sexta-feira, 17 de agosto de 2018



Eleições e armalhões

(A turma do pega fácil)

Todos os segredos da política consistem em mentir a propósito.
Madame de Pompadour
Será a política coisa diversa da arte de mentir a propósito?
Volaire
Na política ninguém se limpa daquilo que envilece.
Napoleão

Alguém acredita que qualquer um dos 15 famintos candidatos à presidência do Brasil está lá para trabalhar pelo povo, pela elevação do nível de vida das gentes, pela moralização dos costumes?
Haverá alguém tão ingênuo que acredite nisso?
Para se ter uma ideia, comecemos um pouco abaixo, bastando para isso citar alguns nomes de candidatos a deputedos, para que o “panorama” da desgraça se mostre mais evidente. O candidato pode se chamar Zé Mané, mas escolhe um nome de guerra pelo qual se candidata. Não é piada. Vejamos alguns artistas: Graça Figuraça, Índio Muay Thai, Kaká Vem Aí, Lex Bom, O Cara de Óculos, Zé da Vergonha, Cheiro Verde, Orelha de Porco, Spiff, Velho do Rio, Zé Bonitinho, e o campeão Alceu Dispor.
E vão ter quem vote neles por acharem graça. Aqui não se vota com a consciência do dever cívico, vota-se por achar graça, como há uns anos o terceiro mais votado para o governo do Rio foi um velho chimpanzé do zoológico. E há pior: em muitas zonas dominadas pelo tráfico ou pelos milicianos (outro tipo de máfia) o povo está avisado que quem não votar no candidato deles vai sofrer consequências, a maioria das vezes uma bala.
O que mais admira, para quem procura analisar com frieza a situação eleitoreira, é a voracidade com que os órgãos de informação – Globo, Veja, Época e outros – ocupam as suas páginas com fotos em grande formato do ex lula e seus asseclas. E parece que no Brasil não há outros ex presidentes! Ainda estão vivos, mesmo que não valendo nada (ética e moralmente) sarney e collor, que não “merecem” o destaque de serem tratados como ex-presidentes. Só o sapo barbudo não é tratado como um indivíduo, mas como ex-presidente... quando deveria ser, não como ex, mas como atual presid...iário!
Mas todos eles se atiram, furiosamente a um único candidato, aquele que tem o “desplante” de pôr nomes aos bois, como por exemplo acabar com a proibição da venda de armas. “Aqui d’El Rey! que o cara quer aumentar os morticínios!”  Pois é, mas os assassinatos têm crescido de forma inacreditável, e só em 2017 foram apreendidas 120.000 armas de fogo... nenhuma com registro no Brasil. Isto é os bandidos recebem, a toda a hora armamento, e algum pesado, contrabandeado, e eu, por exemplo, não posso, a não ser com um monte de burocracia, comprar sequer uma pressão de ar! E olha que quando fiz o serviço militar fui classificado como atirador especial!!! (A minha glória militar.)
Uma Beretta 9 mm com dois ou três carregadores de quatorze balas cada... daria jeito para levar no carro! Para ter em casa... nada, que o assaltante não espera que eu vá pegar o trabuco! Fico-me com uma frigideira pesada, à mão, na cozinha!!!
Mas porque todos se atiram tão ferozmente a um único candidato, e os jornais catam dele uma palavra aqui e outra além, nos seus pronunciamentos, e montam frases deturpadas? Têm medo do que? Que lhes acabe a mamata? Para parecerem, não socialistas, mas “politicamente corretos”? Para enganarem a opinião pública. Até criticaram por terem encontrado no seu plano de governo uma meia dúzia de pontos de exclamação!
Como tem covarde.
A bem da verdade nem um só presta. Mas há que escolher um.
Lembro de 1958, quando o governo de Salazar se lembrou de inventar eleições “livres” para a presidência da república. Já se sabia que iria ser uma farsa, mas houve um general que topou o desafio, e candidatou-se. General de prestígio, mas nervosinho, esqueceu-se que o velho ditador, calmo e seguro haveria de o fazer derrapar.
Eu estava em Luanda e ouvia pela rádio os discursos, sobretudo do governo, e um dia um salazarista doente bramou aos microfones da Emissora Nacional a seguinte e atrozmente infeliz frase:
- Nós não saímos daqui nem a votos, nem a tiros!
Eu estava indiferente ao desenrolar da farsa, mas, ao ouvir isto, dei um pulo na cadeira e senti-me esbofeteado. A partir desse momento conclui que era preciso mudar. Mudar de qualquer jeito, mas mudar. Comecei a fazer a apologia do general, e coloquei no vidro traseiro do meu carro, letra grande: VOTE NO HUMBERTO DELGADO!
Resultado: o meu nome foi cortado das listas de eleitores!
O que se passa hoje por aqui é a mesma coisa: Há que mudar, RADICALMENTE.
O governador de São Paulo, que sempre viveu da política, está enterrado até à careca, com coligações para poderem dividir o bolo, outro que por lá anda há uns quarenta anos, foi governador do Ceará, deputado, ministro, secretário de saúde, e já fez acordos com não se sabe bem quantos, um dia mais à direita, no outro mais do outro lado conforme a música. E escolheu para vice a dona dos fazendeiros e ganadeiros, que são mais à direita do que foi o general Costa e Silva, porque vivem do crédito do governo. Depois tem uma candidata, teoricamente do centro, que não merece crédito, porque até hoje não conseguiu apresentar qualquer programa, e não quer escorregar para a esquerda nem para a direita. Limita-se a dar umas opiniões como “sim, pois, ó quem dera” e por aí se fica.
Na extrema esquerda está um filhinho de papai e mamãe (médicos e professores universitários) que se lembrou de ser comunista, licenciado, com doutorado, que afirma que os seus únicos bens se resumem a um carro usado, chefe do movimento dos Sem Teto (o coitado deve dormir no carro) que grita, berra, insulta, mas não passa disso, e dos outros pouco há a comentar.
Sobra o visado por todos. O capitão, deputado, que até hoje ninguém foi ainda capaz de apontar falcatruas, mas que o condenam por ter dois filhos na política e cinco apartamentos, que escolheu para vice um general de 4 estrêlas durão, porque não é de bom tom escolher militares que estão loucos para acabar com a baderna que se vive neste país.
Tem também um bombeiro, evangélico, que sobe ao Monte das Oliveiras nas vésperas dos debates na tv, para rezar agarrado a uma bíblia, enquanto alguns seguidores vão atrás de violão e samba!
Nem um único destes todos candidatos levaria um voto meu. Mas há que votar em alguém, e o voto em branco é a arma mais perigosa que se pode deixar nas mãos dos pts e comunistas, porque estes não perdem a ocasião para entrar no esquema.
Mas enquanto houver candidatos chamados Alceu Dispor, Cheiro Verde e outras demências, que refletem o nível de cultura a que o Brasil está entregue, o jogo é uma loteria.
Não custa nada afirmar que eu apostaria no capitão.
Perigo de ditadura, não parece mais possível, a não ser nos EUA e na Coreia do Norte, Cambodja e similares.
Ele oferece uma esperança de combate, sério, ao descalabro de 60.000 assassinatos por ano e ao domínio das gangues em muitas das principais cidades, é verdade.
Terá que dar uma atenção SUPER especial com a educação e cultura, apesar de saber-se que o próximo eleito vai receber o governo de caixa vazia, e dívidas altíssimas. E ao desemprego, grande parte dele causado não só pela economia devastada, mas pelo medo que impede que muita gente saia de casa.
Infelizmente não acredito que, eu, possa esperar mais meio século para começar a ver o futuro tão badalado!
Entretanto os candidatos todos tiram lindas fotos a sorrir, enquanto nós continuamos a chorar pela infâmia que nos atinge diariamente.
“Maledetti voi que nos achincalham, nos roubam o bem estar de hoje e o futuro dos jovens, que nos esmagam e maledetti noi porque continuamos a permitir que nos ponham os pés em cima.”

