segunda-feira, 17 de abril de 2017



O Rio de Janeiro
Histórias da sua História
- 3 –

Vamos agora falar dos Franciscanos e seu Convento, “ali” no Morro da Carioca, o Convento de Santo António, e um pouco do nosso Santo.
Para se ter uma ideia de como era o Rio no século XVII, já com o Convento, que se fundou em 1608:

Ao fundo o Pão de Açúcar, e no centro a lagoa do Boqueirão descrito em texto anterior

No altar mor da Capela dedicado a Santo António, que se destaca na imagem ao lado do Mosteiro, havia uma bela imagem do Santo, obra de um dos frades da Ordem, artista que trabalhava em madeira, fez o magnífico corpo, com suas vestes, mas ao chegar à cabeça, sempre com a mesma devoção, não conseguia equilibrar essa parte, final da obra, com o corpo. Ou ficava pequena ou grande demais e o frade-artista, por muito que tentasse não chegava ao ponto de considerar a obra pronta, o que o entristecia. O Santo sem cabeça arriscava a que o frade perdesse a sua, porque nas conversas entre a confraria a única explicação era por causa de uma “desastrada imperícia”!
Mas uma noite, já bem tarde soa inesperadamente a campainha da portaria. Todos os frades já recolhidos, podia ser, por exemplo uma chamada de socorro para algum pobre moribundo. Corre-se à portaria, abre-se a porta e não se vê ninguém! Mesmo olhando em volta, em frente à porta não havia vivalma. Mas... encontram depositada no chão uma cabeça de Santo António!
Indaga-se, procura-se o portador do singular e precioso presente, e... nada!
A notícia do extraordinário espalha-se pelo mosteiro e acodem todos à porta. A cabeça é levada ao corpo do santo que já estava pronto, e serve perfeitamente como se tivesse sido feita expressamente para ele.
Nunca se pôde resolver o mistério e, antigas tradições fazem supor que os franciscanos consideraram ser uma obra sobrenatural.
É a imagem do Santo que se venerava na capela. Fui lá confirmar, e se o caso da cabeça ficou como lenda, a imagem já não está no altar!
O livro do Tombo dos Franciscanos tem escrito: “ Em 1621 colocou-se a imagem de Santo Antônio, o corpo feito por um religioso e a cabeça por um que pediu uma esmola para jantar, como se vê no Cartório do Convento”!


Para onde foi a estátua? Veremos mais adiante.
Santo Antonio é o santo de praticamente todas as causas! Tem sob a sua alçada os barqueiros, os marinheiros, os náufragos, os viajantes, os velhos, os pobres e oprimidos, as solteiras, as grávidas, as estéreis e os namorados, e as tropas, os batalhões!
E não é só o santo dos portugueses, brasileiros e italianos: para acabar com a “briga” se era de Lisboa ou Pádua, o Papa Leão XIII (1878-1903) chamou-lhe “o santo de todo o mundo”
E tem uma longa, imensa história, como “bravo” militar.
Santo António começou por assentar praça em Portugal, como soldado, durante as Guerras da Restauração, no Terço da Câmara de Lisboa, pouco tempo antes de 17 de junho de 1665, data em que foi travada a Batalha de Montes Claros, entre portugueses e espanhóis. Foi durante estes confrontos durante a Restauração da Independência, que o santo começou a destacar-se como protetor das forças portuguesas. Entre os soldados, começou a surgir a crença de que a presença da sua imagem em batalha redobrava a sua força e confiança, e 1665 será a data do início da carreira militar de Santo António, uma vez que foi nesse ano que o rei D. Afonso VI ordenou que o santo “fosse alistado no exército, como seu patrono” e que “assentasse praça como soldado” e lhe fosse pago o respetivo soldo”.
A primeira promoção aconteceu depois da Guerra da Restauração. Como reconhecimento pelas vitórias alcançadas frente aos espanhóis, D. Pedro II ordenou que o santo fosse integrado no Regimento de Infantaria n.º 2 de Lagos. À entrada para o regimento, em finais de janeiro de 1668, seguiu-se em 1733 a promoção a capitão. O santo começou então a receber um soldo de dez mil réis, conforme carta régia emitida por D. João V. Mais tarde, o capitão António foi aumentado, passando a recebeu 15 mil réis mensais.
Em 1777, o major Hércules António Carlos Luís Joseph Maria de Albuquerque e Araújo de Magalhães Homem (êta nome brabo!), do Regimento de Lagos, entregou a D. Maria I uma petição para que Santo António fosse promovido ao posto de major tendo em conta o seu “desempenho militar exemplar”.
“Durante todo o tempo, em que tem sido capitão, vai quase para cem anos, constantemente “cumpriu seu dever com o maior prazer à frente de sua companhia”, em todas as ocasiões, em paz e em guerra, e tal que tem sido visto por seus soldados vezes sem número, como eles todos estão prontos para testemunhar: e em tudo o mais tem-se comportado sempre como fidalgo e oficial”.
Na petição, o major do Regimento de Lagos fez ainda questão de certificar que não existia “alguma nota relativa a Santo António, de mau comportamento ou irregularidade praticada por ele: nem de ter sido em tempo algum açoitado, preso, ou de qualquer modo punido durante o tempo que serviu como soldado raso no regimento”.
Apesar dos apelos de Magalhães Homem, a promoção a major nunca chegou a acontecer.
Em vez disso, o santo foi promovido três anos depois ao posto de oficial-general.

Documento onde consta o pagamento ao “oficial”!

A influência da imagem de Santo António no moral das tropas portuguesas era tal que chegou mesmo a ser roubada pelos franceses, que acreditaram assim poderem derrotar o exército português. Porém, ao descobrirem que a estátua tinha desaparecido, os portugueses atacaram com toda a força os franceses para recuperar o santo mais do que querido.
A imagem portuguesa encontra-se hoje no Museu Militar do Buçaco, e ostenta ao peito a Cruz da Guerra Peninsular, pelas lutas travadas contra as forças napoleónicas. Como forma de agradecimento pela vitória sob o exército francês, D. João VI atribuiu ainda ao santo a patente de tenente-coronel de infantaria, em 1814, já após a guerra, e recebeu ainda a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo.
Com a extinção das ordens religiosas em 1834, a estátua de Santo António Militar só voltou a sair à rua, em Portugal, em 1895. É dessa altura que data um incidente que marcou a história da imagem. “Fez-se uma procissão, mas a imagem foi atacada pela maçonaria, na Baixa e a população teve de fugir”.
Foi também por volta dessa altura, para assinalar a comemoração dos 700 anos do nascimento do Santo, que surgiu a ideia de o promover a coronel. Porém, a promoção nunca chegou e o santo permaneceu para sempre general.
(Estranho: não foi promovido a major, mas a general, depois andou para trás para tenente coronel e mais tarde não o quiseram “promover” a coronel! Ele já era general!)

