terça-feira, 18 de junho de 2019



Amigos – 29
Especial

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O texto que se segue foi publicado no meu livro “Contos Peregrinos a Preto e Branco” em 1998, e em 2009 coloquei-o neste blog. Um seu amigo leu o blog e estabeleceu o contato. Quando pude ir a Portugal, fui visitá-lo. Estava no Algarve. Ele e a esposa receberam-nos como se eu fosse um rei com o meu séquito: mulher e duas filhas. Rei era ele.
Hoje recebi uma notícia que me deixou muito entristecido. O meu querido amigo, O ALBERTO, fechou os olhos. Falei a última vez com ele em Fevereiro, quando fez 96 anos e estava a sentir-se muito enfraquecido. Há poucos dias deixou-nos, e ficou um vazio, triste. Guardo, e guardarei a sua imagem, com uma saudade imensa. Um amigo raro. Mais de 1,90 de simpatia e humildade. Está agora entre os eleitos e isso devia deixar-me feliz. O meu egoísmo no entanto chora a sua perda.
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O pisteiro era um elemento fundamental na caça. Sem ele a caçada quase sempre se transformava num incómodo passeio de jeep.
Um homem especial. O caçador. Que pertence a uma classe à parte dentro da estrutura social em África. Não é qualquer um que é caçador. Quanto mais primitivo o homem mais em harmonia com a natureza ele consegue viver. Respeita e teme as suas forças que em grande parte deste continente ainda se impõem como uma espécie de religião. Mas em África como em qualquer outro lugar do planeta nenhum ser humano hesita em se sobrepor ao que hoje se chama de equilíbrio ecológico, ao ambiente. Basta que a população cresça, que os pastos do gado faltem, que lhe proporcionem qualquer negócio, para ele derrubar a mata, esgotar a terra, e se mudar para zonas mais intocadas. Assim se fez desde sempre, e fizeram-no brancos, amarelos, índios e africanos. Todos sabem que dependem desse equilíbrio, e enquanto as pressões não forem superiores à sua capacidade de resistir, a Mãe Natureza vai sendo mais respeitada. Fora disso...
Um "mucubal" no seu ambiente (foto do blog hunakulu)

Em todos os continentes os povos sempre se dividiram, e dividem ainda hoje, socialmente, sendo uns guerreiros, outros comerciantes, outros ainda agricultores, etc. mas pelo menos em África o caçador era talvez o mais especial. O caçador e o ferreiro. Depois de ser escolhido para essa função, quer por hereditariedade ou por mostrar para isso aptidões, é ensinado pelos mais velhos numa arte que além de muita ciência tem um quanto de esoterismo. Só quem viu pode ter alguma idéia do que se trata. A profunda comunhão entre o caçador africano e o ambiente é impressionante. Eram estes homens que serviam de pisteiros aos caçadores, colonos ou europeus. Perseguir um animal sem eles era quase impossível. Na savana, na mata, na floresta, no deserto, o pisteiro sabe onde se encontra a caça e que tipo de caça. Sabe há quanto tempo passou o animal, que animal, e até quantos. Pelo corte de um folha de capim distingue o antílope que a comeu e há quanto tempo cortou aquela folha. Outra folha de vegetação rasteira, pisada e que tende a retomar a sua posição indica também o tempo que passou. Um galho quebrado. A profundidade da marca no chão. Os excrementos, que são indícios precisos.
O bom pisteiro sente no ar a presença da caça.

A cerca de trinta quilômetros para norte da cidade de Moçamedes, hoje Namibe, o nome do deserto, há uma praia, a Baía das Pipas. À sua volta nada mais do que praia, muita praia, quilômetros e quilômetros de praias intocadas, o mar a poente o deserto no nascente. Ali a corrente de Benguela, ainda muito fresca, o mar riquíssimo em peixe, frutos do mar, águas azuis, transparentes. Poluição é palavra desconhecida. Um lugar maravilhoso. Paradisíaco.
Nessa baía se foram estabelecer no princípio deste século XX dois pescadores portugueses acabados de chegar a Angola. Nada, nada havia ao redor. Nem uma cubata, que eles tiveram que construir para morar. Foram pescar e viver disso. Precariamente, em termos econômicos, mas sem que nunca lhes faltasse comida.
Ambos se juntaram, talvez até tivessem casado de papel passado, com mulheres indígenas, uma delas irmã de um soba da região, de quem tanto um quanto o outro tiveram boa dose de filhos. Cinquenta anos depois só um dos casais estava vivo, velhote, uns quantos filhos, sobrinhos e netos à volta. Moravam nessa altura em cinco ou seis casas já de alvenaria. A cidade mais longínqua que tinham conhecido era exatamente Moçamedes! Uma existência de faina e vida tranquilas.

Esta fotografia com o velho amigo Alberto Gomes foi encontrada no blog princesa-do-namibe!

