segunda-feira, 19 de abril de 2010


MEU  PAI


Para falar de meu pai, JORGE DE LA ROCQUE GOMES DE AMORIM, tenho que começar por seu pai e meu avô Francisco, Gomes de Amorim - o outro avô era também Francisco, mas Frick – que após terminados os seus estudos gerais que lhe teriam permitido ingressar na universidade, face às dificuldades financeiras em que a família vivia – seu pai escritor e quase sempre doente e mais quatro irmãs que naquele tempo não saíam de casa para ir trabalhar – decidiu imigrar para o Brasil. Destino: Santa Maria de Belém do Pará, onde seu pai estivera e deixara amigos, entre ele Agostinho José de Almeida, padrinho do novo imigrante.
No dia em que se despediram, em Lisboa, o pai escreveu-lhe uma carta, bonita. Vale a pena ser lida, não só pelos meus filhos e netos e vindouros, mas por toda a gente, porque encerra uma profunda lição de dignidade. Já foi aqui divulgada em 17.Abril.2009, mas nunca será demais ler essa lição de dignidade e ética.

Meu avô, homem equilibrado e trabalhador, casava, quatorze anos depois da sua chegada, com uma doce criatura, minha avó paraense, Aurélia Da Costa de La Rocque.

Veio o primeiro filho chamou-se Francisco, para continuar a tradição da família, mas ao fim de um mês morria. O clima era difícil e as condições médico sanitárias mais ainda. Veio segundo filho, também Francisco e durou três meses. Os pais ficaram extremamente traumatizados e veio a terceira, filha, Albertina, o nome da sua avó paterna Albertina Teixeira de Melo, que com poucos meses lutava entre a vida e a morte com pneumonias e outras doenças a que os médicos não conseguiam dar solução.

O conselho foi simples: se quer salvar esta filha saia de Belém. Meu avô vendeu o que tinha conseguido juntar e regressou a Portugal. Remédio “santo” já que esta minha tia acabou falecendo nas vésperas de fazer 101 anos!

No ano seguinte nascia em Sintra, com o novo século XX, meu pai, Jorge, que a saúde dos primeiros irmãos, não deixou ser brasileiro, razão porque comecei com a ida do meu avô para o Pará!

Alegre, simpático, formou-se em engenharia silvícola - silvicultura - e desde cedo, o seu bom gosto e extrema sensibilidade, o leva para o planejamento de parques e jardins, sendo nomeado diretor do departamento de Urbanização e Jardinagem da Câmara de Lisboa.

Vivia-se na Europa, nos anos 30, sob a ameaça da expansão do comunismo que, poucos antes provocara a revolução russa. A Espanha estava dividida e logo entrava numa horrorosa guerra civil que dizimou um milhão de irmãos, e Portugal, se o comunismo se instalasse no país vizinho, não teria como escapar de igual sorte.

A ditadura, com Salazar, habituada a perseguições de caráter político e religioso que vinham desde há mais de um século, usava de todos os meios para impedir que isso acontecesse, e entre as medidas tomadas criou uma força paramilitar para atuar em caso da possibilidade da revolução vermelha atingir o país, que se chamou “Legião Portuguesa”, e para a qual entraram, voluntariamente, todos os portugueses que não queriam ver o seu país submetido à violência daquilo a que eufemisticamente se passou a chamar democracia popular, e que não foi mais do que uma violentissima ditadura, haja em vista os muitos milhões que Stalin e Mao Tse Tung assassinaram para impor um regime, que, por antinatural, acabou ruindo.

Meu pai entrou para a Legião, hoje vista em Portugal quase como algo fantasmagórico, brutal, inadmissível! E foi seu entusiasta, porque entendia ele, e muito bem, que se o país corria perigo, todos, todos, teriam que dar o seu contributo para o defender. Naquele tempo, e é necessário que se compreendam sempre “aqueles tempos” com os olhos “daquele tempo” e não com os de hoje, a Legião Portuguesa poderia ter sido chamada a operar como mais tarde trabalharam os membros da Resistência Francesa, contra um invasor, um inimigo. Não foi necessário, felizmente.

Naquela época, que eu ainda apanhei um período longo, todos vivemos sob a ditadura e não para a ditadura. Ainda mais os técnicos!

Entretanto remodelava os jardins de Lisboa, arborizava as ruas e a capital do país ia aparecendo cada vez mais bonita e arrumada.

Um dia, os setes filhos nascidos, morávamos ainda no segundo andar dum prédio na rua Almeida Brandão, à Estrêla, vésperas de Natal, um homem tocou à porta. Homem simples, trabalhador de enxada, a quem meu pai tinha conseguido emprego como jardineiro da Câmara. Roupinha lavada, grande perú vivo debaixo do braço, atraíu a meninada toda para a entrada da casa. Não que um perú fosse novidade, mas um perú, vivinho, “para nós brincarmos” num segundo andar... era um presentão!

Nosso pai apareceu também à porta. Recebeu o simpático aperto daquela mão calejada do trabalho e com o sorriso amável que era parte do seu ser, devolveu o perú ao pobre homem, contra a vontade da infantil assistência que já se antevia em correrias atrás do bichinho pela casa fora.

