quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013




Que povo pode escrever na sua História, com letras de ouro, alguns dos primeiros, alegres e carinhosos encontros com novas gentes, como aconteceu com os portugueses?
Convidar um “selvagem” para ir comer a bordo, na mesa com o Capitão, deixá-los passar a noite a dormir a bordo, e no dia seguinte mandá-los de volta a terra, todos elegantemente vestidos e com presentes; quem mais fez isso?
E logo nos primeiros contatos sairem a terra e aos som de músicas nativas e portuguesas dançarem juntos?

Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral
As primeiras danças com nova gente


Vasco da Gama *

À terça feira, (7 de Novembro, 1497) houvemos vista duma terra baixa e que tinha grande baía... à qual puseram o nome de Baía de Santa Helena. (Ainda hoje assim se chama e aí foi morto em 1510 D. Francisco de Almeida).
À quarta-feira lançámos âncora e estivémos oito dias limpando os navios, corrigindo velas e colhendo lenha.
Nesta terra há homens baços, que não comem senão lobos marinhos e baleias, e carne de gazelas e ervas, e andam cobertos com peles e trazem umas bainhas em suas naturas, e têm muitos cães como os de Portugal e assim ladram.
Ao outro dia que foi à quinta-feira saímos em terra com o capitão-mor e tomámos um homem daqueles, o qual era pequeno de corpo e se parecia com Sancho Mexia; e andava apanhando mel na charneca, porque as abelhas naquela terra o fazem ao pé das moitas, e levámo-lo à nau do capitão-mor, o qual o pôs con­sigo à mesa, e de tudo o que nós comíamos comia ele.
E ao outro dia (Novembro 10) o capitão-mor o vestiu muito bem e o mandou pôr em terra.
E ao outro dia seguinte vieram 14 ou 15 deles aqui onde tínhamos os navios. E o capitão-mor foi em terra, e mos­trou-lhes muitas mercadorias para saber se havia naquela terra alguma daquelas coisas. E as mercadorias eram canela, e cravo, e aljôfar, e ouro e assim outras coisas, e eles não entenderam em aquelas mercadorias nada, como homens que nunca as vi­ram; pelo qual o capitão-mor lhes deu cascavéis (guizos) e anéis de estanho. E isto foi à sexta-feira [Novembro 10] e isso mesmo ao sábado seguinte.
E ao domingo [Novembro 12) vieram obra de 40 ou 50 deles, e nós, depois que jantámos, saímos em terra e, com ceitis que levávamos, resgatámos conchas que eles traziam nas orelhas, que pareciam prateadas, e rabos de raposa, que tra­ziam metidos em uns paus, com que abanavam o rosto. Onde eu resgatei uma bainha, que um deles trazia em sua natura, por um ceitil; pelo qual nos parecia que eles prezavam o cobre, porque eles mesmos traziam umas continhas dele nas orelhas.
Nesse mesmo dia um Fernão Veloso, que ia com o capitão-mor, desejava muito ir com eles a suas casas, para saber de que maneira viviam e que comiam ou que vida era a sua. E pediu por mercê ao capitão-mor lhe desse licença para ir com eles a suas casas. E o capitão, vendo-se importunado dele, que o não deixava senão que lhe desse licença, o deixou ir com eles; e nós tornámos ao navio do capitão-mor a cear, e ele se foi com os ditos negros. E, tanto que eles de nós foram apartados, tomaram um lobo marinho e foram-se ao pé duma serra, em uma charneca, e assaram o lobo marinho; e deram dele ao Fernão Veloso, que ia com eles, e das raízes de ervas que eles comiam. E, acabado de comer, disseram-lhe que se viesse para os navios; e não quiseram que fosse com eles.
E o dito Femão Veloso, como veio em direito dos navios, começou logo de chamar e eles ficaram metidos pelo mato. E nós estávamos ainda ceando e, quando o ouvimos, deixaram logo os capitães de comer e nós outros com eles, e metemo-nos na barca à vela; e os negros começaram de correr ao longo da praia e foram tão prestes, com o dito Femão Veloso, como nós. Em nós o querendo recolher eles nos começaram a atirar com umas zagaias, que traziam, onde foi ferido o capitão-mor e 3 ou 4 homens.
E isto porque nós fiávamos deles, parecendo-nos que eram homens de pequeno coração e que não se atreveriam a come­ter o que depois fizeram, pelo qual íamos desapercebidos de armas. Então nos recolhemos aos navios.
E, tanto que tivemos os nossos navios aparelhados e lim­pos e lenha tomada, nós partimos desta terra...
Em 25 dias do mês de Dezembro, um sábado à tarde, dia de Santa Catarina. Entrámos na angra de São Brás (hoje Mossel Bay) onde estivemos treze dias, porque nesta angra desfizémos a nau que levava os mantimentos e os recolhemos aos navios.
À sexta-feira seguinte [Dezembro 1], estando nós ainda na dita angra de São Braz, vieram obra de 90 homens baços, da arte daqueles da angra de Santa Helena; e andava (parte) deles ao longo da praia e [parte) deles ficava pelos outeiros. E nós estávamos todos, ou a maior parte de nós, a este tempo na nau do capitão-mor. E, como os vimos, fomos em terra em os batéis, os quais levávamos muito bem armados. E, como fomos junto com a terra, o capitão-mor lhes lançava cascavéis pela praia fora e eles os tomavam. E não somente tomavam os que lhe lançavam, mas vinham por eles a tomá-los da mão do capitão-mor. Do que nós ficámos muito maravilhados porque, quando Bartolomeu Dias aqui esteve, eles fugiam dele e não tomavam nenhuma coisa daquelas que lhes ele dava. Mas an­tes, um dia, em (que) ele tomava água em uma aguada, que aqui está muito boa à beira do mar, eles lha defenderam às pedradas de cima de um outeiro que está sobre esta aguada, e Bartolomeu Dias lhes atirou com uma besta e matou um deles. E, ao que supusemos, não fugirem de nós foi que nos pareceu que houveram novas dos da angra de Santa He­lena, onde nós primeiro estivemos, que são duma terra à outra 60 léguas por mar, como nós éramos homens que não fazíamos mal mas antes dávamos do nosso.
E o capitão-mor não quis sair em terra, porque esta, onde os negros estavam, (era) um mato grande, e mudou-lhe o posto. E fomos pousar a outro lugar descoberto e ali saiu; e acená­mos aos negros que fossem para onde nós íamos, e eles foram. E o capitão-mor com os outros capitães saíram em terra, com gente armada onde iam alguns com bestas. E o capitão-mor lhes mandou então que se apartassem e que viessem, um ou dois deles, e isto por acenos, E, àqueles que vieram, o capitão lhes deu cascavéis e barretes vermelhos, e eles nos davam ma­nilhas de marfim, que traziam nos braços, porque nesta terra, segundo nos parece, há muitos elefantes; e nós achávamos o estrabo (estábulo) deles bem a carão da aguada, onde eles vinham beber.
Ao sábado (Dezembro 2) vieram obra de 200 negros, entre grandes e pequenos, e traziam obra de doze reses, entre bois e vacas, e quatro ou cinco carneiros; e nós como os vimos, fomos logo em terra, E eles começaram logo de tanger qua­tro ou cinco flautas, e uns tangiam alto e outros baixo, em maneira que concertavam muito bem para negros de que se não espera música; e bailavam como negros. E o capitão-mor mandou tanger as trombetas e nós, em os batéis, bailávamos e o capitão-mor de volta connosco. E, depois de acabada a festa, nós fomos em terra onde (tínhamos ido) da outra vez, e ali resgatámos um boi negro por três manilhas, o qual jan­támos ao domingo; e era muito gordo, e a carne dele era sa­borosa como a de Portugal.
Ao domingo (Dezembro 3) vieram outros tantos, e tra­ziam as mulheres consigo e moços pequenos; e as mulheres estavam em cima de um alto, perto do mar, e traziam muitos bois e vacas. E puseram-se em dois lugares, ao longo do mar, e tangiam e bailavam como ao sábado. E o costume destes homens é os moços ficarem no mato com as armas. E os ho­mens vieram a falar connosco, e traziam uns paus curtos nas mãos e uns rabos de raposa, com os quais abanavam o rosto. E nós, estando assim à fala por acenos, vimos andar por entre o mato os moços, agachados e traziam armas nas mãos.

