segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

 

O maior golpe da história


Há um município da Suíça (município lá é comuna) pouco maior que o de Santa Maria Madalena, no Rio de Janeiro (este, célebre por lá ter nascido a grande artista e humorista Dercy Gonçalves que nos deixou já há uma dúzia de anos, em vésperas de fazer 101 anos, e que nos faz uma falta imensa).

Podemos fazer algumas “comparações” entre as duas regiões:

- o suíço tem 238 km2, 11.000 habitantes e está a 1.500 metros de altitude;

- o brasileiro, 810 km2, 11.000 habitantes e está a 559 metros de altitude;

- o suíço tem estrangeiros como a maioria dos habitantes;

- o brasileiro tem só brasileiros arretados;

- no suíço fazem-se festivais de música e outras coisas – o povo tem grana para gastar;

- no brasileiro tem as festinhas populares, simples.

- o suíço é o covil da maior banditagem que este planeta já conheceu;

- o brasileiro teve a maior humorista de sempre.

Quem estiver a ler isto vai pensar que eu estou meio tarado. Não admira. A pandemia está a afetar-me as meninges.

O que parece ser verdade é que lá na Suíça, naquele esplendor de montanhas, estação de ski, hotéis fabulosos, etc., há anos que vem recebendo, em altíssimo segredo e com aparatosa e imensa segurança, privada e militar, como se houvesse perigo da chegada dos panzers do Hitler, garantido a tranquilidade dos donos do mundo, que ali têm ido para discutir como encontrar mais dinheiro para sufocar os desvalidos e sufocar, por excesso, o volume das suas fortunas.

O município brasileiro é simples, modesto, humilde, comida boa, 220 km do Rio de Janeiro, recebe alguns turistas das classes média e baixa, onde disfrutam de paz e sossêgo, e um pouco mais de frescor do que na cidade carioca.

O suíço é uma espécie de antecâmara de Satã.

Chama-se Davos.

Tanto têm discutido como aumentar as suas fortunas que, dessas discussões, nasceu a “fonte luminosa”. A China foi assumindo, hoje domina e logo houve consenso:

Vamos fazer o maior negócio de todos os tempos

Como? Muito fácil.

Soltaremos um vírus, altamente letal, aterrorizamos o mundo inteiro, e as indústrias farmacêuticas vão correr atrás para venderam milhões, bilhões de vacinas, enquanto ganham outras quantias incalculáveis a vender toda a espécie de medicamentos, quer eles resultem ou não, quer tenham ou não graves efeitos colaterais.

Imaginem, lá no covil de Davos, os representantes da Johnson & Johnson, da Pfizer, da Novartis, Merck, Roche, Sanofi, Bayer, GlaxoSmithKline, Astra Zeneca, Gilead, Biogen e diversas outras, dos laboratórios de pesquisa, e dos GRANDES apostadores financeiros no sucesso dessas empresas, como a Fundação Clinton, Bill Gates e outros que se preocupam muito com os doentes, porque quanto mais houver maior será o lucro.

O interesse financeiro é tanto que já nem se discute mais quem FABRICOU o SARS-2. A China ou os EUA? Ou os dois mancomunados? O interesse agora é somente vender, vender, vender, mesmo não havendo garantia nenhuma sobre o resultado das vacinas. Vagamente tem-se ideia de que possa diminuir os efeitos maléficos do vírus.

E vão morrendo uns milhõesitos, - mais de 2 milhões até hoje - o que mal chega a 0,035% da população mundial, que só fazem falta aos parentes e amigos e nenhuma às indústrias, e caso curioso, não morre ninguém na Coreia do Norte! É proibido! Se alguém se queixa eles matam logo !!!!!

Não é muita gente se compararmos com as matanças e genocídios e outras confusões dos séculos XIX e XX:

- Rebelião de Taiping: 20 a 30 milhões

- Guerra Sino-Japonesa: 25 milhões

- Zédong: cerca 8 a 10 milhões

- Nazismo-Holocausto: 6 milhões

- Genocídio Turquia/Arménia: 1,5 milhões

- I Guerra Mundial: 17 milhões

- Bolchevismo & Cia.: 30 milhões

- Gripe espanhola; 100 milhões

- II Guerra Mundial: 60 a 85 milhões

- Guerras civis em Angola e Moçambique: mais de 2 milhões

Sem esquecer algumas outras mais antigas como

- Conquistas e invasões mongóis (entre 1206 e 1324): entre 40 e 70 milhões

- Guerra dos três reinos (189 e 263 d.C): 35 a 40 milhões

e muitas outras desde os tempos bíblicos, até às Conquistas espanholas no Peru, México e etc.,  à “Conquista do Oeste Americano”, Congo, Namíbia, Ruanda, Jihad, Boko Haram, etc., etc..

É assim que os “Senhores do Mundo”, hoje os reis da finança, vêm o mundo: é deles, e sempre encontram uma maneira de rebentar o mundo para a seguir o dominarem.

Ninguém sabe é quanto vai durar esta visão do ouro, do poder!

Será que a vacina vai dar imunidade pelo resto da vida, como as “velhas” vacinas que continuam a dar-se aos bebés? Será que um vacinado deixa de ser um transmissor? Será que mesmo vacinado está livre desse tal Covid?

As farmacêuticas não estão preocupadas com isso. A corrida para aparecerem primeiro e venderem milhões, centenas de milhões de vacinas é mais importante do que o resultado.

