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segunda-feira, 16 de julho de 2018


Interrompi um pouco este “encontro”, sonhado, com amigos, que continuam a fazer-me falta, para dar um grito de indignação com o descalabro administrativo, social e económico em que a gang esquerdista deixou o país (Brasil) e que continua com métodos bolcheviques a lutar para voltar e continuar a mamar no bolo da res publica.
Prefiro lembrar dos amigos. Cada um destes vale mais que toda a canalha política.

PROLEGÓMENOS e AMIGOS – 6


Ainda mais alguns que a vida ligou às agrícolas. Parece que nem um deles se dedicou muito à produção de trincadeira. Todos começaram por regentes agrícolas e só um nessa classe permaneceu. Um cuidou de filosofia e sociologia e um pouco de carneiros por causa da pele. Outro foi cuidando de árvores e celulose e depois passou para silvicultura. O terceiro começou logo a estudar agronomia, formou-se e acabou a vida profissional como professor em Évora.

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Sobre o primeiro já escrevi, há 20 anos no livro “Contos Peregrinos a Preto e Branco”.
O meu primeiro pouso em África foi em Banguela. Anos antes o meu avô, que por lá andou feito menino rico a gastar dinheiro tinha um amigo, grande comerciante e foi a ele que me dirigi, numa cidade em que não conhecia ninguém. Ernesto Lara, e logo me contou que o seu filho estava em Portugal a terminar o mesmo curso. Quando chegou não foi difícil criarmos amizade. Era um regente agrícola piradão. Angolano dos quatro costados, de Benguela, aquela cidade mulata, só tinha um defeito: era branco. Isso não o impediu de acérrimo defensor da independência de Angola, o que lhe valeu ser diversas vezes preso pela famigerada PIDE. Nunca demorou muito tempo preso. Não era nem político nem revolucionário.
Homem duma alegria e sensibilidade, muito especial. A melhor palavra que me ocorre para o definir seria: POETA. Um poeta que escreveu poemas lindíssimos, um poeta no seu modo de vida, descontraído e imensamente preocupado com o povo da terra onde nasceu.
Um poeta que amou, como só os poetas sabem amar.
E foi um amigo que o tempo não permite que me esqueça dele, sempre com a maior saudade.
O texto que se segue, escrito por um jovem de 25 anos, quando andava ainda pela Europa.
Irmão da grande poetisa angolana, Alda Lara, também branca, que cantou a miséria do nativo e o seu repudio aos métodos coloniais. A Alda, a PIDE nada pôde fazer porque infelizmente morreu muito nova.
Mas o Ernesto não era preso que interessasse à PIDE. Era um idealista, um sonhador, um poeta. Amigo do seu amigo, fosse ele da cor que fosse - era de Benguela! - inteligente, e com uma boa disposição e alegria contagiantes.
Andava sempre duro! O dinheiro queimava-lhe os bolsos e gostava de beber o seu copo.
A PIDE, sempre aquela droga de polícia que metia o nariz em tudo, dava até ordens ao governo, não tinha razões para manter o Ernesto preso, mas também não o queria junto de grandes centros para que as suas idéias libertárias, o seu amor a Angola, não perturbassem os indecisos, nem acirrassem mais os ânimos dos determinados, acabou por encontrar o lugar ideal para o colocar: no deserto de Moçâmedes, Namibe, como técnico da criação de carneiros Karacul, que estava crescendo com sucesso em Angola. Ali ele deveria ficar sossegado. Longe de tudo e todos.
Já depois de semi desterrado, teve que ir a Luanda onde ficou uns dias, e como era habitual, logo o dinheiro se lhe acabou. Pediu-me emprestado algum para o regresso.
- Depois to mando. Logo que receba o meu salário.
Passaram-se alguns meses e recebo uma carta:
...Aqui no meio do deserto onde se tratam melhor os animais do que os homens, finalmente consegui separar o dinheiro que te devo, e te ia mandar. Mas pensei: o Chico vai ficar chateado comigo se eu não beber um copo à saúde dele. O que seria infame da minha parte, porque a nossa amizade não merece isso. Assim, agarrei no dinheiro e bebi-o todo. Espero que a tua saúde esteja ótima. Um grande abraço...
Quanto vale uma carta destas, que guardo há tantos anos? Muito mais do que lhe emprestei!
Não saiu de Angola após a Independência e acabou morrendo atropelado numa das suas queridas cidades, Huambo, em 1977.




Não podemos fechar este apontamento sem um pequeno poema que o poeta escreveu para a irmã:

Um dia quando voltares,
não mais encontrarás à tua espera
a nossa casinha de adobe da rua principal.
Quando voltares da Europa, irmã,
hás-de ver ainda como a cidade mudou...
(Lembras-te das promessas que fizemos?) [...]
Quando voltares não mais encontrarás poesia no quintalão do Zé Guerra
agora transformado atravessado assassinado por uma avenida transversal.
Quando voltares só verás como deixaste o Mercado Municipal. [...]
“Lembras-te da palmeira do quintal?
Foi abaixo com duas machadadas no tronco...
” Um dia, quando voltares,
não mais encontrarás a Benguela que conheceste menina ainda
e que aprendeste a amar.
(1959)

Nas vésperas de morrer ainda escreveu estes versos, “pré monitórios”:
Em teu chão regado pelo sangue dos que tombaram,
onde apodrecem cadáveres,
hão-de florir dálias roxas como as que colhi ontem
no meu quintal (…)

Foi considerado por certos críticos como “Escritor Maldito”, pela sua postura de boémio, por contradizer o status quo e o bom gosto da "elite intelectual" da época (e não só). Mesmo depois da independência Ernesto Lara Filho nunca abandonou o seu espírito inconformista, individualista.
Uma das grandes personalidades com que aquela terra presenteou o mundo.
Saravá, querido amigo Ernesto Lara.