Um dos filhos, o Alberto, Alberto Gomes, um mulato grande, robusto, coração maior do que ele todo, uma mão enorme forte como uma torquês, simples, muito simpático, sempre sorridente e alegre, sorriso transparente como as águas daquele mar, uma figura humana que não se consegue esquecer.
Podia quem quer que fosse chegar à Baía das Pipas, a qualquer hora do dia ou da noite, que toda a família logo saía de suas casas para ver o que estava acontecendo! Quem os fosse visitar levava normalmente vinho e cerveja, batata, arroz ou algo de mercearia que pudesse complementar o que a natureza e o seu trabalho lhes dava. O deserto, onde às vezes se passa um e dois anos sem chover, junto à orla marítima tem um nível freático muito alto, o que permite manter o ano inteiro uma horta produzindo ótimos e frescos legumes. E aquela gente tinha-a. E muito mais: tinha o mar. Geladeira não havia nem dela muito necessitavam, porque o mar fornecia a qualquer hora tudo o que quisessem. Era só chamar alguns garotos, os sobrinhos, que corriam para a água e passado pouco traziam uma imensa variedade de peixes, camarão, lagosta, mexilhão, e um monte de outros frutos do mar. Imagine-se como eram frescos!
Depois, acender o fogo, esperar um pouco e deliciar-se com tudo aquilo! Entretanto o Alberto pegava na sanfona tocava uns fa-ri-funs em ritmo misto da terrinha dos velhotes com influência angolana e saía um bailarico, porque mesmo que os visitantes não fossem de ambos os sexos, o que era raro, tinham como par as filhas, sobrinhas, uma irmã e até os pais, velhotes e engelhados os dois, que sempre davam o seu pé de baile!
A vida naquele canto quase esquecido do mundo era de uma pureza impressionante, e ninguém conseguia dali sair sem lá deixar um pouco do seu coração!
A velhota, talvez com setenta, oitenta anos, ainda se enciumava ao ver o marido dar um pé de dança com alguma jovem visitante! Era uma cena engraçadíssima, ternurenta.
A inocência, o carinho e a alegria dessas festas deu como resultado levar a fama do Alberto a expandir-se Angola fora, pelos amigos dos amigos. Todos queriam conhecer essa rara espécie de homem! Chegou um dia ao pessoal da marinha de guerra portuguesa, que patrulhava a costa.
Uma bela manhã com tremendo susto e espanto, aqueles simples moradores assistem cheios de pasmo a um imenso navio de guerra, uma fragata, fundear em frente à baía, coisa absolutamente inédita. Os maiores navios que ali tinham ido eram algumas traineiras de pesca, a pescar ou comprar o peixe ou o marisco que aquela gente apanhava e criava em viveiros. Um navio de guerra foi além dum espanto um temor: o que quereriam?
Do navio sai um bote com dois marinheiros e um sargento, que ao desembarcarem são rodeados por toda a população local, que não devia ultrapassar umas vinte pessoas, entre adultos e crianças.
- Quem é o senhor Alberto?
Alberto, desconfiado, apresentou-se.
O senhor comandante Navarro manda convidar o senhor para almoçar a bordo.
- A mim??!!!!
O humilde e grande Alberto convidado por um comandante dum navio de guerra para almoçar a bordo, era o máximo que ele nunca tinha esperado que a vida lhe proporcionasse! Correu a casa vestiu uma roupa melhorzinha e seguiu no bote. À chegada ao navio, a cerimonial guarda de honra, apitos, continências e apresentações, que todos queriam conhecê-lo, e o Alberto, grande e humilde, espantado e confuso, sem compreender bem o que lhe estava acontecendo, sempre com o mesmo sorriso aberto, franco.
O comandante, amigo de amigos, quis também conhecê-lo e achou que face à fama do Alberto esta seria a melhor maneira de lhe retribuir a simpatia que ele difundia.
Visita ao navio, surpresa e espanto atrás de espanto e surpresa, que finaliza com o almoço na sala dos oficiais. O Alberto não cabia em si de felicidade. Durante o almoço contou inúmeras peripécias da sua vida simples. Todos se divertiram e saborearam aquela alma.
No fim, o convidado, comovido com tanta honra que pareciam lhe prestar, e prestavam, abre os braços e só consegue exclamar:
- Eu, e os meus oficiais!
Foi a apoteose.
Se ele um dia pudesse ler esta singela homenagem que com muita saudade e respeito também para ele aqui fica...
Mas, lá na Baía das Pipas, se fosse madrugada ou já de tarde aproveitava-se para dar uma volta pelo deserto, que generoso também, sempre fornecia alguma peça de caça para complemento daqueles manjares divinos.
Numa das vezes saíram num Fusca dois dos visitantes e o Alberto que conhecia aqueles trilhos todos como as suas próprias mãos, apesar destas serem enormes! Nesse dia a caça parecia teimar em não aparecer. Uns cinquenta quilômetros adentro do deserto encontraram um caçador mucubal, da tribo Cuvale habitante aquela região, que seguia tranquilo o seu caminho, aparentemente sem destino, porque parece que o deserto nunca leva a lugar algum! O deserto parece não ter fim.
Alberto mandou parar o carro e foi consultar aquele homem. Saber se ele tinha visto alguma caça ou se sabia onde encontrá-la. O homem, figura de legenda, pele escura como a noite, rosto sereno de máscara, sempre em silêncio, afastou-se uns vinte metros do carro, esteve quase imóvel por algum tempo, virou ligeiramente a cabeça para um lado, depois para o outro e quando se aproximou de novo, levantou um braço, apontou numa direção e disse secamente, na sua língua:
- Ngongo. As zebras, estão ali.
As zebras ninguém iria matar, mas ver valia sempre muito a pena. Meteu-se o carro a caminho, andando com facilidade já que o terreno plano permitia correr a sessenta ou mais por hora. Andados uns quinze minutos, dez ou quinze quilômetros, lá estava uma manada de zebras. Uns trinta animais. Exatamente na direção que o caçador mucubal indicara! Como ele o soube? Só ele sabe!
Valia muito a pena ir à caça só para ver o pisteiro conduzir os caçadores. Sempre em silêncio, passo ligeiro, nenhum detalhe por muito ínfimo que fosse escapava à sua atenção.
Muitos homens se ofereciam para acompanhar os caçadores, mas se não fossem pisteiros, a caçada não rendia, e até se chegavam a perder no mato!
Uma classe de gente muito especial.
Aahh! Baía das Pipas! Onde o Alberto guardava, religiosamente, num pequeno barraco coberto a chapa de zinco um velho Ford A, bem enferrujado com o ar do mar e com mais de 30 anos (isto passou-se em 1962 ou 3!). Era o orgulho dele: “O melhor carro para andar no deserto!” Devia ser mesmo. E prosseguia: “É só pôr um pouco de gasolina no depósito que ele pega logo”. Dizem-lhe os amigos visitantes: “Trabalha assim bem? Então vamos tirar do nosso carro que tem bastante”.
Comentário final do Alberto: “Só tem um problema. Falta-lhe a bateria”. Há quanto tempo?
“Bem, a última vez que o pus a trabalhar foi há uns nove anos”!
Grande Alberto!


