domingo, 19 de fevereiro de 2017



Encontro de Escritores
Comentários das testemunhas

Pouca gente achou interesse neste Encontro. Outros aplaudiram.
Nem todas as testemunhas que assistiram ao Encontro reagiram com a mesma rapidez dando a sua opinião sobre o que presenciaram. Se o próprio organizador ficou baralhado, as testemunhas também precisaram de tempo para assentar tão insólito acontecimento.
Nem todos vão entender o que se passou, alguns, possivelmente, nem conhecerão parte dos “convivas”.
Mas foi um acontecimento... quase histórico!
Aqui estão as suas versões.

1ª Testemunha AP

Perante uma ideia tão brilhante e tão habilmente desenvolvida, esta testemunha, aqui, deste lado do charco, só pode curvar-se em humilde vénia.
Por uma vez, estive na presença de génios das letras muitos dos quais admirei e admiro. Que sorte!
Em boa verdade, limitei-me a ficar sentadinho no meu canto a assistir mudo de espanto e veneração.
Na certeza de que não terei outra oportunidade assim, nem enquanto terráqueo, nem já como alma penada. Presumo que o Além Celestial, tal como o Inferno de Dante, também deve estar organizado segundo um modelo ptolomaico, com todos estes génios lá em cima, bem junto ao Altíssimo.
Ora eu o mais a que posso aspirar é quedar-me logo pelo r/c do Paraíso, a fazer umas palavras cruzadas ou a jogar uma partida de Go, se por lá houver parceiro(a).
Um dia destes, logo que tenha tempo e haja engenho, irei convocar amigos do movimento "Claridade" e outros poetas, uns lusos, outros nem tanto, que ficaram melindrados por não terem sido também convidados para a tertúlia. En passant, consta que a vida no Paraíso é um bocado monótona. Como é só paz celestial, os vivos debates de ideias a que eles estavam habituados não têm como medrar. Uma pasmaceira!
Abraço
AP – António Palhinha Machado

2ª Testemunha HS

Foi James Joyce que me sugeriu a busca da epifania das coisas e dos lugares. No sentido filosófico e não propriamente no transcendental mas, de facto, não sou capaz de deixar de imaginar as pessoas que estiveram ligadas a essas coisas e a esses lugares conferindo-lhes a essência que sempre procuro pelo que, mesmo sem um esforço especial, me chego relativamente perto da transcendência sem, contudo, lhe tocar. É claro que não chamo os espíritos sobre uma mesa de pé de galo nem dou a mão a xamãs; limito-me a imaginar as pessoas que por ali andaram e se mais houver, não é para aqui chamado. E com esta imaginação, tudo ganha uma expressão muito especial. Eis a busca do significado que tantos escritores tentam; alguns, em vão. Sugiro a quem me lê que faça esse tipo de exercício mental que, por enquanto, não paga imposto.
Compreende-se, assim, o entusiasmo com que correspondi ao desafio que o Francisco me lançou para testemunhar os seus «encontros» e para eu próprio contar o que nesse âmbito me aprouvesse. Sobre as descrições que o Francisco nos trouxe, posso dizer algo; sobre as descrições dos meus «encontros», outros que opinem.
Transcendências e seus rituais postos de parte ab initio, trouxe-nos o Francisco uma encenação de grande efeito pois foi escolher um local por onde passaram muitas histórias - tantas que será por certo impossível descrevê-las exaustivamente. Mais: esse local foi conhecido de quase todos os escritores (se não mesmo de todos) por ele convidados pelo que, directa ou indirectamente, explícita ou implicitamente, formatou a cultura de todos os invocados. Ou seja, o refeitório dos frades do Mosteiro de Alcobaça sendo, por definição, um marco inultrapassável da nossa Cultura, é cenário natural a todos os invocados que pertencem – uns mais militantemente do que outros - à esfera da lusofonia e não obrigatoriamente à da lusofilia.
Mas o Francisco, elegante como sabemos, foi buscá-los à lusofonia e «deixou para lá» essa questão mais diáfana que é a lusofilia. Eu próprio o fiz nos meus escritos mas, dentre os que foram menos afáveis para connosco, portugueses de Portugal, só invoquei aquelas duas Senhoras que, na aflição, nos procuraram e nos deram tudo o que tinham: a vida1.
A vastíssima cultura do Francisco sobra em relação ao espaço que decidiu conceder aos seus escritos. Poderia continuar, não sei até onde… A sua arte literária permitiu-lhe tecer diálogos interessantíssimos que a todos nos deu asas à imaginação e que, também eles, poderiam continuar por aí além…
A propósito dos diálogos entre escritores que viveram temporalmente tão longe uns dos outros, lembrei-me da Rainha de Sabá e do Rei Salomão2 que talvez nunca se tenham encontrado e que, mesmo assim, conseguiram fazer um filho, o primeiro Imperador da Etiópia. Mas como a fé não se discute, fiquemos assim.
Resta-me uma questão final: como é que uma Cultura tão policromada como a Lusíada em que ainda hoje, neste início do séc. XXI, proliferam hostes de analfabetos, tem conseguido produzir tantos escritores e poetas? E são tantos que nem conseguimos listá-los sem grandes omissões. Ensaio uma resposta bastamente discutível: é muito mais fácil romancear e versejar do que mourejar.
Salvo melhores opiniões.
Grande abraço ao Francisco e que continue…
HS – Henrique Sales da Fonseca
Janeiro de 2017

