quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

 

Doações ou Ofertas – (2ª parte. Final)

 6.- A um dos “novos sobrinhos” que ganhei quando fui a Angola no “Mussulo”, Fernando Andrade, general na reserva que tinha sido o Comandante da Força Aérea, de quem fiquei muito amigo, infelizmente por pouco tempo, pedi um dia que levasse para o Instituto de Agronomia de Angola, em Nova Lisboa, uma interessante quantidade de livros sobre agronomia de angolana.

Já não lembro quantos foram, talvez uns trinta ou quarenta, todos de muito interesse.

O meu amigo achou a ideia muito boa, mandou buscar os livros aqui em casa, levou-os para Benguela, onde residia, e contatou o Diretor do Instituto, para fazer a entrega dos livros.

Escreveu-me logo a seguir: “Infelizmente são todos burros. Não se interessaram. Vou eu ficar com eles. Pode ser que um dia apareça alguém mais consciente”!

E assim a “Agronomia Angolana” ficou a secar em Benguela!

 

7.- Outra doação, feita há uns tantos anos, de pouco me lembro tanto mais que o meu PC apagou muita memória, onde estaria a troca de correspondência com o “doado”. Tenho lutado para estabelecer contato com a pessoa que me agradeceu, mas...

Recebido de um amigo que tinha “herdado”, um magnífico compasso, obra de arte, feito por um famoso metalúrgico alemão de Dresden. Guardado no seu, ainda, impecável estojo, tinha neste uma pequena placa com o nome do artista.

Foi fácil na ocasião encontrar a origem, porque teria sido professor universitário de mecânica no final do século XIX. Escrevi para Desden, Tecnische Universitat Dresden (traduzi pelo Google !) mandando a foto da peça (lindona) dentro do seu estojo e logo recebi uma carta, amável dizendo que dentro da Universidade tinham até uma sala no museu com as peças desse professor artista e a que eu lhes mostrava era para eles ainda desconhecida.

Disse logo que tinha prazer em doá-la, e assim foi despachada. Pouco depois recebi uma amável carta de agradecimentos, escrita em alemão e inglês mas que terminava com um MUITO OBBRIGADO!

De tudo isto só lembro do nome de quem assinava Andreas, que era o reitor – Chanceler – da Universidade. Voltei a escrever para lá.

Recebi há dias a seguinte mensagem:  

Dear Francisco Amorim,

Dr. Andreas Handschuh is no longer the chancellor of the TU Dresden as he is since 2022 the State Secretary in the Saxon State Ministry for science, culture and tourism.

Não desarmei e escrevi novamente, agora para a tal Secretaria de Estado. Este senhor deve lembrar-se da doação e poderá mandar-me os elementos que lhe pedirei: data da doação e foto da peça.

Faz parte também da minha história!

A ver!

 

8.- Quando vivi em Moçambique, 1971-75, era diretor da Biblioteca Nacional de Moçambique, Ruy Sanches da Gama, amigo, espírito culto, aberto, alegre.

Um dia telefona-me a pedir se eu lhe mandava uns quantos refrigerantes. Precisavam de fazer uma grande arrumação lá na Biblioteca, porque nalguns lugares havia infiltração de humidade, mas isso só podia ser feito fora de horas e não havia dinheiro para horas extras. Todos com boa vontade, ficavam até tarde, tinham que comer qualquer coisa à noite, mas nada tinham para beber. O Rui compraria umas sanduiches, mas precisavam de bebida.

Mandei logo umas caixas de Coca-Cola, 7-Up e também a cerveja 2M (para o final da festa!).

Como agradecimento o Rui mandou-me um cartão muito especial que, como se vê guardo até hoje com o maior carinho e saudade. Antológico:

Texto, Carta

Descrição gerada automaticamente

Na linguagem camoniana:

“Chiquíades”

Cessem das Reunidas e da Impala

A fama das bebidas que tiveram.

Ao pé desta que tanto nos regala,

Que da 2M, para cá, nos deram.

Gulbenkian, Rockefeller e outros assim

Não valem puto ao pé do Amorim.

 

Nota: “Reunidas” era a concorrente da 2M e Impala uma das suas cervejas.

 

Só para receber este cartão até teria mandado mais umas caixas!

Dois anos depois o vintecincobarraquatro desestabiliza tudo, e o Ruy antevê que deixar livros extra na Biblioteca seriam saqueados, como mais tarde vi na Guiné (onde comprei na rua livros dos antigos Serviços de Agricultura), e pergunta-me se eu quero guardar alguns. Tinha muita coisa repetida. Eu disse logo que quereria todos os que achasse que podia dispensar. Mandou-me uma boa quantidade da Revista de Moçambique, 48 números, que durante anos fui lendo e pesquisando, e até escrevendo sobre assuntos ali colhidos.

Fiquei a saber, por exemplo das magníficas pinturas rupestres e de antiquíssimas construções em pedra, coisa rara. Ótima publicação, com muita história e artigos científicos.

Uma imagem contendo comida, placa

Descrição gerada automaticamente

Perguntei para Moçambique se tinham esta publicação e a resposta foi a esperada: nem uma. Decidi então doar todos os volumes que tinha, e surgiu a ocasião especial. O meu amigo e Prof. Dr. Jorge Ferrão, hoje reitor da Universidade Pedagógica em Maputo, era na altura Ministro da Cultura.

Como é evidente o meu amigo embandeirou em arco, e as revistas, enviadas através da Embaixada de Moçambique no Brasil, lá seguiram e foram bem festejadas à chegada.

O “bom filho voltou a casa”!

