Dom Pedro.
- Bonito esse vosso livro meu filho, o Leal Conselheiro. Exemplo de um homem honrado que bebeu, sobretudo de sua mãe, a delicadeza e o comportamento exemplar. Pena que meu neto Afonso tenha sido tão ingrato com seu tio Pedro, que foi o melhor conselheiro que poderia ter encontrado.
Dom Pedro, que foi Duque de Coimbra, duque de Treviso, Cavaleiro da Ordem da Jarreteira, ar triste, no íntimo o filho preferido de seu pai, que sempre amou seu irmão e seu sobrinho, perdoava, mas não podia esquecer o que lhe fizeram.
-  São águas passadas. Penso em meu irmão Henrique e o quanto ele teria gostado de ler a carta de Pero Vaz, de Caminha. Aproxima-te Pero Vaz, para te abraçar em nome de meu irmão Henrique.
-  E tu também Pero de Magalhães, o homem que veio de Gand para nos dar a primeira descrição, em história, das Terras de Vera-Cruz! E pensar que tudo isto devemos ao grande rei, nosso antepassado, com a sua grande visão.
Poucas eram as figuras femininas, entradas no Mosteiro sem o conhecimento do Dom Abade, mas ali estava Florbela Espanca, por especial deferência de São Pedro, que advogara em sua defesa a escrita libertina, os vários casamentos que não deram certo e as tentativas de suicídio, porque sabia o quanto ela havia sofrido.
- Florbela?Aqui ?Acabo de sair de um outro encontro, feminino, porque não gostei do que disse a Soror Mariana, a fazer-se de vítima arrependida, quando já se sabe que não foi ele que escreveu as cartas ao francês ! Mas eu...
Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!
- Alegra-te Florbela. És muito estimada e admirada entre todos – disse-lhe Guiomar Torrezão que “representava” a luta pela emancipação das mulheres.
Ao ver Guiomar, Camilo fez questão de abraçá-la, e agradecer-lhe a carta que ela lhe escreveu “Há muito que penso em escrever um artigo substancial sobre Camilo...” e Guiomar retribuiu lembrando a carta dele: “Beijo as mãos de V. Exª pela fineza dos seus cuidados com a minha esquisita existência.”
Carolina Michaelis de Vasconcellos, nascida em Berlim, mas portuguesa por casamento e coração, notabilizou-se na história e poesia dos antigos do seu novo país, divulgando-os por toda a Europa. Já havia recebido os cumprimentos de Sá de Miranda que tão bem havia estudado e ajudado a difundir, as homenagens de Herculano e Antero de Quental (cuja vida suplantou em virtude o desastre da sua morte) lembrando as suas trocas de correspondência, sempre com um belo caráter de respeito próprio de uma grande dama e de grandes homens. Por fim e seu imenso espanto é com o próprio Camões quem lhe vai agradecer os Estudos Camoneanos que mais ainda o engrandecera, sobretudo junto ao povo germânico.
Um pouco afastados conversam já Camilo e Herculano que, maliciosamente, lhe pergunta pelo cão que aquele lhe dera e após a sua nomeação para a Academia de Ciências de Lisboa lho pedira de volta! Camilo, mordaz, esboçou uma desculpa, o que, coisa rara, fez aparecer um largo sorriso na cara de Herculano.
Bernardo Correa de Melo, o Conde de Arnoso, ao lado da Ramalhal figura, ria-se com aquela conversa, e Eça, que havia escutado Garrett falar na sua terra, a bela Póvoa de Varzim, pergunta a Antero se, lá no etéreo, em que pouco nos vemos, também lhe chamam, como ao grande apóstolo Simão, São Pedro, o Santo Antero!
- Aproveitemos e vamos brindar a este encontro, mas com vinho especial de Tormes que, no meio de tantas delicias etílicas, encontrei! É o vinho do Porto no seu melhor! E esquecer a triste e cómica Questão Coimbrã!
- Imodéstia tua Eça, com o vinho! Mas sabes bem que quem moveu esses ridículos combates coimbrões foi a vaidade ferida dos mestres e dos pontífices! O espírito de rotina violentamente incomodado! Melhor mantermos o nosso Bom Senso e Bom Gosto para saborearmos o teu bom vinho e a magnífica companhia dos que aqui se encontram!
Esqueçamos as cartas que José Feliciano de Castilho, dizendo tanto disparate, publicou no Brasil, onde os homens de Bom Senso deram, não atenção mas até risada de desprezo.
- É verdade, atalhou Machado de Assis. Vivia-se uma época em que era permitido publicarem-se calúnias, mas os homens sensatos, se as liam, logo rasgavam esses escritos. Um dos que sofreu com isso foi o grande mestre Gilberto Freyre, usado como argumento político duma ditadura poderosa e logo a seguir insultado pelos revoltosos!
- Não há melhor meio para conhecer o homem português do que ler as obras de Gilberto Freyre, um homem simples mas com uma obra extraordinária. Foi às origens e mostrou como se adaptou aos trópicas e criou o homem brasileiro.
Palavras de Ariano Suassuna, sempre alegre e comunicativo, rendia assim homenagem a quem deu partida para que aparecessem depois os grandes romances sobre o homem brasileiro.
- Foi isso Ariano, assim criei Grande Sertão:Veredas, Sagarana, e outros cantando baianos e mineiros, e você com o extraordinário Auto da Compadecida e tantas outras obras magníficas mostrando o Nordeste do Brasil.
- Rosa, não esqueça João Cabral de Melo Neto. Camões cantou a epopeia dos portugueses. João Cabral o sofrimento dos nordestinos, como naquele incomparável poema Morte e Vida Severina.
Luis Augusto Palmeirim, até então calado, deliciado a ouvir tantos colegas de letras, ele que teve o condão de “descobrir” novos talentos, estava entusiasmado com a conversa que entretanto derivara para o Brasil.
- Que maravilha! Já chegámos ao Brasil. Os nossos irmãos de Além o Grande Rio Atlântico. Mas não podemos passar incólumes pelos Açores. Aqui ao lado, calado, o que não é seu natural, está o homem do Mau Tempo no Canal!
Vitorino Nemésio, habitualmente bem disposto, alegre, brincalhão, rendia-se aos que o rodeavam,
- Desse Mau Tempo, Luis Augusto, tantos e tantos saíram para irem povoar novos mundos. Desde a América do Norte ao Brasil, para onde levaram o culto do Espírito Santo que a nossa grande Rainha Santa Isabel nos confiou.
- E o que me dizes dos que foram e criaram raízes por África, Ásia, Japão?
- Muito. Mas, como descobri no meio de tantas garrafas uma de vinho do Pico, vou afinar a garganta com uma delícia da minha terra, e do Antero, e já volto.
Nós também voltaremos, com a continuação deste Encontro de Escritores, daqui a uns dias.


