segunda-feira, 21 de maio de 2018


IRÃ ?

Estamos numa altura da história da humanidade que, daqui a uns cem anos, ninguém deve saber contar muito bem. Dinheiro a chover por todos os lados (falso), cada vez maior riqueza e poder e, apesar de todos os avanços tecnológicos, aumenta a concentração na mão de umas dúzias sobre o trabalho, escravo ou semi escravo da esmagadora maioria.
E aumentam as “ditaduras democráticas” que conseguiram destruir o filosófico sentido de democracia.
Sempre, sempre, a humanidade viveu momentos, mais ou menos demorados, em que indivíduos de completa cegueira moral, e desmedida ambição, se auto convence que pode ser dono do mundo, e sai por aí ameaçando, matando, destruindo.
Raros desses tarados morreram em suas camas, acompanhados da família que choravam a sua perda, como o caso do Hitler, e uns quantos comunistas que desmandaram em algumas das “Repúblicas Socialistas Soviéticas”, porque a maioria vai-se safando.
Hoje temos bem presente outra ameaça global num tarado que os tarados americanos elegeram para presidente. O novo dono do mundo... o mundo mais fraco do que o dele.
Estou desejoso de ver o tão badalado encontro entre ele e o King Kong da Coreia, que, muito mais hábil e certamente melhor assessorado, vai deixar o grandalhão despenteado sem saber o que lhe dizer. Vai ser enxovalhado, e eu torço MUITO para que isso aconteça.
O único programa que ele tem para o seu país, que ainda é o primeiro em economia e poderio, é desmontar tudo quanto foi feito pelo antecessor, que, mesmo com defeitos, inerentes a todos nós, muito admirei e respeitei, não só eu mas muita gente por esse mundo.
O descalabro com o meio ambiente que o país vai pagar, em breve e muito caro, o famoso artigo da Constituição que permite que haja mais armas nas mãos da população do que habitantes, e tantas mortes fez e continuará a fazer, e agora esta palhaçada, dupla, sobre armas nucleares, que “ele só permite” aos amiguinhos!
Têm armas nucleares a Rússia, China, Pakistão, Índia e Israel (evidente – país pelos EUA criado), além da Grã Bretanha e França, (talvez mais alguns que fingem que nada sabem) países com quem ele não pode levantar a voz, que juntos terão umas 15.000 bombas prontas (!!!) e agora decide armar-se em guardião do mundo e tentar estrangular a Coreia do Norte – já chega tarde – mas sobretudo o Irã.
A imensa maioria dos americanos são de origem caucasiana – ingleses, irlandeses, alemães, etc. – portanto arianos, porque terão saído da Pérsia/Irã, e com quem, apesar de milhares de anos passados, não podemos negar as ligações e a cultura que deles recebemos.
O sr. trampa, se conseguisse fazer uma autoscopia... só veria, lá dentro, a mesma trampa, e um vazio de bom senso igual ao raio x dum tuberculoso terminal. Vaidoso, ganancioso, prefere apoiar os povos semitas, nos quais se incluem os judeus, mas sobretudo os sauditas, que o mundo inteiro sabe serem os grandes financiadores do jiadismo, mas... têm muito petróleo e compram aviões, canhões e outras armas de destruição, e ainda investem trilhões na economia americana, e europeia. Desde sempre se fala que um dia os árabes vão-se se embrulhar todos à pancada. A Síria tem o azar, ou a sorte, de ter um presidente alauísta, um ramo xiita, e daí a proteção que lhe dá o Irã. E a Rússia.
Segundo o jornalista político Guga Chacra:
O regime de Damasco há décadas é um aliado leal de Moscou e a Síria sempre foi a maior zona de influência russa no Oriente Médio. A Síria é um cliente da indústria de armamentos russa.
A única base militar da russa no Mediterrâneo se localiza em Tartus, uma cidade majoritariamente alauíta e bastião sólido de Assad. A Rússia é cristã ortodoxa e os cristãos ortodoxos sírios são protegidos por Assad. O patriarca cristão ortodoxo da Síria, que é bem próximo do de Moscou, abertamente apoia Assad.
Sírios costumam estudar na Rússia e muitos se casam com russos e russas, levando-os posteriormente para morar na Síria.
Rússia teme o radicalismo islâmico sunita pois grupos radicais operam na Tchetchênia, assim como Assad teme o radicalismo islâmico sunita na Síria (Assad é laico, tendo nascido em uma família muçulmana alauíta, e tem apoio de sunitas não religiosos, de cristãos e de druzos).