3ª Testemunha LC

Sonhei com Alcobaça
e do sonho que sonhei
sonhei que sonhava
de um sonho em que acordei
e não era eu que ali estava,
era a alma de Portugal
egrégora universal

Ainda nos lembra os picos da Atlântida, de que os Açores são parte. As conversas telepáticas, o brilho dos cristais, das viagens espaciais. Rememorações ancestrais. Das asas, dos voos. Das pedras piramidais, dos enormes templos. Dos sacerdotes e dos deuses das jornadas iniciáticas. Das festividades, das homenagens, dos rituais.
Ainda nos lembra das árvores. Nossas casas. Das árvores e dos frutos. Dos guinchos e das poças de água em que bebiam e chapinhavam, e às vezes até lutavam, com paus, com ramos, que se foram tornando pontiagudos. Grupos enormes, famílias extensas. Nómadas à procura de tempos quentes, e das marés. Das fogueiras e das cavernas.
Do ferro e dos arados. Das cabanas em círculo de entre-ser e dos centros das aldeias em que dançámos e se contavam estórias sobre estórias. De tudo se falava e de nada se escrevia. Riscos e desenhos, pinturas no chão e nos corpos. E se percutiam as danças onde se saltava bem alto em frente delas para mostrarmos da imensa leveza, da elevação.
Matriarcais saudades de jovens amazonas que viviam nos campos de escravizantes agriculturas. Quando se deixaram as deambulações, de bichos à solta, e se fixaram os animais e as terras, e se construíram as cercas para as crianças e as mulheres, das escolas e dos lares e das mamas, do leite. Da carne.
Do peixe e daqueles pescadores da Judeia, de Belém, entre os latins romanos do império que rendiam os gregos, mas só nas armas que não na filosofia. Da democracia, mas não para mulheres e escravos e estrangeiros, metecos aristotélicos e platónicas curtes, por sua vez, herdeiro de socráticos devaneios. Da maiêutica, da arte de dar à luz, do mundo das ideias.
Afinal, o Amor. A universal fraternidade. O céu infinito. O Amor... e a cruz. Jesus! Para tanto sofrimento que nos redima. Então e da meditação, do Buda, que nos livra? Do possível transcendental salto védico que nos livre daqui.  Do Deus no lugar do homem que, doravante, será parte de Deus. Da oração, do silêncio, do deserto. De Ti!
Cadê a deusa-mãe, cadê os celtas. Cadê celtas e iberos, endovélicos lusitanos.  Dos bárbaros godos e visigodos que depois voltaram. Os pagãos, as forças da natureza, as mágicas alianças. Avalon. Os druidas, as poções, dos milagres, da cura e a doença. A lógica analógica, a consciência cósmica. A totémica identidade. Todos indo-europeus, todos cristãos virados pelo avesso - católicos.
O crescente lunar e a arabesca astronomia. Das bússolas, do astrolábio. Do Maomé e do Alcorão. De Meca, de Medina e da mesquita. Das deusas encantadas, enamoradas. Dos cânticos de amor. Desgostos do Amor. Da xaria. Da expansão e da desejada reconstrução do "mare nostrum". De Poitiers e de Carlos Magno, Urbano VIII de joelhos, imperador da cristandade.
Da reconquista católica. Dos cruzados e das cruzadas. Raimundo e Henrique, Teresa e Urraca. Afonso de Castela. Do Condado Portucalense. Guimarães. São Mamede, 24 de junho de 1128. Um rei sonhado e a sonhar com cristo-rei. Vai e funda o meu reino, vai Henriques. E ele foi.
E lá foi fazer o que Ele quis. Vai Dinis. Vem Santa Isabel. Vinde Língua Portuguesa. Vinde todos os peregrinos, toda a ordem do templo, ordem de cristo. Venha o espírito santo. O pai, o filho e a Jerusalém Celeste. Vinde vendavais que rumorejam nos pinhais, venham todas as naus. Todas as ilhas dos amores.
Sonhei com um Encontro em Alcobaça.
Amigo Francisco, Aquele Abraço,
LC – Luis Carlos Santos
Alhos Vedros 31/3/2017

