sábado, 20 de abril de 2019





Estamos, ainda na Páscoa.
Tempo de continuar a meditar sobre o que andamos a fazer neste mundo!
Não há, certamente, alguém que não abomine guerra, exceção, talvez os doentes mentais.
O texto abaixo, sobre uma das grandes figuras do nosso tempo, pode, e deve, também ser enaltecida nos dias de hoje, nesta época da Páscoa, quando os judeus festejam a saída do cativeiro do Egito, os cristãos celebram a vitória de Cristo sobre a morte e devem aprofundar os seus ensinamentos para reconhecer, e amar, todos os OUTROS como irmãos.
Ambas as atitudes pressupõem PAZ, a não-violência, o grande tema e objetivo de vida de Sua Santidade o Dalai Lama, que começa por dizer que a humanidade, em primeiro lugar deve procurar a felicidade.
Pois sejamos judeus, cristãos, budistas ou de qualquer outra religião a nossa passagem por este mundo deve orientar-se fundamentalmente pelo Amor ao Próximo, pela felicidade.
Boa Páscoa a todos. Muita PAZ. Muita FELICIDADE.

-              *             -
Senhor do Lótus Branco

Há milhões ou bilhões de pessoas que buscam algum refrigério das suas vidas na religião, seja ela qual for. A sensação que nos fica é que a imensa maioria transfere para o seu etéreo Deus o problema que aflige, quando deveria começar por tentar olhar para o mais dentro de si próprio até descobrir o que realmente o perturba.
Há quem diga que o budismo não é uma religião, porque não terá um Deus criador e celestial, sendo assim só uma, muito profunda, filosofia de vida. O Dalai Lama dá-nos uma explicação bem mais simples: ... se definirmos o budismo como uma prática espiritual de orações e meditações que visa um resultado para além desta vida, nesse caso podemos dizer que o budismo é uma religião. Será uma religião, filosofia e ciência.
Mais um livro que, pelo seu imenso interesse, foi lido num instante, mas sempre com o máximo de atenção e penetração, porque dele não se pode passar sem ir ao âmago da vivência e dos terríveis problemas que assolaram, e continuam a assolar o Tibete, onde o maoísmo e seus seguidores, os de hoje, fizeram inconcebíveis atrocidades, matando mais de um milhão de tibetanos, destruindo mais de seiscentos mosteiros, torturaram, decapitaram, queimaram monges e agricultores vivos, uma barbárie inconcebível, e ainda hoje dominam aquele país na brutalidade.
Aliás a China continua a ser mais maoísta do que o próprio Mao, porque agora, para acabar com as religiões, obrigaram o Papa a autorizar o governo chinês a nomear os bispos - leia-se funcionários do Partido – assim como estão a fechar mesquitas, obrigando os muçulmanos a comer carne de porco, juntando-os em campos de concentração para lhes fazerem lavagem cerebral, um descalabro total, mas... quem se vai meter com a China: Tem que, um dia, cair de podre.
Ricardo de Saavedra, uma vez mais nos conta muita coisa sobre o Senhor do Lotus Branco, o Ser Supremo, O Dalai Lama, Kundun, Tensin Gyatso, numa escrita que nos prende, não só pelo assunto como pela cativante qualidade.
Por todo o mundo se fala no Dalai Lama, na desgraça do Tibete, ONU e outras organizações internacionais se manifestam, mas dum modo artificial porque parece que hoje todos dependem daquele gigante que não respeita nada nem ninguém.
E nós continuamos a comprar tudo que de lá vem, máquinas, brinquedos, automóveis, matérias primas, e os chins, com o seu tradicional sorriso amarelo, tal como a Rússia e os EUA, mandam, desmandam, matam à bala ou com o domínio económico e com a poluição, sem que possamos fazer alguma coisa para os impedir.