quinta-feira, 13 de junho de 2019


Amigos – 28

Em Luanda havia um lar para garotos abandonados ou órfãos, que se chamava “Casa dos Rapazes de Luanda”, fundada em 1947, de que falei no meu livro “Contos Peregrinos a Preto e Branco”. Ali viviam, alimentados pela caridade e sobras de gente com mais posses, mais de centena e meia de garotos, encontrados nas ruas ou órfãos em condições de grande abandono, orfandade ou simplesmente pobreza, se pobreza é coisa simples.
Nesse tempo esta Casa, era dirigida por um padre, meu xará. Impressionava ver aquela imensidão de garotos, vestidos e alimentados, alegres e tristes, abandonados e recolhidos, sem o calor dos pais, dos avós, dos irmãos, mas com o carinho que os poucos que ali trabalhavam, conseguiam multiplicar para chegar um pouco a cada um.
Aproximando-se o Natal, combinámos passar a noite da Consoada junto daquela garotada. Nós e nossos oito filhos e mais o casal Milu e Alfredo e seus também oito filhos.
A seguir ao jantar, o padre que tinha recolhido uns quantos brinquedos, usados, que os meninos ricos em vez de terem jogado no lixo faziam a boa ação de os dar para os pobres, foi distribui-los. Alguns em bom estado, grande parte... era lixo.
A cena chocou. Achei uma infâmia que na noite de Natal uma criança que pouco ou nada tem na vida, nem a família por perto para a abraçar, recebesse um presente que era mais uma ofensa à sua dignidade de pobre.
Ali mesmo fizemos uma espécie de promessa: aqui não volta a entrar lixo. Lixo é lixo, não é presente para criança, por muito miserável que ela seja.
Um dia disse ao Padre:
- Vamos montar uma “Operação Sótão”. Sei que já se fez isso uma vez, não sei quando, numa cidade de Espanha e recolheram-se montes de coisas úteis, de roupas a móveis, livros, tudo, tudo o que se puder imaginar e que as pessoas guardam, a maioria das vezes para nada, só para os ratos roerem.
- Mas aqui em África não há sótãos, e muita gente nem sabe o que isso significa.
- Trocamos o nome, sei lá... “Operação Limpeza”. O fundamental nisto é a preparação e divulgação.  Pense no assunto e daqui a dias voltamos a falar.
Dias depois já tínhamos algumas das idéias para pôr o plano em funcionamento.
- O meu amigo Fernando, grande fotógrafo, há-de aqui vir fotografar os garotos. Com um bom slogan, vamos projetar essa fotografia nos cinemas. A Rádio Renascença, põe os microfones à nossa disposição. Os jornais com quem falei vão ceder espaço para igualmente se divulgar a mesma fotografia e o slogan.
O Padre quis também participar da organização e, como dois a cavalo no mesmo burro... não dá:
- Padre: o senhor não sabe rezar?
- Essa agora? Então não havia de saber? Que pergunta é essa?
- E o senhor sabe que lá em cima o Patrão ouve e atende a pedidos para fins decentes, sobretudo quando feitos por crianças, não é?
- Sei. E então?
- Então o senhor reza e deixa a organização comigo. Assim vai dar certo. Pede aos garotos que façam também uma oraçãozinha, simples, que vão ser ouvidos.
Fez-se a fotografia, com um monte de garotos, sorridentes, mãos estendidas para o alto. E os seguintes dizeres emoldurando a garotada:
“CASA  DOS  RAPAZES  DE  LUANDA”
O que você já não quer, NÓS  precisamos.
Colabore com a  “OPERAÇÃO LIMPEZA”
Dias ...  a ...  vamos passar à sua porta.

