domingo, 28 de outubro de 2012



Coisas do Tempo dos HOMENS



Como referi em texto anterior, além do coração cheio de saudade o que mais me satifaz no retorno a casa é o saborear dos livros.
Desta vez, entre eles, um que me foi oferecido, e não posso dizer que tenha sido devorado, mas lentamente apreciado.
Com a devida vénia, e sem prévia autorização dos autores, atrevo-me a fazer um pequeno comentário a um livro que tocou fundo na memória e no valor do português em todo o mundo.
Prefácio da jornalista Maria João Avillez, magnífica introdução do embaixador António Pinto da França, fotografias lindas de António Homem Cardoso, e um delicioso texto escrito na terceira pessoa, em que o autor se refere a ele mesmo como o viajante. Lourenço de Almeida.
Todo o livro é uma fantástica aula de história, do tempo em que os nossos antepassados enfrentavam os sete mares com a cara, a coragem, uma verdadeira fé no Deus Menino, o culto do Espírito Santo e, apesar de muitas vezes terem sido obrigados a lutar e matar - e se eram valentes - a miscijenação e a missionação fizeram mais do que a conquista e o comércio, deixando marcas que os séculos não apagaram.
Lá, para as bandas da Índia e das índias, sem gps, nem internet ou telefones via satélite, avançavam naquelas cascas de noz, rumo ao desconhecido, levados por vagas informações que iam obtendo pelo caminho.
Chegaram primeiro que quaisquer outros europeus a quase todos os lugares da terra. E da mesma forma em praticamente todos os lugares sempre havia um ou mais voluntários ou degredados que se apaixonavam pelas lindas mulheres, pelas paradisíacas ilhas, pelo clima ou simplesmente estavam fartos da longa e sofrida viagem, outros terão naufragado e dado à costa. Assim aconteceu com Caramuru, o bacharel de Cananeia, João Ramalho e tantos outros, não só no Brasil mas por todo o lugar por onde andaram os navegadores: África, américas e índias. E aí criaram família, difundiram a sua cultura e seus conhecimentos, e também os valentes e generosos missionários, todos eles deixando raízes profundas.
Este livro, além de ser uma detalhada lição da história daquele tempo e daquelas viagens e paragens, vem-nos mostrar como essas raízes perduraram e se mantém aos fim de quase 400 anos!
O viajante foi passar a Semana Santana pequena Ilha de Flores da Indonésia.
Praticamente a única cidadezinha de toda a Indonésia islâmizada que mantem, profundas, as saus raízes cristãs, católicas.
O viajante, como português, foi recebido com tanto carinho e admiração, porque a todos lembrava aqueles valentes e generosos antepassados que lhes deixaram aquela cultura, e em muitos, muitos, o nome!
O rajá de Maumere chama-se Dias Vieira Godinho, e entre as preciosidades que guarda religiosamente, há um capacete de ouro, oferecido ao seu antepassado, D. Alexo Ximenes da Silva, diz ele que em 1602 pelo rei Dom João III (aqui há um lapso de datas que o rajá deve ter baralhado, porque D.João III morreu em 1557, e em 1602 já reinava em Portugal Filipe I – o II de Espanha)! Esta oferta foi feita para marcar uma aliança, quando o rei de Portugal tratou o rajá por “primo”, atitude que não cala no coração dos seus descendentes.

O rajá Dias Vieira Godinho


O precioso elmo de 1602

Não tem grande importância a data, porque o valor está no vínculo estabelecido e no orgulho daquela gente nas suas ligações com os portugueses.
Há aspetos desta extraordinária vivência em que nos tocam especialmente.
Por exemplo o cuidado e o carinho com que D. Felícia da Silva, filha do anterior rajá, guarda ciosamente, com o seu marido, uma bela imagem do Tuan Meninu, o Senhor Menino, que é profundamente venerado pela população cristã.

D. Felícia da Silva, seu marido e o Tuan Meninu

Enfim, é um livro que merece ser lido e mostrado aos filhos e netos.
Chama-se “A Ilha das Especiarias” e podem encontrá-lo em


Afinal Portugal sempre soube fazer muito coisa de belo e grande, e agora o mundo inteiro aguarda que renasça das cinzas, como a Fénix, que segundo a tradição, é uma ave lendária feita de fogo. Vive por 5 séculos, e quando chega a hora da sua morte dela, prepara um ninho de ervas e gravetos, pronta para pegar chamas, e depois de alguns segundos, renasce das cinzas, para viver mais 500 anos.
Há 500 anos corria o mundo, dominava os mares e grande parte do comércio.
Está na hora do renascer de Portugal! Para isso tem que fazer um fogueira – grande – queimar todos os vícios e erros que tem vindo, sistematicamente a cometer – e continua – e corrigir o rumo que o atual inepto governo teima em manter: o da miséria.
Porque ser miserável se pode grande?

