segunda-feira, 23 de julho de 2018



PROLEGÓMENOS e AMIGOS – 7


Foi por acaso que comecei por agrupar alguns amigos por “corporações”, como surgiram na Idade Média a partir do século XII, para me facilitar o tentar não esquecer algum.
Hoje vamos “navegar” um pouco com alguns deles. Poseidon e Neptuno, de comum acordo autorizam os navegantes a vir até nós.
Homens do mar, da Marinha de Guerra, comercial e de recreio. Um pequeno apontamento de cada um, que já não estão entre nós, e por isso mesmo, falar deles, por pouco que seja, é não deixar que se afastem da nossa memória.
A maior riqueza que uma pessoa pode possuir enquanto peregrina por este mundo de cobiça, inveja e desgraça é a família e os amigos que desta fazem parte inseparável.
Talvez o maior dom que eu tenha recebido foi a capacidade de fazer amigos! Agora, que a idade vai demasiado avançada, quando nos parece que os dias, meses e anos se sucedem cada vez com mais rapidez do que quando éramos jovens, recordar esses amigos são momentos de grande satisfação, mesmo que a tristeza de saber que nos deixaram há mais de quarto de século não nos largue.
Morre a carne; “do pó viemos e ao pó voltaremos”. O espírito é eterno. Falando deles, com eles, essa eternidade torna-se real.

Vamos começar com os “guerreiros do mar”!
Éramos jovens. Eu sempre com os bolsos vazios, precisava fazer quase milagres para me deslocar a Santo Amaro de Oeiras, a 20 quilómetros de Lisboa, onde vivia a gatinha! Hoje, 20 quilómetros são “a porta ao lado”, mas naquele tempo... era uma viagem. São passados uns 70 anos. Ninguém vai acreditar, mas como tenho por hábito não mentir, cada um pense o que lhe aprouver.
Combóio de e para Lisboa, elétrico de casa para a Estação e volta, por pouco que fosse, para quem não tinha quase nada era uma senhora ginástica.
Ali perto morava um casal amigo dos futuros sogros e dos meus pais, que tinha um só filho, um pouco mais novo do que eu, muito simpático, alegre, tranquilo, amável. E os seus pais tinham sempre a porta de casa aberta para este andarilho!
Lembro muito da mãe dele, que sabia das minhas andanças, e muita vez me convidou para jantar com eles e até lá ficar a dormir para não ter que tornar a desembolsar aquela “enorme quantia” para voltar no dia seguinte.
Convivemos muito até que um dia, “amarrei” a gatinha, casámos e quase desaparecemos nas infindáveis savanas e florestas da África!
Ele seguiu a carreira da Marinha, e foi em Luanda que passámos a ter novamente mais contato, quando a Fragata de que era imediato dava uma folga ao pessoal. Eu, terráqueo luandense, nessa altura era possuidor duma viatura especial, que servia quase que ininterrupta e exclusivamente para emprestar aos militares que, do mar ou do interior, iam passar uns dias na capital. Um até cumpriu um ano na cidade, deslocando, glorioso, nesse inolvidável meio de transporte!
Esse “carrão”, um Morris Minor, sem capota, de 1932, forte motor de 600 cc, fazia a alegria desses amigos que ficavam independentes. O contrato de empréstimo era simples: devolver como leva; se avariar nas mãos de terceiros... consertem. Nunca avariou!
Olhem a belezura! (1963...? com o João Matos Chaves e César Silveira Machado)

Os navegantes chegavam a Luanda e a primeira coisa que faziam era telefonar a perguntar se o carro estava disponível. Passado pouco chegavam lá a casa o Imediato e o Comandante (cujo nome esqueci) e o bólido seguia com eles, felizes da vida.
Depois... acabou a comissão em Angola, e dificilmente nos encontrávamos nas raras idas minhas a Portugal.
Aposentou-se como Mar e Guerra e foi já quase no fim da sua vida que tornei a estar com ele, um pouco entristecido.

O meu querido amigo Eurico Burguete. E sempre saudades dos seus pais.

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Outro dos marinheiros “fardados”, que igualmente terminou a carreira como Mar e Guerra, amigo com quem convivemos não só em Luanda, mas também no longínquo Lourenço Marques.
Jovem, aos 25 anos, atleta de pentatlo, representou Portugal nas Olimpíadas de Helsínquia em 1952. Ainda lembro de o ver um dia, em Luanda atirar-se ao mar, que estava de calemas, para ir salvar um homem que se estava a afogar. Sempre pronto com grande calma e presença de espírito.
Foi a ele que recorri quando decidi obter a carta de “Patrão de Alto Mar” (no Brasil é Capitão Amador), uma vez que tinha já em Angola a de Patrão de Costa (Mestre Amador), porque o sonho de um dia entrar por esses mares e correr novas terras e gentes, me atormentava desde criança!
Naquele tempo, 1971, a navegação não tinha muita diferença da utilizada por Pedro Álvares Cabral ou Vasco da Gama. Não havia GPS e estava fora de questão um radar, que só navios de maior porte usavam. Quando muito um rádio ADF por onde se podia, perto da costa calcular uma posição desde que... se reconhecessem os sinais emitidos por emissoras de rádio, e assim fazer uma “triangulação”! Mas o indispensável era o velho sextante, e depois uma série de consultas de tabelas, contas com trigonometria à mistura, enfim, uma complexa e delicada trabalheira.
O nosso Mar e Guerra, há muito fora desses cálculos, apresentou-me um jovem tenente há pouco saído da Escola Naval, que me pediu uma semana, porque já não se lembrava bem como era o arcaico procedimento!
Bom, lá me deu umas aulas até me apresentar ao Capitão do Porto que me fez o exame! Fui aprovado, com dificuldade... e nunca me servi desse documento!
Depois de aposentado, e já em Portugal nos encontrámos com alguma assiduidade e volta e meia recordávamos esse aprendizado, e por fim, já muito doente consegui visita-lo algumas vezes!
Era uma pessoa simples, amigo, muito, do seu amigo, o António Jonet.