Inclusive, há muitos tchetchenos no ISIS e na Al Qaeda. A Rússia viu com muito ceticismo a Primavera Árabe e avalia que líderes fortes, como Assad, Kadafi e Mubarak eram melhores para a estabilidade regional.
O sr. trampa ainda não teve tempo para ver nem se interessar pelo genocídio que os sauditas estão a cometer no Yemen. Nem lhe interessa. Com armas americanas, francesas e inglesas, estão a dar lucro aos negociantes da morte. Todos estão cegos, e pior, a proteger os sauditas porque são donos das maiores fortunas do mundo e pelo petróleo que, talvez pudessem ir buscar a outro lado.
Como é vil o dinheiro, e mais vil ainda a quem ele se dobra.
É mais do que evidente que qualquer monarquia ou governo teocrático é também uma calamidade para o país e/ou povo.
O Irã, jogou fora o Xá, instituiu um governo de aiatolás, e começou a fazer o mesmo que agora o sr. trampa: destruir o que o anterior ia construindo. E enquanto dominar o terror religioso no país, o povo, não tira a corda do pescoço. E agora pior, porque o trampalhão os quer mesmo enforcar.
O país é o lar de uma das civilizações mais antigas do mundo, que começa com a formação do reino de Elam em 2 800 a.C. Hoje, tão atrasados são os tais aiatolás como os trampas americanos.
Os árabes, há pouco mais de 100 anos eram somente uns temíveis pastores de camelos e cabras.
Tão atrasados os sauditas, que não permitem que as mulheres conduzam automóveis porque, dizem, as vibrações do carro as podem excitar sexualmente!!!!
O sr. trampa sabe alguma coisa de história? Neto de imigrante alemão, fez uma fortuna imensa normalmente devendo a bancos mais do que o património, e continua a pensar (será que ele pensa?) que administrar os EUA é a mesma coisa do que construir prédios?
Será que ele consegue ter qualquer antevisão do resultado que esta sua administração besta e desastrosa vai provocar? Ou só lhe interessa, como na construção dos seus prédios a tinta com que pintar as paredes?
Exceto uns quantos loucos e/ou interessados no negócio, quem gosta de bombas? E atómicas? Eu nem as bombinhas do carnaval suporto.
Mas porque razão não pode qualquer um fazer as suas bombinhas atómicas sem ser com autorização dos americães? Quem os autoriza a dar ordens aos outros? O excesso de força? A covardia? O medo? Medo de que?
Não acredito que alguém queira jogar uma bomba atómica em cima de quem quer que seja, porque logo a seguir surgiriam, de todo o canto do mundo (exceto dos navios de guerra franceses que falham muito!), uma chuva delas, e lá se ia a humanidade p’ro galheiro. Só haviam de sobrar as baratas.
O mundo, desde que o tempo é tempo, é dominado pelo demo, não o demo grego, mas o tinhoso, o belzebu, e a verdade é que vemos aparecer cada vez mais espíritos de porco alcandorando-se a donos de tudo e todos, e a plebe, para alguns desses perigosos anormais, ainda bate palmas.
Eu não sei quem gosta menos dos judeus, se xiitas ou sunitas! Mas porque será que eles estão sempre a acirrar os árabes que, por todos os lados os rodeiam? É evidente que um dia aquilo tudo vai rebentar.
Se o Irã tem ou não a bomba atómica, que diferença faz? É só mais um. E é bom não esquecer que existem mais 15.000 espalhadas pelo mundo, além das bombas de fragmentação, químicas, napalm, bombas disto e daquilo, que nós nem sabemos, mas todas, todas, feitas a um custo exorbitante, só para matar gente.
Deixem o Irã em paz.
Ajudem o Yemen e a Somália e o Sudão e a Nigéria e... e... e...
Nesses países, em termos humanitários há tanto para a ser feito que o valor de uma bomba atómica daria para grandes obras sociais: represas, obras de irrigação, hospitais, planificação agrícola, etc.
Mas o trampa de m*&@, julgando-se o pantocrator orbe, só pára quando acabar de destruir a obra do Obama. E o Mundo.
Sob os aplausos de Israel, e para acirrar mais ainda os ânimos, além de ter transferido a embaixada para Jerusalém, nomeia Netanyahua para seu representante no Médio Oriente.
Madame de Sevigné disse: “Eu não cria que tudo estivesse perdido.”
Nem eu queria. Mas por este andar...