28/10/2012

terça-feira, 23 de outubro de 2012



A Ibéria e a Galicia



Lá onde é a Galiza, todos nós sabemos: Tuy, Santiago de Compostela, La Coruña e outros lugares lindos, e quanto à Ibéria nem se fala porque apanha a Espanha toda (incluindo os bascos e catalanes!) e Portugal.
Dunque, não há muito a dizer sobre isto. Mas...
Vive a gente um monte de anos, procura ler, mais por prazer do que por obrigação, aprendeu que Portugal se situava, e situa, na Península Ibérica, que confrontava ao Norte com a Galiza ou Galicia, que a língua portuguesa tem a sua origem lá atrás no latim, mais perto no galaico-português, e... pronto, já “sabemos tudo” antes do Afonso Henriques começar a correr com os sarraças ou os mouros até os expulsar de Portugal ou ter permitido que uns quantos aí permanecessem onde já se tinham fixado.
Mais tarde, com a confusão de gente que povoou a dita península tentei saber quem foram os sucessivos invasores. Parece que, e esse “que” ninguém sabe, os primitivos “conhecidos” teriam vindo da Fenícia, depois da mesma banda, via Cartago, e que se estabeleceram na costa mediterrânea.
Mas pré-históricos, os que deixaram os concheiros em Muge no tal Mesolítico, as gravuras do Coa no Paleolítivo e as maravilhas em Altamira ainda mais para trás, são totalmente desconhecidos.
Na historinha que nos contaram, e ainda hoje contam, porque nada mais se sabe, é que a seguir aos iberos terão chegado, pelo norte, os celtas. A arqueologia mostra inúmeros sítios com cemitérios celtas no norte da Península e dos iberos no sul, começando, mais tarde – o quando continua a não se saber – a encontrarem-se no centro da meseta.
Ora os celtas, há quem sustente que se formaram numa região hoje situada lá no noroeste da Ucrânia, na base norte dos montes Cárpatos. Mais ou menos por essas bandas, e daí, uma série de tribos a que se deu o nome genérico de celtas, começaram a expandir-se para o ocidente da Europa, ocupando a metade norte da hoje França, as Ilhas Britânicas e também a metade norte da Península Ibérica, fixando-se ainda através da costa atlântica de Portugal.
O curioso, a que também até hoje curiosos e estudiosos não conseguiram entender ou explicar, onde se encontram as fronteiras da Polonia, Ucrânia e Eslováquia, há uma pequena região que se chama... Galicia! E foi objeto de lutas seculares entre poloneses austríacos, germanos, etc. Todos queriam a tal Galicia, cujo nome subsiste até hoje!
Galicia or Halizia (Ukrainian: Галичина (Halychyna), Polish: Galicja, Romanian: Galitia/Halici, German: Galizien; Russian: Галиция (Galitsyia)/Russian: Галичина (Galichina), Czech: Halič, Slovak: Halič, Yiddish: גאליציע (Galitsie), Hungarian: Kaliz/Gácsország/Halics)

A arte amarela - Galizien

E foi dali que terão saído os tais celtas – diversas tribus – uma das quais atingiu e fixou-se na Galiza!
Temos aqui alguma coisa interessante, que dá que pensar e que não há razão para não ser verdade! Muito pelo contrário.
Então os celtas fixaram-se no norte da Península, terras ricas, e hoje o DNA mais parecido com o dos “celtas” britânicos encontra-se exatamente naquelas terras!
Como já se abandonou, ou quase, a nomenclatura de definir os tipos humanos, por brancos, pretos, amarelos ou hindus, etc., os de origem europeia, são só chamados de caucasianos.
Foi nessa região do Cáucaso que os hindo-europeus passaram a ser os ditos caucasianos, e daí a expandirem-se para oeste, uns quantos contornando pelo leste o mar Negro, e outros descedendo até ao Mediterrâneo... quem sabe se para a Fenícia, Turquia ou Grécia.
É bem possível, e lógico, que uns quantos desses se tenham instalado, como “primeiro pouso” na tal Galicia do centro europeu!
E a Ibéria?
A Ibéria é outra história, também igualmente curiosa e sem confirmação científica, na sua ligação com a Península, o que não faz a menor diferença.
A sul do Cáucaso, existiram, há uns 3.000 anos, onde é hoje a parte sul da Geórgia, e extremo nordeste da Turquia, alguns reinos como o de Colchis, e a sul deste outro chamado... Ibéria!
Parte, sul, deste reino da Iberia terá sido conquistado pelo império persa cerca de 500 anos antes de Cristo, mas os povos daquela região, há vários séculos já eram conhecidos por proto-iberos.
Quanto à origem desta Iberia, como palavra, parece terem sido os gregos que a difundiram Ἰβηρία, Ibiria, a partir do georgiano იბერია, também Iberia.



