domingo, 10 de julho de 2022

 

Deus É


Milhões, bilhões ou ainda mais livros se têm escrito sobre Deus, ou D’us ou Alá, ou qualquer outro, a começar pela Bíblia, o livro mais vendido desde sempre, traduzido em todas as línguas, para “explicar” quem é Deus, o que ele terá dito e feito.

Verdade, verdadinha, é que ninguém sabe nada, e então, ao longo de séculos, milénios, alguns homens, pensadores, certamente corretos, éticos (que hoje estão em falta) foram interpretando os fenómenos da criação conforme o que lhes sugeria o que observavam e, sobretudo, o que pensavam que poderia ter acontecido lá… longe, milénios para trás, sempre dando as opiniões que consideravam honestas.

Muitos desses homens foram ficando conhecidos como “homens santos” - Noé, Abraão, Moisés, Josué, Samuel, Ruth e Ester, etc. - que teriam falado com Deus, e de quem tinham recebido orientação.

No século XVIII, alguns filósofos depois de muito estudarem e discutirem problemas metafísicos, concluíram que nada, relativamente à existência de Deus é passível de conhecimento pela razão, e para isso criaram uma palavra, do grego, agnóstico, como aquele que crê que “um Ser Superior” existe, mas que a inteligência e conhecimentos humanos não podem comprová-lo.

Mas o homem, esperto, vivaço, e mesmo vigarista, consegue no meio de toda esta dificuldade, tirar proveitos, criando deuses, seitas, religiões, com belos contos, sermões e ou livros, e levarem o pensamento dos que não pensam, para “acreditarem” que o Deus está “lá em cima” de olho neles, para ver se se comportam bem ou mal, se depois vão para o paraíso - alguns até com doze mil virgens à sua espera (haja virgens!) - ou para o inferno.

Por aqui há milhares de carros com dísticos colados no vidro traseiro, no mínimo, curiosos, como “Deus é Fiel”! Uma delícia.

Além de sinagogas, mesquitas e igrejas católicas, por este país há mais de uma centena de outras “igrejas”, com base em Cristo – que é martirizado com o que os seus pastores e “bispos” conseguem extorquir dos incautos fiéis – mas que atraem milhões de pessoas. Algumas dessas igrejas acabam tendo uma importante papel social, mas outras são um escândalo de extorsão.

As pregações de muitos destes conseguem até convencer os tais fiéis a votarem neles para cargos públicos, e a encher mais ainda os seus bolsos.

Também há humildes e sinceros. Raros.

Pregam, afirmam, que Deus faz, Deus ajuda, Deus resolve, e se quisermos acreditar em Moisés, fiquemos com a definição dada por Deus de si mesmo, quando apareceu no meio da sarça ardente. Perguntado quem Ele era, Deus disse-lhe: “Eu sou Aquele que é”.

Depois D’us terá entregue as Tábuas da Lei com os 10 Mandamentos, dos quais se destacam o 6° - Não Matarás, o 8° - Não furtarás e o 10° - Não cobiçarás nada que não te pertença.

Mas os hebreus não fizeram caso disso. Primeiro Moisés terá quebrado as Tábuas e teve que as refazer, e para resolver o problema do assentamento do povo hebreu declarou que o seu – deles – D’us era quem os apoiava e incentivava nas guerras de conquistas.

Há até, entre muitas outras passagens, um Salmo de David que é bem explícito, frontalmente contra aqueles três Mandamentos. Reza o Salmo:

Bendito seja o Senhor, a minha Rocha,

Que treina as minhas mãos para a guerra e os meus dedos para a batalha.
Ele é o meu aliado fiel, a minha fortaleza, ... é o meu escudo, aquele em quem me refugio.

Ele subjuga a mim os povos.
Estende, Senhor, os teus céus e desce; toca os montes para que fumeguem.
Envia relâmpagos e dispersa os inimigos; atira as tuas flechas e faze-os debandar.


O “Não matarás, nem furtarás, nem cobiçarás...” só é válido para os outros?

Onde está afinal esse Deus ou D’us?

E Alá, que de acordo com algumas Suras, incita os “fiéis” (só eles é que são fiéis!) a nunca serem amigos dos “infiéis”, a passar-lhes a cimitarra no pescoço, etc. Será que foi o que o tal Anjo Gabriel disse a Maomé?

E para quê uns e outros, incluindo cristãos, vão aos templos de “oração”, citar frases feitas em livros, e pedindo coisas a Deus, nem sequer sabendo o que é ou quem é Deus, concordando todos, no entanto que esse Ser Superior, o Deus. é totalmente incognoscível,

Os ateus então são mais pragmáticos. Não lhes interessa saber se existe algo superior. Dá muito trabalho pensar nisso, para no fim não chegarem a qualquer conclusão, e comodamente desligam e com pensamento de superioridade sobre os “pobres crentes”, mesmo que sejam simplesmente agnósticos, orgulham-se do seu ateísmo, como também agora é moda de muita gente se orgulhar do que está errado, do que está fora dos desígnios da natureza.