Só isto. Os cinemas projetaram o slide, os jornais inseriram a imagem, as rádios locais falaram no assunto, e as pessoas perguntavam-se o que aquilo era.
Marcou-se uma data, uma semana antes da Páscoa, pediram-se a amigos que nos cedessem caminhões para correrem as ruas da cidade a recolher as dádivas, e prepararam-se algumas crianças da Casa junto com filhos nossos e de amigos, mentalizados para receberem tudo, tudo menos lixo.
Chegou o dia. Na Casa, padre e pessoal atarefados à espera ninguém sabia de quê! Na cidade, hora e local aprazados aparecem os caminhões. As crianças animadíssimas com a aventura que iam viver!
- Atenção! Última recomendação: nós não levamos lixo. Só coisas úteis. Aproveitáveis.
E aí vão pela cidade fora uns cinco caminhões, cada um com três crianças, sempre uma menina em cada grupo, de porta em porta. A meio da tarde começam a chegar os carros! As crianças de faces ofegantes, com imenso entusiasmo, todas ao mesmo tempo a quererem contar as suas peripécias! Os carros carregados! Em cima, roupas de cama, de vestir, algumas novas, como camisas e sapatos por estrear, livros aos montes, centenas de discos de música, rádios, toca-discos, geladeiras, fogões, bicicletas, sofás, cómodas, armários, estantes, livros, muitos livros, camas, mesas, ferramentas, máquinas diversas, como furadeiras e outras, até fotográficas, jogos e brinquedos, bolas de todos os tamanhos, etc., etc. Tudo em bom uso. Ninguém esperava que a resposta da população fosse assim. Falta de Fé! As orações das crianças têm força!
Onde guardar tudo aquilo? Era muito mais do que se esperava. O quarto onde os garotos passavam parte do tempo livre, uma espécie de salinha de estar, até àquela altura não tinha mais do que dois bancos. De repente lá estava um belo sofá, várias cadeiras, um rádio, gira discos, duas estantes com montes de discos e livros.
O mestre das oficinas, homem muito hábil consertou todas as geladeiras e ninguém mais bebeu água que não estivesse geladinha!
À tarde telefonou um homem dizendo que tinha uma carrinha Chevrolet, avariada, e ele já não queria mandá-la reparar, mas que a reparação era coisa pequena e até pagava o seu custo. O padre já ia mandar buscar, mas foi advertido:
- Se ele quer mesmo dar, que a venha aqui trazer.
E foi. Três dias depois estava a rodar! Foram máquinas antigas de marcenaria, mas ainda muito boas para apetrechar a oficina de aprendizado, e até uma pequena impressora, duas máquinas de soldar, e muita outra coisa. Tudo isso continuou depois a chegar à Casa dos Rapazes sem que se fosse buscar. Por fim até a oferta de um projetor de cinema de 16mm. sonoro, novo, passando as crianças a ter cinema toda a semana!
A “Operação Limpeza” acabou. Mas deixou uma importante marca na cidade, tão forte, que durante anos continuou a receber telefonemas de pessoas dizendo que tinham isto ou aquilo e perguntando se a Casa queria receber. O saldo final foi espantoso.
Depois da independência a Casa dos Rapazes foi desfeita!
Como é evidente, além da amizade com os garotos, surgiu uma amizade forte com o padre, que fui encontrar mais tarde em Portugal.
Eu seguia no combóio de Cascais para Lisboa, um senhor de barbas aproxima-se e pergunta-me:
- É o senhor Amorim?
­Não reconheci logo o barbudo e respondi:
- Atrás dessas barbas estou a reconhecer alguém, mas estou confuso!
­De repente caiu a ficha:
- Padre Freitas???
- Sim. Só que já não sou padre.
Saímos do combóio e fomos conversar num café. Muita coisa a dizer. Ele deixara o sacerdócio, casara e era professor de teologia duma faculdade. Já não teve mais filhos! Mas chorava a saudade daquelas centenas que lhe passaram pelas mãos.
Um dia veio ao Brasil e estivemos juntos. Voltou para Portugal e uma violenta doença fê-lo sofrer os últimos anos de vida. O meu bom amigo (padre) Francisco Freitas.
(infelizmente não tenho nenhuma foto dele)
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Na Cuca tive alguns administradores de quem guardo saudade e respeito, e especial simpatia.
Lembro, quando estagiei no Porto, do Eng. Seguro Ferreira, bem mais velho do que eu, mas muito atencioso, já em Angola, do famoso José Manuel Martins, que foi uma astro do Sporting entre 1926 e 28, sendo 11 vezes seu capitão, e toda a gente na Cuca o estimava muito por ser sempre bem disposto e ótima companhia, e além de outros daquele que vou agora referir.
Como já contei por diversas vezes que a minha saída da companhia foi causada pelo desentendimento com um administrador, porque, como já disse, desaforo... só levo de pobre.
Apresentei, por escrito a minha demissão, mas em Lisboa, durante um conselho de administração, um dos administradores, propôs que eu fosse nomeado diretor do que veio a chamar-se o Grupo 2, que era composto pelas novas empresas que entretanto a Cuca ia criando, tendo a fábrica de rações que eu montei do zero, sido a primeira.
Desta maneira eu sairia debaixo da alçada do que foi grosso comigo e continuaria no grupo, valorizado.
Mas a minha carta tinha sido já entregue e não houve volta. Paciência.
Saí.
Poucos dias depois esse administrador foi visitar-me onde eu estava a trabalhar. J. Pinto Comercial. Material fotográfico. Foi extremamente simpático, como aliás sempre fora, e era o único administrador que o pessoal da Cuca realmente considerava.
Amável, interessou-se pelo meu novo job e saiu de lá com um belo conjunto de cinema, 8 mm. De volta à companhia, chamou os diretores e chefes de serviço e fez questão de mostrar o eu lhe tinha vendido e que ele nem sabia como usar. Foi, sempre inteligente, uma maneira de mostrar àquela gente o colega que tinham deixado sair. Nunca esqueci essa atitude dele.
Anos depois, já eu estava no Brasil, visitei-o depois em Lisboa, casado de novo com uma simpática, muito simpática, senhora que eu conhecera de solteira. Almocei em sua casa, e soube com tristeza que a doença começara a abalar a sua saúde.
Um dia deixou-nos. E deixou-me uma dívida de gratidão que não consegui saldar, e um exemplo de correção e dignidade. Caetano Sanguinetti Beirão da Veiga.

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Na vida acontecem-nos coisas inesperadas, mas que se tornam marcos a jamais esquecer.
Saído de Angola, os primeiros tempos no Brasil foram assaz complicados. Um curriculum bem recheado, uma série de promessas dum éden profissional, promessas jamais concretizadas, quase que nem ensaiadas, um pouco dinheiro a sumir com vertiginosa rapidez, hospedagem em hotéis de terceira, enfim, um corre-corre atrás dum terreno em que pudesse usar a minha enxada de experiências.
Não sei já como surgiu, em São Paulo, um contato com uma firma especializada em projetos e equipamentos para olarias, para a produção de telhas e tijolos, onde fui muito bem recebido pelo proprietário, um engenheiro italiano, grande técnico em argilas e olarias, altão, simpático, tendo-se criado logo uma empatia especial.
Lembro de ter ido jantar a sua casa. Italiana. Para antipasto uma belíssima macarronada, que repeti! E quando então chega o prato principal tive que declinar. Aquela pasta tinha sido já um jantar ótimo!
Passei uns dias a seu lado, visitámos a oficina, alguns clientes, e recebo então uma proposta tentadora: como, ele me disse, eu valia bem mais do que qualquer dos funcionários que ali trabalhavam, tinha que me pagar bem mais. Mas isso assim de entrada iria causar mau estar, e a proposta era simples: da conta dele ia-me dando o dinheiro que eu precisasse e no fim dum mês já os outros teriam visto o que eu valia e o assunto ficava resolvido.
Entretanto, sozinho neste imenso país, a família ainda à espera em Portugal, as horas fora do trabalho eram ocupadas a ler os jornais. E isso foi a causa do meu desespero: um assassinato aqui, outro além, o sequestro duma criança, o assalto a diversas residências, e outras “atrações” daquela imensa capital, levaram-me a pensar que não era lugar para trazer a família, com sete filhos, tendo o mais novo cinco anos.
Em boa verdade, tive medo de ficar em São Paulo, e fiz a maior estupidez da minha vida indo para o Rio.
Um ano e meio depois regresso a São Paulo, não sei já porque não voltei a discutir trabalhar com ele, mas como precisei de abrir uma firma para vender os produtos que eu entretanto “inventara”, foi ele que convidei para ser meu sócio sem que tivesse que investir um só centavo.
Pouco tempo depois soube do desastre que se tinha abatido sobre o ele. A firma estava para falir!
A mulher, que geria as finanças, mancomunada com o gerente de vendas, atraiçoando o marido, nas finanças e nas camas, tinham montado uma arapuca miserável: a firma pagava antecipadamente as comissões sobre vendas, que se verificaram fictícias! Assim arruinaram o negócio, divorciaram-se e o meu amigo e sócio... sumiu.
Triste, parece que terá voltado para Itália, para a sua L’Aquila, nos Abruzos dos Apeninos.
Nunca mais o vi nem soube do seu paradeiro, mas ainda hoje lembro com saudade aquele italiano, grandão, simpático, competente, amigo.
Un abbraccio dopo quasi mezzo secolo, Umberto Sebastiani.