Não custa nada pensar que parte dessa gente desceu ao Mediterrâneo, talvez à Fenícia, e daí, já sabemos o resto: os fenícios vieram mar fora e estabeleceram-se ao longo da costa mediterrânea, e uns quantos, desses nossos vovos, deveriam ter vindo lá da tal Iberia.
Porque não?
Desta forma pode até afirmar-se que todos os, hoje, ibéricos, são mesmo caucasianos, quer tenham vindo de Cartago, com algum sangue berbere nas veias, quer diretamente do Caucaso, ou via celtas que também deveriam ter saido do mesmo lugar.
Estes chegaram mais tarde à Península porque entretanto tiveram entretidos a espalhar-se pela Europa do Norte.
Moral da história: somos ou não somos celtiberos?
Daqui, ó:


23/10/2012

quinta-feira, 18 de outubro de 2012


Ressacas Lusitanas

- 3 -


Sair em viagem por esse mundo já foi uma grande atração. Hoje é uma obrigação. Para estar um pouco com a família e os velhos amigos e... depois de ficar estafado voltar para casa e tentar recuperar o fôlego!
Mas sempre, sempre, na bagagem de volta vêm uns quantos livros. Praticamente só de história, seja de que país for, onde continuo sempre a aprender, e cada vez mais me certificar que os erros se repetem porque os homens não mudam. Vai-se à Lua e a Marte, atingem-se níveis técnicos insuspeitáveis há meia dúzia de anos, mas desde Adão e Eva a única coisa que mudou foram as modas – começou com a mulher pelada, vestiu-se toda, escondeu-se com roupas de valor igual ao que queriam e podiam aparentar, e hoje voltam a estar quase nuas! O bicho, bem lá no fundo, não muda. De jeito nenhum! E babacas são os que ainda continuam teimando que ética, honradez e respeito, são os valores pelos quais se deve lutar. Mentira. Em dezenas de milhares de anos, quando aparece alguém com essas ideias na cabeça... é corrido da sociedade. Talvez melhor, da luta pela saciedade, jamais suficiente.
Mas voltemos aos livros, uns comprados outros muito amavelmente oferecidos. Vamos falar de um de cada vez.
Voltemos a Mafra, ao sumptuoso Palácio. Na saída tem uma pequena loja, e lá comprei, além dum livrinho com o DVD do concerto dos seis orgãos – para quem gosta de música barroca é uma beleza –alguns livros e folhetos sobre as famosas linhas de Torres Vedras, onde acabou o sonho napoleónico de conquistar Portugal.
Muito bem documentado, sobre a 3ª invasão francesa comandada pelo senhor Massena, marechal, conde, duque, príncipe, tudo presentinhos do seu amigalhaço Banaparte, trazendo mais de 100.000 homens de guerra, e que foram derrotados por uma estratégia, imposta por Wellington, e copiada logo a seguir pelo marechal Kutuzov, que espatifou o outro imenso exército napoleónico que pretendia conquistar a Russia: terra queimada!
Napoleão – que eu admiro – tinha no entanto o defeito de se julgar o “único esperto da paróquia”, determinava aos seus exércitos que obrigassem os países conquistados, e/ou derrotados, a alimentar os vencedores, sem precisar de grande estrutura de abastecimento que lhe custaria uma fortuna. Quase todos os babacas da Europa central – italianos, austríacos e outros germânicos, e... – tinham a abrigação de dar a papinha aos franceses! E deram.
Wellington, contra o espanto e primeira reação negativa do povo português, obrigou-os a abandonarem tudo, queimarem víveres, nada deixarem de que o inimigo pudesse valer-se, e a refugiarem-se em Lisboa e arredores. Foi um Deus nos acuda. Os franceses saíam à caça de pilhagem, e pilhavam tudo que viam, estupravam, assassinavam, assaltavam os próprios companheiros de armas, e até tropas inglesas, tal o desvario da fome.