14/05/2018

quarta-feira, 16 de maio de 2018


Tenho notado que a maioria dos leitores deste blog não gostam de história. É pena, porque eu gosto muito! E, de certeza, ainda vou escrever mais alguma coisa sobre o passado, para me assegurar que, para os que se interessam, há sempre na nossa cultura que deve ser lembrada, quando não meditada.

Algumas leituras – 4/a

Os Celtiberos

Por volta de 2.000 a.C. começaram a chegar os celtas – Κελτοί em grego – que aparecem na literatura só no século V a.C. Chamaram-se celtas, gálatas– Γαλατάς, e gaulos ou gauleses Γάλλοί. O primeiro autor que se refere aos celtas terá sido Hecateu de Mileto (550 a. C.- 476 a. C.), que quando fala de Massalia, diz que fica perto da cidade de Nurax, céltica (Nearchi?). Isso mostra que em certa altura os celtas ocupavam quase toda a Europa central e daí se espalharam pela Itália, Suíça, Boémia, Ilhas Britânicas e pela Península Ibérica, arrastando com eles parte dos povos da Aquitânia, os bascos (?).


Por este mapa de Hecateu, herdado de Anaximandro (!) desenhado meio milénio a.C. vê-se que os celtas estavam já espalhados por toda a parte... que a geografia dele conseguia abranger! E até os Cítios (Scythios e os Trácios) teriam a mesma origem dos celtas, mas não pertenciam ao mesmo grupo. Vê-se até que estariam na Macedónia, que se chamou Galaica, antigo nome de Briântica, na Trácia, e daí seguiram para a Ásia Menor, ocuparam a parte central da hoje Turquia, onde fundaram Ankara.
Por volta de 1750 a.C. toda a atual França estava ocupada por gauleses, celtas, no sul misturados com os lígures, povo ibérico.
Num pequenino livro de poche que há muitos anos comprei, “Os Iberos”, livro já perdido (!) com muita singeleza mostrava como tinha sido o desenvolvimento da Península a partir dos povos iberos e celtas. Os iberos, regra geral, incineravam os seus mortos, guardavam as cinzas numa pequena urna, enquanto os celtas lhes davam sepultura ao corpo.
Um mapa mostrava toda a região da costa mediterrânea e do Algarve com a indicação dessas sepulturas, somente urnas, e à medida que se caminhava para norte apareciam indicações de mistura de ritos iberos e celtas, e no Norte desapareciam as pequenas urnas.
Aos celtas um povo, ou um aglomerado de povos, que ocupou bem mais de metade da Europa, as Ilhas Britânicas e chegaram até Roma, não lhe foi muito difícil ocuparem a Meseta Central da Península e o Norte.
Os romanos, começaram a dar batalha aos celtas, derrotados quando eram parte do exército cartaginês de Amilcar Barca, e foram depois atrás destes. A história da romanização da Península começa pela guerra entre Roma e Cartago. Estes depois de perderem o poderio naval decidiram invadir a Ibéria, iberos e celtas, e formar com eles exércitos para irem atacar Roma. E assim Roma foi avançando, derrotando os cartagineses que já ocupavam boa parte da Península, mas não foram bem recebidos. O primeiro combate importante entre cartagineses e romanos na Península foi a Batalha de Cissa (218 a.C.), provavelmente próximo a Tarraco (atual Tarragona). Os Cartagineses, sob comando de Hanão, foram derrotados.  Indíbil caudilho dos Ilergetes, povo ibero que combatia ao lado dos Cartagineses, terá sido capturado. Quando a vitória romana parecia próxima, acudiu Asdrúbal Barca, com reforços, que dispersaram os romanos sem os derrotar. Assim, as forças opostas regressaram às suas bases - os Cartagineses a Cartago Nova (Cartagena) e os Romanos a Tarraco (Tarragona) - e só no ano seguinte a frota de Cipião venceu Asdrúbal Barca. Depois chegaram reforços de Roma, permitindo o avanço dos Romanos em direção a Sagunto. Durou mais de dez anos esta luta Roma-Cartago na Península, até que os romanos saíram vencedores e começou então a administração romana da Península, inicialmente com o caráter de ocupação militar, com o fim de manutenção da ordem e de exploração dos recursos naturais das regiões ocupadas, agora integradas no território controlado por Roma.
Levou quase 200 anos para ocuparem toda a península, tendo sofrido muitas derrotas, porque pensavam que ao entrarem na Ibéria iam simplesmente e como “meninos bonitos”, pacificar povos belicosos. Tiveram que lutar muito. Em 182-178 a.C. começam por se chocar com os povos que habitavam o vale do Ebro, entre eles os belos, titos e lusones, estes, apesar de longe, aparentados com os lusitanos.
Em 133 a.C. atacaram Numância, com uma bestialidade inesquecível. Povo arévaco, celta, decidiu lutar e resistir. Um cerco de onze meses, quando conseguiram entrar não tinha um único ser vivo. Os “bonzinhos administradores” romanos destruíram totalmente a cidade e todos os que, fora dela conseguiram apanhar foram degolados. Entretanto os romanos, habituados a comer cereais, tinham que se alimentar de carne! Cozida ou assada dizimou filas de romanos com a disenteria!!
Deram-se mal com os lusitanos, talvez o povo maior de toda a Península. Maior e tão aguerrido ou mais que outros. Viriato não era aquela figura bonitinha de pastor da Serra da Estrela, mas um grande general comandante de imensas forças.
A sua história começa quando o pretor romano Sulpício Galba em 150 a.C. reuniu 30.000 homens dizendo-lhes que receberiam terras e viveriam sossegados. Os romanos colocaram-nos em três acampamentos e os obrigaram a entregar todas as armas, e depois que estavam desarmados mandou as legiões que matassem a todos. Foram assassinados uns 20.000 lusitanos escapando entre eles Viriato que, a partir daí, começou a lutar ferozmente contra os romanos traidores que faziam sempre esta perfídia.
Ataca e sumia com extrema rapidez o que levou Plínio a criar a lenda de que as éguas lusitanas, prenhes só do vento Zéfiro, parem os “Filhos do Vento”, os cavalos mais velozes da Antiguidade.
Vede além no alto cerro a cena que aparece
Todas as éguas ao Zéfiro voltadas
Estáticas sorvendo as auras delicadas
Basta aquilo, e acontece amiúde este portento,
Sem cônjuge nenhum, grávidas só do vento...
Geórgicas de Virgílio (70-19 a.C.)
Derrotou os romanos por diversas vezes e na última, em vez de os aprisionar e degolar todos (!) decidiu fazer a paz e foi nomeado pelo senado romano amicus populi romani. Roma não tinha qualquer intenção de respeitar o tratado, e assim ordenou a Cipião que “comprasse” três amigos e generais de Viriato e o traíssem. Estes o assassinaram enquanto dormia!
Conhecido entre os romanos como dux Lusitanorum, como adsertor (protetor) da Hispânia e até como imperador! Segundo o historiador grego Diodoro da Sicília (ca 90 – 30 a.C.), “Enquanto ele comandava ele foi mais amado do que alguma vez alguém foi antes dele.”
Com traições e bestialidades os romanos “administraram” a Península Ibérica, derrotando todos os povos que se lhe opuseram.
É conhecido o sangue “quente” dos hispânicos. À medida que as legiões romanas se aproximavam de um povo o senado reunia e reconhecendo a sua incapacidade militar propunha render-se, para ainda guardarem uma parcela de poder. Os jovens não aceitavam isso, e chegaram a fechar uma casa do senado e largar fogo com todos os senadores lá dentro. Eles queriam ir à luta! Ainda hoje é assim: os jovens... 