E pronto. Não vou mais envolver-me no lixo!

16-ago-18

segunda-feira, 13 de agosto de 2018



Eleições e aflições

(Porque não saímos da... lama)

Daqui a pouco o Brasil vai ter eleições. E ninguém sabe em quem votar. É tudo farinha, podre, do mesmo saco.
Teoricamente será um país democrático. Mentira. É um país abandonado, acomodado, ignorante, ganancioso e retalhado entre a corja que, por leis execráveis – feitas pelos legisladores em proveito próprio – não larga o tacho.
E o povo? Ignorante.
Em 1950 o Brasil era um país admirado, uma das grandes potências mundiais, tinha até uma figura conhecida internacionalmente, o Zé Carioca, enquanto a Coreia do Sul era um paíseco, lá das bandas do Oriente, que não valia nada!
Só que por aqui se esqueceram, ou simplesmente desconheciam o velho provérbio chinês, que diz: Se os teus planos forem a 100 anos, educa o povo.”
A Coreia, não esqueceu e desde o início obrigou a que todas, todas, as crianças fossem para a escola, criando sanções para eventuais progenitores que não cumprissem a lei.
Hoje a Correia continua a ter 100% das crianças e adolescentes nas escolas (com aproveitamento) e destes, 80% entram no ensino superior.
O Brasil tem, teoricamente, 60% das crianças na escola, destas mais de um terço não completa nem o ensino básico, e o ingresso nas faculdades se dá sobretudo nos filhos de famílias mais abastadas, com algumas e muito honrosas exceções. Além disso 50% não completa o curso superior.
A iletralidade ainda é impressionante, e eu sei por experiência própria porque já estive a dar aulas a adultos que não conheciam nem um “A”.
As Feiras de livros multiplicam-se por todo o país, iniciativas mais do que louváveis, mas quando se tem um ensino primário com professores abaixo de primários, é difícil sair desta vergonha cultural.
Apesar de ser elevada a quantidade de livros publicados anualmente, os números mostram que mais de 30% nunca leram um livro, 40% nunca compraram um livro.
O Brasil tem uns poucos heróis, e os coitados, todos falseados: Tiradentes, que foi esquartejado por ser o único “descartável” na pseudo Inconfidência Mineira, Zumbi, que ninguém sabe quem foi, se morreu de morte morrida ou morta matada – há, pelo menos, 3 ou 4 versões para a sua morte – São Jorge no seu cavalo e com a sua lança, donde se esperam quase tantos milagres como de Santo António, e a seguir surgem os heróis dos iletrados: Pelé, Senna, o Neymar que chegou a ser uma espécie de Dom Sebastião que viria restaurar todas as vitórias das Copas, mas só até fazer aquelas figuras de imbecil a rolar pelo chão, e mais uns quantos futebolistas, porque a grande maioria da população continua sem saber que, por exemplo, só na vela, temos vários campeões e campeãs mundiais e olímpicos.
Porque? Acesso à cultura.
Além disso, com o abandono administrativo a que o país está entregue, tem-se assistido a um contínuo fechar de empresas; há ruas no centro do Rio, há pouco cheio de lojas e gente por lá andando, que hoje estão desertas.
Abandono político que permitiu, e continua a permitir que o tráfico tenha tomado conta do país.
Há dias um bandido foi morto lá no norte. De dentro de uma prisão veio a ordem: “Façam o maior estrago possível, deixem a população com medo.” Aterrorizaram várias cidades, e só em Fortaleza incendiaram 14 ônibus.
Em 15 anos os números oficiais contam 786.000 assassinatos.
No Rio há um assalto dentro dos ônibus a cada 1 hora e 10 minutos.
Em Brasília o des-governo gastou R$4.800.000.000 (4,8 bi) em assistência TI, tecnologia de informática. 62,5% desse valor foi pago sem concorrência e alguns felizes contemplados nem sequer têm existência física:, nem escritório, nem loja, nem...
As mortes nos presídios aumentaram 923% enquanto a população carcerária só aumentou 466%.
Contar mais? Para quê?
Aproximam-se as eleições, e concorrem 15 candidatos! Alguns, por enquanto, têm uns míseros 0,2% das intenções de voto. Lá no fundo do poço surge um é grosseiro, desconhecido que diz algumas(só algumas) verdades, que ninguém conhece nem ouve, e não tem a mínima hipótese de se eleger.
Os restantes, ou são a continuação da mesmice, ou pior, como no caso do pt que se aliou ao pcdoB, e que promete continuar a lulificar e rebentar a economia.
Já apareceu até um slogan; “De novo, para roubar o povo?”
O ex governador de São Paulo proclama que quem roubou o povo é ladrão, mas está, descaradamente a apoiar outro ex presidente teddy boy, chamado Collor, que quer voltar a governar Alagoas, de onde saiu, e tem vários processos nos tribunais por, pelo menos, apropriação indébita da res publica!
A direita faz acordos com a esquerda e vice versa, e até com o “centrão” onde se alojou uma boa parte dos deputedos ineptos e inguinorantis, e assim vai seguir a luta pelo pódio, vulgo pedestal!
Com a minha provecta idade, e com tudo a quanto já assisti neste país, e um pouco por todo o mundo e até na Moita... não antevejo nada de bom para o próximo capítulo deste caminhar insano.
Ainda agora, com o país em pré falência os digníssimos, ilustríssimos e excelentíssimos juízes do supremo decidiram aumentar os seus salários, 16,3%, passando a receber R$ 39.200 por mês fora as mordomias que lhes multiplicam esses ignóbeis vencimentos por até três vezes mais. Dizem os pobrecitos que o salário deles estava desfasado em 40%. Os supremistas podem mentir à vontade porque não há outra instância acima deles!
Com o país quase falido isto equivale a uma despesa anual de mais R$ 4.000.000.000 !!! País rico.
O Brasil precisa de uma GRANDE volta, e para isso é necessário que surja alguém, mesmo louco, que se atreva a bulir com o status quo do marasmo corrupto em que vivemos.
Por enquanto há um único, que por ser da “direita” está a ser atacado por toda mídia ISENTA, que prefere, como o GLOBO, estampar todos os dias, mesmo que seja para mostrar os erros, as fotos em grande plano do sapo barbudo e seus compinchas. Fotos de meia página na primeira página do candidato lulófilo, e do concorrente da direita uma pequena notícia, com citações deturpadas ou mal interpretadas, na página “x” onde já ninguém lê.
Não há muito tempo o dono do jornal “O Globo” desculpou-se, por escrito, que tinha apoiado o regime militar. Depois apoiou o sapo barbudo, e por fim apoiou o impeachment da delinquente verbal. Fora do páreo é que ninguém quer ficar.
Até o ex presidente do Pão de Açúcar contribuiu com uns milhões de reais para a eleição da delinquenta e, de presente, foi até convidado para ministro da economia! Não aceitou, mas deu bem o recado: “Se não está dentro... está fora!”
É assim a ética – ou a titica? – que preside neste país?
Agora mudou o presidente do supremo tribunal federal: saiu de advogado do pt e foi direto para a alta corte. Não tem mestrado nem doutorado, mas é amigo da turma... canhestra.
Com este panorama o Brasil quase se pode considerar um NARCO-ESTADO, o que significa que quem for eleito, ou é muito macho, ou as perspectivas são de continuísmo para pior.
No próximo texto vou fazer um voo sobre os diversos candidatos, mas, pelo que se vai vendo, sem grandes esperanças de melhora.
Até lá.