(Desculpem a péssima foto! Já estava muito doente)

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Outro irmão do Tó (António), uns bons anos mais novo, seguiu também a carreira da Marinha. Esteve em Angola, casado e alguns filhos. Foi ajudante do Almirante, comandou as comunicações, passou um ano no Norte, mas o que contou para a nossa amizade foram os dez anos passados em Luanda. Foi também daí que criámos aquela amizade que só aquelas terras souberam dar.
Regressa a Portugal em 1969, e começa a apresentar complicados problemas de saúde, passando à reserva.
De entrada sem mais nada para fazer, nem qualquer outro trabalho à vista passou um mau bocado, mas não tardou muito a ser convidado para a vida civil, onde deu mostras do seu saber e ficou até quase ao fim do seu tempo.
Em Portugal, não deixámos a amizade esquecida, e sempre fazíamos parte dum grupo de amigos cimentados pela intensa vivência em África.
Alegre, bom amigo teve um fim sofrido, até que descansou.
Não esqueço nunca o Jorge Jonet e a família.


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Creio que já um dia contei este pequeno episódio da minha iniciação na vela: um querido amigo, como irmão desde a nossa adolescência, sempre fez parte da nossa família. Quando nós, os irmãos de sangue nos juntávamos, quando eu aparecia por Lisboa, este irmão estava sempre presente.
Gostava de mar e tinha um Sharpie 6 metros (?), de uma vela só, boca aberta, enfim um barquinho bem simpático para navegar em solo, ou com mais um ou dois “convidados, pela baía de Cascais e arredores.
Um dia lá fui eu, de convidado, teria talvez uns 14 anos. “Inocente”, a certa altura levantei-me, e o piloto não perdeu a ocasião: decidiu cambar (virar de repente com vento pela ré), a retranca vira com violência e o convidado foi jogado na água! Muito se riu o “velho marinheiro”!
Esta brincadeira serviu, durante muitos anos, para nos lembrar tempos há muito passados. E foi o meu início como marinheiro.
Uns anos depois o Luis foi meu padrinho de casamento e mais tarde padrinho do meu filho Luis. Era o meu muito querido irmão mais velho, e a mulher, Maria de las Mercedes, madrinha da Joana. Luis Quintella.


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Vamos agora à navegação comercial, chamada mercante.
Os melhores, e ótimos, navios que havia em Portugal eram o Santa Maria (que foi sequestrado e deu origem ao início da guerra colonial) e o Vera Cruz.
Quando Portugal começou a enviar tropas para Angola o “Vera Cruz” foi o transporte escolhido. Levava para baixo e para cima milhares de militares de cada vez.
Durante uns anos inspetor da companhia em Luanda, casado com uma muito querida prima minha, apesar da diferença de idade, foi um dos meus mais presentes amigos.
Depois foi comandar o “Vera Cruz”. Chegava a Luanda, despejava quase toda a tropa e muita vez ainda, com o navio quase vazio, seguia até ao Lobito deixar mais uns poucos e receber os que acabavam a comissão para regresso à Metrópole.
Várias destas vezes convidava-nos para esse magnífico passeio, sempre com mais um ou dois casais amigos. Embarcávamos pelas seis da tarde, comíamos um magnífico jantar, ficávamos na conversa até tarde e por fim dormíamos como “anjos” até que de manhã cedo o navio atracava no Lobito.
A descarga e a carga demoravam quase o dia todo, o que me ajudava a visitar o depósito da Cuca, e ao fim da tarde regresso a Luanda onde chegávamos ao nascer do dia! Foram passeios maravilhosos!
Voltámos a estar juntos em Lourenço Marques, o atual Maputo, onde voltou a ser o inspetor da companhia de navegação, onde, uma outra vez convivemos muito. Os dois casais e os nossos filhos.
Mais tarde, em Portugal, quando ainda tentei ali voltar a viver, o país, arrasado pela revolução dos cravos, tinha-se desfeito de toda a sua marinha mercante, e o meu querido amigo e primo sem nada para fazer.
Um dia, quando os libertadores da ditadura arrasaram a navegação, o bom comandante encontra-se na rua com um indivíduo, muito bem vestido, pasta de executivo na mão que se lhe dirige:
- Senhor comandante que prazer em encontrá-lo!
- Mas onde vais nessa figura?
- Olhe, senhor comandante, como sabe acabaram com os navios todos, entretanto convenceram-me a assinar uns papeis do Partido Comunista, mas havendo ainda na companhia assuntos para resolver e não tendo ninguém, nomearam-me administrador!
O Comandante no seu camarote no “Vera Cruz”!

O mais categorizado ex comandante da companhia, só conseguiu reagir com um “Oh!”. O novo administrador tinha sido admitido por ele, como padeiro a bordo, e confessava tristemente que sabia andar a fazer figura de palhaço, e que nada entendia de administração!
Um detalhe da famigerada revolução que destruiu a economia de Portugal.
O meu muito saudoso primo José de Azeredo e Vasconcelos, tendo sido expulso da Escola Naval, com a argumentação de ter demasiada personalidade, fez a sua vida na marinha mercante.
Grande comandante e, sobretudo, grande amigo.