Já nesse tempo havia um entendimento e colaboração entre lusitanos e galaicos. Só depois de assassinarem Viriato é que os romanos conseguem entrar e derrotar a Galícia. A seguir os astures, os cantábricos e todos os outros até aos limites do Pirineus.
Só terminaram as guerras de conquista em 19 a.C. que começaram 200 anos antes!
Sobre os lusitanos fica por esclarecer uma pergunta: não eram iberos, nem celtas. Povo indo-europeu, de onde vieram e quando?
Todos os povos da Península eram bons artífices; trabalhavam o ouro, prata, cobre, estanho, ferro, etc. Nos túmulos dos grandes chefes têm-se encontrado espadas com trabalho lindíssimo


Vamos voltar agora à pergunta do texto anterior: DONCÔVI?
A maioria dos que lerem isto devem ter, pelo menos uma costela portuguesa; os lusitanos, povo indo-europeu, ninguém sabe de onde vieram; os primeiros iberos terão sido os descendentes dos primeiros povos da Mesopotâmia, Pérsia e Afganistão, que caminharam desde o médio oriente contornando o Mediterrâneo, cerca de 15 a 20.000 anos a.C.; os gregos, da Lídia, terão sido depois os colonizadores de Tartesso; os cartagineses, os tais semitas, do sudeste da Península; os gregos do nordeste. Depois os celtas invadiram e ocuparam a Meseta Central e misturaram-se com os povos do norte; os bascos serão uma mistura de aquitanos, celtas e iberos; alguns povos celtas, sempre na Península, falavam o gaulês da Bélgica, outros com metade das palavras vindas da Ilíria (região da antiga Jugoslávia); entretanto chegaram mais cartagineses, com berberes e povos africanos nas suas fileiras e logo a seguir os romenos, outra mistura de soldadesca; quando estes se retiraram entraram os visigodos, povo originário da Escandinávia (os ostrogodos foram para o leste da Europa); mais ou menos ao mesmo tempo os suevos saíram da hoje Polónia e ocuparam a Galícia (foram eles que começaram a usar a palavra Portucale); junto com toda essa turma dos druidas chegaram ainda os vândalos, mas demoraram-se pouco; não tardou que Roderico fosse um falhado e Tarik levou os árabes, mouros, para


Foi assim que Tarik acabou com Roderico. Um infiel contra um infiel !

a Península em 771, e só de lá começaram a ser empurrados três séculos depois, com a ajuda de normandos, franceses, germânicos e ingleses, e saíram de vez em 1492. Os hispânicos respiraram um pouco porque se entretinham a batalhar-se uns com os outros: lioneses, aragoneses, catalães, navarros, castelhanos e portugueses.
Neste meio tempo começaram as navegações e o encontro como novos e desconhecidos povos: africanos, índios das Américas, hindus, malaios, etc.
Surge Napoleão e lá vêm os franceses; e os ingleses para “ajudarem” a arrumar Portugal.
Depois... só do meu lado encontro, não muito para trás, um pouco dos jurunas ou carajás ou mundurucus, um vovô da Suíça, margens do Reno, outro da Normandia, um de Códova, outros bascos de Oyarzum e Alquiza, mais para trás uma vovozinha linda de morrer, uma moura encantada de olhos verdes, que fez vibrar o coração de Lovesendo Ramires, e foi também vovozinha de Egas Moniz (meu primo... um pouco afastado já) e bem mais perto nasceram em Belém do Pará, em A-Ver-O-Mar, Barquinha, Sintra e Lisboa, e eu, no Porto.
Deu para entender? DONCÔVI ? Dificilmente haverá gente mais misturada do que os que tenham, mesmo umas gotas só, de sangue lusitano!
É por isso que eu digo: mestiçagem é o melhor. De qualquer côr ou credo.
Quem souber mais qu’o diga!
Para terminar um pequeno trecho do “Romance d’A Pedra do Reino” do grande Ariano Suassuna:
“... sou o único escritor e escrivão-brasileiro a ter integralmente em suas veias sangue árabe, godo, negro, judeu, malgaxe, suevo, berbere, fenício, latino, ibérico, cartaginês, troiano e cário-tapuia do Reino do Brasil!”
Somos primos!

10/05/2018

sexta-feira, 11 de maio de 2018



Algumas leituras – 4


DONCÔVI

Os Iberos
(um apontamento)