5ª Testemunha CC

Ilust.mo Senhor
J.R.C.C.C.,

Soube por um dos muitos que diariamente chegam a este páramo onde jornadeio há 126 anos, que um bisneto meu também de nome Francisco Gomes, não de Amorim e sim do Porto, se deu à extravagância de, ao jeito de Camões, fazer um concílio dos deuses da literatura em português.
Já não será um jovem, cuido eu, essa vergôntea; e digo cuido eu, porque com o tempo perdi a noção do tempo, preocupação que, aliás, seria uma desnecessária perda de tempo.
Cuido, no entanto, que esse meu bisneto não terá nada de peco; antes possuirá um espírito culto e dado a aventuras requisitando arrojo de alma e estrambótica fantasia. Não sei a quem ele possa sair assim ainda tão vivaço! A mim creio que não, pois fui o mais obscuro dos literatos e se me meti em altas cavalarias foi por força dos tufões da vida, logo à nascença.
Bem procurei, nas folhas noticiosas daqui, esta ou aquela local que me dessem conta de um tal Encontro de Escritores, em Alcobaça.
Não me espanto que a iniciativa não tivesse tido a publicação devida. E sabe V. Senhoria por quê?
A imprensa, nomeadamente a de Lisboa, é, raríssimas excepções, valhacouto de insignificantes, que exploram o ofício por todos os meios que lhe possam render dinheiro, influência ou qualquer outra coisa útil. Como todos os meios lhes servem, ninguém honesto os estima, não quer nada com eles, e afasta-se, deixando-lhes o campo livre.
A maioria compõe-se de asnos e maus; só eles são grandes e ilustres;  fazem-se mutuamente imortais; e os que vivem fora das suas cortes (?) podem ter talento, produzir bem e muito, que os jornais não se ocupam deles. A imprensa não serve, geralmente, senão para os pulhas se celebrarem e aplaudirem uns aos outros, explorando a patifaria e a decadência dos costumes, sem pudor e sem honra.
Seu ex corde,
Francisco Gomes de Amorim 
(desencarnado em 1891)
CC – José Rodrigo C. da Costa Carvalho


16/02/2017

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017


« Meus Bisavôs »

Como qualquer outro ser humano eu tive quatro bisavôs, homens.
O mais antigo nasceu em Massarelos, mãe portuguesa e pai francês, Porto, em 22/04/1824 (?) e “puxou o carro p’ró além” em Belém do Pará em 1918, a seguir um outro viu a luz em Averomar (lindo nome), mãe e pai portugueses, ele marinheiro que terá morrido no mar ao regressar de São Salvador da Bahia de Todos os Santos, Póvoa de Varzim em 13/8/1827 e deixou-nos em Lisboa em 1891, a seguir um terceiro nasceu em Lisboa a 16/12/1839, avó de origem checa e avô suiço-alemão, foi “repousar” em Londres em 1909, e o “caçula” que nasceu no Porto em 19/02/1856, mãe e pai bascos de Donostia-San Sebastian, foi o único a conhecer este bisneto pois só se desencarnou em 1934.
Vamos traduzir isto por miúdos:
- O primeiro casou com uma brasileira, em Belém do Pará, tiveram treze filhos, trinta e seis netos, e um monte de descendentes, uns 80% espalhados no Novo Mundo e os restantes na “terrinha”.
- O segundo casou em Vila Nova da Barquinha, ali, a pouco mais de cinco mil metros do Castelo de Almourol, e a sua descendência, à qual se juntou o sangue da Amazônia, está 95% em Portugal.
- O terceiro também veio casar no Brasil, em Pelotas; do primeiro casamento teve dois filhos, só o macho teve descendência, 90 % em Portugal, e do segundo casamento mais uma meia dúzia de filhos todos brasileiros.
- Finalmente o tal “caçula” casou em Lisboa com uma linda garota nascida em Pelotas no Rio Grande do Sul, Brasil. Sua descendência também está 90% em Portugal.