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Outro regente que por lá andou, cuidando de eucaliptos para que não faltasse papel, casou e descasou, teve um filho e depois de 75, regressou a Portugal. Voltou a estudar e formou-se em silvicultura. Já não era mais menino, e retornado, sofrendo com a animosidade dos que não viveram em África, teve dificuldade em encontrar trabalho que se pudesse compatibilizar com o seu entorno geográfico.
Andou um pouco de “Herodes para Pilatos” nos Serviços de Agricultura, voltou a casar com uma ótima companheira, e ainda viu o filho seguir-lhe as pisadas e formar-se, também em agronomia.
Estudámos juntos, fomos do mesmo curso e lembro brincadeiras curiosas quando íamos até Évora para a farra. Gostava do seu copo (quem não gosta?), soltava a língua, desinibia-se um pouco, sempre foi um ótimo e tranquilo companheiro, mas a grana curta, curtíssima, não o deixava farrar mais descontraído.
Por fim trabalhava na Tapada de Mafra, mas a alegria dos tempos de rapaz tinha desaparecido.
Não teve tempo de se aposentar aos 70 anos, porque antes disso foi descansar.


O Rui Craveiro Feio merecia uma vida mais alegre e descontraída. Mas foi um grande amigo.

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Poe último, o mais novo de todos nós. Começou como regente, foi para Nova Lisboa, onde nasceu, hoje Huambo, e teve a sorte de pouco depois ali se ter instalado o Instituto de Agronomia. Trabalhava e estudava e formou-se depressa. Seguiu-se o mestrado e o doutoramento já depois de 75 e, em vez de cuidar de capins e flores dedicou-se à docência e foi professor na Universidade de Évora até se jubilar.
Mas chega até nós carregado de livros que publicou! Começa cedo, fundando com o colega e poeta Ernesto Lara Filho, a coleção Bailundo, em 1961.
Escritor, sociólogo e professor universitário, membro da Sociedade de Geografia de Lisboa, da União de Escritores Angolanos e da Sociedade Portuguesa de Autores, deixou uma vasta obra em que o seu coração sempre escreveu sobre Angola, especialmente a sua terra Huambo.
O título de alguns dos seus livros mostram bem a linha de pensamento “Sou que nem uma Árvore Vinda de Angola”, “Ficava em Angola e chamava-se Nova Lisboa”, “Lamento de um Exilado”, onde na dedicatória que me faz escreveu “Para o Francisco Amorim, esta saudade feita de tanta ausência”.
Ainda docente nunca deixou de escrever e, com exceção dos assuntos técnicos, o seu coração nunca saiu de Nova Lisboa
Tive o privilégio de colaborar com ele durante os últimos nove anos, fazendo uns pequenos apontamentos desenhados, e chegando por vezes ao descaramento (eu) de dar alguma opinião!
Não convivemos muito. Ele estudou em Coimbra, eu em Évora, mais tarde em Nova Lisboa quando por razões profissionais nos encontrávamos, e depois de 75 ele ficou em Lisboa e eu exilei-me neste país sem futuro.
Mas o acaso nos uniu, sobretudo via Internet, e nos raros encontros em Lisboa.


O Inácio Rebelo de Andrade foi uma pessoa singular, e o fim da sua vida chegou cedo demais. Tinha ainda muito para nos dar, e até planos para isso.
Agora, vou relendo, com mais vagar e saudade aquilo que nos deixou.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

 

Recordando Ernesto Lara Filho

E mais coisas sobre Angola

 

Recordar Ernesto Lara é assunto que só quem peregrinou por Angola deve saber de quem se trata e apreciar.
Uma figura de legenda, cronista e poeta, Ernesto Lara Filho, um dos inventores da angolanidade literária, boémio, generoso, meu amigo e colega regente agrícola, louco por liberdade, sobre quem já escrevi no “Os Meus Amigos” – https://fgamorim.blogspot.com/search?q=ernesto+Lara.
Agora, ao arrumar, aliás tentar dar um pouco de arrumação aos milhares de papeis que fui juntando, “descobri” mais de 30 revistas de Angola, quase todas a “TRÓPICO”, de 1963 a 1965, que me têm deliciado a rever coisas daquele tempo, onde, além de artigos do Ernesto, até aparecem reportagens com a minha figura!!!

Mas alguns textos do Ernesto Lara quero compartilhar, sobretudo este maravilhoso poema que escreveu a seu pai:

" Pergunta " (para meu pai)

Tu,

que lá em Benguela tinhas saudades do Minho

expressas em todos os teus olhares saudosos,

em todas as conversas.

Tu,

que sempre recordavas lá tão longe a tua terra distante

o teu Portugal de menino.

Porquê, meu pai,

me negas o direito simples de amar a minha terra,

a minha Angola?

Por que me negas todos os dias a todas as horas,

o direito sagrado de ter saudades da minha terra,

de olhar com os olhos embaciados, mas contentes,

de escrever longas cartas inconsequentes,

de ter longas conversas melancólicas

sobre a minha terra desflorada,

a minha Angola adiada?

Serei poeta também adiado como a minha terra.

Eu negarei Pai e Mãe pela minha terra.

Três vezes como Pedro o apóstolo negou Cristo

Três vezes antes de o galo cantar no raiar da madrugada.

 

Os textos da revista são sobre assuntos diversos, mas onde se encontra a humanidade e simplicidade de um amigo que todos estimavam. Muito. Temas simples, como o autor, onde ele se confessa boémio incurável!

Aqui vão eles.