Nós, o povão, não tem outra alternativa senão vacinar-se, tal como um náufrago em alto mar se agarra até a tubarão para tentar se salvar!

Este vírus, o tal SARS-2 que deu origem à pandemia Covid-19 (prevista há três anos por Bill Gates, Xi-Jiping e o Tedros Adhanom Ghebreyesus, e com certeza mais alguns, poucos) hoje ninguém duvida que é perigosíssimo, mas também não devem esquecer-se que enquanto a população não estiver CONVENIENTE e eficazmente vacinada, o número de infetados continuará a crescer.

Se no começo foram só meia dúzia que pegaram o vírus, só infetaram à sua volta duas ou três dúzias de pessoas. Hoje que há, oficialmente, mais de 50 milhões de infetados, é evidente que a pandemia terá tendência a aumentar.

O que, profissionais capazes, ou ignorantes como eu, esperam com as vacinas, é que elas refreiem este horroroso crescendo de doentes, esta devastação humana e este destruir das economias de quase todos os países... com exceção da China. Óbvio.

As vacinas não estão a ser fabricadas com vista à melhoria humana. Este é um aspecto do problema que, para os gananciosos industriais é secundário.

Primeiro o lucro, que só pode ser imenso. Se fizer bem às pessoas, será ótimo. Se não... paciência.

E não servem SÓ para vacinar, interromper a pandemia. Algumas estão a servir como moeda de pressão política em cima de países menos capazes de se imporem, no que a China é extremamente hábil.

Os órgãos de informação, no Brasil e na Europa comunista (em vez de informação deve ler-se de formação política) malham violentamente em cima do Presidente do Brasil. Os comunistas até querem que ele seja julgado por “crime” cometido em cima dos que já faleceram.

Pobres comunas! Não sabem ler. Não vêm as estatísticas. Não sabem que em primeiro lugar (mortes por milhão de habitantes, até hoje) está o Reino Unido, seguido pela Itália, EUA, Portugal, México, Espanha, França, Suécia, Colômbia, para em 10° lugar aparecer, infelizmente, o Brasil.

Os órgãos (mal) ditos de informação malham no Bolsonaro, com a mesma raiva que ele tem dos esquerdistas, e não fazem a mínima ideia do que é o Brasil, o seu tamanho, as suas dificuldades.

Falam muito na Boeing e Airbus e “esquecem” da brasileira Embraer que está a vender aviões como cachorro quente! Agora o mundo enche as páginas dos (des) noticiários com a desgraça que grassa em Portugal e no Reino Unido.

Todos os dias “cientistas” e semelhantes propagam informações sobre o Covid, sendo uma das mais sensatas informações a que o Conselho Federal de Medicina do Brasil distribuiu, e que se pode resumir no seguinte:

- “Pouco, quase nada, se sabe do maldito SARS-2. Os médicos e as equipas de enfermagem têm dado tudo que é possível, quase impossível, para cuidar dos doentes, mas... Desconhece-se a eficiência das vacinas que estão a ser negociadas às pressas por todo o lado. Não se sabe que efeitos colaterais possam vir a ter. Não se sabe se a pessoa fica somente imune para ela ou se poderá, sem sintomas, nem doença e ser portadora e transmissora do vírus, etc.”

O mundo desaba, as famílias e amigos entristecem, milhares, milhões de empresas fecham ou abrem falência, milhões, muitos de trabalhadores perderam seus empregos, os autónomos o seu trabalho, e as indústrias farmacêuticas estão a fazer o maior negócio que este planeta já viu.

E quando vamos voltar à, teórica, normalidade?

Pelo que a fonte do terror continua a espalhar, já há diversas variantes do SARS-2, outros afirmam que outra pandemia deve chegar em 2022, uma nova versão da Candida Auris está a espalhar-se e pode ser fatal, etc.

E nós. Os pacientes idiotas, como eu, que assistimos e sofremos com tudo isto, o que podemos fazer?

Admirar, aplaudir o senhor Bill Gates porque ele é trilionário? JAMAIS.

Como já garantiu mais uns largos bi$ com as pandemias, agora vai financiar um projeto para escurecer o sol! Maravilha! Dizem os “cientistas” de Harvard, que vão usar carbonato de cálcio para espalhar na estratosfera!

(Será que as pastas para dentes vão ficar sem carbonato de cálcio, que certamente vai aumentar muito de preço?)

Uma espécie de tapar o sol com a peneira, porque se escurecerem mesmo o sol, NINGUÉM sabe como a natureza vai reagir. Mexer com a natureza sempre dá errado, e os primeiros a pagar são os humanos.

Os grandes cientistas, até de Harvard, parece desconhecerem Francis Bacon (1561-1626) que nos deixou esta máxima:


“Se queres comandar a natureza tens que obedecer às suas leis.”


A mesma coisa do que mexer em DNA do que quer que seja: humanos, vírus, etc.

A ambição do homem não tem limite: poder, poder, poder, grana, grana, grana.

O povo? Para essa canalha, povo é uma variante das baratas: quanto mais morrerem melhor.