Pedro Álvares Cabral **

E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte.
Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde.
E estando Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro; e tomou dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos, que estavam numa almadia. Um deles trazia um arco e seis ou sete setas; e na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas de nada lhes serviram. Logo, já de noite, levou-os à Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa.
A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto.
O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao Capitão nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se lá também houvesse prata.
Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha, quase tiveram medo dela: não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram como que espantados.
Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provaram, logo a lançaram fora.
Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes a água em uma albarrada. Não beberam. Mal a tomaram na boca, que lavaram, e logo a lançaram fora.
Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem, folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do Capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo.
Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhas dera.
Então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir, sem buscarem maneira de cobrirem suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas. O Capitão lhes mandou pôr por baixo das cabeças seus coxins; e o da cabeleira esforçava-se por não a quebrar. E lançaram-lhes um manto por cima; e eles consentiram, quedaram-se e dormiram.
Ao sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, e fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e alta de seis a sete braças. E tanto que as naus quedaram ancoradas, todos os capitães vieram a esta nau do Capitão-mor. E daqui mandou o Capitão a Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias que fossem em terra e levassem aqueles dois homens e os deixassem ir com seu arco e setas, e isto depois fez dar a cada um sua camisa nova, sua carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que eles levaram nos braços, seus cascavéis e suas campainhas. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de D. João Telo, a que chamam Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho.
Fomos assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo obra de duzentos homens, todos nus, e com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levávamos acenaram-lhes que se afastassem e pousassem os arcos; e eles os pousaram, mas não se afastaram muito. E mal pousaram os arcos, logo saíram os que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles.
Além do rio, andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante dos outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras, e salto real, de que eles se espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo muito os segurou e afagou, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima.

* Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama, por Álvaro Velho
** Carta de Pero Vaz de Caminha

5 fev. 13

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013



O festim dos marimbondos



A expansão feroz, brutal, demoníaca, da jihad, só entra mesmo na cabeça de selvagens, assassinos e abaixo de primários.
Alimentar o ódio, fomentá-lo e baseá-lo nas palavras do Profeta é o maior crime que um muçulmano pode fazer e, sempre, hipocritamente clamando ser a “vontade de Deus”.
Maomé pode ser, e é, para os muçulmanos o maior profeta. Têm todo o direito disso. Cada um nasce livre para pensar e adorar o Deus como entender.
Mas se estes crimes horrendos são cometidos em “nome de Deus, O clemente, O mesicordioso”, e de Maomé, muito destorcida é a idéia que fazem de Deus/Alá e da eternidade.
Está escrito na Sura IX, versículo 29: “Matai os que não crêem em Deus, nem no Dia derradeiro, que não consideram proibido o que Deus e o Seu profeta proibiram e aqueles entre os homens do Livro que não professam a crença da verdade, até que paguem o tributo, todos sem excepção, e fiquem himilhados.”
“E quando vos enfrentardes com os incrédulos (em batalha), golpeai-lhes os pescoços...”
Com esta filosofia e suas atuações – os “incrédulos”, se não forem mortos, pagarão, pela mesicórdia, o tributo, e ainda ficarão subjugados – a eternidade não será mais do que a continuação do inferno que estão a semear aqui na terra entre os homens indefesos.
Espantou e indignou o mundo quando os talibãs, que são contra representações humanas de divindades, começaram por destruir, há sete anos, as maiores estátuas de Buda que existiam no mundo. As estátuas representavam Buda de pé e mediam entre 38 e 55 metros, e pela sua beleza e antiguidade eram consideradas Património da Humanidade! Do mesmo modo destruíram inúmeras outras obras de arte, incluindo pinturas.
Agora os extremistas que ocuparam o Mali têm feito o mesmo, destruindo “os túmulos de todos os santos de Timbuktu, e a cidade tem 333 santos".
E a maior catástrofe cultural, a destruição dos manuscritos dos séculos XII e XIII que os enviados do demónio queimaram!
Cortaram pés e mãos de “incréus”, açoitaram as mulheres que sairam às ruas sem o véu integral, assassinaram, enfim fizeram o festim do inferno.
"O único tribunal que nós reconhecemos é o tribunal divino de Shariah (...) A destruição é uma ordem divina (...) Temos que fazer isto para que as gerações futuras não fiquem confusas e comecem a adorar os santos como se fossem Deus".
Destroem túmulos, as belas imagens da arte africana e destroem sobretudo a liberdade dos outros.
São uns covardes que só atacam gente indefesa, e agora estão a fugir das tropas francesas.
Sequestram trabalhadores, assassinam-nos, aparecem nos vídeos com ares de machos, mas, sendo assim tão machos e defensores da jihad, porque não vão atacar Israel? Um país pequenino onde vivem seus maiores inimigos, os judeus, aí sim os terroristas poderiam mostrar a sua macheza!
Mas vão lá? Isso eu queria ver. Infelizmente eles, mesmo bandidos atrasados mentais, não devem ter esquecido a famosa guerra dos seis dias entre Israel e Egito. E com medo, sim com medo, atacam só gente indefesa.
Se um dia o seu Alá se dispuser a olhar para as bestialidades que eles fazem em Seu nome, vai transformar os seus redutos em Sodoma e Gomorra, e derretê-los todos.
É evidente que ninguém precisa sugerir o que quer que seja aos israelitas, mas eles sabem, muito bem, como ajudar a fazer esse “milagre”!
E se o sionismo é uma das causas de tudo isto que estamos a assistir, é hoje também a única esperança de um dia – quando? – se dar um basta nessa gente.
O problema é que estão a expandir-se demais. A tal Primavera Árabe que o mundo ocidental, ingénuo, tanto aplaudiu, abriu as portas aos terroristas que já estão a desgraçar o Egito, vão mandar na Líbia e Argélia, a Tunísia vai a seguir, e mesmo Marrocos está nos seus objectivos.
No médio oriente o outro bandido, o tal Bashar, agoniza perante o esforço dos rebeldes, que ao conquistarem o poder vão fazer como os comunistas na Polónia no fim da 2ª Guerra Mundial e em Portugal depois da “pacífica” revolução dos cravos, apoderando-se do comando e impondo a xária. A seguir à Síria irá o Líbano e a Jordânia, o Iémen, e os países do Sael, mais Sudão, Somália, Eritreia, e... o que vier “au diante” se verá... como Nigéria e...
Espalhados os marimbondos pelo mundo – o ataque à exploração de gás na Argélia foi comandado por dois canadenses, é verdade que de origem árabe – não vai haver mais sossego em toda a Europa nem EUA, nem África. E como ficam o Paquistão e a Indonésia?
A França vive sob ameaças diretas, está em alerta vermelho, e todos os países que, de qualquer modo estão a ajudar o Mali a livrar-se da invasão, têm sob seus tetos dezenas de jihadistas kamikases prontos a fazer os maiores estragos.
E sempre, sempre, quem mais paga toda esta loucura é a população civil.
A guerra contra os talibãs está perdida, e mais uma vez os americanos, vão de lá sair com a rabo entre as pernas e a vergonha na cara, como já lhes sucedeu na Somália, Coreia, Vietnam e noutra aventuras em que se arrogavam o direito de comandar o mundo.
As perspectivas agora estão piores. Espalharam, ainda mais, os marimbondos!
Sempre houve muçulmanos “normais”, e felizmente continua a haver. A maioria. Mas fecharem, e fecharmos os olhos a tamanha calamidade, tornamo-nos colaboradores.
No final do século XV no Oeste Africano, Soninke, região de Bafur, o Sheikh Al-Hajj Salim Suwari foi um karamogo (acadêmico islâmico) que se debruçou sobre as responsabilidades de minorias muçulmanos que residiam em uma sociedade não-muçulmana. Ele formulou um raciocínio teológico importante para a convivência pacífica com as classes dominantes não-muçulmanos chamados a tradição Suwarian, que sobrevive até hoje, apesar das pressões do modernismo. Ela pregava o comportamento exemplar para assim atrair mais gente para o Islão.
Mas salafitas jihadistas preferem fazer isso à bala e espada!
Atenção espanhóis: têm que manter um exército para proteger o Alhambra!
E o Al-Gharb? Paraíso de turistas?
Sejamos pró ou contra o sionismo; parece ser, por enquanto o único travão.
Que mais nos espera?