15/01/2017





segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O blog http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/  decidiu colaborar com estes Encontros, escreveu e postou o que segue:

ENCONTRO DE ESCRITORES – 2 –


- E a propósito de Almada, creio que será interessante o nosso anfitrião também dar voz às escritoras. Que acham?- pergunta Almeida Garrett.
De imediato, o grande Luis anuiu mas lembrou que a sua Jau nada escrevera.
- E lá por isso, a minha D. Madalena também não. Mas tanto a tua Jau como a minha Madalena são o resultado das nossas imaginações. Não, eu sugiro mulheres escritoras, elas próprias.
- Muito bem, vamos sugerir isso ao nosso anfitrião.
Falados, D. Francisco, o anfitrião, concordou mas logo lhes pediu que intercedessem junto de S. Pedro para que deixasse as Senhoras virem até ao lado de cá.
- S. Pedro? Porquê ele e não Santa Clara, por exemplo? - replicou o chique João Baptista. – Tratando-se de Senhoras, parece mais conveniente não meter homens pelo meio, por muito Santos que sejam.
- Sim, sim! – diz o Luís – Nada melhor que a intercessão de Santa Clara para termos por cá garantida Soror Mariana, a das cartas ao francês.
- Muito bem, seja! – diz o terreno D. Francisco – Vejam lá, então, se falam com Santa Clara.
E não é que falaram mesmo? E não é que obtiveram mesmo a autorização? Brilhantes! Pediu a doce Clara que dissessem onde deveriam as Senhoras aparecer e a que horas...