 

9.- Querendo começar, aliás continuar a aliviar o meu escritório, com muito livro que nem eu nem ninguém voltará a ler, ofereci (ou doei?) talvez uns 200 livros, sobretudo de autores brasileiros e alguns portugueses (Machado de Assis, Alencar, Pompeia, Bilac e outros mais Camilo, Garrett, etc.) para a Biblioteca do Borel, uma famosa sanzala do Rio.

A ideia dos organizadores que vieram aqui a casa coma kombi pintada “Aceitamos Livros”, eram emprestarem livros a quem os quisesse ler. Voltariam mais tarde para pegar mais, mas nunca mais apareceram.

Telefonei-lhes. “Desistimos do trabalho! Ninguém se interessou.”

É pena. Paciência

 

10.- Como muitos sabem o meu bisavô FGA foi muito amigo de Almeida Garrett, seu discípulo, e biógrafo. As últimas palavras de Garrett foram para ele: “Amorim, já não o vejo” e fechou os olhos para sempre.

Os descendentes disseram a FGA que ele escolhesse alguns itens do seu “patrono”, como recordação, mas o bisavô não aceitou nada.

Ainda em vida Garrett tinha-lhe dado uma “faca” abra cartas, de marfim, em que tem escrito

“Pertenceu a Garrett

F. Gomes de Amorim.”

Interface gráfica do usuário, Site

Descrição gerada automaticamente

Muito bonita, um item ligado à história. (Garrett faleceu em 1854!)

A quem doar??? Não gosto da Universidade de Coimbra (apesar de ter pena de não ter lá estudado) pela politicalha que por ali reina. Ofereci à Biblioteca Nacional, em Portugal, que entusiasmadamente aceitou a oferta e para lá já foi enviada via diplomática. (Depois de muita briga com o Consulado aqui no Rio!)

Na BN sabemos que será conservada e exibida quando se falar no Grande Mestre Almeida Garrett.

 

11.- Entre muita coisa que guardei e foram do meu avô e do bisavô, estão “peças” que agora não interessam aos netos – tetranetos do meu bisavô FGA ! – algumas que são antigas, históricas e que entendi devem ser preservadas nos lugares mais aconselháveis, tal como foram as Revistas de Moçambique e muitas outras de que vou escrevendo.

Um incrivelmente bonito e muito raro retrato do rei D. Carlos de Portugal, tecido em seda (!) foi proposto ser doado à Fundação da Casa de Bragança.

Ficaram encantados com a oferta. Nem sabiam que existia tal coisa! E mais uma medalha de 1964, comemorativa da Consagração de Nossa Senhora da Conceição como Rainha de Portugal. A consagração de Portugal à Virgem Maria que teve extraordinárias consequências: 

- A coroa real deixou de ser colocada na cabeça dos monarcas portugueses.

- As cerimônias de ascensão dos príncipes herdeiros ao trono passaram a ser chamadas de Aclamação.

- A coroa real passou a ficar ao lado do trono, sobre uma almofada, pois pertencia à Virgem.

Ainda juntei a isto uma página do famoso álbum de Caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro com um “retrato” do Rei Dom Luis.

Livro com capa de disco de vinil

Descrição gerada automaticamente com confiança média    Desenho de uma pessoa

Descrição gerada automaticamente com confiança baixa

 

 Uma imagem contendo mesa, grande

Descrição gerada automaticamente    Moeda dourada em cima

Descrição gerada automaticamente

 

12.- Aí talvez em 1988, comecei a gostar de fazer alguns desenhos e sobretudo retratar amigos ou pessoas da família. Comecei a fazer alguns, a maioria não saía bem, mas fui insistindo e só depois de 95 “acelerei” um pouco a produção.

Fiz retratos da família, amigos, conhecidos e muita outra gente, e também muitos autorretratos porque o modelo se dispunha a isso.

 Nunca recebi 1 centavo! Uma única vez consenti em ser pago! Fiz os retratos de nove bisnetos de uns amigos que vivem em Portugal e eles mandaram-me uma bela garrafa de vinho e um ótimo queijo da Serra!

Alguns que mostram o “estilo do artista”

 

    Desenho de personagem de desenho animado

Descrição gerada automaticamente com confiança média   Desenho de pessoa com a mão no cabelo

Descrição gerada automaticamente com confiança média   Imagem digital fictícia de personagem de desenho animado

Descrição gerada automaticamente com confiança média

 

13.- Outra relíquia que veio de casa do meu avô foi um livrinho de 1865, que pesa 5 kilos, e que há anos tinha dado a um neto que estudava engenharia mecânica, que imagino jamais se tenha interessado, por ele.

O neto vive no Canadá e nunca quis saber do livro, impresso nos EUA, é um livro, além de raro, MUITO bem ilustrado, obra a guardar!

Imperial Cyclopedia of Machinery

 

Texto preto sobre fundo branco

Descrição gerada automaticamente   Caixa de madeira em cima

Descrição gerada automaticamente com confiança média   Uma imagem contendo no interior, mesa, velho, balcão

 

Voltou às minhas mãos, capas soltas, sem lombada, e eu que gosto dessas bricolagens, decidi restaurar o livro, e até refiz a lombada com pele de elefante!

Depois vi se havia algum à venda e só encontrei dois, nos EUA, por US$500 e $600.

Sabia que tinha que o entregar para onde fosse preservado.

Um grande amigo aquém pus o problema, dizendo que a faculdades oficiais eram ninhos de esquerdopatas... NÃO.

Outro grande amigo, oficial superior do exército, sugeriu o Instituto Militar de Engenharia, aliás a faculdade de engenharia mais antiga de toda a América Latina (ou só do Sul?), fundada em 1792, onde aliás ele também tinha estudado.

Contatou o reitor do Instituto, que agarrou logo a ideia, e vésperas de fim de ano lá fomos entregar o livro.

