domingo, 3 de julho de 2022

 

Voltas e Reviravoltas


O caso que vou narrar passou-se no século XX, portanto há pouco tempo, e algumas personagens estão já no eterno e merecido descanso.

Caso conhecido através de alguém que foi muito amigo dessa gente.

No começo dos anos 20 do século XX, dois jovens portugueses decidiram deixar as suas terras e procurarem vida nova em África. Manuel Costa e João Pacheco, hm da região de Torres Vedras, o outro de Cantanhede, ofereceram-se como marinheiros e embarcaram para Angola na viagem inaugural do navio Guiné I.

Únicos “marinheiros amadores”, ganharam amizade durante a viagem, enquanto faziam projetos para o que deveria ser a nova vida que iam enfrentar. Nada de ficar na cidade, com empregos miseráveis. O futuro estaria no interior.

Assim que chegados souberam que um dos sócios da Companhia de Navegação, Celestino Correia, que ficou conhecido em Angola como grande empreendedor, estava a começar a construir o caminho de ferro do Amboim. Para isso precisava de pessoal responsável. Os dois amigos não exitaram. Era ali que iam começar a nova vida.

Bons trabalhadores, com algum estudo, não tardou a ocuparem cargos de responsabilidade, assim ganhando o suficiente para irem amealhando tudo quanto podiam. Levavam vida séria e de trabalho..

Foram ganhando respeito e o conhecimento de vários chefes – sobas – africanos, e decidiram que a melhor aplicação do dinheiro seria a compra de terras para o cultivo do café, e assim, independentes, mas sempre procurando terras vizinhas, quando o caminho de ferro chega ao seu término em 1941, ambos tinham já boas porções de terra, que paralelamente foram plantando e encontravam-se já reconhecidos fazendeiros, com boa situação económica, tendo ainda recebido um prémio pelo trabalho desenvolvido nas obras.

Já instalados nas suas propriedades, casados começam a chegar os filhos.

O casal Pacheco foi o primeiro a ser contemplado com um rapaz, o Carlos. Os Costa, só quase três anos depois porque a esposa teve problemas de saúde de adaptação, mas acabou pondo neste mundo uma linda menina, a Lúcia. Ao mesmo tempo desta nascia também a Sofia na casa Pacheco.

Nascidos em Angola, filhos de fazendeiros de café, onde não havia problemas de finanças apesar de não serem ricos, o mais importante, eram serem vizinhos, e assim terem criado profunda amizade entre os três.

Conheceram-se desde que a menina vizinha nasceu, que cedo veio a ser a sua grande companhia de brincadeira, e mais tarde uma espécie de namorico até que chegaram a noivar. Sofia sempre a par de todas estas evoluções.

Todos se gostavam como irmãos, mas à medida que iam crescendo esse amor fraterno mostrou que havia outro amor que podiam e deviam vir a partilhar.

Lúcia fazia-se uma linda jovem, viva, alegre, alta e Carlos rapagão forte, bonito, mais calmo.

Enquanto estudavam na Escola Industrial em Nova Lisboa), todo o dia saíam juntos, ele a deixava em casa, e volta e meia, mãe condescendente, arranjava maneira de os levar a verem um filme num dos cinemas da terra. Bons alunos, logo ele ocurso de engenheiro auxiliar é mandado para Portugal o curso superior de engenharia, coisa que o atraía desde muito novo, e já com boa prática, não só pelo curso feito em Nova Lisboa, porque não se livrava de dar manutenção às máquinas da sua fazenda e até de alguns vizinhos. Daí, também ser muito estimado por todos.

Na despedida para Portugal, promessas de amor eterno, mas a perspectiva era de uma separação longa… sempre perigosa para dois jovens namorados que se amavam desde crianças.

Cartas voavam de um para outro lado, com muita frequência, frases de amor e saudade a preencherem o papel.

Coimbra terra de doutores e amores, não perturbaram o estudante que sonhava só com a sua amada e com o final dos estudos para se tornar independente e até poder casar.

Os estudos corriam bem, em quatro anos estava formado, e foi logo chamado para cumprir o serviço militar. A guerra já tinha começado nas colónias portuguesas.

Lúcia, que da mesma Escola Industrial passara ao recém Liceu em Nova Lisboa, ingressa nos Estudos Gerais, em Luanda, que virou Universidade, e estudava Biologia.

Rodeada de jovens, de vida com liberdade, praia e passeios, coisa a que não estava habituada, curiosa e inteligente, não podia deixar de prestar atenção em alguns que lhe pareciam mais… mais atraentes. Não esquecia o seu amor, mas o panorama circundante davam-lhe que pensar.

Carlos, mesmo batalhando muito, ao ser incorporado não foi mandado para Angola, mas para Moçambique.

Requerimentos, queixas, etc., nada lhe valeu e teve que cumprir o serviço militar no Norte de Moçambique. Ao passar em Luanda encontraram-se os dois jovens, choraram com a continuidade da separação, mas não deixaram de marcar a data de casamento para o dia seguinte em que ele terminasse as suas obrigações.

O homem põe e Deus dispõe! O tempo e o afastamento… é que dispõem, e Lúcia começou a sentir que o calor e o entusiasmo que sempre sentia ao estar junto de quem amava, ia arrefecendo. Longe da vista… quantas vezes longe do coração, como o mostrou Gil Vicente dos Auto da Índia!

À sua volta outros Adonis iam ocupando o campo que o nosso engenheiro, militar, fora obrigado a deixar livre. As cartas começaram a aparecer mais secas. Via-se que o entusiasmo esmorecia. Do lado dela. Ele, no meio de uma guerra, dura e feroz, sonhava com o dia em que aquilo terminasse para correr para os braços daquela que amava e considerava noiva. Mas alguma lhe dizia que nem tudo estava a correr bem.

Chegava ao fim a comissão militar e uma carta trazia-lhe a notícia que o vinha roendo: ela dizia-lhe muito sumariamente que gostava de um colega, ótimo companheiro, não tinham namoro, mas ele era muito atencioso e, no mesmo curso, passavam várias horas a estudarem juntos!

Carlos não queria acreditar naquelas palavras; leu a carta várias vezes, se bem que nas entrelinhas, e nas linhas, percebia que o amor de toda a sua vida tinha voado para longe.

Esperou uns dias para lhe responder e, numa carta bastante seca, perguntava-lhe se o casamento, acordado entre eles, ainda era válido. Ia passar, já desmobilizado, em Luanda, dentro de duas semanas, e queria saber como proceder.

A resposta não demorou. Lúcia, habilmente disse que precisava de mais tempo para pensar, além de ainda lhe faltarem dois anos para terminar a faculdade.