Alguns homens, poderiam citar-se centenas, mas em relação à população total são raríssimos, que enfrentaram tudo e todos para demonstrarem que a finalidade do homem na Terra é alcançar a felicidade. Aristóteles, Buda, Spinoza, Kant e outros mais, “queimaram as pestanas” como se diz popularmente, à procura de um modo de se atingir o bem comum.

Veio por fim Jesus, Cristo, o Ungido, que com uma frase mais do que simples deixou o método definido com uma clareza total: Ama o próximo!

Frase de enorme simplicidade que resume todos os Mandamentos da Lei de Deus.

Mas Jesus, a todos os que o seguiram sempre foi alertando que a tarefa seria muito difícil, que eles iam sofrer por divulgarem a Boa Nova.

Divulgavam e apregoavam o Amor e eram “recompensados” com crucificações, enforcamentos e outras mortes violentas. Foi, e é, uma luta contra a maioria que retira dos Mandamentos a palavra “Não”, e assim matam, roubam, cobiçam.

Jesus, quando questionado só se referia a Deus como Pai. Pai só pode querer o bem de TODOS os seus filhos, sejam eles quem forem.

E um dia, perguntado “Quem és Tu”, deu a mesma resposta que o Pai:

Eu sou aquele que sou!

Tão simples poderia ser a vida!

Será que algum dia, daqui a anos, séculos, secula seculorum os humanos acabam por se amar, ou qualquer dia acabam mesmo por se matarem uns aos outros?

No fim de tudo isto haverá muitos que ainda vão perguntar: “E a Fé?”

Ora bem, Fé é a adesão de forma incondicional a uma hipótese que a pessoa passa a considerar como sendo verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que deposita nessa ideia. Tem uma vantagem; quem tem muita fé deixa com a Fé a solução de problemas, normalmente insolvíveis!

Pode ter fé em alguma religião, numa equipa de futebol, na cura de doença grave, na hipótese de ganhar na loteria e até num charlatão, como se tem visto por muito lado.

Essa fé eu não tenho. Nem quero.

Dei muitos dias, meses, da minha vida a ajudar outros desfavorecidos, crianças, adolescentes e até adultos. Não foi preciso ter fé, nem ser crente, bastou entender que o pouco que lhes poderia dar podia ser, e era, importante para eles, e ao mesmo tempo uma sensação de gratificação para mim.

A mão esquerda não precisou de saber o que a direita fazia.

Simplesmente… fiz.

Resumindo tudo basta pensar que

Deus É !


06/07/22




domingo, 3 de julho de 2022

 

Voltas e Reviravoltas


O caso que vou narrar passou-se no século XX, portanto há pouco tempo, e algumas personagens estão já no eterno e merecido descanso.

Caso conhecido através de alguém que foi muito amigo dessa gente.

No começo dos anos 20 do século XX, dois jovens portugueses decidiram deixar as suas terras e procurarem vida nova em África. Manuel Costa e João Pacheco, hm da região de Torres Vedras, o outro de Cantanhede, ofereceram-se como marinheiros e embarcaram para Angola na viagem inaugural do navio Guiné I.

Únicos “marinheiros amadores”, ganharam amizade durante a viagem, enquanto faziam projetos para o que deveria ser a nova vida que iam enfrentar. Nada de ficar na cidade, com empregos miseráveis. O futuro estaria no interior.

Assim que chegados souberam que um dos sócios da Companhia de Navegação, Celestino Correia, que ficou conhecido em Angola como grande empreendedor, estava a começar a construir o caminho de ferro do Amboim. Para isso precisava de pessoal responsável. Os dois amigos não exitaram. Era ali que iam começar a nova vida.

Bons trabalhadores, com algum estudo, não tardou a ocuparem cargos de responsabilidade, assim ganhando o suficiente para irem amealhando tudo quanto podiam. Levavam vida séria e de trabalho..

Foram ganhando respeito e o conhecimento de vários chefes – sobas – africanos, e decidiram que a melhor aplicação do dinheiro seria a compra de terras para o cultivo do café, e assim, independentes, mas sempre procurando terras vizinhas, quando o caminho de ferro chega ao seu término em 1941, ambos tinham já boas porções de terra, que paralelamente foram plantando e encontravam-se já reconhecidos fazendeiros, com boa situação económica, tendo ainda recebido um prémio pelo trabalho desenvolvido nas obras.

Já instalados nas suas propriedades, casados começam a chegar os filhos.

O casal Pacheco foi o primeiro a ser contemplado com um rapaz, o Carlos. Os Costa, só quase três anos depois porque a esposa teve problemas de saúde de adaptação, mas acabou pondo neste mundo uma linda menina, a Lúcia. Ao mesmo tempo desta nascia também a Sofia na casa Pacheco.

Nascidos em Angola, filhos de fazendeiros de café, onde não havia problemas de finanças apesar de não serem ricos, o mais importante, eram serem vizinhos, e assim terem criado profunda amizade entre os três.

Conheceram-se desde que a menina vizinha nasceu, que cedo veio a ser a sua grande companhia de brincadeira, e mais tarde uma espécie de namorico até que chegaram a noivar. Sofia sempre a par de todas estas evoluções.

Todos se gostavam como irmãos, mas à medida que iam crescendo esse amor fraterno mostrou que havia outro amor que podiam e deviam vir a partilhar.