Deixemos Santo António... em Portugal, e voltemos ao Rio de Janeiro ver o “nosso” valeroso soldado, posto com que chegou ao Rio,
Em 1710, quando da invasão dos franceses, com Duclerc, o Governador, Francisco de Morais e Castro, pediu a proteção de Santo António e mandou ao Convento uma patente que o nomeava Capitão de Infantaria! O rei aprovou, e estipulou um soldo de dezesseis mil reis mensais, pagos ao Convento.
A imagem foi colocada no muro do Convento empunhando o bastão que lhe dera o governador da Colônia do Sacramento, Sebastião Veiga Cabral, em sinal de agradecimento pela proteção à sua guarnição de seiscentos homens que estiveram sitiados durante seis meses pelos espanhóis, protegendo os cariocas, e assim os franceses foram derrotados!
Em sinal de gratidão, a imagem do santo (e sua perfeita cabeça!) foi colocada no frontispício da Igreja, em 1779 muda para um nicho no frontispício do Convento, e passou a ser conhecida como Santo Antônio do Relento!
Lá está o Santo ao relento!

Para o altar-mor foi executada outra imagem, maior. A que lá está hoje!
Nas imagens, ele sempre aparece carregando o menino Jesus no colo. Segundo a fé católica, um barão que abrigava Santo Antônio no quarto de hóspedes de seu castelo viu, pelo buraco da fechadura, que o frei estava envolvido por uma luz de brilho muito forte e, em seu colo, sobre um livro grosso, estava um bebê, dando risadinhas. O bebê olhou e estendeu os braços na direção do barão, que ficou atordoado e fechou os olhos. Abrindo-os, só viu Santo Antônio de braços vazios. A criança seria o menino Jesus.
No candomblé da Bahia, Santo Antônio é conhecido como Ogum, o orixá da guerra, que forjava as suas próprias armas de metal.  
Passados uns anos, em 1810 o capitão Antônio é promovido a Sargento-Mor, equivalente a major, com soldo de trinta mil reis.
Em 1814 passa a tenente coronel, recebe a Grã Cruz da Ordem de Cristo e, até ao fim da monarquia sempre recebeu o soldo.
O governo republicano, alegando a separação entre Estado e Igreja suspendeu o pagamento, mas o Marechal Floriano ordenou que o soldo fosse pago enquanto um decreto especial não o cancelasse. Nunca houve o tal decreto, mas desde abril de 1991, não houve mais pagamento.
Em 1924, o Santo ainda constava como elemento do Exército Brasileiro, que levou o então Presidente Artur Bernardes, a emitir um despacho ao Ministro da Guerra, Fernando Setembrino de Carvalho, onde pedia a reforma de Santo António. Antes, porém, o Presidente, numa carta ao Ministro da Guerra, escrevera: "O Coronel António de Pádua vai quase em três séculos de serviço. Nomeie-o general e ponha-o na reserva."
Santo António figura desde então no Anuário Brasileiro, na lista dos oficiais da reserva do Exército da República do Brasil.

Nota: Estranho! Um militar com mais de 400 anos de serviço – no Brasil – passa à reserva e não tem direito a “aposentadoria”?

13/04/2017







quarta-feira, 12 de abril de 2017


Justiça e Liberdade
e Perdão

Estamos no tempo do Perdão. Aliás é sempre tempo para perdoar !
Há 60 anos estava eu, jovenzinho, cheio de fogo “na guelra” a estagiar no Porto, na fábrica de cerveja.  Metia o nariz em tudo, fazia perguntas, análises no laboratório, passava horas com os funcionários e com o diretor técnico, enfim, queria aprender tudo no mínimo tempo possível. O normal para um jovem que não nasceu acomodado.
Fim de Outubro, começo de Novembro um daqueles frióis que assola a “Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Poro”, derramou sobre a dita cidade uma miserável e brava epidemia de gripe, que foi derrubando, lá na fábrica, uns quarenta por cento do pessoal: diretor técnico, gerente de produção de refrigerantes (bastante péssimos na altura!), as técnicas do laboratório, os encarregados da produção de verveja e das adegas, enfim, quase poderia ter paralisado a fábrica. Ao ver o panorama, eu estava sózinho lá no Porto, fui a uma farmácia e pedi que me dessem uma qualquer dose “cavalar” que me livrasse daquela praga quase faraônica e bíblica. Calça abaixo, seringa na bunda... livrei-me da praga. O administrador da companhia, um homem muito simpático, cabelo todo branco, chamou-me e diz-me que tinha dado ordem para que nada fosse à sua mão sem o meu visto e eventual comentário.
Como é de imaginar eu quis tirar a dita b... fora, não consegui, e assim durante uns dez dias fui eu o “manda chuva” técnico. Aprendi mais nesses poucos dias do que nos outros três meses que ali estive!
O pessoal, todos os trabalhadores, almoçavam na fábrica e sempre lhes sobrava um tempinho para relaxarem, sentando-se à volta dum pátio e dando largas à conversa.
Entre esses trabalhadores, mulheres e homens, havia uma jovem, bonitona, desembaraçada, que atraía os olhares dos “lobos machistas”, sem que algum se atrevesse a pisar o risco.
Pois, num dos dias em que estava eu de responsável, um deles “pisou o tal risco” e a mulher em resposta cuspiu-lhe na cara! Burburinho, o homem quis dar-lhe um tapa, agarra daqui e dali, enfim, o caso veio parar às minhas mãos. Bem que eles podiam ter esperado mais uns dias...
Chamei-os, olhei bem na cara deles, colegas e até amigos havia já uns cinco ou seis anos, vinham cabisbaixos, e comecei o “discurso”, bem simples:
- Olhem, tenho duas opções para este problema: eu penso que vocês sempre se respeitaram, mas face ao que se passou agora e já está feito, e mal feito, uma tremenda falta de disciplina, ou faço uma comunicação para a administração e vocês apanham no mínimo uns quantos dias de suspenção, ou então olham bem olhos nos olhos e ambos pedem desculpa ao outro, não a mim, pelo disparate cometido. Mas nada de fingir que pedem desculpa, com má cara. Se o fizerem a sério o problema fica aqui resolvido entre nós.
Caras fechadas, aguardaram uns momentos, comecei a ver que estava difícil de se encararem, e insisti:
- Não vamos ficar aqui toda a tarde. Ou, realmente cada um pede desculpa ao outro ou...
Olharam-se, e começaram a achar graça ao “jogo”!
Primeiro pediram desculpa olhando-se de soslaio, e eu disse-lhes que assim não valia!
Voltaram a olhar-se, caras mais descontraídas e acabaram por pedir as necessárias desculpas!
- Vocês são amigos, não são?
- Somos.
- Então não se esqueçam que o respeito de um pelo outro é fundamental. Um aperto de mão e podem voltar ao trabalho sabendo que nada aconteceu, nem sequer comentem com os colegas. Isso nunca aconteceu. E a fábrica (aquilo se dera nos empregados da adega) continua a funcionar em boa harmonia.
Acabou a «farra» e tudo continuou sem incidentes.