Carlos caiu em si, e viu que o assunto estava arrumado.

Ao passar em Luanda, procurou-a e, direto, sem cerimónias disse-lhe

- Lúcia, tudo o que eu quero é que sejas feliz. Gostei de ti como de ninguém, e seria incapaz de te desejar outra coisa. Se algum dia precisares de mim, é só me dizeres. Mas não nos voltaremos a ver, a não ser, como te digo, que precisares de mim. Adeus.

Saiu, visitou pais, pediu à irmã que, em segredo, lhe fosse dando notícias da Lúcia, despediu-se também dos antigos prepostos sogros, e seguiu viagem para Portugal.

Engenheiro, experiente, com louvores obtidos no serviço militar, decidiu ir embora de Portugal sem sequer equacionar em voltar para a sua terra, Angola, que tanto amava.

Procurou trabalho nos lugares mais longínquos e não tardou a ir para a Austrália, já com promessas positivas.

Jovem, “boa pinta”, alto, inteligente, não lhe faltaram pretendentes. Mas Carlos perdera a confiança nas mulheres. No grupo de amizades que entretanto foi tendo, algumas descaradamente o queriam atrair. Homem bonito, com segura posição financeira… Era-lhe fácil aproveitar uns momentos de prazer, mas jamais voltou a equacionar uma união definitiva.

Todos os anos, no dia do aniversário da Lúcia, através de empresas que entregam flores em todo o mundo, ela recebia em casa um bonito ramo de flores, com um cartão simples; “De um amigo”, sem nome nem data.

Alguns anos passaram, chegou a independência de Angola, o êxodo dos portugueses foi quase total, os agricultores de café, os que não foram mortos, tiveram que abandonar tudo.

Tanto os pais de Carlos, como os da Lúcia, tinham já, havia alguns anos, à cautela, comprado casa com pequena quinta em Portugal. Estavam ainda de boa saúde, sexagenários, foram cuidar em Portugal de alguma coisa que lá tinham.

Carlos, há dez anos na Austrália estava muito bem economicamente, não ocasião da “fuga” ofereceu-se para financeiramente ajudar as duas famílias, o que não foi necessário, e com alguns intervalos de tempo ia até Portugal, mas só procurava estar com os pais que envelheciam.

Nessas viagens, a irmã saía com ele para passearem e contar-lhe o que sabia da Lúcia, de quem continuava amiga, apesar de se verem poucas vezes.

O casamento com o colega não fora feliz. O desmonte das vidas em Angola, abalou muitas vidas de famílias. O único filho que lhes nascera morreu muito cedo o que a deixou derrotada, e o marido era, além de pouco carinhoso, um “salta-salta” com outras mulheres. Lúcia tinha até confessado que ia se separar.

Tudo isso Carlos ouvia e sofria pelo antigo amor que jamais lhe saíra da cabeça.

Já de volta a casa, na Austrália, pouco tempo depois recebe da irmã uma notícia que muito lhe agradou. Sofia tinha arranjado férias e iria visitá-lo. Ela, marido e os dois filhos, um deles afilhado de Carlos, que logo lhe mandou uma boa soma para a compra das passagem e ficou ansioso pela sua chegada.

Dia da chegada, sábado, Carlos nervoso aguarda no aeroporto a chegada.

Mas leva um tremendo choque ao ver que a irmã não aparecia, e vê, com ar estupefacto chegar Lúcia, ar abatido depois de quase quarenta horas de voo e até envergonhado, continuando a ser uma bela mulher, vestindo com elegância, 1,65 m de elegância, simples e beleza.

A primeira reação de Carlos foi virar as costas e ignorá-la, o que seria uma tremenda falta de educação.

Lúcia, depois de um seco “Olá, Carlos” entrega-lhe uma carta da irmã, que simplesmente lhe dizia que, por razões de força maior – um problema de saúde de um dos filhos, pequenos, o afilhado de Carlos – teve que adiar a ida. Mas que esperava poder lá estar dentro de oito a dez dias.

Carlos fingiu que acreditava, e disse a Lúcia que a ia levar para um hotel na cidade. Não se preocupasse com o custo, seria de sua responsabilidade.

No caminho, pouca conversa trocaram. Só notícias dos pais de ambos, de Sofia e o problema da saúde do sobrinho, que Lúcia explicou o que tinha sido, e estava já bem.

Ao deixá-la no hotel, diz-lhe que descanse da viagem que “amanhã’ a ia buscar por volta do meio dia para almoçarem juntos.

Foi para casa, telefona à irmã, e diz-lhe que o que ela fez não foi decente. Sentiu como quem leva um tapa na cara! Ela desculpou-se com o filho, que estava já bem e que dentro de dias estaria lá em Melbourne e lhe explicaria tudo. E que a razão da Lúcia ter ido, não fora nenhuma brincadeira. Eram amigas de toda a vida, e agora que ela estava só e triste. Mais ainda porque a mãe lhe tinha falecido há pouco. Tudo isso deu a Sílvia a ideia de fazerem esta viagem juntas, o que infelizmente não foi possível.

Carlos não sabia como reagir. Tinha, no fundo, uma imensa mágoa, com a atitude que ela tomara. Ao mesmo tempo não esquecia o tanto que se amaram e compreendia que ela agora precisava dele mais do que nunca.

Passou uma noite difícil, a pensar como se comportar no dia seguinte. A verdade é que não podia simplesmente ignorá-la!

A sua cabeça não conseguia dizer-lhe o que fazer. Confuso, com a ferida aberta, vontade de sumir por algum tempo, foi buscar Lúcia.

Lá estava ela, elegante, atraente, com ar mais descontraído, à espera. Tudo isso Carlos ia anotando e tentando encontrar um caminho a percorrer.

- Teve coragem para lhe dizer: continuas muito elegante e bonita!

Ao que ela respondeu:

- Tu Carlos também continuas jovem. Não parece que passaram já tantos anos!

O bom-dia foi mais intimamente começado com um rápido beijo na face. Afinal eram amigos desde a mais tenra infância.

Já no carro Carlos disse-lhe que iam almoçar num parque para que ela pudesse começar por ver a fauna australiana, sempre agradável. Lá havia um pequeno restaurante, mesa reservada num discreto canto.

Lúcia, como todos os visitantes, encantou-se com os coala, wombat, cangurus e outros o que a deixaram bem descontraída.

Ao sentarem-se à mesa, Carlos diz-lhe:

- Lúcia, não vamos falar no que se passou com a tua vida. Podes contar-me sobre a tua vida profissional, mas nada de assuntos familiares. Desculpa, a minha ferida nunca fechou. Pelo meu lado pouco há para contar. Estou aqui há uns quinze anos, solteiro, a vida profissional corre bem, tenho alguns amigos, poucos, gosto de passear pelo interior deste imenso país e é tudo.