Lúcia fazia-se uma linda jovem, viva, alegre, alta e Carlos rapagão forte, bonito, mais calmo.

Enquanto estudavam na Escola Industrial em Nova Lisboa), todo o dia saíam juntos, ele a deixava em casa, e volta e meia, mãe condescendente, arranjava maneira de os levar a verem um filme num dos cinemas da terra. Bons alunos, logo ele ocurso de engenheiro auxiliar é mandado para Portugal o curso superior de engenharia, coisa que o atraía desde muito novo, e já com boa prática, não só pelo curso feito em Nova Lisboa, porque não se livrava de dar manutenção às máquinas da sua fazenda e até de alguns vizinhos. Daí, também ser muito estimado por todos.

Na despedida para Portugal, promessas de amor eterno, mas a perspectiva era de uma separação longa… sempre perigosa para dois jovens namorados que se amavam desde crianças.

Cartas voavam de um para outro lado, com muita frequência, frases de amor e saudade a preencherem o papel.

Coimbra terra de doutores e amores, não perturbaram o estudante que sonhava só com a sua amada e com o final dos estudos para se tornar independente e até poder casar.

Os estudos corriam bem, em quatro anos estava formado, e foi logo chamado para cumprir o serviço militar. A guerra já tinha começado nas colónias portuguesas.

Lúcia, que da mesma Escola Industrial passara ao recém Liceu em Nova Lisboa, ingressa nos Estudos Gerais, em Luanda, que virou Universidade, e estudava Biologia.

Rodeada de jovens, de vida com liberdade, praia e passeios, coisa a que não estava habituada, curiosa e inteligente, não podia deixar de prestar atenção em alguns que lhe pareciam mais… mais atraentes. Não esquecia o seu amor, mas o panorama circundante davam-lhe que pensar.

Carlos, mesmo batalhando muito, ao ser incorporado não foi mandado para Angola, mas para Moçambique.

Requerimentos, queixas, etc., nada lhe valeu e teve que cumprir o serviço militar no Norte de Moçambique. Ao passar em Luanda encontraram-se os dois jovens, choraram com a continuidade da separação, mas não deixaram de marcar a data de casamento para o dia seguinte em que ele terminasse as suas obrigações.

O homem põe e Deus dispõe! O tempo e o afastamento… é que dispõem, e Lúcia começou a sentir que o calor e o entusiasmo que sempre sentia ao estar junto de quem amava, ia arrefecendo. Longe da vista… quantas vezes longe do coração, como o mostrou Gil Vicente dos Auto da Índia!

À sua volta outros Adonis iam ocupando o campo que o nosso engenheiro, militar, fora obrigado a deixar livre. As cartas começaram a aparecer mais secas. Via-se que o entusiasmo esmorecia. Do lado dela. Ele, no meio de uma guerra, dura e feroz, sonhava com o dia em que aquilo terminasse para correr para os braços daquela que amava e considerava noiva. Mas alguma lhe dizia que nem tudo estava a correr bem.

Chegava ao fim a comissão militar e uma carta trazia-lhe a notícia que o vinha roendo: ela dizia-lhe muito sumariamente que gostava de um colega, ótimo companheiro, não tinham namoro, mas ele era muito atencioso e, no mesmo curso, passavam várias horas a estudarem juntos!

Carlos não queria acreditar naquelas palavras; leu a carta várias vezes, se bem que nas entrelinhas, e nas linhas, percebia que o amor de toda a sua vida tinha voado para longe.

Esperou uns dias para lhe responder e, numa carta bastante seca, perguntava-lhe se o casamento, acordado entre eles, ainda era válido. Ia passar, já desmobilizado, em Luanda, dentro de duas semanas, e queria saber como proceder.

A resposta não demorou. Lúcia, habilmente disse que precisava de mais tempo para pensar, além de ainda lhe faltarem dois anos para terminar a faculdade.

Carlos caiu em si, e viu que o assunto estava arrumado.

Ao passar em Luanda, procurou-a e, direto, sem cerimónias disse-lhe

- Lúcia, tudo o que eu quero é que sejas feliz. Gostei de ti como de ninguém, e seria incapaz de te desejar outra coisa. Se algum dia precisares de mim, é só me dizeres. Mas não nos voltaremos a ver, a não ser, como te digo, que precisares de mim. Adeus.

Saiu, visitou pais, pediu à irmã que, em segredo, lhe fosse dando notícias da Lúcia, despediu-se também dos antigos prepostos sogros, e seguiu viagem para Portugal.

Engenheiro, experiente, com louvores obtidos no serviço militar, decidiu ir embora de Portugal sem sequer equacionar em voltar para a sua terra, Angola, que tanto amava.

Procurou trabalho nos lugares mais longínquos e não tardou a ir para a Austrália, já com promessas positivas.

Jovem, “boa pinta”, alto, inteligente, não lhe faltaram pretendentes. Mas Carlos perdera a confiança nas mulheres. No grupo de amizades que entretanto foi tendo, algumas descaradamente o queriam atrair. Homem bonito, com segura posição financeira… Era-lhe fácil aproveitar uns momentos de prazer, mas jamais voltou a equacionar uma união definitiva.