Foto da revista de 1964

 CARTA  A  UMA  SOBRINHA

Acabo de receber sua cartinha que tem a beleza das coisas puras. Sua cartinha me comoveu, porque é sincera e revela o desejo de colaborar. Vou dirigir à secção feminina a receita com que se apresenta a dar-nos ajuda e vou desejar-lhe as maiores felicidades e que sempre apareça entre nós. Sabes? Teu irmão é nosso tipógrafo e foi um dos que mais me surpreendeu quando entrei naquela Tipografia pela primeira vez. Desatou a citar crónicas minhas do tempo do Caprandanda de cor e salteado. Eu e o Mário mandámos-lhe ver a exposição de Teresa Gama. A Teresa Neves e Sousa dos meus tempos de menino. Foi e viu e só gostou de três quadros. Quero dizer, só compreendeu três quadros. Foi isso que nos disse e a gente mandou insistir. Mas como eu ia dizendo, já conhecia seu irmão que no dia a dia dos tipos, no dia a dia do carvão que envenena os tipógrafos, vai fazendo singrar a revista. Assim gostei que você tivesse aparecido ao nosso lado pretendendo colaborar. Você não será daquela família muito antiga dos Pintos de Caxito?

Gostava que todas as meninas de «18 anos de idade, cabelos e olhos castanhos e 1m,64 de altura» como você diz tão singelamente na sua carta, colaborassem com coisas positivas como esta revista.

Atravessámos grave crise, minha querida Amiga, mas está vencida e por conseguinte muito nos comoveu essa sua frase com que termina a cartinha que entregou há dias na Tipografia. Frase essa que transcrevo integralmente: «Gosto muito do vosso jornal e nosso também».

Quanto ao tratamento de Tio muito obrigado, pequena, eu não fico zangado, fui até eu que criei. Este velho morcegão solteiro, já a nada mais aspira senão isso, na sua pobre e modesta vida de homem de jornais. A ser tratado por tio por todas as meninas morenas e bonitas de Luanda, um daqueles tios boémios que todos nós temos ou já tivemos na vida, que pastoreia as noites de Luanda e semeia alegrias e sorrisos, nos lábios e nos corações de tanta gente. Sem que nada pretenda receber em troca.

A não ser o carinho dessas sobrinhas todas, loiras, morenas, altas, baixas, lindas, feias que palmilham as ruas desta minha tão linda cidade.

*             *             *             *             *

CAMIONISTAS DE ANGOLA

 Naquele tempo costumávamos sair para Sá da Bandeira no dorso, na carga de uma camionete. Ao volante, sei lá quem! - talvez o Raul Costa, o Magalhães, o Zé Pequeno, Camões, um desses quaisquer heróis esquecidos das estradas de Angola. Íamos para um dos dois únicos liceus de Angola fazer o nosso primeiro anito. Corria o ano de 1940.

Não vale a pena falar da estrada por Catengue quando o Uche dizia não a todo o camionista que queria avançar para a guerra. Guerra de botões, essa guerra dos camionistas de Angola. Lá em Catengue o velho Rodrigues «mata-leões» recebia sempre toda a gente da mesma maneira aquele seu vozeirão ensurdecedor. Que contrastava com as falhas da voz de sua pobre e já falecida esposa - aquela tão simpática mulher que recebeu em sua casa, alimentou e acarinhou todas as duas gerações do meu tempo, de camionistas de Angola.

As realidades no Sul daquele tempo, eram a serra da Cacula e as lamas de Quipungo - não sabemos se a estrada hoje passa por lá! - e víamos tudo quanto era herói da estrada morrer um pouco por esses caminhos. Vi perecerem alguns dos meus melhores amigos nessas estradas de Angola. E se já alguma vez esta criança que trago dentro de mim teve um herói, esse herói era mulato e chamava-se Raul. O Raul, condutor de «Krupp» e mais tarde de uma «GMC» na Fazenda Aurora dos nossos tempos de menino. Hoje quem traz as viandas da Fazenda Aurora para Luanda é aquele rapazinho pequenino chamado Queiroz. E a vida continua.

Umas gerações passam e outras as substituem. O Castanholas e o Carreira aí estão para afirmar que a vida não pára. O Maciel com os seus 4.000 quilómetros por semana entre São Salvador, Luanda e Nova Lisboa, esse homem de vozeirão tremendo e com um coração de menino, esse Hércules das estradas de Angola, aí está, firme, ao volante da sua «Scania», navegando por todos os caminhos, velho marinheiro das calemas de Angola. Varando quilómetros e quilómetros de poeira e de lama, bebendo em todos os bares do caminho, transportando aqui um pobre homem desempregado que precisa de boleia, levando acolá uma senhora grávida para uma Maternidade ou Hospital mais próximo, fazendo Humanidade por essas caminhos, esse Homem e os Outros camionistas de Angola significam para quem quiser perceber que com Ouro deste, Ouro Puro de Lei, poderemos de facto repetir Índias e Brasis de Universalidade.

Não foi impunemente que escrevemos um dia sobre Paulo Rosa. Tinha caído na estrada varado pelas balas que no Norte não perguntam quem passa. Paulo Rosa caiu com uma dignidade extraordinária e nunca perdoarei a suaImageImageImageImagemorte. Nunca o vi recusar uma boleia, uma passagem, um carinho, a um Homem Negro, ou Branco, ou Mulato, do Norte. Como não posso perdoar a sua morte, também não perdoarei a do regente agrícola Albano Gonçalves da Cunha. No momento em que abandonando a sua família, foi avisar as outras famílias do que se passava. Tombando na hora da verdade, deram-me uma certeza. Certeza a que já não Imagepoderemos fugir. É que nascendo ou não em Angola, estamos aqui para ficar. Seja no volante de uma «Scania», seja Imagenas teclas desta «Antares-Micron», venha a ser um dia no Imagevolante do luxuoso «Alfa-Romeo» que usa um antigo colega de Imprensa que estimo e admiro, apesar de tudo. Image