23 jul. 18


segunda-feira, 16 de julho de 2018


Interrompi um pouco este “encontro”, sonhado, com amigos, que continuam a fazer-me falta, para dar um grito de indignação com o descalabro administrativo, social e económico em que a gang esquerdista deixou o país (Brasil) e que continua com métodos bolcheviques a lutar para voltar e continuar a mamar no bolo da res publica.
Prefiro lembrar dos amigos. Cada um destes vale mais que toda a canalha política.

PROLEGÓMENOS e AMIGOS – 6


Ainda mais alguns que a vida ligou às agrícolas. Parece que nem um deles se dedicou muito à produção de trincadeira. Todos começaram por regentes agrícolas e só um nessa classe permaneceu. Um cuidou de filosofia e sociologia e um pouco de carneiros por causa da pele. Outro foi cuidando de árvores e celulose e depois passou para silvicultura. O terceiro começou logo a estudar agronomia, formou-se e acabou a vida profissional como professor em Évora.

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Sobre o primeiro já escrevi, há 20 anos no livro “Contos Peregrinos a Preto e Branco”.
O meu primeiro pouso em África foi em Banguela. Anos antes o meu avô, que por lá andou feito menino rico a gastar dinheiro tinha um amigo, grande comerciante e foi a ele que me dirigi, numa cidade em que não conhecia ninguém. Ernesto Lara, e logo me contou que o seu filho estava em Portugal a terminar o mesmo curso. Quando chegou não foi difícil criarmos amizade. Era um regente agrícola piradão. Angolano dos quatro costados, de Benguela, aquela cidade mulata, só tinha um defeito: era branco. Isso não o impediu de acérrimo defensor da independência de Angola, o que lhe valeu ser diversas vezes preso pela famigerada PIDE. Nunca demorou muito tempo preso. Não era nem político nem revolucionário.
Homem duma alegria e sensibilidade, muito especial. A melhor palavra que me ocorre para o definir seria: POETA. Um poeta que escreveu poemas lindíssimos, um poeta no seu modo de vida, descontraído e imensamente preocupado com o povo da terra onde nasceu.
Um poeta que amou, como só os poetas sabem amar.
E foi um amigo que o tempo não permite que me esqueça dele, sempre com a maior saudade.
O texto que se segue, escrito por um jovem de 25 anos, quando andava ainda pela Europa.
Irmão da grande poetisa angolana, Alda Lara, também branca, que cantou a miséria do nativo e o seu repudio aos métodos coloniais. A Alda, a PIDE nada pôde fazer porque infelizmente morreu muito nova.
Mas o Ernesto não era preso que interessasse à PIDE. Era um idealista, um sonhador, um poeta. Amigo do seu amigo, fosse ele da cor que fosse - era de Benguela! - inteligente, e com uma boa disposição e alegria contagiantes.
Andava sempre duro! O dinheiro queimava-lhe os bolsos e gostava de beber o seu copo.
A PIDE, sempre aquela droga de polícia que metia o nariz em tudo, dava até ordens ao governo, não tinha razões para manter o Ernesto preso, mas também não o queria junto de grandes centros para que as suas idéias libertárias, o seu amor a Angola, não perturbassem os indecisos, nem acirrassem mais os ânimos dos determinados, acabou por encontrar o lugar ideal para o colocar: no deserto de Moçâmedes, Namibe, como técnico da criação de carneiros Karacul, que estava crescendo com sucesso em Angola. Ali ele deveria ficar sossegado. Longe de tudo e todos.
Já depois de semi desterrado, teve que ir a Luanda onde ficou uns dias, e como era habitual, logo o dinheiro se lhe acabou. Pediu-me emprestado algum para o regresso.
- Depois to mando. Logo que receba o meu salário.
Passaram-se alguns meses e recebo uma carta:
...Aqui no meio do deserto onde se tratam melhor os animais do que os homens, finalmente consegui separar o dinheiro que te devo, e te ia mandar. Mas pensei: o Chico vai ficar chateado comigo se eu não beber um copo à saúde dele. O que seria infame da minha parte, porque a nossa amizade não merece isso. Assim, agarrei no dinheiro e bebi-o todo. Espero que a tua saúde esteja ótima. Um grande abraço...
Quanto vale uma carta destas, que guardo há tantos anos? Muito mais do que lhe emprestei!
Não saiu de Angola após a Independência e acabou morrendo atropelado numa das suas queridas cidades, Huambo, em 1977.




Não podemos fechar este apontamento sem um pequeno poema que o poeta escreveu para a irmã:

Um dia quando voltares,
não mais encontrarás à tua espera
a nossa casinha de adobe da rua principal.
Quando voltares da Europa, irmã,
hás-de ver ainda como a cidade mudou...
(Lembras-te das promessas que fizemos?) [...]
Quando voltares não mais encontrarás poesia no quintalão do Zé Guerra
agora transformado atravessado assassinado por uma avenida transversal.
Quando voltares só verás como deixaste o Mercado Municipal. [...]
“Lembras-te da palmeira do quintal?
Foi abaixo com duas machadadas no tronco...
” Um dia, quando voltares,
não mais encontrarás a Benguela que conheceste menina ainda
e que aprendeste a amar.
(1959)

Nas vésperas de morrer ainda escreveu estes versos, “pré monitórios”:
Em teu chão regado pelo sangue dos que tombaram,
onde apodrecem cadáveres,
hão-de florir dálias roxas como as que colhi ontem
no meu quintal (…)

Foi considerado por certos críticos como “Escritor Maldito”, pela sua postura de boémio, por contradizer o status quo e o bom gosto da "elite intelectual" da época (e não só). Mesmo depois da independência Ernesto Lara Filho nunca abandonou o seu espírito inconformista, individualista.
Uma das grandes personalidades com que aquela terra presenteou o mundo.
Saravá, querido amigo Ernesto Lara.

