quarta-feira, 9 de setembro de 2020

 

(continuação)

De Volta aos Primeiros Passos - 2 -

Gabriel e as novas tentações

 

Na primeira oportunidade que teve de ficar sozinho na loja, além dos dois serventes empregados, o tio tinha ido a Luanda com a mulher e filhos, quase no fim do dia entrou uma dessas “irresistíveis”. Gabriel disse-lhe que a ia atender, mas como já passava da hora precisava fechar as portas, o que não a preocupou.

Dispensou os serventes. Uma vez sós, perguntou-lhe o que ela queria, ambos do mesmo lado do balcão. Chegou-se mais perto, atreveu-se a passar-lhe a mão no braço nu, sentiu aquela pele sedosa, a que a jovem simplesmente reagiu murmurando aquele: “Hãh! Hãh!” a sorrir para ele.

Avançou um pouco mais, agarrou-a com delicadeza pelos dois braços, foi-a levando para trás do balcão sem sentir qualquer resistência.

- Como te chamas?

- Catxi.

- Bonito nome. Tu és mais bonita que o teu nome.

- Brigato!

Sempre sem a largar foram andando para o armazém. Lugar mais escondido onde se guardava algo como cobertores que lhes serviria para se deitarem. Não foi difícil. Catxi devia ter ido à loja mesmo com a finalidade de conquistar o garotão do puto, que todas as raparigas da terra comentavam porque o achavam bonito. Ela foi quem deu o primeiro passo.

Num instante estavam deitados, ela, com carinho, era a mestra naquele transe o que fazia o jovem e fogoso português delirar.

Um corpo forte, uma pele maravilhosa, os seios duros, um sorriso lindo e um tremendo cuidado com o homem que a ia possuir, sem perigo de visitas inesperadas - os tios só voltariam no dia seguinte - deixaram-se ficar em jogos de amor durante largas e boas horas. Ótimas.

Queria lembrar-se como tinha sido com a Maria Rita, mas Catxi superava em tudo o que ele pudesse imaginar e a visão da amiga de infância, a noiva que devia esperar só mais uns três anos, agora talvez mais cinco, começava a desaparecer da sua mente. Angola estava a enterrar o Portugal... velhinho!

Inexperiente não sabia se devia beijar Catxi. Afinal ela era uma jovem, e isso não estava a parecer-lhe certo. Era a primeira vez que tinha relações com uma mulher negra, e não podia ser levado de rompante. Mas o desejo superou qualquer complexo e começou a cobri-la de beijos. Uma vez mais descobriu que os beijos de Catxi eram imensamente mais gostosos do que os da Maria Rita. Os lábios bonitos, sensuais, eram outra coisa, mais uma maravilha com que Angola o presenteava. Ela também o beijava com extrema doçura. E o afagava enquanto os jogos de amor se desenrolavam.

Só a deixou ir embora noite avançada, abrindo a porta com cuidado para que ninguém a visse sair, sem deixar de lhe pedir que não contasse a ninguém. Que aparecesse no dia seguinte. Queria dar-lhe um pano bonito, mas fingindo que ela o tinha lá ido comprar.

De manhã, entre outros clientes lá estava Catxi, sorrindo para ele, parecia ainda mais bonita, o que fez o coração de Gabriel dar um pequeno pulo. Depois que todos os outros saíram, chamou-a para escolher o pano que quisesse. Humilde, escolheu um muito colorido que Gabriel embrulhou e lho ofereceu.

- Depois eu volta, tá?

- Catxi. Vem sempre que puderes. Eu gosto muito.

Pelo meio dia chegou o tio e família. Voltavam de carrinha nova, linda, uma valente Ford V8, 1949, verde escuro, modelo que acabava de chegar a Angola.

- Correu tudo bem, por aqui?

- Sem novidade, tio.

- Sabes, estive a pensar abrir outra loja. Eu e a tia e mais os dois empregados tomamos bem conta desta, e tu já estás capaz de ir tomar conta de outra. O que te parece?

- É muita bondade sua, tio.

- E não vais como empregado, mas sócio, claro. Até com uma carrinha, porque sem transporte aqui não se vive! A que levei ontem para Luanda está lá à espera que a vás buscar. Como sabes está ainda muito boa, mesmo com seis anos andando por estes caminhos.

- E onde o tio pensa abrir essa loja?

- Olha. É um bocado longe daqui, mas disseram-me que lá quase não tem comércio. O único que fazia algum negócio adoeceu, regressou à Metrópole, de modo que o campo está pronto para receber quem queira trabalhar. Em Xá Muteba, 180 quilómetros para lá de Malange. Daqui lá são uns 360.

- Se é preciso, estou pronto a arregaçar as mangas ainda mais para cima! Quando começamos?

- Neste fim de semana vamos lá os dois ver aquilo, se tem algum prédio que possa ser aproveitado, como o do comerciante que foi embora, e em face da situação resolvemos. Para encher a casa de mercadoria temos todo o crédito que for necessário, e lá ainda tem muito negócio na época da colheita do algodão. Isso dá um bom dinheiro. É o principal negócio da região.