Ouvia a voz monótona do velho Silva contar como tinha acontecido o desastre perto da Munenga. Depois do João Imagedo Muquetixe. Ouvia-o e na sua voz sentia todos os camionistas sacrificados que enchem as estradas de Angola e com o seu terrível esforço, com uma indomável forca de vontade, não deixam que o sangue pare, não deixam que o sangue fique por circular nestas pobres veias que são as nossas estradas. Nada merecem de mim a não ser toda a nossa sincera admiração, nosso profundo carinho e Amor ao Próximo. Porque se há dias vi um polícia multar um desses homens por excesso de velocidade - não defendo o princípio! - ele vinha do mato com 6.000 quilómetros percorridos, seis mil deles, de sangue, suor e lágrimas, Tinha estado debaixo de fogo para os lados do Negage. E foi à entrada de Luanda que vi lágrimas nos olhos desse homem que pedia enraivecido que o multassem sim, por excesso de velocidade lá no Norte - onde sem uma arma que não a sua pobre camionete, ele tivera que acelerar até à loucura.

É pois para vós que hoje escreve um pobre jornalista vagamundo, meus amigos, camionistas de Angola, Para ti, a quem encontrei um dia fazendo a barba no espelho retrovisor, na baixa da Cela. Para ti, que tombaste naquela ribanceira da estrada de Catete, com o tio Ernesto ao lado e debaixo de chuva quando o terreno cedeu. Para si, velho Ferreira - carta 29 619 de Lisboa - que andaste dez anos na linha do Norte de Angola. Para ti, Castanholas. Para ti, meu bigodaças, meu caro Carreira. Para ti Morais da Cela e Lima dos Bois. Enfim, para ti Maciel, para que sempre contes com o nosso pequeno estímulo, estas linhas de um modesto artigo, que sendo a vocês, é para todos os camionistas de Angola.

Vocês, os que levam o «TRÓPICO» aos quatro pontos cardeais da Província.

Trópico, nr.35, 12/03/65

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O  PEDRO

 

Disseram-me um dia que esse Homem não viajava de terra-em-terra. Que viajava de bar-em-bar. Era verdade, pois foi num bar que eu o conheci.

Nada nele me dizia que não era um homem como os outros. Apenas mais triste. E mais desiludido, Apenas mais castigado pelos ventos desencontrados de todos os rumos.

Lembro-me ainda do seu nome. Que nunca se diluirá na tristeza do esquecimento. Chama-se Pedro. Era - e é - um Irmão de todos os que precisassem de um verdadeiro Irmão. Ribatejano. Bebendo demasiadamente. Há algum ribatejano que não beba e não goste de cavalos?

Bebia e gostava de toiros. Amigo das crianças de todo o Mundo, era um verdadeiro Homem.

Um dia - já lá vai um ano - naquela sua voz monótona, começou a falar em Eva Braun e em Hitler. Dizia ele por entre os cacussos grelhados da Casa Verde dos Muceques que Eva Braun se colocava na frente de Hitler, quando este discursava impedindo os atiradores longínquos, de fazerem fogo pela caçadeira de binóculo. Atiradeira, fica melhor. Nessa noite assassinaram o Presidente Kennedy. Lee Oswald. Nunca mais me esqueci dessa noite nem dos companheiros que comigo estavam. Onde andarão eles?

Pedro tinha o raro condão de prever os acontecimentos com muitas horas de antecedência. Os acontecimentos mais trágicos da história do nosso tempo.

Não dizia. «Vamos beber um copo!» Adoptara a frase do João Teles que deve estar a ler isto devidamente comovido enquanto fabrica os já célebres licores Kumbira E a frase do João tem a poesia das frases com sentido. Era: «Ernesto, vamos molhar o bico.» ou «Ernesto, vamos tomar uma gota...»

Não sei onde andará o Pedrinho, o tio Pedro das nossas histórias de boémios. Disseram-me que andava em digressão por Angola. Da «Petisqueira» tinha seguido para o «Bar do Freitas» na Cela. Do Bar do Freitas onde passou o Natal e o Ano Novo, foi para o Galgo Bar em Nova-Lisboa. Creio que a estas horas deve andar pelo Sul de Angola. Se não atravessou o Cunene e passou para Vindoek.

Boa-sorte, Pedro e muitas felicidades do   E. L. F.

Trópico, nr. 31, 12/2/65

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Tem mais crónicas interessantes, mas ficam para outra vez.
Só vou acrescentar alguns dados daquela terra que, mesmo dos “antigos” poucos conhecem e os “de hoje” não devem ter a menor ideia.
Em 1964 Angola ainda sofria com o controle do desenvolvimento industrial e comercial por parte da Metrópole.
Em 1957 um grupo de sócios pediu um alvará para uma fábrica de massas alimentícias. Só em 1964 foi autorizada!!! E a partir dessa data Angola passou a produzir as suas próprias massas! E boas.
Também em 1964 inaugurou uma fábrica de “motorizadas”. A FABRIMOR. Começou com umas motos pequenas de 50 cc que logo tiveram uma enorme repercussão não só em Angola, como até para alguns países vizinhos.
Em Benguela surgia também em 1964 uma fábrica de Acumuladores Elétricos.
Em 1965 a Casa Americana começou a montar tratores, Catterpilar chegando a fabricar algumas partes da sua mecânica.!
Quem sabia disso? Com a independência, TUDO isto e muito mais... desapareceu. Só em 2015 voltou a ter produção própria de massas! 40 anos depois!
Pobre Angola. País tão rico.

NOTA: Quem estiver interessado nestas revistas é só avisar-me e vir buscá-las.