11 ago. 18


segunda-feira, 6 de agosto de 2018


 

AMIGOS – 9

(Por enquanto, o último. Mais tarde... quem sabe?)

É muito bom falar dos amigos e deixar uma pequena recordação das nossas vivências. Mas por agora vou interromper este tema, e, quase de certeza ainda voltarei a ele. Tem tantos ainda...
Uma benção, ter tido, e continuar a ter tantos amigos.
Vou começar pelos que conheci primeiro em Angola, e terminar com outro cuja amizade nasceu no exílio do Brasil.

1954/55. Vivia em Benguela e trabalhava com máquinas agrícolas.
Tirado deste blog, escrito em 2009: Algum tempo depois a visita foi a Chimbe, a sul de Catabola, que se chegou a chamar Nova Sintra, mesmo que raramente alguém usasse este nome! Um comerciante da “cidade” tinha comprado em leilão uma antiga fazenda de ingleses, abandonada, e queria cuidar dos terrenos e da casa. Uma noite passada no velho casarão, janelas sem vidros, e perto duma baixada alagada, foi o maior suplício que me lembro de ter passado: o mosquiteiro deixou uma pequena entrada aos pés da cama e o ataque das feras durante a noite, e sobretudo de madrugada, foi infernal. Por dentro, o mosquiteiro supostamente branco, estava preto, tanta era a bicharada!
Regresso a Benguela no magnífico combóio do CFB, Caminho de Ferro de Benguela. Carruagem cama, porque iria levar mais de 24 horas até ao destino. Dois leitos, um dos quais estava já ocupado por um inspetor de fazenda. Feitas as apresentações, logo de entrada o tal inspetor mostrou-se um ótimo companheiro, descontraído, divertido, contou um monte de piadas, e fez com que a viagem fosse muito agradável. Natural de São Tomé, gordinho, cor carregada, mas um parceiro inesquecível, e com quem muito aprendi sobre Angola, o “meu” novo país, visto que por lá andava há cerca só de seis meses.
Passados uns anos voltámo-nos a encontrar, dessa vez ambos a viver em Luanda, quase vizinhos, onde criámos uma bela amizade. Sempre bem disposto, estávamos com frequência juntos, e ele sempre nos fazia rir.
O Alfredo Diamantino!
Infelizmente não encontro nenhuma fotografia com ele.
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Em 1958 já a viver em Luanda, onde fui encontrar amigos de infância e primos de ambos os lados, que rapidamente nos inseriram num grande grupo onde a amizade e a boa disposição falavam mais alto e, sempre, em primeiro lugar.
Um desses novos amigos, ainda solteirão, mais quatro anos do que eu, um boa praça danado, a quem os mais velhos carinhosamente chamavam de Arraguinho, era o gerente da Wagons Lits.
Anos passados, estava eu a sair da firma de fotografia, microscópios e etc., passei na agência dele, disse-lhe que estava de saída, ia para o BCCI (banco) mas que lamentava deixar um mercado, técnico, que só eu, naquela terra dominava, o que era uma pena.
- Porque não abres uma firma?
- Vou trabalhar num banco, e abrir empresa?
- Porque não? Não fazes qualquer concorrência, só lá trabalhas depois do horário do banco e fins de semana, e com um bom vendedor segues viagem. E mais, se precisares de um sócio, mesmo não tendo dinheiro, conta comigo.
Senti uma amizade grande, uma disponibilidade que me tocou fundo, fiquei um pouco confuso, mas com a maior vontade de aceitar a sugestão. Dias depois voltámos a conversar e disse-lhe que era uma ótima idéia.
- Só com um detalhe: fazemos uma sociedade, terá que entrar o António Nuno, já meu sócio numa desventurada aventura de criar gado, mas amigos, também, como irmãos.
Da firma das fotografias, o principal vendedor soube disso e logo veio ter comigo, bem como a minha secretária. Estava composta a equipa, sensacional e eficiente.
Logo começámos a trabalhar, a vender microscópios e outros itens, os negócios a aumentar, vimo-nos na necessidade de ter um gerente. O António Nuno e eu, famílias a crescer, não podíamos largar os postos que tínhamos, enquanto o Arraguinho, solteiro, era quem menos arriscava. Garantimos que o salário dele seria igual ao que já tinha, e assim a nossa empresa foi crescendo muito bem. Todo o lucro reinvestido, só o gerente e os empregados tinham os seus salários assegurados.
O António Nuno, a quem eu dizia que devia ter sido monsenhor ou arcebispo, de vez em quando dá-lhe um ataque de organização e convidava-nos para irmos ao fim do dia a casa dele, para uma “assembleia geral”!
Essas assembleias resumiam-se a beber uns copos, talvez comendo uns bolinhos, e conversando sobre banalidades. A “assembleia” ficava, sempre, adiada, sine die”.
A partir essas reuniões o Araguinho passou a chamar o António Nuno de “o Assembleias”!
Entretanto tudo se esfumou com a saída de Angola, voltámos a estar juntos em São Paulo, onde ele começou a perder a visão e foi para Portugal. Operações mal feitas, chegou a estar cego, veio a recuperar, e nunca perdeu a sua boa disposição.
Das últimas vezes que nos encontrámos, era tanta a satisfação de nos encontrarmos, que as lágrimas lhe corriam na cara.
Hoje continuo a usar muito uma palavra por ele inventada que é sensacional: ensesgada (do “verbo” ensesgar!). Nenhum filólogo conseguiu inventar uma palavra que melhor definisse o que “está ensesgado”, i.é, confuso, atrapalhado, avariado, etc.! Palavra linda!!!
Meu muito querido Bartolomeu Aragão de Lacerda.

