segunda-feira, 6 de agosto de 2018


 

AMIGOS – 9

(Por enquanto, o último. Mais tarde... quem sabe?)

É muito bom falar dos amigos e deixar uma pequena recordação das nossas vivências. Mas por agora vou interromper este tema, e, quase de certeza ainda voltarei a ele. Tem tantos ainda...
Uma benção, ter tido, e continuar a ter tantos amigos.
Vou começar pelos que conheci primeiro em Angola, e terminar com outro cuja amizade nasceu no exílio do Brasil.

1954/55. Vivia em Benguela e trabalhava com máquinas agrícolas.
Tirado deste blog, escrito em 2009: Algum tempo depois a visita foi a Chimbe, a sul de Catabola, que se chegou a chamar Nova Sintra, mesmo que raramente alguém usasse este nome! Um comerciante da “cidade” tinha comprado em leilão uma antiga fazenda de ingleses, abandonada, e queria cuidar dos terrenos e da casa. Uma noite passada no velho casarão, janelas sem vidros, e perto duma baixada alagada, foi o maior suplício que me lembro de ter passado: o mosquiteiro deixou uma pequena entrada aos pés da cama e o ataque das feras durante a noite, e sobretudo de madrugada, foi infernal. Por dentro, o mosquiteiro supostamente branco, estava preto, tanta era a bicharada!
Regresso a Benguela no magnífico combóio do CFB, Caminho de Ferro de Benguela. Carruagem cama, porque iria levar mais de 24 horas até ao destino. Dois leitos, um dos quais estava já ocupado por um inspetor de fazenda. Feitas as apresentações, logo de entrada o tal inspetor mostrou-se um ótimo companheiro, descontraído, divertido, contou um monte de piadas, e fez com que a viagem fosse muito agradável. Natural de São Tomé, gordinho, cor carregada, mas um parceiro inesquecível, e com quem muito aprendi sobre Angola, o “meu” novo país, visto que por lá andava há cerca só de seis meses.
Passados uns anos voltámo-nos a encontrar, dessa vez ambos a viver em Luanda, quase vizinhos, onde criámos uma bela amizade. Sempre bem disposto, estávamos com frequência juntos, e ele sempre nos fazia rir.
O Alfredo Diamantino!
Infelizmente não encontro nenhuma fotografia com ele.
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Em 1958 já a viver em Luanda, onde fui encontrar amigos de infância e primos de ambos os lados, que rapidamente nos inseriram num grande grupo onde a amizade e a boa disposição falavam mais alto e, sempre, em primeiro lugar.
Um desses novos amigos, ainda solteirão, mais quatro anos do que eu, um boa praça danado, a quem os mais velhos carinhosamente chamavam de Arraguinho, era o gerente da Wagons Lits.
Anos passados, estava eu a sair da firma de fotografia, microscópios e etc., passei na agência dele, disse-lhe que estava de saída, ia para o BCCI (banco) mas que lamentava deixar um mercado, técnico, que só eu, naquela terra dominava, o que era uma pena.
- Porque não abres uma firma?
- Vou trabalhar num banco, e abrir empresa?
- Porque não? Não fazes qualquer concorrência, só lá trabalhas depois do horário do banco e fins de semana, e com um bom vendedor segues viagem. E mais, se precisares de um sócio, mesmo não tendo dinheiro, conta comigo.
Senti uma amizade grande, uma disponibilidade que me tocou fundo, fiquei um pouco confuso, mas com a maior vontade de aceitar a sugestão. Dias depois voltámos a conversar e disse-lhe que era uma ótima idéia.
- Só com um detalhe: fazemos uma sociedade, terá que entrar o António Nuno, já meu sócio numa desventurada aventura de criar gado, mas amigos, também, como irmãos.
Da firma das fotografias, o principal vendedor soube disso e logo veio ter comigo, bem como a minha secretária. Estava composta a equipa, sensacional e eficiente.
Logo começámos a trabalhar, a vender microscópios e outros itens, os negócios a aumentar, vimo-nos na necessidade de ter um gerente. O António Nuno e eu, famílias a crescer, não podíamos largar os postos que tínhamos, enquanto o Arraguinho, solteiro, era quem menos arriscava. Garantimos que o salário dele seria igual ao que já tinha, e assim a nossa empresa foi crescendo muito bem. Todo o lucro reinvestido, só o gerente e os empregados tinham os seus salários assegurados.
O António Nuno, a quem eu dizia que devia ter sido monsenhor ou arcebispo, de vez em quando dá-lhe um ataque de organização e convidava-nos para irmos ao fim do dia a casa dele, para uma “assembleia geral”!
Essas assembleias resumiam-se a beber uns copos, talvez comendo uns bolinhos, e conversando sobre banalidades. A “assembleia” ficava, sempre, adiada, sine die”.
A partir essas reuniões o Araguinho passou a chamar o António Nuno de “o Assembleias”!
Entretanto tudo se esfumou com a saída de Angola, voltámos a estar juntos em São Paulo, onde ele começou a perder a visão e foi para Portugal. Operações mal feitas, chegou a estar cego, veio a recuperar, e nunca perdeu a sua boa disposição.
Das últimas vezes que nos encontrámos, era tanta a satisfação de nos encontrarmos, que as lágrimas lhe corriam na cara.
Hoje continuo a usar muito uma palavra por ele inventada que é sensacional: ensesgada (do “verbo” ensesgar!). Nenhum filólogo conseguiu inventar uma palavra que melhor definisse o que “está ensesgado”, i.é, confuso, atrapalhado, avariado, etc.! Palavra linda!!!
Meu muito querido Bartolomeu Aragão de Lacerda.