Não deixem de abrir o link abaixo. É mais uma perspectiva aterradora.

https://www.biznews.com.br/mercado-farmaceutico-e-guiado-por-muitos-interesses-e-boa-parte-deles-e-financeiro/

 07/02/2021

 

 

 

 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

 

Dia das Mães

Os Filhos

 

Este texto vai ser enviado para a Assembleia Nacional de Portugal, a ser lido se possível no dia das Mães. Por favor Senhor Presidente dessa Assembleia.
Os deputados deverão divulgar a seguir esta nota para que o maior número de pessoas possam dela tomar conhecimento e apoiar o que nela escrevo, se assim o entenderem, começando de imediato pelos membros do governo.
Depois irá para o Congreso de los Diputados em Espanha (convenientemente traduzido, mas só para castelhano, o que muito deve incomodar a madama dona ministra da educação daquele país) que o deverá distribuir por todas as outras Assembleias, como na Catalunha, Galícia, etc.
Independente do sucesso por lá eventualmente obtido, será então encaminhado, no Brasil, para o Senado Federal, Supremo Tribunal de Justiça, Congresso Nacional, assembleias estaduais e municipais.
É evidente que deve ser enviado também para os presidentes das Repúblicas, primeiros ministros e membros do governo, etc.
Difusão tão alargada quanto possível.

Vamos a ele.

Dia das Mães

Homenagem à  pessoa que, em princípio deve ser venerada, salvo raríssimas e lamentáveis exceções.

Comecemos com uma “carta tipo” que um filho possa escrever à sua mãe neste dia:

 

Quando chega o Dia das Mães, junto com a saudades que estou sentindo agora, vem a lembrança do primeiro dia que vivi ao seu lado. Sinto o coração pleno de felicidade, por ter sido escolhido por você

Naquele dia, quando a vi pela primeira vez, percebi toda a ternura existente em seus olhos. Naquele momento percebi que tinha encontrado minha mãe. Relembro agora o desvelo com que fui criado.

Que mãe maravilhosa Deus reservou para mim.

Agora, neste dia, estou homenageando uma mulher incrível, a mãe completa que me educou. Foi para este seu filho, aquela que o protegeu com carinho, que indicou o caminho a ser trilhado, enfim que deu todo o seu amor, dedicação e sacrifício, para me tornar a pessoa que hoje me orgulho de ser.

Na certeza de ser o filho que sempre esperou ter, estou neste momento, por esta cartinha, reiterando todo o carinho e afeto que tenho por você. Na verdade estou retribuindo um pouco, de todo o sentimento que me foi dedicado durante essa vida de sucesso que me proporcionou. Te amo muito mamãe.

 

Imagino que a totalidade dos destinatários deste texto gostaria de escrever algo semelhante a suas mães, mesmo descaradamente mentindo.
Eu também assinaria em baixo, mas a minha há muito nos deixou, e não lembro, apesar dela ter tido uma longa vida, que jamais alguém a tivesse criticado, ou muito pior, insultado.
E se isso tivesse acontecido, nós os seus filhos, não teríamos ficado de braços cruzados. A honra e dignidade dela seria logo lavada. E com qualquer meio que fosse necessário.
É evidente que nem sempre tínhamos a mesma opinião, mas a “discussão” terminava sempre com um carinhoso abraço e uns quantos beijos.
O que me dói, nos dias infelizes que estamos hoje a viver, nos países acima citados, é ver como a covardia, a indignidade, a falta de vergonha, permite, aceita, que uma imensa parte da população, insulte, de forma ignominiosa, os nomes dessas senhoras que devem merecer o respeito de todos nós.
Em todo o lado, regra geral, quando se fala sobre algum político, de qualquer nível, em vez de o incriminarem, o povo limita-se a dizer: “É um filho da puta”! Pior ainda quando dizem: “São todos uns filhos da puta!”
Muito político, certamente a maioria, desgraça a vida do país, da sua cultura e história, do seu povo e quem é insultada é a mãe!
No Alentejo, antigamente, gente rude e simples, era comum um pai chamar, até a um filho, carinhosamente: “Ah! Filho dum cabrão”! Lá estava sempre a mãe a ser julgada, sem direito a defesa!
Inaceitável.
E pior: já alguém viu um desses políticos sair em defesa da sua mãe?
Não. Ficam quietos, continuam a roubar ou destruir o pois, a encher os bolsos, dando risadas com hienas e deixam ficar a mãe com a mancha da vergonha.
Apesar da riqueza da nossa língua, para tamanho descalabro que nos rodeia ainda não se encontrou frase semelhante, com objetivos discriminatórios, que possa deixar as senhoras Mães, intocadas, e atingir somente os sem-vergonhice.
Não vou aqui dar sugestões, mas cada um deve pensar numa forma de deixarmos as Mães de fora desta infâmia e atacar, sem dó nem piedade a classe política que continua a destruir a nossa nacionalidade, o que para mim pressupõe até a dupla nacionalidade, uma por nascimento outra por opção e agradecimento.
Senhores presidentes das diversas assembleias, tribunais, governos, etc., por favor não deixem que os filhos da... ganância, ladroagem e impunidade, continuem a permitir que se insultem as suas Mães.
A primeira sugestão é que se legisle sobre o assunto!
São tantas, tantas as leis, idiotas sem qualquer finalidade útil os sexas propõem e as assembleias votam que bem poderiam fazer uma assim:
- A partir desta data fica proibido, em todo o país, que se chame filho da puta a político, governante e similares.
Multa por infração...”
Ou então a solução ideal, sonhada, utópica seria, serem admitidos indivíduos comprovadamente honestos, transparentes, éticos, cultos, educados, humildes, trabalhadores, patriotas, ficha-limpa. E demitidos tão logo “metessem a cabeça no cepo”!
Todos nós preferíamos chamar-lhes, em vez de filhos da... , dizer que aquelas mães deram grandes vultos à nação, e que estes filhos são filhos de Abadom, de Moloque, de Satã..