O Budismo ensina-nos o caminho da vacuidade em direção à iluminação para bem de todos os seres vivos.
(No budismo tibetano “O Caminho do Meio” diz respeito a percepção do ‘vazio’ – shunyata – que transcende os extremos da existência e da não-existência)
O Dalai Lama obrigado a fugir do Tibete, porque os chineses queriam reduzi-lo a uma espécie de prisioneiro de luxo – sem qualquer luxo – quando viram que o Senhor do Lotus Branco não aceitava a anexação do seu país à China, começaram a bombardear o mosteiro de Lhasa, por acaso não tendo acertado onde ele se encontrava.
Refugiou-se na Índia onde vive até hoje, e onde sempre admirara a filosofia de Gandhi, a ahimsa, a não violência, que adotou inteiramente.
Mais tarde confessou que a fuga me foi realmente útil. Aproximou-me mais da realidade e aprofundou a minha compreensão religiosa, sobretudo em relação à sagacidade da vida. Apesar do mundo estar em constante mutação, ninguém o nota. E, de repente, tudo desaparece. O teu lar, os teus amigos, a tua pátria. Isso mostra a perda de tempo que é mantermo-nos presos a esses valores.
O caminho da verdade é tão estreito quanto retilíneo e o mesmo acontece com a ahimsa. É como tentar equilibrar-se sobre a lâmina de uma espada. À mínima distração cai-se para o chão”.
E sempre a sua postura se baseou em difundir e “combater” pela não violência, como o único caminho que conduz à salvação da Humanidade, e foi seguindo este princípio que passou a ser admirado em todo o mundo... e odiado pelos comunistas chineses, que tanto o queriam eliminar mas são obrigados a assistir à imensa consideração de que  continua a gozar.
Como líder supremo e chefe do governo do Tibete teve que montar um governo no exílio. Só que, como desde menino sentiu, o Tibete tinha que caminhar para uma democracia, apesar de ver que a sociedade continuava amarrada a conceitos medievais e feudalistas. Valeu-lhe estar num país que caminhava para a abertura, bem como todas as dificuldades enfrentadas pelo exílio.
Renunciou a pompa e circunstâncias, introduziu a democracia como prática comum, e acabou criando um Estado aberto, mais simples e mais aberto nas suas decisões, sem jamais descurar a cultura tibetana, o ensino da língua, e pessoalmente a continuação permanente dos seus estudos, para continuar a ser um monge, com os mais altos graus académicos possíveis de atingir.
A certa altura da sua vida passou a ser um entusiasta da dieta vegetariana, enriquecida de frutos secos e muito leite. Ao fim de pouco tempo sentiu que estava a perder forças e acabou verificando que tinha contraído a hepatite B.
Curou-se com medicação tibetana, de que tomou grande quantidade. Já no exílio tinha instalado uma Faculdade de Medicina, onde a formação de um médico demora sete anos, com os conhecimentos milenares, de 2500 anos, trazidos do Tibete.
No entanto, apesar da eficácia dessa medicação o que mais lhe recomendaram foi cortar radicalmente com nozes e outros frutos secos, reduzir o exagerado consumo de leite e, apesar da relutância que sentia, comer carne. E assim se curou, deixou de ser vegetariano, sem ficar com sequelas!
Mas sempre, sem interrupção os chineses continuavam a perseguir, torturar e matar quem, ainda no Tibete, se destacasse, sobretudo como monge.
Quando, em 2001, concedeu a entrevista ao jornalista Ricardo de Saavedra que deu origem ao livro que acabamos de ler, referiu-se a sua ida a Portugal, Fátima, como peregrino, por respeito, admiração e apreço para com o catolicismo, e ainda dizendo que as principais religiões possuem basicamente a mesma mensagem: amor, compaixão, perdão, tolerância, felicidade e autodisciplina.   
Só mais uns pontos chaves para quem continua a manter a sua ética inalterada e não pactua com a pouca vergonha que se espalha cada vez mais pelo mundo como doença contagiosa, imparável, como eu procuro e, mesmo toscamente, manifesto nos meus escritos.
Sobre televisão: Na televisão privilegia-se quotidianamente o sexo e a violência. Duvido que os produtores dessas emissões desejam realmente prejudicar a sociedade. Desejam apenas um lucro financeiro. Parecem já não possuir o sentimento da responsabilidade social.
Para terminar esta difícil crónica sobre Alguém que vive uma moral e uma disciplina que a nós, mais fracos, e menos criados no rigor e por vezes no intolerável exemplo das nossas religiões, seja ela cristã ou outra, uma pequena meditação que o Dalai Lama, o Senhor do Lotus Branco, recita sempre que se levanta:
Pois enquanto houver espaço
E enquanto os seres vivos existirem
Até lá também eu posso ter esperança
De afastar a angústia do Mundo
Livro altamente recomendável.
Mais uma vez obrigado ao Ricardo de Saavedra que me proporcionou esta lição.

15/04/2019

domingo, 14 de abril de 2019




Um pouco do Pará

Esta coisa de vir a Londres, um tempinho – sempre pouco – para estar com filhos, netos e a bisneta, sem nada mais para fazer além duma ou outra rápida saída com um tempo friaco, miserável, tem proporcionado bastante folga para ler. E como só gosto de boa leitura, sobretudo história, tenho enchido o papo!
Parei até um pouco com “Os Amigos” (alguns só aguardam uma brecha para voltarem ao blog!) e, desde a história dos Plantagenetas, às lusas vergonhas do abandono de África, e até de volta ao grande professor Agostinho da Silva (de que não se faz qualquer comentário de ânimo leve; é muito sério) acabei agora de ler a primeira parte de um livro de imenso interesse sobre a Fundação de Belém do Pará.
Só a primeira parte, porque a continuação é a genealogia do Fundador, e daí, ou se entendem bem aquelas complexas ligações e/ou famílias, ou se fica perdido, sem já saber quem é a mãe ou o pai de quem quer que seja, apesar de lá (onde?) aparecer um simpático parente da minha família!
Mas o que interessa são as primeiras 120 páginas com a história do tempo em que os portugueses ainda andavam a fundar povoações, procurando ocupar o que lhes pertencia de acordo com o Tratado de Tordesilhas, a que só Portugal e Espanha dizia respeito, e sobretudo procurar demonstrar que ocupavam o território, contra franceses e holandeses que nos queriam roubar parte do Brasil, uns com a França Antártica e os outros, que pouco tempo depois se instalaram, quase definitivamente, em Pernambuco.
O Livro está muito bem documentado, vê-se que exigiu uma profunda pesquisa, e para além da descendência ali descrita, impõe-se como uma bela História de um curto, mas agitado, período da vida no Nordeste Brasileiro e um pouco no Amazonas, nos finais do século XVI e começo do XVII.


Por ele tomei conhecimento (ignorante que sou) que espalhados pelo interior da Amazónia e Maranhão já lá estavam, antes dos portugueses, umas centenas de franceses e holandeses, estes até com, pelo menos, duas plantações de cana de açúcar que mandavam para a Europa, sem que os portugueses soubessem onde e desde quando.
Todos, com a cara e a coragem de meia dúzia de portugueses, a que não podia faltar o capitão Pedro Teixeira, figura incontornável daquele tempo e região, desmontaram aquela prévia ocupação, submetendo uns e outros à coroa portuguesa.
Tempos difíceis, cheio de intrigas, invejas, mesquinhices , selvajarias, sobretudo da parte de alguns portugueses que conseguiram destruir o bom entendimento que se procurava com os nativos, num clima pesado, doentio, lutando ainda com falta de alimentos, faz-nos ser obrigados a admirar a força de vontade e determinação daqueles pioneiros.
Interessante ainda um pouco da descrição, e praticamente descoberta, da costa do Maranhão, sempre perigosa, da entrada no Amazonas com seus baixios, citando até a entrada forçada na barra do Apereá onde o patacho tocou num banco de areia de que escapou milagrosamente porque, levando todas as velas enfunadas o cortou, ou saltou como quem salta uma fogueira de S. João.... (Frei Vicente do Salvador – História do Brasil).
Quem se interessar pela História do Brasil, especificamente de Belém do Pará, ou também quiser saber se o Fundador de Belém, Francisco Caldeira de Castelo Branco é seu antepassado, vai encontrar neste livro, muita informação.
No Brasil, de uma forma geral é raro o interesse pela genealogia. Agora o que se vê é um tremendo afã na descoberta de avós ou bisavós portugueses para obterem a cidadania lusa, ou de qualquer outro país europeu, como Itália. E a verdade é que a grande maioria da população, se tem um pé na cozinha, tem outro nalgum português e numa aldeia tapuia, tupinambá ou outra. Sem esquecer os angolas, benguelas, iorubás, etc. Mas as pessoas não estão interessadas em saber, concretamente de onde veem.
O que é pena. Porque desprezando o passado...
O que sabe bem, no fim desta mistura toda é conhecer o povo brasileiro. Cordato, às vezes de mais, que descendo do fundador do Pará ou por exemplo do simples soldado Sebastião Amorim que ajudou na fundação de Belém. E certamente seria da Póvoa de Varzim!