Se pensarmos que na Península Ibérica pré-romana havia talvez uns cem povos, ou diferentes etnias, cada uma, ou quase, com sua língua própria, também não nos custa muito tentar aprender um pouco da língua tradicional do minêro, de Minas Gerais, uai!
Para quem é “peninsular” e/ou goste de genealogia, é agradável saber de onde se veio, quem são os antepassados, tal como diz o minêro: DONCÔVI, i.é, “Donde é que eu vim”!
Essa conversa do “puro sangue”, “sangue azul” e outras invenções é coisa “pra boi dormir”. Nós, todos, todos, somos uma mistureba danada, mais ainda se acreditarmos que o nosso antepassado comum apareceu “assim”, como num estalar de dedos, lá no Vale do Rift, em África.
Depois foram-se descolorando uns, escurecendo ou mantendo o colorido outros, mas... somos todos farinha do mesmo saco.
O que se sabe sobre os primeiros habitantes da Península Ibérica é muito pouco. Nem se pode afirmar a origem da palavra, que tanto pode ter sido tomada do Reino da Ibéria, algures lá para o sul da atual Geórgia, como do rio Ibris (que, segundo Estrabão se terá chamado Oleum Flumen, com os romanos). De qualquer modo os autores que nos deixaram alguma coisa escrita, sobretudo os gregos, copiados mais tarde por romanos, dizem que a Ibéria se situava entre os rios Ródano, em França e o Ebro, hoje na Espanha. O resto era a barbárie
Não admira que, segundo Adolf Schulten”, os lígures tivessem constituído a população mais antiga da Península Ibérica, “historicamente comprovada”, e indícios arqueológicos e pesquisas etnográficas relativamente recentes sugerem que os lígures estejam ligados aos lusitanos, possivelmente por partilharem uma origem comum. Tal teoria é aceita por estudiosos, como Adriano Vasco Rodrigues, que a defende na sua obra "Os Lusitanos". Quem sabe?
Quando se começa a ter notícias dos lígures, aí por volta do século XVI a.C. (1580 a.C.) estavam eles no sul da Gália, e o seu território ia desde a base dos Alpes até ao rio Ródano. E a Ibéria, para o lado do Ocidente ia até ao mesmo Ródano. Portanto eram vizinhos... e porque não o mesmo povo?
A arqueologia vai dando passos e descobrindo o que a história não conservou, e mostrando que não eram tão selvagens como os antiguinhos pensavam.
Há documentos incríveis, como as pinturas das Grutas de Altamira que terão, talvez, 32.000 anos, há uma oliveira em Portugal que tem 3.500 anos e continua a dar boa azeitona, e já se encontraram na província de Málaga, restos humanos, de Neandertais com mais de 40.000 anos, mas o que se conhece sobre a vida dos povos, aos poucos é que se vai desvendando.
Segundo uma teoria, os Iberos eram os habitantes originais da Europa Ocidental – pouco provável porque, certamente de algum lado para ali foram os criadores da grande cultura megalítica que teve início em Portugal. Segundo outra teoria, os Iberos são de origem Ibéria Caucasiana, provavelmente tendo cruzado todo o Magrebe e depois o Mediterrâneo. As mais antigas manifestações de ordem religiosa remontam aos deuses do médio oriente, sobretudo Baal, o principal deus fenício, adorado por praticamente todos os povos da região semítica, do mesmo modo em Cartago, o que ajuda a crer que foi de onde saiu grande parte dos povos que formaram os iberos. Além de Baal, Melkart e Astarte deuses “importados” do Oriente.
Os iberos não foram um povo, mas um complexo de povos, dada a sua diversidade e variedade.
Comecemos por falar um pouco dos mais antigos – conhecidos – que tudo parece indicar tenham vindo do médio oriente.
Sabemos por exemplo que na região onde hoje está Andorra havia uns povos que se chamavam olositanos, castellanos e ceretanos, e seriam mais ou menos os mesmos. Nem os primeiros, nem os segundos têm algo a ver com os lusitanos nem com os atuais castelhanos, mas já se falava, há 2.500 anos que os presuntos ceretanos eram famosos e se vendiam até na Grécia!
Não se precipitem porque vamos “comer” outros presuntos famosos da Cantábria!
Também se sabe que terão sido os gregos que levaram a cultura da vinha para a Península há cerca de 4.000 anos e que as oliveiras terão ido de Cartago há mais tempo do que isso.
Os primeiros escritos sobre eles, de que sobraram uns escassos apontamentos, consideravam a Ibéria unicamente a área voltada para o Mediterrâneo, e começaram por se interessar sobretudo pelos Tartessos, que terá sido o primeiro estado organizado na Península. Não só porque foram maioritariamente colonizados pelos gregos, por ser rica em ouro e prata e pela admiração que lhes causava a longevidade dos seus reis! Ocupavam uma área que seria hoje metade do Algarve além das províncias de Cadiz, Sevilha, Córdoba e Granada. Há mais de 2.700 anos já tinham escrita própria, mas de que nos ficaram só algumas estelas, ainda hoje sem tradução.
Duas outras zonas mediterrâneas foram colonizadas – ocupadas – uma por Cartago, e uma outra por influência direta dos fenícios.
Eram os iberos os senhores da parte sul e leste da Península, sendo que durante muito tempo a Meseta Central esteve quase desocupada. No sul os tartessos, os túrdulos e os turdetanos, os bastetanos e bástulos, e ainda os oretanos.
Subindo pela costa oriental encontravam-se o que chamam os iberos propriamente ditos: contestanos, edetanos, ilergavones, cesetanos, layetanos, indigetes e ausetanos, e mais um monte de outros pequenos povos como os “artistas” do presunto, ao lado dos arenosios e andosinos! No lado do Atlântico eram os cônios, cinetes e saefes.
Há quem afirme que a costa atlântica foi começada a colonizar antes ou ao mesmo tempo que a mediterrânea. Mas ninguém consegue unanimidade nas suas afirmações.
Segundo Herodoto os primeiros helenos a empreenderem viagens marítimas longas foram os gregos foceus (de Foceia, na costa de Turquia quando, quando por volta de 500 a.C. foram corridos da Lídia pelos exércitos de Ciro). Não havia naus; eram embarcações de cinquenta remos. Chegaram a Tartessos, onde conquistaram a amizade do rei Argantônios, que reinou oitenta anos e viveu cento e vinte. Tal a amizade, que o rei os convidou a deixarem a Jónia para ali se instalarem. Daí possivelmente a primeira, grande, colônia grega, na Península.
Os iberos falavam uma língua, com muitas variantes, mas de raiz mais ou menos comum que seria um substrato do que se falava no II milénio a.C.
Eram agricultores, outros mais ganadeiros, tinham os seus chefes e elites, guerreavam muito, sobretudo quando escasseavam os alimentos de um grupo e tinham que ir buscá-lo a outro.
Trabalhavam muito bem a metalurgia, bronze, e os instrumentos encontrados, como espadas, punhais, tripés, caldeirões, etc. atestam a sua perícia.
Muito antes das Guerras Púnicas, já os helenos, como todos, não sabiam quem teriam sido os primeiros povoadores na Sicília, a quem chamaram de ciclopes e lestrigones, seres lendários. Mas no séc. V a.C. ali encontraram, povos iberos, que Tucídides relata que os Lígures, igualmente um povo que parece ter saído dos iberos, teriam expulsado uma outra tribo ibérica, os sicanos, das margens do rio Sicano, do nordeste da Península Ibérica. Por causa deles a ilha foi chamada de Sicânia, tendo sido antes conhecida como Trinácria, nome que lhe provinha de Tri Acra, três cabos!