É pedir muito?
Mais ou menos o mesmo do que querer encontrar um diamante puro de 100.000 quilates.

 

01/02/2021

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

 

O Cabo das Tormentas

Outro irmão que descansou


Há anos que a vida me vem mostrando que raros são os que dobram os 90, com saúde. Raríssimos. Daí eu chamar a essa idade “O Cabo das Tormentas”.
Em Agosto de 1957 entravam para a CUF Portuense, a companhia de cervejas que fazia a ótima Super Boch, na velha fábrica da rua Julio Diniz, que já lá não está, três novos técnicos contratados pela Cuca de Angola, para estagiarem, e depois seguirem para Luanda.
Dois demoraram pouco, seguiram para Louvain, estudar cerveja, e ficou só este que vos conta a história.
Um deles, que conheci quando entrei para o Liceu, em Lisboa, estava ele no 5° ano, e que veio a ser um dos meus mais estimados amigos, e o outro, também agrónomo, acabadinho de casar, que se alojou numa espécie de lar de freiras (tinha um cunhado jesuíta!), e, do mesmo modo, a vida nos juntou como irmãos.
No fábrica, além de acompanharmos todo o processo de fabrico e controle de laboratório, o diretor técnico achou que devíamos também ler os dois volumes do professor de Louvain, De Clerc, sobretudo “tudo” que dizia respeito à cerveja. Almoçávamos sempre muito bem, e a seguir ao almoço íamos para uma pequena sala, tranquila, pouca luz, belas e cómodas poltronas, ler, em francês, o famoso tratado cervejeiro. Não tardava a que um se reclinasse, adormecesse e roncasse, o outro mantinha uma postura erecta mesmo a dormir e eu cabeceava de tal forma que tinha que sair dali com dores no pescoço! Pode-se imaginar o que aprendemos com a ciência do prof. de Clerc!!! Nada, de nadinha. Um chato!
O primeiro deste trio, o Alfredo, foi-se embora há muitos anos, 1987, deixou mulher e seis filhos, ela como nossa irmã e meus sobrinhos queridos, e um grande vazio, que uma amizade assim nunca preenche.
O segundo, chegou a Luanda, com a mulher, e como é de calcular, não conhecia quase ninguém; fomos nós,  minha mulher e eu, que os orientámos na chegada, e como trabalhávamos na mesma fábrica o contato era diário.
A amizade aprofundou-se. Nasceu-lhes a primeira filha e nós apadrinhámos. Veio a segunda, idem. Só não fomos padrinhos do terceiro porque estávamos fora de Angola. Morámos uns tempos a meia centena de metros entre as duas casas, e logo os nossos filhos e as meninas foram crescendo como irmãos.
Um dia resolvemos ser criadores de gado! Pedimos uma concessão de terra ao governo, talvez uma ou duas centenas de hactares mas já não sei quanto, fizemos sociedade no cartório

 para o que o “anto”, António, vendeu o velho Fusca que tinha comprado na Alemanha e com esse dinheiro comprou umas quantas vacas no Sul de Angola que de lá foram levadas por caminhão. Ao “Xic” – Chico – competiu-lhe comprar o touro que fizesse o conveniente serviço para o rebanho crescer. (Nunca cresceu porque, dizia o homem que, teoricamente, tomava conta do gado, que as cobras iam comendo os bezerros, outros animais as vacas e assim o grande negócio acabou em “0”, zero! Os animais que comeram o gado... foi o pessoal dali, mas... era assim!).
O negócio acabou mas a amizade sempre se ia fortalecendo e crescendo.
Mais tarde, 1969, já eu não estava na Cuca, e ele lá e subindo, lembrei-me de montar uma empresa para importação de material de offset, fotocópia, microscopia, a Repro. É evidente que o compadre e sócio da extinta agropecuária tinha que participar; agregou-se um outro sócio, outro irmão, o Bartolomeu, que já nos deixou há uma dúzia de anos. Começou e singrou muito bem até TUDO ser engolido pelo 25/4. Desta sociedade nasceu ainda a mais chique loja de modas de Luanda, a Chiméne, depois a Zimbo, fábrica de calças jeans, e tudo se desfez, como um sonho que estava a ser bonito!
António, seu ar arcebispal, como eu o tratava, volta e meia convocava os sócios – todos amigos de primeira linha – para uma “assembleia geral”, com a finalidade de tratarmos de... qualquer coisa. Lá íamos ao fim da tarde a sua casa, Bartolomeu e eu. Não lembro já se alguma vez chegámos a discutir qualquer assunto da sociedade, mas sei que ficávamos até tarde bebendo uns copos e comendo uns bolinhos que a comadre fazia. O Bartolomeu passou a tratá-lo por “senhor assembleias”!
E histórias de caça! E de filosofias teológicas! Que magníficos tempos! Éramos jovens de 40 e poucos anos, cheios de entusiasmo!
Um dia tudo acabou em Angola.
Vieram os três sócios para o Brasil. Como irmãos, e os nossos filhos também como irmãos uns dos outros.
A vida não correu fácil para todos. Dois regressaram mais tarde a Portugal onde lá sempre tínhamos a oportunidade de os abraçar, jogar conversa fora e, se possível cimentar sempre mais uma grande amizade que vinha de longe.
                                