Muitos, muitos anos depois, ao ler sobre os inuits – o povo do nordeste do Canadá e Groelândia – e sobre a sua filosofia de justiça, fiquei maravilhado. Quando alguém comete um crime, qualquer que seja, é chamado para encarar toda a comunidade. Ali confessa o erro, mostra-se arrependido e pede desculpa a todos. O “processo” fica resolvido, o “criminoso” volta à sociedade, sem nunca haver outra condenação. O próprio se sentindo arrependido e auto-condenado é o suficiente, e nem a comunidade lhe cobra mais alguma coisa. Passou, passou.
2.000 anos antes já esse sistema tinha sido anunciado! Até o miserável ladrão, pendurado na cruz, ao mostrar-se arrependido teve a certeza de que “logo se encontraria no reino dos céus”.
Cristo nunca condenou ninguém. O criminoso tem que se encarar, arrepender, formular com todo o seu coração, arrependimento e vontade de se emendar, e assim continuar no meio da sociedade, sem ser segregado.
O veridicto anunciado era o Perdão ! Perdoar a todos, perdoar ao seu semelhante, aos irmãos.
Como contnua a ser tão difícil perdoar !
Naquele tempo já havia o que continua a ser a maior desgraça da humanidade: o “chefe”, o “rei”, o que se arrogava, e ainda arroga o direito de vida e de morte sobre o seu semelhante, e muitas vezes ainda os comiam ! Hoje matam com tiros, bombas, facadas, gases, etc., ou, talvez pior mantendo bilhões de seres na maior miséria !
Criaram-se leis, sempre ditadas de cima para baixo, os poderosos com “jurisdição” sobre os mais fracos, e com isso os castigos, a prisão, a pena de morte, o arbítrio, a violência, o esmagamento dos mais desfavorecidos, o destroçar dos mais elementares princípios de humanidade.
Os soldados, derrotados em guerra, eram degolados ou viravam escravos. Não tinham mais poder algum. Não eram mais gente, eram peças. Mercadoria.
As leis e os tribunais “evoluíram”, sempre criando mais leis e mais castigos e pior, transformando-se em locais de contenda pessoal, quantas vezes da exibição do ego, em que a promotoria tudo faz para derrotar a defesa, e vice-versa, à custa do miserável que não cumpriu com as leis “dos de cima”, como se o que estivesse em causa mais fosse um jogo em que um jogador faz o mais que pode para vencer o outro, e não procurar a redenção dum ser humano.
Há relativamente pouco tempo o Canadá decidiu levar a sua “justiça”, a dos homens brancos, lá bem no Norte, para os inuits. Juiz, promotor e defensor, de avião para os gelos do Norte, montar o «circo jurídico».
Lá chegados, um julgamento “à séria”, se o criminoso fosse condenado era levado de avião para prisões no sul. O que os “meritíssimos” não esperavam era que a comunidade não deixava sair o avião com o prisioneiro sem que TODOS se fossem, afetuosamente, despedir dele.
O juiz face a esse espetáculo/lição resolveu que tinha que deixar a comunidade resolver seus próprios problemas, sem que “invasores”, como ele, pudessem interferir na forma humana como ela agia.
Agora, no Quebec, cada vez mais se estudam e adotam os sistemas dos “grandes seres primitivos”, procurando que os tribunais em vez de serem praças de antagonismo, se transformem em lugares de conciliação e mútuo entendimento.
Esses “seres primitivos”... como têm o que nos ensinar! Basta que se consiga meter na cabeça dos homens que somos todos iguais, que ninguém leva para a cova o que arrecadou a mais, quando podia tê-lo distribuído ou proporcionado um mais justo, humanitário, equilíbrio de vida entre todos.
Nas comunidades ‘‘primitivas’’ que em boa hora se vão expandindo, todos são iguais, todos têm exatamente os mesmos direitos, e se a comunidade tiver lucro, fruto do seu trabalho, esse é distribuído igualmente por todos.
Sociedade igualitária? Porque não?
Difícil!
Há que enterrar a ganância, o lucro absurdo, as abissais diferenças de ganho, por exemplo entre um jogador de futebol que ganha centenas de milhões por mês e um trabalhador que para dar de comer à família muito sua e às vezes não consegue.
Na Grécia antiga os atletas recebiam como prémio uma coroa de louros. E batiam-se por ela com mais entusiasmo do que hoje os animalescos e ferozes lutadores de boxe se esmurram, por vezes até à morte, para ganhar os tais milhões! E o povo, burro, besta, ainda pára para ver cenas de extrema brutalidade.
Cada vez mais, a parece que o homem terá sido o maior erro da Criação, não parece ?
Como perdoar, por exemplo às centenas de políticos que roubaram trilhões e deixaram o Brasil à beira da falência ? Como perdoar aos loucos/fanáticos do ISIS que matam só para matar ? Como perdoar a juízes que engavetam e escondem processos de criminosos para se venderem ? Como perdoar quase toda a humanidade que vê, neste momento, 20 milhões de seres a morrerem à fome sabendo que um só dos foguetes que a Coreia do Norte lança – e já lançou uma dúzia – daria para resolver grande parte do problema ? Como perdoar os responsáveis por ataques com armas químicas em cima de crianças e mesmo de militares oponentes ? Como perdoar aos responsáveis dos países que apregoam a Paz e vendem trilhões de dólares de armamento... que é feito para matar ?
Solução para este desiquilíbrio universal?
Um meteoro como o que acabou com os dinossauros... e começar tudo de novo ?
E, daqui a outros “x” milhões de anos voltaremos a ter milionários e sempre e cada vez mais pobres !