E a conversa começou a correr, cerimoniosa.

Nos olhos de ambos viam-se aflorar algumas gotas com o difícil momento que estavam a viver e recordar, e o coração do Carlos ia amolecendo. Chegaram até a momentos de riso quando algum detalhe das suas vidas o permitia.

Deram mais um largo passeio de carro e, no regresso ao hotel:

- Lúcia, quando a Sílvia chegar vão todos para minha casa que é grande. Lá terás também o teu quarto, mas por ora acho melhor que fiques aqui. Não deixarei de te vir buscar para um passeio ou jantar, mas amanhã tenho muito trabalho. Só posso aparecer tarde. O hotel está bem no centro da cidade, podes passear por onde quiseres. Tens aqui um envelope com um pouco de dinheiro australiano para o que precisares.

Outro beijo de irmãos, um “boa noite e obrigado; até amanhã”, Carlos saiu.

Saiu, mas ia diferente, não entendia se mais descontraído ou ainda mais perdido, sentindo um pedacinho de felicidade a aflorar lá no fundo. Sabia que continuava a gostar de Lúcia e previa que tudo aquilo ainda ia acabar bem. Mas como? Devagar, com cautela, sobretudo depois da chegada da irmã, que teria, de certeza muito para lhe contar. Não podia dizer a Lúcia que ainda gostava dela, mesmo sabendo que isso era o que sentia, era muito difícil afirmá-lo. Com Lúcia passava-se o mesmo, só não sabia como dar um passo em frente, depois do erro, grande, que cometera.

Ele disse-lhe, da última vez que se viram, que se ela precisasse dele era só lhe dizer. Chegara o momento.

Ela, desde há muito que estava precisando dele. E ele… desde aquele fatídico dia.

A ambos faltava coragem para falarem abertamente. Também não podia ser de repente que se dizem coisas assim que deixaram marcas dolorosas. Tinham que deixar o tempo fazer a sua parte, e a presença da família ia ajudar muito.

No hotel, sozinha, à noite, Lúcia chorava.

Domingo à noite um telefonema de Sílvia, avisa que vão chegar na próxima quarta feira. Que alegria Carlos recebeu. Com a irmã e sobrinhos em casa as “coisas” iriam encaixar-se.

Passaram esses três dias de espera, um jantar e um pequeno encontro no entretanto, e lá está Carlos na saída do aeroporto.

Foi grande a manifestação, muitos abraços e beijos à irmã e sobrinhos e, com carro extra, vão ao hotel buscar Lúcia. Outra manifestação entre as amigas.

Começa uma vida nova em casa. Alegria, descontração e a pressão de Sofia para que os dois, que ainda se amavam o dissessem um ao outro, para acabar com aquela situação falsa. A coragem para dar esse passo faltava aos dois.

Então, uns dias depois, no fim de um jantar com a família, tudo na mais descontraída disposição, Sofia, manda calar todos, porque tinha uma declaração a fazer!!! E dirige-se direto ao assunto:

- Carlos e Lúcia! Porque vocês não marcaram ainda o casamento? Alguém tem dúvidas que esse é o vosso destino, que está previsto desde que nasceram?

Uma salva de palmas e muitos “vivas” da família e os “noivos” a corarem com o susto. Mas Carlos logo tomou conta da situação.

- Lúcia e eu temos conversado muito nestes poucos dias que estivemos sozinhos. Nunca tocámos nessa hipótese, mas ambos sabemos que isto ia acabar desse modo. Faltava-nos sermos mais simples para o declararmos um ao outro. Eu sabia que a Sofia acabaria por nos encostar à parede! E ela tem razão! Assim: Lúcia, ainda queres casar comigo?

Lúcia não sabia como limpar as lágrimas que lhe corriam pela cara, não conseguia falar, e só abanava a cabeça em sinal positivo!

- Lúcia eu não tenho ainda 40 anos. Estou quase, e tu menos três. Ainda temos tempo para criar a nossa família, tu podes ainda ter uns quantos filhos. Já perdemos muito tempo. Não vamos fazer festa, mas vamos aproveitar enquanto aqui está a nossa família, já que os nossos pais não estão mais em idade de enfrentar 40 horas de voo para aqui virem. Nós depois vamos lá vê-los.

Levantou-se, pediu a Lúcia para se levantar também, abraçaram-se muito, ambos com lágrimas nos olhos e um beijo, a sério, selou, o destino deles.


N.- Talvez ainda por lá estejam e, desejamos, felizes.


03/07/22


_


sexta-feira, 24 de junho de 2022

 

Lembrando

Manuel Bandeira,

Alboácem ibne Ali Almaçudi

e até do Imperador Dom Pedro II - *


Andei anos a pensar

Ir embora pra Pasárgada.

Lá tinha no rei um amigo,

Que me dava lindas mulheres,

Até para dormir comigo.

Belo sonho acalentei.

Agora já não tem rei,

Os palácios destroçados,

Os hotéis todos fechados,

Os habitantes exilados,

Só restos amontoados.

Pensei então em Omã,

Naquela mulher linda,

Amiga da minha irmã.

Telefonei-lhe, atendeu,

Disse o nome, Sherazade!

Mostrou grande ansiedade

Em viver minha amizade.

Imaginem, Sherazade,

Tanta história para contar,

Mais de mil pra me agradar.

Diz que só conta ao deitar.

Irei sim se houver luar,

Onde eu possa respirar,

Tanto amor que há pra dar!

Logo, já estava em Omã,

Cheguei bem cedo, de manhã,

À minha espera só ela,

Linda, do sheik irmã.

Sherazade me abraçou

E logo ali me cativou.

Uma porção de criados,

Automóveis enfeitados,

Aguardavam, estacionados,

Todos muito alinhados.

Pró palácio me levou.

Lindo, bem decorado,

Muito quadro pendurado,

Com histórias do velho Estado.

Veio até antiga dama

Que fez questão de mostrar

Que o quadro mais bonito

Era o do Vasco da Gama.

Quando a questão eu lhe puz

Ela me confirmou

Que há mesmo muito tempo,

O tinham trazido de Ormuz.

Chega a noite, Sherazade,

Ela, uma beldade,

Uma ninfa, uma naiade.

Agarra na minha mão

Com muita suavidade,

Leva-me pra uma alcova

Com linda decoração,

Pressentindo de antemão

Viver longa felicidade.

Depois de me acarinhar

Logo começa a contar

Mil histórias para amar.

Deixou-me sem respirar!