A desordenada (sempre) fuga dos aldeaõs portugueses

Mas nada disso lhes valeu. O exército francês enquanto caminhava deixava os campos e as estradas juncadas de cadáveres e doentes agonizantes, e assim chegou perto das Linhas de Torres. Com um exército de esfaimados, doentes, esfarrapados, indisciplinados... derrotados.
Vendo que não podia vencer a defesa anglo-lusa, Massena ordenou a retirada, o que fez com muita categoria, e sempre com os anglo-lusos castigando a retaguarda, continuando a matar neles.
Deixou em terreno português, cerca de 60.000 mortos!
Estima-se que só portugueses terão morrido, entre guerra, fome e epidemias, mais de 200.000! E quando os agricultores voltaram para as suas terras tiveram que começar tudo do zero. Foram subsidiados em sementes e alguns animais, mas a fome era tanta que nalguns lugares o povo cortava grama que cozinhava para comer!

A Sopa de Arroios, distribuida a milhares de refugiados dos campos.
(Gravura de Domingos Sequeira e Gregório Francisco de Queirós, 1813)

Usavam a tecnica de guerrilha, e tão bem e tão valentemente, que conseguiam, com pouca gente, ir segurando o exército francês no seu avanço, para sempre dar tempo a que as defesas de Lisboa estivessem prontas.
Semelhante tática de combate foi utilizada dezoito séculos antes pelo grande lusitano Viriato que deu cabo da cabeça das legiões romanas!
O Conde de Rosnay, ao serviço do invasor, escreveu que “Portugal era um dos países mais bárbaros e ignorantes da Europa, mas reconhecia a decisão dos portugueses na defesa da sua independência, que sublinha como inatacável e invencível, além de considerá-los mais civilizados e mais bravos do que os espanhóis mas, também, mais dissimulados e perigosos. Não aceitando a lei da guerra que obriga o vencido a alimentar o vencedor, tanto o aldeão como o citadino ou os ricos são capazes de assassínio se lhes exigem, sem prévio pagamento, um pouco de pão, toucinho ou vinho.”
“Portugal é o simbolo da resistência e a Espanha o pântano que engoliu os exércitos franceses”, segundo Donald Horward (que muito escreveu sobre as Guerras Peninsulares).
Os soldados portugueses portaram-se de tal forma que Wellington, lhes chamava os galos lusitanos; em 1815 pediu que Portugal lhe mandasse algumas tropas para o reforçarem antes da decisiva batalha de Waterloo, a que Portugal não acedeu! Wellington afirmou que “os seus galos de combate” lhe haviam feito falta!
Nesse ano no Congresso de Viena, entre embaixadores das grandes potências europeias, cuja intenção era a de redesenhar o mapa político do continente europeu após a derrota da França, os termos de paz foram estabelecidos com a assinatura do Tratado de Paris (30 de Maio de 1814)[4], no qual se estabeleciam as indenizações a pagar pela França aos países vencedores.
No encerramento do Congresso, pelo Artigo 105 do Acto Final, o direito português ao território de Olivença foi reconhecido. Apesar da sua inicial resistência a esta disposição, a Espanha terminaria por ratificar o tratado mais tarde, em 7 de Maio de 1817, nunca havendo entretanto cumprido esta disposição ou restituído o território oliventino a Portugal.
Resumindo: Portugal por diversas vezes na sua história ficou muito pior do que está hoje. Não tarda que grande parte comece a comer, também, a grama... desde que chova.
Mas que, a ser verdade o manter-se a mesma alma de Viriato e dos soldados que lutaram nesta guerra peninsular, logo terão saído do buraco em que se encontram.
Não parece é ser possível com a mediocridade da governação que tem. Nem que mudem os políticos todos. Precisa dum Viriato ou dum Zé do Telhado.
De falas mansas e vigaristas o país está cheio.