Recebidos por toque de clarim – para o meu amigo, não para mim! – todos os oficiais, professores, se encantaram com o livrinho.

Ficou em ótimas mãos.

 

14.- Sempre fui “apaixonado” por carros antigos. Tive vários, a começar pelo primeiro, comprado em 1953, um Tryumph Gloria 1934, conversível, 4 lugares, motor 1.000 cc, uma beleza! Depois um Rugby 1926, Sedan, que estava impecável quando o comprei em 1956! Em 1961 foi um Morris Minor 1932, motor de 600 cc. Depois não tive nem mais dinheiro nem tempo para comprar outros que me passavam debaixo do nariz e me deixavam saudoso. Comprei livros que agora doei/ofereci ao Clube de Carros Antigos do Brasil. Uns 40, belos livros.

Aqui estão eles os meus carros, arrumadinhos. Os meus não estavam tão bem, mas andavam lindamente!! E me deram muita vivência.

Lot 52 - 1934 Triumph Gloria Six 12.9hpCarro antigo estacionado na rua

Descrição gerada automaticamente Rugby Type R Sedan 1926 — Rainsford Collectable Cars

Abaixo as capas de 2 livros e o anúncio de um lindo Alvis

Texto

Descrição gerada automaticamente com confiança médiaDiagrama

Descrição gerada automaticamente Foto em preto e branco de caminhão antigo

Descrição gerada automaticamente com confiança média

 

15.- A mais importante doação que fiz em toda a vida foi o espólio literário do meu bisavô, Francisco Gomes de Amorim.

Natural de Averomar, Freguesia da Póvoa de Varzim, era o lugar indicado para guardar esse espólio, que além de muita coisa manuscrita tinha centena e meia de cartas de contemporâneos, como Garrett, Camilo, Herculano, Bulhão Pato, etc. incluindo espanhóis e outros europeus.

Fez-se, no Salão da Câmara Municipal da Póvoa, a cerimónia da doação mas como isso envolveu muito mais história, ficará para outros escritos.

 

12/01/2025

 

 

domingo, 12 de janeiro de 2025

 Faz tempo que não apareço!  Muita preocupação, muito trabalho, computador avariado, etc. Vou tentar voltar a comunicar um pouco mais. Espero que os leitores habituais não tenham desistido de me procurar!

Doações ou Ofertas? – 1ª parte

 

Doar ou dar? Em muitos casos ambos os verbos são indiferentemente aplicáveis, mas não se doa, por exemplo, “um aperto de mão ou um beijo em alguém”. Nem quando se um tapa na cara de outrem se pode dizer que doou. Talvez só que doeu!

Doar é mais elegante, vem do latim donare, e significa fazer dom! Dar, vem igualmente do latim dare e é mais para oferecer, outorgar, serve até para “dar uma sentença judicial” que nenhum juiz se lembraria do “doar” (talvez o xandão..........).

Dei, ou doei ?, muita boleia, ou carona ?, a muita gente. Em Portugal, França, Angola, Moçambique e Brasil, e as pessoas agradeciam com um sorriso que me servia de consolação.

Durante toda a minha ligeiramente longa vida, doei muita coisa e também dei muitas. Aqui vão algumas histórias.

 

1.- Devíamos estar em 1986. Não sei já onde encontrei um caro velho (igual a um em que tinha trabalhado há mais de meio século, o dono queria vendê-lo porque estava muito velho (o carro, do vendedor não lembro) mas ainda conseguia andar. Um Morris Minor (1956? 1960?).

Comprei-o, muito barato, para que os filhos, Luis, João, Tiago e Lourenço o restaurassem o que ficaria a valer bom dinheiro e seria uma coisa rara e bonita. Muito barato, é evidente que não estava bonito como o da foto! Saíam com ele para a farra, o carro parava e o pai que o mandasse rebocar! Vários avisos... não se importaram, cansei, avisei, não ligaram, dei o carro a dois marceneiros que trabalhavam comigo! Venderam logo a alguém que o ia pôr lindão, e por razoável valor!

 2.- Mais ou menos na mesma altura comprei também um pequeno veleiro, um Dingue, para que o Tiago se exercitasse na vela na represa de Guarapiranga. O Barco sem pintura como o da foto, mas todo envernizado em perfeitas condições para velejar.

O Tiago entusiasmou-se, foi muita vez para lá, criou amizade com um senhor que o ajudou nos primeiros dias, aprendeu os rudimentos da vela, mas com a sua vontade de ir sempre mais além, um dia abandonou o barco, porque queria coisa diferente, e o dingue ficou “lá” para apodrecer. Podia tê-lo vendido na Represa, mas... Fui lá buscar o mastro e ofereci o casco aos mesmos carpinteiros que fizeram dois remos e nos fins de semana iam pescar!

 

3.- Aí por 89/90 senti que o negócio das “cafonas” mesas de som ia acabar, como a da foto, e algumas muito mais sofisticadas (que me deram bom dinheiro), e tive que redirecionar a minha vida.

Tinha montado uma carpintaria com todas as máquinas necessárias e, em vez de abandonar os carpinteiros, ofereci-lhes todo o equipamento (serras, plainas, desengrossadeira, bancadas, tudo) para que ficassem autónomos. Um deles, tranquilo, infelizmente faleceu pouco depois. O outro levou tudo para sua casa, montou a sua carpintaria e com isso viveu bem.

 4.- Outra história de carros: em 1985 dei ao nosso filho Chico, já casado, um VW TL, 1600, azul, já entrado de anos (1970?), mal cuidado, pintura decadente, que custou baratinho. Andava e... falhava um pouco!

