Voltas
e Reviravoltas
O
caso que vou narrar passou-se no século XX, portanto há pouco
tempo, e algumas personagens estão já no eterno e merecido
descanso.
Caso
conhecido através de alguém que foi muito amigo dessa gente.
No
começo dos anos 20 do século XX, dois jovens portugueses decidiram
deixar as suas terras e procurarem vida nova em África. Manuel Costa
e João Pacheco, hm da região de Torres Vedras, o outro de
Cantanhede, ofereceram-se como marinheiros e embarcaram para Angola
na viagem inaugural do navio Guiné I.
Únicos
“marinheiros amadores”, ganharam amizade durante a viagem,
enquanto faziam projetos para o que deveria ser a nova vida que iam
enfrentar. Nada de ficar na cidade, com empregos miseráveis. O
futuro estaria no interior.
Assim
que chegados souberam que um dos sócios da Companhia de Navegação,
Celestino Correia, que ficou conhecido em Angola como grande
empreendedor, estava a começar a construir o caminho de ferro do
Amboim. Para isso precisava de pessoal responsável. Os dois amigos
não exitaram. Era ali que iam começar a nova vida.
Bons
trabalhadores, com algum estudo, não tardou a ocuparem cargos de
responsabilidade, assim ganhando o suficiente para irem amealhando
tudo quanto podiam. Levavam vida séria e de trabalho..
Foram
ganhando respeito e o conhecimento de vários chefes – sobas –
africanos, e decidiram que a melhor aplicação do dinheiro seria a
compra de terras para o cultivo do café, e assim, independentes, mas
sempre procurando terras vizinhas, quando o caminho de ferro chega ao
seu término em 1941, ambos tinham já boas porções de terra, que
paralelamente foram plantando e encontravam-se já reconhecidos
fazendeiros, com boa situação económica, tendo ainda recebido um
prémio pelo trabalho desenvolvido nas obras.
Já
instalados nas suas propriedades, casados começam a chegar os
filhos.
O
casal Pacheco foi o primeiro a ser contemplado com um rapaz, o
Carlos. Os Costa, só quase três anos depois porque a esposa teve
problemas de saúde de adaptação, mas acabou pondo neste mundo uma
linda menina, a Lúcia. Ao mesmo tempo desta nascia também a Sofia
na casa Pacheco.
Nascidos
em Angola, filhos de fazendeiros de café, onde não havia problemas
de finanças apesar de não serem ricos, o mais importante, eram
serem vizinhos, e assim terem criado profunda amizade entre os três.
Conheceram-se
desde que a menina vizinha nasceu, que cedo veio a ser a sua grande
companhia de brincadeira, e mais tarde uma espécie de namorico até
que chegaram a noivar. Sofia sempre a par de todas estas evoluções.
Todos
se gostavam como irmãos, mas à medida que iam crescendo esse amor
fraterno mostrou que havia outro amor que podiam e deviam vir a
partilhar.
Lúcia
fazia-se uma linda jovem, viva, alegre, alta e Carlos rapagão forte,
bonito, mais calmo.
Enquanto
estudavam na Escola Industrial em Nova Lisboa), todo o dia saíam
juntos, ele a deixava em casa, e volta e meia, mãe condescendente,
arranjava maneira de os levar a verem um filme num dos cinemas da
terra. Bons alunos, logo ele ocurso de engenheiro auxiliar é mandado
para Portugal o curso superior de engenharia, coisa que o atraía
desde muito novo, e já com boa prática, não só pelo curso feito
em Nova Lisboa, porque não se livrava de dar manutenção às
máquinas da sua fazenda e até de alguns vizinhos. Daí, também ser
muito estimado por todos.
Na
despedida para Portugal, promessas de amor eterno, mas a perspectiva
era de uma separação longa… sempre perigosa para dois jovens
namorados que se amavam desde crianças.
Cartas
voavam de um para outro lado, com muita frequência, frases de amor e
saudade a preencherem o papel.
Coimbra
terra de doutores e amores, não perturbaram o estudante que sonhava
só com a sua amada e com o final dos estudos para se tornar
independente e até poder casar.
Os
estudos corriam bem, em quatro anos estava formado, e foi logo
chamado para cumprir o serviço militar. A guerra já tinha começado
nas colónias portuguesas.
Lúcia,
que da mesma Escola Industrial passara ao recém Liceu em Nova
Lisboa, ingressa nos Estudos Gerais, em Luanda, que virou
Universidade, e estudava Biologia.
Rodeada
de jovens, de vida com liberdade, praia e passeios, coisa a que não
estava habituada, curiosa e inteligente, não podia deixar de prestar
atenção em alguns que lhe pareciam mais… mais atraentes. Não
esquecia o seu amor, mas o panorama circundante davam-lhe que pensar.