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Nas minhas andanças por este mundo de sobrevivência encontrei gente de toda a qualidade. Já esqueci os medíocres, recordo como anedota os vigaristas e os maus pagadores, mas guardo com saudade alguns que, de clientes viraram amigos.
Um deles, homem culto, jogador de tênis, inteligente, com doutoramento na Sorbonne, tendo feito parte de um dos governos do Estado de São Paulo, afável e sempre de ótima disposição, um dia me encomendou uma instalação de som e vídeo em sua casa. Casado com uma senhora de quem virei também a falar, advogada que fez parte da comissão que preparou a Constituição de 1988 no que dizia respeito aos assuntos da mulher, recebia-me em sua casa como uma amigo, tendo por diversas vezes lá almoçado e até jantado com eles, o que retribui, com muito prazer, em nossa casa.
O autêntico sósia do Omar Sharif! Tão parecido que um dia em Nova York decidiu ir jantar ao restaurante onde ele sabia que o ator costuma frequentar. À entrada foi logo muito cumprimentado, veio o gerente que levou para a “sua” mesa e que depois lhe faz a clássica pergunta:
- O de sempre, senhor Sharif ?
A resposta foi simples:
- Sim, o de sempre!
 Não sabia de todo o que ia beber, mas cumpriu o seu papel de perfeito sósia!
Era sócio, principal, duma empresa de informática que nessa altura trabalhava, e bem, o sistema MUMPS que havia implantado em alguns hospitais, muitos dos quais o utilizam até hoje.
A certa altura eu fui para Portugal tentar por lá continuar a vida, o que se verificou ter sido um tremendo falhanço, e este amigo, propôs-me levar esse sistema para Portugal onde a informatização dos hospitais simplesmente não existia.
A “linguagem MUMPS” era, e é, paradoxalmente complicada e simples, sobretudo para mim que nada entendo o que existe na “barriga” dos computadores. Ele forneceu-me toda a documentação disponível e em Lisboa surgiu um pseudo luso-brasileiro que disse conhecer o assunto. Quase um ano a trabalhar comigo, eu cego no assunto a ser explorado por quem nada sabia, e essa hipótese de entrar nos hospitais, que eu entretanto visitara e esperavam ansiosos pelos programas... acabou morrendo, e eu com vontade de torcer o pescoço ao vigarista.
Um dia o nosso amigo apareceu lá por Lisboa. Pensou em pôr algum dinheiro fora do Brasil e abriu uma conta num banco em Portugal... em nome da minha mulher, tal a confiança que havia entre nós!
Levámo-lo a dar uma volta por Sintra e um dia fomos almoçar a um antigo e ótimo restaurante, que se chama o “31 da Armada”! Como neste passeios ouviu uma frase bem portuguesa que, quando se quer mencionar alguém que nada vale e muito quer aparecer, chamam-lhe “carapau de corrida”!
O nosso amigo por fim já baralhando tudo e chamava-lhes então: “o carapau da Armada”!
O negócio não funcionou mas a amizade perdurou.
Nenhum negócio em que tentei por lá ficar não prosperou. Voltámos para o Brasil, e estive ainda algumas vezes com ele em São Paulo.
Chamou-se esse amigo Guilherme Dutra da Fonseca.