Nessa altura o Chico era ainda um motorista bem distraído (!), nada entendia de mecânica, o carro precisava de cuidados e ninguém cuidava dele. Andava... aos tombos, mas andava. Um dia a polícia mandou-o parar, constatou que o carro não estava em condições de circular, e o Chico tomou a decisão certa: foi embora e deixou o carro entregue aos polícias. Nunca mais se soube dele.

 

5.- Aí por 1969 um grande amigo e primo, comandante do navio Vera Cruz, pediu ao carpinteiro de bordo, que fizesse uma miniatura do meu veleiro Argus, projeto de um arquiteto naval americano de 1911. Eu tinha os planos, entreguei-los planos, fez um “estaleiro” na sua oficina do navio, e saiu uma perfeição. Construído como o original. No “estaleiro”: 


A navegar! Era uma lindeza!

Pronta a maquete, linda, guardei-a, exibi-a durante muitos anos até que chegou uma altura em que não cabia em lugar algum na nossa casa. Dei-a ao Tiago. Não passou muito tempo e o barquinho (cerca de 70 cm. de comprimento) ficou sem lugar onde “fundear”. Regressou a casa, velas rasgadas, mastro... etc. Reconstruí-o todo, ficou lindão, e ofereci-o (doei!) ao Club Naval de Luanda, onde tinha feito a sua vida inscrito com o número 29. Foto abaixo à direita. À esquerda acabada a restauração. 

      

Está hoje em lugar de destaque em Luanda.      

Quem quiser saber mais da saga da viagem do Argus para Luanda:

https://fgamorim.blogspot.com/2017/02/a-argonautica-do-argus-os-argonautas-em.html .

 6.- A um dos “novos sobrinhos” que ganhei quando fui a Angola no “Mussulo”, Fernando Andrade, general na reserva que tinha sido o Comandante da Força Aérea, de quem fiquei muito amigo, infelizmente por pouco tempo, pedi um dia que levasse para o Instituto de Agronomia de Angola, em Nova Lisboa, uma interessante quantidade de livros sobre agronomia de angolana.

Já não lembro quantos foram, talvez uns trinta ou quarenta, todos de muito interesse.

O meu amigo achou a ideia muito boa, mandou buscar os livros aqui em casa, levou-os para Benguela, onde residia, e contatou o Diretor do Instituto, para fazer a entrega dos livros.

Escreveu-me logo a seguir: “Infelizmente são todos burros. Não se interessaram. Vou eu ficar com eles. Pode ser que um dia apareça alguém mais consciente”!

E assim a “Agronomia Angolana” ficou a secar em Benguela!

 

7.- Outra doação, feita há uns tantos anos, de pouco me lembro tanto mais que o meu PC apagou muita memória, onde estaria a troca de correspondência com o “doado”. Tenho lutado para estabelecer contato com a pessoa que me agradeceu, mas... sem êxito.

Recebido de um amigo que tinha “herdado”, um magnífico compasso, obra de arte, feito por um famoso metalúrgico alemão de Dresden. Guardado no seu, ainda, impecável estojo, tinha neste uma pequena placa com o nome do artista.

Foi fácil na ocasião encontrar a origem, porque teria sido professor universitário de mecânica no final do século XIX. Escrevi para Desden, Tecnische Universitat Dresden (traduzi pelo Google !) mandando a foto da peça (lindona) dentro do seu estojo e logo recebi uma carta, amável dizendo que dentro da Universidade tinham até uma sala no museu com as peças desse professor artista e a que eu lhes mostrava era para eles ainda desconhecida.

Disse logo que tinha prazer em doá-la, e assim foi despachada. Pouco depois recebi uma amável carta de agradecimentos, escrita em alemão e inglês mas que terminava com um MUITO OBBRIGADO!

De tudo isto só lembro do nome de quem assinava Andreas, que era o reitor – Chanceler – da Universidade. Voltei a escrever para lá.

Recebi há dias a seguinte mensagem:  

Dear Francisco Amorim,

Dr. Andreas Handschuh is no longer the chancellor of the TU Dresden as he is since 2022 the State Secretary in the Saxon State Ministry for science, culture and tourism.

Não desarmei e escrevi novamente, agora para a tal Secretaria de Estado. Este senhor deve lembrar-se da doação e poderá mandar-me os elementos que lhe pedirei: data da doação e foto da peça.

Faz parte também da minha história!

A ver!

12/01/2025

domingo, 10 de novembro de 2024

 

NO  PAÍS  DO  FAZ-DE-CONTA

 

Não há dúvida.

Com sete filhos, em 1975 ficar em Angola ou Moçambique estava completamente fora de causa.

Como já tinha estado no Brasil logo descartei esta hipótese tendo mesmo dito que para o Brasil só iria arrastado!

Meti-me a caminho do Mundo à procura de pouso para a numerosa família.

Portugal, desemprego em alta, aversão aos “retornados”; estava podre. (e continua bastante).

Fui a Bruxelas onde era muito considerado por uma grande firma de rações para animais, mas... a firma tinha sido vendida e fechada!

Dali, Canadá. Duas magníficas ofertas de trabalho. Mas precisava primeiro do visto de residente, que o secretário da Embaixada do Canadá em Portugal, que visitei antes de me meter a caminho, me havia dito que, com o meu curriculum, o visto era garantido. Pedi logo para mo darem indicando as ofertas que me propuseram. A resposta chegou “logo” ... seis meses depois! Perdi as hipóteses do Canadá, altamente prometedoras.

Ainda passei na Venezuela, mas... aquilo era uma bagunça. Ainda é. Até está pior.

Tinha um grande convite para me juntar a um dos maiores amigos, ex-sócio em Portugal quando ainda solteiros; estava na Austrália, bem de finanças e oferecia-me metade do que tinha como eu lhe oferecera quando sai de Portugal toda a minha participação numa sociedade verbal, que funcionava muito bem e nos dava com regularidade um acréscimo às magras finanças.