Todos os anos, no dia do aniversário da Lúcia, através de empresas que entregam flores em todo o mundo, ela recebia em casa um bonito ramo de flores, com um cartão simples; “De um amigo”, sem nome nem data.

Alguns anos passaram, chegou a independência de Angola, o êxodo dos portugueses foi quase total, os agricultores de café, os que não foram mortos, tiveram que abandonar tudo.

Tanto os pais de Carlos, como os da Lúcia, tinham já, havia alguns anos, à cautela, comprado casa com pequena quinta em Portugal. Estavam ainda de boa saúde, sexagenários, foram cuidar em Portugal de alguma coisa que lá tinham.

Carlos, há dez anos na Austrália estava muito bem economicamente, não ocasião da “fuga” ofereceu-se para financeiramente ajudar as duas famílias, o que não foi necessário, e com alguns intervalos de tempo ia até Portugal, mas só procurava estar com os pais que envelheciam.

Nessas viagens, a irmã saía com ele para passearem e contar-lhe o que sabia da Lúcia, de quem continuava amiga, apesar de se verem poucas vezes.

O casamento com o colega não fora feliz. O desmonte das vidas em Angola, abalou muitas vidas de famílias. O único filho que lhes nascera morreu muito cedo o que a deixou derrotada, e o marido era, além de pouco carinhoso, um “salta-salta” com outras mulheres. Lúcia tinha até confessado que ia se separar.

Tudo isso Carlos ouvia e sofria pelo antigo amor que jamais lhe saíra da cabeça.

Já de volta a casa, na Austrália, pouco tempo depois recebe da irmã uma notícia que muito lhe agradou. Sofia tinha arranjado férias e iria visitá-lo. Ela, marido e os dois filhos, um deles afilhado de Carlos, que logo lhe mandou uma boa soma para a compra das passagem e ficou ansioso pela sua chegada.

Dia da chegada, sábado, Carlos nervoso aguarda no aeroporto a chegada.

Mas leva um tremendo choque ao ver que a irmã não aparecia, e vê, com ar estupefacto chegar Lúcia, ar abatido depois de quase quarenta horas de voo e até envergonhado, continuando a ser uma bela mulher, vestindo com elegância, 1,65 m de elegância, simples e beleza.

A primeira reação de Carlos foi virar as costas e ignorá-la, o que seria uma tremenda falta de educação.

Lúcia, depois de um seco “Olá, Carlos” entrega-lhe uma carta da irmã, que simplesmente lhe dizia que, por razões de força maior – um problema de saúde de um dos filhos, pequenos, o afilhado de Carlos – teve que adiar a ida. Mas que esperava poder lá estar dentro de oito a dez dias.

Carlos fingiu que acreditava, e disse a Lúcia que a ia levar para um hotel na cidade. Não se preocupasse com o custo, seria de sua responsabilidade.

No caminho, pouca conversa trocaram. Só notícias dos pais de ambos, de Sofia e o problema da saúde do sobrinho, que Lúcia explicou o que tinha sido, e estava já bem.

Ao deixá-la no hotel, diz-lhe que descanse da viagem que “amanhã’ a ia buscar por volta do meio dia para almoçarem juntos.

Foi para casa, telefona à irmã, e diz-lhe que o que ela fez não foi decente. Sentiu como quem leva um tapa na cara! Ela desculpou-se com o filho, que estava já bem e que dentro de dias estaria lá em Melbourne e lhe explicaria tudo. E que a razão da Lúcia ter ido, não fora nenhuma brincadeira. Eram amigas de toda a vida, e agora que ela estava só e triste. Mais ainda porque a mãe lhe tinha falecido há pouco. Tudo isso deu a Sílvia a ideia de fazerem esta viagem juntas, o que infelizmente não foi possível.

Carlos não sabia como reagir. Tinha, no fundo, uma imensa mágoa, com a atitude que ela tomara. Ao mesmo tempo não esquecia o tanto que se amaram e compreendia que ela agora precisava dele mais do que nunca.

Passou uma noite difícil, a pensar como se comportar no dia seguinte. A verdade é que não podia simplesmente ignorá-la!

A sua cabeça não conseguia dizer-lhe o que fazer. Confuso, com a ferida aberta, vontade de sumir por algum tempo, foi buscar Lúcia.

Lá estava ela, elegante, atraente, com ar mais descontraído, à espera. Tudo isso Carlos ia anotando e tentando encontrar um caminho a percorrer.

- Teve coragem para lhe dizer: continuas muito elegante e bonita!

Ao que ela respondeu:

- Tu Carlos também continuas jovem. Não parece que passaram já tantos anos!

O bom-dia foi mais intimamente começado com um rápido beijo na face. Afinal eram amigos desde a mais tenra infância.

Já no carro Carlos disse-lhe que iam almoçar num parque para que ela pudesse começar por ver a fauna australiana, sempre agradável. Lá havia um pequeno restaurante, mesa reservada num discreto canto.

Lúcia, como todos os visitantes, encantou-se com os coala, wombat, cangurus e outros o que a deixaram bem descontraída.