03/04/2017

terça-feira, 11 de abril de 2017



ANGOLA
Histórias da sua História
(Adenda ao texto anterior)


Vimos que Porto Alexandre teve vários nomes. Parece que teria começado como Porto Pinda, depois, Angra das Aldeias e, cerca de 1835 um explorador inglês, com autorização do governo português (???)  explorou aquela região, desenhou uma carta do que viu e nela inscreveu aquela baía – Angra das Aldeias – com o nome de “Port Alexander”, aliás muita mal colocada geograficamente.
Os babacas que então governavam Angola e/ou Portugal, não corrigiram a carta e assim se mudou a baía para o nome de um totalmente estrangeiro, o nome que era lindo, Angra das Aldeias, ou até Pinda.
Em 1860 com a chegada de algarvios o tal Porto Alexandre começa a tomar vulto, até, como se viu, com a magnífica Dona Maria da Cruz, e de lá “brotaram” uma boa quantidade de angolanos, muitos dos quais viraram “meus sobrinhos”!!!
Um dos fundadores de Porto Alexandre foi João Dolbeth e Costa. E agora o meu coração voltou a bater mais depressa:
1- Quando visitei Moçamedes, primeiro em 1958 e depois aí por 1962 ou 3, estive com um dos seus descendentes. Qual não lembro. Mas na ida a Angola na já “famosa” e quase lendária travessia no Mussulo, chegámos a Namibe dia 03 de Janeiro de 2006 e, uma das pessoas que nos aguardava na praia era o “Lanucha”, o general Alexandre Dolbeth e Costa, um amigo, que virou “sobrinho” e que deve fazer parte das grandes figuras de Angola. A sua atuação nas Forças Armadas a defender a fronteira sul contra os sul-africanos e, sobretudo, a sua alegria e simpatia contagiantes, marcaram a nossa rápida estadia na capital do Namibe.
2- Desta vez tentei lembrar de outras pessoas com quem estivera em 58! Lembrava só do nome “Mac-Mahon Vitória Pereira”. Um e uma irmã que me foram buscar ao hotel e me levaram a uma inesquecível visita à Baía das Pipas. Mas ninguém mais dessa família vivia já em 2006 no que fora Moçamedes, e virara Namibe, e agora, quer queiram quer não, voltou a ser Moçamedes!
Depois, durante a curta estadia em Luanda, antes de regressar a casa, cansado, demasiado emocionado com tudo o que tornara a ver e muito sentir, um dia, estava no Club Naval e apareceu um senhor, barba e cabelo brancos, bem mais novo do que eu, e com ele um rapaz aí dos seus dezessete anos.
Dirigiu-se a mim:
- Sei que foi amigo do meu pai e por isso venho cumprimentá-lo. O meu pai foi o Mac-Mahon Vitória Pereira (continuo a não recordar o primeiro nome, infelizmente) que o levou à Baía das Pipas. E trouxe o meu filho para o conhecer!
Se eu já estava num alto estágio de emoção, aquele gesto de imensa simpatia derrubou-me ainda mais! Só lembro – agora já lá vão mais onze anos – que este senhor era professor da universidade em Luanda. Se lhe chegar esta pequena nota ao conhecimento, saiba que não o esqueci, e lhe mando um forte e amigo abraço. E ao filho.
3- Outro dos primeiros povoadores foi Alexandre Augusto de Sampaio Nunes. Aí por 1954 conheci, possivelmente um dos seus netos Acrísio (Tendinha?) Sampaio Nunes, que trabalhava na Companhia Mineira do Lobito, com sede em Nova Lisboa!
4.- Por fim a família Tendinha, (serão todos descendentes do 1º presidente privativo da Câmara Municipal de Porto Alexandre, Lourdino Fernandes Tendinha?) começando pela “grande cineasta” Ana Clara Tendinha Rivera que filmou a chegada dos velejadores, do Rui Tendinha que nos albergou no seu simpático e confortável hotel/compound, e depois em Luanda o Mário Tendinha e o Manuel João Tendinha Pimentel Teixeira!
Parece que todos têm boas raízes em Porto Alexandre/Tombua, mas... e o Namibe?
Do Google Earth. O traço vermelho indicou uma distância entre
Namibe e Tombua de cerca de 40 kms.

Namibe? Mais um apontamento sobre aquelas terras do sul, enquadradas pelo deserto do Namibe pelo nascente e pelo generoso e lindo mar pelo poente.
A cidade de Moçamedes, após 1975 virou Namibe, a capital da Província do Namibe, dentro do deserto do Namibe, perto da fronteira com a Namíbia, confrontando com o... deserto do Namibe, na Namíbia. Um tanto confuso, não?
O padrão de Cabo Negro foi por ali colocado, como já vimos, por Diogo Cão em 1485. Dois anos depois Vasco da Gama esteve na Angra das Aldeias e por portugueses.
Em 1770 o sertanejo João Pilarte da Silva desceu a Chela para ir socorrer uns náufragos que tinham dado à costa.
Em 1787 nova expedição em que participou o naturalista Joaquim José da Silva encontrou o padrão original derrubado e o reergueu.
Em 1785 outra expedição, comandada pelo tenente coronel de engenharia Luis Candido Barreto Pinheiro Furtado, saiu de Benguela na fragata Loanda, fundeou na Angra do Negro, e a batizou com o nome do governador que ordenara essa expedição: Baía de Moçamedes.
Moçamedes deve assim este nome ao 6º Senhor de Mossamedes, e 1º Barão de Moçamedes, José de Almeida e Vasconcelos (José de Almeida e Vasconcelos Soveral de Carvalho da Maia Soares de Albergaria) que foi governador de Angola entre 1784 e 1797. Moçamedes, ou Mossamedes, que até soa como uma palavra de origem angolana, nada tem disso!
Vem dum Reguengo de Mossamedes, que foi doado em 1389, pelo rei D. João I a Gonçalo Pires de Almeida, por seus serviços e para casar com Inês Anes, sua parenta, viúva de Afonso Fernandes de Figueiredo.”
Família com nobreza medieval (séc.XIV) por ter a varonia antiga dos "Almeidas por quem o Tejo chora", foi a primeira que usou o duplo apelido Almeida e Vasconcelos. Tem o título "de juro e herdade" de Barão de Mossâmedes, que tirou do Reguengo de Mossâmedes (na Beira) propriedade concedida aos seus antepassados em 1388.
Ao fundar a povoação, no sul de Angola, o Ten. Cor. homenageou o nome do antiquíssimo reguengo propriedade da família do governador.
Esteve assim a antiga “Angra dos Negros” com o nome de Moçamedes durante, pelo menos 190 anos.
Agora, depois da independência lhe ter mudado o nome, a cidade de Namibe é riscada do mapa e volta a aparecer a cidade de Moçamedes!
Porque este “volte face”? Não sei e ainda não encontrei quem o explique, assim como não vislumbro o porquê de Porto Alexandre (nome aliás mal dado) ter virado Tombua, quando podia ter voltado para Pinda!
Coisas da política... sempre mesquinha, e quantas vezes destruidora da história!