30-jan-13





sexta-feira, 25 de janeiro de 2013




AFONSO DE ALBUQUERQUE

O PRIMEIRO PRESIDENTE

DA CÂMARA DE LISBOA

(Texto do historiador António Baião,
in “Boletim Cultural e Estatístico”
da Câmara Municipal de Lisboa, 
Janeiro-Março de 1937)

Afonso de Albuquerque, o Grande, saindo para a Índia em 1506, deixou no reino um filho natural, por nome Braz, legitimado em 26 de Fevereiro do mesmo ano, quando tinha apenas cinco anos de idade. Aos cuidados de sua tia paterna, D. Isabel de Albuquerque, casada com D. Pedro da Silva, o Reles, de alcunha, foi confiado e, após a morte de seu pai, por ordem de D. Manuel I, entrou no mosteiro de Santo Elói a cujos cónegos foi encarregada a sua instrução. D. Manuel decidiu também trocar-lhe o nome para Afonso, em homenagem ao seu pai.
Teria dezanove ou vinte anos quando, para casar com D. Maria de Ayala Noronha filha do conde de Linhares, D. António de Noronha, D. Manuel I lhe assinou um juro de 400$00 reais e lhe mandou pagar mais 180.000 cruzados dos soldos em atrazo ao governador da Índia e das quintaladas ao mesmo devidas.
Estava pois herdeiro de um grande nome e senhor de uma grande for­tuna, por cuja causa em muitas questões andou envolvido.
«Em 1521 escreve Joaquim Rasteiro – Afonso de Albuquerque, ou melhor, o genro do escrivão da puridade de D. Manuel, foi escolhido com fidalgos de boa estirpe para acompanhar a Saboya a infanta D. Brites, filha do rei, casada com o duque Carlos e teve o comando de um galeão de duzentos e trinta toneis.”
Com efeito na Hida da infante dona Breatriz a Saboya, Garcia de Rezende, a isso minuciosamente se refere, tendo o séquito saído de foz em fora a 10 de Agosto de 1521.
Em Fevereiro, de 1526 foi também um dos portugueses que acompanha­ram a imperatriz D. Isabel quando foi para Castela. Assistiu ao seu casa­mento em Sevilha, regressando pouco depois a Portugal, onde o chamavam cuidados da sua casa.
Vejamo-lo agora como proprietário e proprietário abastado.
“D. Brites de Laura vendeu, escreve Joaquim Rasteiro, em l de Dezembro de 1528, a Afonso de Albuquerque, filho, por quatro mil cruzados de ouro a sua quinta em Azeitão da banda dalém, em Ribatejo, com todos os seus paços, casas adegas, lagares, terras de pão, vinhas, pomares, olivais, etc.
Aí, na quinta da Bacalhôa, habitou Afonso de Albuquerque com sua mulher muitos anos e no friso do portão que, pelo norte, dá entrada para o páteo do palácio lê-se a seguinte inscrição: Anno 1554—Alfonsus Albuquercus Alfonsi Magni indorum debellatoris filius sub Joanne III Portugaliae rege condidit—anno mdliiii).
Além disto bem conhecida é a Casa dos Bicos, que mandou edificar pelos fins do primeiro quartel do século XVI (*).
Afonso de Albuquerque assiste às cortes de 1562 celebradas em Lisboa, a 15 de Setembro, aquelas em que D. Catarina renunciou à administração do reino, que assim passou para as mãos do cardeal D. Henrique e foram as primeiras do reinado de D. Sebastião.
Em 15 de Abril de 1564 foi determinado que a Afonso de Albuquerque fossem pagos os cem mil reais de tença pelo rendimento das sisas de Azeitão.
“Da união de Afonso de Albuquerque com D. Ma­ria de Noronha, escreve Rasteiro, nasceram dois filhos, António que morreu moço e D. Joana Albuquerque, mulher de D. Fernando de Castro, primeiro conde de Basto, capitão-mor de Évora e que faleceu sem geração.”
Afonso de Albuquerque, em 1568, era sem sucessor e no dia 27 de Janeiro, em Azeitão, ele e sua mulher D. Maria de Noronha, vincularam a quinta de Azeitão com seu assento de casas, pomar e vinha, cercados, foros havidos e por haver e as casas de Lisboa às Portas do mar, que partiam com o dr. Luiz da Veiga e com a mulher, que foi de Ayres Tavares, instituindo um hospital na igreja do bem aventurado S. Simão, que era junto da quinta de Azeitão, para nelle se agasalharem pobres caminhantes. O título foi escrito a rogo dos instituidores, pelo licenciado Aleixo de Albuquerque, seu capelão, e foi aprovado no dia 28 de Fevereiro do mesmo ano, na quinta do Snr. Affonso de Albuquerque pelo tabelião João Rodrigues».