Ainda em São Paulo, com bigode à portuguesa!

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Em 1961 fomos morar, em Luanda, na famosa rua Cabral Moncada, famosa porque ali moravam imensos amigos. Do mesmo lado da rua, um pouco para baixo vivia uma família linda: um casal com seis filhas. Não tardou que os filhos se entrosassem e que os pais passassem a ser dos nossos melhores amigos.
Sobre eles escrevi há dois anos, em Maio de 2016, no blog:
Estes dois poemetos, grandes no valor e nas mensagens, durante muitos anos foram-me sendo dados por um amigo que sempre considerei como um irmão mais velho, a quem chamava de meu “diretor espiritual”.
Já nos deixou, e no instante em que escrevo isto deve ele estar a sorrir, com aquele ar de muita paz, que transmitia, sobretudo de grande, simples, humilde, amigo. A sua simplicidade era uma das marcas da sua grandeza.
Deixou uma família linda, e uma imensa porção de amigos que além de o estimarem muito ainda o admiram.
Um grande exemplo, o meu querido “diretor espiritual”.
Ao falar de amigos sempre o Tono, e a Nacas, estão nos nossos pensamentos. Como digo, chamava-o de “meu diretor espiritual”, porque as suas palavras e os seus conselhos eram profundos e muito amigos.
Sempre disponível, tranquilo. A amizade continua hoje na sua descendência, que são consideradas um pouco mais do que sobrinhas; quase filhas!
Reproduzo, uma vez mais um dos poemas, do séc. XVII atribuído ao frei José de Santo António (Castelo Branco) que sempre lhe estava a pedir que mo dissesse, porque com andanças nunca sabia onde estava!
E vale sempre a pena voltar a lê-lo:
“Deus nos pede do tempo estreita conta!
E é forçoso dar conta a Deus do tempo!
Mas como dar, do tempo, tanta conta,
Se se perde, sem conta, tanto tempo?!

Para fazer, a tempo, a minha conta,
Dado me foi, por conta, muito tempo,
Mas não cuidei no tempo e foi-se a conta…
Eis-me agora sem conta…eis-me sem tempo…
Ó vós, que tendes tempo e tendes conta,
Não o gasteis sem conta em passatempo,
Cuidai, enquanto é tempo, em terdes conta.

Ah! se quem isto conta do seu tempo
Houvesse feito a tempo, preço e conta,
Não choraria sem conta o não ter tempo.”

Um grande Senhor. E um grande amigo.
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Na Cuca, em Nova Lisboa fui um dia encontrar um dos funcionários da secretaria, que, amável, me vem dizer que era muito amigo dos Teixeira de Abreu, amigos nossos desde... solteiros. Achei simpático, mas pouco mais tínhamos a dizer um ao outro, o que não impediu que sempre que me deslocava àquela cidade, lhe fosse falar.
Já eu tinha saído da companhia quando ele e família foram viver em Luanda, e por sinal, bem perto da nossa casa. A amizade começou a brotar, e foi, nessa altura, muito forte entre um dos meus filhos e um deles, o Nuno Mindelis.
No Brasil consolidámos essa amizade que foi, e é, apesar de já cá não estar, muito forte, deixando de sermos simplesmente amigos para nos sentirmos como irmãos.
Quando o íamos visitar, no condomínio em que morava, a uns 30 quilômetros de São Paulo, a portaria tinha que dar o meu nome e pedir-lhe autorização para entrar. A primeira coisa que ele fazia era correr para o frigorífico e pôr no freezer uma garrafa de vinho branco! Depois ficávamos no bate-papo, um copo, uns petiscos e muitas vezes acabávamos por jantar com eles.
Teria muita história para contar dos nossos encontros, mas só lembrar dele, e dos outros amigos, numa pequenina situação já é uma espécie de hino à amizade.
Custou-me muito vê-lo partir.
Grande e humilde amigo João Macedo Martins.