Carlos,
mesmo batalhando muito, ao ser incorporado não foi mandado para
Angola, mas para Moçambique.
Requerimentos,
queixas, etc., nada lhe valeu e teve que cumprir o serviço militar
no Norte de Moçambique. Ao passar em Luanda encontraram-se os dois
jovens, choraram com a continuidade da separação, mas não deixaram
de marcar a data de casamento para o dia seguinte em que ele
terminasse as suas obrigações.
O
homem põe e Deus dispõe! O tempo e o afastamento… é que dispõem,
e Lúcia começou a sentir que o calor e o entusiasmo que sempre
sentia ao estar junto de quem amava, ia arrefecendo. Longe da vista…
quantas vezes longe do coração, como o mostrou Gil Vicente dos
Auto da Índia!
À
sua volta outros Adonis iam ocupando o campo que o nosso engenheiro,
militar, fora obrigado a deixar livre. As cartas começaram a
aparecer mais secas. Via-se que o entusiasmo esmorecia. Do lado dela.
Ele, no meio de uma guerra, dura e feroz, sonhava com o dia em que
aquilo terminasse para correr para os braços daquela que amava e
considerava noiva. Mas alguma lhe dizia que nem tudo estava a correr
bem.
Chegava
ao fim a comissão militar e uma carta trazia-lhe a notícia que o
vinha roendo: ela dizia-lhe muito sumariamente que gostava de um
colega, ótimo companheiro, não tinham namoro, mas ele era muito
atencioso e, no mesmo curso, passavam várias horas a estudarem
juntos!
Carlos
não queria acreditar naquelas palavras; leu a carta várias vezes,
se bem que nas entrelinhas, e nas linhas, percebia que o amor de toda
a sua vida tinha voado para longe.
Esperou
uns dias para lhe responder e, numa carta bastante seca,
perguntava-lhe se o casamento, acordado entre eles, ainda era válido.
Ia passar, já desmobilizado, em Luanda, dentro de duas semanas, e
queria saber como proceder.
A
resposta não demorou. Lúcia, habilmente disse que precisava de mais
tempo para pensar, além de ainda lhe faltarem dois anos para
terminar a faculdade.
Carlos
caiu em si, e viu que o assunto estava arrumado.
Ao
passar em Luanda, procurou-a e, direto, sem cerimónias disse-lhe
-
Lúcia, tudo o que eu quero é que sejas feliz. Gostei de ti como de
ninguém, e seria incapaz de te desejar outra coisa. Se algum dia
precisares de mim, é só me dizeres. Mas não nos voltaremos a ver,
a não ser, como te digo, que precisares de mim. Adeus.
Saiu,
visitou pais, pediu à irmã que, em segredo, lhe fosse dando
notícias da Lúcia, despediu-se também dos antigos prepostos
sogros, e seguiu viagem para Portugal.
Engenheiro,
experiente, com louvores obtidos no serviço militar, decidiu ir
embora de Portugal sem sequer equacionar em voltar para a sua terra,
Angola, que tanto amava.
Procurou
trabalho nos lugares mais longínquos e não tardou a ir para a
Austrália, já com promessas positivas.
Jovem,
“boa pinta”, alto, inteligente, não lhe faltaram pretendentes.
Mas Carlos perdera a confiança nas mulheres. No grupo de amizades
que entretanto foi tendo, algumas descaradamente o queriam atrair.
Homem bonito, com segura posição financeira… Era-lhe fácil
aproveitar uns momentos de prazer, mas jamais voltou a equacionar uma
união definitiva.
Todos
os anos, no dia do aniversário da Lúcia, através de empresas que
entregam flores em todo o mundo, ela recebia em casa um bonito ramo
de flores, com um cartão simples; “De um amigo”,
sem nome nem data.
Alguns
anos passaram, chegou a independência de Angola, o êxodo dos
portugueses foi quase total, os agricultores de café, os que não
foram mortos, tiveram que abandonar tudo.
Tanto
os pais de Carlos, como os da Lúcia, tinham já, havia alguns anos,
à cautela, comprado casa com
pequena quinta em Portugal.
Estavam ainda de boa saúde,
sexagenários, foram cuidar em Portugal de alguma coisa que lá
tinham.
Carlos,
há dez anos na Austrália estava muito bem economicamente, não
ocasião da “fuga” ofereceu-se para financeiramente ajudar as
duas famílias, o que não foi necessário, e com alguns intervalos
de tempo ia até Portugal, mas só procurava estar com os pais que
envelheciam.
Nessas
viagens, a irmã saía com ele para passearem e contar-lhe o que
sabia da Lúcia, de quem continuava amiga, apesar de se verem poucas
vezes.
