segunda-feira, 2 de julho de 2018


 

PROLEGÓMENOS e AMIGOS – 5


Os prolegômenos só servem para uma introduçãozinha. Podia chamar-lhe prefácio, mas o tal de prolegómenos é muito mais... rebuscado!
Foi por acaso que comecei por agrupar alguns amigos por “corporações”, como surgiram na Idade Média a partir do século XII, para regulamentar o processo produtivo artesanal nas cidades. Essas unidades de produção eram marcadas pela hierarquia (mestres, oficiais e aprendizes) e pelo controle da técnica de produção das mercadorias pelo produtor. Em português, são chamadas de mesteirais.
Só falei ainda de “mestres cavaleiros” e mestres... diversos, mas ainda vou agrupar mais alguns mesteirais, “mestres” que na vida me ensinaram a tentar ser melhor pessoa, mesmo que eu não viesse a ser mestre em coisa alguma.
Vou recordar alguns ligados à vida vegetal, agrónomos, silvicultores e regentes agrícolas, que todos, de uma maneira ou outra deixaram a sua marca.

As primeiras palavras lembrando o meu pai que nos deixou quando eu tinha menos de 12 anos. Foi um grande senhor e um grande silvicultor, responsável pela arborização e jardins de Lisboa. Só muito mais tarde vim a entender a profunda diferença entre um silvicultor e um agrónomo, eu que me fiquei por regente agrícola (de que não me arrependo! Não tinha como bancar a continuação dos estudos.)
Silvicultor, regra geral tem a seu cargo a beleza e a conservação da natureza, e nisso o meu pai, de rara sensibilidade, foi admirado pela obra que fez, e que, infelizmente não pôde continuar; ao agrónomo a produção, o alimento, o agro-negócio. O regente, metido no meio dos dois, seguiu pelo lado que a vida lhe foi proporcionando, comigo por exemplo, quase sempre ligado a máquinas.

Cinco dias mais novo do que o meu pai, um outro agrónomo veio um dia a ser como um segundo pai para mim, mostrando-me com a sua calma, que a vida não se podia seguir na fantasia. Numa época em que eu estava a sair dos limites, 1946, fui para Évora, Escola de Regentes Agrícolas, e lá num instante encarreirei, com o olhar complacente dum homem que todos os colegas muito respeitavam e admiravam: o Diretor.
Augusto Blanco Calado de Matos Rosa, alentejano de Alter do Chão, ainda novo herdou do pai algumas terras e findo o liceu pensou que podia ser agricultor. Durou pouco esse sonho e uns cinco anos depois decidiu estudar agronomia.
Ele entrava e o meu pai quase saía já formado, mas ainda houve um ano em que, da mesma idade se conheceram. Pouco.
Nunca durante os cinco anos que passei na ERA fui beneficiado por uma melhoria de desempenho, mas sempre chamado à atenção que não podia ficar para trás, nem ter notas sofríveis. Tudo com uma paciência e uma tranquilidade que acabou por fazer de mim um jovem... quase normal!
Com ele, nesse tempo vivia a mãe, Dona Gertrudes, uma senhora já bem velhotinha, bastante surda, para quem o mundo não saíra do século XIX! Era o filho que comprava tudo quanto ela precisava, e quando a senhora perguntava quanto tinha custado ele sempre dizia um número muito abaixo da realidade. Assim mesmo a senhora, que ainda “vivia” no tempo dos “mirréis” achava sempre tudo caro. Ele ria. Um dia comprou-lhe umas meias e disse que tinham custado talvez dez ou vinte por cento da realidade. Chegam as férias, lá vão os dois passá-las em Alter do Chão e a boa senhora mostra a todas as amigas a maravilha das meias e como tinham sido baratas! Logo todas pediram que quando regressasse a Évora lhes comprassem umas quantas. A tudo o nosso Diretor dizia que sim, até anotava num papel, para mostrar as boas intenções de cumprir com o pedido.
Volta a Évora, deixa passar dois ou três dias e vai dizer à mãe que as meias eram tão baratas que se tinham esgotado num instante!