Em Setembro de 1578 foi Afonso de Albuquerque convidado para ir assistir às cortes de Almeirim. Qual seria a sua opinião em tão grave e momentoso assunto? Não o sabemos e apenas nos chega a notícia de, a l de Junho de 1579, prestarem, perante D. Henrique, juramento os três estados do reino. Em tal acto com­pareceu, como procurador de Lisboa, Afonso de Albuquerque.
«Nos últimos dias, escreve Rasteiro a pág. 23 da sua monografia Quinta e Palácio da Bacalhoa, talvez dementisado pela idade, peralta, encontramos Albuquerque, filho, requestando uma jovem fidalga, D. Catarina de Menezes, com quem casou fazendo política ibérica contra a independência da pátria e concorrendo a entrevistas com Cristóvão de Moura disfarçado com barbas postiças».
Do respectivo assento paroquial consta que a 6 de Maio de 1581 se finou o autor dos Comentários, deixando por testamenteiro sua viuva D. Ca­tarina de Menezes que, diga-se de passagem, pouco tempo se conservou nesse estado pois veio a casar com D. João Coutinho de quem teve dois filhos.
Vários são os aspectos que nos apresenta a personalidade do autor dos Comentários. Se não manejou a espada soube empunhar a pena; se não con­quistou cidades deixou nos Comentários um perdurável monumento à me­mória do pai. Com um intervalo de dezanove anos duas edições dessa obra publicou: a primeira em 1557 e a segunda já no declinar da existência, em 1576. Conselheiro de D. João III, como tal figura no livro dos moradores da casa real com 5.500 reais de moradia.
Provedor da irmandade da Misericórdia de Lisboa, como tal o sabemos em 1542, 1545, 1552, 1563, 1571 e 1577.
Presidente do Senado da Câmara de Lisboa foi nomeado pela carta régia de 12 de Dezembro de 1572, que deu nova forma à eleição e orga­nização da Câmara, estatuindo para ela um presidente fidalgo principal e dois vereadores letrados que hão de ser meus desembargadores.
Como se vê por este diploma só no reinado de D. Sebastião vem a Câmara de Lisboa a ter presidente, pois que até aí presidiam os vereadores às semanas e portanto foi Afonso de Albuquerque o primeiro presidente da edilidade lísbonense. Durante dezoito meses exerceu Albuquerque o seu ele­vado cargo até ser-lhe nomeado, como sucessor, D. Duarte da Costa por carta régia de 17 de Junho de 1574.
Nestes dezoito meses são de iniciativa da câmara presidida por Albu­querque
- l.° As diligências feitas para o abastecimento da «Ágoa livre» à cidade             agradecido por D. Sebastião em Carta Régia de 2 de Março de 1573;—
- 2.° A demolição da torre do muro da cidade, «diante da porta principal da igreja de N. S." do Loreto», para o que el-rei deu permissão por Carta Régia de 1º de Junho de 1573;
- 3.° Jurisdição que os vereadores obtiveram por Alvará Régio de 3 de Março de 1574, por 2 anos, como soli­citaram, para devassarem e conhecerem em Câmara das delinquências sobre venda de pão, vinho e azeite, até 10 léguas fora de Lisboa, etc.;
- 4.° As pro­vidências para o  calcetamento de algumas «Ruas mais correntes» da cidade de Lisboa, mandando o Alvará Régio de 3 de Março de 1574 que todos os barcos que viessem do Porto e de Viana, trouxessem por lastro pedra da que no Porto serviu para calçar a Rua das Flores, e em Viana as ruas desta vila, a fím de se calçarem com ela algumas ruas de Lisboa;
- 5.° A permissão para que a Câmara elevasse a taxa do vinho, pelas razões constantes da Carta Régia de 3 de Abril de 1574.
Foi, pois, um cidadão prestante à sua pátria e à sua terra natal. À sua pátria como autor duma das obras mais requintadamente patrióticas da literatura portuguesa, à sua terra natal como autor de vários melhoramentos locais, seu representante em cortes e Presidente da sua edilidade.
 