Ainda em São Paulo, com bigode à portuguesa!

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Em 1961 fomos morar, em Luanda, na famosa rua Cabral Moncada, famosa porque ali moravam imensos amigos. Do mesmo lado da rua, um pouco para baixo vivia uma família linda: um casal com seis filhas. Não tardou que os filhos se entrosassem e que os pais passassem a ser dos nossos melhores amigos.
Sobre eles escrevi há dois anos, em Maio de 2016, no blog:
Estes dois poemetos, grandes no valor e nas mensagens, durante muitos anos foram-me sendo dados por um amigo que sempre considerei como um irmão mais velho, a quem chamava de meu “diretor espiritual”.
Já nos deixou, e no instante em que escrevo isto deve ele estar a sorrir, com aquele ar de muita paz, que transmitia, sobretudo de grande, simples, humilde, amigo. A sua simplicidade era uma das marcas da sua grandeza.
Deixou uma família linda, e uma imensa porção de amigos que além de o estimarem muito ainda o admiram.
Um grande exemplo, o meu querido “diretor espiritual”.
Ao falar de amigos sempre o Tono, e a Nacas, estão nos nossos pensamentos. Como digo, chamava-o de “meu diretor espiritual”, porque as suas palavras e os seus conselhos eram profundos e muito amigos.
Sempre disponível, tranquilo. A amizade continua hoje na sua descendência, que são consideradas um pouco mais do que sobrinhas; quase filhas!
Reproduzo, uma vez mais um dos poemas, do séc. XVII atribuído ao frei José de Santo António (Castelo Branco) que sempre lhe estava a pedir que mo dissesse, porque com andanças nunca sabia onde estava!
E vale sempre a pena voltar a lê-lo:
“Deus nos pede do tempo estreita conta!
E é forçoso dar conta a Deus do tempo!
Mas como dar, do tempo, tanta conta,
Se se perde, sem conta, tanto tempo?!

Para fazer, a tempo, a minha conta,
Dado me foi, por conta, muito tempo,
Mas não cuidei no tempo e foi-se a conta…
Eis-me agora sem conta…eis-me sem tempo…
Ó vós, que tendes tempo e tendes conta,
Não o gasteis sem conta em passatempo,
Cuidai, enquanto é tempo, em terdes conta.

Ah! se quem isto conta do seu tempo
Houvesse feito a tempo, preço e conta,
Não choraria sem conta o não ter tempo.”

Um grande Senhor. E um grande amigo.
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Na Cuca, em Nova Lisboa fui um dia encontrar um dos funcionários da secretaria, que, amável, me vem dizer que era muito amigo dos Teixeira de Abreu, amigos nossos desde... solteiros. Achei simpático, mas pouco mais tínhamos a dizer um ao outro, o que não impediu que sempre que me deslocava àquela cidade, lhe fosse falar.
Já eu tinha saído da companhia quando ele e família foram viver em Luanda, e por sinal, bem perto da nossa casa. A amizade começou a brotar, e foi, nessa altura, muito forte entre um dos meus filhos e um deles, o Nuno Mindelis.
No Brasil consolidámos essa amizade que foi, e é, apesar de já cá não estar, muito forte, deixando de sermos simplesmente amigos para nos sentirmos como irmãos.
Quando o íamos visitar, no condomínio em que morava, a uns 30 quilômetros de São Paulo, a portaria tinha que dar o meu nome e pedir-lhe autorização para entrar. A primeira coisa que ele fazia era correr para o frigorífico e pôr no freezer uma garrafa de vinho branco! Depois ficávamos no bate-papo, um copo, uns petiscos e muitas vezes acabávamos por jantar com eles.
Teria muita história para contar dos nossos encontros, mas só lembrar dele, e dos outros amigos, numa pequenina situação já é uma espécie de hino à amizade.
Custou-me muito vê-lo partir.
Grande e humilde amigo João Macedo Martins.