1970 (?) A sua casa na ERA, ao fundo

Fim de semana em que houvesse festa ou tourada em Évora os alunos faziam fila na porta da casa do diretor para lhe pedirem dinheiro emprestado para irem para a farra. E, além de dar todo o dinheiro que tinha disponível, ainda pedia algum mais a um colega para colaborar com os alunos!
Não conheço nenhuma história em que o diretor de um estabelecimento de ensino, em dias de farra emprestasse aos alunos todo o dinheiro que pudesse!
Um homem GRANDE que deixou muita saudade e muita admiração por todos os que tiveram a oportunidade de o terem conhecido. E ainda lhe devo muito ter ajudado a fazer de mim uma pessoa melhor.

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Em 1954 lá fui eu para Angola. Um amigo de meu pai, também agrónomo, tinha por lá um primo, também agrónomo, e mais velho do que eu uns oito a dez anos, a quem pediu para dar uma olhada no “garoto” que chegava àquelas terras. Foi quando o conheci. Em Nova Lisboa. “Pouco” mais velho do que eu recém chegado a Angola, mostrou-se desde o primeiro momento e pela vida fora sempre o mesmo simples, alegre, afável, prestável, e muito amigo.
As nossas vidas foram-se encontrando ao longo de uns tantos anos em que ambos nos demos àquela terra e, enquanto que ele crescia em sabedoria e conhecimentos, a nossa amizade crescia junto.
Dispensava a mesma atenção e respeito a um duque, ou um importante alto funcionário, ele que conhecia bem a nobreza portuguesa e estava em destacada posição como profissional, internacionalmente reconhecido, assim a um humilde agricultor ou pastor cuanhama.
Sobre o baixo, magrinho, muito magro, o que não o impedia de estar sempre disponível e alegre e de ser gentilíssimo, dedicou-se com profundo interesse a que o próprio respeito pelo Outro a isso o levava, à pesquisa e solução dos problemas de agricultura e pecuária no sul de Angola, nas terras dos ganguelas e dos cuanhamas.
Conheceu intimamente aquele interior, apaixonou-se pela terra e pelas gentes como todos os que tiveram ocasião de ali se demorar um pouco além de visita de turista, acompanhou o grande pintor Neves e Sousa nas suas caçadas de imagens maravilhosamente desenhadas, até que um dia deixou Angola convidado a lecionar em Paris, a seguir nos Estados Unidos e por fim na Universidade de Évora, professor e vice-reitor, sendo um dos fundadores do “Certificado Internacional de Ecologia Humana”,.
Homem simples com um sentido de delicadeza extraordinário, e um profundo respeito por todo o “Outro” teria que ser ele mesmo a cuidar da Ecologia Humana! Já lhe estava “no sangue”. Cativava os alunos pelo interesse da matéria mas muito também pelo seu porte e educação impecável.
Nas horas vagas organizava e presidia a exposições e concursos de cães, sobretudo das esplêndidas raças portuguesas “Rafeiro do Alentejo”, “Serra da Estrela” e “Castro Laboreiro”, por que tinha um carinho todo especial.
Já aposentado e conhecedor que uma doença implacável, que o fazia sofrer, consciente que em pouco tempo seria levado, decidiu aventurar-se a uma viagem até ao Brasil.
Quando lhe quiseram fazer ver que isso era loucura, devido ao seu estado de saúde, respondeu, sorrindo, como sempre, que queria despedir-se de um amigo.
Veio, aqui esteve alguns dias em nossa casa e regressou a Évora, deixando nestes amigos um enorme vazio.
Alguns meses depois, abandonou-nos. Ficou o amargo, o vazio, alguma coisa que talvez se possa chamar Saudade. Mas saudade neste caso é pouco.

Numa corrida às lebres – 1994 (?)

Eduardo Cruz de Carvalho foi um amigo especial. Magrinho, educadissimo, muito culto, de grande fineza de trato, Neves e Sousa, com o seu espírito alegre e brincalhão, há muitos anos já tinha “encontrado” para ele o melhor nome que o definia, carinhosa e perfeitamente: “O Finecas”.
Amigo, como os que são amigos, e que não se esquecem nunca.