Mas eu que estava a gostar,

Nem me atrevi a falar.

Fiquei com ela nos braços,

Em apertados abraços,

Até o sol nascer.

Olhei-a bem, queria ver

Se não estaria a sonhar.

Foram contos sempre lindos

Amores quase que infindos.

Nenhum se podia queixar.

Tarde já, quando acordei,

Olhei em volta, aturdido.

Estava muito confundido.

E devagar realizei

Que aquele tempo vivido

Foi só o tempo que sonhei.


*

Bandeira, fez-me sonhar;

Almaçudi, contou as histórias;

D. Pedro II traduziu do primeiro original.


06/2022

quarta-feira, 15 de junho de 2022

 

Utopia Globalitária



Não sei quem terá sido o primeiro a utilizar esta pequena “frase”, felizmente sem verbo, mas vi-a há poucos dias num texto escrito por um esquerdista aparentemente desiludido.

Apesar disso a sanha devastadora da esquerdopatia voraz, aparentemente, segundo alguns mais equilibrados, significará uma doença mental grave em estágio terminal. Quem sabe se será “O Canto do Cisne”! Tomara que sim.

Em medição de tempo cósmico, é evidente que tem que estar terminal, mas no momento está numa das suas fases mais agudas, em que o vírus se espalha mais rapidamente, auxiliado por tudo quanto seja aberração, voragem, ganância, e o mais evidente sinal de extinção manifesta-se, também, através do quererem desqualificar os dois géneros com que a natureza criou os animais, e que assim vivem há bilhões de anos, que são o macho e a fêmea, o masculino e o feminino.

Pensam os doentes esquerdistas que através dessa hipotética descaracterização vão poder dominar o mundo impondo as ideias LGBTistas, como uma das principais soluções da humanidade.

E o mais absurdo de tudo isto é que essas ideias estão já a ser forçadas, impostas, por leis e atitudes de governos de países de tão disparatado sentido de sociedade, felicidade e ética, doença esta que essa ignora, espezinha e atropela.

Atacam tudo que não se alinhe com o seu objetivo, inflam números para extorquirem mais dinheiro à sociedade (impostos) e, os covardes governantes e legisladores, com medo de perderem votos dessa quantidade “imensa” de leitores estropiados… vão-lhes concedendo benesses.

Em boa hora o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – que não pôde realizar o censo demográfico em 2020 por covidescas e evidentes razões, já previa e vai em breve executar esse censo, em que cada um identificará o seu género destacando se homo ou hetero.

Numa prévia já estudada, em que foram consultados mais de 3.000.000 de indivíduos três milhões – já se começou a ter noção de quantos “homo” existem independente serem isto ou aquilo ou trans aqueloutro. Até agora os movimentos dessa gente têm querido convencer que essa desequilibrada gente alcança 10, 20 ou 30% da população. Absurdo, que prevê obter assim mais verbas oficiais. O pré censo deixa desde já prever que não ultrapassa 1,5%!!!

Os coitados vão ter que ir arranjar verbas para as farras… talvez na Disney, que está cada vez mais globatizada, lançando barbies masculinas e superhomem de saias cor de rosa!

De vez em quando, felizmente raras vezes fico a pensar que se essa gente conseguisse impor as suas desequilibradas e gananciosas ideias e vícias, como se iria comportar o crescimento da população mundial!
É evidente que não cresceria. Regrediria.

Eu já cá não vou estar para ver isso. Talvez do meu poleiro, lá no alto, mesmo que esteja muito quente (ainda não se sabe se o putinho vai também cortar o gás ao Demo) eu assista a um renascer da humanidade.

Lá… no Além, o tempo não conta e ninguém fica esperando para ver o evoluir de toda a natureza, do Cosmos. Vê-se tudo no mesmo instante, isto se por lá houver tempo, instantes, minutos.

A esquerda caviar – porque não se alimenta de carapau ou sardinha assada – tem vindo a alimentar-se desta falácia e de outros crimes como o caso da pandemia do covid, que a mim ninguém me convence de que não esteja, ainda, a ser manipulada por clintons, soros, gates, xixi-pingos, e outros, procurando com isso alcançar o governo globalitário, além de matar e destruir vidas com doenças que a medicina ainda não sabe como tratar.

A grande Rússia, com os seus bilhões de km2 de permafrost ou pior, assusta a Europa, que senil e covarde assiste, medrosa, à luta desesperada da Ucrânia a quem o putinho quer roubar a mais rica parcela agrícola da Europa, além de toda a riqueza mineral.

Machos têm se portado os finlandeses e suecos, batendo de frente com os vizinhos.

Hábil, o otomano finge que e manda drones aos ucranianos, o bidé-n vomita disparates que têm servido para o putinho rir nas horas de folga, quando se entretém com a linda (e boa) alina, e ainda lhe sobra tempo para ameaçar os soberbos americanos que não se metam com ele que é macho.

Por aqui as “coisas” vão andando ao ritmo de samba desencontrado. Os supremacistas ministros empenhados até à alma (se a tiverem, se não até outra qualquer parte do corpo ou do bolso) em derrotar o único homem que até agora, desde tempos coloniais, não meteu a mão na cumbuca, o que deixa os inimigos (não adversários) danados por não o poderem condenar. Inventando prerrogativas que lhes não competem, para realçar ao poder o maior ladrão da história do Brasil.

Aqueles que, como eu, sempre foram babacas a pensar que o homem evoluiria para melhor, chega a olhar pra os demos do Além e vê-los a dar risada.

E eu sinto-me um pouco como a hiena: que come carne podre, só cobre a fêmea uma vez por ano, e é preciso que o macho alfa autorize e… ri que quê?

Há muitos anos que vejo a Europa a definhar. Digam o quanto mal quiserem mas sou obrigado a lembrar de Napoleão, Churchill, Salazar, De Gaulle e alguns mais que governaram impondo respeito e disciplina.

Hoje governam ignorantes, ambiciosos, mancomunados por potentados – indústrias bélicas, farmacêuticas – contrabando de drogas, armas e pessoas (pasmem, ó gentes, de pessoas) – outros vorazes bilionários, gastam-se trilhões de qualquer moeda e continuam a olhar para os povos mais primitivos, de onde todos descendemos, rasgando dos dicionários, se alguma vez os abriram, as páginas onde estavam as palavras ética, solidariedade, transparência, e outras semelhantes, destacando com canetas de cores vivas outras como conta bancária, paraísos fiscais, corrupção, etc.

Isto para se alcançar o tal governo global, a mais estúpida, antinatural e irracional Utopia Globalitária.

E, diz a Bíblia que foi Deus quem fez o homem!