Notas:
*.- O que diria hoje Afonso de Albuquerque, uma das mais nobres figuras do reino, se visse a sua Casa dos Bicos entregue à fundação de um fundamentalista comunista, que sempre pretendeu ridicularizar a nobreza?
- E a Quinta da Bacalhôa, hoje propriedade de alguém com fortuna de origem... incógnita?
- Seria interessante também saber se as primeiras ruas calcetadas com pedra foram as do Porto, de Viana do Castelo ou de Lisboa! 
Os Presidentes das respectivas Câmaras poderiam dar alguma informação?
É história! Todos agradecem.

19/11/2012

terça-feira, 22 de janeiro de 2013




CORONYQUA DOS REIS DE PORTUGAL


INTROITO DA OBRA

ESTAM em este presente vollume recopilladas, sumadas, abreviadas todas lembranças dos Reys de Portugal das caroniquas velhas e novas sem mudar sustamcia da verdade; as quaes copillou o Bacharel Cristovam Rodrigues Acenheiro, natural e morador na cydade d'Evora, e as fes o mês de Mayo de myl e quinhentos trinta e sinco anos, reynamte Dom Joam terceiro do nome quinzeno dos Reys de Portugal, semdo elle Ba¬charel em ydade de sesemta e um ano, e as recopillou neste modo: do Conde Dom Amrrique, prymeiro senhor, té EllRey Dom Affomso, setimo, do Sallado, e a fym delle, e asy as lembramças dellRey Dom Manoel e dellRey Dom João seu filho, que sam dez Caronicas; e as seis a sa¬ber delRey Dom Pedro oitavo Rey té EllRey Dom Joam segundo, as achou asy, e por serem bem feitas e na verdade as pôs com todo, e lhe pôs as eras e adiçois que nellas se acharam, e porque já nellas acrecemtou ysto, porque nom tome louvor alheo, e sam tays.