O primeiro pensamento de Gabriel foi para Catxi. Tinha que a levar com ele. Não a queria perder. Como? Havia de arranjar um modo.

- E sabes uma coisa? É lá que está enterrado o famoso Zé do Telhado!

Todos os dias Catxi aparecia na loja, o tio Manuel, que não era bobo, apercebia-se do interesse do sobrinho pela rapariga. Que ele, aliás, também achou bonita, mas nada disse.

Sábado bem cedo, deixaram a loja entregue à tia e foram a caminho de Xá Muteba. Uma estrada de terra, muito buraco, poeira que formava nuvens imensas, ao fim de quase oito horas chegam à povoação, uma dúzia de casas de alvenaria, a casa de comércio abandonada, mas em estado de recuperação fácil e rápida, e uma área circundante com as casas “de pau a pique” dos trabalhadores rurais.

A visita mais detalhada foi à antiga casa de comércio, que deviam comprar, para avaliar da necessidade de obras. Falaram com o soba da região que lhes disse que um bom comércio ali era fundamental, e que ele apoiaria e arranjaria gente para trabalhar na recuperação do prédio. O povo estava com dificuldade de abastecimento, e tinha pouca confiança nos outros pequenos comerciantes locais. Até lhes indicou com quem deviam negociar a compra do imóvel, que no estado em que se encontrava e falta de interesse de compradores não valia quase nada.

O tio encontrou em Luanda um procurador que concertou o negócio com o antigo proprietário, por um preço simbólico, depois do que Gabriel, carrinha carregada de cimento e madeiras para portas e janelas, segue para Xá Muteba.

Conforme prometido o soba pôs à sua disposição o número de homens necessários para as obras, homens simples, mas que tinham que ser robustos, a quem se pagava corretamente. Durou uma semana o restauro. Só ficava faltando uma pintura para mostrar ao povo que a casa estava de cara nova.

Deixou o imóvel aos cuidados do soba que logo arranjou dois guardas e regressou a N’Dalatando. A primeira coisa a ser feita foi a escritura da nova sociedade, que rápido ficou pronta. Agora já era sócio do tio, mesmo que as suas cotas fossem, em parte, a realizar. Depois, fazer a lista das mercadorias com que encher a loja, ir a Luanda encomendá-las e esperar o aviso da saída do caminhão que levaria tudo. Até um pequeno conjunto de mobílias para a casa do “gerente”. Gerente e sócio!

Na semana seguinte chegou o aviso com a data em que caminhão sairia de Luanda. Ia direto a N’Dalatando, e daí seguiriam juntos para Xá Muteba.

Catxi, quase diariamente aparecia na loja, mas com o tio e família presentes nada mais podia fazer do que uma rápida troca de palavras, o suficiente para se entenderem sobre um local de encontro à noite! Ele conhecia bem toda a povoação, a iluminação em quase todo o lugar era muito fraca ou inexistente, mas não era possível encontrarem-se escondidos no mato. Perigoso e completamente escuro, seria loucura.

“Lá no fundo da rua tem um canto, ainda com um resto de luz, sem mato alto, e protegido por um muro, o lugar ideal.”

Passou a ser diário o encontro. Um namoro que sempre envolvia a relação completa. A verdade é que Gabriel estava, mesmo, enamorado por aquela garota. Disse-lhe que ia viver para Xá Muteba e que queria levá-la com ele.

- Tem que falar com meu pai.

- Eu falo.

- Não. Ele pode não gostar. Eu falo. Mesmo que que ele não goste muito eu vou.

Avisada da data da partida, marcou-se um lugar na estrada onde ia passar. Ela que esperasse lá por ele. “Não precisa levar muita coisa.”

No dia previsto, chega o caminhão, grande, bem carregado. Para enfrentar os restantes 360 quilómetros preferiram dormir ainda essa noite em N’Dalatando e sair de manhã, bem cedo, antes do nascer do sol. Carregaram a carrinha com mercadoria que havia em excesso no armazém, e as miudezas mais frágeis como os Petromax, velas, louças, roupas de casa e pessoais, mavunga, cobertores, porque vão para cerca de mil metros de altitude e as noites lá são frias, mantimentos frescos para os primeiros dias, como batatas, feijão, e outros, alguns enlatados, enfim tudo quanto pudessem para passar bem até estarem definitivamente instalados, incluindo umas braçadas de lenha. Até um presente especial da tia: um bacalhau!

África era assim. Quem vai pró mato... avia-se bem, em terra!

Uma última saída à noite. Só para avisar Catxi. E um beijo.

Despedida dos tios e dos pequenitos. O tio entrega-lhe um envelope com o dinheiro suficiente para os primeiros tempos e diz-lhe que quando precisasse de alguma coisa lhe escrevesse e se fosse urgente se deslocasse a Malange, ao telégrafo.

Um ou dois quilômetros depois de saírem da cidade, o dia a querer romper, sempre com medo que Catxi não aparecesse, ao longe, os faróis avistam um vulto. Era ela.