Turdetanos e os turdulos eram tartessos, ibéricos

Em meados do século III a.C., os cartagineses, depois de terem perdido a hegemonia do Mediterrâneo, perdendo a Sicília e a Sardenha, querendo vingar-se de Roma, mas não tendo como fazê-lo pelo mar, decidiram que o caminho era por terra.
Invadem a Ibéria, onde fundam algumas cidades como Cartagena, lutam e submetem alguns povos, muitos dos quais acabam nas fileiras de guerra para chegarem a Roma.
Amilcar Barca, o primeiro a começar esse avanço, depois dos primeiros sucessos, morre afogado ao atravessar o rio Júcar. Quem sabe se alguma linda serrana o distraiu, como cantou Luis de Góngora em  1603:
En los pinares del Júcar
vi bailar a unas serranas,
al son del agua en las piedras
y al son del viento en las ramas...
¡Qué bien bailan las serranas,
qué bien bailan!

As Ilhas Baleares não tinham nenhuma relação com os iberos e antes da chegada dos romanos só as duas maiores ilhas estariam habitadas, desde uns 3.000 anos a.C., época a que chamaram pretalayótica!
Agricultores, umas cabras, ovelhas e poucas vacas, mas uns costumes curiosos. Hábeis, excelentes atiradores com a funda serviam como mercenários nas guerras entre gregos e cartagineses, e viviam, no século V a.C. em covas. Os mortos despedaçavam-nos com facas de madeira, depois colocavam os pedaços dentro de um vaso e cobriam-no com pedras. Tinham vinhas, mas gastavam o “dinheiro” todo a comprar vinho e escravas, e um costume nupcial muito louco, sobre a desfloração da noiva: enquanto se celebrava a boda, os amigos e familiares se “uniam” com a dita “gatinha” por ordem de idade, até que, FINALMENTE, chegava a vez do marido!

No próximo texto continuaremos com os celtas e suas misturas.

01/05/2018

sábado, 5 de maio de 2018

 