Foi então a vez do nosso amigo e anfitrião puxar pela cabeça para imaginar onde poderia ser a reunião das escritoras. Em Alcobaça não, obviamente, por ser mosteiro masculino.
Vai daí, mete-se ao caminho de Beja e procura o Convento da Conceição, das clarissas, onde residira Soror Mariana, mais conhecido por Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição para falar com a Dona Abadessa. E qual não é o espanto do nosso amigo D. Francisco quando se lhe depara o Museu Regional de Beja, totalmente laicizado (não propriamente profanado), sem Abadessa nem monjas. Pede então ao contínuo de serviço à portaria que lhe obtenha um encontro com a mais alta hierarquia do dito Museu. (...) Que sim, podiam usar uma das galerias desde que no dia de encerramento semanal ao público.
No dia aprazado, postas as mesas com os recipientes de «bebidas paulatinas» (nada de bebidas alcoólicas) e bolinhos conventuais (mas dos secos para obstar a molhangas e outras besuntices), logo ficou estipulado que o que sobrasse deveria ser distribuído por critério ad hoc, ou seja, a bel-prazer de quem por ali manda. E D. Francisco, o terreno, logo foi dizendo que sobraria quase tudo pois só ele comeria alguma coisa; que as espirituosas convidadas são austeras em beberagens e comissões.

Só o anfitrião presente e garantido o recato por expressa ordem de extra hominis, caiu o silêncio dentro da galeria colunada e...

Museu Regional de Beja.jpg

... conhecedora dos cantos da casa, entra serenamente à hora prevista a antiga residente no Convento, Mariana Alcoforado. Dada uma olhada calma pelos rótulos das bebidas e pelos pratinhos com bolos, ia a nostálgica e platónica apaixonada pelo Marquês de Chamilli dirigir-se a D. Francisco quando, vinda do Céu de Angola, entra Alda Lara (1930-1962) que já vinha à conversa com a moçambicana Noémia de Sousa (1926-2002). A goesa Maria Elsa da Rocha (1923-2005) foi a seguinte mas logo seguida pela santomense Alda Espírito Santo (1926-2010). E quase se iam atropelando umas às outras ao passarem, saudosas, pelas gulodices em que já não metem dente quando todas param de espanto perante um chapéu «belle époque» esvoaçante por cima duma pele de raposa anunciando a chegada da mais bela flor que sempre se considerou esquecida mas não espancada...
Tentando pôr fim ao sururu dos gritinhos de surpresa, beijinhos de saudades e outros salamaleques, foi a vez de o anfitrião sugerir o critério de só falar uma Senhora de cada vez. (...) que sim, que estava bem. E que seria ele, o terreno, a pôr ordem na chamada à palavra. Que sim, que fosse.
- Então, minhas Senhoras, vou pedir a cada uma que nos fale sobre uma obra que considerem importante dentre todas as que produziram. Comecemos por Soror Mariana...
- Obrigada, querido Francisco por me dar a palavra. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, confesso perante vós, minhas irmãs e colegas de escrita, o meu sincero arrependimento por ter pecado por actos escritos, pensamentos lúbricos e terríveis omissões, tudo em favor desse malévolo francês que me enfeitiçou com lindas promessas que hoje considero escabrosas, imundas e sarnentas e que depois me desprezou com um sonoro silêncio. E foi esse silêncio que me conduziu ao desespero, à ignominiosa escrita que em França os pecaminosos tanto aplaudiram e me conduziram ao estrelato, às honras que hoje tanto me afligem. Foi em desespero que me deixei conduzir pelas vias do pecado e só porque é infinitamente bom, o Pai me perdoou no meu arrependimento e me acolheu ao seu lado direito. Hoje venho aqui perante vós reconhecer os meus erros e declarar-vos que numa próxima vida me dedicarei afincadamente ao estudo para conjugar melhor os verbos em francês. Chamilli vai pagar-mas!
E assim se retirou para perto dos bolinhos, sem lhes tocar. Grande penitência. E na vingança confessada, lá foi Mariana «tirando bilhete» para o Purgatório se não mesmo para as brasas eternas...

Estava D. Francisco, o terreno, quase em estado de choque com o destino adivinhado da monja quando viu uma sombra a acenar como que a pedir a palavra. Era a bela flor da porrada.
- Sim, bela flor. Diga-nos um poema seu, por favor.
E assim foi que todas viram o tal chapéu «belle époque» dirigir-se até junto duma coluna para dali ouvirem...

Eu quis amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi p’ra cantar!

E se um dia me fiz pó, cinza e nada
Que fosse a minha noite uma alvorada,
Então eu soube-me perder... p’ra me encontrar...