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Os primeiros tempos no Brasil foram dramáticos para muita gente, e, talvez de forma bem evidente, para a nossa família. Em 1978, mudámos de casa e fomos para o Brooklin um bairro em São Paulo, onde, tal uma pequena povoação, os filhos começaram a criar uma rede de amigos que perdura de tal forma que alguns continuam fazendo parte da família.
Entre eles um casal de portugueses, também saído da terrinha no 25/4, por perseguição política, com quem muito rapidamente estabelecemos fortes laços de amizade.
Jovem, ainda a cumprir o serviço militar, lembrou-se, e muito bem, de casar. Para padrinho um amigo da família, um dos homens fortes de Salazar, ministro do exército. Até aqui tudo corria bem.
Mas a esquerda festiva, em segredo, tal como por estas bandas, preparava um levantamento militar contra o governo. O nosso amigo estava um dia de serviço no quartel quando um dos camaradas, em segredo, o avisou que ficasse bem atento porque o levantamento seria nessa noite. O oficial de serviço, é evidente, telefonou ao padrinho, que estava ao corrente dos preparativos, e a rebelião abortou antes de ver a luz do dia.
É fácil imaginar como o nome dele ficou nos militares comunas. Jamais lhe perdoaram.
Passam os anos, , já na vida civil trabalhava no Centro de Informação e Turismo, chega o famigerado 25/4, e logo os “gloriosos” comunas partiram atrás dele para a “conveniente” vingança.
Mas o “perseguido”, na faixa dos 50 anos, com passaporte falso (na altura muito em voga!) consegue embarcar para o Brasil, onde teve, como todos nós, de começar por tratar da conveniente documentação, requerendo residência. Ao preencher a documentação a Polícia Federal viu que ele tinha nascido em Santos, São Paulo, e diz-lhe:
- Se o senhor nasceu no Brasil, pela lei, é brasileiro. Só precisa ter o título de eleitor, e regular a sua situação militar. E passa a ter documentação como qualquer brasileiro, inclusive passaporte.
É verdade; ele nasceu em Santos, quando o pai era cônsul de Portugal naquela cidade!
Aí vai ele a Santos tratar da documentação militar. No quartel, é recebido pelo sargento da secretaria, amável, que lhe pergunta se ele tinha feito o serviço militar. Fez, em Portugal.
- E que posto tinha?
- Cheguei a capitão.
- Ih! Capitão eu não posso pôr na documentação! O senhor não se importa de ficar como sargento? Até primeiro sargento ainda posso arranjar aqui! O senhor não se importa?
E assim o capitão português virou sargento do Exército Brasileiro!
Um dia ao sair do escritório com a minha mulher vimos que o vizinho tinha colocado na rua, para o lixo, uma poltroninha bem simpática. Dona Bela decidiu que era mal empregada, podia mandar estofar-se, etc. e carregámos a dita para casa, que ficou guardada no quarto dos fundos.
O “novo sargento” e família, moravam bem perto de nós, e um dia vieram jantar conosco. Mostrámos a casa e o tal quarto, onde estava a poltrona... meio abandonada (não tinha havido dinheiro para a estofar!).
- Olha que poltrona bonita aqui abandonada – diz a mulher do “sargento”!
- Se quiserem ficar com ela, podem ficar.
E lá foi a poltrona para casa deles e, do mesmo jeito, guardada no teto da garagem à espera de...
Calhou, uns meses passados, irmos nós lá jantar, e visitar o atelier da grande artista, mulher do nosso amigo, para ver as suas estupendas obras.
Calhou olhar para o teto e lá jazia a poltrona! O mesmo problema: não tinha havido sobra financeira para o restauro.
- Neste caso eu levo-a de volta.
E levei, mas direto para o estofador e ainda hoje continua, lindona, na nossa casa!
Era assim que vivíamos com os amigos. Grandes amigos, a Leonor e o Rui Alvim. 


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Comecei por dizer que ia dar um tempo “aos amigos”. Não que os vá esquecer ou abandonar. Mas vou dar um descanso aos olhos, que quase sempre, enquanto com eles “converso” nestes pequenos retratos, teimam em humedecer.
Por vezes tenho que os enxugar, e esperar um pouco que a saudade me deixe continuar.

5 de agosto de 2018


quarta-feira, 1 de agosto de 2018


AMIGOS – 8

SEM PROLEGÓMENOS

Este é o penúltimo texto sobre Amigos. Ainda poderia escrever sobre mais uns quantos que já nos deixaram. Vou deixá-los no merecido descanso sem jamais os esquecer.
Hoje vamos abandonar as “corporações” e apresentar-lhes algumas figuras de legenda.

Em Angola jogava-se ténis e em Luanda sobretudo no Club de Tênis. Ali era também um simpático ponto de encontro ao fim do dia e nos fins de semana.
Como em todo o lado tinha jogadores bons, outros pouco mais que medíocres (como eu, que joguei desde os 10 anos até que um dos joelhos, uns anos depois de ter sido atropelado por um trator... não permitiu mais) e alguns piores ainda, além dos convencidos e dos simples.
Mas um dos aspetos mais importantes é que eram todos amigos.
Começo, em Luanda com o Fernão Dornellas, um ferrenho batalhador, que hoje, quando vejo o espanhol David Ferrer, também um lutador, me lembro muito deste amigo. Se jogava comigo sempre me dava uma surra, mas quando se organizou um torneio inter bancários, nós formámos um par e, podem crer, fomos à final. Mas nessa altura o meu joelho estava já a pedir socorro e tive que entrar em quadra com a raquete numa mão e bengala na outra. Du jamais vu! Mal aguentei até ao terceiro jogo e saí arrastando a perna! O Fernão ficou muito chateado comigo, mas nunca deixámos de ser grandes amigos.
Os grandes nomes daquela época – anos 60 – eram principalmente dois que, do mesmo modo, e que me desculpem a comparação, me lembram deles quando vejo o Nadal e o Federer!!! Não é brincadeira.
O Francisco Correa de Sampaio, jogo firme, determinado, combativo, seguro, meio século depois, agora, teve um “seguidor”, tipo Rafael Nadal. O outro, Cristiano Lane que, como o anterior conheci em 1944/45 quando passei um ano no colégio dos jesuítas em Santo Tirso, descontraído, elegante, um jogo lindo, não há dúvida que “baixou” no Federer.
Eram ambos o top do Club e, nem sempre ganhava o mesmo. Alternavam. Tal qual hoje.
Eu joguei muito em Sintra, desde criança, naquele ano em Santo Tirso, com os mais velhos, e em Benguela, mas nunca me dediquei muito. (Tinha outras coisas para fazer!)
Saudades do Fernão, do Francisco e do Cristiano.