Ao sentarem-se à mesa, Carlos diz-lhe:

- Lúcia, não vamos falar no que se passou com a tua vida. Podes contar-me sobre a tua vida profissional, mas nada de assuntos familiares. Desculpa, a minha ferida nunca fechou. Pelo meu lado pouco há para contar. Estou aqui há uns quinze anos, solteiro, a vida profissional corre bem, tenho alguns amigos, poucos, gosto de passear pelo interior deste imenso país e é tudo.

E a conversa começou a correr, cerimoniosa.

Nos olhos de ambos viam-se aflorar algumas gotas com o difícil momento que estavam a viver e recordar, e o coração do Carlos ia amolecendo. Chegaram até a momentos de riso quando algum detalhe das suas vidas o permitia.

Deram mais um largo passeio de carro e, no regresso ao hotel:

- Lúcia, quando a Sílvia chegar vão todos para minha casa que é grande. Lá terás também o teu quarto, mas por ora acho melhor que fiques aqui. Não deixarei de te vir buscar para um passeio ou jantar, mas amanhã tenho muito trabalho. Só posso aparecer tarde. O hotel está bem no centro da cidade, podes passear por onde quiseres. Tens aqui um envelope com um pouco de dinheiro australiano para o que precisares.

Outro beijo de irmãos, um “boa noite e obrigado; até amanhã”, Carlos saiu.

Saiu, mas ia diferente, não entendia se mais descontraído ou ainda mais perdido, sentindo um pedacinho de felicidade a aflorar lá no fundo. Sabia que continuava a gostar de Lúcia e previa que tudo aquilo ainda ia acabar bem. Mas como? Devagar, com cautela, sobretudo depois da chegada da irmã, que teria, de certeza muito para lhe contar. Não podia dizer a Lúcia que ainda gostava dela, mesmo sabendo que isso era o que sentia, era muito difícil afirmá-lo. Com Lúcia passava-se o mesmo, só não sabia como dar um passo em frente, depois do erro, grande, que cometera.

Ele disse-lhe, da última vez que se viram, que se ela precisasse dele era só lhe dizer. Chegara o momento.

Ela, desde há muito que estava precisando dele. E ele… desde aquele fatídico dia.

A ambos faltava coragem para falarem abertamente. Também não podia ser de repente que se dizem coisas assim que deixaram marcas dolorosas. Tinham que deixar o tempo fazer a sua parte, e a presença da família ia ajudar muito.

No hotel, sozinha, à noite, Lúcia chorava.

Domingo à noite um telefonema de Sílvia, avisa que vão chegar na próxima quarta feira. Que alegria Carlos recebeu. Com a irmã e sobrinhos em casa as “coisas” iriam encaixar-se.

Passaram esses três dias de espera, um jantar e um pequeno encontro no entretanto, e lá está Carlos na saída do aeroporto.

Foi grande a manifestação, muitos abraços e beijos à irmã e sobrinhos e, com carro extra, vão ao hotel buscar Lúcia. Outra manifestação entre as amigas.

Começa uma vida nova em casa. Alegria, descontração e a pressão de Sofia para que os dois, que ainda se amavam o dissessem um ao outro, para acabar com aquela situação falsa. A coragem para dar esse passo faltava aos dois.

Então, uns dias depois, no fim de um jantar com a família, tudo na mais descontraída disposição, Sofia, manda calar todos, porque tinha uma declaração a fazer!!! E dirige-se direto ao assunto:

- Carlos e Lúcia! Porque vocês não marcaram ainda o casamento? Alguém tem dúvidas que esse é o vosso destino, que está previsto desde que nasceram?

Uma salva de palmas e muitos “vivas” da família e os “noivos” a corarem com o susto. Mas Carlos logo tomou conta da situação.

- Lúcia e eu temos conversado muito nestes poucos dias que estivemos sozinhos. Nunca tocámos nessa hipótese, mas ambos sabemos que isto ia acabar desse modo. Faltava-nos sermos mais simples para o declararmos um ao outro. Eu sabia que a Sofia acabaria por nos encostar à parede! E ela tem razão! Assim: Lúcia, ainda queres casar comigo?

Lúcia não sabia como limpar as lágrimas que lhe corriam pela cara, não conseguia falar, e só abanava a cabeça em sinal positivo!

- Lúcia eu não tenho ainda 40 anos. Estou quase, e tu menos três. Ainda temos tempo para criar a nossa família, tu podes ainda ter uns quantos filhos. Já perdemos muito tempo. Não vamos fazer festa, mas vamos aproveitar enquanto aqui está a nossa família, já que os nossos pais não estão mais em idade de enfrentar 40 horas de voo para aqui virem. Nós depois vamos lá vê-los.

Levantou-se, pediu a Lúcia para se levantar também, abraçaram-se muito, ambos com lágrimas nos olhos e um beijo, a sério, selou, o destino deles.


N.- Talvez ainda por lá estejam e, desejamos, felizes.


03/07/22


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sexta-feira, 24 de junho de 2022

 

Lembrando

Manuel Bandeira,

Alboácem ibne Ali Almaçudi

e até do Imperador Dom Pedro II - *


Andei anos a pensar

Ir embora pra Pasárgada.