Que nada! Talvez tenha sido uma Ameba – a “comedora de cérebros” – ou da Arcellinida, ou da Dickinsonia, antepassados que contam quase um bilhão de anos, para chegarmos ao topo da cadeia animal numa voraz autodestruição.

Quem poderá negar que esses covardes todos não sejam descendentes de Medusas do mar, que vivem há quinhentos milhões de anos… sem cérebro!

Talvez a única esperança esteja no Armagedom, com uma guerra que preparará o caminho para um tempo de paz e justiça.

Talvez.


04/06/22


segunda-feira, 6 de junho de 2022

 

O Último da Minha Criação!


Não há nem um mês que escrevi sobre um Amigo, que por um muito feliz acaso encontrei no Centro do Rio de Janeiro, em 1979.

Hoje acabo de receber a notícia que nos deixou.

Há muito doente, apático, há dias ainda reconhecendo-me numa foto antiga e até corrigindo o meu nome a quem estava a tomar conta dele.

Amigos desde data que se não sabe mais, mas da infância, e sempre mantendo viva essa amizade pela vida fora, é um golpe duro para quem, como eu está já fragilizado.

Só me resta, além de chorar, lembrar momentos alegres da nossa vida.

Passávamos as férias de verão em Sintra, onde nos encontrávamos quase todos os dias. Já garotões, eu com a minha eleita vivendo em Santo Amaro de Oeiras, era ele que me emprestava a sua bicicleta, luxo que nunca tive, para ir visitar a menina. No regresso, estradas a subir e vento pela frente lá ia eu devolver a bicicleta… estafado!

No tempo das aulas eu estudava em Évora, ele em Lisboa, formou-se em Direito, preparando-se para entrar na carreira diplomática. É chamado para fazer o serviço militar, colocam-no nos Serviços Secretos, transmissões cifradas, etc., e “esqueceram-no” lá dentro, só o libertando quase dois anos mais tarde.

O nosso pretenso futuro diplomata, tranquilo, sempre muito educado, não reclamou, mas viu os colegas passarem-lhe à frente e desistiu da diplomacia. Teria dado um grande diplomata.

Do pai herdou uma biblioteca importante e decidiu então dedicar-se a livros raros, sendo considerado o melhor livreiro de Portugal, montando um acervo espetacular, comprando e vendendo obras magníficas.

Foi um dos pouco amigos que convidei para o meu casamento, e bem mais tarde foi padrinho de casamento da nossa filha Helena.

Solteiro criou hábitos curiosos. Morava na Av. da República, saía de casa depois das 11 horas da manhã para ir ao café “Galeto” tomar o seu “matabicho”. Mesa reservada, não precisava encomendar nada porque os funcionários há anos que lhe serviam a torrada com manteira e o café com leite! Religiosamente sempre igual. Várias vezes fui ter com ele para ficarmos na conversa, e como para mim eram quase horas do almoço eu sempre comia alguma coisa… mais sólida.

Um belo dia, combinarmos ir jantar fora. Aliás uma bela noite. Já ambos de cabelo branco, o meu amigo tinha experimentado pontar a cabeleira, e aparece com ar comprometido! Ao ver a minha cara espanto, e sabendo como gosto de brincar, ainda estávamos a uns quantos metros de distância, logo ele se adianta e diz-me: Por favor; não digas nada!

Ri muito mas, bico calado, cumpri. No dia seguinte creio que foi despintar-se.

Sobre ele, nos Encontros Inusitados, há menos de um mês, escrevi isto:

Em Julho de 1979 fizemos Bodas de Prata, e a todos aqueles que tinham estado no nosso casamento, mandamos um simples convite para se juntarem a nós. A totalidade vivia em Portugal, mas foi um meio de comunicarmos com esses amigos.

Estava eu a viver em São Paulo e a trabalhar no Rio numa empresa em situação de desastre financeiro, o que me obrigava a, com frequência, dialogar com os agiotas, chamados bancos e ir empurrando com a barriga, como podia.

Uma semana o dinheiro ia todo para um imposto, na outra para o pessoal, a seguir pagar o custo social do pessoal, depois outro imposto, e não sobrava migalha. Pelo contrário. Uma canseira sem ver o fim do inferno.

Estou no Centro do Rio, rua do Ouvidor, rua cheia de bancos e cheia de pedestres, às centenas, e tinha que falar com dois dos membros da alta finança nacional e internacional. Passo por um, sigo em frente, mas pensei que seria melhor voltar atrás. Rodo 180 graus e estacado na minha frente, para não chocar comigo, um dos meus maiores amigos de toda a vida, alfacinha (lisboeta), com quem sempre estou quando vou à terrinha.

- TONI ??? Aqui?

- Cheguei ontem de Lisboa e amanhã vou para São Paulo. Tenho até aqui no bolso o teu convite das Bodas. Ia telefonar-te logo à noite.

Já não fui a banco nenhum. Entramos no primeiro boteco ou pastelaria e ali ficamos um bom tempo no papo.

Pois o Toni, António Tavares de Carvalho, tinha vindo ao Rio para negociar livros, ele talvez o mais famoso bibliófilo português, que, na nossa mocidade me emprestava a sua bicicleta (eu não tinha, nem dinheiro para isso) para ir de Sintra a Santo Amora de Oeiras ver a pretendida, que acabou por cair na minha conversa… até hoje!

Ao chegar a São Paulo havia greve de taxis! Uma simpática (très simpática) garota abordou-o ofereceu-se para o conduzir no seu carro - tipo “Uber” de hoje. A “Dildinha” - ou nome algo parecido – que viu no sujeito, todo lord, uma bela presa, não largou mais o passageiro. Creio até que o levava ao hotel, estacionava o carro, descia com ele e depois subia com ele até ao quarto, mas não vou garantir porque não sou de fofocas, nem tenho nada com isso.

Sei que o Toni, todos os dias enquanto esteve em SP, a partir de meio da tarde ia para nossa casa, jantava, e só de lá saía, à noite, quando nós nos queríamos ir deitar e o obrigávamos a telefonar à Dildinha que o ia buscar e...

Um dia, domingo, tive que ir visitar, fora de São Paulo um importante cliente (meu), rico, casarão num sítio imenso. Levei o Toni comigo e o senhor muito amável convidou-nos para almoçar.

A casa cheia, uma filhinha pré casadoira, bonitinha, e o preposto noivo, que se apresentou, mas o Toni não ouviu o nome dele e perguntou-me. Eu disse-lhe:

- Não é Dalton.

Logo o Toni:

- É Robespierre.

Era. Ficaram todos com ar de espanto sem entender como ele poderia ter adivinhado!