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Os primeiros tempos no Brasil foram dramáticos para muita gente, e, talvez de forma bem evidente, para a nossa família. Em 1978, mudámos de casa e fomos para o Brooklin um bairro em São Paulo, onde, tal uma pequena povoação, os filhos começaram a criar uma rede de amigos que perdura de tal forma que alguns continuam fazendo parte da família.
Entre eles um casal de portugueses, também saído da terrinha no 25/4, por perseguição política, com quem muito rapidamente estabelecemos fortes laços de amizade.
Jovem, ainda a cumprir o serviço militar, lembrou-se, e muito bem, de casar. Para padrinho um amigo da família, um dos homens fortes de Salazar, ministro do exército. Até aqui tudo corria bem.
Mas a esquerda festiva, em segredo, tal como por estas bandas, preparava um levantamento militar contra o governo. O nosso amigo estava um dia de serviço no quartel quando um dos camaradas, em segredo, o avisou que ficasse bem atento porque o levantamento seria nessa noite. O oficial de serviço, é evidente, telefonou ao padrinho, que estava ao corrente dos preparativos, e a rebelião abortou antes de ver a luz do dia.
É fácil imaginar como o nome dele ficou nos militares comunas. Jamais lhe perdoaram.
Passam os anos, , já na vida civil trabalhava no Centro de Informação e Turismo, chega o famigerado 25/4, e logo os “gloriosos” comunas partiram atrás dele para a “conveniente” vingança.
Mas o “perseguido”, na faixa dos 50 anos, com passaporte falso (na altura muito em voga!) consegue embarcar para o Brasil, onde teve, como todos nós, de começar por tratar da conveniente documentação, requerendo residência. Ao preencher a documentação a Polícia Federal viu que ele tinha nascido em Santos, São Paulo, e diz-lhe:
- Se o senhor nasceu no Brasil, pela lei, é brasileiro. Só precisa ter o título de eleitor, e regular a sua situação militar. E passa a ter documentação como qualquer brasileiro, inclusive passaporte.
É verdade; ele nasceu em Santos, quando o pai era cônsul de Portugal naquela cidade!
Aí vai ele a Santos tratar da documentação militar. No quartel, é recebido pelo sargento da secretaria, amável, que lhe pergunta se ele tinha feito o serviço militar. Fez, em Portugal.
- E que posto tinha?
- Cheguei a capitão.
- Ih! Capitão eu não posso pôr na documentação! O senhor não se importa de ficar como sargento? Até primeiro sargento ainda posso arranjar aqui! O senhor não se importa?
E assim o capitão português virou sargento do Exército Brasileiro!
Um dia ao sair do escritório com a minha mulher vimos que o vizinho tinha colocado na rua, para o lixo, uma poltroninha bem simpática. Dona Bela decidiu que era mal empregada, podia mandar estofar-se, etc. e carregámos a dita para casa, que ficou guardada no quarto dos fundos.
O “novo sargento” e família, moravam bem perto de nós, e um dia vieram jantar conosco. Mostrámos a casa e o tal quarto, onde estava a poltrona... meio abandonada (não tinha havido dinheiro para a estofar!).
- Olha que poltrona bonita aqui abandonada – diz a mulher do “sargento”!
- Se quiserem ficar com ela, podem ficar.
E lá foi a poltrona para casa deles e, do mesmo jeito, guardada no teto da garagem à espera de...
Calhou, uns meses passados, irmos nós lá jantar, e visitar o atelier da grande artista, mulher do nosso amigo, para ver as suas estupendas obras.
Calhou olhar para o teto e lá jazia a poltrona! O mesmo problema: não tinha havido sobra financeira para o restauro.
- Neste caso eu levo-a de volta.
E levei, mas direto para o estofador e ainda hoje continua, lindona, na nossa casa!
Era assim que vivíamos com os amigos. Grandes amigos, a Leonor e o Rui Alvim. 


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Comecei por dizer que ia dar um tempo “aos amigos”. Não que os vá esquecer ou abandonar. Mas vou dar um descanso aos olhos, que quase sempre, enquanto com eles “converso” nestes pequenos retratos, teimam em humedecer.
Por vezes tenho que os enxugar, e esperar um pouco que a saudade me deixe continuar.

5 de agosto de 2018


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