O paterno-materno em 1832 virou brasileiro e dos treze génitos só duas foram para Portugal, casadas. Longevo, teria uns 95 anos quando apagou. Comerciante importante, os filhos mais velhos, Luiz e Emília, foram os primeiros brasileiros a fazerem o Curso de Educação Física, num famoso colégio na Turíngia, Alemanha, Philantropinium (!). O Colégio ainda existe e parece ser ótimo.
O paterno-paterno desapareceu quarenta anos antes de eu ter nascido, mas muito se falava dele na família, tanto que a partir de certa altura as minhas tias diziam que eu deveria escrever a sua biografia, para o que eu estava, e continuo, totalmente despreparado.
Providencialmente um dia apareceu um senhor, de quem me tornei grande amigo, que decidiu fazer um trabalho de Mestrado, escrevendo o magnífico livro “Aprendiz de Selvagem – O Brasil na Vida e na Obra de Francisco Gomes de Amorim”, libertando-me do complexo familiar de ignorante por não ter sido capaz de escrever a biografia do vovô-bi. (A propósito, creio que este livro ainda deve existir à venda, talvez através da Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim (?!), e recomendo-o muitíssimo.)
O materno-paterno trabalhou muito no Brasil, brigou com sócios e com os governos, saiu do país “p... da vida” e foi acabar em Londres escrevendo para jornais com o pseudónimo “Gonçalo da Gama”. Diz ele que em 1907 já tinha escrito 107 “Cartas de Londres”! Infelizmente não consegui encontrar mais do que uma.
O “biso” materno-materno ainda me conheceu, visto ter falecido tinha eu pouco mais de dois anos. E ainda tenho uma carta dele, escrevendo a sua neta, minha mãe, “esperando que o Chico” estivesse muito bem. Estava! Melhor do que hoje.
Tirando o primeiro, Luiz, o mais velho dos quatro, aliás o que nasceu primeiro, os outros três foram um tanto dedicados às escritas.
Francisco foi do que viveu, das letras, como poeta, dramaturgo e escritor, e, para ganhar dinheiro com letras naquele tempo como nos tempos de hoje... é profissão mais difícil do que pegador de touros à unha.
Escreveu muito, o primeiro a escrever um romance em que o herói foi um índio do Brasil – Romualdo Guataçara - (a seguir a “O Guarani” de José de Alencar), cantou as belezas da Amazônia, e também quase o único que cantou a vila, hoje cidade, de Alenquer, no Pará. Foi nesta pequeníssima aldeia que despertou para as letras! Ainda adolescente sentia-se desterrado, um miserável, e regressou a Lisboa, onde foi acolhido por Almeida Garrett de quem acabou por ser, por este, encarregado para escrever as suas memórias, o que fez com tanto zêlo que até hoje, quem quiser falar do grande do grande poeta-político tem que se basear no seu trabalho.

João, engenheiro civil, especializado em hidráulica, fez muita obra no Brasil, desde Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, e ainda Piracicaba e Goiânia, além de outras, e acabou a escrever até sobre Camões.
Enganado e sentindo-se roubado pelo governo, que anulou unilateralmente contratos estabelecidos, desgostoso, foi embora do Brasil, reclamou, entrou na justiça, mas viu todos os seus esforços gorados. (Cheira-me a que há hoje muitos casos semelhantes!)

Por fim, António, engenheiro civil, político, crítico de arte e professor. Escreveu uma série de livros sobre músicos e outros artistas, e dele se contava uma história curiosa. Quando Richard Strauss esteve em Portugal foi este bisavô que o acompanhou. Um dia foram visitar Sintra. O compositor, cabeça a descoberto, admirava a paisagem. Notou o cicerone:
- Tem graça, você tem uma cabeça como Beethoven!
- Mas só por fora! Disse o músico, modestamente, talvez à espera de um cumprimento.
- Evidente.
- !!!
Muito do que escreveu fazia-o à noite, em pé, chegando a varar a noite. Para isso tinha uma grande robustez física e forte determinação.

Se me fosse dado escolher o meu DNA entre estes quatro antepassados, que das antepassadas pouco a memória registrou, talvez fizesse a seguinte escolha:
- para grana e longevidade, o bi Luiz;
- inspiração e boa disposição para a escrita, o Francisco;
- do João, queda para a hidráulica para regar milhões de quilômetros quadrados onde reina a seca;
- finalmente do António a sua determinação, sensibilidade para a música e artes e para a educação professional.

Teria sido um “cara bem legal”!
Resumo:
E por fim, este, quase com 50% de vida nestas terras brasiliensis, tem:
- 4 bisavôs homens nascidos em Portugal de origens diversificadas;
- 3 bisavós brasileiras, uma de Rio Grande, outra de Pelotas e mais uma de Belém do Pará;
- 1 avó de Belém do Pará;
- 1 avô de Pelotas.
*          *          *
O mais curioso é que acabo de ser apresentado ao nosso antepassado mais antigo. Nunca imaginei, mas ele foi encontrado na China! Era o que me faltava.
Um Destestômio, chamado Saccorhytus Coronarius. Quando vi a foto dele não tive dúvidas que era meu antepassado. Um nobre! Testa alta, sinal de inteligência, boca grande, habituado a discursar e dar ordens, e basta ver aquela tiara de pequenos cones canelados! Linda.