Durante oito anos colegas na Cuca, desde os primeiros tempos logo compadres e comadres, depois sócios, nunca entre nós houve qualquer desentendimento. Mas ríamos e nos descontraíamos.
Não havia festinha, fadistice ou reunião em nossa casa que os compadres não estivessem presentes.
O Atlântico um dia nos separou. Só fisicamente, porque os nossos corações sempre se mantiveram abraçados.
Destes quatro amigos a que aqui me refiro... resta um! Bem sei que era o mais novo de todos.
Mas como sinto a falta deles.
Ontem o António Nuno Dias Melícias, depois de passar o último ano muito desgastado, adormeceu em Paz.

O meu mundo, egoísta, vai-se fechando. Sobram poucos. Agora pouco mais me resta do que aguardar a minha vez.

 

Hoje telefonei para dois, ambos nos 92. Estão ótimos. E até um primo já nos 97. Que bom.

 

29/01/2021

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

 

Recordando Ernesto Lara Filho

E mais coisas sobre Angola

 

Recordar Ernesto Lara é assunto que só quem peregrinou por Angola deve saber de quem se trata e apreciar.
Uma figura de legenda, cronista e poeta, Ernesto Lara Filho, um dos inventores da angolanidade literária, boémio, generoso, meu amigo e colega regente agrícola, louco por liberdade, sobre quem já escrevi no “Os Meus Amigos” – https://fgamorim.blogspot.com/search?q=ernesto+Lara.
Agora, ao arrumar, aliás tentar dar um pouco de arrumação aos milhares de papeis que fui juntando, “descobri” mais de 30 revistas de Angola, quase todas a “TRÓPICO”, de 1963 a 1965, que me têm deliciado a rever coisas daquele tempo, onde, além de artigos do Ernesto, até aparecem reportagens com a minha figura!!!

Mas alguns textos do Ernesto Lara quero compartilhar, sobretudo este maravilhoso poema que escreveu a seu pai:

" Pergunta " (para meu pai)

Tu,

que lá em Benguela tinhas saudades do Minho

expressas em todos os teus olhares saudosos,

em todas as conversas.

Tu,

que sempre recordavas lá tão longe a tua terra distante

o teu Portugal de menino.

Porquê, meu pai,

me negas o direito simples de amar a minha terra,

a minha Angola?

Por que me negas todos os dias a todas as horas,

o direito sagrado de ter saudades da minha terra,

de olhar com os olhos embaciados, mas contentes,

de escrever longas cartas inconsequentes,

de ter longas conversas melancólicas

sobre a minha terra desflorada,

a minha Angola adiada?

Serei poeta também adiado como a minha terra.

Eu negarei Pai e Mãe pela minha terra.

Três vezes como Pedro o apóstolo negou Cristo

Três vezes antes de o galo cantar no raiar da madrugada.

 

Os textos da revista são sobre assuntos diversos, mas onde se encontra a humanidade e simplicidade de um amigo que todos estimavam. Muito. Temas simples, como o autor, onde ele se confessa boémio incurável!

Aqui vão eles.

Foto da revista de 1964

 CARTA  A  UMA  SOBRINHA

Acabo de receber sua cartinha que tem a beleza das coisas puras. Sua cartinha me comoveu, porque é sincera e revela o desejo de colaborar. Vou dirigir à secção feminina a receita com que se apresenta a dar-nos ajuda e vou desejar-lhe as maiores felicidades e que sempre apareça entre nós. Sabes? Teu irmão é nosso tipógrafo e foi um dos que mais me surpreendeu quando entrei naquela Tipografia pela primeira vez. Desatou a citar crónicas minhas do tempo do Caprandanda de cor e salteado. Eu e o Mário mandámos-lhe ver a exposição de Teresa Gama. A Teresa Neves e Sousa dos meus tempos de menino. Foi e viu e só gostou de três quadros. Quero dizer, só compreendeu três quadros. Foi isso que nos disse e a gente mandou insistir. Mas como eu ia dizendo, já conhecia seu irmão que no dia a dia dos tipos, no dia a dia do carvão que envenena os tipógrafos, vai fazendo singrar a revista. Assim gostei que você tivesse aparecido ao nosso lado pretendendo colaborar. Você não será daquela família muito antiga dos Pintos de Caxito?

Gostava que todas as meninas de «18 anos de idade, cabelos e olhos castanhos e 1m,64 de altura» como você diz tão singelamente na sua carta, colaborassem com coisas positivas como esta revista.

Atravessámos grave crise, minha querida Amiga, mas está vencida e por conseguinte muito nos comoveu essa sua frase com que termina a cartinha que entregou há dias na Tipografia. Frase essa que transcrevo integralmente: «Gosto muito do vosso jornal e nosso também».

Quanto ao tratamento de Tio muito obrigado, pequena, eu não fico zangado, fui até eu que criei. Este velho morcegão solteiro, já a nada mais aspira senão isso, na sua pobre e modesta vida de homem de jornais. A ser tratado por tio por todas as meninas morenas e bonitas de Luanda, um daqueles tios boémios que todos nós temos ou já tivemos na vida, que pastoreia as noites de Luanda e semeia alegrias e sorrisos, nos lábios e nos corações de tanta gente. Sem que nada pretenda receber em troca.

A não ser o carinho dessas sobrinhas todas, loiras, morenas, altas, baixas, lindas, feias que palmilham as ruas desta minha tão linda cidade.