Se ninguém quiser... o destino delas será o lixo.


domingo, 3 de janeiro de 2010

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Benguela e arredores

Benguela foi (ainda será?...) terra de poetas! Alguns deixaram poemas escritos, outros levaram uma vida misto de boemia e poesia. Mas boemia levada alegre não é um canto de amor à vida, um poema constante? Além do meu querido amigo Ernesto Lara, de quem vai um “cheirinho” de “O canto do Martrindinde”, e já veremos a que propósito isto vem, lembro dois benguelenses que só por si faziam a vida em Benguela valer a pena! Sugiro que antes de continuar a ler este texto leia primeiro a “Mukanda para a Cidade de Benguela”, carta linda, como tudo o que o Ernesto Lara escrevia, e que vem em http://www.angola-saiago.net/cidmae10.html  

Fala ele, mesmo que rapidamente, dum poeta desconhecido: o fotógrafo Luis de Camões! Não se podia estar com ele e ficar de má disposição. Era um bálsamo! Mesmo que fosse um bálsamo de maluquice, valia a pena. Conheci-o muito bem, e no tempo que trabalhei com material fotográfico, era impossível cortar-lhe o crédito apesar de, por boemia, levar alguns meses para pagar as contas!

Tinha no seu estúdio uma espécie de mezzanino, para onde subia por uma escada de madeira, e ali ficava estendido, recuperando o que a farra na noite não lho tinha permito, ou aproveitando a sesta! Quando chegava algum cliente à loja era preciso chamar várias vezes para ver aparecer uma ensonada cabeça lá no alto! Dizia ele que ali era o seu refúgio secreto, para onde muita vez subiam simpáticas garotas que ajudavam a embalar o seu “descanso” sem correr o perigo de serem vistas porque se mantinham deitadas lá no fundo, enquanto os clientes estavam na loja!
Depois, no famoso e saudoso bar do Guimarães, onde se juntava a alegria da terra, com “St. Pauli” e mais tarde com umas “Cucas”, contavam-se histórias, descontraía-se e, depois do cacimbo, as acácias iam começando a florir para enfeitar o Natal tropical daquela terra morena!
Um dos freqüentadores dessa tertúlia lá por 1954, era um piloto aviador que tenho a maior pena de ter esquecido o seu nome, e na minha memória aparece só uma turva figura, um daqueles morenos loucos de vida e de amigos.
Para pilotar, todos tinham que saber um pouco de inglês, por causa do trafega aéreo. Um dia viu anunciado numa revista americana um produto para desfrisar os cabelos crespos, e logo pensou que isso seria um belo negócio a fazer por todo o lado por onde andava.
Pediu a um colega, americano, que quando voltasse um dia dos EUA lhe trouxesse algumas embalagens desse produto, que ele já considerava a descoberta do século.
Passados uns meses chegou a promissora e miraculosa maravilha! Uma rápida olhada no rótulo onde se via uma garota com os cabelos todos lisinhos, e vá de fazer o primeiro ensaio, antes de “entrar no mercado”. Em quem ensaiar? Uma prima, bela cabeleira africana, logo se prestou para ser a primeira beldade a exibir tal progresso. E começa o trabalho: entorna um pouco de produto nas mãos e vá de esfregar a cabeça da prima! Não tardou que esta começasse a sentir uns ardores exagerados na nuca, mas o “cientista” não desistia: “Prima! Sofrer para ser bela!” E insistia. Não tardou que o cabelo, com a base queimada, começasse a cair! Correm para uma torneira para aplacar a dor, e em socorro da vítima acorre a família e os irmãos, que ao verem o sucedido partem para cima do “desfrisador”.
O nosso piloto/cabeleireiro teve que fugir da cidade e só regressar alguns meses depois quando a prima e família, acalmados, decidiram perdoar-lhe!
Veio depois a constatar-se que o tal produto deveria ter sido diluído em não sei quantas partes de água... e aplicado durante vários dias.
Mas esta história contada pelo autor, um indivíduo cheio de boa disposição, está até hoje gravada na minha memória e sempre me riu, mesmo sozinho, quando me vem à memória!
Havia lá na terra um outro piloto e rádio Amador, Belém, casado, tranqüilo, simpático, dono de um carro lindão. Um Citroen igual ao que vai aqui a imagem, só que cor verde e estofos bege. Um luxo! Não me lembro já se ele precisava de dinheiro ou queria comprar algo mais moderno, a verdade, é que insistiu comigo diversas vezes para eu ficar com o carro! Eu que tinha um boa situação na Lusolanda e andava com a mulher, grávida, sentada no quadro da bicicleta, e ainda por cima ficava de olhos vidrados a olhar aquele carro... seria o comprador certo, não fosse um fator simples: não tinha dinheiro! Lembro-me que ele queria 20 contos e que eu lhe pagasse como entendesse. Não havia entendimento possível sem os equivalentes “Angolares”! Até hoje sonho com essa lindeza de carro! Sempre sonhando...


Olhem que belezoca ! O "meu ainda era mais bonito: verde com estofos bege!


Precisava de vinte destas notas para ter o bólido!


O verso da nota.

Vamos agora aos insetos cantadores. Em Benguela era o Martrindinde, que para quem não conhece, é uma espécie de grilo, que inspirou o nosso grande boêmio/poeta Ernesto Lara


O canto do Martrindinde



O canto do Martrindinde
é um canto da cidade
vem pela noite dentro
cheio de ambiguidade




O canto do Matrindinde
é um cantar nacional
veio do mato à cidade
e tornou-se universal.