Não tem certidão de nascimento mas dizem, dizem, que terá vivido há cerca de 530 milhões de anos.
Se fosse no tempo da Inquisição, da PIDE ou do DOPS (ou do trump!), o vovô Saccorhytus, seria levado para interrogatório e contava logo tudo: data de nascimento, número de contribuinte fiscal, e até a que partido político pertencia.
A dificuldade é que parece que era muito baixinho: tinha só um milímetro de comprimento.
De qualquer maneira já o inscrevi na minha árvore ginecológica, tanto mais que o sobrenome de Coronarius vem a propósito da minha, única, que me sobra.
Mas digam lá: ele não é parecido comigo?
Uma gracinha!


29/01/2017

domingo, 12 de fevereiro de 2017


Um pouco de História
A Dinastia de AVIS
 contada à moda ‘‘da casa’’

El-Rei D. João I, de Portugal, até hoje ninguém sabe com segurança se era ou não bastardo, apesar de ter nascido quando a primeira mulher do papai dele, o famoso e Cruel Dom Pedro, já tinha morrido, bem como a linda Inês. A verdade é que o tal Pedro não casou com a dona Teresa Lourenço.
Mestre de Avis, já no tempo do irmãozinho Fernando, que foi rei e aprisionado de amores ilícitos por uma mulher fatal, a famosa e famigerada Leonor Teles, Joãozinho, com dezenove aninhos já se tinha aconchegado diversas vezes na confortável cama de Inês Pires, que dizem as más línguas seria filha de um sapateiro judeu de Castela, mas devia ser boa com’ó milho.
Dos vários filhos que teve com esta Inês, antes da Filipa de Lancaster o ter amarrado curto, ao primeiro, Joãozinho, quando rei, deu-lhe o título de Duque de Bragança, do que, se tivesse vivido até aos noventa e dois anos, quando o neto Afonso, rei, se lembrou de matar o melhor homem daquela geração de Avis, o brilhante Dom Pedro, Duque de Bragança, se teria amargamente arrependido.
Tudo por inveja do abastardado Bragança! Bastardo pode ser ótimo, mas invejoso é... f...ogo!
O filho mais velho do rei, Duarte, era ótima pessoa, um poeta sonhador, mas como rei... não valeu nada, e como morreu cedo deixou o abacaxi ao Afonso que acabou por matar o tio que tanto o tinha ajudado!
Entretanto os Bragança cresciam em poder, finança e influência.
Chegou João II, a quem, por saber bem manejar a adaga chamaram o Príncipe Perfeito. O Bragança, Fernando II, estava a querer sair demasiado da casca e o Joãozinho mandou abriu-lhe as tripas. Menos um primo, logo seguido por outro primo e cunhado, Diogo, Duque de Viseu a quem Joãozinho se encarregou de desencarnar.
O único filho deste Joãozinho, Afonso, casara, em criança, com a filha dos Reis Católicos e arriscava-se a ser rei de Portugal e de toda a Espanha, o que não agradava nada à corte castelhana. Assim, o jovem príncipe morre misteriosamente numa queda de cavalo e pouco de pois, misteriosissimamente, seu pai, segundo o Wikileaks, envenenado com um copo de água, porque o cara era macho e a nobreza portuguesa estava sempre aflita a ver quem era o próximo a ser esfaqueado.
Herdou o venturoso Manuel, irmão do desencarnado Diogo, e tratou logo de abichar a viuvinha do Afonso, Isabel de Trastâmara, com olho na Ibéria. Mas a Isabelinha, ao fim de seis meses de casada pariu e... foi-se, ela e o filho a quem entretanto chamaram Miguel.
O venturoso Manel procurou logo outra e como ainda havia available uma irmã de Isabel, Maria de Aragão e Castela ou Maria de Trastâmara y Trastâmara (seria gaga?) mandou-a ir, e ela, para mostrar à irmã defunta como é que se trabalhava, presenteando o marido e o país com dez filhos! Trabalharam bem!
Esta como a irmã, filhas dos católicos reis fizeram uma danada duma força para que o esposo Manel expulsasse os judeus de Portugal. Elas não queriam ir para um país com essa judiaria! Era gente de “sangue sujo”!
Em Castela reinava, e aterrorizava, não os reis, mas um dos maiores facínoras da história, um tal de Tomás de Torquemada, descendente de judeus, que veio a ser "O martelo dos hereges, a luz de Espanha, o salvador do seu país, a honra do seu fim", conhecido por sua campanha contra os judeus e muçulmanos convertidos da Espanha. O número de autos-de-fé durante o seu mandato como inquisidor é aceito como tendo alcançado 2 200. Uma espécie de ISIS do século XVI !
Como as princesas foram criadas naquela aversão aos judeus, Manelzinho que dependia da grana deles para continuar a ser o rico rei do país admirado, admiradíssimo e invejado, pelas descobertas e negócios com as índias, para agradar às mininas de Trastâmara, mandou reunir, em Lisboa, no Terreiro do Paço os judeus todos, chamou o bispo, mandou que benzesse logo aquela gente toda com água benta e... pronto. Acabara com os judeus, e as princesas já podiam ir para Portugal. O sangue estava limpinho! Hemodiálise automática, teológica e filosófica. Só que os judeus continuaram a judiar finginho que estavam muito cristãos.
Esperto o Manel, hein?
Tudo parecia correr nos conformes para o Manel: descobriu-se o caminho marítimo para a Índia, o Brasil, fez umas conquistas no Marrocos e para as duas filhas arranjou belas alianças, uma casou com Carlos V da Alemanha e outra com Carlos III de Sabóia, além de ter nomeado (ele, sim) dois filhos cardeais, etc.
Consagrou-se esbanjador de dinheiro, como com a aparatosa embaixada em 1514 enviada ao papa Leão X levando presentes magníficos como tecidos, jóias e animais raros, entre eles um cavalo persa, um elefante branco, chamado Hanno em homenagem ao grande general Haníbal, que executava várias habilidades, e passou a ser a mascote do papa.