Meu querido Toni, possas tu ler este pequenino apanhado das nossas vidas, que tanto teriam para contar.

Não se chegou a ler.

Entretanto pintei, para o meu livro de “Retratos de Amigos”, o retrato dele, baseado numa foto de há uns 40 anos.

Agora, velhotinho, como eu, não sairá do meu coração enquanto ele teimar a continuar a bater.

06/06/22

terça-feira, 31 de maio de 2022

 

Os Meus Amigos


Os anos correm, alguns dos amigos dos tempos há muito passados foram percorrendo diferentes caminhos dos meus, e acabámos por quase esquecer ou perder a esperança de os voltar a encontrar.

Agora, então, que há muito passámos de idosos para entrar na classe dos velhinhos, mais difícil tem sido encontrar os que estavam “perdidos”… por mim.

Procurando nas chamadas redes sociais já encontrámos os descendentes de alguns desses que, de qualquer maneira compartilharam um pouco da nossa vida.

Há dias vi o nome, e a foto, de um deles, cabelo branco, mas não podia ser o amigo que fez o serviço militar comigo. Contactei-o. O mesmo nome do pai e o seu filho mais velho. O pai, infelizmente descansou já, há pouco tempo.

Conhecíamo-nos já em adolescentes, e entrámos para a tropa juntos, Regimento de Cavalaria 7, em Belém, onde estivémos um ano.

Lembro bem do seu carro, aliás o único que de todos nós tinha carro próprio, um Skoda verde, que não resisto de pôr aqui a foto de um, todo restaurado. Ainda demos uns passeios que ficaram na memória.


Há pouco ainda na militança, houve um baile chiquérrimo, que o Marquês da Foz, dava para “debute” da sua filha. Uma das minhas minhas irmã fazia parte das jovens que desse modo, à boa moda antiga, eram apresentadas à sociedade, foi também convidada, e eu, irmão mais velho tive que a acompanhar, mesmo estando com um pé engessado (tinha-me caído umas semanas antes um caixote com uma máquina agrícola em cima!!!)

Baile na sexta e, em princípio, militança no sábado. Fui falar ao major, contei-lhe uma balela qualquer e ele dispensou-me de comparecer no sábado. O meu “camarada” achou que ir mentir ao major lhe ficava mal e, também convidado, foi-lhe pedir dispensa. Tinha um baile que acabaria tarde… O major, todo macho, cavaleiro:

- No meu tempo nós saímos dos bailes e íamos diretos para o quartel.

E não o dispensou. Lembro que, já dia claro, quando eu regressava a casa, de taxi, cruzei-me com o tal Skoda e o meu amigo chateado!

Já mais tarde, valerosos cabos-milicianos, dia de grande chuvada, aproveitámos o pequeno intervalo do almoço para ir ver como estava o mar junto à estrada Marginal.

Tinha havido um grande deslize de terras que soterrara um combóio que ia de Cascais para Lisboa. Servir a Pátria e os aflitos, deixámos o carro na estrada e corremos para lá oferecer os nossos préstimos. Já lá estavam bombeiros e militares especializados e o chefe pergunta se éramos enfermeiros. Não. “Então por favor retirem-se que só podem atrapalhar o nosso trabalho.”

No final do tempo, um outro camarada-amigo-miltar, o José Luis Cardoso de Menezes (Margaride) (que também nunca mais vi) convida-nos para irmos às suas terras em Almeirim, porque estava na época dos melões (os melhores de Portugal) e terras dum vinho branco de alta qualidade.

Fomos sete, em dois carros, o outro era do Ernesto Lami (que também perdi de vista poucos anos depois de termos voltado a ser civis) e convidámos para ir conosco um cabo da Guarda Republicana que estava a fazer o curso para sargento. Homem simples, humilde, muito mais velho do que nós, atencioso.

Em Almeirim, na adega da casa Margaride, já nos aguardava uma larga mesa cheia de melões, copos e garrafas do famoso branco fresquinho. Comemos bem, bebemos muito melhor, e o Guarda ultrapassou os limites da sua capacidade. Tivemos que o carregar para o carro e ficou sentado no meio do bando traseiro. Eu à direita. Passadas umas quantas curvas o Guarda teve um vómito! Não houve tempo de abrir a janela toda e quem recebeu metade daquela “coisa horrorosa”… fui eu! Até chegar a casa carreguei aquele cheirinho…

Pouco depois acabava a nosso “guerra”.

Já paisanos, um pequeno jantar de despedida: Reconheço, eu, claro, por baixo do quadro do touro, à minha esquerda o Ernesto Lami, na extrema direita o Nani, ainda fardado um outro grande amigo que seguiu a vida militar, o Ramiro da Conceição Antunes, e de cara virada para o fotógrafo, o meu duplamente colega, de curso de Regente Agrícola e da “guerra”, o José Ravasco.

O Nani só voltei a vê-lo uma vez, em Luanda aí por 1965. Uma reunião dos Cursos de Cristandade. Eu tinha chegado um pouco atrasado e estava na entrada. De repente um senhor aproximou-se e parou ao meu lado.

Olhei para ver quem era e vejo um careca, uns restos de cabelo enquadrando a dita, branquinhos como os do meu avô, e quando, curioso, quis ver melhor quem era o velhote… era o Nani!

Grande abraço. Quis que almoçasse comigo no dia seguinte, mas estava só de passagem para São Tomé.

Nunca mais o vi. Saudade.

Naqueles tempos da tropa tinha mais ou menos esta cara que eu tentei guardar para o meu livro de Retratos de Amigos: o Nani, Jerónimo Carneiro.

Obrigado ao filho, também Jerónimo, que me fez rebuscar estas e ainda outras lembranças.



31/05/22


terça-feira, 17 de maio de 2022

 

Encontros Inimaginados - 4


Luanda 1967 ?

A história que se segue já a contei em “Contos Peregrinos” e não só, mas cabe uma vez mais aqui.

Nesse tempo trabalhava eu na firma J. Pinto Comercial.

Um dos clientes, Arnaldo era um homem simples, que fazia em sua casa, na cozinha, ajudado pela mulher, chapas metálicas para tipografia. Fotogravuras. Tudo muito artesanal. Um pequeno ampliador de amador, dois vidros presos com molas e fitas de borracha para as cópias, tinas de revelação remendadas, mas nada impedia que a qualidade do seu trabalho fosse bastante boa e reconhecida. Estava com muito serviço a que só com muito custo dava vazão. Precisava investir em algum equipamento. O primeiro que decidiu comprar custava naquela ocasião uns noventa contos, cerca de três mil e quinhentos dólares.

Foi à nossa loja, ar simples, modesto, pedindo um grande favor. O Cardoso, o colega que atendia clientes ao balcão, endossou-o para mim.