E D. Francisco, o terreno, meio perdido no meio de tanta perdição, só pensava: - Ah! Grande sebenta que hás-de penar eternamente... Mas Deus é grande e perdoou-lhe. Só que deve estar ao Seu lado esquerdo.

Apressadamente, deu o nosso amigo terreno a palavra a alguém que lhe garantisse santidade na ex-vida terrena. E escolheu Alda que recordou o seu testamento...

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua... 

Comovido, D. Francisco olhou em redor e viu todas as almas do outro mundo ali presentes com nós nas gargantas e lágrimas a correr suavemente pelas nuvens com formas de rosto.

Engoliu em seco, aclarou a voz e convidou Noémia de Sousa a dizer o seu «Magaíça».

A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
Engoliu o mamparra,
Entontecido todo pela algazarra
Incompreensível dos brancos da estação
E pelo resfolegar trepidante dos comboios.

Tragou seus olhos redondos de pasmo,
Seu coração apertado na angústia do desconhecido,
Sua trouxa de farrapos
Carregando a ânsia enorme, tecida
De sonhos insatisfeitos do mamparra.

E um dia,
O comboio voltou, arfando, arfando...
Oh nhanisse, voltou.
E com ele, magaíça,
De sobretudo, cachecol e meia listrada
E um ser deslocado
Embrulhado em ridículo.

Ás costas – ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?
Trazes as malas cheias do falso brilho
Do resto da falsa civilização do compound do Rand.

E na mão,
Magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
À cata das ilusões perdidas,
Da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
Lá nas minas do Jone...

A mocidade e a saúde,
As ilusões perdidas
Que brilharão como astros no decote de qualquer lady
Nas noites deslumbrantes de qualquer City.

Calado, pensou: - Aqui estão as nossas 800 toneladas de oiro, a pesada herança do Doutor Salazar.  Pensou mas calou também a verdade inconfessada por muitos dos que se dedicaram a dizer mal de Portugal mas, quando doentes, se recolhiam à nossa guarda. E nós guardámo-los e demos-lhes tudo o que sabíamos dar. E por cá morriam e também eles nos davam tudo o que tinham: a vida.
Reconhecido, Francisco apenas se limitou a dizer – Obrigado!

A noite ia comprida e Santa Clara mandou recado de que lá em cima já eram horas das vésperas. Que as rezassem e regressassem ao Céu.
(...)
Foram os Magos seguindo
A estrela do Oriente
E com presentes confessam
A glória de Deus nascente.
(...)
E quem não falou desta vez, falará da próxima...

Cumpridor, D. Francisco agradeceu às Senhoras, viu-as sair através duma parede e pensou que da próxima teria que... o quê?

