Um
pouco de História do Kongo
Dona Beatriz Kimpa Vita
1684-1706
O antigo Reino do Kongo, que os
portugueses, em 1483, encontraram, estava limitado a norte pelo Rio Zaire, sem
limites definidos para qualquer outro lado.
Segundo antiga lenda “o Reino do Kongo,
foi fundado, muito tempo atrás por um sábio e hábil ferreiro, vindo de longe,
da margem norte do rio, que resolveu as diferenças entre as pessoas e
estabeleceu a paz.”
Em toda a África central, míticos ferreiros
foram considerados como representando um princípio de paz e de reconciliação e até
com características “femininas” de governo, possivelmente porque o ato de criar
aço da terra foi comparado a gravidez. Daí a força que em quase todo o
território bantu os ferreiros tiveram, como também em relação ao N’Gola, um
ferreiro que se fez chefe duma nação.
Ao aportar à foz do rio Zaire, Diogo Cão
foi recebido com grande festa, e na sua segunda viagem o Manicongo manda a
Portugal uma embaixada pedindo “clérigos e todas as coisas para ele e seu Reino
receberem a água do batismo.”
Em 1490 chegam ao Congo os primeiros
missionários, que começam a sua ação pela província, sendo solenemente batizados
o rei e a rainha que tomaram os nomes de João e Leonor, em honra aos reis de
Portugal, rei este que dura pouco.
Sucede seu filho Afonso, grande
partidário dos portugueses que tanto o ajudaram e começam as lutas pelo poder.
Em duzentos anos intitularam-se rei do
Congo 34 nobres.
Portugal procurava sempre apoiar o rei, criar
estruturas administrativas ao estilo europeu abandonando o modo tribal de
governo, ensinando-o ainda, por exemplo, a dar títulos de nobreza aos chefes,
que chegou a tal ponto, como deixou escrito o capuchinho frei Bernardo da
Gallo, que “havia mais nobres no Kongo do que em toda a Europa junta!” Reis,
rainhas, duques, grão duques, marqueses, condes, era uma festa de permanente
guerra entre eles, tão mortífera e brutal que São Salvador do Congo foi
totalmente destruida, saqueada e abandonada.
Dona Beatriz Kimpa Vita nasce em
Kipangu, sede do rei, e frei Lorenzo da Lucca dá a sua ascendência à mais alta
nobreza, que implica a associação ao Mwana
Kongo, o rei. Daí ser tratada como Dona.
No final do século XVII eram constantes,
permanentes, as lutas entre os vários nobres, mais pelo poder sobre os outros
do que propriamente pelo acúmulo de terras e regiões.
Os derrotados eram sempre escravisados e
carregados com correntes de ferro no pescoço e, ou ficavam a serviço dos
vencedores ou eram por estes vendidos, através de Luanda de onde eram mandados em
navios portugueses para o Brasil, ou pelo porto de Soyo, aí comprados por
traficantes holandeses que pagavam preço melhor, encaminhados para as Antilhas
e América do Norte, e que além disso vendiam armas e munições por preços
inferiores aos dos portugueses.
Entre 1700 e 1709 foram exportados do Congo
cerca de 70.000 de uma população que não atingia 600.000 almas! No contexto da
guerra a exportação era importante, porque os escravos podiam ser trocados por
munição, mas a razão principal destas guerras tinha mais raízes políticas do
que económicas para a exportação, porque visavam enfraquecer os adversários.
Dona Beatriz, filha de nobre – daí o
tratamento de “dona” - quando chegou à idade própria foi iniciada nos mistérios
de nkisi, feitiço, ela que desde
pequenita tinha propensão para a meditação e transe, nunca se interessou por
problemas pessoais, mas pela situação do povo.
Sempre atenta à politicagem que a
rodeava, já senhora dos “poderes” da feitiçaria, casou e descasou duas vezes e um
dia teve “morte aparente” e “ressuscitado” dois dias depois ao ser possuída
pelo corpo de Santo António.
Considerado um milagre pelo povo, começou
a pregar e a intitular-se, ela mesma, Santo António. Mulher atraente e
sobretudo muito inteligente foi conquistando grande parte da população,
alterando as orações convencionais ensinadas pelos missionários e afirmando que
Santo António era o primeiro dos santos, acima de Nossa Senhora, e igual a
Jesus!
Como era muito forte a influência da
religião no Congo, e através de influência de marinheiros holandeses que se
“abasteciam” de escravos no Congo, passou a pregar que os sacramentos da Igreja
católica não valiam nada se no interior de cada um não houvesse uma aceitação
total.
Era uma “nova religião”, com algumas
características especiais: era dirigida por uma mulher e, sobretudo, africana.
Passou a pregar por toda a região do
Congo cativando uma grande parte da população.
Foi um movimento sobretudo pela paz,
coisa que há muitos anos não havia entre os nobres do Congo. A devastação era
imensa e as populações não tinham sossego, fugindo constantemente de um ou
outro.
O rei do Congo, Dom Pedro IV, Nsanu a
mbemba (Agua Rosada), não a atacava mas não queria, de modo algum, perder o
apoio dos missionários que consideravam a atitude da Dona Beatriz Kimpa uma
profunda e insana heresia.
Dona Beatriz, já disse era uma mulher
bonita, inteligente, cativante, e arranjou um “secretário”, Barro, uma espécie
de Santo António de 2ª categoria! Até que um dia “a” Santo António” engravidou!
Esteve escondida um tempo até nascer a criança que entregou aos cuidados de
outra mulher para cuidar dele, mas a atividade da “Santo” mais o “secretário,
naquelas noites frias era... e a segunda criança nasceu.
Aí o rei, que tinha medo das
argumentações dela, não teve outra alternativa senão condená-la à morte: “Por ter enganado o povo com heresias e
mentiras, sob o falso nome de Santo António, o Rei e o seu Real Conselho
condenam você a morrer pelo fogo, e olhando Barro, o “secretário”, junto com o seu amante.”
Depois mandou que toda a população
trouxesse lenha, muita lenha que juntaram numa pira enorme.
No dia 2 de Julho de 1706, Dona Beatriz
Kimpa Vita subiu a montanha de lenha, serenamente, com o “secretário” e mais o filho
ao colo, que queria que morresse com ela. Os missionários tiveram dificuldade
em convencê-la a deixar o filho e ainda que, antes de morrer, se arrependesse
de todas as mentiras que tinha pregado, e do modo como tinha enganado o povo: “A minha morte será a penitência para os
meus pecados”.
O movimento conhecido como Antoniano,
levou anos a desaparecer.
*
Aquarela original feita pelo
Padre Bernardo da Gallo incluída na última página da sua carta para a Sagrada
Congregação para a propagação da fé, sobre Dona Beatriz; datada de l7 dezembro,
1710. Está no Archivio De Propaganda Fide, "Scritture Originali riferite
em Congregazioni generale”, Vol. 576, fol. 314. Tem o título, "Antoniano
colla corona in testa".
Julho 2014
Nenhum comentário:
Postar um comentário