O homem insistiu. Que era uma lembracinha, que ele mesmo criara o perú, etc.. Não. O perú foi de volta, e não foi necessário explicar aos filhos aquela atitude, que no fundo, todos nós respeitámos e ainda hoje não esquecemos.

Ainda lembro de um dia 21 de Outubro, data da conquista de Lisboa aos mouros, estávamos talvez em 1941. O nosso pai entra em casa, chama os três (ou quatro?) filhos mais velhos, meus irmãos Luis com 12 anos, Helena com 11 e eu quase nos 10. Trazia umas moedas “lindas”, novinhas em folha, rebrilhando, de 2$50 cada. Vinte e cinco tostões, ou antes, “vintecincostões”. Para “comemorar” essa data, ao mais velho deu quatro moedas, a minha irmã duas e a mim... uma só, o que achei uma “injustiça” tanto mais que eu era “homem” e levara menos que minha irmã! E ainda recomendou que não gastássemos tudo de uma vez! Foi o que eu fiz, claro. Naquela mesma tarde comprei um chocolate e... pronto! Naquela tarde, sim, por nesse tempo todos tínhamos aulas de manhã e de tarde. No que respeita a educação e escolas, públicas, esses eram, sim, bons tempos.

Com a idéia de comemorar os oitocentos da independência do país e trezentos da libertação da tutela de Espanha, o governo decidiu promover um grande evento, em 1940, a “Exposição do Mundo Português”, tal como hoje se fazem as Expo´s por esse mundo fora.
A II Guerra Mundial rebenta um ano antes, impedindo que essa Exposição tivesse a repercussão que se esperava. Assim mesmo foi um enorme sucesso. Toda a decoração de plantas e jardins ficou a cargo do Eng. Jorge Amorim, que no final, pelo conjunto do seu trabalho aqui e em toda a cidade, foi agraciado com o grau de oficial da Ordem Militar de Cristo.


Reestruturavam-se também sob o comando do maior ministro que Portugal já teve, não o Marquês de Pombal, que fez obra mas enriqueceu e apropriou-se indebitamente de imensissimos bens, juntando uma das maiores fortunas do país, mas o Eng. Duarte Pacheco, o único homem público cuja visão se pode comparar ao também grande rei Dom Diniz. Reestruturavam-se os arredores de Lisboa, e com isto a transformação de morros desertos em parques florestais, como Monsanto. O projeto foi do arquiteto Continelli Telmo e a florestação a cargo de meu pai. Lisboa tem hoje uma cintura verde que, poucos sabem, mas foi começada a plantar em 1938. Sob proposta deste ministro meu pai foi também agraciado com a comenda da Ordem Militar de Santiago da Espada.

Quando ingressou na Câmara de Lisboa era o Eng. Duarte Pacheco o seu Presidente. Foi fácil o entendimento entre dois homens que se respeitavam e nunca deixaram de trabalhar juntos.

Por isso, em Novembro de 1943, lá foram juntos a Vila Viçosa, 150 quilometros de Lisboa, onde se estava a restaurar o Palácio dos Duques de Bragança. No regresso, atrasado como sempre para os seus compromissos, e desta vez para uma reunião de Conselho de Ministros, o carro que os transportava corria, tempo de chuvinha miúda, derrapou, saiu fora da estrada e no acidente morreram ambos.

Não pôde meu pai gozar de todo um trabalho profundo e até original que desenvolvera. Nem os filhos. Muito menos estes puderam aprender com ele. Com 43 anos deixou viúva e sete filhos, o mais novo com apenas ano e meio de idade.

Mas deixou muito mais do que isso: um sentido de respeito, bondade, dignidade e equilíbrio que acabou por nos ajudar a pautar a nossa conduta.



28/05/03

5 comentários:

  1. Sr. Francisco, como deve estar lembrado dias atrás entrei em contato. Como escrevi anteriormente, pertenço a Loja Maçônica Acácia Riograndense a qual seu bisavô João Frick foi membro. Nós estamos resgatando essa parte da nossa história (abolição), e para isso precisariámos se possível uma foto de João Frick, para colocarmos ao lado da de João Landell como os fundadores da primeira sociedade emancipadora de escravos do Brasil.E também se tiver algo mais que faça parte desta história, ficaremos gratos.

    José Paulo

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  2. Amigo José Paulo
    Perdi o seu endereço de email por isso não lhe respondi.
    P.f. confirme
    Francisco G. de Amorim

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  3. Bom dia. Trabalho sobre Historia Florestal de Portugal, e sobre os silvicultores Portugueses. Posso ter mais detalhes sobre os trabalhos do seu pai? Vi os seu relatório sobre cortiça, de 1929. Fantástico. muito obrigado Ignacio.pereda@euronatura.pt

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  4. Bom dia. trabalho sobre historia florestal de Portugal, e os silvicultores. Vi o relatorio do seu pais no ISA de Lisboa, de 1928. fantastico. posso ter mais detalhes sobre ele? ignacio.pereda@euronatura.pt

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  5. Sou genealogista. Se tiver interesse em documentos da família La Rocque em Portugal, especificamente a certidão de casamento entre Guilherme de La Rocque e sua esposa entre em contato em jmcostanunes@hotmail.com.

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