Lá tinha no rei um amigo,

Que me dava lindas mulheres,

Até para dormir comigo.

Belo sonho acalentei.

Agora já não tem rei,

Os palácios destroçados,

Os hotéis todos fechados,

Os habitantes exilados,

Só restos amontoados.

Pensei então em Omã,

Naquela mulher linda,

Amiga da minha irmã.

Telefonei-lhe, atendeu,

Disse o nome, Sherazade!

Mostrou grande ansiedade

Em viver minha amizade.

Imaginem, Sherazade,

Tanta história para contar,

Mais de mil pra me agradar.

Diz que só conta ao deitar.

Irei sim se houver luar,

Onde eu possa respirar,

Tanto amor que há pra dar!

Logo, já estava em Omã,

Cheguei bem cedo, de manhã,

À minha espera só ela,

Linda, do sheik irmã.

Sherazade me abraçou

E logo ali me cativou.

Uma porção de criados,

Automóveis enfeitados,

Aguardavam, estacionados,

Todos muito alinhados.

Pró palácio me levou.

Lindo, bem decorado,

Muito quadro pendurado,

Com histórias do velho Estado.

Veio até antiga dama

Que fez questão de mostrar

Que o quadro mais bonito

Era o do Vasco da Gama.

Quando a questão eu lhe puz

Ela me confirmou

Que há mesmo muito tempo,

O tinham trazido de Ormuz.

Chega a noite, Sherazade,

Ela, uma beldade,

Uma ninfa, uma naiade.

Agarra na minha mão

Com muita suavidade,

Leva-me pra uma alcova

Com linda decoração,

Pressentindo de antemão

Viver longa felicidade.

Depois de me acarinhar

Logo começa a contar

Mil histórias para amar.

Deixou-me sem respirar!

Mas eu que estava a gostar,

Nem me atrevi a falar.

Fiquei com ela nos braços,

Em apertados abraços,

Até o sol nascer.

Olhei-a bem, queria ver

Se não estaria a sonhar.

Foram contos sempre lindos

Amores quase que infindos.

Nenhum se podia queixar.

Tarde já, quando acordei,

Olhei em volta, aturdido.

Estava muito confundido.

E devagar realizei

Que aquele tempo vivido

Foi só o tempo que sonhei.


*

Bandeira, fez-me sonhar;

Almaçudi, contou as histórias;

D. Pedro II traduziu do primeiro original.


06/2022

quarta-feira, 15 de junho de 2022

 

Utopia Globalitária



Não sei quem terá sido o primeiro a utilizar esta pequena “frase”, felizmente sem verbo, mas vi-a há poucos dias num texto escrito por um esquerdista aparentemente desiludido.

Apesar disso a sanha devastadora da esquerdopatia voraz, aparentemente, segundo alguns mais equilibrados, significará uma doença mental grave em estágio terminal. Quem sabe se será “O Canto do Cisne”! Tomara que sim.

Em medição de tempo cósmico, é evidente que tem que estar terminal, mas no momento está numa das suas fases mais agudas, em que o vírus se espalha mais rapidamente, auxiliado por tudo quanto seja aberração, voragem, ganância, e o mais evidente sinal de extinção manifesta-se, também, através do quererem desqualificar os dois géneros com que a natureza criou os animais, e que assim vivem há bilhões de anos, que são o macho e a fêmea, o masculino e o feminino.

Pensam os doentes esquerdistas que através dessa hipotética descaracterização vão poder dominar o mundo impondo as ideias LGBTistas, como uma das principais soluções da humanidade.

E o mais absurdo de tudo isto é que essas ideias estão já a ser forçadas, impostas, por leis e atitudes de governos de países de tão disparatado sentido de sociedade, felicidade e ética, doença esta que essa ignora, espezinha e atropela.

Atacam tudo que não se alinhe com o seu objetivo, inflam números para extorquirem mais dinheiro à sociedade (impostos) e, os covardes governantes e legisladores, com medo de perderem votos dessa quantidade “imensa” de leitores estropiados… vão-lhes concedendo benesses.

Em boa hora o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – que não pôde realizar o censo demográfico em 2020 por covidescas e evidentes razões, já previa e vai em breve executar esse censo, em que cada um identificará o seu género destacando se homo ou hetero.

Numa prévia já estudada, em que foram consultados mais de 3.000.000 de indivíduos três milhões – já se começou a ter noção de quantos “homo” existem independente serem isto ou aquilo ou trans aqueloutro. Até agora os movimentos dessa gente têm querido convencer que essa desequilibrada gente alcança 10, 20 ou 30% da população. Absurdo, que prevê obter assim mais verbas oficiais. O pré censo deixa desde já prever que não ultrapassa 1,5%!!!

Os coitados vão ter que ir arranjar verbas para as farras… talvez na Disney, que está cada vez mais globatizada, lançando barbies masculinas e superhomem de saias cor de rosa!

De vez em quando, felizmente raras vezes fico a pensar que se essa gente conseguisse impor as suas desequilibradas e gananciosas ideias e vícias, como se iria comportar o crescimento da população mundial!
É evidente que não cresceria. Regrediria.