N.- O soldado não deverá ser meu antepassado! Mas a origem será a mesma!

05/04/19



domingo, 7 de abril de 2019



Os Dias do Fim

Não referi no último texto que tinha sido presenteado por mais de um livro pelo meu amigo jornalista Ricardo de Saavedra, por uma razão muito simples: ainda só tinha recebido um!
Poucos dias passados recebi mais um, com uma dedicatória extremante simpática, e como o tema era do mesmo assunto de “O Puto” (a exemplar descolonização) interrompi a leitura de um outro autor (de imenso interessante também) e ataquei este, que relata, por meio de escritos de autores coevos, e que viveram duramente a página mais vergonhosa da História de Portugal, que foi a venda aos sovietes e à China das colónias portuguesas.
A vergonha não ficou só na matança de brancos e pretos – dezenas de milhares – até às respectivas independências, mas de milhões nos anos de guerras civis que se seguiram à liberdade colonial, como na destruição de todas as fontes de produção e renda, das infraestruturas, etc.
Começo por reproduzir uma passagem do livro, que de Os Centuriões, de Jean Larteguy, cita o padre Mornelier: Um grande número de centuriões do proconsulado de África abandonou as legiões para se instalar em Roma. Eles tornaram-se os guardas pretorianos dos Césares, até ao dia em que adquiriram o hábito de os nomear, depois de os escolherem no meio deles. E então foi o fim de Roma...
Tal como quando os catipãesinhos abandonaram a África portuguesa e passaram a desmandar e destruir um Portugal que, por teimosia e inépcia, já agonizava.


Falar no vintecincobarraquatro, hoje em dia é chover no molhado.
Mas este livro leva-nos aos meandros da covardia, das negociações escusas, ao conhecimento das ordens entretanto recebidas dos comunistas, às cenas do exército português (português ?) a metralhar portugueses, o mesmo com os terroristas (sim, terroristas) a dizimarem moçambicanos, ausência de poder de decisão de muitos oficiais portugueses que não sabiam mais se deviam apoiar e defender o povo em geral ou submeterem-se às ordens chegadas de Lisboa, enfim às intrigas, espionagem e falta de caráter, que levaram à hecatombe que a seguir de abateu sobre Moçambique.
Descreve, com detalhes, as atividades de Jorge Jardim que se quis arvorar em defensor da democracia, mas que foi sempre servindo de ingénuo anjinho no meio de hábeis e experimentados informantes sovietes. Houve até os que queriam elogiá-lo com o epíteto de O Lawrence de África, quando se constata que andou todo o tempo a dar uma no cravo e outra na ferradura, sem ter resolvido coisa alguma.
Chegou ao desplante de ter escrito até a Samora Machel “informando-o” que a China queria ser reembolsada imediatamente após a independência, dos empréstimos feitos durante a guerrilha... coisa que parece jamais ter acontecido, e por isso hoje mais manda por lá a China do que o governo moçambicano!
Aqueles que viveram em Moçambique, e ainda lá estiveram na época da s confusões pré independência, devem lembrar-se da vergonha que foi ver o exército português a meter na cadeia todos os funcionários da PIDE e saber o que estes deixaram dito quando foram soltos no famigerado, malogrado e inconsciente 7 de Setembro.
Grave ainda o que o texto deixa transparecer sobre ligações de Samora com a PIDE e da forma como assassinaram Eduardo Mondlane!
A venda de atestados escolares de passagens de ano em todos os níveis, permitindo que entrassem para as universidades verdadeiros atrasados... mentais!
Revê-se o arrogante e incapaz senhor do monóculo e o falso chefe geral das forças armadas de Portugal, protegendo amigos e condenando outros.
Este livro deixa ao mesmo tempo um amargo de boca e no coração, mas está muito bem escrito, e mesmo sendo por vezes brutal, as fontes são autênticas e escritas por quem estava no centro de grande troca de informações.
Quem viveu em Moçambique, e quer reviver um passado, mesmo triste e doloroso, como eu também vivi, deve ler este livro.
É um “relatório” de dentro, muito de dentro para fora, e daí também o seu grande interesse.
Daqui a poucos dias haverá um monte de ignorantes que irão para as ruas dar vivas aos cravos vermelhos. Era bom que antes de se meterem nessa farra se lembrem que o 25/4, covardemente, assassinou milhares de portugueses e de africanos. O 25/4, neste caso as tropas portuguesas.
Dá para celebrar?
Só uma missa solene por alma daqueles que foram mortos pelos vendilhões de Portugal.