O
casamento com o colega não fora feliz. O desmonte das vidas em
Angola, abalou muitas vidas de famílias. O único filho que lhes
nascera morreu muito cedo o que a deixou derrotada, e o marido era,
além de pouco carinhoso, um “salta-salta” com outras mulheres.
Lúcia tinha até confessado que ia se separar.
Tudo
isso Carlos ouvia e sofria pelo antigo amor que jamais lhe saíra da
cabeça.
Já
de volta a casa, na Austrália, pouco
tempo depois recebe da irmã
uma notícia que muito lhe
agradou. Sofia tinha
arranjado férias e iria visitá-lo. Ela,
marido e os dois filhos, um deles afilhado de Carlos, que logo lhe
mandou uma boa soma para a compra das passagem
e ficou ansioso pela sua chegada.
Dia
da chegada, sábado, Carlos nervoso aguarda no aeroporto a chegada.
Mas
leva um tremendo choque ao ver que a irmã não aparecia, e vê, com
ar estupefacto chegar Lúcia, ar abatido depois de quase quarenta
horas de voo e até envergonhado, continuando a ser uma bela mulher,
vestindo com elegância, 1,65 m de elegância, simples e beleza.
A
primeira reação de Carlos foi virar as costas e ignorá-la, o que
seria uma tremenda falta de educação.
Lúcia,
depois de um seco “Olá, Carlos” entrega-lhe uma carta da irmã,
que simplesmente lhe dizia que, por razões de força maior – um
problema de saúde de um dos filhos, pequenos, o afilhado de Carlos –
teve que adiar a ida. Mas que esperava poder lá estar dentro de oito
a dez dias.
Carlos
fingiu que acreditava, e disse a Lúcia que a ia levar para um hotel
na cidade. Não se preocupasse com o custo, seria de sua
responsabilidade.
No
caminho, pouca conversa trocaram. Só notícias dos pais de ambos, de
Sofia e o problema da saúde do sobrinho, que Lúcia explicou o que
tinha sido, e estava já bem.
Ao
deixá-la no hotel, diz-lhe que descanse da viagem que “amanhã’
a ia buscar por volta do meio dia para almoçarem juntos.
Foi
para casa, telefona à irmã, e diz-lhe que o que ela fez não foi
decente. Sentiu como quem leva um tapa na cara! Ela desculpou-se com
o filho, que estava já bem e que dentro de dias estaria lá em
Melbourne e lhe explicaria tudo. E que a razão da Lúcia ter ido,
não fora nenhuma brincadeira. Eram amigas de toda a vida, e agora
que ela estava só e triste. Mais ainda porque a mãe lhe tinha
falecido há pouco. Tudo isso deu a Sílvia a ideia de fazerem esta
viagem juntas, o que infelizmente não foi possível.
Carlos
não sabia como reagir. Tinha, no fundo, uma imensa mágoa, com a
atitude que ela tomara. Ao mesmo tempo não esquecia o tanto que se
amaram e compreendia que ela agora precisava dele mais do que nunca.
Passou
uma noite difícil, a pensar como se comportar no dia seguinte. A
verdade é que não podia simplesmente ignorá-la!
A
sua cabeça não conseguia dizer-lhe o que fazer. Confuso, com a
ferida aberta, vontade de sumir por algum tempo, foi buscar Lúcia.
Lá
estava ela, elegante, atraente, com ar mais descontraído, à espera.
Tudo isso Carlos ia anotando e tentando encontrar um caminho a
percorrer.
-
Teve coragem para lhe dizer: continuas muito elegante e bonita!
Ao
que ela respondeu:
-
Tu Carlos também continuas jovem. Não parece que passaram já
tantos anos!
O
bom-dia foi mais intimamente começado com um rápido beijo na face.
Afinal eram amigos desde a mais tenra infância.
Já
no carro Carlos disse-lhe que iam almoçar num parque para que ela
pudesse começar por ver a fauna australiana, sempre agradável. Lá
havia um pequeno restaurante, mesa reservada num discreto canto.
Lúcia,
como todos os visitantes, encantou-se com os coala, wombat, cangurus
e outros o que a deixaram bem descontraída.
Ao
sentarem-se à mesa, Carlos diz-lhe:
-
Lúcia, não vamos falar no que se passou com a tua vida. Podes
contar-me sobre a tua vida profissional, mas nada de assuntos
familiares. Desculpa, a minha ferida nunca fechou. Pelo meu lado
pouco há para contar. Estou aqui há uns quinze anos, solteiro, a
vida profissional corre bem, tenho alguns amigos, poucos, gosto de
passear pelo interior deste imenso país e é tudo.