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Outro regente que por lá andou, cuidando de eucaliptos para que não faltasse papel, casou e descasou, teve um filho e depois de 75, regressou a Portugal. Voltou a estudar e formou-se em silvicultura. Já não era mais menino, e retornado, sofrendo com a animosidade dos que não viveram em África, teve dificuldade em encontrar trabalho que se pudesse compatibilizar com o seu entorno geográfico.
Andou um pouco de “Herodes para Pilatos” nos Serviços de Agricultura, voltou a casar com uma ótima companheira, e ainda viu o filho seguir-lhe as pisadas e formar-se, também em agronomia.
Estudámos juntos, fomos do mesmo curso e lembro brincadeiras curiosas quando íamos até Évora para a farra. Gostava do seu copo (quem não gosta?), soltava a língua, desinibia-se um pouco, sempre foi um ótimo e tranquilo companheiro, mas a grana curta, curtíssima, não o deixava farrar mais descontraído.
Por fim trabalhava na Tapada de Mafra, mas a alegria dos tempos de rapaz tinha desaparecido.
Não teve tempo de se aposentar aos 70 anos, porque antes disso foi descansar.


O Rui Craveiro Feio merecia uma vida mais alegre e descontraída. Mas foi um grande amigo.

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Poe último, o mais novo de todos nós. Começou como regente, foi para Nova Lisboa, onde nasceu, hoje Huambo, e teve a sorte de pouco depois ali se ter instalado o Instituto de Agronomia. Trabalhava e estudava e formou-se depressa. Seguiu-se o mestrado e o doutoramento já depois de 75 e, em vez de cuidar de capins e flores dedicou-se à docência e foi professor na Universidade de Évora até se jubilar.
Mas chega até nós carregado de livros que publicou! Começa cedo, fundando com o colega e poeta Ernesto Lara Filho, a coleção Bailundo, em 1961.
Escritor, sociólogo e professor universitário, membro da Sociedade de Geografia de Lisboa, da União de Escritores Angolanos e da Sociedade Portuguesa de Autores, deixou uma vasta obra em que o seu coração sempre escreveu sobre Angola, especialmente a sua terra Huambo.
O título de alguns dos seus livros mostram bem a linha de pensamento “Sou que nem uma Árvore Vinda de Angola”, “Ficava em Angola e chamava-se Nova Lisboa”, “Lamento de um Exilado”, onde na dedicatória que me faz escreveu “Para o Francisco Amorim, esta saudade feita de tanta ausência”.
Ainda docente nunca deixou de escrever e, com exceção dos assuntos técnicos, o seu coração nunca saiu de Nova Lisboa
Tive o privilégio de colaborar com ele durante os últimos nove anos, fazendo uns pequenos apontamentos desenhados, e chegando por vezes ao descaramento (eu) de dar alguma opinião!
Não convivemos muito. Ele estudou em Coimbra, eu em Évora, mais tarde em Nova Lisboa quando por razões profissionais nos encontrávamos, e depois de 75 ele ficou em Lisboa e eu exilei-me neste país sem futuro.
Mas o acaso nos uniu, sobretudo via Internet, e nos raros encontros em Lisboa.


O Inácio Rebelo de Andrade foi uma pessoa singular, e o fim da sua vida chegou cedo demais. Tinha ainda muito para nos dar, e até planos para isso.
Agora, vou relendo, com mais vagar e saudade aquilo que nos deixou.

terça-feira, 10 de julho de 2018

 

O Dia da Soltura – 2

O Ensaio para o Grande Golpe

Para quem leu a crónica de ontem, tem aqui uma pequena continuação.
O sapo, a meio da manhã, segundo os órgãos de informação, convencido que o iam soltar, já tinha arrumado as malas com os pertences que tem lá na “gaiola de ouro”! Probrecito! Teve que as desfazer.
Fora da prisão o pt tinha já montado um imenso arraial para a festa da soltura: uma imensa churrascada, com mais de uma tonelada de carne e linguiça para a festa. Bandeiras enormes do pt e do pcdob,  e notem, nem umazinha do Brasil. Não sei o que fizeram a tanta carne; só se sabe que não houve festa.
É bom ouvir a opinião de uma desembargadora que nos mostra com mais detalhes como foi montada a “Operação Soltura”, e quais as suas finalidades.