- Eu tenho pouco dinheiro, só posso dar de entrada tudo quanto tenho, vinte contos, e o resto, se me puderem fazer isso, pagaria em doze prestações. Não tenho outra condição e estou precisando muito dessa copiadora. Ficarei muito grato.

Conhecendo bem o que era esse tipo de trabalho, disse ao já cliente, mas de coisa pouca:

- Antes de prosseguirmos com qualquer negociação, quero ver em que condições você trabalha, o que faz, como faz, etc. Depois conversamos.

- Mas eu trabalho na minha casa. É uma casa modesta.

- Melhor. Se fosse casa de rico não tínhamos esta conversa. Vamos lá ver, se você não se incomoda que eu entre em sua casa.

- Não senhor.

Fomos. Morava perto, nas Ingombotas, um bairro antigo, a meio da encosta que leva para a parte alta da cidade e onde existiu em tempos idos uma cacimba que abastecia de água parte da cidade.

O seu trabalho era de ótima qualidade, os clientes que tinha angariado eram muito bons, estavam a dar-lhe cada vez mais serviço, e tudo levava a crer que com a aquisição de equipamento conveniente poderia multiplicar o seu movimento. Tudo visto e conversado:

- Muito bem. Vou pensar no seu caso. Como hoje já é tarde, volte amanhã à loja para conversarmos.

No dia seguinte, o Arnaldo, ar meio desconfiado, receoso que a sua proposta não tivesse sido aceite, cara de pedinte, entra na loja.

- Bom dia. Sente aí. Sabe uma coisa? Não lhe vou vender a máquina que você quer.

O homem empalidece ainda mais.

- Por quê. Acha que eu não vou pagar?

- Nada disso. Só com aquela máquina não vai longe. Só lha vendo se você comprar também a câmara vertical e a de contato.

- Mas se eu não tenho dinheiro nem para uma, como posso comprar três?

- Pode sim. Vamos fazer o negócio do seguinte modo: você dá de entrada o que propôs, isto é, os vinte contos. Depois as primeiras três prestações a seguir serão do valor de uma só máquina, como você tinha proposto, e o saldo total então dividido em oito parcelas a partir do quarto mês. Nessa altura você já estará com movimento suficiente para pagar tudo.

- Eu não vou poder pagar tudo isso. De maneira nenhuma. É muito dinheiro.

- Pelo que eu vi da qualidade do seu trabalho e conhecendo os seus clientes, vai pagar sim, e com uma perna às costas. A mim não me interessa nada afogá-lo em dívidas, como pode imaginar, nem procuro clientes que não paguem. O que eu quero é ajudar a resolver o seu problema.

- E se eu não puder pagar?

- Vai poder sim. Quer ou não?

- Bom... parece que não tenho outro remédio.

- Tem só uma condição no meio disto tudo. Só uma: eu sei que você vai ganhar muito dinheiro com o negócio, e não tarda está com os bolsos cheios, e ainda bem. Mas se algum dia entrar aqui feito calcinhas*, armado em rico, eu ponho-o fora da loja. Continue sempre como é hoje, um homem simples, trabalhador, respeitado, e não arme nunca em rico.

- Pelo amor de Deus. Eu alguma vez ia fazer uma coisa dessas!?

- Espero que não. Mas de qualquer modo não esqueça o que eu lhe digo.

Lá foram as máquinas todas para casa do nosso homem, que como previsto, não tardou a alargar muito o seu negócio. Pagou sempre com pontualidade, e sem apertos. Meia dúzia de meses depois já tinha até trocado o carro velho por um mais novo e conversível. Estava ficando ricaço!

Vinha com assiduidade à loja comprar material chamado consumível, as tais chapas, os produtos químicos, etc. O tempo foi passando. Tudo havia pago.

A sala onde eu trabalhava estava ligada à loja, sem no entanto ser visto nem avistar quem ali entrava. Um belo dia ouço alguém reclamando, voz grossa, quase agressiva, com o vendedor do balcão, o Cardoso, um homem amável, eficiente, simpático e sempre sorridente. Voz demasiado alterada e elevada, porque um produto qualquer que procurava estava em falta. O navio tinha atrasado, mas sempre havia em estoque alguma coisa que pudesse substituir o que estava em falta, de modo a que os profissionais não parassem.

O cliente, grosseiramente, perguntava se o dinheiro dele não era tão bom quanto o dos outros, porque na véspera se tinham vendido as últimas caixas do produto que ele procurava.

Chamei o Cardoso, e perguntei-lhe quem estava fazendo aquela gritaria.

- O Arnaldo.

O Arnaldo? Que maravilha! Logo este. Até parecia que eu adivinhara que um dia vinha a acontecer uma situação assim.

Levanto-me, atravesso a loja, abro o balcão e com ar de poucos amigos vou direto a ele:

-Tunda**! Ponha-se lá fora, já. TUNDA!

- Mas eu...

- Ponha-se lá fora. Aqui dentro ninguém grita. Ninguém tem melhor dinheiro do que qualquer outro. Isto é uma casa de trabalho e não uma taberna.

O homem envergonhado saiu, e eu atrás. Na rua:

- Você lembra-se qual foi a única condição que lhe pus quando lhe vendi todo aquele equipamento?

- Não. Não me lembro nada de especial. E aliás paguei tudo nas datas certas.

- Então vai já lembrar. Eu disse-lhe que você ia ganhar muito dinheiro, não foi?

- Foi.

- E disse-lhe ainda que se algum dia entrasse aqui feito calcinhas armado em rico que o punha pela porta fora! Lembra-se?

Com um ar de espanto e muito pendurado, confessa,

- Tem razão. Lembro, sim.

- Nós fazemos muito gosto em tê-lo a si, e muitos outros como nossos clientes. Mas não admitimos falta de educação a ninguém, do mesmo modo que não faltamos ao respeito a quem quer que seja. Desde o mais importante ao mais humilde. Se quiser continuar cliente desta casa, lembre-se que o seu dinheiro é igual ao de todo o mundo. E que aqui sempre o tratamos bem. Cada vez que vier com grosserias será posto fora.

O homem estava passado. Vermelho de vergonha. Pediu desculpa. Estaria nervoso, cansado, com um trabalho importante em mãos, e que o material em falta poderia impedir de o fazer, etc. Desculpas de arrependimento. O pior é que o arrependimento é próprio dos fracos!

Entrou novamente na loja e tratou com o Cardoso do que tinha a tratar como gente normal. Sempre se arranjou material substituto.

Rio de Janeiro. 1975.