O Fernão e o Francisco, num grande encontro de amigos em 2012

E em Benguela, 1954/55 – Os três tenistas daquela cidade maravilhosa!
À esquerda (esqueci o nome) foi diretor de Fazenda; à direita colega na Lusolanda, Mário Magalhães

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Agora um “cara” muito especial!
Um dos maiores guitarristas que Portugal já teve. E um grande parceiro para as farras! Senhor conde, cujo título nunca usou nem lhe interessava. Nobre, marialva, caçador, fadista, amigo.
Tocava desde adolescente, com um toque que foi só dele. Quando voltava do liceu e tinha alguma notícia menos agradável para dar aos pais, refugiava-se no sótão da sua casa e a guitarra gemia!
Eu também cheguei a tocar alguma coisa, guitarra e violão, mas em África, por falta de parceiros para tocarmos juntos abandonei, e hoje não consigo tocar nada.
Mais velho do que eu uns 17 anos, ele sempre em Portugal e eu peregrinando por África e Brasil, quando nos encontrávamos, erámos amigos sem diferença de idade.
Um dia convidou-me para uma caçada aos coelhos no Ribatejo. Dezembro. Um frio de cortar à faca, pior para quem já era semi africano. Emprestou-me uma espingarda, mas nem as luvas evitavam que enregelasse as mãos. Creio que dei um tiro, não matei nada, mal podia mexer os dedos enregelados! A turma toda da caçada tinha preparado uma bela almoçarada, o que me valeu um pouco, e regressámos no fim do dia no carro dele, sem aquecimento! Cacei uma friagem maior do que na Antártica. Mas repetiria hoje se pudesse.
Em 1961, eu estava a morar em Sintra, na quinta que ainda era da família, e aguardava que a Cuca me mandasse de volta a Luanda. O virtuoso da guitarra também morava ali perto, em São Pedro.
Combinámos fazer uma fadistice em nossa casa. Desafiámos uns quantos amigos fadistas. Eu disse que arranjaria um barril de cerveja e ele comprometeu-se em arranjar o vinho, visto que era grande conhecedor da bebida e dos produtores da região. Saiu de casa a seguir ao almoço e eram oito na noite e... nem o guitarrista nem o vinho. Telefonei à mulher que me disse que quando ele ia comprar vinho era obrigado a provar e beber uns copos em todo o lugar onde passava!
Por fim chegou, com um barril de 20 litros. Uma delícia, claro. O verdadeiro e saudoso Ramisco.
Foram chegando os amigos, e vá de começar a farra.
Por volta das duas da manhã chegou a senhora condessa, uma das maiores fadistas de todos os tempos, com os seus acompanhantes, vindos dum serão para trabalhadores na FNAT!
A festa prosseguiu até ao nascer do dia. O vinho bebeu-se todo e da cerveja, no dia seguinte, mal saiu um copo. Mas ninguém estava “entornado”!
Uma ou duas semanas depois repetimos a festa na casa dele. Bem mais incrementada, e com a nata do fado. Os convivas saíram de lá, sol mais que nascido, mês de Junho, de óculos escuros!
Nunca quis gravar um disco, o que nos fez perder um virtuosismo único, e era “péssimo” acompanhante de cantadores, porque ele cantava melhor na guitarra!
Foi grande, e grande amigo, o José António Sabrosa e a sua mulher Maria Teresa de Noronha.
A farra em nossa casa começou assim:
Segue uma guitarrada com Zina Torre do Vale, José António e Fernando Alvim;(o anfitrião engasgado)
E continuou assim, com a Maria Tereza de Noronha, até... o sol raiar

#          #          #

Vamos lembrar outro Zé, compadre do anterior, praticamente da mesma idade, grande caçador, fadistinha, outro GRANDE amigo que tive em África e depois, bem mais tarde, em Portugal.
Em 1955 regressava eu de Benguela a Portugal num navio de passageiros e carga, o velho “Quanza”, poucos passageiros e uma grande carga milho para o Funchal (naquele tempo Angola exportava alimentos!). Parámos em Luanda, onde embarcou um inglês maio babaca, que tinha vivido em Luanda três anos e nada falava de português, e logo a seguir em Pointe Noite no Congo (francês) para carregar mais alguma coisa e meter mais uns passageiros, entre eles um casal de suecos já “idosos” e outro casal de portugueses, o Zé e a mulher.
Num ambiente pequeno, todos se cumprimentaram e este “novo” Zé, que muito estimei e admirei, não sei já como logo descobrimos que ele era compadre do Zé António, primo direito dum primo direito meu! Pronto. Criou-se logo uma amizade que durou até ao seu desaparecimento.
O que se faz a bordo, num navio mais cargueiro do que de passageiros? Levantar tarde, para esticar a manhã, depois passear um pouco pelos decks, beber um copo antes do almoço, mais outros durante o mesmo, dormir a sesta, repetir à tarde o programa da manhã, e depois do jantar jogar cartas. O inglês que parecia meio burro (e era), o sueco, que enchia a cara com cerveja enquanto a mulher, já entrada em anos sentava-se no deck, levantava as saias todas deixando finas e horríveis pernas a arejar, e o Zé jogavam bridge, mas precisavam de outro parceiro. Entrei eu de alegre, sempre parceiro do meu novo amigo, que jogava muito, de modo que ganhávamos sempre. Não exatamente a dinheiro mas os perdedores pagavam as bebidas.
Mais tarde, em 1964, ganhou um torneio de bridge, organizado pela Cuca, de parceria com outro amigo, o pediatra Rui Rebelo de Andrade.
Entretanto, na vigem de navio, eu levava a minha guitarra e o violão, que o Zé sabia manejar, e fazíamos uns pequenos serões, magníficos, sobretudo quando ele cantava uma letra especial, em “ré maior” de que, infelizmente já não lembro tudo (é preciso ser biligue... especial para compreender!) :
Si une riche soupière
De chaises desenvolviu
Avec um lace por la tête
Tout amarré dans le cu
???????
Oui, oui me repondit
La dame acenan le leque
Et moi comme um catite
Fui cear com ela avec!