4-abr-19

domingo, 31 de março de 2019




O  Puto *


Estou longe de ser fatalista, mas por vezes acredito que, algures, lá nos Altos Desígnios, a nossa vida está traçada desde o momento em que somos concebidos.
Desde que acreditemos que há um Ser Superior que é Onisciente, mesmo antes de nascermos Ele já saberá como vai ser a vida de cada um de nós, apesar de nos ter criado livres, sobretudo para pensarmos, muitos vezes não livres dos nossos corpos e obrigados a esconder ou disfarçar o nosso modo de pensar, de ser ou não religioso, etc.
Ao longo dos muitos anos já vividos sofri pesadíssimos golpes, dores imensas, incuráveis, mas tive a felicidade de ir conhecendo e criando amizades, algumas tão profundas que atravessam os anos, se consolidam e deixam de pertencer a um simples grupo de amigos para se integrarem completamente como membros da família.
E o gratificante, é que apesar de muitos irem ficando pelo caminho, mesmo nesta já provecta idade, ainda vou conseguindo novas amizades que muito prezo.
E isso é um dos maiores prazeres que a vida nos proporciona, os Amigos.
Através de um vem outro, guardam-se e estimam-se aqueles com quem nos entendemos melhor, e assim há poucos dias um novo amigo veio, através de alguns livros, tornar mais agradável a nossa vivência.
Livro lançado há poucos dias com descrições históricas do que foi o abandono da colónias portuguesas, entregues de qualquer modo ao bloco soviético, que levou ao êxodo de milhares de brancos que sentiam africanos e ao genocídio de perto de dois milhões de angolanos e moçambicanos, que um dia haviam pensado que a independência lhes daria o direito de escolher os seus governantes, logro a que que cubanos, russos e asseclas jamais permitiram, como ainda hoje se vê, por exemplo, na tão democrática Cuba.
Através de um valente jovem português, o Puto, somos levados aos bastidores de uma guerra fratricida, à vergonha das tropas portuguesas vergonhosamente vencidas, algumas até vendidas por capitãezinhos pseudo esquerdistas, enfim, à maior vergonha da história de Portugal.
“O Puto” é um livro com descrições da brutalidade daqueles tempos, quando os africanos não comunistas – em Moçambique os não frelimistas, mais de 70% da população, e em Angola os bacongos e os umbundos, imensa maioria de toda a população angolana – tentaram impedir a imposição dum novo colonialismo brutal, incomparavelmente pior do que o que tiveram com os portugueses.


Devem ler o livro quem viveu esses tempos conturbados e aqueles que gostem de ir mais fundo no estudo da história, tão alterada, tão falsa, tão mentirosa como a mídia mostrou durante e pós 25 de Abril. E ainda hoje prefere enaltecer as festas do Avante e discutir, denegrir o nome a dar a um museu, que tão simplesmente se propôs chamar Museu das Descobertas, do que mostrar a verdade atrás dum ato, quase infantil, de alguns capitães poetas e acomodados, logo ultrapassados pela esquerda festiva e destrutiva.
Sem adjetivações e demonstrações de favoritismo político, todas as páginas relatam uma luta levada sem medo nem fronteiras por um jovem PORTUGUÊS, que se sentiu atraiçoado.
Através deste livro tive ainda uma notícia que me deixou mais feliz porque vim a saber que um amigo que eu sabia tinha sido preso e espancado pela Frelimo, afinal havia conseguido safar-se. Nunca mais o tinha visto nem ouvido falar dele, mesmo que tivesse feito diligências nesse sentido, e fiquei agora a saber que viveu depois, até 2009, em Johannesburg.
Ganhei um pouco mais de conhecimento, tive notícias de um amigo e, além disso, ganhei um amigo novo, o autor, Ricardo de Saavedra.
Bem haja, Ricardo.
Às vezes vale a pena viver.

* Do latim “puttus” - menino. “Puto” era o nome, carinhoso, que se dava, em Angola e Moçambique, às crianças, sobretudo portuguesas e a alguns adultos baixinhos. Estes baixinhos, em Angola eram mais chamados de “cambutas”!
Também se usava para referir simplesmente Portugal.

23-03-19




segunda-feira, 25 de março de 2019


O meu Cristo branco

Há uns bons pares de anos, creio que 54, numa altura em que fui de férias à metrópole, aproveitei e fui a Espanha, Vitoria/Gasteiz, visitar um grande amigo, Don Vitoriano Aristi, padre basco, com uma alma grande e uma alegria de vida em Cristo, que incendiava o espírito de qualquer um.
Lá passámos uns dias, bem descontraídos, alegres, numa bela companhia, e foi na época em que, dando sequência ao Concílio Vaticano II, a Igreja determinara que a Missa fosse celebrada de frente para os fiéis e não de costas como tinha sido desde sempre, além de falada nas línguas locais.
Era uma azáfama nas igrejas a terem que se adaptar, mas sentia-se que algo de nova vida estava acontecendo na Igreja Católica. Uma mentalidade renovadora que levantara também naqueles de mentalidade triglodítica, os sempre do contra, os arrogantes incapazes de serena humildade, que achavam que a Missa celebrada nas línguas de cada país ou região não eram compreendidas por Deus (por Deus!!!), como aconteceu, e permanece até hoje, quando alguns padres e bispos, continuam a dizer que respeitam o Papa, mas... não abandonam o latim.
Numa dessas digressões fomos visitar um escultor de obras sacras, e comprámos, muito barato, uma belíssima figura de Cristo, o Sagrado Coração, de gesso, uns 80 cm. de alto, que depois do nosso querido amigo Don Vitoriano lhe dar a benção carregámos conosco de volta e nos acompanhou para Angola, Moçambique e está agora no Brasil.
Começa a história desta imagem quando cruzámos a fronteira de Portugal em Vilar Formoso. Um muito zeloso guarda fronteiriço implicou com a imagem, bonita, e achou que teria sido surrupiada algures numa dessas igrejas que estavam em adaptação!
Bem expliquei que era uma peça de gesso que nos tinha custado 500 pesetas, o que é verdade, mas o ignorante
defensor dos interesses financeiros e patrimoniais da Península, decidiu reter-nos e telefonar para uma “técnica” da Guarda, que teve que interromper o seu almoço para ir até à fronteira verificar a autenticidade e antiguidade do pobre Cristo, que jazia, triste e envergonhado, no balcão da alfândega, enquanto nós... aguardávamos!
Chegou a senhora especialistas em antiguidades, bem chateada, olhou para o Cristo e, pela expressão que fez via-se que estava a fim de trucidar o zeloso estúpido!
Bem embrulhado, deitado no banco traseiro do carro, o Cristo descansou de tanta ignorância, e nós... ainda o temos.
Frágil, alguns dedos quebrados que eu sempre vou tentado (às vezes conseguindo) restaurar, continua, sereno, a ouvir de vez em quando os meus pensamentos, quando me sento na cama que está a seu lado, esperando que algum comentário possa ser entendido.