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Quando entrei para o liceu, 1941, fiz por lá umas reguilices que os mais velhos gostaram, e passava parte dos intervalos com alguns do 5º ano (hoje 9°), que tinham mais quatro e cinco anos do que eu. Um deles terminado o liceu deixei de o ver durante uns anos, e só nos viemos a encontrar numas férias em Alter do Chão. Ele já nos 20s, estudante de agronomia, eu com 16 ou 17, ainda na ERA. Foi um encontro especial. Parecia que nunca nos tínhamos separado.
Depois mais uns dez anos, 1958, em Lisboa sou contratado para regressar a Angola e trabalhar na Cuca. Na entrevista, em que fui aprovado, disseram-me que tinham sido admitidos mais dois agrónomos e deram-me o nome deles: António Melícias, que eu desconhecia e hoje é um dos meus queridos irmãos, e o Alfredo Duarte Figueiredo, que eu na ocasião não conseguia ligar o nome à pessoa. Este nome ficou a bater-me na orelha mas a memória estava emperrada. Eu sabia que conhecia e o nome não me saía da cabeça. Dias depois, nas Arcadas do Terreiro do Paço, vejo um sujeito que, atrás de um monte gente caminhava na minha direção, já me tinha avistado e, braço levantado, chamava por mim.
Caíu a ficha! Era o Alfredo.

Um abraço forte, uma alegria imensa de nos termos encontrado, fomos logo comemorar no Martinho da Arcada! Ambos casados, falámos das famílias, do encontro motivado por irmos ambos trabalhar para a Cuca, e foi o renascer duma amizade que passou do tempo de pouco mais do que meninos, para outra mais forte que nos uniu como irmãos.
O Alfredo era a bondade em pessoa. Muito bem nos demos, sempre e enquanto trabalhámos na mesma empresa, de onde eu saí cedo, mas a amizade seguiu, e continua hoje nos filhos.
Em África fizemos algumas viagens de trabalho, juntos. Andámos pelo mato a melhorar a comercialização da cerveja. Não podia ter melhor companhia nem mais facilidade em resolver problemas.
Já em Portugal num dia que lá fui, combinámos almoçar juntos, e ele marcou-me encontro nos Serviços de Agricultura, onde trabalhava, lá nas avenidas novas. Aí vou eu, de Cascais para lá, uma viagenzita, para depois ele me dizer que tinha um restaurante ótimo quase ao lado da estação do trem donde eu tinha saído! Sempre tranquilo, só ele me faria rir.
Foi embora muito cedo. Deixou uma mão cheia de filhos que são sobrinhos queridos. Ele e a mulher deixaram uma saudade sem fim.

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Os nossos pais amigos de toda a vida. Meninice juntos. Adolescência separados, voltámo-nos a encontrar em Angola. A sua agronomia foi para os petróleos, sempre mais generosos a reembolsar do que saladas ou batatas e eu nas cervejas. É evidente que logo estavam envolvidos naquele magnífico grupo de amigos que nos envolvia em Luanda. O casal, os filhos, com os nossos e, quando calhava, em viagens pelo país, lá estávamos juntos.
Lembro bem uma das vezes, num almoço no Hotel Ruacaná. Nova Lisboa, Huambo. Conversa descontraída, alegre, no final do almoço o criado diz que tem morangos para sobremesa. Ótimo. Pode Trazer.
- Para mim são só três. Três.
Veio o criado um prato “cheio” e no outro uns seis.
- Eu disse três.
Volta o prato para trás e regressa com quatro.
- Três. Três!
O pobre criado pensava que estavam a gozar com ele. Mas não, ele, caturra, só queria mesmo os três morangos, e quando, finalmente o prato chegou com a dose solicitada, agradeceu muito ao criado... que não deve ter feito muito bom juízo daquele cliente!


O António Ravara Belo era assim. Gostava de brincar “a sério” e era uma maneira de se descontrair! Querido amigo do tempo das fraldas!

27/05/2018

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