18/10/2012



sexta-feira, 12 de outubro de 2012



Ressacas Lusitanas

2


Portugal sofre, e os dirigentes riem! Lembra um pouco o que se teria passado nos circos romanos, com os espectadores a aplaudir e rir e os gladiadores a saber que caminhavam para a morte.
Mas vamos tentar desdramatizar um pouco, porque mesmo em grande agonia os portugueses sempre deram demonstrações de força e capacidade de sobrevida.
A história de Portugal está cheia de páginas que podem, e devem, encher de força e esperança qualquer um.
Teve dois horríveis terremotos no século XVIII, que destruiram uma imensidão de belos monumentos, devastou Lisboa e deixou marcas que não se apagam, jogou-se pela janela o Miguel de Vasconcellos, lacaio do rei de Espanha e sacudiu-se o jugo do vizinho, ofereceu-se aos ingleses Tanger e Bombaim e mais dois milhões de cruzados para casar a filha de D. João IV com o babaca Carlos II de Inglaterra, que deixou o país endividado, assassinaram o Rei D. Carlos e o Príncipe D. Luis, destruiram ainda mais o país com a chamada I República, e completaram a destruição após o vinte-cinco-barra-quatro, e já no tempo da “nau Catarineta/ passava mais de ano e dia/ que iam na volta do mar;/ já não tinham que comer,/ já não tinham que manjar;/ deitaram solas de molho/ para o outro dia jantar;/ mas a sola era tão rija,/ que não la poderam tragar”, até que no desespero a solução foi levarem a alma do capitão, o responsável! (Olha aí uma boa sugestão!)
Não vou repetir o que aqui escrevi em 14 de Março deste ano, mas lembro que ali estão algumas lições a meditar, e seguir. E com tudo isto, e muito mais, Portugal sobreviveu.
Hoje é de certeza um destino espetacular para férias, já que não tendo ouro, nem solos, nem petróleo, tem um sol e uma luz, presente que só três mulheres apaixonadas, a deusa Atena, Penelope e Nausica, podiam ter oferecido a Ulisses que deixou essa beleza na terra onde também deixou o seu nome!
Pouco a pouco o país, apesar da crise, vai organizando mais o turismo e, passo a passo descobrem-se inúmeras possibilidades de alguém se encantar e querer voltar para repetir. O Algarve segue na frente, agora galardoado como a melhor região do mundo para se hospedar e jogar golfe, o Porto com o seu aspecto quase medieval, a Ribeira a pulular de turistas, as inevitáveis caves do vinho mais famoso do mundo, a subida do Douro em belas embarcações, a visita a cidades pequenas como a acolhedora e linda Ericeira, com hoteis também simples e confortáveis, comida à base do mar, insuperável, Mafra, cujo primitivo castelo foi conquistado por Afonso Henriques com a ideia de cercar Lisboa, o seu imponente Palácio, obra inútil do quinto João, que, com os diamantes que saíam do Brasil (e que acabaram nas mãos dos flamengos e ingleses), queria mostrar-se mais poderoso do que os Bourbons de Versailles, e hoje é uma obra, restaurada, digna dos melhores palácios do mundo, com a sua magistral biblioteca, a igreja com os seus seis orgãos, todos construidos em 1806 e 7, única, onde infelizmente poucas vezes, se pode assistir a um concerto – inolvidável – e lá no interior uma área que não vi até hoje semelhante em qualquer outro lugar: a enfermaria para os monges doentes, que por si só é um verdadeiro espetáculo.
Vale a pena abrir este link e “navegar” um pouco dentro desta obra espantosa:

Ali bem perto está Torres Vedras, que hoje as pessoas mal conhecem só por ter uma espécie de Carnaval, festa sempre demasiado artificial, mas que deu nome à grande linha de defesa montada para defender Lisboa das invasões francesas, as famosas linhas de Torres, roteiro interessante para quem gosta de caminhar a pé, para estudiosos e arqueólogos, e que teve importância decisiva na Guerra Peninsular.
Nessa guerra, durante as invasões francesas os portugueses fizeram o inimaginável: para atrasar ou até derrotar o invasor, fugiam, abandonavam as suas casas, mas deixavam a terra vazia, sem víveres, queimando até as plantações. Diz um general francês, que nem de um só português conseguiram informações, não houve um traidor, e os que eram aprisionados e supostamente deveriam passar a integrar-se no exército invasor, durante a noite desapareciam todos e juntavam-se aos ingleses que os tinham vindo auxiliar.
Nessa altura Portugal ficou muito pior do que está hoje! O que não roubaram ou pilharam os franceses, os ingleses deram também uma “mãozinha”. E que mãozona!
Hoje continua a ter o sol de Penelope e de Atena a deusa da guerra, da sabedoria e da civilização.
Com estes trunfos na mão, Portugal pode e deve levantar-se. Rápido.
Para aqueles que visitaram Portugal e não foram ouvir o fado, não sabem o que perdem. Há imensos e bons artistas, muitas casas de fado, e aquela toada vibrante e plangente, continua em inseparável parceria com um bom copo de vinho tinto. E se Portugal tem e bom!
Mas atenção: a maioria dos restaurantes costuma ter um extensa carta de vinhos e uma diminuida reserva. Não se deve perder muito tempo a escolher. Fecha a carta e simplesmente pergunta que vinhos tem! Aí... quase sempre acerta!
Num jantar numa dessas simpáticas casas, o jovem empregado, dezoito anos de idade e só na segunda noite de trabalho, trouxe a tal carta. Olhei, li tudo, mas antes de encomendar fui dizendo: “Olhe que sou uma pessoa que costuma ter o azar de acertar no vinho que não há! Veja lá se tem este...” Saiu foi conferir, e voltou: –“ Não, esse está em falta! – Eu bem lhe dizia. Vamos tentar outro.”
O outro também não tinha, e o solícito jovem regressa mais uma vez trazendo na mão, uma outra garrafa, dizendo: “Tem este. E é muito bom! – Só tem esta garrafa? – Sim”. Na mesa ao nosso lado estava um casal de brasileiros já rindo com este diálogo, e rápido entrou no “jogo”: “Traga já mais uma para mim antes que acabe!”
Logo o ambiente estava descontraido! E os fados soaram! E o tinto “correu” melhor!
É assim na vida: só se pode levar a sério o que não tem solução. A morte. Tudo o mais é passível de discussão, regateio, desconto até nas malfadadas eleições.
Mas, em Lisboa, não deixe de visitar o Museu do Azulejo, a Igreja de São Roque, o Oceanário, muito, muito mais, e vá a Sintra ver TUDO o que aquela bela terra tem para lhe oferecer.
Para comer, de entrada, não esqueça as ameijoas à Bulhão Pato, se possível acompanhadas dum Alvarinho – dos melhores vinhos do mundo e arredores – e a seguir o vosso apetite ditará.
E é assim. Anda todo o mundo cabisbaixo, porque esquecem, ou ninguém lhes disse que Portugal já passou por momentos muito piores, e sempre continua havendo lugares para apreciar, sorrir e se encantar.