Em janeiro de 58 estava volta a Luanda, e o Zé era o gerente geral da Comfabril (CUF). Logo nos encontrámos, não só para jogar cartas mas sobretudo para caçar.
Era um grande caçador. Talvez o melhor caçador que conheci, com quem tanta vez fui para fins de semana no mato... Já contei no meu livro histórias magníficas de caçadas, muito há anos já postas no blog, que lembro com frequência. E naquele tempo não havia frescurices de proteção aos pobres animais, porque só se caçava o que era permitido, pouco, e sempre com cuidado para não matar fêmeas, além de não se desperdiçar nada de carne.
 Guitarrista, e o Xico Manolete             De manhã cedo, na caça      Os campeões do bridge

Naquele tempo o horário de trabalho era o da “semana inglesa”: sábado até meio dia, e eu tinha por hábito sair depois de todo o pessoal de modo que chegava a casa mais tarde.
Por vezes mal tinha começado o almoço, já à porta de casa tocava a buzina do jeep. E uns gritos de lá saiam:
- Chico! Vamos hoje para (por exemplo, para a Baixa de Cassange) e voltamos amanhã. Vem depressa que o caminho é longo!
Baixa de Cassangue, Panguila, Bengo, Cambambe, Ambriz, por todo o lado.
Metia qualquer coisa na boca, subia a correr ao meu quarto para trocar de roupa, calçar botas, preparar roupa para o frio da noite e madrugada, armas e munições, e mal me despedir da mulher e filhos, e lá íamos.
Tanta vez! Sempre com ótima disposição, e uma pontaria invejável. Uns fins de semana, quer se caçasse muito ou pouco, eram sempre uma maravilha.
Meu querido amigo Zé Ferreira Neto. E Arlete. Que saudade!

31-jul-18

Nota: Podem clicar em cima das fotos para aumentar

segunda-feira, 23 de julho de 2018



PROLEGÓMENOS e AMIGOS – 7


Foi por acaso que comecei por agrupar alguns amigos por “corporações”, como surgiram na Idade Média a partir do século XII, para me facilitar o tentar não esquecer algum.
Hoje vamos “navegar” um pouco com alguns deles. Poseidon e Neptuno, de comum acordo autorizam os navegantes a vir até nós.
Homens do mar, da Marinha de Guerra, comercial e de recreio. Um pequeno apontamento de cada um, que já não estão entre nós, e por isso mesmo, falar deles, por pouco que seja, é não deixar que se afastem da nossa memória.
A maior riqueza que uma pessoa pode possuir enquanto peregrina por este mundo de cobiça, inveja e desgraça é a família e os amigos que desta fazem parte inseparável.
Talvez o maior dom que eu tenha recebido foi a capacidade de fazer amigos! Agora, que a idade vai demasiado avançada, quando nos parece que os dias, meses e anos se sucedem cada vez com mais rapidez do que quando éramos jovens, recordar esses amigos são momentos de grande satisfação, mesmo que a tristeza de saber que nos deixaram há mais de quarto de século não nos largue.
Morre a carne; “do pó viemos e ao pó voltaremos”. O espírito é eterno. Falando deles, com eles, essa eternidade torna-se real.

Vamos começar com os “guerreiros do mar”!
Éramos jovens. Eu sempre com os bolsos vazios, precisava fazer quase milagres para me deslocar a Santo Amaro de Oeiras, a 20 quilómetros de Lisboa, onde vivia a gatinha! Hoje, 20 quilómetros são “a porta ao lado”, mas naquele tempo... era uma viagem. São passados uns 70 anos. Ninguém vai acreditar, mas como tenho por hábito não mentir, cada um pense o que lhe aprouver.
Combóio de e para Lisboa, elétrico de casa para a Estação e volta, por pouco que fosse, para quem não tinha quase nada era uma senhora ginástica.
Ali perto morava um casal amigo dos futuros sogros e dos meus pais, que tinha um só filho, um pouco mais novo do que eu, muito simpático, alegre, tranquilo, amável. E os seus pais tinham sempre a porta de casa aberta para este andarilho!
Lembro muito da mãe dele, que sabia das minhas andanças, e muita vez me convidou para jantar com eles e até lá ficar a dormir para não ter que tornar a desembolsar aquela “enorme quantia” para voltar no dia seguinte.
Convivemos muito até que um dia, “amarrei” a gatinha, casámos e quase desaparecemos nas infindáveis savanas e florestas da África!
Ele seguiu a carreira da Marinha, e foi em Luanda que passámos a ter novamente mais contato, quando a Fragata de que era imediato dava uma folga ao pessoal. Eu, terráqueo luandense, nessa altura era possuidor duma viatura especial, que servia quase que ininterrupta e exclusivamente para emprestar aos militares que, do mar ou do interior, iam passar uns dias na capital. Um até cumpriu um ano na cidade, deslocando, glorioso, nesse inolvidável meio de transporte!
Esse “carrão”, um Morris Minor, sem capota, de 1932, forte motor de 600 cc, fazia a alegria desses amigos que ficavam independentes. O contrato de empréstimo era simples: devolver como leva; se avariar nas mãos de terceiros... consertem. Nunca avariou!
Olhem a belezura! (1963...? com o João Matos Chaves e César Silveira Machado)

Os navegantes chegavam a Luanda e a primeira coisa que faziam era telefonar a perguntar se o carro estava disponível. Passado pouco chegavam lá a casa o Imediato e o Comandante (cujo nome esqueci) e o bólido seguia com eles, felizes da vida.
Depois... acabou a comissão em Angola, e dificilmente nos encontrávamos nas raras idas minhas a Portugal.
Aposentou-se como Mar e Guerra e foi já quase no fim da sua vida que tornei a estar com ele, um pouco entristecido.

O meu querido amigo Eurico Burguete. E sempre saudades dos seus pais.