O pobre elefante só durou sete anos em Roma. Morreu de angina. Deve ter apanhado um frio “do cão” e... o papa ficou muito triste, e até lhe escreveu um longo epitáfio!
Mas a novidade que mais encantou os espíritos curiosos das cortes europeias da época terá sido sem dúvida o rinoceronte trazido das Índias, jamais visto, que assumiu, então, um papel preponderante na arte italiana, ficando célebre o desenho de Dürer



Depois de tanta gastança e de tanta exibição de riqueza, tanta estupidez, onde sobressai em primeiro lugar a perseguição aos judeus e aos cristãos novos, que eram judeus a fingir de cristãos, as finanças de Portugal começaram a abrir brechas.
Sá de Miranda já o previa:
Não me temo de Castela
Onde guerra inda não sôa,
Mas temo-me de Lisboa
Que ao cheiro da canela
O reino se despovoa
.....
Ouves, Viriato, o estrago
Que cá vae nos teus costumes?
Os leitos, mesas e lumes
Tudo cheira; eu óleos trgo,
Vem outros trazem perfumes
.....
D’estes mimos indianos
Hei grão medo a Portugal,
Que lhe hão fazer os danos
Que Capua fez a Anibal?

E Camões também duvidava de “tanta maravilha”:

Que que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que morte lhes destinas
Debaixo de algum nome preeminente?
Que promessas de reinos e de minas
D’ouro que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitorias?
.....
Por quem se despovoa o reino antigo
S’enfraqueça, e se vá deitando ao longe.

O sonho das Índias, do Pau-Brasil, das Molucas, aliás Malucas, começou a ter maiores gastos do que lucros à chegada a Lisboa, que havia sido o mais rico porto da Europa. E vá de ir buscar dinheiro a juros, no norte da Europa, a maioria na mão... dos judeus, muitos deles fugidos de Portugal.
Prestamistas que aproveitaram para carregar nos juros, o que qualquer um de nós faria, não só por ser negócio, como por uma merecida vingancinha!
Chega o João III a quem chamaram o Piedoso, mas foi mesmo um azarento. A mulher Catarina da Áustria, uma grande dama, deu-lhe dez filhos, mas todos bateram a bota, ou à nascença ou crianças. Só um conseguiu engravidar a mulher, Joana da Áustria, quando já casado, com 15 anos, mas morreu antes da criança nascer.
O Piedoso, no meio de tanto azar, perdeu as Malucas para Castela, teve a famigerada peste que assolou a Europa e matou centenas de milhares de pessoas e animais, grandes secas e até o primeiro grande terremoto em Lisboa em 1531.
Criou as Capitanias Hereditárias no Brasil que não foram a lugar algum, e o pior, foi oficializar a Inquisição de quem acabou subordinado, e em 1544 teve, mais uma vez que estender a mão, pedinte, aos negociantes das Flandres, obtendo um empréstimo de 778.400$000. Só as armadas para as colónias, entre 1524 e 1544 haviam custado 684.000$00.
Fecha os olhos e deixa o trono para seu neto com três anos de idade. Educado por uma tia e um tio cardeal... o jovem Sebastião, o “Desejado” foi no papo dum despótico sultão de Marrocos, que já matara um irmão para ficar com o trono, e ameaçado por um tio, refugiara-se em Fez. Em 1578, na sequência do pedido de auxílio que Mulei Mohammed lhe lançou, o Desejado, levando consigo a elite da nobreza de Portugal, decide ir dar uma ajudinha. Em Alcácer-Quibir, Mulei Mohamad e o tio, assim como o rei de Portugal morreram, o que originou o nome de "A batalha dos três reis".
Acabou a dinastia de Avis e Portugal ficou à deriva!
Um tio do Desejado, Henriquinho, o cardeal, com 66 anos, pensou: “Vou-me descardealizar, caso com uma gatinha e darei um herdeiro ao trono”.  E mandou pedir ao Papa, que lhe respondeu que tivesse huízo, até porque ainda não havia Viagra à venda. Triste (?) morre em 1580.
Se o país estava à deriva, sem rei, nem elites, nem nobreza, derivou completamente, abrindo a porta para entrar outro neto do venturoso, o castelhano Filipe.
Acabou a dinastia que começara por Ínclita, e Portugal nunca mais foi o mesmo.
RIP à turma toda.