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Henrique Salles da Fonseca

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017


Um encontro de Escritores

- 1 -

Corria por Lisboa um  amante da história e das letras, à procura dum restaurante suficientemente grande que, por uma noite, pudesse fechar as portas para receber um elevado e muito especial número de convivas. Fechar as portas em sentido literal.
Isto porque os convivas, sobretudo os mais antigos e de elevada estirpe, não gostariam de ser vistos pelo público, muito menos entrando em lugares normalmente reservados a “plebeus”.
Nada encontrou em Lisboa, nem Porto, nem, correndo o país, em qualquer restaurante mesmo nos melhores hotéis, que lhe servisse para os fins em vista. Lembrou-se que um convento seria a melhor solução ; lugares tranquilos, longe do mundo externo, e acabou por se fixar no Mosteiro de Alcobaça.
Levou tempo a convencer o Dom Abade que precisaria de uma sala, grande, fechada, onde ninguém pudesse entrar, nem por qualquer buraco espreitar. O refeitório do convento, espaçoso, seria o ideal. Argumentou como pôde: só o utilizariam a partir das 20 horas, pagaria o que fosse necessário, mas impunha uma condição: ninguém poderia ver quem lá iria estar dentro.
- Dom Abade: não tem que se preocupar, são todos pessoas da maior respeitabilidade. Depois lhe venho contar quem aqui esteve.
As instruções foram precisas: nada de cozinhados. Nada. Eles, os convivas, talvez quarenta ou cinquenta, não vêm comer. Só encontrar-se e conversar. Mas quem sabe se lhes apetecerá beber qualquer coisa, de modo que se porá à sua disposição, somente algo para quebrarem um pouco a « sede » e para alegrar o convívio, sobretudo vinhos. Os melhores.
Continuando, foi dizendo que tudo isso correria por sua conta, o Mosteiro não gastaria um cêntimo, e com a conveniente antecedência traria as bebidas, variadas, vinhos branco e tinto, vinho do Porto, outros vinhos generosos, vinho verde, aguardente e água. Todas as garrafas estarão abertas. Não precisaremos nem de saca-rolhas. Copos, sim, de todos os feitios, e à descrição. Muitos copos. Se o mosteiro não tiver, também posso trazer umas dúzias de copos. Não precisa ficar preocupado porque ninguém se vai embriagar e criar problemas. Não são necessárias cadeiras, só pequenas mesas espalhadas “aqui e além” onde os convivas possam depositar os copos vazios.
Como certamente vai sobrar muita bebida, desde já ela fica oferecida ao Mosteiro, esperando que os monges dela possam fazer bom uso, assim como dos copos.
Pessoal para servir, nem um. Não há necessidade. E que ninguém, rigorosamente ninguém, ali entre ou vá espreitar. Será eventualmente necessário fechar alguma janela porque não se deverá poder ver quem lá estiver.
O tranquilo Dom Abade julgava estar perante um louco. Para que se juntarem num restaurante se não iam comer? Só beber? Nunca tinha visto tal. O organizador do encontro limitou-se a responder perguntando quanto queria que lhe deixasse como pagamento ou contribuição para o acontecimento, o que o religioso deixou ao critério dele e, ainda cético, se ofereceu para colocar lá na sala alguns sumos das boas frutas da região, o que foi aceite com muito agrado. Foi-lhe então entregue então um envelope com generosa quantia.
- Aqui tem o seu dinheiro, Dom Abade. No dia seguinte eu venho acertar eventuais contas do que for necessário. Amanhã, a partir das oito da noite só poderão aqui entrar, além de mim estes poucos senhores cujos nomes estão nesta lista; eles sabem que ficarão numa sala separada, porta aberta para o salão onde não poderão entrar. Serão os testemunhos da reunião. E que ninguém mais saiba disto. E o senhor, Dom Abade terá que manter todo este assunto em segredo de confissão.
Face ao entusiasmo do visitante e do dinheiro, vivo, em notas, o Dom Abade, apesar de desconfiado, acedeu.
- Mais uma coisa só: onde tem aqui um altar dedicado a São Pedro?
Dom Abade levou-o a meio da nave central da bela igreja, e deixou-o ajoelhado, parecendo rezar com fervor.
Pouco demorou a tirar do bolso uma lista. Ajoelhado, humilde (pleonasmo: ajoelhar é já um ato de humildade!) frente à imagem do Santo e sem muito mais rezas diz-lhe:
- São Pedro, preciso de um grande favor. Tenho aqui uma lista de pessoas que gostaria que deixasse, amanhã, virem à terra. Por pouco tempo. Só algumas horas.