10/04/2017

quinta-feira, 6 de abril de 2017


ANGOLA
Histórias da sua História

Há 562 anos, nas suas digressões pelo Atlântico Sul, para o seu estudo e à procura da passagem para a Índia, o grande navegador Diogo Cão percorreu a costa de Angola,onde foi deixando a sua marca com os padrões em pedra: o Padrão de Santa Maria no cabo que parece ter começado por se chamar Cabo do Lobo, e hoje tem o nome do padrão, a cerca de 100 milhas náuticas para sul de Benguela, outras 100 milhas mais a sul, o de São Jorge no Cabo Negro, um pouco a Norte do que foi Porto Alexandre e agora é Tombua, e ainda um mais 400 milhas para sul, o Padrão da Cruz que deu nome ao cabo, Cape Cross.
Para vergonha de Portugal, na Namíbia, quando ainda colónia alemã, o grande chanceler Bismark, retirou o padrão original, que hoje se exibe, lindo, no Institut fur Deutsche Geschichte, Berlim e para o substituir mandou um outro, com dizeres ligeiramente diferentes, em alemão dizendo mais ou menos: “que por este meio D. João II de Portugal tomava posse daquela região africana”...
Hoje em Cape Cross estão duas cópias do padrão original português. A segunda com uma pedra grande ao lado, lavrada em inglês, foi mandada colocar ainda pelo governo sul africano, administrador daquele país em 1986, nos 500 anos da colocação do original, ambos muito bem conservados, sendo hoje lugar de visitação turística, e ali se faz com que a história não se apague.

Cape Cross – Namíbia

Os de Angola, Santa Maria e São Jorge, em 1892 a Sociedade de Geografia de Lisboa, imitando Bismark, levou os originais para Portugal, parece tê-los substituído por cópias, que teriam sido colocadas nos respectivos locais, e hoje não sobram nem vestígios deles! 
O padrão (cópia) de São Jorge no Cabo Negro
desaparecido depois de 1975

Em 1787 o naturalista Joaquim José da Silva que fazia parte de uma expedição ao sul e visitou Cabo Negro, encontrou ainda o padrão original tombado e fê-lo erguer.
No Cabo de Santa Maria foi colocado outro igual. Mas só sobra um triste farol... ainda com as quinas:


Deixemos os padrões onde quer que estejam e voltemos a Porto Alexandre, porque assim se chamava quando se passou o que vamos contar.
Em 1839 Pedro Alexandrino da Cunha fundeou num local conhecido por Porto Pinda, explorou os arredores e disse ter encontrado nas margens do rio Curoca arimos onde os nativos já exploravam feijão, milho e abóbora, e este seu relatório incentivou a ocupação das terras do sul.
O lugar chamou-se Angra das Aldeias, Porto Pinta, Porto Alexandre  e hoje é Tombua! Uma baía muito bem abrigada do mar, em pleno deserto do Namibe, mas com um mar riquíssimo em peixe e marisco. Bom de mais!!!
Durante muitos anos não foi possível construir nada em “pedra e cal”. Tudo era de “pau a pique” e os seus habitantes praticamente se alimentavam só do mar, e a água potável iam buscá-la ao rio, a cerca de 15 quilómetros para norte.
Um dia decidiram escolher o próprio chefe que os orientasse quando necessário, e a escolha caiu em Cruz Roldão, algarvio, que parece teria ali chegado em 1860 no caíque “D. Ana”. Homem simples, não viveu muito mais e quem assumiu a “chefia” foi a viúva, Maria da Cruz Roldão. Ela sabia ler e escrever, tinha alguma cultura, e era uma mulher de coragem e forte decisão. Por várias vezes, Maria da Cruz tomou decisões impor­tantíssimas para a comunidade que chefiava. Em dada altura, os hotentotes, vindos do Sudoeste, acossados pelos alemães, passaram para norte do Cunene e dedicavam-se à pilhagem e ao massacre. A povoação de Porto Alexandre estava nesta contingência. Porém, a regedora procurou estabelecer contato com os chefes daquela gente, o que conseguiu, e teve com eles uma conferência, no local conhecido por Arco do Carvalhão*, a uns trinta e cinco quilómetros para Leste do aglomerado populacional, e a povoação foi salva. Igualmente, em data que não ficou registada (mas deste facto nos fala o almirante Augusto Casti­lho), fundeou um navio de guerra inglês na baía, em frente à habitação de Maria da Cruz. Pouco depois, os súbditos de Sua Majestade, esquecendo-se de que estavam em terri­tório de outra nação que lhes devia merecer respeito, iniciaram exercícios de tiro para a restinga que forma a baía. Muitos dos projéteis iam cair do outro lado, no mar, onde andavam os nos­sos pescadores nas suas atividades. Este ato arrogante levantou protestos das mulheres e crianças que estavam em terra e que traziam no mar os maridos, pais e irmãos. Em pranto, dirigiram-se a casa da regedora e pediram-lhe que acabasse com aquele abuso do navio estran­geiro. Maria da Cruz mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua porta, meteu-se num bote, e dirigiu-se para bordo do navio britânico. Saias arregaçadas, punhos cerrados, gesticulando e no seu fra­seado de gente do mar, intimou o comandante inglês, a acabar imediatamente com a perigosa brincadeira. Aquele, que apenas deve ter compreendido a indignação e o desas­sombro duma verdadeira mulher de armas, fez suspender o fogo, abandonando o fundeadouro no dia seguinte.
Mas a Maria da Cruz sendo uma mulher humilde e de cultura limitada, evidenciou sempre grande coragem, valentia e decisão pouco vulgares, que devem ser apontadas como exemplo. Por outro lado, a dura têmpera desta mulher do povo deve ser o orgulho das mulheres portuguesas... e de todas as as mulheres do mundo!
* - O “Arco do Carvalhão” que os navegantes do Mussulo I, visitaram em 04 de Janeiro de 1906.
O lago é formado pela retenção das águas do rio Curoca.