PROLEGÓMENOS e AMIGOS – 2


De acordo com a Wikipédia, Santo (do termo latino sanctu, "estabelecido segundo a lei", "que se tornou sagrado") é tudo aquilo que é sagrado, ou seja, que está conforme com os preceitos religiosos e a divindade. Para o cristianismo católico, "santo" é todo aquele que já está no céu, junto de Deus, aguardando a parusia (segunda vinda de Cristo).
É aquele que “por obras valerosas se vai da lei da morte libertando”, obras de valor fraterno, social, desinteressado, enfim, ético.
Vamos falar um pouco de alguns destes homens, um dos quais se não foi santificado por Roma, foi com certeza por centenas ou milhares de jovens de quem ele cuidou com total dedicação, total doação de si mesmo, e um carinho de grande pai.
Mas a verdade é que
eu conheci um Santo!
Já escrevi várias vezes sobre tão grande amigo. Mas como estou sempre a recordá-lo, “converso” um pouco mais com a escrita, mesmo sabendo que me estou, com certeza, a repetir. Mas...
Conheci-o em 1971, quando fui para Lourenço Marques. Já tinha estado, desde 1967 em contato com a Casa dos Rapazes de Luanda, a quem dei um pouco do meu tempo e alguma ajuda, que recebíamos em dobro porque os nossos filhos se habituaram a compartilhar o que tinham com os mais de cem garotos que ali viviam.
Ao chegarmos a Moçambique procurámos saber se havia alguma obra semelhante e, mesmo que diferisse em muitos aspetos, lá estava já a Casa do Gaiato, Obra da Rua, fundada pelo Padre Américo.
Na primeira oportunidade fomos visitá-la, levando os filhos, e logo ficámos atraídos por aquela Grande Obra.
Naquela altura, partindo do zero em 1968 com um pedaço de terreno, tinha já magníficas instalações para todos, oficinas, horta, etc.
Os nossos filhos, os menores, não se cansavam das brincadeiras com aqueles meninos moçambicanos, órfãos ou abandonados, e até custou a de lá sairmos.
Logo me comprometi a fazer alguma coisa que estivesse ao meu alcance para ajudar na construção e manutenção da Obra e uma amizade muito especial se criou com o seu responsável, o meu muito querido e muito admirado amigo Padre José Maria Ferreira Costa.
Um Homem duma humildade que nos envergonhava, trabalhador incansável, uma figura Maior.
Foram três anos de colaboração, pequena, porque nos dedicámos a diversas outras coisas, mas que marcou profundamente uma amizade profunda.
Chegou a independência, o marxismo, a intolerância, e acabaram com a obra, entregando toda aquela infraestrutura ao comando da polícia. E assim os garotos foram devolvidos às ruas!
Padre Zé foi para Portugal. Não se adaptou. Foi para o Brasil onde voltámos a ter o privilégio de, mesmo poucas vezes, o tornarmos a ter conosco. O Brasil foi a mentira e corrupção que, endémica, teima em prevalecer, uma inflação monstruosa e, já dedicado a jovens de rua, precisava de dinheiro para prosseguir. Surgiam promessas de milhões, mas quando o dinheiro chegava à conta já não valia nada.
O Presidente de Moçambique e o Arcebispo de Maputo lembraram-se então que a Obra da Rua merecia todo o apoio possível, fazia muita falta e Padre Zé volta em 1991, para começar tudo de novo.
Em pouco tempo a Casa já tinha mais de uma centena de jovens abandonados e logo ultrapassou os cento e sessenta. Dormitórios, escola, oficinas, horta, pomar, galinheiros e pocilgas, pivot de rega, consultório, e diversas creches fora do terreno da Casa, construção de casas para velhinhos que haviam tudo perdido com as cheias, mais creches e postos de saúde, a tudo o Padre Zé, com a sua dedicação e uma humildade que só os Grandes alcançam, com o formidável apoio da Irmã Quitéria, a tudo dava o seu saber.
Lá estive em 2001, e gostaria de repetir.
Para os garotos da Casa era um grande Pai.
Com a idade a saúde foi-se deteriorando, mas não baixou, nunca, os braços. Tinha uma imensa Obra sobre as costas. Mas a passagem pela terra não dura para sempre. 
“Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos”.
Além da muita admiração e profundo respeito pela sua dedicação, aliás doação total da sua vida, uma amizade muito profunda nos unia, certamente fruto da minha pequenez face à grandeza da alma deste irmão.
Lembro com imensa saudade ver o Padre Zé, aos domingos, na linda capela que ele projetou e lá está na Casa de Moçambique, fazer a homilia para aqueles fiéis moçambicanos que mal falavam português. Padre Zé, sem nunca ter perdido o seu sotaque do norte de Portugal, voz baixa, sem microfone, sempre um ar humilíssimo, imensa simplicidade, falava àquele povo que o ouvia em profundo e respeitoso silêncio, sem possivelmente entender o que ele dizia. Não precisavam entender. Na frente deles estava um homem de Deus, que os amava, e daquela alma, daquela boca, só podiam sair palavras que os abraçava a todos, no mesmo abraço fraternal, no abraço do Cristo que os amava. A bondade em forma de gente. Homem que deveria ser canonizado.
Não era franciscano, mas um outro Poverello.

Padre José Maria no Rio, em 2014

Para muitos, muitos, que o conheceram, já é um Santo, e um Santo Maior.
A vida segue. Mas o Padre Zé continua a fazer muita falta.

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Em 1963 chegaram a Luanda os Cursos de Cristandade e pra os orientar um homem, na altura com trinta e alguns anos, aquela energia e alergia contagiante dos bascos, um carisma e uma simpatia, que lhe mereceu, como já contei, de um dos maiores músicos da Guatemala, o nome de Trotamundo Vasco!
Correu, atrás dos que queriam ser mais cristãos, daqueles que se entusiasmaram com a tão simples palavra de Cristo, e com tudo isto ganhou milhares de novos amigos.
Guardo com imensa gratidão e saudade a amizade que nos uniu tão profundamente.
Por duas vezes fomos visitá-lo em sua casa em Vitoria-Gasteiz, Alava, Espanha, e de uma das vezes fez questão de ficar em casa de uma irmã e dispensar-nos o seu apartamento.
Quando saíamos para almoçar ou jantar, fazia questão que nos fosse servido sempre um vinho especial, não pelo preço, mas pela qualidade que ele conhecia.
Com o seu amigo Antonio, levou-nos a visitar diversas localidades, entre elas Loyola, terra de Santo Inácio.
Na estrada rezávamos Dios te salve Maria... e, findo o terço, as conversas eram sempre alegres. Aí por 1965, na primeira visita a Vitoria, apresentou-nos o pai, um basco durão! Fora toda a vida construtor de cangas para bois, e considerado o melhor. Fomos vê-lo em sua casa. Sentado numa cadeira em frente da televisão, de costas para a porta, boina basca na cabeça, o filho diz-lhe: Padre. Aquí son nuestros invitados. Resposta do senhor, sem voltar a cabeça: Olá.
Muito rimos.
Não era um franciscano, mas o tipo de São Paulo, lutador incansável.
Já muito escrevi sobre Don Vitoriano Arizti. Mas é dos amigos que jamais poderia esquecer.