Decidi meter-me a caminho de Melbourne, num voo que parava no Rio de Janeiro, Santiago do Chile, Ilha de Páscoa, etc. Pelo caminho fui-lhe telefonando, mas ninguém respondia. Não podia desembarcar em Melbourne sem ele lá estar!

Fui ficando no Rio até o conseguir apanhar, mas ele tinha-se dado três meses de férias com uma jovem esposa – a terceira – e cheguei a pensar até que teria morrido.

Resultado: fiquei mesmo no Brasil que eu tanto não queria. Há quase meio século nesta bagunça!

Apresentei o meu curriculum – farto e forte – a duas empresas especializadas em gestores. Grandes elogios, com este curriculum vai ser fácil, em breve lhe telefonaremos, etc. Até hoje ainda não telefonaram...

Tive que me virar sozinho, passei o que o demo amassou, engoli e sobrevivemos. Até cadeiras, com a minha mulher, estofámos várias centenas, que depois eu ia entregar aos clientes!

Não mudou o país, e tem situações de um caricato, absurdo, que é por exemplo, o preço dos medicamentos.

Tanto eu como a minha mulher temos medicação ad vitam, de modo que estou sempre a comprar, e ontem lá foi mais uma quantidade.

Total dos “preços oficiais” R$422,40 !!! Desconto $297,47 !!!!!! Final a pagar $124,93 !!!!!!!!!!!
Jamais alguém poderia pensar que haveria em farmácias descontos de 71%. Chamam a isto desconto, quando é o preço real.

Mas o “gado”, i.é o povo, acha que lhe estão a fazer um favor e o Ministério da Saúde não moraliza esta situação porque a força do lobby das indústrias farmacêuticas junto do cão-gresso é tal que ninguém se atreve a mexer nesta insanidade.

Como também aquele outro absurdo, de que tanto tenho escrito, que é obrigar os rótulos de tudo que é alimento ou bebida ter a indicação Não contém glúten !

A culpa não é só do Peter (Laurence Peter – O Princípio de Peter) preenchendo lugares de responsabilidade nos governos com semi analfabetos, é sobretudo o aparelhamento governamental com apaniguados e dependentes políticos onde se incluem esposas/os, namoradas/os, amantes, sobrinhos/as, parentes, o que a grande maioria da população almeja: um cargo público.

Emprego eterno, não pode ser despedido, não faz quase nada, complica e estraga o que lhe passa nas mãos e o país só cresce porque além das suas potencialidades naturais sempre aparecem empreendedores capazes.

É evidente que há funcionários públicos capacitados, mas não podem criticar gestos de colegas. Convivem, fazem o que podem, e o resto... entregam a Nossa Senhora Aparecida, que tem mais o que fazer do que corrigir os analfabetos e prioritariamente os corruptos. Não é esse o papel da Senhora.

Creio que nem o Peter Pan gostaria de aqui viver.

E ainda falta referir que as universidades são, há já uns quantos anos, o berço da lavagem política de cérebros. Grande quantidade dos que por lá passam continuam a achar que o sapo-barbudo é ótimo, e que o socialismo-caviar é melhor do que uma política centrada na ética, transparência, educação verdadeira (como história sem heróis fingidos, nem renegando o passado), e muita dedicação e atenção ao desenvolvimento social.

Pois é, aqui todos riem e o narcotráfico, com apoio do governo e dos supremos tribunais, domina a maioria das cidades, manda e desmanda e...

... é nós os cidadãos comuns, de mãos atadas fingimos que o país tropical, à beira mar plantado, com todo o seu esplendor , que podia estar entre os três primeiros do mundo, é ... é o quê? Bonito? Isso é, praias maravilhosas, povo carinhoso e trabalhador, mas os governos esquecem que a

Fome no Brasil: em 5 anos, cresce em 3 milhões o nº de pessoas em situação de insegurança alimentar grave, diz IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Cerca de 10,3 milhões de brasileiros vivem em lares nessa situação.

Percentual de domicílios com alimentação satisfatória atinge patamar mínimo em 15 anos.

Além do aumento da população que passa fome no país, a pesquisa mostrou também que:

·         O Brasil atingiu o menor patamar de pessoas com alimentação plena e regular.

·         A fome é mais prevalente nas áreas rurais.

·         Quase metade dos famintos vive na Região Nordeste do país. (Onde o PT sempre ganha)

·         Metade das crianças com até 5 anos tem restrição no acesso à alimentação de qualidade.

·         Mais da metade dos domicílios onde há fome são chefiados por mulheres.

·         Quanto maior o número de moradores no domicílio, menor é o acesso à alimentação plena.

·         Arroz pesa mais no orçamento de famílias com insegurança alimentar, aponta IBGE

·         Brasileiros gastam mais com jogos e apostas que com arroz, aponta IBGE (à espera do milagre da loteria que... só sai para o PT).

Classificado pelo IBGE como segurança alimentar, o acesso pleno e regular aos alimentos de qualidade - em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais - atingiu o menor patamar em 15 anos.

 

É isto o País do Faz-de-Conta: finge que está tudo bem.

Para o presidente está: foi a Abu Dhabi, levou, além da esposa-amada e metida a esperta, uma comitiva de quase 100 capangas. E ficou num hotel a US$ 10.000 por noite, quando teria aposentos, grátis, off course, na Embaixada do Brasil.

Ó Lula!!! E a fome?????

- Kéké isso de fome? Eu até só bebo Romanée Conti e como a melhor carne da JBS. Não sei o kéké isso de fome.

Tá certo, ó condenado pela justiça, não absolvido. Ainda tens um ano para roubar.

Mas Faz-de-Conta que está tudo bem.