*             *             *             *             *

CAMIONISTAS DE ANGOLA

 Naquele tempo costumávamos sair para Sá da Bandeira no dorso, na carga de uma camionete. Ao volante, sei lá quem! - talvez o Raul Costa, o Magalhães, o Zé Pequeno, Camões, um desses quaisquer heróis esquecidos das estradas de Angola. Íamos para um dos dois únicos liceus de Angola fazer o nosso primeiro anito. Corria o ano de 1940.

Não vale a pena falar da estrada por Catengue quando o Uche dizia não a todo o camionista que queria avançar para a guerra. Guerra de botões, essa guerra dos camionistas de Angola. Lá em Catengue o velho Rodrigues «mata-leões» recebia sempre toda a gente da mesma maneira aquele seu vozeirão ensurdecedor. Que contrastava com as falhas da voz de sua pobre e já falecida esposa - aquela tão simpática mulher que recebeu em sua casa, alimentou e acarinhou todas as duas gerações do meu tempo, de camionistas de Angola.

As realidades no Sul daquele tempo, eram a serra da Cacula e as lamas de Quipungo - não sabemos se a estrada hoje passa por lá! - e víamos tudo quanto era herói da estrada morrer um pouco por esses caminhos. Vi perecerem alguns dos meus melhores amigos nessas estradas de Angola. E se já alguma vez esta criança que trago dentro de mim teve um herói, esse herói era mulato e chamava-se Raul. O Raul, condutor de «Krupp» e mais tarde de uma «GMC» na Fazenda Aurora dos nossos tempos de menino. Hoje quem traz as viandas da Fazenda Aurora para Luanda é aquele rapazinho pequenino chamado Queiroz. E a vida continua.

Umas gerações passam e outras as substituem. O Castanholas e o Carreira aí estão para afirmar que a vida não pára. O Maciel com os seus 4.000 quilómetros por semana entre São Salvador, Luanda e Nova Lisboa, esse homem de vozeirão tremendo e com um coração de menino, esse Hércules das estradas de Angola, aí está, firme, ao volante da sua «Scania», navegando por todos os caminhos, velho marinheiro das calemas de Angola. Varando quilómetros e quilómetros de poeira e de lama, bebendo em todos os bares do caminho, transportando aqui um pobre homem desempregado que precisa de boleia, levando acolá uma senhora grávida para uma Maternidade ou Hospital mais próximo, fazendo Humanidade por essas caminhos, esse Homem e os Outros camionistas de Angola significam para quem quiser perceber que com Ouro deste, Ouro Puro de Lei, poderemos de facto repetir Índias e Brasis de Universalidade.

Não foi impunemente que escrevemos um dia sobre Paulo Rosa. Tinha caído na estrada varado pelas balas que no Norte não perguntam quem passa. Paulo Rosa caiu com uma dignidade extraordinária e nunca perdoarei a suaImageImageImageImagemorte. Nunca o vi recusar uma boleia, uma passagem, um carinho, a um Homem Negro, ou Branco, ou Mulato, do Norte. Como não posso perdoar a sua morte, também não perdoarei a do regente agrícola Albano Gonçalves da Cunha. No momento em que abandonando a sua família, foi avisar as outras famílias do que se passava. Tombando na hora da verdade, deram-me uma certeza. Certeza a que já não Imagepoderemos fugir. É que nascendo ou não em Angola, estamos aqui para ficar. Seja no volante de uma «Scania», seja Imagenas teclas desta «Antares-Micron», venha a ser um dia no Imagevolante do luxuoso «Alfa-Romeo» que usa um antigo colega de Imprensa que estimo e admiro, apesar de tudo. Image

Ouvia a voz monótona do velho Silva contar como tinha acontecido o desastre perto da Munenga. Depois do João Imagedo Muquetixe. Ouvia-o e na sua voz sentia todos os camionistas sacrificados que enchem as estradas de Angola e com o seu terrível esforço, com uma indomável forca de vontade, não deixam que o sangue pare, não deixam que o sangue fique por circular nestas pobres veias que são as nossas estradas. Nada merecem de mim a não ser toda a nossa sincera admiração, nosso profundo carinho e Amor ao Próximo. Porque se há dias vi um polícia multar um desses homens por excesso de velocidade - não defendo o princípio! - ele vinha do mato com 6.000 quilómetros percorridos, seis mil deles, de sangue, suor e lágrimas, Tinha estado debaixo de fogo para os lados do Negage. E foi à entrada de Luanda que vi lágrimas nos olhos desse homem que pedia enraivecido que o multassem sim, por excesso de velocidade lá no Norte - onde sem uma arma que não a sua pobre camionete, ele tivera que acelerar até à loucura.

É pois para vós que hoje escreve um pobre jornalista vagamundo, meus amigos, camionistas de Angola, Para ti, a quem encontrei um dia fazendo a barba no espelho retrovisor, na baixa da Cela. Para ti, que tombaste naquela ribanceira da estrada de Catete, com o tio Ernesto ao lado e debaixo de chuva quando o terreno cedeu. Para si, velho Ferreira - carta 29 619 de Lisboa - que andaste dez anos na linha do Norte de Angola. Para ti, Castanholas. Para ti, meu bigodaças, meu caro Carreira. Para ti Morais da Cela e Lima dos Bois. Enfim, para ti Maciel, para que sempre contes com o nosso pequeno estímulo, estas linhas de um modesto artigo, que sendo a vocês, é para todos os camionistas de Angola.