05/02/2017

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017


Uma pequena (e pobre) incursão na poesia!


Choro África

Lembro a mulher
Dobrada,
Com enxada,
Cavando na estrada
Cigarro aceso na boca,
O filho pequeno nas costas,
A mama esticada p’ra trás
Com o pouco leite p’ra lhe dar.

Ind’ouço o canto dolente
Do quissange.
E vejo a savana quieta,
O kota encolhido, sereno e belo
Nas rugas da sua velhice,
O fresco sereno do cacimbo,
 As crianças a brincar
E os homens a suar.

Tudo isto de saudade
De meio século passado.

África eu choro agora
Porque está tristonha e pobre,
Esventrada,
Espoliada,
Com políticos milionários
Que não param de roubar,
Mercenários indiferentes
E o povo por alimentar.

Choro a África bonita
Na alma das suas gentes,
Humildes, trabalhadoras,
Sempre à espera dum Messias
Que os encha de alegrias,
Do direito de viver
Com saúde, felicidade,
E uma bonita amizade

Lutem; por pronta mudança.
E não esqueçam que há sempre,
Por fim,
Um amanhã cheio de Esperança.


04/02/2017

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Don Victoriano Arizti
“El Trotamundo Vasco”

Há oito anos fechava os olhos uma das pessoas que a Boa Estrela que vela por nós, havia posto no nosso caminho, lá atrás, em 1963. Foi uma perda até hoje sempre sentida, e sobre esse Grande Amigo escrevi o que pode ser visto neste link de um blog onde deixei de escrever
Há dias lembrando o Amigo, fui pesquisar se a Internet dizia algo mais sobre ele. E lá estava.
Don Vitoriano fora o grande “apóstolo” que levara os Cursillos de Cristandade para a Nicarágua. Com a sua força espiritual, a sua alegria contagiosa, lá deixou inúmeros amigos e bons cristãos.
Em 1977, saiu da Nicarágua para Espanha, com a sua banda, “Los Palacagüina”, para um série de apresentações pela Europa, o hoje famoso músico, cantor e político, Carlos Mejia Godoy, que teve uma importantíssima ajuda do padre basco, Don Vitoriano. Foi este quem, com a sua garra, conseguiu que o artista assinasse um contrato com a CBS que lhe deu um enorme impulso na carreira.
Mas o melhor é ouvirmos o que Carlos Mejia Godoy nos conta, em castelhano, sobre este grande “Andarilho Basco”!

Aquella mañana soleada de Abril de 1977, íbamos, los Palacagüina, mi esposa Evelyne y yo, como en una lata de sardinas, a bordo del Seat que conducía el sacerdote Victoriano Arizti. El cura vasco había bajado de Vitoria a Madrid, para celebrar con nosotros el contrato con la CBS, para el lanzamiento de nuestro primer disco internacional.
-Veis aquellos picos nevados?- preguntó Victoriano señalando las montañas del norte madrileño. –Hacia allá nos dirigimos, para que estos indios nicaragüenses conozcan la nieve-. El cura enrumbó su carrito hacia Navacerrada. Pero al pasar por Plaza España, nos relato una anécdota, que yo jamás olvidaré.
-Este es el monumento a Cervantes. Ahí está el escritor sentado. Tras él, cada uno en su cabalgadura, los dos personajes de su famosa novela: Don Quijote y Sancho.
Pues bien –prosiguió Arizti- aquí me detuve hace algunos años y, con una bolsa plástica y una cuchara, recogí unos gramos de tierra, para llevarlos a una mujer española, que desde hace cuarenta años vive en ese país africano. Esa anciana madrileña, posiblemente jamás regresará a su país y me pidió que le llevara esa “tierrita”, para que se la pongan junto a su féretro el día que muera…
Todos quedamos impactados por aquella historia estremecedora. Pero, a partir de ese momento, cierto cantor somoteño, no tuvo sosiego. Hurgué en mis bolsillos un trozo de papel y empecé a aliñar el primer verso de una nueva canción:
Yo soy Victoriano, trotamundo vasco
Llegué a Mozambique buscando una flor….