 

09/11/2024

 

 

domingo, 3 de novembro de 2024

         DONDE VIEMOS?  PARA ONDE VAMOS?


São poucas as perguntas que pusemos no título do que hoje vamos tentar escrever.

Sabem que tenho escrito pouco, problemas muitos, psicologicamente muito derrubado, fisicamente a minha incurável doença, que se chama 1931, não tem perspectivas de melhora, e a inspiração de escrever, com tanto problema na cabeça a que ainda tenho que atender e resolver quando é possível, me têm mantido afastado da escrita. Incapaz.

Voltemos ao título, e completemos as perguntas, que tanto pensador já fez: “Por quê viemos? Para quê?”
Os chineses diziam, há muitos séculos, que se conseguissem uma lupa com visão ao infinito, e por ela espreitassem, o que lhe apareceria, uma vez que estariam curvados na observação, seria o seu próprio “traseiro”!

Voltaire foi mais direto: “Os filósofos são como dançarinos; partem de um ponto, ágeis, volteiam graciosamente mas voltam sempre ao mesmo ponto!”

E nós?

Uns a roubar, rindo e cuspindo nos pobres e desventurados, outros procurando seguir A Palavra, ainda outros à procura da Verdade, como Buda, como ao morrer disse que não a tinha conseguido encontrar, e a esmagadora maioria indo de cá para lá e de lá para cá, sem pensar, desligados os neurónios para não incomodarem.

Eu não sei a que tipo pertenço, mas sinto a cabeça cheia de problemas: às vezes algumas alegrias me distraem mas ultimamente muita dor e tristeza, poucas interrogações, porque sei que não há resposta, sendo obrigado a seguir em frente, sem saber o por quê e o para quê.

Muito interessante os estudos filosóficos sobre o “livre arbítrio”, uma liberdade condicionada “a priori”, pela cor da pele ainda hoje, a família, o clima, a educação, a escola ou faculdade, a religião, alguns até consideram nessa conjuntura o signo zodiacal! Mas sobretudo pela política, pelos governantes, pelas finanças, e uns quantos outros detalhes.

O Brasil já esteve mais perto dessa liberdade, mas desde 1500 sempre liberdade condicionada, limitada, muita vez até perigosa.

O mundo vive numa mentira cada vez maior, mais destruidora, não só em países de terceiro mundo como em todos os outros.

Há poucos anos, na Noruega, um dos países com “o melhor IDH” (!) do mundo, uma mulher já de idade avançada foi assaltada por um imigrante ainda sem estatuto de residente, e queixou-se ao tribunal. O juiz, como a mulher não foi atacada, mas “simplesmente” ameaçada e roubada, obrigou-a a pagar as custas do processo e a uma multa equivalente a 15% do valor da sua aposentadoria, já de si miserável. Liberdade, isto?

Por aqui a liberdade é pouco mais do que uma palavra que se encontra “ainda” nos dicionários, mas mais do que limitada, cerceada, vendida.

A censura é uma profunda realidade, uma triste nódoa em todo o mundo, e nesta “terra de boa gente” tem dois processos de a usar. Um pela compra da maioria da mídia, com dinheiro que o governo subtrai ao desenvolvimento do país e a outra por meios policiais comandados por quem nos devia proteger, a Justiça.

Há talvez uma dúzia de anos, um dos meus filhos organizou, com autorização da prefeitura local, uma festa rave (só música eletrônica) numa cidade a pouco mais de uma centena de quilômetros do Rio. Festa ao ar livre e, como acontece em todas essas festas, a droga correu à vontade, porque sempre há quem venda e quem compre. A polícia entrou, e além de prender um ou outro traficante conhecido, prendeu o organizador da festa que nada tinha que ver com o que o público fazia.

Enjaulado como um bandido, numa gaiola para quatro ou cinco, onde trancafiaram uns quinze ou mais, foi a julgamento naquela cidade e condenado com este “brilhante” argumento do juiz: “Na minha cidade não quero essas festas. Não gosto de festas rave, por isso o condeno!”

O juiz sentia-se o dono do mundo. Ali, era. Recorreu-se da sentença e na segunda instância, no Rio, o desembargador, anulou a sentença e libertou-o de imediato.

Esse “livre arbítrio” hoje está sujeito ao, que escreveu Laurence Peter: Num sistema hierárquico, todo funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetência!  O famoso princípio de Peter, no Brasil, não existe; aqui o que rege é o compadrio político, a ganância do poder pelo poder, para enriquecimento fácil e rápido, sem que alguém se preocupe com a capacidade do comparsa que vai "governar”.

A fobia é tal magnitude que a Polícia Federal chega a prender, por exemplo, governadores e seus assessores, todos os magistrados, desembargadores de um tribunal de justiça, presos esses que nunca vão pagar o que roubaram, nem entram numa cadeia como presos comuns.

Agora o des-governo prepara o maior desastre que a Amazônia vivenciou até hoje, e têm tido imensos e profundos desastres.

Há anos que a esquerda-caviar se prepara para destruir o país. Vale a pena dar uma rápida lida no que escrevi no neste blog, há quatro anos, sobre Roraima (procurar “Roraima”; posta em 14/fev/20). Já o processo estava em marcha.

Agora, saiu uma lei que mostra com clareza, as intenções:

Militares são excluídos da gestão do projeto Calha Norte, considerado crucial para a defesa nacional

“O Programa Calha Norte sempre teve como objetivo não só o desenvolvimento, mas também a presença militar em áreas estratégicas para a soberania nacional”, declarou um oficial das Forças Armadas.

Os comandates militares das três forças, paus mandados, aceitam tudo, exibem-se cheios de condecorações, incapazes de reclamar porque o vencimento que auferem, exorbitante, ferem o estado de pobreza de grande, grande parte do país. A mamata é gora. O país que se dane.