Pouco depois de ter chegado ao Brasil, à procura de um carro para comprar, entro numa concessionária GM, ao fundo da Praia do Flamengo, que não existe mais porque ali hoje estão construídos uma série de prédios. No meio do salão um vendedor atende um outro cliente, barbado. Aguardo um pouco enquanto vou olhando os carros, que não apresentavam nada de novo de uma concessionária para outra, o que ainda hoje acontece, quando vejo o vendedor aproximar-se com o tal barbaças, e este, de repente:

- Olha o senhor Amorim. Que prazer em encontrá-lo aqui.

Olhei para aquela cara e disse-lhe:

- Estou a ver se reconheço alguém por detrás dessa barba, mas não vou lá!

Ele então virou-se para o vendedor da GM:

- Este homem deu-me um dia a maior lição da minha vida. Que eu nunca mais esqueci.

Era o Arnaldo. Obrigado a sair de Angola, como quase todos os angolanos de pele clara. Perdeu, como a maioria, quase tudo o que lá tinha, inclusive o tal equipamento. Como nos últimos anos conseguira juntar uns dinheiros, estava com algum respaldo para recomeçar vida nova no Brasil. Contou a história toda, passada em Luanda, quando foi posto fora da loja, que eu entretanto havia muito já nem lembrava, mas que depois daquela narração, feita pelo próprio, com um sabor real de verdade e saudade, não mais esqueci.

Demos um abraço forte, e depois disso nunca mais o voltei a ver. Era um bom profissional e de certeza não terá tido dificuldade em refazer a sua vida no novo país.

A lição que não esqueceu deve tê-lo ajudado a começar tudo de novo.

Espero bem que sim, e que esteja rico outra vez.

Sempre este caso me remete ao Cardoso que, pelas duas vezes que voltei a Angola em 1991, já não encontrei. Ótimo colega, tranquilo e eficiente. Um amigo.

******

Mais encontro e uma pequena história ligada às artes gráficas e ao meu tempo com o J. Pinto.

O Zé Pinto, começou a sua vida em Angola com material fotográfico. Dava-lhe para viver, mas era coisa pequena. Como tinha trabalhado primeiro, no Porto, empregado dum amigo que eu conhecia desde que nasci, fizemos conhecimento e amizade, e era a mim que chamava para que eu testasse produtos novos, como filmes, papeis para ampliar, máquinas fotográficas, etc. Acabei montando um estúdio em casa… no banheiro e fiz magníficas ampliações de fotos dos filhos, chegando a fotos com 50x60 cm. Começou em 1958!!!
Um dia recebe a proposta de
ser o agente para Angola do segundo maior grupo mundial de material fotográfico, a Agfa-Gevaert, e convida-me (já eu estava com a administração da Cuca atravessada na goela) para trabalhar com ele. Aceitei e fui gerir toda essa nova mercadoria, ficando o “patrão” com a parte financeira.

Só material fotográfico, mesmo que para amadores e profissionais, era um mercado pouco desafiador, e passei a interessar-me por artes gráficas, microscopia, raio x e outras especialidades, onde, para facilitar, não havia concorrentes habilitados. Passámos a ser os “chefes” incontestes dessas áreas.

Precisávamos de chapas de offset, para as gráficas, e a melhor de todas, - Ozazol - era vendida, quase por favor, pelo representante da Kodak, entretido com a marca maior da fotografia.

Decidi ir à Drupa - a maior exposição de equipamentos de impressão do mundo, realizada a cada quatro anos pela Messe Düsseldorf na Alemanha, procurar o que houvesse de melhor.

No dia em cheguei, fui, logo à Feira.

Eu a entrar e a sair um ex funcionário da Agfa, que eu havido conhecido dois anos antes, quando por lá andei a estagiar. Grande manifestação, o que faz por aqui, e lá contei que ia à procura de chapas offset.

Diz-me ele:

- Já não estou mais na Agfa. E tenho uma notícia boa: sou o gerente de exportação para África das chapas Ozazol! Mas agora tenho que sair. Amanhã de manhã venha ao nosso stand para conversarmos.

Fiquei até meio tonto. Ainda não tinha entrado na Feira e estava já com o indivíduo que mais me interessava contatar! Não precisava pesquisar mais nada. Mas entretanto fiquei o resto do dia na Feira, meti o nariz em tudo, onde sempre muito se aprende e guardei contatos para negócios futuros.

No dia seguinte tinha conseguido as melhores chapas! Um tiro na mosca!

*****

Vem a propósito de material fotográfico para utilizações muito especiais, um dos clientes, a Força Aérea. Filmes e material especial para fotografia aérea para fins cartográficos.

Visitei algumas vezes este cliente e era recebido por um funcionário, técnico, sempre mal encarado, ar de favor, mas como a nossa troca de ideias era somente técnica, acabávamos por nos entendermos.

Um dia este indivíduo, o Esdras, vai à nossa loja (J. Pinto) para falar comigo. Pensei que fosse sobre algum problema de filmes, mas ele foi direto a outro assunto.

Estava farto de trabalhar na Força Aérea, era cansativo, ele nem militar era, mas contratado, e queria sair de lá. Vinha oferecer-se para trabalhar conosco. Vendedor.

Eu fui direto:

- Esdras. Você é um sujeito rude, mal encarado, como pode conciliar esse seu feitio com o de um vendedor? Não estou a ver que se possa dar bem.

Parece ter levado um choque com a frieza com que o recebi. Digeriu a minha resposta e voltou:

- Eu posso tentar modificar-me.

Gostei da resposta. Humilde e sincera.

- Vamos fazer uma experiência. Você não se despede da F.A. Pede um mês de férias, a que tem direito e vem trabalhar esse mês conosco. Se ao fim desse tempo, você gostar e nós acharmos que está a fazer um bom trabalho, voltamos a conversar.

E assim foi. No final do mês o Esdras foi admitido.

E quando eu saí do J. Pinto e montei uma empresa para essas mesmas finalidades, o Esdras despediu-se para ir trabalhar comigo! Tínhamos nos entendido muito bem, e era um ótimo colaborador.

Entretanto em em 1971, já eu estava no banco em Luanda, e a empresa que abri com dois amigos, a REPRO, caminhava muito bem, sem termos roubado nenhuma representação ao J. Pinto, eu fui transferido para Moçambique para trabalhar na Mac-Mahon (cerveja e Coca-Cola) e não lembro mais de ter voltado a ver o meu amigo Esdras.

Onde quer que esteja um forte abraço, mesmo etéreo.


* Calcinhas – termo angolano que significa “homem modesto fazendo-se importante”

** Tunda – também termo angolano que significa “fora, sai, rua.”


Ainda faltam uns poucos Encontros.


16/05/22