En Navacerrada, mientras los Palacagüina, añoraban una botella de sirope de tamarindo para prepararse un mega-raspado, yo me retiré a seguir escribiendo, lo que en un inicio me parecía un tango y, al final, resultó un valsesito de pura cavanga.
Aquella noche, después de la cena, diseñamos la sorpresa. Mi esposa Evelyne preparó las condiciones idóneas. Invitamos a Victoriano a tomar un coñac en nuestra habitación y sin mayores preámbulos me puse el acordeón y le dije al cura. Te suena esto, hermano? El padre Arizti tenía los ojos húmedos, al escuchar su historia convertida en canción. Así nació este homenaje a un hombre extraordinario, que –desde la más lejana galaxia- sigue amando a Nicaragua.

Esta é a letra da bela canção, que foi logo um grande sucesso na Nicarágua, e se pode ouvir no Youtube:

La viejita de Mozambique

Yo soy Victoriano,  trotamundo vasco,
llegué a Mozambique buscando una flor,
al caer la tarde detuve el camino,
con chapela vasca y con mi acordeón.

En la misma puerta  de aquella hostería
una viejecita  me identificó:
“¡los siete puñales de Santa María!
¡Usted es de España, lo mismo que yo!

En tus ojos claros de almendro florido
veo la Cibeles, manantial de amor,
y en tu risa alegre, loca algarabía,
la gente que corre en la plaza mayor”.

Y yo, Victoriano, trotamundo vasco,
sorbía una copa de añejo jerez,
un llanto cuajado de melancolía
surcó la mejilla de aquella mujer.

“Cuéntame de España, ‘mutil’ aguerrido,
¿qué es de tu Bilbao? ¿qué es de mi Madrid?
Yo vine a esta tierra hace ya tantos años,
me empujó a esta suerte la guerra civil.

Dime si aún alumbran los viejos faroles
en la Cava Baja del Madrid de ayer,
¿todavía fluyen las aguas humildes
en el Manzanares que me vio nacer?

Si algún día vuelves por esos caminos,
un favor del alma te quiero pedir:
tráeme un puñado de esa santa tierra,
que quiero besarla para bien morir”.

- Quiero decirles, amigos míos,
que al volver a la patria tomé
un puñado de tierra española
para llevarlo a la viejecita de Mozambique.

Yo soy Victoriano, trotamundo vasco,
volví a Mozambique buscando una flor,
al caer la tarde detuve el camino,
con chapela vasca y con mi acordeón.

Lo que contemplaron mis ojos absortos
no cabe en los versos, ni en una canción:
yacía postrada, gravemente enferma,
la viejita al punto me reconoció.

Sin decirme entonces ni media palabra,
bajo la luz tenue de un viejo quinqué,
tomó aquel puñado de tierra española
que mientras besaba musitó a la vez:

“Gracias, joven vasco, que Dios te bendiga,
ahora me muero dichosa y en paz,
porque he comulgado con la tierra mía,

- Quiero decirles amigos míos,
que yo me alejé llorando con mi chapela
vasca y mi acordeón peregrino,
y un solo pensamiento taladró mis sentidos:
que tan importante es aquel que muere
con un fusil en la mano defendiendo
la libertad de su tierra,
como el que muere en el exilio,
soñando volver a ella-.

Pouco depois da Revolução Sandinista ter saído vitoriosa, Don Vitoriano voltou à Nicarágua. Ouçamos a continuação do “Trotamundo”:

En los primeros días del triunfo de la revolución nicaragüense llegó a nuestro país el sacerdote Arizti. Cuando iba por la Carretera Sur, un retén del recién creado Ejército Popular Sandinista detuvo el vehículo y pidieron identificaciones a los ocupantes. El empresario Carlos Mántica (quem recebia Don Vitoriano em casa) se presentó y enseñó sus documentos, y cuando los soldados preguntaron por la identidad del religioso, les dijo: “Yo soy Victoriano…”.
Uno de los soldados le dijo: “¡Como el de la canción!”, a lo que de inmediato, Arizti le aclaró: “¡Yo soy el de la canción!” El sacerdote sacó el pasaporte, y de inmediato, enterado el oficial de la garita, llamó al resto de los hasta hacía poco guerrilleros, los puso en fila y ordenó: “Vamos a hacer unos disparos, en honor a Victoriano, el trotamundo vasco”.
En la noche, en un pasaje inolvidable de su vida que siempre recordaría el noble vasco, por primera vez, un sacerdote recibía la insólita parada militar de un Ejército naciente. ¿Dónde podía ser aquello? ¿En España? ¿En Mozambique? No, sólo en el sueño de lo que una vez quiso ser Nicaragua… 

Obrigado Carlos Mejia por nos recordar de forma tão bela, este grande Homem e grande Amigo.
Gracias.

07/02/2017