Fev/2019

quinta-feira, 6 de junho de 2019


Europa – Bre-shit – e outros

Aqueles que já têm lido alguma coisa do que tenho escrito, a propósito da política, na Europa, e não só, e do futuro, breve, que aos olhos de todos, até de cegos, se anuncia, sabe que eu sou bastante pessimista.
Comecemos por uma vista de olhos nos tão avançados países nórdicos, onde tudo parece perfeito, os deputados ganham o suficiente para viver e não têm quaisquer regalias suplementares, onde é de bom tom às sextas feiras ao fim do expediente os homens se irem embebedar com vodka e outras bebidas malignas que andam pelo mundo para perder o estômago...  e a razão.
Nos três países escandinavos, em poucos anos, os chamados autóctones serão menos do que os imigrantes muçulmanos, com famílias, filhos, primos, etc..
Já hoje o subsídio que dão a essa pobre gente – que lá chega com milhares de Euros nos bolsos – é superior ao que recebe um trabalhador, dinamarquês, aposentado com o salário mínimo!
Não tarda que se chamem Dinamarquistão, Suécistão, etc.
Problema deles, mas já temos o Belgistão e seguindo-lhe os passos não demorará o Holandistão e o Françastão.
Como é de supor a bem amada, e tantos anos ocupada Península Ibérica, e desde 1492 tão chorada de saudade e raiva, será obrigada a entrar no sistema, voltando a haver Al-Garb, Al Xaraf, Maiurka e outras áreas onde as lindas damas com suas burcas de damasco se irão estender ao sol para... descorar a roupa.
É bom não esquecer que ainda, no começo do século XX, havia muita mulher no Algarve – Portugal !!! – que usava burka! Parece mentira, mas não é.
O Império Britânico também já começou a agonizar. Faz tempo! A casa cheia de indianos, paquistaneses, africanos de todas as, muitas, colónias, muitos também saídos de outras áreas de conflito – eterno – do Médio Oriente, estrebucha agora para se separar ou não separar da União Europeia, para o que usaram o velho sistema do medo para levar os beibeiks – babacas em inglês – a votarem pela separação, argumentando ainda que isso lhes custava muito dinheiro, nunca referindo que de lá lhes chegava também uma boa e gorda soma de grana.
Hoje por essas bandas britânicas o que se assiste é mais ou menos ao mesmo que se vê por todo o lado: incompetência e arrogância, o mesmo sistema que usaram quando dominavam grande parte do mundo nos tempos vitorianos imperiais. Faltam-lhe os submissos súbditos a quem impunham ordens – racistas – e como os europeus restantes não vão muito nessa conversa, pensaram que o melhor era voltarem-se para dentro ao seu horrendo fish and chips. Mas valeu-lhes este período na UE porque a gastronomia melhorou bastante!
Como isto do Bre-shit se vai acabar ou não é um mistério, mas há pouco mais de 5 milhões foram para a rua exigindo outra votação. As casas de apostas já aceitam apostadores que queiram arriscar no fica ou no sai. Isto sempre acompanhado duns belos pints.



 O asqueroso Trump visita agora a Grande Bretanha, e procura semear mais divisão prometendo toneladas de ouro aos britânicos com o único objetivo de estrangular, ainda mais, a Europa.
Na França o napoleãozinho vaidoso proclama aos franceses que a Europa Unida jamais será vencida, mas franceses o que querem é saber do poder de compra, que está difícil, exceto para as muslimes que recebem do Estado subsídios para os filhos, coisa que elas fazem com facilidade e profusão. E exportam leite bom para a China e de lá recebem, em pó, leite feito de... pó! Sujo.
Dona Merkel, em tempos a inimiga pública número um dos portugueses, mas a única que teve coragem de lhes dizerem que deviam era vendar sol, vinho e praias (o que vem dando certo) está num equilíbrio desiquilibrado em cima do muro, vendo a extrema direita a crescer, com símbolos nazistas, mas que assim mesmo, como não chegam a parir tanto quanto os imigrantes, um dia vão enfrentá-los à paulada.
E os outros: os outros – Polónia, Hungria, Itália, Grécia e uns quantos mais – vão-se ficando pela UE mas não querem saber de imposições. Recebem as fábricas do eixo França-Alemanha, porque produzem muito mais barato, incentivam os alunos das universidades a que estudem por lá, a quem dão todo o apoio e a um custo muito baixo, vendem serviços médicos e hospitalares a metade do preço na França e Grã-Bretanha, exportam produtos agrícolas a preço atrativo, cortam a entrada a imigrantes, e assim vai a UE com as suas “doze estrêlas”... cadentes.
Pelo resto do Mundo: a Venezuela continuará a matar a sua própria gente enquanto o Mossad, – os melhores comandos do mundo– não forem lá e passarem a faca no pescoço do infame maduro que terá que cair, mesmo podre.
Pelo Brasil... tanto me bati, não exatamente por este governo que agora lá está, mas para que houvesse uma possibilidade de acabar com a canalha marxista/ladroísta que há mais de 20 anos vinha empobrecendo o país. E de que maneira!
Mas agora, lá está o novo governo com uma série de incompetências, que não roubam, mas estão pior que perdidos. Zangam-se uns com os outros, quando botam a boca na mídia dizem um monte de besteirol, dando a sensação que estão no meio do mar alto, navio sem motor, nem velas e um temporal em cima da cabeça.
É evidente que continuo a torcer para que dê certo, porque, se não der, a canalha da esquerda-caviar volta com toda a força e impõe a lei da sharia soviética e mais a ideologia do género com a única finalidade de destruir a célula base da humanidade, a Família, e poderem assim dominar as massas.
E o Cão-gresso parece empenhado em destruir ou desestabilizar o governo, o que não impede o presidente de condecorar os filhos que... esquece não vou dizer mais nada.
Como não haveria eu de estar pessimista?
A corrupção está a diminuir, mas... nem só de anti-corrupção vive um país.
Não tenho bola de cristal, mas já vivi e vi tanta coisa, mas o suficiente para ver que os meus prognósticos, para netos e subsequentes é triste.
Também sei que os homens são capazes de sair de dificuldades e cataclismos enormes. Mas enquanto imperar o bezerro de ouro...
A ver vamos. Aliás, a ver vão os que por aqui ainda andarem.

Entretanto a madame May... já está para lá de Junho, e o Brexit adiado  sine die, em França a madame Le Pen deu uma grande lição ao messiú Macron nestas últimas eleições, em Portugal a corrupção em todos lugares atinge níveis brasílicos, e, segundo me informam até a Câmara de Lisboa tem a cidade em semi abandono (terá? Pelo menos os jardins da Avenida da Liberdade um do ícones de Lisboa assim parece), na Venezuela o gangster Maduro está protegido pelo Putin e pelo Xi Jinping e seu sorrisinho maroto, de modo que o fala barato Trumpista não pode fazer nada, e o bandido bolivariano continuará a enriquecer – mais a família e comparsas – e a destruir o país e o povo....  (Que história de povo é essa ???)
A Coreia do Norte mata embaixadores que falharam nas negociações, e a China, os ministros corruptos. (Imagina se fazem isso aqui!)