O Cristo, com uma roupagem simples, de pobre, descalço, não pode deixar de mexer conosco, aliás, com toda a gente que, humildemente queira olhar para ele e, usando a  argumentação de Sócrates no seu diálogo com Eutífrone, não é por uma coisa ser vista que a vêem, pelo contrário, é por a verem que ela é vista. *
Ao olhar para uma imagem sacra quase toda a gente se fixa na obra do autor, nas cores, na beleza, proporções, etc. e, raras vezes, procuram dialogar com ela.
Lembro com saudade e imensa admiração de algumas mulheres angolanas que se iam prostrar aos pés da imagem de Nossa Senhora, na Igreja da Nazaré, em Luanda, e discutiam com a Virgem, humildes, por vezes zangadas porque Lhe haviam feito um pedido e não tinham sido ainda atendidas. E faziam-no em voz alta, numa espantosa demonstração de fé, ora ajoelhadas ora de pé, apontavam o dedo à Senhora, prometendo voltar para continuarem a reclamar.
Eu, mais agnóstico, vez por outra sento-me na borda da cama, a seu lado, e simplesmente me deixo ali ficar alguns momentos, no mesmo silêncio que às vezes nos diz muita coisa. Olho para Ele, jamais me atrevi a tentar “negociar”, no género faz-me isto que eu prometo aquilo, e, quando me retiro continuo a pensar na “conversa” que não existiu!
Mas como estou em Londres e os jornais não falam noutra coisa que não seja o Brexit, tento procurar o que o Cristo me diria se o consultasse diretamente sobre isto.
Imagino que a resposta seria de uma imensa simplicidade, algo como “aos homens foi dado o poder da fala, de dialogarem. Mas só se vão entender quando quiserem e partirem desse pressuposto. Para isso é necessário que sejam humildes e na verdade procurem o bem do todos”.
O mal é que são pressupostos que dificilmente se encontram em políticos, e na maioria dos homens em geral, onde impera a arrogância e a adoração aos bezerros de ouro onde quer que eles estejam.
Estou a lembrar de uma cena curiosa.
Estava em Moçambique, LM, no banco BCCI, e o meu papel eram as relações com o público, clientes, imagem da marca, etc., mas nada a ver com as contabilidades, a informática e outras áreas complicadas dos bancos.
Entre a matriz, em Lourenço Marques e a diretoria da Beira havia sempre atritos, ou por causa das técnicas ou o que seja, o Administrador resolveu mandar uma equipa à Beira ver se acabavam de vez com esses pequenos e idiotas pseudo-problemas.
Eu, nada metido nas técnicas contabilísticas fui mandado com outros colegas... pouco mais do que assistir passivamente.
Reuniões, discussões, argumentações, mas nada de soluções. E eu a ver.
Ao fim do dia costumávamos ir beber um copo num dos bares da terra e um dos diretores de LM, grande especialista contábil, achava que eu só ali estava por ser amigo do Administrador. Respondi-lhe que também não sabia porque me tinha mandado, mas que assistindo às reuniões tinha constado um problema extremamente simples: ninguém estava interessado em resolver coisa alguma, só cada um a mostrar que era mais sábio do que outro, e assim podíamos lá ficar indefinidamente que dali nada sairia.
Ele olhou-me, zangado, mas faltou-lhe argumentação! Eu insisti se você quer resolver os atritos que existem, amanhã ao chegar comece a concordar com tudo o que eles disserem. Depois, com o seu conhecimento dê um peque jeito aqui, outro ali, e verá que no fim do dia terão acabado as divergências.
Fomos a pé para o hotel, e no caminho tive a minha coroa de glória, eu, desprezado por nada saber de contas bancárias: tem toda a razão. Temos estado como meninos teimosos, a ver quem é mais esperto. Amanhã vou seguir o seu conselho.
No dia seguinte, à hora do almoço a harmonia entre todos era tão visível que até fomos almoçar juntos. À tarde, tudo resolvido, era só fazer as malas e regressar a LM. Simples.
Talvez por estas e outras se possa chamar ao cristianismo “O milagre da normalidade”.
Agora, por este Reino-desUnido, a fortíssima pressão popular deve mudar o jogo argumentando que é ao povo a solução dos problemas do país. E tem razão. Querem nova votação sobre o problema.
A melhor imagem da condução do Brexit que vi até agora aqui a reproduzo, e mostra bem a liderança, a arrogância e o pensamento político da madama May


E... valha-nos Deus.

*De Platão, “EUTÍFRONE”, ensaio de tradução, do original, pelo grande Mestre Agostinho da Silva.