Nota: a história desta valente Maria da Cruz foi encontrada no livro de Cecílio Moreira “Entre Dunas e Mar”, impresso em Luanda talvez em 1968 a 1970.
Nota final:
Não poderia Portugal oferecer novos padrões a Angola, e ir lá, solenemente, colocá-los?
É por eles que começa a história “moderna”, de Angola.


06/04/2017

domingo, 2 de abril de 2017


O Rio de Janeiro
Histórias da sua História
- 2

No texto anterior já se falou no Passeio Público, executado para aterrar um pântano, o Boqueirão, para o que se desmontou o Morro das Mangueiras que estava encostado ao Morro de Santa Tereza, que começou por se chamar Morro do Desterro, e que Mestre Valentim ficara com o encargo de o projetar e embelezar com as suas belas esculturas.
Mas Mestre Valentim sabia que para isso precisava de muito dinheiro e os cofres do governo estavam sempre vazios, e disse ao vice-rei::
- Senhor, Vossa Excelência tem empreendido tantos e tão grandes trabalhos que não sei se haverá recursos para os executar todos. Vossa Excelência faz milagres, mas... dinheiro não abunda. Além disso faltam-nos os necessários trabalhadores.
- Não se preocupe. Farei aparecer dinheiro e gente. Isso fica a meu cuidado. Quero ver esse jardim pronto antes de ser substituído no governo do Brasil.
Mestre Xavier meteu mãos à obra e os engenheiros iam dessecando a lagoa do Boqueirão.

Lagoa do Boqueirão – séc. XVIII

Pela sua parte Luiz de Vasconcelos cumpriria com a sua palavra.
Como disse o próprio vice-rei, “poucas são as rendas da Fazenda Real”, mas a cidade abundava de vadios; lembrou então que uma carta régia mandara construir no Rio uma “casa de correção, que sendo utilíssima, ficou no esquecimento, apesar de ser bem projetada para reprimir os vícios, promover o trabalho e tirar dessa ociosidade uma espécie de lucro!
Mandou para a Ilha das Cobras todos os vadios que se encontraram, e que ali praticassem nos seus ofícios, e vendendo esses produtos, os cofres do governo tiveram uma melhora, mesmo pequena.
Os trabalhadores foram recrutados pelo mesmo sistema: vadios sem ofício, mandou que fossem trabalhar na construção do Passeio Público!
O certo é que Luiz de Vasconcelos cumpriu com o prometido, fazendo aparecer dinheiro e trabalhadores, e em menos de quatro anos inaugurou-se o Passeio Público “ao bom povo do Rio de Janeiro”, que teve imenso sucesso.


Aberto ao público em 1783, muito estimado pelos cariocas, e não só, foi-se deteriorando com os anos, em que D. João V e os primeiros tempos do Império o negligenciaram. Finalmente, em 1863, reabriu novamente, por imposição de D. Pedro II, e mesmo tendo sofrido algumas alterações ainda hoje é um ícone, infelizmente quase esquecido, nesta cidade... maravilhosa... ?

Tem muita história por aqui. As antigas vão sendo esquecidas, atropeladas pelo desconcerto e desabamento da moral e da ética que o país atravessa, e que sufoca o povo, que já não acredita em nada.
Mas foram diferentes os tempos passados.
Por razões de ordem filosófica ou teológica os religiosos que vinham para o Rio, nem todos, como é de supor, viviam em constante luta com os outros habitantes, comerciantes ou agricultores, por causa da questão dos escravos. É evidente que muito religiosos os queriam livres porque também se aproveitavam da sua mão de obra quase de graça! E as desavenças eram muitas.
Em 1639, Filipe III(/IV) requereu à Sé Apostólica a elevação da prelazia do Rio a bispado, e nomeou, como administrador eclesiástico o dr. Lourenço de Mendonça. Nessa época já o Rio vivia numa desmoralização... avançada.
O dr. Lourenço chega ao Rio em Setembro de 1932 e quatro dias depois já sentia uma violenta oposição, chegando ao ponto de os seus inimigos terem introduzido na sua residência um barril de pólvora, com quatro pavios, e o colocaram junto à cama do prelado. Por muito sorte o dr. Lourenço escapou à tentativa de assassinato, mas a casa ardeu e desabou!
Procedeu-se a uma devassa, e o resultado foi contra o prelado que teve que pagar a conta! Contra ele “choviam libelos inflamatórios” recorrendo a crimes inventados, e por fim, sem conseguirem vencê-lo, tramaram levá-lo preso num bote até fora da baía e abandoná-lo no mar aberto, ao sabor do frio e das vagas!
Avisado, o prelado embarcou numa nau que o levou a Portugal, em 1637, onde não só foi inocentado como eleito bispo do Rio de Janeiro, cargo que ficou só na honra porque não voltou para este inferno!
Os cariocas podiam repetir esse tipo de “bota-fora” a tanto malandro que por aqui vagueia e se enche!

Estácio de Sá, em 1567, depois de bater os franceses, fundou a cidade do Rio de Janeiro num dos morros dominantes, ponto alto, com bela vista para todos os pontos da baía, morro esse que depois de ter sido conhecidos por diversos nomes terminou sendo o Morro do Castelo. Aí se fortificou, se edificou a primeira igreja de São Sebastião o orago desta cidade, a residência do governador e por aí mesmo começou a cidade, que não tardou a preferir instalar-se nas áreas baixas do que ficar lá no alto. O Rio era uma região de lagos, pântanos e morros, mas foi mesmo na parte baixa que a cidade se desenvolveu, e o Morro do Castelo foi assim votado ao ostracismo.