Um pequeno excerto:

Ouvymdo dizer o Papa que ElRey Dom Affomso Emrriquez tinha sua mai em ferros, lhe mamdou dizer per o bispo de Coimbra que a tirase de prizam, e senão que o escomúgaria a elle e a terra: dixe que o nom faria pollo Papa nem por nimguem; e o Bispo escomúgou EllRey e Reino, e se foi de noite, e quamdo veio polla manham lhe diserão que era escomúgado: e elle meteo todos os coniguos na craustia, e dixe amtre todos dade-me hum Bispo; e elles dixerão Senhor, Bispo avemos e nom podemos dar outro. E ElRey lhe dixe Ese que vos dizês nûca aqui será Bispo em todos meus dias, mas saide vos polla porta, e eu catarei Bispo ou quem o faça. E EllRey vio estar hum negro, e lhe pergumtou: Como hás nome? e elle dise Senhor ey nome Çolleima: Como lhe diz EIlRei és bom crériguo? e elle dixe nom há milhores dous na companhia. EllRei dixe, tu serás bispo de Çolleima, guisa como me camtes Miça, e elle dixe Senhor não vos camtarei misa ca não sam ordenado: dixe EllRey eo te ordeno, ora guisate como me quamtes misa senão cortarteei a cabesa; e elle com medo camtou-lhe misa. E soube o Papa em Roma este caso, cuidarão que era yrege, mãodou-lhe hum Cardeal que lhe emsinase a feé, e todos d’Espanha lhe faziam muita omrra por omde vinha, e lhe beijavão a mão, e EllRey dixe nom sei Cardeal nem Apôstollico que me dese a mam a bejar, que lhe não cortase pollo covado* o braço: o Cardeal chegou a Coymbra, e ouve medo; ElRey no quis sair a recebello e o Cardeal o teve a mal, e tamto que chegou foi-se ao allcasar d’EllRey, e EllRey o saio a receber homrradamente. Dixe-lhe EllRey, Dom Cardeal que viestes aca fazer, nuca me veo senão mal, quais riquezas me vierão a aquá de Roma pêra estas ostes que faço, que de noite nem de dia não faço senão gerrear Mouros, e Dom Cardeal se tracedes allguo que me de dês dade-mo, senom yvos vosa via. O Cardeal dixe eu sam aqui vymdo pêra vos emsinar a fé de Christo, e EllRei lhe dise, tam bos livros hemos nos aça, como vós alláá em Roma, e também sabemos veio Deos em Santa Maria, e cremos a Samta Trimdade também como aloo vós os Romãos; e Dom Cardeal nom queremos ora cousas de Roma, mas dem vos todallias coisas que ouverdes mister, e crás ver-nos-emos eu e vós se Deus quiser; e o Cardeal foise emtam pêra sua pousada, e maõdou loguo dar sevada ás bestas, e quamdo camtava o gallo escomúgou toda a Villa e toda terra, e se foy; e EllRey que o sobe polla menham, foi após elle e o tomou em hum Lugar que chamão a Vímieyra, e deitou-lhe â mão pello cabeçam pêra lhe cortar a cabesa e fidallgos o tolheram: o Cardeal dise, Rei nom me faças mal que farei qualquer partido que quiseres; dixe EllRey quero que em meus dias eu nem Portugal nûca seja excomügado, que o ganhei ás lamçadas, e que quamto levados me deixedes estes vosos sobrinhos filhos de vosa jrmam, e que daqui a quatro meses me mãodes as letras senão cortarlhei as cabesas: aprouve ao Cardeal, e todo veo com breve tempo; e sempre este Cardeal despois nogoceava todas as couzas em Roma que pertemciam a Portugal, e ao dito Rey, o qual Rey, amtes que o Cardeal partice, mamdou hum seu escudeiro que fose em a Corte de Roma pêra o avizar do, que lá pasava, e lhe escreveo o caso todo per estemço, que quamdo o Cardeal disera ao Papa como acomtecera, o Papa lhe respondera que elle Papa nom podia fazer tal nem comprir, e que se espamtava muito delle: o cardeal lhe respomdeo se tu Samto Padre viras sobre ti hum Cavaleiro tam bravo terte pollo cabeçam, e espada nua pêra te cortar a cabeça, e seu cavallo tam bravo arranhar a terra que ja fazia a cova pêra te emterrar nom somente deras as letras, mas o Papado e cadeira de Sam Pedro: mas o Papa o comprio todo e mamdou a EllRey amtes do termo que o Cardeal lhe ficou, e EllRey lhe mãodou seus sobrinhos ao dito Cardeal com muitas homrras, e gramdes mercês. Devem bem de notar os Reis e Primcipes cristamõs estas façanhas de Cardeal e Bispo, e quamto devem de punar por a homrra de suas pessoas e Reino, quamdo com justiça e verdade o persegem, como este Catollico Rey fazia e fez. Porem dalli em diamte foi Bispo de Coymbra Dom Solleima, e todo o que elle mamdava se fazia em seu Byspado.
E pasado ysto EllRey Ysmar Mouro, vemcydo no Campo dOurique, como dito he, com este ódio que sempre teve dezejo de gerrear Christâos, ajumtou suas gentes, veo se a Samtarem, e levou comcyguo Auzerim Allcaide e correo aterra ate Leirea, e a combateo fortemente e a emtrou por força, e matarão os Christâos que em ella acharam, e levaram cativo Paio Goíterrez Allcaide do Castello, e deixaram o Castello com muita jemte, e foi esto tam depresa que EllRey o nom pode amtes saber, que estava em a Cidade de Coymbra: esta tomada foy na era de mil e cemto e coremta**.