Parou a carrinha, ela entrou e ele sentiu que estava a começar uma vida duplamente nova: no comércio e em “lua de mel”. Seguiam os dois mostrando como estavam felizes!

Catxi, sempre com o mesmo sorriso simples, carregava com ela um pequeno embrulho de pano, com meia dúzia de roupas. Era tudo quanto possuía. Levava ainda umas mudas de mandioca que a mãe lhe dera para começar a sua nova vida de mulher casada. Mesmo sem haver casamento oficial, desnecessário para viver longe de tudo e todos.

Pararam em Malange para uma refeição rápida num lugar onde a presença da Catxi não causasse problema, e com o sol a pôr-se chegam a Xá Muteba.

Guardam os carros no pátio e só descarregam o que lhes pareceu indispensável para passar a primeira noite, a que não faltou a cama!

Mais mesa, umas cadeiras, dois Petromax, louças, um pouco de lenha para preparar um jantar, roupas e praticamente tudo que carregaram na carrinha.

De manhã chamariam alguns homens para ajudarem a descarregar o caminhão, sempre ouvindo o conselho do soba que acabava ficando responsável pelo bom comportamento dos que indicava, dois dos quais logo contratados para servirem na loja e armazém e mais um terceiro para guarda de noite, a quem foi entregue um evunga para se agasalhar.

Catxi estava encantada. Não queria acreditar que ia viver dentro de uma casa, boa, numa cama, larga, bonita, com lençóis e, o principal, o rapaz que também já amava.

Foi ela que acendeu o fogo e com a ajuda de Gabriel preparou um jantar para os dois e mais os dois homens do caminhão, que lhes restituiu as forças.

Ele estava louco para se deitar com a Catxi. Na sua casa, no seu quarto e numa bela cama!

Jantaram a correr, também estavam cansados da longa viagem com tanta poeira e buracos, lavaram-se o melhor que puderam, arrumaram a cama, e para ele iria ser uma grande noite, feliz também porque a sua nova vida, independente, ia começar!

Catxi também se lavou bem, ficou mais linda e fresca foi ter com o seu homem.

Ninguém conseguiria descrever o que foi a noite deles. Não pararam. Acariciavam-se, abraçavam-se e por mais de uma vez tiveram que sair da cama e voltarem a lavar-se, porque o frio da noite não conseguia penetrar no calor que fazia entre os dois, o que os deixava a suar.

Só pararam quando o dia começou a despertar. Cansados, dois jovens que mostravam na cara o quanto estavam felizes.

O motorista do caminhão:

- Grande noitada, hein? senhor Gabriel!

- Estou em lua de mel!

- !?!?!?! Casou com essa negra?

- Negra? Essa agora. É a minha mulher. Dibanga, sabe o que é? Você já viu alguma mulher nua?

- Muitas.

- Que diferença encontrou entre uma que você chama negra, com ar de desprezo, e outra que talvez lhe chame branca? Não são iguais? Não têm duas pernas, dois braços, uma cabeça e tudo o mais que uma tem, não tem a outra? Oh! Senhor António. Parece que o senhor ainda não chegou a Angola.

- Desculpe, eu não quis ofender.

- Não ofendeu nada, mas aconselho-o a que vá a um médico dos olhos e depois me diga qual a diferença que encontrou.

O camionista assentiu com a cabeça e riu-se. Gabriel acabara de lhe dar uma boa lição.

Loja pronta, armazém arrumado, os clientes não tardaram a aparecer. No dia da inauguração Gabriel e Catxi convidaram o soba e seus conselheiros, abriram um garrafão de vinho, conquistaram a confiança da população. A balança para compra era a mesma para venda, o que em muitos lugares não se fazia, para roubar um pouco de cada lado!

Chegou a época da colheita do algodão e não tinham mãos a medir. Prevendo isso Gabriel comprara já uma balança maior e quase diariamente chegava um caminhão que, depois de bem carregado, ia dali direto a Malange de onde seguia pelo Caminho de Ferro para Luanda.

O preço era fixado pelos grandes oligarcas da Metrópole, donos de fiações e tecelagens e que só com preços esmagados conseguiam sobreviver no mercado nacional e internacional, ganhando ao mesmo tempo muito dinheiro, espremendo o quanto podiam os agricultores que viviam descontentes. Quando Gabriel pensava obter uma boa margem em cima da sua comercialização, sentiu que tinha que a reduzir quase a zero para continuar a merecer a confiança da população daquela grande região. Pouco ou nada ganhava no algodão, mas mantinha o comércio cada vez mais fiel.

Ao fim do dia sentava-se com a sua Catxi, que continuava a mantê-lo com os olhos só para ela, apesar da quantidade de outras que diariamente entravam na loja, algumas delas fazendo para ele aquele sorrisinho desafiante, mas que não o abalavam, e começou a ensiná-la a ler. A fazer contas foi bem mais simples. Entretanto já se notava que a sua barriga crescia e que estava próxima a chegada dum novo luso-angolano!

(continua)

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