O belo martrindinde

Catengue, a cerca de 70 ou 80 kms de Benguela, no caminho para o interior, para o Huambo, por exemplo, era um local de passagem de carros e do combóio. Este metia água e lenha, os carros, alguns, combustível, e os passageiros aproveitavam para comer no “palace”, quase única casa, pensão, restaurante e comércio do lugar. A única atração daquela terra, além da eventual fome dos passantes, ou cansaço para passar a noite, era um búfalo que o dono do “hotel” tinha preso num curral de madeira. Bicho grande, o “Bonifácio”, pacífico, adorava que se lhe fizessem festas, comia o capim que lhe era servido com regularidade e... ali estava. O problema é que aquela região era (ou ainda é?) terra de búfalos, e quando chegava a época da reprodução o “Bonifácio” apurava as ventas e chegava-lhe o cheiro doce do cio das fêmeas! Apesar do curral ser feito de fortes troncos de madeira, “Bonifácio” dava um ligeiro empurrão na cerca e saía atrás das garotas! Não adiantava proculá-lo. Ficava uns dias desaparecido e, após certamente cumprido o seu dever de procriador, voltava tranquilamente para a pensão que o alimentava e mantinha forte, sem ter que brigar por um lugar na manada!


O "Sincerus caffer" - "Bonifácio"




Nesse “hotel”, uma noite em que ali passei, fizemos uma paragem para jantar. Noite. Janelas e portas abertas para tornar o ambiente mais agradável, os martrindindes estavam longe e as cigarras tinham já cessado o seu canto. A minha mesa a uns 8 ou 10 metros da porta para a rua, eu sentado de frente para a porta, comendo sem pressa o habitual bife com batatas fritas, acompanhado dum copo de vinho tinto, de momento ainda cheio pela metade. De repente sinto uma pancada na cabeça que me despertou em menos de um segundo, porque imediatamente após, a cigarra, que fora ela que num vôo suicida se chocara com a minha testa, caíra dentro do copo de vinho e vibrou tanto as asas que o vinho espirrou todo de dentro do copo! Tudo isto demorou uns segundos, mas foi o suficiente para que o meu companheiro de viagem, e eu, ficássemos com a cara, braços e camisa toda encharcada em vinho tinto. Até o bife e as batatas tiveram que ser substituídos!



A cigarra do género "bebedolas!


A cigarra após seu desesperado “canto do cisne”, jazia, morta de bêbeda, no fundo do copo vazio!

Mas nada disto impedia que tivéssemos perdido a juventude sem praticar desporto. Havia a praia, mas que já lá vamos, e a Associação Comercial com seu campo de Tênis.

Nesta foto vê-se o belo edifício da Associação Comercial e quase no canto inferior direito o campo de ténis que no ano seguinte desapareceu!

Toda a semana, às vezes mais do que uma vez lá ia jogar uma ou outra partida. O principal parceiro era um jovem, como eu, funcionário da Fazenda, cujo nome... há muito me fugiu. Ótimo parceiro, simpático, bom jogador – creio que era ele que ganhava quase sempre; depois de sair de Benguela só encontrei uma vez, em Luanda, cabelo levemente a encanecer, já diretor de Fazenda, mas sempre atencioso e educado. Está na foto à minha direita. Se alguém o reconhecer, ou melhor, souber do seu paradeiro, eu ficaria imensamente feliz. O mesmo para o outro parceiro, o Magalhães, funcionário também da Lusolanda, na contabilidade, jogador do clube de futebol da terra, sempre bem disposto e motociclista!

Os três tenistas de Benguela: ?, eu e Magalhães

Naquele tempo para se falar ao telefone com a famigerada metrópole... só do Lobito. A Benguela ainda não havia chegado esse imenso avanço tecnológico! Minha mulher aguardava instruções para embarcar de Lisboa para a nossa aventura africana. Nas vésperas da sua chorosa largada – largava os pais e a irmã! – eu quis telefonar-lhe. O Magalhães emprestou-me a sua moto – talvez fosse uma Norton! – e lá fui eu aqueles trinta e poucos quilômetros de asfalto, falar ao telefone. A minha caneta tinteiro de estimação que levava no bolso externo da camisa... voou no meio da viagem!
Foi este rapaz, o Magalhães que me apresentou aos “atletas” praianos! Aos domingos lá ia com minha mulher até à praia. Não conhecíamos ninguém. Só eu, os colegas de trabalho. Como em toda a praia, juntava-se uma turma de jogadores, normalmente de vôlei; ótimo para aquecer os músculos e dar um bom mergulho a seguir.

Num dos dias de grande calema, quando as ondas, enormes, que chegavam à praia, tinham o condão de encher de areia a rua atrás do “Porta Aviões”, tomar banho de mar era uma temeridade. Mas... lá está o atrevimento da juventude... Com uma grande câmara de ar a fazer de bóia, era uma delícia passar a arrebentação e ficar lá fora subindo e descendo no ondular daquelas grandes ondas. Depois, para vir para terra, é só esperar aquele intervalo das sete ondas quando o mar dá uma folguinha! Assim fiz. Pareceu-me que tinha chegado o momento para regressar à praia e comecei a nadar e ao mesmo tempo empurrando a bóia. Só que... estava um pouco longe demais para ter tempo de aproveitar o tal intervalo das ondas, e quando estou já perto da praia, olho para trás e vejo um autêntico “tsunami” – nesse tempo não existia este termo! – a desfazer-se por cima da minha cabeça! Solto a bóia, encho os pulmões de ar, e andei a rolar dentro da onda apanhando em todo o corpo uma valente surra de cascas de mariscos, pedras, pequenas mas pareciam chibatas, não sabia qual era o lado do céu ou do fundo, até que esse castigo acabou, ponho a cabeça fora de água e vejo a segunda onda, igual em tamanho e fúria, a despencar! Repete-se a cena, mas desta vez o mar foi generoso: a onda agarrou em mim, como um trapo velho, desprezível, e me jogou para cima da areia, onde fiquei uns momentos estendido... a respirar!
A minha mulher assistiu àquele pré naufrágio, pensando que eu estava total senhor da situação! Não estava. Só a levar pancada e a aprender.