“Eu estou muito preocupada. Não acredito que o desembargador de plantão ignorasse não ter competência para suspender cumprimento de pena determinado por órgão colegiado. Óbvio que ele sabia! Óbvio que foi tudo previa e adredemente combinado entre o magistrado e os parlamentares travestidos de advogados. Ninguém é criança e nem criança acreditaria nessa estória. Tudo, cada passo dado foi antecipado e ensaiado e, desde o início, todos sabiam que esse era o único resultado possível e mesmo assim prosseguiram. Porque esse era o objetivo pretendido! Queriam criar um factóide e o fizeram. Mobilizaram todas as instâncias do judiciário federal em razão de um pedido juridicamente impossível. Usaram dolosamente advogados que não tinham procuração do réu, um desembargador politicamente comprometido no plantão do fim de semana, o recesso dos tribunais superiores. Tudo foi meticulosamente planejado e executado. E para quê?
Para acabar de desmoralizar o judiciário, já completamente desacreditado; para enfraquecer as instituições, demonstrando a facilidade com que se burlam as leis e se instaura o caos; para tumultuar e atrair a atenção da mídia e da sociedade eleitora para o PT; para demonstrar poder!!! 
E tudo foi alcançado! O factóide foi criado e alimentado pela recusa do desembargador plantonista em acatar a decisão do relator do processo. A presidente do STF se pronunciou sobre o fato e somente a intervenção do presidente do TRF-4 pôs fim, tardiamente, àquela insólita situação que tanto mal já havia causado ao país. 
O atuar do desembargador de plantão foi criminoso e em qualquer país sério ele já estaria afastado de sua jurisdição. Da mesma forma, os advogados signatários do Habeas Corpus teriam sua OAB cassada, estivéssemos em um país sério. 
O que testemunhamos hoje, contudo, foi apenas um ensaio, um trailer do que está sendo gestado por essas mentes malignas para retomar seu projeto de poder. O caminho foi mapeado, identificaram-se os focos passíveis de reação e o poderio do “inimigo”. Agora é só uma questão de tempo, do momento certo, para ser desferido o ataque final, o mais mortífero. E nós, como sempre, não faremos nada para evitá-lo, porque acreditamos piamente que os derrotamos hoje!!! 
Deus tenha piedade de nós!!!!”

Há muito que se vê, nítida e ostensivamente, o alargar dos tentáculos da esquerda criminosa. Juízes do supremo que, com uma simples canetada, e sem que seja ouvida a opinião do colegiado, mandam soltar os cabecilhas da organização criminosa, os que depredaram a res publica, destruíram o país, que vai levar algumas décadas para se recompor.
Aqueles que saborearam o poder absoluto, que roubaram tudo quanto podiam, ficaram milionários, alguns até bilionários, passaram agora vinte ou 30 anos na cadeia? Impossível.
Brasil, o país do jeitinho, passou do jeitinho simples, humilde, apesar de sempre com base na corrupção, para o país onde tudo, TUDO, é possível, menos aquilo que deveria ser normal e construtivo.
Segundo a opinião que acabei de recolher de um amigo, oficial superior das Forças Armadas, a quem volta e meia peço orientação sobre o que se passa, fez um retrato que no primeiro momento não entendi:
- O pt tanto esfregou o frasco que soltou o génio. E agora o génio nunca mais volta a entrar e ficar lá preso!


Teve que me traduzir: soltaram os militares. Os militares não querem o governo, mas uma coisa, de certeza, não querem, é continuar a assistir à destruição e ao saque incontrolado do país.
O pt, e muito pseudo intelectual metido a socialista, continuam a demonstrar uma estupidez doentia, querendo os mesmo gatunos de volta.
Socialismo, para essa corja, não é outra coisa se não o poder absoluto, a que normalmente se chama bolchevismo.
Para quem se interessar, volte a pesquisar e veja como a União Soviética se montou e esmagou o povo durante 70 anos.
De entrada uma pequena revolução, depois a mentalização e organização do operariado, os sovietes, a eliminação da polícia e criação das milícias populares, até à tomada total do poder.
Aqui o caminho percorrido até agora tem algumas semelhanças, e todos sabem disso, mas quem não esquece são as Forças Armadas e, de momento, as enormes organizações do tráfico de drogas, armas, tabaco, etc.; estes sabem que, quer ganhe a esquerda festiva ou o bom senso e a disciplina, eles vão perder, de modo que não vão alinhar ao lado de nenhum deles.
O Brasil vive um momento extremamente difícil. Um caos na administração de todos os níveis, uma corrupção de tal forma enraizada que, mesmo vendo a justiça a prender uns atrás dos outros (e depois os da esquerda sendo soltos!) não pára, um constante legislar em proveito próprio, em mordomias, e as eleições à vista, sendo que nenhum dos candidatos merece confiança.
Deus já foi brasileiro. Saiu. Deixou o lugar vago e entrou aquele que tem tantos nomes como disfarces:
belzebutinhosochifrudocornudodemôniopríncipe das trevassatãsatanás, rei da discórdia, dos ladrões, corruptos e assassinos.
Há que dar um basta a essa gentalha, a essa canalha.

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No meio disto tudo uma notícia maravilhosa:
Na Tailândia já estão fora da caverna e salvas, 
todas as crianças e o seu treinador.
Deus é grande... só que está longe do Brasil!