22/03/19

segunda-feira, 18 de março de 2019



Gente da Cuca

Na Cuca trabalhou muitos anos um sujeito fabuloso. Era o homem das Relações Públicas, a quem era impossível dizer Não.
Quando começou o terrorismo em Angola, Março de 1961, o Renato estava em viagem pelo norte de Angola, em visita a distribuidores da cerveja. Ouvia as suas queixas, se as havia, ajudava a resolver problemas de logística, mas sobretudo deixava a todos muito bem dispostos e animados com a empresa, porque sempre terminava as suas visitas com uma bela petiscada generosamente regada com as tais Cucas, e a sua contagiosa e boa disposição.
Para ele não havia problemas que não pudessem ser resolvidos, dizia a tudo que sim, mesmo que depois tivesse que voltar a trás e dizer talvez. E se os problemas não se resolviam, não era com ele que alguém se aborrecia. Nunca. Não, jamais dizia.
Mas nessa visita ao norte, de carro, dormiu uma noite em Quitexe, e como era madrugador e as estradas que ia percorrer estavam em muito mau estado, saiu ainda mal o dia estava a nascer. Almoçou em Muxaluando e nessa noite pernoitou em Zala. No dia seguinte, pelo mesmo horário, de madrugada, seguiu para o Ambriz.
Ao chegar a esta cidade o alvoroço era enorme. Tinham recebido notícias do que estava a acontecer por toda a região que acabara de atravessar. Tinha irrompido o que se chamou, e foi, o terrorismo. Momentos após a sua saída de Quitexe a povoação foi atacada e massacrada toda a população branca ou mestiça que ali vivia. À tarde aconteceu o mesmo em Muxaluando, e naquela mesma manhã em Zala.
O Renato quando ouviu isto ficou aterrado. Tinham escapado incólumes, ele e o ajudante, andando sempre só alguns minutos à frente da morte, sem terem a menor noção do horror que estava acontecendo.
Durante muito tempo não havia quem o arrancasse de Luanda. Ficou traumatizado, o que é natural, face à brutalidade desses ataques, que só tiveram como resultado um outro brutal contra ataque da parte dos brancos. Enfim.
Mas o tempo foi diluindo o choque, e o Renato voltou a ser o mesmo, sempre amável e atencioso, alegre, muito educado, prestável, bonancheirão, generoso.
Mas voltar a percorrer Angola de carro, isso não foi capaz.
Sendo eu o seu “chefe” um dia estávamos a combinar ir a Nova Lisboa. Ele seguiria de carro, com o ajudante, ótimo, que tínhamos para essas viagens, e eu iria lá ter, de avião, dois dias depois.
O Renato, transtornado vira-se para mim e diz:
- Não vou!
- Não vai??? O que se passa?
- Pode até despedir-me, mas de carro eu não vou!
 Despedir o Renato, peça chave na companhia, nem o Papa! Muito menos eu! Só depois é que entendi que tudo aquilo eram os resquícios do trauma, violentíssimo, que vivera.
Mandámos um motorista levar o carro e fomos os dois de avião.
Como responsável comercial da companhia, um dia organizei uma espécie de reuniões de formação para os promotores e o restante pessoal de vendas. Usava uns painéis com frases chave e ia discorrendo com exemplos sobre os métodos de atuação. O Renato, depois do almoço, ainda nem a meio do meu papo ia, já dormia a sono solto.
Um dos painéis tinha uma frase bombástica: “Se queres comandar a natureza tens que obedecer às suas leis. Francis Bacon”.
Renato, bom garfo e gourmet, só ouviu a palavra bacon! Abre os olhos meio estremunhado e diz:
- Ah! Bacon, eu gosto muito!
É fácil imaginar o riso que contagiou a assembleia!
Quando o levava para almoçar ou jantar conosco, sempre fazia a mesma brincadeira: sabia que a minha mulher “instruía” o cozinheiro, lendo-lhe do seu, hoje famoso, livro de cozinha, o prato que ele devia cozinhar. Lia mais ou menos de uma fornada, e o cozinheiro fazia à moda dele, mas sempre impecável.
O Renato, sempre fazia a graça de telefonar lá para casa e perguntar à minha mulher:
- O jantar hoje, é do livrinho?
Adorava receber em sua casa onde sempre se preparavam uns petiscos ótimos. Recebia com a maior lhaneza e fazia questão que todos se sentissem totalmente à vontade, aliás uma maneira de ser africana, exponenciada por ele.
O Manel Teixeira, licenciado em Direito, jovem alferes, vinte e poucos anos, acabara de chegar a Luanda para cumprir o serviço militar na guerra colonial. Nos serviços administrativos do exército, nunca andou pelo mato. Sorte dele.
Renato soube da sua chegada, que estava sozinho em Luanda, sabia que era um grande amigo meu, fez questão que o levasse para jantar em sua casa.
Uns dez convivas, mesas postas no terraço, fresquinho, onde sempre corria uma agradável brisa. Chão de cerâmica. O anfitrião incansável nas atenções para com os convidados, que se sentissem bem. Ótimo jantar, tudo muito bem arranjado com a colaboração do Pincelinho, uma simpática amiga sua, baixinha, junto de quem acabou seus dias. O Manel, fazendo cerimónia, porque ainda não estava nem familiarizado nem angolanizado. Era a primeira vez que ia a casa do Renato.
O serviço de pratos era ótimo e lindo. Moderno. Branco, com um rebordo vermelho, muito bonito. Made in USA, Pirex, inquebrável, novidade.
O Manel estranhou, quando lhe disseram que era inquebrável. Lá na terrinha não havia disso, pelo menos que ele tivesse conhecimento.
- Muito bonito. Mas é mesmo inquebrável? Pode cair ao chão e não quebra?
- Pode. É mesmo inquebrável. Pode experimentar.
O Manel, meio desconfiado, agarrou num prato para o deixar cair, curioso, mas temeroso. O Renato:
- Oh! Doutor. Experimente. Deixe cair.
Caiu. E fez-se em mil pedaços! Convidado vermelho de vergonha, e logo o anfitrião:
- Experimente outro doutor. Esse devia ter algum defeito. Tome este.
Segundo prato. Mais mil pedaços. Risada geral. O Renato encantado com a experiência.
- Pode partir mais doutor. Não faça cerimónia, nem fique preocupado.
Grande figura. E grande amigo.
Depois do 25/4, a nova diáspora. O Renato vai para o Brasil, teoricamente representava uma casa de vinhos da família Vinhas, mas não lhe dava para viver, e estava a ficar velhote.
Voltou para Lisboa, com a sua simpática companheira, que ele tratava por Pincelinho, uma excelente pessoa, mas a saúde começava a dar sinais ruins.
Já na faixa dos 70, vão os dois na rua, em Lisboa, cruzam-se com uma senhora, que os pára, reconhece o Renato e cai-lhe nos braços! Não se viam talvez há meio século, mas ela não tinha esquecido o seu amor da adolescência.
Estava viúva, sem filhos e o marido tinha-lhe deixado muito folgadas finanças.
Sabendo da situação difícil do “amor juvenil” logo ali o “intimou” para que fosse viver em casa dela. Ele e a companheira. Tinha uma casa grande, automóvel e motorista, e não havia qualquer intenção de compartilhar o namoro perdido, mas não esquecido.
Lá foram.
Não tardou a que Renato piorasse e tivesse que ser internado. Numa das melhores clínicas de Lisboa, tudo por conta do antigo amor!
Mas estava já muito mal. Ainda o fui visitar. A cabeça baralhada. Reconheceu-me bem mas logo me associou a Luanda e perguntou-me se estava hospedado no Hotel Universo que é em Luanda.
Saí chocado da clínica. Regressei ao Brasil uns dias depois e entretanto o meu muito querido amigo, Renato Lima,  a quem os nossos filhos chamavam de Tio Relato, finalmente, descansou. Na foto ele teria uns 40 e pouco.