11-Out-12

segunda-feira, 8 de outubro de 2012




Ressacas Lusitanas



Esta minha condição de luso-afro-brasileiro, o coração dividido de forma irregular, cabendo a velha família e amigos à área lusa, o sentimento de humildade a África (não entram políticos, presidentes, nem generais – exceto dois de quem sou muito amigo), e ao Brasil a alegria de viver, onde sem a alegria e generosidade deste povo, único, o garante do “Quinto Império, do reino do Menino Imperador, seria demasiado trágico conviver com a bandalha que por aqui reina - nas eleições, tribunais, política em geral, polícia, bandidos, etc. – faz de mim um saudoso deslocado onde quer me encontre!
A ida a Portugal está a ficar cada vez mais dolorosa – e muito dispendiosa - não exatamente pelo desastre em que se encontra a economia e a falta de esperança dos portugueses, mas por ver os meus maiores amigos e irmãos a deteriorarem-se com os anos que lhes (e nos) vão pesando, implacáveis, seguindo a mais certa lei da natureza, talvez a mais triste para quem ainda consegue resistir.
Graças ao Bom Deus ainda há muitos de boa disposição e saude, mas... por quanto tempo ainda? O encontro com estes torna-se um momento de Graça, de alegria e saudade. Mas são momentos fugazes que se procura aproveitar ao máximo.
Nesses poucos momentos a desgraça do país fica de fora. A alegria do encontro supera crises. Mas logo a seguir, os olhos tão abertos e atentos quanto possível, a realidade do país começa a ferir-nos a alma.
Este ano a venda de automóveis novos caíu cerca de quarenta por cento, e os usados, alguns são quase oferecidos para que os proprietários se livrem de pagar os impostos.
Nas inúteis estradas, belissimas, que cruzam o país de todas as pontas a qualquer outra ponta, lá passa, de quando em vez, um carro, a indicar-nos que a atividade naquelas bandas quase zerou, se alguma vez justificou aquele absurdo investimento! As estradas vazias e as cidades entupidas!
Este ano a seca assolou e violentou fortemente a produção agrícola, produções de alguns artigos não ultrapassando quinze a vinte por cento do que seria normal! E o desemprego na faixa de um quarto da população ativa. Quem pode, e quase sempre os jovens, os mais bem preparados, os que deveriam ser os construtores do futuro, emigram, à procura de um lugar ao sol.
Os governantes, aliás, como habitual, des-governantes, ineptos, vaidosos, sem capacidade moral para tomar as rigorosas atitudes que poderiam ajudar o país a sair da crise, a fazer discursos sobre discursos, pronunciamentos baratos e ocos!
E nada de fazer sentar no banco dos réus os responsáveis pela catástrofe. A camarilha continua a encobrir-se mutuamente. Os telhados são todos de vidro.
Não se tratam doenças graves com paliativos, aspirinas e sais de fruta! O país está gravemente enfermo, e os ignorantes burocratas decidem o que a história já demonstrou inúmeras vezes ser o caminho contrário: aumentar impostos e reduzir salários. E depois os crâneos da economia apregoam que com estas novas medidas a arrecadação vai aumentar. E não pára de cair. E muito.
Inflaram a máquina administrativa, deixaram enriquecer políticos e ladrões de bancos, acabaram com a marinha, não tem petroleiros para assegurar ao país o necessário abastecimento em caso de maior convulsão mundial, abandonaram os agricultores, a quem as chamadas grandes superfícies – supermercados – esmagam o preço de compra e pagam quando lhes apetece, mais enforcando ainda o produtor rural que está a desaparecer – e prometem que o próximo ano será de recuperação! Por este andar nem cinquenta anos!
Portugal sempre foi um país de maravilhoso peixe e mariscos. Hoje encontram-se à venda camarões da Tailândia, ostras do Vietnam e legumes importados! Os nossos pescadores não têm qualquer apoio.
Ao povo foi roubada uma violenta parte dos seus parcos proventos; e com os preços, impostos e tarifas a subir, há já uma multidão em situação de pobreza, como polícias, a quem depois de pagarem as despesas base – aluguer ou prestação da casa, água, luz, gás, transportes, etc. – não sobram mais de € 60 ou € 100 para dar de comer e vestir a um família de pai, mãe e dois filhos.
Raros são os casais que conseguem manter um deles empregados, e muitos estão ambos no desemprego. Quando o subsídio de desemprego termina, e é rápido... só resta a fome!
O panorama é triste.
E no desespero, sem saberem o que fazer, há uns cérebros à procura de se “vingarem” do famigerado acordo ortográfico (pelo pressuposto!) e criam fantasmagóricos nomes para repartições públicas que são um monumento à presunção: “Instituto da Mobilidade e Transportes” (como se transportes fossem imóveis), “Instituto da Seguridade Social” que pertence ao Ministério da Segurança Social, e um departamento chamado “Gestão de Empregabilidade e Empreendorismo”! Uma delícia de semântica!
Com isto perde-se tempo, gasta-se dinheiro em novos e reluzentes impressos, e os responsáveis por tamanha pequenez de espírito, seguem ufanos... e estúpidos.
Curioso como isto tudo se reflete direta e indiretamente na vida das pessoas.
Encontrámos muita gente de Angola, Cabinda, Guiné, Cabo Verde, etc., a maioria a trabalhar em pequenas lojas ou restaurantes. Estes nos recebiam sempre com aquele sorriso bonito, simples, para quem a vida dura não parece afetar o seu hunor. Em muitos portugueses também, mas alguns há que teimam em transferir para cima do cliente a sua preocupação das contas a pagar, a raiva do governo, etc., mas que acabam sorrindo se lhes retribuimos o seu mal estar com simpatia e uma ou outra palavra de alegria.
Portugal está cansado, são quase nove séculos de lutas, riqueza, pobreza, riqueza, pobreza, e desiludido com a promessa do éden da União Europeia. Cansado.
Mas o principal de tudo isto, o mais dificil de solucionar nesta crise, e a razão única de qualquer crise: encontrar gente capaz, humilde, trabalhadora, anarquista se quiserem, mas que acabem com a mamata destas ineptas governanças.
Podem até acabar com o presidente da república que não faz rigorosamente nada nem representa o povo face ao governo e parlamento. Parlamento que é também um aglomerado de conluios e desgraças!
Mesmo com tudo isto Portugal continua a ser o país, do MUNDO, onde melhor e mais barato se come, e bebe!
Que tem um sol maravilhoso, que se pode e deve tornar o paraíso turístico não só da Europa mas de muitos outros países.
Falaremos disto numa próxima vez.