10-jul-18


segunda-feira, 9 de julho de 2018


O Dia da Soltura


Todos os dias, por estas terras tropicais de papagaios, há algo a comemorar: o dia da independência, o dia dos professores, dos comerciantes, dos industriários, dos LBTG (héteros não têm dia), de São Jorge, etc., etc., etc.
Pois ontem inaugurou-se, no Brasil mais uma data a fixar e festejar, ninguém sabe ainda se com alegria ou com pancadaria: “O Dia da Soltura”!
Para que não restem equívocos quanto ao significado da palavra, vamos transcrever o que vem no dicionário do muito conceituado Aurélio:
1. Ato ou efeito de soltar alguém que estava preso.
2. Atrevimento, ousadia.
3. Libertinagem, desvergonha.
4. Diarreia, evacuação frequente de fezes abundantes.
Como é do conhecimento mundial, o sapo-barbudo, conhecido como lula (viscoso) foi condenado a doze anos de cadeia, por um colegiado da segunda instância, e lá está, instaladão, numa divisão especial da Polícia Federal, com sala, quarto, banheiro, televisão, telefones (vários), comidinha da boa, lugar onde eu não me importava nada de estar porque as instalações são de luxo e o preço muito em conta: paga o contribuinte.
Mas, não esqueçamos, quem manda ainda (até quando?) neste país é o PT.
O supremo tribunal federal tem, pelo menos, cinco juízes lá colocados pelo tal sapo (um nem advogado tinha sido, e outros, fortes apoiantes e advogados do tal PT), que apoiam leis votadas no cãogreço, não as põem em execução (por exemplo a lei da ficha limpa, um condenado em segunda instância está automaticamente ilegível, a prisão direta após o mesmo julgamento, etc.) além com compadrio existente entre esses milionários da função pública (alguns ganham mais de R$ 100.000/mês, qualquer coisa como € 30.000, fora as mordomias que são execravelmente vergonhosas e acintosas) e advogados e réus.
Então... prendem, soltam, voltam a prender, voltam a soltar.
Mas ontem foi muito mais interessante esse jogo.
Lula condenado a doze anos, já naquela doce e confortável espécie de prisão. Trilhentos advogados, pagos a peso de ouro, ouro roubado pela quadrilha petista, todos os dias inventam qualquer coisa para entrar com um habeas corpus, para o soltarem do paraíso em que se encontra, sem que tenham até agora (note-se bem: até agora!) conseguido.
Ontem um magistrado, isolado, de plantão, que durante vinte anos foi membro e depois advogado do pt e também dos governos do lula e da dilminha, numa canetada só mandou dar soltura ao “patrão”! Deu poucas horas para a polícia executar a liminar.
Os juízes que condenaram o “coitadinho” reagiram: “não pode soltar”. O magistrado petista, um tal signor fal..., raivoso, emite segundo mandato, com todo o atrevimento e ousadia (vidé dicionário) exigindo a soltura em menos de uma hora, ameaçando quem descumprisse a ordem que sua excelença, do alto da sua pesporrência libertinagem e desvergonha (não esqueçam de ver o dicionário), sentindo-se o dono do país, assinara.
Quis, sozinho, derrubar decisões de colegiado judiciário que estão acima dele! Beleza, né?
Por fim teve que intervir o Presidente do Tribunal onde o sapo foi condenado, e deu a ordem final: “Não solta p... nenhuma!”
E encerrou-se assim este vergonhoso capítulo da “justiça”, que mais uma vez veio mostrar que a “justiça”, neste país é o que a cada um interessa fazer.
Podem no entanto tomar nota: a farsa, ou a guerra vai continuar.
Soltaram já os maiores ladrões da res publica que envolve bilhões, mas não quiseram soltar um miserável que há dias roubou já nem sei o que de uma loja, no valor de R$10.
Foi uma diarreia judiciária porque o espertalhão, sabendo que os outros magistrados e a procuradora geral da República estavam de férias, pensou que todo o mundo era bobo e só ele arvorado em dono do país.
E mostrou o quanto o judiciário está desacreditado.
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Mas ontem, dia 8 de julho foi um dia grande, de grande alívio e entusiasmo, quando chegou a notícia que tinham conseguido libertar quatro dos garotos que estavam presos na caverna na Tailândia.
O mundo inteiro aplaudiu, porque vinha sofrendo com o drama daquela gente.
Hoje já libertaram mais quatro.
Isto sim foi uma soltura com dignidade, com o sacrifício de muitos que colaboraram, dando a sua vida para salvar os outros. A esta ousadia não há aplausos suficientes.
Deus é grande.
Mas tem dado muito que pensar este drama vivido por aquela gente simples.
De todo o mundo acorreu socorro pronto a ajudar. De todos os continentes e crenças.
Ninguém perguntou se eram cristãos, muçulmanos, judeus ou budistas. Eram, com toda a simplicidade, um grupo de garotos e o seu treinador que precisavam de que os ajudassem a sair daquela horrível situação.
Através do mundo muitos rezavam, de acordo com a sua crença e religião, pelo bom desfecho do grave problema.
E entretanto uma pergunta, infantil e sem resposta, fica no ar, depois de assistirmos a ver tanta gente se irmanar para uma ação de salvamento, é simples:
- Porque os humanos não se tratam como irmãos, SEMPRE e definitivamente?
Infelizmente a resposta é seca e dura:
- Porque os interesses individuais e gananciosos, SEMPRE falam mais grosso.
Até Moisés teve que subir duas vezes ao alto da montanha para pedir ao Senhor novas Tábuas da Lei, porque as primeiras as quebrou contra o bezerro de ouro.

9-jul-18

segunda-feira, 2 de julho de 2018


 

PROLEGÓMENOS e AMIGOS – 5


Os prolegômenos só servem para uma introduçãozinha. Podia chamar-lhe prefácio, mas o tal de prolegómenos é muito mais... rebuscado!
Foi por acaso que comecei por agrupar alguns amigos por “corporações”, como surgiram na Idade Média a partir do século XII, para regulamentar o processo produtivo artesanal nas cidades. Essas unidades de produção eram marcadas pela hierarquia (mestres, oficiais e aprendizes) e pelo controle da técnica de produção das mercadorias pelo produtor. Em português, são chamadas de mesteirais.
Só falei ainda de “mestres cavaleiros” e mestres... diversos, mas ainda vou agrupar mais alguns mesteirais, “mestres” que na vida me ensinaram a tentar ser melhor pessoa, mesmo que eu não viesse a ser mestre em coisa alguma.
Vou recordar alguns ligados à vida vegetal, agrónomos, silvicultores e regentes agrícolas, que todos, de uma maneira ou outra deixaram a sua marca.