*             *             *              *             *
Outro amigo que o tempo mais não fez do que consolidar uma amizade muito franca. Foi ele que me entrevistou, em 1957, Lisboa, para a possibilidade de preencher uma vaga de técnico na Cuca em Angola.  Era o secretário da administração, em Portugal. Gordo, simpático, grandão, irradiava simpatia. Eu não o conhecia, e só tinha algum contato, muito esporádico, com um seu irmão, amigo duma irmã minha.
E lá voltei eu para Angola.
Em 1961 a Companhia me mandou fazer uma série de estágios e visitas de estudo pela Europa, era com ele que me entendia, em finanças, destinos, etc. Os patrões eram muito “patrões”! Não sei já como me fazia chegar o dinheiro lá ao estrangeiro, mas sempre fazia questão de dizer que não esquecera de mandar o meu salário a casa dos sogros, onde tinham ficado os primeiros quatro dos nossos filhos. Não se preocupe com as crianças. O dinheiro vai lá ter certinho!
Quando em 1963 surge e violentamente se espalha um boato caluniando o administrador da Cuca, Manuel Vinhas, dizendo que ela andava a dar dinheiros aos terroristas, dentro da companhia fui eu o único que não acreditei em semelhante estupidez, como iniciei uma tremenda luta contra isso.
Mas a verdade é que teve nefasta influência nas nossas vendas e eu era o responsável. O administrador local, Dr. Francisco Maia de Loureiro, aconselhou-me a escrever um relatório detalhado para a patrãozada em Lisboa, e ele mesmo escreveu a dizer que o sr. Amorim está a preparar um relatório...
O tal senhor Vinhas não gostou que alguém lhe apontasse o dedo e ficou bravo.
Uns dias depois recebo um telefonema de Lisboa. Do já meu amigo secretário da administração. Conversa tipo telegráfica, porque em questões de política nunca se sabe quem e o que estão escutando, e disse-me só:
- Estão todos bem aí em casa?
- Tudo perfeito.
- Não mande o relatório.
Não entendi e perguntei:
- Qual relatório?
- O que o dr. Maia Loureiro anunciou.
- Porque?
- Sabe que eu sou seu amigo, não sou? Então esqueça o relatório, e adeus.
Desligou!
Fiquei sem entender o que se estava a passar, tinha o tal relatório alinhavado, guardei numa gaveta e... não disse nada.
O boato foi de tal maneira que o “patrão” estava até proibido de sair de Portugal.
Um ano depois tive que ir a Lisboa, em serviço, contei ao meu sogro, juiz, o que se estava passando e, sobretudo que nada tinha acontecido e que a PIDE, como de costume, sem qualquer prova, mantinha o caso aberto.
Na ocasião o Chefe de Gabinete do Ministro do Interior tinha trabalhado como Delegado com o meu sogro, que decide telefonar-lhe e pedir uns minutos para expor-lhe um problema.
Lá fomos os dois. Expliquei bem a situação, o senhor não sabia de nada, mas disse que ia mandar buscar o processo e falar com o ministro. Depois do almoço telefonaria.
Assim foi. Disse que eu lá fosse ter com ele que me entregaria uma carta, dirigida ao “suspeito” assinada pelo ministro, informando que o processo acabara, tinha sido arquivado.
O meu amigo, secretário da companhia sempre fora, e continuou a ser muito amigo do “patrão visado”. Quando lhe telefonei a dizer que o problema estava resolvido, não acreditou.
Encontrámo-nos ao fim da tarde, entreguei-lhe a carta e as lágrimas apareceram-lhe nos olhos. O tal “patrão” ... nem uma palavra. Podia ter mandado um cartão de visita a agradecer, mas... dois anos depois foi grosso comigo, eu respondi-lhe e mandei-me! Não gosto de desaforo de rico.
A amizade com o “secretário” logo passado a administrador, essa ficou, firme e forte, mesmo quando o oceano nos separou. Vivíamos no Brasil, mas todas as vezes que ia a Portugal um almoço com ele era prato obrigatório.
Em 80 o nosso filho Luis lembrou-se de ir para Portugal atrás duma... e casar. Não valeu conselho de velho, foi e casou, mesmo que o casório não tenha durado mais que alguns meses.
Festa do casório em Oliveira de Azeméis. A nossa família contratou um ônibus e lá foram os convidados, numa farra que jamais alguém havia visto algo parecido, o que se ficou a dever à nossa sobrinha Zeza, que animou a excursão de tal modo que as pessoas foram e voltaram a rir!
No regresso a Lisboa, o querido amigo João Matos Chaves vira-se para mim e diz-me:
- Oh! Chico! Tem que casar todos os filhos aqui em Portugal. Um casamento como este nunca aconteceu antes.