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Mais uma figura que marcou as nossas vidas. Também sobre ela já escrevi, mas hoje decidi juntar na mesma crónica, uma pequena lembrança daqueles que nos deixaram, e marcaram as nossas vidas, através da Sua palavra e das suas atitudes
Há menos de dois anos escrevi sobre este Homem que aguentou estoicamente o tempo colonial e quando viu o seu país, Angola, aceder à independência, o seu sofrimento aumentou muito.
D. Eduardo André Muaca, nasceu em Cabinda em 1924. Em 1970, o Papa Paulo VI nomeou-o bispo auxiliar de Luanda, sendo o primeiro padre oriundo de Angola a ser ordenado bispo, depois arcebispo de Luanda, quando padeceu nas mãos da ortodoxia soviética angolana.
Ele mesmo me contou o quanto foi difícil a perseguição à Igreja Católica.
Presidiu à Conferência Episcopal de Angola durante uma década e em 1985 pediu ao Papa João Paulo II a renúncia do cargo por motivos de saúde. Ainda o procurei em Portugal, mas tinha saído não lembro já para onde, e quando fui a Luanda, em 1991 por um quarto de hora também não o consegui ver. Tinha acabado de sair para Cabinda. Dois abraços que ficaram por dar. E perder o abraço dum amigo que se estima muito e admira... custa.

Dom Eduardo Muaca, ainda cónego, 1967, 43 anos, cara de jovem!

"Figura de grandioso relevo da Igreja em Angola", é como o definiu na altura o bispo auxiliar de Luanda. Uma inteligência profunda e serena. Um africano autêntico com uma roupa branca.

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Em 1946, por bom e tranquilo comportamento, fui convidado a sair do Liceu Pedro Nunes, costuma dizer-se, expulso! Em Lisboa. Estava no 4º ano (hoje a 8ª série?).
Tinha perdido o meu Pai nos finais de 43, a família decidiu espalhar-nos por colégios diferentes – costumamos chamar-lhe “a diápora dos Amorins” – o ano de letivo 44/45 passei-o em Santo Tirso, e me dei muito mal com aquela gente, saindo de lá mais bravo do que entrara, voltei ao Liceu, e em Fevereiro de 46 perdi o meu irmão mais velho, o Luis, que era quase o único com quem conversava, sensato, tranquilo, que eu, muitas vezes ouvia.
Fiquei sem “porto de abrigo” e comecei a ser um rebelde. Não estudava, faltava às aulas e ia jogar bilhar (sou péssimo no bilhar), dava uns tapas nuns meninos metidos a gostosos, também não perdia uma brigazinha com estudantes de outros estabelecimentos e quando se fez a fotografia da minha classe com os professores, tudo muito bonitinho, eu, na frente fiquei ostensivamente a fazer um grande manguito.
Parece que os professores não gostaram, nem o reitor do Liceu que fez bem em afastar este “perigoso” elemento!
Meio perdido, apresentaram-me a um padre, Diogo Crespo, excelente pessoa, creio que franciscano, chefe de redação da revista FLAMA, revista da Juventude Escola Católica.
O exemplar mais antigo que encontrei na Internet – 21-Maio-1951

São passados 72 anos mas recordo-o com alguma precisão, com hábito de frade menor. Alto (eu ainda era bem cambuta), simpático, decidiu “tomar conta de mim” durante algum tempo. Lembro bem de ir visitar a gráfica onde se imprimia a revista, onde eu ficava um bom tempo entusiasmado a ver tudo aquilo, grandes máquinas pelo agora um tanto obsoleto sistema de heliogravura em chapas de cobre!
Depois saíamos e andávamos um bocado pela cidade... conversando, já não sei sobre o que.
A verdade é que baixou a minha “reguilice” e voltei a ser uma pessoa... quase normal.
Saudade, padre Crespo.

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Já no Brasil, e sobretudo no Rio de Janeiro foi difícil envolver-me com algum grupo católico que se deixasse de lamúrias e partisse para a ação. Tentei várias hipóteses, mas não estava disposto, nem estou, para perder tempo com conversa mole.
Mesmo a igreja onde costumava ir à Missa decidiu arranjar uma banda de música, tipo rock-and-roll para tocar em algumas partes da Missa. Uma barulheira horrível que ecoava no amplo recinto da igreja, aquilo configurou no meu espírito, talvez um pouco, ou muito, arcaico, uma palhaçada.
Passei a ir a uma capela numa pequena casa de freiras carmelitas, relativamente perto de nossa casa, onde a Missa era celebrada com dignidade.
Um dia surgiu um novo padre. Novo na capela, um padre desempoeirado, com sotaque estrangeiro, uns sessenta e pouco anos, forte alto... um pouco de barriga a mais, mas que sabia que a Missa era um momento de elevação e meditação.
Gostei do senhor e um dia, finda a Missa fui procurá-lo. Comecei por lhe perguntar como se chamava:
“Já que pergunta, é Jacques”!  Gostei, e voltei com outra pergunta::”O senhor quer dar-nos o prazer de almoçar conosco uma destes dias?” - “Quando?”- “Quando quiser.”
Abriu uma pequena agenda olhou e disse: “Quarta feira!” – “Combinado.”
Lá me disse onde devia ir buscá-lo e tudo começou a correr normalmente.
Passou a vir a nossa casa, talvez de quinze em quinze dias, holandês, estava no Brasil desde os anos 60, culto, alegre, um bom companheiro e um bom garfo.
Eram almoços deliciosos, porque a conversa corria, boa e alegre.
Sempre convidava o meu grande amigo Alberto Borges para estar também presente, o que ele não perdia.
Um dia o almoço era rabada de boi. Estava também o Luis, filho, que já tinha terminado o seu prato e o padre Jacques tinha o dele cheio de pequenos ossos. Não fez cerimónia. “Luis, posso por estes ossos no teu prato?”
Foi um bom companheiro.
Entretanto fomos à Europa e no regresso estranhei não o ver. Tinha tido um AVC e estava inutilizado.
Mais outro amigo que partira.

5/5/18