As primeiras palavras lembrando o meu pai que nos deixou quando eu tinha menos de 12 anos. Foi um grande senhor e um grande silvicultor, responsável pela arborização e jardins de Lisboa. Só muito mais tarde vim a entender a profunda diferença entre um silvicultor e um agrónomo, eu que me fiquei por regente agrícola (de que não me arrependo! Não tinha como bancar a continuação dos estudos.)
Silvicultor, regra geral tem a seu cargo a beleza e a conservação da natureza, e nisso o meu pai, de rara sensibilidade, foi admirado pela obra que fez, e que, infelizmente não pôde continuar; ao agrónomo a produção, o alimento, o agro-negócio. O regente, metido no meio dos dois, seguiu pelo lado que a vida lhe foi proporcionando, comigo por exemplo, quase sempre ligado a máquinas.

Cinco dias mais novo do que o meu pai, um outro agrónomo veio um dia a ser como um segundo pai para mim, mostrando-me com a sua calma, que a vida não se podia seguir na fantasia. Numa época em que eu estava a sair dos limites, 1946, fui para Évora, Escola de Regentes Agrícolas, e lá num instante encarreirei, com o olhar complacente dum homem que todos os colegas muito respeitavam e admiravam: o Diretor.
Augusto Blanco Calado de Matos Rosa, alentejano de Alter do Chão, ainda novo herdou do pai algumas terras e findo o liceu pensou que podia ser agricultor. Durou pouco esse sonho e uns cinco anos depois decidiu estudar agronomia.
Ele entrava e o meu pai quase saía já formado, mas ainda houve um ano em que, da mesma idade se conheceram. Pouco.
Nunca durante os cinco anos que passei na ERA fui beneficiado por uma melhoria de desempenho, mas sempre chamado à atenção que não podia ficar para trás, nem ter notas sofríveis. Tudo com uma paciência e uma tranquilidade que acabou por fazer de mim um jovem... quase normal!
Com ele, nesse tempo vivia a mãe, Dona Gertrudes, uma senhora já bem velhotinha, bastante surda, para quem o mundo não saíra do século XIX! Era o filho que comprava tudo quanto ela precisava, e quando a senhora perguntava quanto tinha custado ele sempre dizia um número muito abaixo da realidade. Assim mesmo a senhora, que ainda “vivia” no tempo dos “mirréis” achava sempre tudo caro. Ele ria. Um dia comprou-lhe umas meias e disse que tinham custado talvez dez ou vinte por cento da realidade. Chegam as férias, lá vão os dois passá-las em Alter do Chão e a boa senhora mostra a todas as amigas a maravilha das meias e como tinham sido baratas! Logo todas pediram que quando regressasse a Évora lhes comprassem umas quantas. A tudo o nosso Diretor dizia que sim, até anotava num papel, para mostrar as boas intenções de cumprir com o pedido.
Volta a Évora, deixa passar dois ou três dias e vai dizer à mãe que as meias eram tão baratas que se tinham esgotado num instante!

1970 (?) A sua casa na ERA, ao fundo

Fim de semana em que houvesse festa ou tourada em Évora os alunos faziam fila na porta da casa do diretor para lhe pedirem dinheiro emprestado para irem para a farra. E, além de dar todo o dinheiro que tinha disponível, ainda pedia algum mais a um colega para colaborar com os alunos!
Não conheço nenhuma história em que o diretor de um estabelecimento de ensino, em dias de farra emprestasse aos alunos todo o dinheiro que pudesse!
Um homem GRANDE que deixou muita saudade e muita admiração por todos os que tiveram a oportunidade de o terem conhecido. E ainda lhe devo muito ter ajudado a fazer de mim uma pessoa melhor.

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Em 1954 lá fui eu para Angola. Um amigo de meu pai, também agrónomo, tinha por lá um primo, também agrónomo, e mais velho do que eu uns oito a dez anos, a quem pediu para dar uma olhada no “garoto” que chegava àquelas terras. Foi quando o conheci. Em Nova Lisboa. “Pouco” mais velho do que eu recém chegado a Angola, mostrou-se desde o primeiro momento e pela vida fora sempre o mesmo simples, alegre, afável, prestável, e muito amigo.
As nossas vidas foram-se encontrando ao longo de uns tantos anos em que ambos nos demos àquela terra e, enquanto que ele crescia em sabedoria e conhecimentos, a nossa amizade crescia junto.
Dispensava a mesma atenção e respeito a um duque, ou um importante alto funcionário, ele que conhecia bem a nobreza portuguesa e estava em destacada posição como profissional, internacionalmente reconhecido, assim a um humilde agricultor ou pastor cuanhama.
Sobre o baixo, magrinho, muito magro, o que não o impedia de estar sempre disponível e alegre e de ser gentilíssimo, dedicou-se com profundo interesse a que o próprio respeito pelo Outro a isso o levava, à pesquisa e solução dos problemas de agricultura e pecuária no sul de Angola, nas terras dos ganguelas e dos cuanhamas.
Conheceu intimamente aquele interior, apaixonou-se pela terra e pelas gentes como todos os que tiveram ocasião de ali se demorar um pouco além de visita de turista, acompanhou o grande pintor Neves e Sousa nas suas caçadas de imagens maravilhosamente desenhadas, até que um dia deixou Angola convidado a lecionar em Paris, a seguir nos Estados Unidos e por fim na Universidade de Évora, professor e vice-reitor, sendo um dos fundadores do “Certificado Internacional de Ecologia Humana”,.
Homem simples com um sentido de delicadeza extraordinário, e um profundo respeito por todo o “Outro” teria que ser ele mesmo a cuidar da Ecologia Humana! Já lhe estava “no sangue”. Cativava os alunos pelo interesse da matéria mas muito também pelo seu porte e educação impecável.
Nas horas vagas organizava e presidia a exposições e concursos de cães, sobretudo das esplêndidas raças portuguesas “Rafeiro do Alentejo”, “Serra da Estrela” e “Castro Laboreiro”, por que tinha um carinho todo especial.
Já aposentado e conhecedor que uma doença implacável, que o fazia sofrer, consciente que em pouco tempo seria levado, decidiu aventurar-se a uma viagem até ao Brasil.
Quando lhe quiseram fazer ver que isso era loucura, devido ao seu estado de saúde, respondeu, sorrindo, como sempre, que queria despedir-se de um amigo.
Veio, aqui esteve alguns dias em nossa casa e regressou a Évora, deixando nestes amigos um enorme vazio.
Alguns meses depois, abandonou-nos. Ficou o amargo, o vazio, alguma coisa que talvez se possa chamar Saudade. Mas saudade neste caso é pouco.