3-jan-10










domingo, 18 de abril de 2021

 Benguela e arredores

Texto já postado neste blog em Janeiro de 2010

Benguela foi (ainda será?...) terra de poetas! Alguns deixaram poemas escritos, outros levaram uma vida misto de boemia e poesia. Mas boemia levada alegre não é um canto de amor à vida, um poema constante? Além do meu querido amigo Ernesto Lara, de quem vai um “cheirinho” de “O canto do Martrindinde”, e já veremos a que propósito isto vem, lembro dois benguelenses que só por si faziam a vida em Benguela valer a pena! Sugiro que antes de continuar a ler este texto leia primeiro a “Mukanda para a Cidade de Benguela”, carta linda, como tudo o que o Ernesto Lara escrevia, e que vem em http://www.angola-saiago.net/cidmae10.html  

Fala ele, mesmo que rapidamente, dum poeta desconhecido: o fotógrafo Luis de Camões! Não se podia estar com ele e ficar de má disposição. Era um bálsamo! Mesmo que fosse um bálsamo de maluquice, valia a pena. Conheci-o muito bem, e no tempo que trabalhei com material fotográfico, era impossível cortar-lhe o crédito apesar de, por boemia, levar alguns meses para pagar as contas!

Tinha no seu estúdio uma espécie de mezzanino, para onde subia por uma escada de madeira, e ali ficava estendido, recuperando o que a farra na noite não lho tinha permito, ou aproveitando a sesta! Quando chegava algum cliente à loja era preciso chamar várias vezes para ver aparecer uma ensonada cabeça lá no alto! Dizia ele que ali era o seu refúgio secreto, para onde muita vez subiam simpáticas garotas que ajudavam a embalar o seu “descanso” sem correr o perigo de serem vistas porque se mantinham deitadas lá no fundo, enquanto os clientes estavam na loja!
Depois, no famoso e saudoso bar do Guimarães, onde se juntava a alegria da terra, com “St. Pauli”, "Beck's" e, bem mais tarde, com umas “Cucas”, contavam-se histórias, descontraía-se e, depois do cacimbo, as acácias iam começando a florir para enfeitar o Natal tropical daquela terra morena!
Um dos freqüentadores dessa tertúlia lá por 1954, era um piloto aviador que tenho a maior pena de ter esquecido o seu nome, e na minha memória aparece só uma turva figura, um daqueles morenos loucos de vida e de amigos.
Para pilotar, todos tinham que saber um pouco de inglês, por causa do trafega aéreo. Um dia viu anunciado numa revista americana um produto para desfrisar os cabelos crespos, e logo pensou que isso seria um belo negócio a fazer por todo o lado por onde andava.
Pediu a um colega, americano, que quando voltasse um dia dos EUA lhe trouxesse algumas embalagens desse produto, que ele já considerava a descoberta do século.
Passados uns meses chegou a promissora e miraculosa maravilha! Uma rápida olhada no rótulo onde se via uma garota com os cabelos todos lisinhos, e vá de fazer o primeiro ensaio, antes de “entrar no mercado”. Em quem ensaiar? Uma prima, bela cabeleira africana, logo se prestou para ser a primeira beldade a exibir tal progresso. E começa o trabalho: entorna um pouco de produto nas mãos e vá de esfregar a cabeça da prima! Não tardou que esta começasse a sentir uns ardores exagerados na nuca, mas o “cientista” não desistia: “Prima! Sofrer para ser bela!” E insistia. Não tardou que o cabelo, com a base queimada, começasse a cair! Correm para uma torneira para aplacar a dor, e em socorro da vítima acorre a família e os irmãos, que ao verem o sucedido partem para cima do “desfrisador”.
O nosso piloto/cabeleireiro teve que fugir da cidade e só regressar alguns meses depois quando a prima e família, acalmados, decidiram perdoar-lhe!
Veio depois a constatar-se que o tal produto deveria ter sido diluído em não sei quantas partes de água... e aplicado durante vários dias.
Mas esta história contada pelo autor, um indivíduo cheio de boa disposição, está até hoje gravada na minha memória e sempre me riu, mesmo sozinho, quando me vem à memória!
Havia lá na terra um outro piloto e rádio Amador, Belém, casado, tranqüilo, simpático, dono de um carro lindão. Um Citroen igual ao que vai aqui a imagem, só que cor verde e estofos bege. Um luxo! Não me lembro já se ele precisava de dinheiro ou queria comprar algo mais moderno, a verdade, é que insistiu comigo diversas vezes para eu ficar com o carro! Eu que tinha um boa situação na Lusolanda e andava com a mulher, grávida, sentada no quadro da bicicleta, e ainda por cima ficava de olhos vidrados a olhar aquele carro... seria o comprador certo, não fosse um fator simples: não tinha dinheiro! Lembro-me que ele queria 20 contos e que eu lhe pagasse como entendesse. Não havia entendimento possível sem os equivalentes “Angolares”! Até hoje sonho com essa lindeza de carro! Sempre sonhando...


Olhem que belezoca ! O "meu" ainda era mais bonito: verde, com estofos bege!


Precisava de vinte destas notas para ter o bólido!


O verso da nota.

Vamos agora aos insetos cantadores. Em Benguela era o Martrindinde, que para quem não conhece, é uma espécie de grilo, que inspirou o nosso grande boêmio/poeta Ernesto Lara

O canto do Martrindinde

O canto do Martrindinde
é um canto da cidade
vem pela noite dentro
cheio de ambiguidade


O canto do Matrindinde
é um cantar nacional
veio do mato à cidade
e tornou-se universal.