Nos EUA da América, o país da Liberdade e outras coisas é que o paraíso se expande. Agora a Disney faz em Orlando e em França desfiles de LBGT, possivelmente para encanto da criançada, e o país progride... falsamente. Como em todo o lado, o mutuário é o servo do credor, e uma das principais maneiras que as elites têm para manter o resto de nós subjugados, é através dos $66.000.000.000.000 de dólares tal a montanha de dívida que o governo americano tem acumulada. A dívida pública e privada atingiu $66 trilhões até o final de 2018, ou cerca de 40 por cento do PIB global, de acordo com a Fitch Ratings. Estes trilhõesões todos são agora quase duas vezes mais que no final de 2007. Todos os dias, os benefícios do trabalho vão enriquecer outra pessoa. Uma parte dos impostos que são deduzidos dos seus salários é usado para pagar juros sobre a dívida do governo. Uma parcela dos lucros das empresa, provavelmente, vai para a manutenção de alguma forma de dívida de negócios. E a maioria dos americanos está continuamente fazendo pagamentos das suas hipotecas, seus empréstimos de automóveis, seus saldos de cartão de crédito e suas dívidas de empréstimo estudantil.
Sem falar na destruição, em alta velocidade do meio ambiente.
Sem falar também que o total das dívidas públicas e privadas de todos os países, equivale a 225% do PIB mundial. Bomba pronta a explodir.

Podemos pensar como Robert Bréchon, um especialista em Fernando Pessoa, que define o português, com o complexo de Deucalião (ou de Noé), só, sobre as ruinas do mundo antigo, que sente a missão de começar um mundo novo. (Mas isto foi pensado e escrito há 30 anos quando ainda havia em Portugal um restinho de ética e decência na administração pública.)
O que não há dúvida é que Fernando Pessoa descreveu o português como ninguém (apesar de eu me ter entusiasmado também ao ler Casa Grande e Senzala do grande mestre Gilberto Freyre) quando nos faz o retrato desses homens, e porque não? também mulheres, e diz que um verdadeiro português nunca foi português, ele sempre foi tudo! Para os outros povos se desnacionalizar é perder-se. Para nós, que não somos mais nacionais, se desnacionalizar é se encontrar.
Daí acreditar, como Bandarra e depois Agostinho da Silva, na crença no V Império, que vamos deixar para outra ocasião, porque acaba por fazer muito sentido. Quem acreditar no V Império, tem obrigação de se preocupar menos com o futuro! (E pode ir bebendo uns copos do tal Ramisco!)

E assim vai a vida, por todo o lado.
Triste.

31/05/2019


sexta-feira, 31 de maio de 2019


O Vinho de Colares

Pelas faldas norte da serra de Sintra, onde os ventos do Noroeste trazem água e frescura, corre um pequenino rio que teimosamente vai-se desembaraçando para chegar ao mar.
Quantas vezes fui no Elétrico de Sintra para a Praia das Maçãs! Os meus avós tinham uma quinta em Sintra onde eu sempre passei as férias de verão e, já depois deles terem ido, ainda para lá passei uns anos.
Era uma “viagem” magnífica. Aqueles carros abertos, sempre um belo fresquinho, até porque a estrada era, e é marginada por arvoredo, sobretudo belos plátanos que em muito lugar formavam quase um túnel.
Criança, ia com os meus irmãos e alguém a tomar conta de nós, e depois, adolescente em grupo de amigos sintrenses, alguns que, como eu, ainda resistem aos tempos, e muitos que já descansam.
Demorava para percorrer aqueles quase 13 quilómetros uns 45 minutos, era quase british nos seus horários, mas ninguém se queixava pelo tempo que durava o trajeto. Atravessava o que dantes foi Concelho e hoje é só freguesia, Colares. Era um passeio extremamente agradável, tanto na ida para a praia, a descer, como no regresso a subir. O carro elétrico seguia, sempre tranquilo, e às vezes até nos permitia sair um pouco e acompanhá-lo a pé! Brincadeiras de moleque.
A linha margeava a estrada e esta aquele riozinho bonito, estreito, sempre com belíssima água a percorrê-lo, conhecido por alguns como o Rio Galamares, local que fica no caminho para a praia, mas o seu verdadeiro nome é Rio das Maçãs, que deu o nome à praia onde encontra o mar.
Rio conhecido desde... desde ninguém sabe quando, mas já João de Barros no seu livro traduzido do húngaro, a Crónica do Imperador Constantino, de 1522 – que ele diz ser antepassado dos reis de Portugal – nos conta: “Rio muy gracioso que pelo meio destes pomares corre coalhado de muita fruta e flores. E com um ruído suave se mete no mar onde faz a repartição delas, lançando-as por tantas partes, que daí a 6 ou 7 léguas se acham muitas maçãs, peras, marmelos e outros sinais de terra, com que os navegantes se alegram. E saindo dos pomares entram em terra de pão, vinho, azeite e outros géneros de mantimentos e criação de gados, que a fertilidade da terra ali dá.”
Mapa de 1923, onde se vê bem o Rio das Maçãs. A linha azul. Clicar para ampliar.

E terra de pão, bom. Ótimo. No princípio dos anos 40, havia em Colares, quase ao lado da Adega Cooperativa, uma espécie de “tasca” – naqueles tempos era o que havia – onde no regresso da praia sempre parávamos para comprar o pão e levá-lo para o almoço na quinta dos avós, onde, ao domingo  se juntavam 15 a 20 convivas. E que pão....
Terra dos saloios, “çahroi” do tempo dos árabes, nome que lhes ficou porque esse era o nome do imposto que os agricultores tinham que pagar para vender os seus produtos em Lisboa.
Entre muita coisa que os anos me “obrigaram” a guardar, muito lixo e muita coisa interessante, infelizmente não vinho, não porque se teria estragado, e porque o fui entornando goela abaixo, está um pequeno opúsculo, editado em 1938 pela Adega Cooperativa de Colares.