0             0             0              0             0             0

Dando este passeio pela Cuca, há pelo menos mais um colega de quem volta e meia me lembro.
Sobre ele escrevi um pouco no meu livro, de 1998, no capítulo “ESTÁ  FRESQUINHA”.
 Cuca foi a primeira fábrica de cervejas a instalar-se em Angola, em 1956, e até ao fim do tempo colonial manteve a liderança do mercado, apesar da concorrência de mais quatro que entretanto foram nascendo.
Foi seu cervejeiro, chefe dos serviços de fabricação durante muitos anos, um açoreano, filho de cervejeiro, homem calado, teimoso e simples, ótimo profissional, cioso do seu trabalho.
Sempre tinha vivido ligado à cerveja, a quem dedicava todo o seu saber e experiência.
Para se manter inalterada a qualidade e tipo de cerveja, a sua fabricação obriga a uma série de cuidados que vão desde a eleição das matérias primas, os diversos tipos de cevada ou malte e lúpulo são previamente submetidas a análises rigorosas.
Até os cuidados com a água são de importância capital. A matéria prima mais importante na cerveja é, sem dúvida, a água. Esta era toda lavada e depois acrescentada com os sais que o laboratório indicava diariamente, após feitas também as convenientes análises.
Depois, durante o processo de fabricação, de que se faziam por dia quatro ou cinco caldeiradas de milhares de litros cada uma, era necessário misturar essas caldeiradas umas com as outras. A este mosto que segue para tanques de fermentação é adicionada a levedura, ou fermento, que começa imediatamente a transformar o mosto em cerveja. O tempo de fermentação varia com o tipo de cerveja a fabricar, e finda a fermentação principal a cerveja entra em tanques de fermentação secundária ou amadurecimento. À saída da fermentação primária misturam-se vários tanques e finalmente dos tanques de amadurecimento final, se faz outra mescla para que a qualidade do produto a engarrafar e seguir para o mercado, se apresente de tal forma homogêneo que não possa sujeitar-se a oscilações.
A fermentação faz-se com levedura que, como qualquer ser vivo, apesar de todos estes cuidados, sempre encontra possibilidade de manifestar a sua personalidade individualista. Assim aparecem de vez em quando uns tanques em que a cerveja, por razões mais ou menos desconhecidas sai diferente. A sua cuidada mistura com outros tanques acaba por disseminar essa diferença sem alterar a qualidade final.
Quando num desses tanques aparecia alguma coisa de muito especial, o nosso cervejeiro, sentia um prazer maior, e gostava de o compartilhar com os colegas, o que era natural.
A um por um mandava recado para irem à sua sala, evocando qualquer pretexto de trabalho, e sem alardes mandava à adega buscar dois copos daquela cerveja. Ninguém suspeitava, porque mesmo que nada de especial estivesse acontecendo, sempre que alguém ia falar com ele, era de praxe oferecer-lhe um copo de cerveja tirada diretamente da adega. Mas naqueles dias a intenção era outra.
Depois do colega beber o primeiro gole, com ar aparentando total despreocupação, perguntava:
- Que tal está essa cerveja?
Quase sempre a resposta era a mesma, estava muito boa, sem dúvida. Aliás beber cerveja saída diretamente dos tanques da adega, apesar de apresentar turvação própria da levedura ainda em suspensão, que é depois retirada durante a filtragem, era sempre uma delícia. Muito leve.
Dessa vez porém a cerveja estava bem para lá do simples muito boa.
- Aahh! Mas isto está uma maravilha! Que cerveja é esta? Alguma novidade na manga?
Era o que o pai da criança queria e gostava de ouvir. Ficava todo feliz! Eram pequenas coroas de glória que sem prejudicar alguém lhe davam enorme satisfação. Dessa vez a cerveja estava muito especial.
Teciam-se depois alguns comentários sobre a excepção daquele tanque, que tal como acontece nas adegas de vinho, em que se fazem milhares e milhares de litros, no meio de tudo aquilo há sempre uns quantos barris que se sobressaem. No vinho ainda dá para fazer seleções, engarrafando o especial com rótulo e preço de eleição, porque há sempre quem compre o que é superior, quando não é o próprio produtor que o guarda para si. Na cerveja não se pode variar a qualidade, mesmo que por acidente ela se apresente melhor. Nem engarrafar em separado para os amigos, porque quanto menos tempo de engarrafada, melhor é para se beber. O destino destas pequenas maravilhas é acabarem diluídas no meio de tantas outras, a fim de se manter a qualidade estabilizada. Nada mais do que isto.
Entre os colegas havia um responsável pela manutenção do equipamento da fábrica, engenheiro de máquinas, o Sampaio, a quem chamávamos de Xampaio por ser lá de xima, das Beiras de Portugal, onde em algumas regiões se fala ainda com sotaque galáico português (que me perdoem os linguistas se estiver dizendo algum disparate). Baixinho, forreta, mão de vaca, sem qualquer sentido de humor, mas competente na sua área.
Foi também chamado a pretexto de discutirem algum detalhe técnico-mecânico, assim que à sua sala já lhe estava passando às mãos um copo da tal maravilha. O Xampaio, bebeu um gole e nada. Segundo. Terceiro. O copo todo.
- Então, que tal acha essa cerveja?
- Está fresquinha. Está muito fresquinha!
Imaginem a cara do cervejeiro. À espera de mais um elogio, limitou-se a ouvir que estava fresquinha. Talvez porque a responsabilidade da manutenção do equipamento de frio fosse dele, do tal Xampaio! O Cabral deve ter tido vontade de estrangular aquele provador para quem um copo de cerveja, vinho ou vinagre teria sido a mesma coisa, desde que estivesse fresquinho!
O cervejeiro, que eu muito considerava como colega e amigo era o Ricardo Cabral.
Foto dum jantar com os “patrões”:
1.- Miguel Monteiro – Presidente do Conselho de Administração
2.- António Fonseca – Presidente de... ?
3.- Leonor Aragão – Secretária do Diretor
4.- Alfredo Duarte Figueiredo – Diretor da Fábrica de Nova Lisboa
5.- João Matos Chaves – Secretário da Administração em Lisboa
6.- Eu
7.- Ricardo Cabral – Mestre Cervejeiro
8.- Renato Lima – Relações Públicas
9.- José “Xampaio” – Engenheiro de Manutenção


Fev.19