- Meu filho aqui não há ontem nem amanhã, e muito menos horas. Aqui só há o momento presente. O que não importa, porque tudo pode ser controlado. Mas o que vão eles fazer aí na Terra, quando aqui estão gozando a suprema felicidade?
- Será uma pequena reunião de escritores da língua portuguesa, incluindo até um que viveu antes de haver esta língua. Um encontro a que poucos, muito poucos vão ter oportunidade de assistir, e onde imagino se vão trocar curiosas ideias do tempo de cada um. Já todos aí estão a descansar, mas nós que os estimamos muito e estudamos, queremos ter o inestimável prazer de os poder ver.
Mas, querido São Pedro, tem que os deixar vir vestidos como andaram quando vivos, no seu tempo, pela Terra, independente de uns terem sido ricos e outros até pobres. Será uma ajuda para os podermos distinguir. Só os poucos vivos que assistirão ao encontro vão reparar nesses desprezíveis detalhes. Ah! Um outro detalhe: alguns eram judeus ou cristãos novos.
- Aqui não há judeus, nem há religiões. Há só Paz eterna para quem a mereceu quando peregrinou por essas bandas.
- Que bom, Santo Pedro.
- Mas estranho pedido esse, meu filho. Jamais alguém me apresentou semelhante ideia! Dizem que eu tenho as chaves do céu, mas aqui eu não mando nada. Somos todos iguais. Não sei como satisfazer este pedido que, devo dizer, até me parece interessante. Espera um instante que vou falar ao Pai.
Como no céu também não há instantes, de seguida São Pedro continuou.
- Vão poder ir sim. Não preciso da lista que trazes contigo, porque consigo ler o que te vai na alma. À hora combinada aparecerão, um de cada vez, sem ordem das hierarquias desse mundo. Vai em paz.
Já mais animado o nosso promotor da festa guardou a lista para depois conferir se viriam todos. Não que desconfiasse da palavra do Santo, mas para que ele próprio se não perdesse, e até porque talvez algum não tivesse ganho ainda... os céus!
Os convidados, terráqueos, autorizados a assistir, foram os seguintes de que só se indicam umas letras para não serem depois assediados por jornalistas e outros curiosos: CC, HS, AP, LS, e MC.
Refeitório arrumado, mesas encostadas às paredes, abertas as garrafas com as bebidas, os copos ao lado, arrumados, aproximam-se as vinte horas, o nosso “inventor” do encontro, nervoso, olha para o relógio a intervalos de poucos segundos. O que se iria passar?
De repente surge o primeiro, logo o mais fácil de identificar, zarolho (sem aquela ridícula coroa de louros na cabeça), calça a meio da coxa e uma capa pelas costas, só podia ser o Luis Vaz, de Camões! Olhou em volta, parece não ter visto o anfitrião, nem podia porque o anfitrião era um ser vivo e os convidados figuras etéreas (mas que iam beber vinho !) e com dois passos estava em frente das garrafas. Olhou para todas as garrafas, escolheu como bom conhecedor, encheu um copo de vinho verde e derramou-o num só trago! Ahhh ! Que saudades !
Entretanto chega Brás de Albuquerque só reconhecido porque Camões ao vê-lo exclamou, alegre:
- Brás, aliás Afonso, vamos falar um pouco das nossas aventuras, ou desventuras, na Índia! Tu não estiveste por lá mas sabes de muita coisa. Vem beber à saúde daqueles tempos. Vinho verde da minha região ou da tua quinta ?
Num instante aparecem mais três, quatro, cinco, e o anfitrião começa a ficar baralhado sem saber quem era quem. Reconhece Alexandre Herculano, impossível de não ser reconhecido, vê-o dirigir-se a um personagem, de roupa vistosa, longa barba branca, ar altivo apesar de se ver já de idade avançada, e muito respeitosamente se dirige a ele :
- D. Alfonsi a Domino, quod est honor
Afonso X respondeu-lhe em castelhano, língua que ele havia introduzido oficialmente em Castilla y Leon em substituição do latim. Entretanto, garganta seca, pediu que lhe servissem um copo de vinho generoso.
- Dom Afonso, este é um vinho das encostas do rio Douro. Duero para usted. É ouro líquido para se beber!
Logo ao lado deles estava outra figura ímpar, que fez questão de beijar a mão de seu avô. Herculano logo o reconheceu também e não conseguiu calar o que sentia:
- Senhor Dom Dinis, o maior rei que Portugal teve!
Dom Dinis, em grande respeito por seu avô :
- Tanto e tão bem fizeste, meu Senhor e Rei, que eu seguindo vosso exemplo aboli também o latim em Portugal. Institui não o castelhano mas o que mais se fala no meu reino: o galaico-português!     
E vinham-se juntando mais, encantados pela presença de tão destacadas figuras. Um deles, magrinho, nariz proeminente, bigode bem aparado, óculos pince nez, ajoelha-se em frente de Dom Dinis, olha-o bem nos olhos e diz-lhe:
- Meu querido e maior rei, o plantador de naus a haver! e deixa correr, de emoção duas lágrimas.
Já corre para se juntar ao poeta, roupa simples, humilde, o sapateiro de Trancoso, que Pessoa apresenta ao Rei:
- Senhor, aqui está o homem que previu o grande futuro de Portugal no Mundo, tudo iniciado pela gestão do vosso reinado!
António Vieira esticava a cabeça para ouvir o que diziam do Futuro. Dom Dinis que o viu mandou-o aproximar-se mais para o abraçar. Sabia da sua História, e no seu íntimo agradecia-lhe a expansão do nome de Portugal. Neste pequeno grupo Agostinho da Silva tinha que estar; encantava-se na presença do grande soberano, mas sobretudo bendizia a herança da Santa Rainha, ausente, mas muito estimada, e queria apresentar ao rei a também sua visão Império do Menino, a que se juntou, para aplaudir, Ariano Suassuna.
Ao grupo inicial, ia-se juntando um sem número dos muitos poetas coevos porque ali se encontrava o Mestre. Bernardim Ribeiro, a quem Camões perguntou pela “Menina e Moça e seu roussinol”, um canto triste de quem cantou a dor da Menina; Sá de Miranda com sua longa barba, que depois de abraçar efusivamente o seu amigo Bernardim, brincou com Camões dizendo-lhe
- Sabes bem, grande mestre, que se te salvaste do naufrágio, não te salvas que se tenha espalhado por toda a parte o teu imenso engenho e arte! Aprendeste que o Amor é fogo que arde sem se ver, mas Amor é cego minino e a Fortuna é cega mulher!
João de Barros aguardava a troca das amabilidades poéticas para se voltar para a Índia! Camões,  Afonso de Albuquerque, Diogo do Couto, Garcia de Orta e até Duarte Nunes de Leão, que reclamava por não encontrar à disposição entre as preciosidades etílicas nem que fosse uma só garrafa da sua terra, o clássico Pera Manca, um vinho da minha terra que se cultiva há milhares de anos e que os romanos vinham aqui buscar para se deliciarem em Roma! André de Resende coadjuvou : 
-­ Tens razão Duarte Nunes. 
Todos riram e Afonso de Albuquerque correu para lhe oferecer um copo do que de melhor a Quinta da Bacalhoa produzia! Duarte Nunes:
- Obrigado. É bom, mas não se aproxima do Pera Manca, amigo Brás.
- E eu que o diga, confirmou Bernardim, orgulhoso do seu Torrão!
Não seria tão bom, mas Brás foi notando que só à conta dele uma garrafa inteira já se tinha evaporado!
Bocage, magro, de olhos azuis, carão moreno, bem servido de pés, meão na altura, triste de facha, o mesmo de figura, nariz alto no meio e não pequeno, irreverente, atento à troca de ideiais não se conteve. Sadino, sai em defesa dos moscateis de Setubal que costumava beber em níveas mãos, por taça escura, e com seu geito descontraido fez com todos provassem o cantado nectar, aprovado por unanimidade.
Os que andaram pelas Índias, cutucaram Camões :
- Mestre Luiz, nunca revelaste onde era a Ilha dos Amores, mas eu que por lá andei recordo bem uma das que mais prenderam o meu coração : a Ilha de Mussa Ben-Bique !  Não andavam as belas deusas pela floresta, que não havia, mas vi-as tocar o alaúde e a qunan, a que nós chamamos harpa, e o nosso desejo se acendia mesmo que as carnes não fossem tão alvas!
- Tens razão Garcia, eu que por lá passei e vi muitas daquelas deusas de ébano, não as esqueci nunca. Como poderia? Depois de meses de mar...
Gaspar Correia, com um suspiro acrescentou:
- Ah! A ilha dos sonhos e dos amores era essa mesma, Diogo do Couto. Passei a minha vida, quase toda na Índia e lembro do grande Vice-Rei Afonso de Albuquerque que volta e meia me falava das “deusas daquela ilha”!
Seguia a conversa sobre a Índia, mas havia que escutar outros grupos.
Camões vê entre os de outras gerações alguém que queria muito cumprimentar. Ali estava outro poeta, elegantíssimo, casada verde bronze com botões de amarelo dourado, colete branco de grande bandas, calça cor de flor de alecrim, gravata de cores lubricas e luvas cor de palha!
-  João Batista! Que ideia ter escrita aquele belo poema Camões! Muito me sensibilizou e fez até nascer almas poéticas em jovens simples!
- Luiz Vaz, deverias ter visto a magnífica peço de teatro que fez em meu nome! Foi um imenso sucesso!
E conseguiu um efeito especial do Castelo da Almada a arder dentro do teatro!
Exclamou Manuel de Sousa Coutinho.
- Sabem onde me inspirei? Numa barraca de marionetes na Póvoa de Varzim! E que bela obra também a tua Frei Luis de Sousa, sobre o grande arcebispo Dom Frei Bertalomeu!
A reunião estava animada, a noite virava e ainda duraria muitas horas.

A continuar...