Este comentário, que me mandou um oficial superior: define bem do que está em andamento:

O intuito parece ser a criação, por pressões internacionais, de um narcoestado indígena, corrupto como os miseráveis países africanos assentados em riquezas do subsolo, e vulnerável o suficiente para ceder seus recursos naturais a países interessados.

Como é evidente trata-se de um imensíssimo negócio. Não se vende a Amazônia por uns “mireis”! Há certamente largos mi ou bilhões envolvidos, e a porta aberta ao comunismo Rússia-China.

Militares afastados do controle da Amazônia significa, em breve tempo a perca de toda aquela região.

Alguém reclamou? O famigerado e super corrupto STJ – o supremo mandante nesta terra – não se manifestou. Está tudo mancomunado.

E o tal “livre arbítrio”? Os militares da ativa estão proibidos de se manifestarem, os civis não têm suporte para fazer valer as suas opiniões, o “sapo-barbudo” que nada governa, assina tudo porque lhe rende muito dinheiro, e continua a passear pelo mundo, levando uma cáfila de comparsas, como na ida a Dubai, onde uma centena de apaniguados o acompanhou, e se hospedaram em hotéis de 10 ou mais milhares de dólares por dia!

Disse há dias a um amigo que tenho pena de não ter nascido uns dez anos mais cedo. Já aqui não estaria para ver o desmonte de uma civilização, de uma cultura e do assassinato da ética e da moral.

Vejo o panorama apocalítico aproximar-se e nada posso fazer.

Triste fim de uma já longa vida

 

03/11/2024

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Esta não é uma nova Postagem"! Texto escrito em 2003 e posto neste blog em 2011. Mas, haverá ainda quem se lembre ou discorde?


 É de supor, pelo interesse sempre demonstrado pelos portugueses, que poucos se lembrem da chegada do € euro a Portugal. Foi uma festa. Uma euforia. Estavam ricos, iguais à Alemanha, França, etc.

E vá de gastar, comprar, comprar, conceder empréstimo para tudo (banco quer é juros), fazer estradas e... os investimentos produtivos ficaram esquecidos os postergados... ad semper. Esqueceram.
Foi em Janeiro de 2002, que o € entrou em Portugal como os generais em Roma depois duma grande vitória!
Em Março de 2003 escrevi este texto que parece continuar a ser oportuno para lembrar as burradas (crimes) que fazem os políticos e os “homo pseudo-sapientes” nas coisas da economia.

 

A história, a inflação, as moedas e...



Hoje vou contar-lhes uma história. Aliás, para ser verdadeiro vou mostrar uma história escrita há muitos anos...

Era uma vez... - a bem da verdade também não era a primeira vez, mas façamos de conta que sim, para nos deixarmos de entretantos e irmos aos finalmentes - juntaram-se uma porção de nobres, ou reis ou presidentes e, com uma pseudoconsulta feita às gentes das suas terras, ou países, ou regiões, ou aldeias, decidiram mudar a moeda circulante. Bem dito, melhor feito.
Ninguém se lembrou (será que conheciam?) a mais elementar lei de mercado: a economia, que é um animal vivo, vivissimo, cujo domador é o intermediário, ou comerciante, ou... a lei da oferta e da procura! Enfim, como queriam uma moeda forte (moeda só é boa quando existe na mão do povo, mesmo sendo fraca; se for bastante, torna-se forte!) resolveram criar uma que valesse bem mais do que a existente e conhecida.

De entrada foi uma alegria confusa. Uns pensavam que pela moeda ser “forte” ficariam ricos, raros entendiam o novo câmbio, e os atravessadores - comerciantes, fabricantes, etc. - logo se aproveitaram para “arredondar” tudo para cima. Pouco. Só, só umas “migalhitas” de dez ou vinte por cento!

Faz contas, calcula câmbio, troca uma moeda por outra, de repente o povo clamou: “Mas a vida está carissima! Porquê?”

No Brasil, acostumados com mudança de moeda, retirada de zeros, muitos zeros, inflação de até oitenta por cento ao mês, e outras “singularidades da França (?) antártica”, a troca de moeda, sempre favorecendo os mesmos intermediários, como é óbvio, era recebida com naturalidade. Mais moeda, menos moeda... aliás, sempre menos moeda, já era o “pão nosso de cada dia”, quando pão havia nesse dia.

Mas e na Europa? Ah! Na Europa só os ingleses devem ter lido a história e ficaram fora dessa! Agora os “europeus unidos” (para não serem vencidos) choram amargamente a nova moeda imposta de cima para baixo como canga. Aguenta...
Ora leiam a história abaixo que, segundo reza e será verdade, mostra que há setecentos e cinquenta anos se passou exatamente o mesmo! O maravedi que se desdobrava em cento e oitenta pipiões e metaes, passou a desdobrar-se somente em noventa burgaleses e soldos, deixando de haver “dinheiro miudo”!
Ninguém parece ter aprendido e quem paga sempre “o pato” para variar, é o povo!