O Morro do Castelo em 1855

Volta e meia desciam pelas encostas do Morro uns deslizamentos que sempre faziam os seus estragos, ajudados pelas chuvas, algumas escavações e por particulares que se utilizavam do seu barro. Em 1759 foi o primeiro, não muito grave, que assustou menos do que a inundação de três anos antes, de que Baltazar da Silva Lisboa nos seus Anais do Rio de Janeiro, deixou este relato:                     
As trovoadas ocasionavam na cidade grandes inundações. Em 4 de abril de 1756, depois de uma hora da tarde, choveu tão grossa e copiosa chuva, precedida de veementes con­clusões do ar e espantosos furacões, por três dias sem interrupção, que o temor e o susto se apoderaram de tal sorte do ânimo dos habitantes, que desde a primeira noite muita gente desamparou as casas, as quais caíram, fugindo sem tino para as igrejas. Desde então, as águas cresceram de tal maneira que inundaram a rua dos Ourives e entraram pelas casas, por não caberem pela vala. No dia 5 do dito mês, saindo o Santíssimo da Sé, o sacerdote que levava o Senhor foi descalço, e bem assim os irmãos da irmandade do Santíssimo. Todo o campo parecia um lagamar. Vadeavam-se as ruas de canoas, e no dia 6 uma nave­gou desde o Valongo até à Sé (que estava na igreja do Rosário dos pretos) com sete pessoas.
O segundo e terrível desmoronamento do Morro do Castelo aconteceu em feve­reiro de 1811.                                           
No dia 10 de fevereiro desse ano, pelas 11 horas da manhã, começou a cair uma violenta chuva, que continuou incessante por sete dias. As ruas e casas fica­ram inundadas. A rua da Vala conservou-se durante todo esse tempo com cinco palmos d'água, e no campo de Sant’Ana (hoje da Aclamação) navegavam canoas. O príncipe regente ordenou que se conservassem abertas as igrejas, onde, apesar da inundação, rezavam os padres e os fiéis.
E fácil compreender o susto da população, que falava tremendo, em um novo dilúvio.
E pior do que tudo isso, em um desses tristíssimos e amargurados dias correu uma das abas do Morro do Castelo, ficando soterradas muitas casas da rua da Misericórdia e no beco, hoje rua do Cotovelo, e morrendo sepultadas em vida famílias inteiras.
Já no século XVIII se cogitara por várias vezes arrasar o monte, mas a população em vez de concordar zombava com a ideia.
Foi somente em 1922 que o governo decidiu desmontá-lo, com a argumentação que seria necessária aquela área para abrigar a grande Exposição Comemorativa do Centenário da Independência do Brasil. As suas terras foram usadas para aterrar parte da Urca, da Lagoa Rodrigo de Freitas, do Jardim Botânico e outras áreas baixas ao redor da Baía da Guanabara, e desafogou a baixa da cidade.