Numa corrida às lebres – 1994 (?)

Eduardo Cruz de Carvalho foi um amigo especial. Magrinho, educadissimo, muito culto, de grande fineza de trato, Neves e Sousa, com o seu espírito alegre e brincalhão, há muitos anos já tinha “encontrado” para ele o melhor nome que o definia, carinhosa e perfeitamente: “O Finecas”.
Amigo, como os que são amigos, e que não se esquecem nunca.

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Quando entrei para o liceu, 1941, fiz por lá umas reguilices que os mais velhos gostaram, e passava parte dos intervalos com alguns do 5º ano (hoje 9°), que tinham mais quatro e cinco anos do que eu. Um deles terminado o liceu deixei de o ver durante uns anos, e só nos viemos a encontrar numas férias em Alter do Chão. Ele já nos 20s, estudante de agronomia, eu com 16 ou 17, ainda na ERA. Foi um encontro especial. Parecia que nunca nos tínhamos separado.
Depois mais uns dez anos, 1958, em Lisboa sou contratado para regressar a Angola e trabalhar na Cuca. Na entrevista, em que fui aprovado, disseram-me que tinham sido admitidos mais dois agrónomos e deram-me o nome deles: António Melícias, que eu desconhecia e hoje é um dos meus queridos irmãos, e o Alfredo Duarte Figueiredo, que eu na ocasião não conseguia ligar o nome à pessoa. Este nome ficou a bater-me na orelha mas a memória estava emperrada. Eu sabia que conhecia e o nome não me saía da cabeça. Dias depois, nas Arcadas do Terreiro do Paço, vejo um sujeito que, atrás de um monte gente caminhava na minha direção, já me tinha avistado e, braço levantado, chamava por mim.
Caíu a ficha! Era o Alfredo.

Um abraço forte, uma alegria imensa de nos termos encontrado, fomos logo comemorar no Martinho da Arcada! Ambos casados, falámos das famílias, do encontro motivado por irmos ambos trabalhar para a Cuca, e foi o renascer duma amizade que passou do tempo de pouco mais do que meninos, para outra mais forte que nos uniu como irmãos.
O Alfredo era a bondade em pessoa. Muito bem nos demos, sempre e enquanto trabalhámos na mesma empresa, de onde eu saí cedo, mas a amizade seguiu, e continua hoje nos filhos.
Em África fizemos algumas viagens de trabalho, juntos. Andámos pelo mato a melhorar a comercialização da cerveja. Não podia ter melhor companhia nem mais facilidade em resolver problemas.
Já em Portugal num dia que lá fui, combinámos almoçar juntos, e ele marcou-me encontro nos Serviços de Agricultura, onde trabalhava, lá nas avenidas novas. Aí vou eu, de Cascais para lá, uma viagenzita, para depois ele me dizer que tinha um restaurante ótimo quase ao lado da estação do trem donde eu tinha saído! Sempre tranquilo, só ele me faria rir.
Foi embora muito cedo. Deixou uma mão cheia de filhos que são sobrinhos queridos. Ele e a mulher deixaram uma saudade sem fim.

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Os nossos pais amigos de toda a vida. Meninice juntos. Adolescência separados, voltámo-nos a encontrar em Angola. A sua agronomia foi para os petróleos, sempre mais generosos a reembolsar do que saladas ou batatas e eu nas cervejas. É evidente que logo estavam envolvidos naquele magnífico grupo de amigos que nos envolvia em Luanda. O casal, os filhos, com os nossos e, quando calhava, em viagens pelo país, lá estávamos juntos.
Lembro bem uma das vezes, num almoço no Hotel Ruacaná. Nova Lisboa, Huambo. Conversa descontraída, alegre, no final do almoço o criado diz que tem morangos para sobremesa. Ótimo. Pode Trazer.
- Para mim são só três. Três.
Veio o criado um prato “cheio” e no outro uns seis.
- Eu disse três.
Volta o prato para trás e regressa com quatro.
- Três. Três!
O pobre criado pensava que estavam a gozar com ele. Mas não, ele, caturra, só queria mesmo os três morangos, e quando, finalmente o prato chegou com a dose solicitada, agradeceu muito ao criado... que não deve ter feito muito bom juízo daquele cliente!


O António Ravara Belo era assim. Gostava de brincar “a sério” e era uma maneira de se descontrair! Querido amigo do tempo das fraldas!

27/05/2018