Eu já cá não vou estar para ver isso. Talvez do meu poleiro, lá no alto, mesmo que esteja muito quente (ainda não se sabe se o putinho vai também cortar o gás ao Demo) eu assista a um renascer da humanidade.

Lá… no Além, o tempo não conta e ninguém fica esperando para ver o evoluir de toda a natureza, do Cosmos. Vê-se tudo no mesmo instante, isto se por lá houver tempo, instantes, minutos.

A esquerda caviar – porque não se alimenta de carapau ou sardinha assada – tem vindo a alimentar-se desta falácia e de outros crimes como o caso da pandemia do covid, que a mim ninguém me convence de que não esteja, ainda, a ser manipulada por clintons, soros, gates, xixi-pingos, e outros, procurando com isso alcançar o governo globalitário, além de matar e destruir vidas com doenças que a medicina ainda não sabe como tratar.

A grande Rússia, com os seus bilhões de km2 de permafrost ou pior, assusta a Europa, que senil e covarde assiste, medrosa, à luta desesperada da Ucrânia a quem o putinho quer roubar a mais rica parcela agrícola da Europa, além de toda a riqueza mineral.

Machos têm se portado os finlandeses e suecos, batendo de frente com os vizinhos.

Hábil, o otomano finge que e manda drones aos ucranianos, o bidé-n vomita disparates que têm servido para o putinho rir nas horas de folga, quando se entretém com a linda (e boa) alina, e ainda lhe sobra tempo para ameaçar os soberbos americanos que não se metam com ele que é macho.

Por aqui as “coisas” vão andando ao ritmo de samba desencontrado. Os supremacistas ministros empenhados até à alma (se a tiverem, se não até outra qualquer parte do corpo ou do bolso) em derrotar o único homem que até agora, desde tempos coloniais, não meteu a mão na cumbuca, o que deixa os inimigos (não adversários) danados por não o poderem condenar. Inventando prerrogativas que lhes não competem, para realçar ao poder o maior ladrão da história do Brasil.

Aqueles que, como eu, sempre foram babacas a pensar que o homem evoluiria para melhor, chega a olhar pra os demos do Além e vê-los a dar risada.

E eu sinto-me um pouco como a hiena: que come carne podre, só cobre a fêmea uma vez por ano, e é preciso que o macho alfa autorize e… ri que quê?

Há muitos anos que vejo a Europa a definhar. Digam o quanto mal quiserem mas sou obrigado a lembrar de Napoleão, Churchill, Salazar, De Gaulle e alguns mais que governaram impondo respeito e disciplina.

Hoje governam ignorantes, ambiciosos, mancomunados por potentados – indústrias bélicas, farmacêuticas – contrabando de drogas, armas e pessoas (pasmem, ó gentes, de pessoas) – outros vorazes bilionários, gastam-se trilhões de qualquer moeda e continuam a olhar para os povos mais primitivos, de onde todos descendemos, rasgando dos dicionários, se alguma vez os abriram, as páginas onde estavam as palavras ética, solidariedade, transparência, e outras semelhantes, destacando com canetas de cores vivas outras como conta bancária, paraísos fiscais, corrupção, etc.

Isto para se alcançar o tal governo global, a mais estúpida, antinatural e irracional Utopia Globalitária.

E, diz a Bíblia que foi Deus quem fez o homem!

Que nada! Talvez tenha sido uma Ameba – a “comedora de cérebros” – ou da Arcellinida, ou da Dickinsonia, antepassados que contam quase um bilhão de anos, para chegarmos ao topo da cadeia animal numa voraz autodestruição.

Quem poderá negar que esses covardes todos não sejam descendentes de Medusas do mar, que vivem há quinhentos milhões de anos… sem cérebro!

Talvez a única esperança esteja no Armagedom, com uma guerra que preparará o caminho para um tempo de paz e justiça.

Talvez.


04/06/22


segunda-feira, 6 de junho de 2022

 

O Último da Minha Criação!


Não há nem um mês que escrevi sobre um Amigo, que por um muito feliz acaso encontrei no Centro do Rio de Janeiro, em 1979.

Hoje acabo de receber a notícia que nos deixou.

Há muito doente, apático, há dias ainda reconhecendo-me numa foto antiga e até corrigindo o meu nome a quem estava a tomar conta dele.

Amigos desde data que se não sabe mais, mas da infância, e sempre mantendo viva essa amizade pela vida fora, é um golpe duro para quem, como eu está já fragilizado.

Só me resta, além de chorar, lembrar momentos alegres da nossa vida.

Passávamos as férias de verão em Sintra, onde nos encontrávamos quase todos os dias. Já garotões, eu com a minha eleita vivendo em Santo Amaro de Oeiras, era ele que me emprestava a sua bicicleta, luxo que nunca tive, para ir visitar a menina. No regresso, estradas a subir e vento pela frente lá ia eu devolver a bicicleta… estafado!

No tempo das aulas eu estudava em Évora, ele em Lisboa, formou-se em Direito, preparando-se para entrar na carreira diplomática. É chamado para fazer o serviço militar, colocam-no nos Serviços Secretos, transmissões cifradas, etc., e “esqueceram-no” lá dentro, só o libertando quase dois anos mais tarde.