08-10-2012

sexta-feira, 5 de outubro de 2012



Crónica Londiniana


Depois de sofridas doze, doze, horas de avião, e os pés tão inchados que não entraram nos sapatos, o que me fez sair do aeroporto com eles na mão, finalmente lá estava a filha e uns netos à nossa espera na capital da Britannia. Abraços, beijos, etc., logo a caminho de casa algo soava estranho: no carro não se sentiam “poços de ar”, vulgo buracos nas ruas e estradas, seguiamos com um dia lindo – coisa ali rara já desde o tempo dos romanos – sem ver daqueles motoristas “espertos”, os fura-fila, nem aqueles que entram num cruzameto como se estivessem em Silverstone! E quem não está habituado... estranha!
Tudo britanicamente em ordem – Oh! Yes! – e, para quem tem em casa uns 30 ou 50 metros quadrados de área gramada, que tem de regar a toda a hora e cortar uma vez por mês para, ou não secar ou virar “ferolesta”, passar por aquelas imensas áreas verdes, lindissimas, tranquilas, é um regalo para a vista e uma esplêndida perspectiva para obrigar a fazer caminhadas! Gramados imensos, limpos, umas quantas árvores em plena pujança. E fiz, mesmo arrastando a carcaça meia carcomida, umas boas caminhadas, que me faziam sentir livre, longe do barulho, da poluiçao... e da política! Uma beleza.
No dia seguinte, as inevitáveis compras de supermercado para alimentar mais as bocas que chegavam. E, ó deuses do Olimpo, espantai-vos por encontrar em Londres inumeros produtos a preços muito mais baixos do que no Brasil – a grande esperança de acabar com a fome do mundo, e o maior produtor de alimentos do planeta. Vinhos da Austrália, Nova Zelandia, Chile, California, etc., massas e pão de qualidade excepcional, frutas de fazer crescer água na boca, peixe e mariscos de todo o lado, especialmente da Escócia, chocolates e doces que fazem os gulosos babar... e comer, praticamente só encontrando as carnes de valor mais elevado.
No último trimestre a economia britânica recuou mais 1,5%, o desemprego vai afligindo a população, mas lendo com cuidado as notícias e crónicas sobre a economia tem-se a sensação de que o Reino Unido será o primeiro a sair da crise mundial. Há seriedade no trato da “res publica”, discute-se abertamente o problema e ouvem-se hipoteses de solução, e com tudo isto Londres continua a ser a mais aberta e cosmopolita cidade do mundo.
Não é dificil adivinhar que a ida a Londres não teve objectivos desportivos – as Olimpíadas estavam a acabar – nem culturais – apesar de haver mais museus, magníficos, em Londres do que bandidos no Rio – mas unicamente familiares visto que quarenta por cento dos netos estão lá a estudar e, bem a propósito, comparar as escolas públicas britânicas com as brasileiras... tem a mesma semelhança que existe entre uma roda de bicicleta, nova, e uma caixa de papelão... velha e rasgada!
É conhecido o belo o “sense of humor” britânico, mas comparar escolas... nem por piada!
Uma das mais hilariantes, aliás chocantes notícias que surgiram enquanto “londiniei” foi a de um juiz, aqueles que colocam na cabeça umas ridículas cabeiras brancas – que até hoje não consegui entender com que finalidade – e ficam com cara de babacas, ao julgar um reconhecido bandido, com diversas passagens na polícia por assaltos e tráfico de drogas, e que mais uma vez tinha sido preso por mais três assaltos a residencias numa única semana.
Sentença de “sua excelência” o juiz: “Para assaltar três resdidencias numa só semana é preciso ter muita coragem! Assim, em face dessa coragem... vou absolvê-lo!”
Resultado: a polícia vai ter que o apanhar outra vez e o juiz... foi despedido! Devia estar de porre!
Por estas bandas brasílicas, há juizes da mesma laia: a polícia prende um monte de “menores” – de 16 e 17 anos – acusados de assaltos e tráfico pesado, propõe mandá-los para centros de correção e o juiz ou juiza determina que não há razão para prendê-los.
E assim vai o mundo.
Depois queixem-se da crise. A crise é sempre igual, tem sempre o mesmo princípio: a falta de gente capaz, honesta, íntegra.
Basta ver também o exemplo destas eleições no Brasil. A madama dona presidenta fez um intervalo na des-governação: anda a correr o país, de palanque em palanque, dizendo besteira para ajudar a eleger gente do PT.
E eu que julgava que ela era Presidente do Brasil, de todos!



05-10-2012