O belo martrindinde

Catengue, a cerca de 70 ou 80 kms de Benguela, no caminho para o interior, para o Huambo, por exemplo, era um local de passagem de carros e do combóio. Este metia água e lenha, os carros, alguns, combustível, e os passageiros aproveitavam para comer no “palace”, quase única casa, pensão, restaurante e comércio do lugar. A única atração daquela terra, além da eventual fome dos passantes, ou cansaço para passar a noite, era um búfalo que o dono do “hotel” tinha preso num curral de madeira. Bicho grande, o “Bonifácio”, pacífico, adorava que se lhe fizessem festas, comia o capim que lhe era servido com regularidade e... ali estava. O problema é que aquela região era (ou ainda é?) terra de búfalos, e quando chegava a época da reprodução o “Bonifácio” apurava as ventas e chegava-lhe o cheiro doce do cio das fêmeas! Apesar do curral ser feito de fortes troncos de madeira, “Bonifácio” dava um ligeiro empurrão na cerca e saía atrás das garotas! Não adiantava proculá-lo. Ficava uns dias desaparecido e, após certamente cumprido o seu dever de procriador, voltava tranquilamente para a pensão que o alimentava e mantinha forte, sem ter que brigar por um lugar na manada!


O "Sincerus caffer" - "Bonifácio"

Nesse “hotel”, uma noite em que ali passei, fizemos uma paragem para jantar. Noite. Janelas e portas abertas para tornar o ambiente mais agradável, os martrindindes estavam longe e as cigarras tinham já cessado o seu canto. A minha mesa a uns 8 ou 10 metros da porta para a rua, eu sentado de frente para a porta, comendo sem pressa o habitual bife com batatas fritas, acompanhado dum copo de vinho tinto, de momento ainda cheio pela metade. De repente sinto uma pancada na cabeça que me despertou em menos de um segundo, porque imediatamente após, a cigarra, que fora ela que num vôo suicida se chocara com a minha testa, caíra dentro do copo de vinho e vibrou tanto as asas que o vinho espirrou todo de dentro do copo! Tudo isto demorou uns segundos, mas foi o suficiente para que o meu companheiro de viagem, e eu, ficássemos com a cara, braços e camisa toda encharcada em vinho tinto. Até o bife e as batatas tiveram que ser substituídos!



A cigarra do género "bebedolas!

A cigarra após seu desesperado “canto do cisne”, jazia, morta de bêbeda, no fundo do copo vazio!

Mas nada disto impedia que tivéssemos perdido a juventude sem praticar desporto. Havia a praia, mas que já lá vamos, e a Associação Comercial com seu campo de Tênis.

Nesta foto vê-se o belo edifício da Associação Comercial e quase no canto inferior direito o campo de ténis que no ano seguinte desapareceu!

Toda a semana, às vezes mais do que uma vez lá ia jogar uma ou outra partida. O principal parceiro era um jovem, como eu, funcionário da Fazenda, cujo nome... há muito me fugiu. Ótimo parceiro, simpático, bom jogador – creio que era ele que ganhava quase sempre; depois de sair de Benguela só encontrei uma vez, em Luanda, cabelo levemente a encanecer, já diretor de Fazenda, mas sempre atencioso e educado. Está na foto à minha direita. Se alguém o reconhecer, ou melhor, souber do seu paradeiro, eu ficaria imensamente feliz. O mesmo para o outro parceiro, o Magalhães, funcionário também da Lusolanda, na contabilidade, jogador do clube de futebol da terra, sempre bem disposto e motociclista!

Os três tenistas de Benguela: Pompeu, funcionário da Fazenda, eu e Magalhães também da Lusolanda

Naquele tempo para se falar ao telefone com a famigerada metrópole... só do Lobito. A Benguela ainda não havia chegado esse imenso avanço tecnológico! Minha mulher aguardava instruções para embarcar de Lisboa para a nossa aventura africana. Nas vésperas da sua chorosa largada – largava os pais e a irmã! – eu quis telefonar-lhe. O Magalhães emprestou-me a sua moto – talvez fosse uma Norton! – e lá fui eu aqueles trinta e poucos quilômetros de asfalto, falar ao telefone. A minha caneta tinteiro de estimação que levava no bolso externo da camisa... voou no meio da viagem!
Foi este rapaz, o Magalhães que me apresentou aos “atletas” praianos! Aos domingos lá ia com minha mulher até à praia. Não conhecíamos ninguém. Só eu, os colegas de trabalho. Como em toda a praia, juntava-se uma turma de jogadores, normalmente de vôlei; ótimo para aquecer os músculos e dar um bom mergulho a seguir.

Num dos dias de grande calema, quando as ondas, enormes, que chegavam à praia, tinham o condão de encher de areia a rua atrás do “Porta Aviões”, tomar banho de mar era uma temeridade. Mas... lá está o atrevimento da juventude... Com uma grande câmara de ar a fazer de bóia, era uma delícia passar a arrebentação e ficar lá fora subindo e descendo no ondular daquelas grandes ondas. Depois, para vir para terra, é só esperar aquele intervalo das sete ondas quando o mar dá uma folguinha! Assim fiz. Pareceu-me que tinha chegado o momento para regressar à praia e comecei a nadar e ao mesmo tempo empurrando a bóia. Só que... estava um pouco longe demais para ter tempo de aproveitar o tal intervalo das ondas, e quando estou já perto da praia, olho para trás e vejo um autêntico “tsunami” – nesse tempo não existia este termo! – a desfazer-se por cima da minha cabeça! Solto a bóia, encho os pulmões de ar, e andei a rolar dentro da onda apanhando em todo o corpo uma valente surra de cascas de mariscos, pedras, pequenas mas pareciam chibatas, não sabia qual era o lado do céu ou do fundo, até que esse castigo acabou, ponho a cabeça fora de água e vejo a segunda onda, igual em tamanho e fúria, a despencar! Repete-se a cena, mas desta vez o mar foi generoso: a onda agarrou em mim, como um trapo velho, desprezível, e me jogou para cima da areia, onde fiquei uns momentos estendido... a respirar!
A minha mulher assistiu àquele pré naufrágio, pensando que eu estava total senhor da situação! Não estava. Só a levar pancada e a aprender.

3-jan-10