E
a conversa começou a correr, cerimoniosa.
Nos
olhos de ambos viam-se aflorar algumas gotas com o difícil momento
que estavam a viver e recordar, e o coração do Carlos ia
amolecendo. Chegaram até a momentos de riso quando algum detalhe das
suas vidas o permitia.
Deram
mais um largo passeio de carro e, no regresso ao hotel:
-
Lúcia, quando a Sílvia chegar vão todos para minha casa que é
grande. Lá terás também o teu quarto, mas por ora acho melhor que
fiques aqui. Não deixarei de te vir buscar para um passeio ou
jantar, mas amanhã tenho muito trabalho. Só posso aparecer tarde. O
hotel está bem no centro da cidade, podes passear por onde quiseres.
Tens aqui um envelope com um pouco de dinheiro australiano para o que
precisares.
Outro
beijo de irmãos, um “boa noite e obrigado; até amanhã”, Carlos
saiu.
Saiu,
mas ia diferente, não entendia se mais descontraído ou ainda mais
perdido, sentindo um pedacinho de felicidade a aflorar lá no fundo.
Sabia que continuava a gostar de Lúcia e previa que tudo aquilo
ainda ia acabar bem. Mas como? Devagar, com cautela, sobretudo depois
da chegada da irmã, que teria, de certeza muito para lhe contar. Não
podia dizer a Lúcia que ainda gostava dela, mesmo sabendo que isso
era o que sentia, era muito difícil afirmá-lo. Com Lúcia
passava-se o mesmo, só não sabia como dar um passo em frente,
depois do erro, grande, que cometera.
Ele
disse-lhe, da última vez que se viram, que se ela precisasse dele
era só lhe dizer. Chegara o momento.
Ela,
desde há muito que estava precisando dele. E ele… desde aquele
fatídico dia.
A
ambos faltava coragem para falarem abertamente. Também não podia
ser de repente que se dizem coisas assim que deixaram marcas
dolorosas. Tinham que deixar o tempo fazer a sua parte, e a presença
da família ia ajudar muito.
No
hotel, sozinha, à noite, Lúcia chorava.
Domingo
à noite um telefonema de Sílvia, avisa que vão chegar na próxima
quarta feira. Que alegria Carlos recebeu. Com a irmã e sobrinhos em
casa as “coisas” iriam encaixar-se.
Passaram
esses três dias de espera, um jantar e um pequeno encontro no
entretanto, e lá está Carlos na saída do aeroporto.
Foi
grande a manifestação, muitos abraços e beijos à irmã e
sobrinhos e, com carro extra, vão ao hotel buscar Lúcia. Outra
manifestação entre as amigas.
Começa
uma vida nova em casa. Alegria, descontração e a pressão de Sofia
para que os dois, que ainda se amavam o dissessem um ao outro, para
acabar com aquela situação falsa. A coragem para dar esse passo
faltava aos dois.
Então,
uns dias depois, no fim de um jantar com a família, tudo na mais
descontraída disposição, Sofia, manda calar todos, porque tinha
uma declaração a fazer!!! E dirige-se direto ao assunto:
-
Carlos e Lúcia! Porque vocês não marcaram ainda o casamento?
Alguém tem dúvidas que esse é o vosso destino, que está previsto
desde que nasceram?
Uma
salva de palmas e muitos “vivas” da família e os “noivos” a
corarem com o susto. Mas Carlos logo tomou conta da situação.
-
Lúcia e eu temos conversado muito nestes poucos dias que estivemos
sozinhos. Nunca tocámos nessa hipótese, mas ambos sabemos que isto
ia acabar desse modo. Faltava-nos sermos mais simples para o
declararmos um ao outro. Eu sabia que a Sofia acabaria por nos
encostar à parede! E ela tem razão! Assim: Lúcia, ainda queres
casar comigo?
Lúcia
não sabia como limpar as lágrimas que lhe corriam pela cara, não
conseguia falar, e só abanava a cabeça em sinal positivo!
-
Lúcia eu não tenho ainda 40 anos. Estou quase, e tu menos três.
Ainda temos tempo para criar a nossa família, tu podes ainda ter uns
quantos filhos. Já perdemos muito tempo. Não vamos fazer festa, mas
vamos aproveitar enquanto aqui está a nossa família, já que os
nossos pais não estão mais em idade de enfrentar 40 horas de voo
para aqui virem. Nós depois vamos lá vê-los.
Levantou-se,
pediu a Lúcia para se levantar também, abraçaram-se muito, ambos
com lágrimas nos olhos e um beijo, a sério, selou, o destino deles.
N.-
Talvez ainda por lá estejam e, desejamos, felizes.
03/07/22
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