Uma delícia e uma tristeza. Delícia pela descrição e fotos daqueles tempos – há mais de 80 anos – e uma tristeza por ver que pouco sobra da área plantada de vinha, e daí menos pomada, a melhor de Portugal.
Colares, pitorescamente situada num dos contrafortes da serra, a região ainda é belíssima pela sua exuberante vegetação, é um dos mais admiráveis centros de excursão desta região paradisíaca, como escreveu Jorge de Sena. Região afamada por suas frutas, pêssegos e maçãs, mas sobretudo pelo seu vinho.
Sabe-se que os romanos ali estiveram, e os árabes, haja em seu abono o nome que deixaram aos agricultores de toda aquela região.
Sintra foi conquistada aos mouros em 1147 e logo D. Afonso Henriques lhes proporcionou reduzidos tributos: “Os peões lavrando com um boi pagavam um sexteiro de trigo e cevada; lavrando com dois ou mais um quarteiro por alqueire de mercado; de cinco quináles de vinho e daí para cima davam um puzal. Por tudo o mais que ganhassem eram isentos de tributos.”
(Nota: um sexteiro era igual a ¾ de alqueire ou 1/6 de moio, moio igual a 60 alqueires. Quinal era uma medida de vinho equivalente a 5 almudes. Um almude teria 17 a 25 litros, mas puzal não encontrei o que seria! Mas como todas estas medidas evoluíram muito, não servem, aqui, mais do que uma ideia...)
Nota 2. Lancei um apelo a escritores e historiadores e 5 minutos depois tinha a resposta ao “puzal” = puçal, medida equivalente a 5 almudes. Dunque, igual a “quintal”! Muito obrigado meu querido amigo Dr. José Costa Carvalho)
Neste foral de 1154, Sintra limita com o Rio de Galamares! Só mais tarde começou a ter dois nomes. Rio navegável que entrava no mar por um porto sem areias. Onde?
Em 1255 D. Afonso III, concedeu o primeiro foral a Colares, e fez doação do Reguengo de Colares a Pedro Miguel e sua mulher Maria Estevão, com obrigação de plantarem vinhas. E ainda mandou publicar que quem cortasse  vinha ou derribasse caça era condenado a pagar 300 maravedis.
D. Diniz ajustou com os mouros que possuíssem terras em Colares, e doou a seu filho, infante Pedro Afonso uma adega, diversas vinhas azenhas e outros domínios em Sintra e arredores.
O Livro das Colheitas de D. Afonso IV mostra que em Sintra a produção de vinho era de três modios em Sintra e três nos arredores.
D. Fernando (1367-1383) autorizou a primeira exportação de vinho da região.
Em 1385, logo após a Batalha de Aljubarrota D. João I doou a vila de Colares ao Condestável D. Nuno Álvares Pereira, que ficou na família por séculos..
D. Manuel em 1516 renovou o foral e aumentou os privilégios de que gozavam, com a mercê de não pagarem portagem – o tal saloio – e reduzindo para um quarto o tributo dos frutos.
Tudo isto mostra que o vinho Ramisco tem desde o século XIII a sua “carta de nobreza”!
Havia naquela região dois tipos de vinho a que chamavam de Ramisco mas o verdadeiro é o vinho de areias. Pensam alguns geólogos que a costa, há cerca de mil anos estava muito mais terra adentro do que hoje. Consta até, pelo foral de Afonso III, que em Colares havia um porto de mar, do tempo do romanos, chamado Basa, que tudo leva a supor que hoje seja o Banzão!  
Foram os ventos do N e NO que carregaram a areia que hoje compõe os terrenos onde é, aliás eram, plantadas as vinhas do Ramisco.
E isso é que lhe dá toda a grande qualidade.
É bom não esquecer que foi a única cepa que a filoxera não conseguiu destruir, comendo as raízes. E para compreender um pouco isso vamos ver como se plantava esta vinha.
A profundidade das areias até atingirem o subsolo argiloso, oscila entre 3 e 10 metros. Os agricultores abriam valas de grande profundidade até alcançarem a argila onde espetavam os bacelos até 25 cm. de profundidade e, à medida que estes iam crescendo iam juntando à sua volta um pouco de areia. Demorava uns cinco anos até a cepa estar pronta. O curioso é que as raízes não se desenvolvem pela argila mas através das areias!
Ao abrirem as valas, algumas muito fundas, as cavadores corriam o risco de, com um deslizamento das laterais, ficarem soterrados. Para que isso não acontecesse tinha sempre um homem com um cesto na mão  e, se as paredes ameaçassem cair ele rapidamente atirava o cesto ao cavador que o colocava na cabeça. Assim não só podia respirar como era fácil de o removerem com rapidez!
Em 1938 havia 1690 hectares de vinhedos em chão de areia e 128 em terra rija, com uma produção de 2000 pipas (840.000 litros) e 600 agricultores. Em 1932 na tese que o prof. Gonçalves Pereira apresentou à Universidade de Toulouse diz que a produção atingia 1.276.041 litros de vinho de areias, mais de 50% do que acontecia poucos anos depois! Mas não se pode confiar nos números anteriores à criação da Adega Cooperativa.
Hoje parece que só sobram vinte e pouco hectares de vinho de areias, e não tardam a desaparece! Um crime! E uns 65 em chão rijo, o que... Hoje esses terrenos estão ocupados com construções, loteamentos e outros crimes, o que torna o plantio e cultivo em chão de areias, muito dispendioso.
Assim a produção atual, total de Vinho de Colares não deve ultrapassar os 10.000 litros, o e equivalente a escassas, muito escassas 25 pipas.
O que fica de tudo isto é que o Ramisco, tinto, de areias, é, de longe o melhor vinho de Portugal. Baixa graduação alcóolica mas uma enorme capacidade em envelhecer com grande nobreza e se poder beber com até mais de 20 anos!
Como todas as coisas, é preciso saber bebê-lo como este velho conhecedor e apreciador


Quanto você leitora ou leitor dava para estar agora a beber uns copos com esta figura fantástica? Sentado num banco de pedra e a acompanhar esta maravilha com o pão, bom, da região... já agora com chouriço que sempre vai muito bem como conduto!
Aaahhh! Tempos que já lá vão!

28/5/2019