SUBIDA AO TRONO DE AFONSO X


CRÓNICA DEL REY DOM AFONSO O DEZENO DE CASTELA E LEOM


[CAPITULO 1]


Do reynado del rey dom Afonso, filho deste rey dom Femando, e das parias que lhe dava el rey de Graada. E como mudou as moedas en começo de seu reynado e doutras cousas que fez.
1 Morto el rey dom Femando, alçarom por rey de Castela e de Leom, na muy nobre cidade de Sevilha, onde el finou, o infante dom Afonso, seu filho, primeiro herdeiro. E começou de reynar aos XXIX dias do mes de Mayo da era de mil e duzetos e novêeta annos; e andava a era de Adam en çinquo mil e XXVII ãnos ebraicos e duzentos e oiteenta e sete dias mais; e a era do diluvyo en mil e trezentos e çinquoenta e tres annos romãaos e cento e çinquo dias mais; e a era del rey Nabucodonosor en mil e novecentos e noveeta e oito annos romãaos e mais XXII dias; e a era do grande Phillipe, rey de Greçia, en mil e quinhentos e seteenta e tres annos romãaos e XXII dias mais; e a era do grande rey Alexandre de Macedonia en mil e quinhentos e sesseenta e dous annos romãaos e duzentos e quareeta e quatro dias mais; e a era de Cesar en mil e duzentos e LXXXIX ãnos romãaos e cento e çinquoeeta dias mais; e a era da nacença de Jhesu Cristo en mil e duzentos e LII annos; e a era de Gallizanos, o Egiptiãao, en oitocentos e LXVIII ãnos; e a era dos aravigos en seisçetos e viinte e nove annos; e a era de Sparsiano, segundo a era dos Persiãaos, en seis centos e XX ãnos.
2. E reinou este rey dom Afonso XXXII ãnos e foy / o dezeno rey de Castela e de Leon que per este nome foy chamado.
3 Este rey dom Afonso, en começo de seu reynado, firmou por tempo certo as posturas e aveeças que el rey dom Femando, seu padre, avya posto con el rey de Graada; e que lhe desse aquellas parias que dava a el, pero que lhas non derom tam compridamente como as davam a el rey dom Femando, seu padre.
4 Ca, en tempo deI rey dom Femando, lhe dava el rey de Graada a meatade de todas suas rendas que eram apreçadas a seis centos mil maravidiis da moeda de Castela. E esta moeda era de tantos dinheiros o maravidil que chegava a valer o maravidil tanto como huu maravidil d'ouro, por que, en aquel tempo del rey dom Fernando, corria en Castella a moeda dos pipiõoes e no regnado de Leon a moeda dos leoneses; e, daqueles pipiõoes, valia cento e oiteenta o maravidil.
5 E as compras pequenas faziãnas a metaaes e a meos metaaes que faziam XVIII pipiõoes o metal e dez metaaez o maravidi. E destes maravidiis eram apreçadas as rendas do reyno de Graada en seiscentos mil. E davam a el rey dõ Fernãdo a meatade daquelas rendas.
6 E, como quer que el rey de Graada desse estas parias a el rey dom Fernando, por que o leixasse viver em paz, pero mais lhas dava por manieyra de reconheçimento, por que este rey dom Fernando deu ajuda de gentes e doutros logares do reyno a este rey de Graada contra huu linhagen de mouros que eram seus cõtrairos muy poderosos e chamavanlhes os d'Escabuuvela.

7 Este rey de Graada foy o primeiro rey a que chamaron Abenalhamar. E ajudouho sempre el rey dom Fernando en toda sua vida, de guisa / que nuuca se lhe poderon alçar os mouros daquel reyno. E por estas razõoes avya el rey dom Fernando dos mouros tã grãde contia d'aver en parias.

8 El rey dõ Afonso, seu filho, no começo de seu reynado, mandou desfazer a moeda dos pipiões e fez lavrar a moeda dos burgaleses que valiam noveeta dinheiros o maravidil. E as compras pequenas fazianse a soldos; e seis dinheiros daqueles valiã huu soldo; e quiinze soldos valiam huu maravidil. E destes lhe dava cada ano el rey de Graada duzentos e çincoeenta mil maravidiis.

En este tempo, per os mudametos destas moedas, ecarecerõ todalas cousas nos reynos de Castella e de Leon e pojaron a muy grandes cõtias.

9 En aquel primeiro ano, se trabalhou el rey de fazer as cousas que entendeo que eram prol de seus reynos. E basteçeo e requeri o as villas e logares e casteIlos que erã fronteiros dos mouros e esso meesmo as villas e logares do reyno de Murça que elle guaanhara en vida del rey dom Fernãdo, seu padre, seendo iffante, as quaaes erã pobradas de mouros.

10 E, como quer que os ricos homees e cavaleiros e infanções e filhos d'algo de seus reynos vivyam cõ elle en paz e en assessego, pero elle con grãdeza de coraçõ e por os teer mais prestes pera seu serviço quando os mester ouvesse, acrecentouIhes nas contias muyto mais do que avyam no tempo del rey dom Fernando, seu padre. E outrossy, das suas rendas, deu a algus delles mais terras das que tiinham e outros que as ataaly non ouveron deulhes terras novamente. E, por que a estoria trage o conto dos anos deste rey des o mes de Janeiro, poserom estas cousas sobreditas nos primeiros sete meses deste anno de mil e duzentos e noveenta annos.



[CAPITULO 5]

Como el rey pos almotaçarias en todalas cousas e as tirou depois



1 Enno quarto anno do reynado deI rey dom Afonso, lhe veerom muytas querelas de todallas partes de seus reynos, que as cousas eram assy caras e postas en tã grandes contias que as gentes as non podiam aver. E por esta razom pos el rey almotaçarias en todallas cousas, quanto cada hua ouvesse de valer.

2 E, como quer que, ante que el rey esto fezesse aos homees era muy grave de as poderem aver, muyto peor as ouveron depois por que os mercadores e os outros que as tiinham pera vender guardavãnas que as non queriã mostrar.

3 E por esto se viron as gentes en tam grande afficamento que el rey ouve de tyrar as almotaçarias e mandou que se vendessem as cousas livremete por os preços que se as partes aveessem.

4 E non se acha en este anno outra cousa que de contar seja que a esta estoria perteeça.



Curioso, né? Porque os governantes de hoje (e de ontem) não aprendem mais com a história?

O texto acima foi retirado da “Crónica Geral de Espanha de 1344” .

01/03/03