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Outro dos marinheiros “fardados”, que igualmente terminou a carreira como Mar e Guerra, amigo com quem convivemos não só em Luanda, mas também no longínquo Lourenço Marques.
Jovem, aos 25 anos, atleta de pentatlo, representou Portugal nas Olimpíadas de Helsínquia em 1952. Ainda lembro de o ver um dia, em Luanda atirar-se ao mar, que estava de calemas, para ir salvar um homem que se estava a afogar. Sempre pronto com grande calma e presença de espírito.
Foi a ele que recorri quando decidi obter a carta de “Patrão de Alto Mar” (no Brasil é Capitão Amador), uma vez que tinha já em Angola a de Patrão de Costa (Mestre Amador), porque o sonho de um dia entrar por esses mares e correr novas terras e gentes, me atormentava desde criança!
Naquele tempo, 1971, a navegação não tinha muita diferença da utilizada por Pedro Álvares Cabral ou Vasco da Gama. Não havia GPS e estava fora de questão um radar, que só navios de maior porte usavam. Quando muito um rádio ADF por onde se podia, perto da costa calcular uma posição desde que... se reconhecessem os sinais emitidos por emissoras de rádio, e assim fazer uma “triangulação”! Mas o indispensável era o velho sextante, e depois uma série de consultas de tabelas, contas com trigonometria à mistura, enfim, uma complexa e delicada trabalheira.
O nosso Mar e Guerra, há muito fora desses cálculos, apresentou-me um jovem tenente há pouco saído da Escola Naval, que me pediu uma semana, porque já não se lembrava bem como era o arcaico procedimento!
Bom, lá me deu umas aulas até me apresentar ao Capitão do Porto que me fez o exame! Fui aprovado, com dificuldade... e nunca me servi desse documento!
Depois de aposentado, e já em Portugal nos encontrámos com alguma assiduidade e volta e meia recordávamos esse aprendizado, e por fim, já muito doente consegui visita-lo algumas vezes!
Era uma pessoa simples, amigo, muito, do seu amigo, o António Jonet.


(Desculpem a péssima foto! Já estava muito doente)

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Outro irmão do Tó (António), uns bons anos mais novo, seguiu também a carreira da Marinha. Esteve em Angola, casado e alguns filhos. Foi ajudante do Almirante, comandou as comunicações, passou um ano no Norte, mas o que contou para a nossa amizade foram os dez anos passados em Luanda. Foi também daí que criámos aquela amizade que só aquelas terras souberam dar.
Regressa a Portugal em 1969, e começa a apresentar complicados problemas de saúde, passando à reserva.
De entrada sem mais nada para fazer, nem qualquer outro trabalho à vista passou um mau bocado, mas não tardou muito a ser convidado para a vida civil, onde deu mostras do seu saber e ficou até quase ao fim do seu tempo.
Em Portugal, não deixámos a amizade esquecida, e sempre fazíamos parte dum grupo de amigos cimentados pela intensa vivência em África.
Alegre, bom amigo teve um fim sofrido, até que descansou.
Não esqueço nunca o Jorge Jonet e a família.


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Creio que já um dia contei este pequeno episódio da minha iniciação na vela: um querido amigo, como irmão desde a nossa adolescência, sempre fez parte da nossa família. Quando nós, os irmãos de sangue nos juntávamos, quando eu aparecia por Lisboa, este irmão estava sempre presente.
Gostava de mar e tinha um Sharpie 6 metros (?), de uma vela só, boca aberta, enfim um barquinho bem simpático para navegar em solo, ou com mais um ou dois “convidados, pela baía de Cascais e arredores.
Um dia lá fui eu, de convidado, teria talvez uns 14 anos. “Inocente”, a certa altura levantei-me, e o piloto não perdeu a ocasião: decidiu cambar (virar de repente com vento pela ré), a retranca vira com violência e o convidado foi jogado na água! Muito se riu o “velho marinheiro”!
Esta brincadeira serviu, durante muitos anos, para nos lembrar tempos há muito passados. E foi o meu início como marinheiro.
Uns anos depois o Luis foi meu padrinho de casamento e mais tarde padrinho do meu filho Luis. Era o meu muito querido irmão mais velho, e a mulher, Maria de las Mercedes, madrinha da Joana. Luis Quintella.


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Vamos agora à navegação comercial, chamada mercante.
Os melhores, e ótimos, navios que havia em Portugal eram o Santa Maria (que foi sequestrado e deu origem ao início da guerra colonial) e o Vera Cruz.
Quando Portugal começou a enviar tropas para Angola o “Vera Cruz” foi o transporte escolhido. Levava para baixo e para cima milhares de militares de cada vez.
Durante uns anos inspetor da companhia em Luanda, casado com uma muito querida prima minha, apesar da diferença de idade, foi um dos meus mais presentes amigos.
Depois foi comandar o “Vera Cruz”. Chegava a Luanda, despejava quase toda a tropa e muita vez ainda, com o navio quase vazio, seguia até ao Lobito deixar mais uns poucos e receber os que acabavam a comissão para regresso à Metrópole.
Várias destas vezes convidava-nos para esse magnífico passeio, sempre com mais um ou dois casais amigos. Embarcávamos pelas seis da tarde, comíamos um magnífico jantar, ficávamos na conversa até tarde e por fim dormíamos como “anjos” até que de manhã cedo o navio atracava no Lobito.
A descarga e a carga demoravam quase o dia todo, o que me ajudava a visitar o depósito da Cuca, e ao fim da tarde regresso a Luanda onde chegávamos ao nascer do dia! Foram passeios maravilhosos!
Voltámos a estar juntos em Lourenço Marques, o atual Maputo, onde voltou a ser o inspetor da companhia de navegação, onde, uma outra vez convivemos muito. Os dois casais e os nossos filhos.
Mais tarde, em Portugal, quando ainda tentei ali voltar a viver, o país, arrasado pela revolução dos cravos, tinha-se desfeito de toda a sua marinha mercante, e o meu querido amigo e primo sem nada para fazer.
Um dia, quando os libertadores da ditadura arrasaram a navegação, o bom comandante encontra-se na rua com um indivíduo, muito bem vestido, pasta de executivo na mão que se lhe dirige:
- Senhor comandante que prazer em encontrá-lo!
- Mas onde vais nessa figura?
- Olhe, senhor comandante, como sabe acabaram com os navios todos, entretanto convenceram-me a assinar uns papeis do Partido Comunista, mas havendo ainda na companhia assuntos para resolver e não tendo ninguém, nomearam-me administrador!
O Comandante no seu camarote no “Vera Cruz”!

O mais categorizado ex comandante da companhia, só conseguiu reagir com um “Oh!”. O novo administrador tinha sido admitido por ele, como padeiro a bordo, e confessava tristemente que sabia andar a fazer figura de palhaço, e que nada entendia de administração!
Um detalhe da famigerada revolução que destruiu a economia de Portugal.
O meu muito saudoso primo José de Azeredo e Vasconcelos, tendo sido expulso da Escola Naval, com a argumentação de ter demasiada personalidade, fez a sua vida na marinha mercante.
Grande comandante e, sobretudo, grande amigo.

23 jul. 18