Vocês, os que levam o «TRÓPICO» aos quatro pontos cardeais da Província.

Trópico, nr.35, 12/03/65

*          *          *          *          *

O  PEDRO

 

Disseram-me um dia que esse Homem não viajava de terra-em-terra. Que viajava de bar-em-bar. Era verdade, pois foi num bar que eu o conheci.

Nada nele me dizia que não era um homem como os outros. Apenas mais triste. E mais desiludido, Apenas mais castigado pelos ventos desencontrados de todos os rumos.

Lembro-me ainda do seu nome. Que nunca se diluirá na tristeza do esquecimento. Chama-se Pedro. Era - e é - um Irmão de todos os que precisassem de um verdadeiro Irmão. Ribatejano. Bebendo demasiadamente. Há algum ribatejano que não beba e não goste de cavalos?

Bebia e gostava de toiros. Amigo das crianças de todo o Mundo, era um verdadeiro Homem.

Um dia - já lá vai um ano - naquela sua voz monótona, começou a falar em Eva Braun e em Hitler. Dizia ele por entre os cacussos grelhados da Casa Verde dos Muceques que Eva Braun se colocava na frente de Hitler, quando este discursava impedindo os atiradores longínquos, de fazerem fogo pela caçadeira de binóculo. Atiradeira, fica melhor. Nessa noite assassinaram o Presidente Kennedy. Lee Oswald. Nunca mais me esqueci dessa noite nem dos companheiros que comigo estavam. Onde andarão eles?

Pedro tinha o raro condão de prever os acontecimentos com muitas horas de antecedência. Os acontecimentos mais trágicos da história do nosso tempo.

Não dizia. «Vamos beber um copo!» Adoptara a frase do João Teles que deve estar a ler isto devidamente comovido enquanto fabrica os já célebres licores Kumbira E a frase do João tem a poesia das frases com sentido. Era: «Ernesto, vamos molhar o bico.» ou «Ernesto, vamos tomar uma gota...»

Não sei onde andará o Pedrinho, o tio Pedro das nossas histórias de boémios. Disseram-me que andava em digressão por Angola. Da «Petisqueira» tinha seguido para o «Bar do Freitas» na Cela. Do Bar do Freitas onde passou o Natal e o Ano Novo, foi para o Galgo Bar em Nova-Lisboa. Creio que a estas horas deve andar pelo Sul de Angola. Se não atravessou o Cunene e passou para Vindoek.

Boa-sorte, Pedro e muitas felicidades do   E. L. F.

Trópico, nr. 31, 12/2/65

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Tem mais crónicas interessantes, mas ficam para outra vez.
Só vou acrescentar alguns dados daquela terra que, mesmo dos “antigos” poucos conhecem e os “de hoje” não devem ter a menor ideia.
Em 1964 Angola ainda sofria com o controle do desenvolvimento industrial e comercial por parte da Metrópole.
Em 1957 um grupo de sócios pediu um alvará para uma fábrica de massas alimentícias. Só em 1964 foi autorizada!!! E a partir dessa data Angola passou a produzir as suas próprias massas! E boas.
Também em 1964 inaugurou uma fábrica de “motorizadas”. A FABRIMOR. Começou com umas motos pequenas de 50 cc que logo tiveram uma enorme repercussão não só em Angola, como até para alguns países vizinhos.
Em Benguela surgia também em 1964 uma fábrica de Acumuladores Elétricos.
Em 1965 a Casa Americana começou a montar tratores, Catterpilar chegando a fabricar algumas partes da sua mecânica.!
Quem sabia disso? Com a independência, TUDO isto e muito mais... desapareceu. Só em 2015 voltou a ter produção própria de massas! 40 anos depois!
Pobre Angola. País tão rico.

NOTA: Quem estiver interessado nestas revistas é só avisar-me e vir buscá-las.

Se ninguém quiser... o destino delas será o lixo.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

 

Um texto transparente

 

Do Mural de Lourdes dos Anjos, que me foi enviado por e-mail.

 

Não sei quem é esta senhora, mas sei que conseguiu fazer um extremamente fiel retrato do Portugal (e não só) de hoje.

 

“Quando os meninos  me pediam "papel macio pró cu e roupa boa prá gente"…

Um dos textos que mais me custou a  escrever e por isso tem mais lágrimas do que palavras.

Estávamos ainda no século XX, no longínquo ano de 1968, quando a vida me deu oportunidade de cumprir um dos meus sonhos: ser professora.

Dei comigo numa escola masculina, ali muito pertinho do rio Douro, na primeira freguesia de Penafiel, no lugar de Rio Mau. Era tão longe, da minha rua do Bonfim, não podia vir para casa no final do dia, não tinha a minha gente, e eu era uma menina da cidade com algum mimo, muitas rosas na alma, e tinha apenas 18 anos.

Nada me fazia pensar que tanta esperança e tanta alegria me trariam tanta vida e tantas lágrimas. Os meninos afinal eram homens com calos nas mãos, pés descalços e um pedaço de broa no bolso das calças remendadas.

As meninas eram mulheres de tranças feitas ao domingo de manhã antes da missa, de saias de cotim, braços cansados de dar colo aos irmãos mais novos, e de rodilha na cabeça para aguentar o peso dos alguidares de roupa para lavar no rio ou dos molhos de erva para alimentar o gado.