24/03/2017

terça-feira, 28 de março de 2017


O Rio de Janeiro
Histórias da sua História
- 1 -

Sempre foi assim e não vai mudar nos próximos séculos.
O Brasil bateu todos os recordes do mundo em ladroagem e corrupção, tem uma classe política com uma abissal falta de educação, cultura, ética, classe e conhecimentos, mas continua a ser um lugar meio mítico com o seu carnaval, as suas praias e as suas gentes, sempre amáveis.
Corrupção houve desde sempre, sempre. Lembremos só o Bezerro de Ouro, a ter-se passado foi há mais de 3.500 anos, os 30 dinheiros que o pobre Judas recebeu, os presentes que davam a Khrushchov quando premier dum mundo eufemisticamente chamado comunista, o governo do general Grant no EUA, considerado o mais corrupto de toda a história daquele país (incluindo Busch) e centenas, milhares de outros, entre eles o Príncipe Bernardo da Holanda que recebeu mais de um milhão de dólares de para que usasse sua influência junto ao governo neerlandês na aquisição de aviões de combate... americanos! No melhor pano cai a nódoa! Haja panos!
Joaquim Manuel de Macedo, médico, escritor e jornalista brasileiro (1820-1882) deixou-nos uma preciosidade histórica no seu livro “Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro”.
É deste livro que vos contar algumas histórias, ao mesmo tempo que vos desafiamos a visitar os lugares nelas citados.
Sabemos que é difícil andar pelo centro da cidade à procura destas histórias, sobretudo para quem, como eu, que já não pode andar quilómetros, e quase também não hectômetros, sem ter que parar para repor o folego que se gasta rapidinho.
Comecemos por algumas que não requerem visitas.
Entre 1769 e 1778 governou o Rio de Janeiro, como vice-rei, o Marquês de Lavradio, chamado modestamente Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão d'Eça e Melo Silva Mascarenhas! Aqui chegou com 40 anos, dinâmico, encontrou o Rio num estado de quase abandono, sujo, ruas de terra, praticamente sem esgoto, e deu nova cara à cidade. É considerado um dos melhores governadores que por aqui passou. Quarenta aninhos, na força da vida, cheio dela e de energia era um “rabo de saias”, e ia “traçando” as meninas e senhoras fáceis que, normalmente depois, se vangloriavam de terem acolhido o marquês em suas alcovas... e suas pernas!
O governador saía de noite, todo encapuzado, quase irreconhecível e sabia bem a que portas bater, levemente, para não despertar a curiosidade dos vizinhos; ali fazia o que “tinham” a fazer e regressava altas horas ao palácio. Como é de imaginar os vizinhos não eram cegos nem surdos, era sabida a fama e proveito de Sua Excelência, e das parceiras (óbvio) mas ninguém se atrevia a comentar.
“Vice-rei! Acima dele só Deus, porque o rei, mesmo estava a meses de distância e, muito ocupado com a vida das freiras!!!  (Só de uma prioresa, D. João V teve três filhos)
Havia nessa época no Rio um conhecido doido, pobre e inofensivo, que vagava pelas ruas, e dizia o que lhe apetecia. O povo sempre gostou de puxar pela língua daqueles que nada têm a recear. Um dia sua excelência seguia a cavalo pela cidade, para visitar o andamento das obras que mandara fazer e cruzou-se com o doido, Romualdo.
Achou graça ao vê-lo, parou o cavalo e perguntou-lhe:
- Romualdo! Que dizem de mim aí pela cidade?
- Dizem que Vossa Excelência limpa as ruas mas suja as casas!
O povo que estava por perto ouviu a resposta, não conteve o riso e o Marquês picou o cavalo e saiu a galope!
Alexandre Dias de Rezende era um homem pardo, filho de um reconhecido carpinteiro trabalhador, que lhe deixou uma pequena fortuna que ele soube aumentar, entregando-se ao comércio. Passado algum tempo já tinha comprado uma grande chácara no caminho de Mata-Porcos (hoje rua Estácio de Sá). Com meios de fortuna, mulato, Alexandre sofria da inveja de muitos incapazes, dizendo que ele teria desenterrado um tesouro escondido no morro da Conceição e não o teria partilhado com os verdadeiros donos, que não havia! Se isso o perturbou, ele continuou seu caminho, honrado e acabou respeitado.
O vice-rei, entre o bom governo que fez, foi organizar os terços ou regimentos auxiliares da cidade do Rio de Janeiro, dispôs que o 4° regimento fosse de pardos e nomeou capitão de uma das companhias ao invejado Alexandre de Rezende.
No comando desse regimento ficou um português, major Melo, austero, violento e grosseiro.
Os pardos desse regimento eram frequentes vezes vítimas do mau génio do comandante, e atribuíam também esses maus tratos por influência do Marquês que tinha sido humilhado pelo pobre Romualdo.
Entretanto, terminado o seu mandato, o governo passou para Dom Luis de Vasconcelos e Sousa, 4° conde de Figueiró, cujo coração também se descompassava ao ver as lindas Moreninhas ou outras de quaisquer variados tons de pele das cariocas, mas não consta que tenha sido um Casanova. Afável, duro quando necessário, duas pequenas passagens atestam a sua personalidade.
Continuemos com Alexandre e o major Melo que se manteve no posto no novo governo, quando um dia tratou indignamente o capitão, que, à noite, foi a casa do major expondo o acinte que sofrera e que não devia passar sem uma satisfação a todo o regimento.
O major olhou-o com desprezo, e disse-lhe com tom de idiota zombaria:
- Homens, vocês que são mulatos, lá se entendam.
O capitão Rezende cada vez mais ultrajado pelo major foi direto ao palácio e pediu para ser recebido pelo vice-rei, no que foi logo atendido. O vice-rei ouviu as queixas, despediu-o e mandou chamar o major.
Como é evidente o major acudiu “correndinho” ao chamado e, interrogado, orgulhoso, expôs tudo como se tinha passado.
O vice-rei, repreendeu-o severamente deixando claro o seu descontentamento e o insulto com que ultrajara o capitão Rezende e ordenou-lhe que se recolhesse, sob prisão, a uma das fortalezas.
O major ao ouvir a ordem de prisão:
- Preso, eu? Pois é verdade que V. Exma. me manda prender?
Dom Luis de Vasconcelos, respondeu-lhe tranquilamente:
- Homem, nós que somos brancos, cá nos entendemos.
O major Melo perdeu o comando do regimento, foi mandado lá para o Sul, e Alexandre Dias de Rezende terminou a sua carreira como Sargento-Mor, posto equivalente a coronel.
O “nosso amigo” Alexandre Dias de Rezende, homem bom, generoso, prestigiado, quis entrar para a Irmandade de S. Pedro de quem era devoto. Sabia que sendo pardo a sua entrada não seria fácil. Um belo dia lá se decidiu e fez a sua proposta a um dos padres daquela igreja – Luiz Gonçalves – que a levou a uma reunião da mesa. Para votar a entrada desse personagem, a reunião tinha presentes todos os membros, e a discussão foi renhida. Não suportavam a ideia de ver um pardo lá “misturado”! Um dos padres que depois foi senador do Império, foi de tal violência contra, que a mesa não o aceitou.
Quando o padre Luiz a quem Rezende tinha feito o pedido o informou da negativa o pobre-rico Alexandre, de tão chocado até chorou!
- Paciência. Os senhores padres não me querem. Paciência.
Alguns anos mais tarde Rezende vendeu a sua chácara (onde está hoje a sede da Prefeitura do Rio) e, apesar de estar já bem velho fez construir duas casas na rua de S. Pedro, uma delas ao lado da Igreja. O padre Luiz estranhou que ele, velho, ainda se metesse em obras e perguntou-lhe qual era a sua ideia.
- É um segredo que só será conhecido depois que eu morrer. Tenho muita pena dos senhores padres que, sendo pobres e estando velhos e doentes não tenham onde ficar e celebrar.
Não durou muito mais. Ao abrirem o seu testamento:
“Declaro que entre os bens que possuo são duas casas com sobrado na rua de S. Pedro... que deixo à irmandade de S. Pedro... para assistência aos Rev.mos sacerdotes que se acharem enfermos...” etc.
Alexandre Dias de Rezende morreu sem fazer parte da Irmandade, mas enriqueceu-a. (Nesta ocasião os padres não discutiram se deviam ou não aceitar o legado!)
Como benfeitor, teve ofício de corpo presente na igreja de S. Pedro e foram os padres que por fim carregaram nos ombros o caixão do pardo para a igreja da Ordem Terceira de S. Francisco de que era irmão. E mais: quando chegaram perto do convento de Santo António os “terceiros” estavam presentes para receberem o caixão que os padres de S. Pedro não queriam entregar! Quase brigaram pelo morto os que o tinham desprezado em vida!
Uns bons anos mais tarde a administração da irmandade de S. Pedro mandou colocar na sacristia um retrato de Rezende!
A bonita igreja de S. Pedro foi demolida em 1943 quando se abriu a Avenida Presidente Vargas.
Estava onde é hoje uma das faixas da mesma avenida.

Só mais uma do vice -rei Dom Luis de Vasconcelos.
Descia um dia o vice-rei, a pé, o morro da Conceição, acompanhado do mestre Vitorino a quem encomendara a execução do Passeio Público, para o que foi necessário desmontar o Morro das Mangueiras (que ficava entre o de Santa Teresa e o de Santo António) para aterrar a famigerada lagoa do Boqueirão, de águas paradas, sujas, malcheirosas, quando se cruza com uma liteira carregada por dois escravos que, com o imenso calor que fazia, suavam como se estivessem debaixo dum chuveiro.
Mandou parar, abriu a cortina que dentro escondia o “amo”, homem gordo. Ordenou-lhe que descesse do “bem bom”, e no seu lugar mandou entrar um dos escravos. Ao “patrão”, depois de o descompor pela vergonha e maldade que fazia aos seus escravos, ordenou-lhe que subisse ele a carregar a liteira para ver como era!
Vice-rei mandou, ninguém discute! Onipotente. E lá seguiu o “patrão” a carregar, encosta acima, sentadão na liteira, um dos seus escravos!
O mais curioso é que esse homem era rico, e até hoje, a ladeira tem o seu nome: Ladeira de João Homem!
Parece que o Dom Luis de Vasconcelos e Sousa faz, hoje, a maior falta no Rio de Janeiro... e não só!


04/03/2017