O nosso pretenso futuro diplomata, tranquilo, sempre muito educado, não reclamou, mas viu os colegas passarem-lhe à frente e desistiu da diplomacia. Teria dado um grande diplomata.

Do pai herdou uma biblioteca importante e decidiu então dedicar-se a livros raros, sendo considerado o melhor livreiro de Portugal, montando um acervo espetacular, comprando e vendendo obras magníficas.

Foi um dos pouco amigos que convidei para o meu casamento, e bem mais tarde foi padrinho de casamento da nossa filha Helena.

Solteiro criou hábitos curiosos. Morava na Av. da República, saía de casa depois das 11 horas da manhã para ir ao café “Galeto” tomar o seu “matabicho”. Mesa reservada, não precisava encomendar nada porque os funcionários há anos que lhe serviam a torrada com manteira e o café com leite! Religiosamente sempre igual. Várias vezes fui ter com ele para ficarmos na conversa, e como para mim eram quase horas do almoço eu sempre comia alguma coisa… mais sólida.

Um belo dia, combinarmos ir jantar fora. Aliás uma bela noite. Já ambos de cabelo branco, o meu amigo tinha experimentado pontar a cabeleira, e aparece com ar comprometido! Ao ver a minha cara espanto, e sabendo como gosto de brincar, ainda estávamos a uns quantos metros de distância, logo ele se adianta e diz-me: Por favor; não digas nada!

Ri muito mas, bico calado, cumpri. No dia seguinte creio que foi despintar-se.

Sobre ele, nos Encontros Inusitados, há menos de um mês, escrevi isto:

Em Julho de 1979 fizemos Bodas de Prata, e a todos aqueles que tinham estado no nosso casamento, mandamos um simples convite para se juntarem a nós. A totalidade vivia em Portugal, mas foi um meio de comunicarmos com esses amigos.

Estava eu a viver em São Paulo e a trabalhar no Rio numa empresa em situação de desastre financeiro, o que me obrigava a, com frequência, dialogar com os agiotas, chamados bancos e ir empurrando com a barriga, como podia.

Uma semana o dinheiro ia todo para um imposto, na outra para o pessoal, a seguir pagar o custo social do pessoal, depois outro imposto, e não sobrava migalha. Pelo contrário. Uma canseira sem ver o fim do inferno.

Estou no Centro do Rio, rua do Ouvidor, rua cheia de bancos e cheia de pedestres, às centenas, e tinha que falar com dois dos membros da alta finança nacional e internacional. Passo por um, sigo em frente, mas pensei que seria melhor voltar atrás. Rodo 180 graus e estacado na minha frente, para não chocar comigo, um dos meus maiores amigos de toda a vida, alfacinha (lisboeta), com quem sempre estou quando vou à terrinha.

- TONI ??? Aqui?

- Cheguei ontem de Lisboa e amanhã vou para São Paulo. Tenho até aqui no bolso o teu convite das Bodas. Ia telefonar-te logo à noite.

Já não fui a banco nenhum. Entramos no primeiro boteco ou pastelaria e ali ficamos um bom tempo no papo.

Pois o Toni, António Tavares de Carvalho, tinha vindo ao Rio para negociar livros, ele talvez o mais famoso bibliófilo português, que, na nossa mocidade me emprestava a sua bicicleta (eu não tinha, nem dinheiro para isso) para ir de Sintra a Santo Amora de Oeiras ver a pretendida, que acabou por cair na minha conversa… até hoje!

Ao chegar a São Paulo havia greve de taxis! Uma simpática (très simpática) garota abordou-o ofereceu-se para o conduzir no seu carro - tipo “Uber” de hoje. A “Dildinha” - ou nome algo parecido – que viu no sujeito, todo lord, uma bela presa, não largou mais o passageiro. Creio até que o levava ao hotel, estacionava o carro, descia com ele e depois subia com ele até ao quarto, mas não vou garantir porque não sou de fofocas, nem tenho nada com isso.

Sei que o Toni, todos os dias enquanto esteve em SP, a partir de meio da tarde ia para nossa casa, jantava, e só de lá saía, à noite, quando nós nos queríamos ir deitar e o obrigávamos a telefonar à Dildinha que o ia buscar e...

Um dia, domingo, tive que ir visitar, fora de São Paulo um importante cliente (meu), rico, casarão num sítio imenso. Levei o Toni comigo e o senhor muito amável convidou-nos para almoçar.

A casa cheia, uma filhinha pré casadoira, bonitinha, e o preposto noivo, que se apresentou, mas o Toni não ouviu o nome dele e perguntou-me. Eu disse-lhe:

- Não é Dalton.

Logo o Toni:

- É Robespierre.

Era. Ficaram todos com ar de espanto sem entender como ele poderia ter adivinhado!

Meu querido Toni, possas tu ler este pequenino apanhado das nossas vidas, que tanto teriam para contar.

Não se chegou a ler.

Entretanto pintei, para o meu livro de “Retratos de Amigos”, o retrato dele, baseado numa foto de há uns 40 anos.

Agora, velhotinho, como eu, não sairá do meu coração enquanto ele teimar a continuar a bater.

06/06/22