As mães eram mulheres sobretudo boas parideiras, gente que trabalhava de sol a sol e esperava a sorte de alguém levar uma das suas cachopas para a cidade, “servir” para casa de gente de posses. Seria menos uma malga de caldo para encher e uns tostões que chegavam pelo correio, no final de cada mês.

Os homens eram mineiros no Pejão, traziam horas de sono por cumprir, serviam-se da mulher pela madrugada, mesmo que fosse no aido* das vacas enquanto os filhos dormiam (quatro em cada enxerga), cultivavam as leiras que tinham ao redor da casa, ou perto do rio e nos dias de invernia, entre um jogo de sueca e duas malgas de vinho que na venda fiavam até receberem a féria, conseguiam dar ao seu dia mais que as 24 horas que realmente ele tinha.

Filhos, eram coisas de mães e quando corriam pró torto era o cinto das calças do pai que “inducava” … e a mãe também “provava da isca” para não dizer amém com eles…E os filhos faziam-se gente.

E era uma festa quando começavam a ler as letras gordas dum velho pedaço de jornal pendurado no prego da cagadeira da casa…o menino já lia... ai que ele é tão fino… se deus quiser, vai ser um homem e ter uma profissão!

Ai como a escola e a professora eram coisas tão importantes!

A escola que ia até aos mais remotos lugares, ao encontro das crianças que afinal até nem tinham nascido crianças…eram apenas mais braços para trabalhar, mais futuro para os pais em fim de vida, mais gente para desbravar os socalcos do Douro, mais vozes para cantar em tempo de colheitas.

E os meninos ensinaram-me a ser gente, a lutar por eles, a amanhar a lampreia, a grelhar o sável nas pedras do rio aquecidas pelas brasas, a rir de pequenas coisas, a sonhar com um país diferente, a saber que ler e escrever e pensar não é coisa para ricos mas para todos, para todos.

E por lá vivi e cresci durante três anos e por lá fiz amigos e por lá semeei algumas flores que trazia na alma inquieta de jovem que julgava conseguir fazer um mundo menos desigual.

E foi o padre António Augusto Vasconcelos, de Rio Mau, Sebolido, Penafiel, que me foi casar ao mosteiro de Leça do Balio no ano de 1971 e aí me entregou um envelope com mil oitocentos e três escudos (o meu ordenado mensal) como prenda de casamento conseguida entre todos os meus alunos mais as colegas da escola, mais as senhoras da Casa do Outeiro. E foi na igreja de Sebolido que batizou o meu filho, no dia 1 de janeiro de 1973.

E é deste povo que tenho saudades. O povo que lutou sem armas, que voou sem asas, que escreveu páginas de Portugal sem saber as letras do seu próprio nome.

Hoje, o povo navega na internet, sabe a marca e os preços dos carros topo de gama, sabe os nomes de quem nos saqueia a vida e suga o sangue, mas é neles que vai votando enquanto continua à espera de um milagre de Fátima, duns trocos que os velhos guardaram, do dia das eleições para ir passear e comer fora, de saber se o jogador de futebol se zangou com a gaja que tinha comprado com os seus milhões, e é claro de ver um filmezito escaldante para aquecer a sua relação que estava há tempos no congelador.

As escolas fecharam-se, os professores foram quase todos trocados por gente que vende aulas aqui, ali e acolá, os papás são todos doutores da mula russa e sabem todas as técnicas de educação mas deseducam os seus génios, os pequenos/grandes ditadores que até são seus filhinhos e o país tornou-se um fabuloso manicómio onde os finórios são felizes e os burros comem palha e esperam pelo dia do abate.

Sabem que mais?!

Ainda vejo as letras enormes escritas no quadro preto da escola masculina, ao final da tarde de sábado, por moços de doze e treze anos com estes dois pedidos que me faziam: “Professora vá devagar que a estrada é ruim, e não se esqueça de trazer na segunda-feira, papel macio pró cu e roupa boa dos seus sobrinhos prá gente”.

Esta gente foi a gente com quem me fiz gente.

Hoje, não há gente… é tudo transgénico .

O povo adormeceu à sombra do muro da eira que construiu mas os senhores do mundo, estão acordadinhos e atentos, escarrapachados nos seus solários “badalhocamente” ricos e extraordinariamente felizes porque inventaram máquinas e reinventaram novos escravos.

Dizem que já estamos no século XXI...”

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Dona Lourdes dos Anjos
Como escrevi acima, não conheço a Senhora, nem a consigo encontrar (virtualmente, porque estou no Brasil) mas não posso deixar de lhe apresentar os meus respeitos, pelo que escreveu.
Além de muito bem escrito o texto acima reflete a desastrosa situação em que o país se encontra, e do qual parece ser incapaz de reagir e lutar por uma vida de família, de comunidade, de paz.
Pelas datas que refere vejo que sou quase vinte anos mais velho, o que significa que conheci bem esse tempo, tempo em que havia pobreza, mas dignidade, valores morais, ética.
Talvez hoje haja menos pobreza, física, mas há uma outra pobreza, uma renúncia total dos valores humanos.
Estão a destruir a família, a cultura e deturpando o ensino.
No Facebook vi uma senhora com o mesmo nome, do Porto, professora, que bem pode ser a mesma pessoa.
Também não sei se este meu simples comentário chegará ao seu conhecimento.
Se chegar, com todo o respeito, beijo a sua mão. E lhe desejo longa vida e muita saúde.
Francisco Gomes de Amorim