* Cotovelo
** Ano de 1137. As datas desta CORONYQUA estão quase todas erradas!

Nota adicional: que falta faz hoje aos portugueses um Afonso Henriques! Imaginem os “tryokanos” a entrar em Portugal e pedir, aliás exigir, ao rei que lhes beijasse as mãos, esmagasse o povo e os enriquecesse a eles?





Sorria,

você está sendo roubado



Escrito por Guilherme Fiuza, jornalista


O “Financial Times" disse que o jeitinho brasileiro chegou ao comando da política econômica. O jornal britânico se referia à solidariedade entre os companheiros Fernando Haddad e Guido Mantega, num arranjo para que a prefeitura de São Paulo retardasse o aumento nas tarifas de ônibus, ajudando o Ministério da Fazenda a disfarçar a subida da inflação. A expressão usada pelo "Financial Times" é inadequada. Os britânicos não sabem que esse conceito quase simpático de malandragem brasileira está superado. O profissionalismo do governo popular não mais comporta diminutivos.

No Brasil progressista de hoje, os números dançam conforme a música. E a maquiagem das contas públicas já se faz a céu aberto: o império do oprimido perdeu a vergonha. No fechamento do balanço de 2012, por exemplo, os companheiros da tesouraria acharam por bem separar mais 50 bilhões de reais para gastar. Faz todo o sentido. Este ano as torneiras têm que estar bem abertas, porque ano que vem tem eleição e é preciso irrigar as contas dos aliados em todo esse Brasil grande. A execução do desfalque no orçamento foi um sucesso.
Entre outras mágicas, o governo popular engendrou uma espécie de "lavagem de dívida" para fabricar superavit. Marcos Valério ficaria encabulado. O Tesouro Nacional fez injeções de recursos em série no BNDES, que por sua vez derramou financiamentos bilionários nas principais estatais, e estas anteciparam sua distribuição de dividendos, que apareceram como crédito na conta de quem? Dele mesmo, o Tesouro Nacional — o único ente capaz de torrar dinheiro e lucrar com isso. Ao "Financial Times" seria preciso esclarecer: isso não é jeitinho.
É roubo.
A "contabilidade criativa" — patente requerida pelos mesmos autores dos "recursos não contabilizados" que explicavam o mensalão — não é vista como estelionato porque o brasileiro é um amistoso, um magnânimo, deslumbrado com seu final feliz ao eleger presidente uma mulher inventada por um operário. Não fosse isso, era caso de polícia. A falsidade ideológica nas contas do governo Dilma rouba do cidadão para dar ao governo. Ao esconder dívidas e "esquentar" gastos abusivos, a Fazenda Nacional fabrica créditos inexistentes — que serão pagos pelos consumidores e contribuintes, como em toda desordem fiscal, através de impostos invisíveis. O mais conhecido deles é a inflação.
Em outras palavras: o jeitínho encontrado pelo companheiro-ministro da Fazenda para maquiar a inflação é um antídoto contra o jeitinho por ele mesmo usado para aumentar a gastança pública.
O maior escândalo não é orgia administrativa que corrói os fundamentos da estabilidade econômica dificilmente alcançada. O grande escândalo é a passividade com que o Brasil assiste a isso, numa boa. Se distrai com polémicas sobre "pibinho" ou "pibão'! repercute bravatas presidenciais sopradas por marqueteiros, e não reage ao evidente aumento do custo de vida, aos impostos mais altos do mundo que vêm acompanhados, paradoxalmente, por recordes negativos de investimento público. A bandalheira fiscal é abençoada por um silêncio continental. Nem a ditadura conseguiu esse milagre.
No auge da era da informação, o Brasil nunca foi tão ignorante. Acha que as baixas taxas de desemprego — fruto de um ciclo virtuoso propiciado pela organização macroeconômica — são obra de um governo com "sensibilidade social". Justamente o governo que está avacalhando a estabilização, estourando a meta de inflação e matando a galinha dos ovos de ouro. Esse Brasil obtuso acha que as classes C e D ascenderam ao consumo porque o que faltava, em 500 anos de história, era um governo bonzinho para inventar umas bolsas e distribuir dinheiro de graça.
Esse mal-entendido pueril gera uma blindagem política invencível. Os passageiros que assaram no Galeão e no Santos Dumont, no vergonhoso colapso simultâneo de dezembro, são incapazes de relacionar seu calvário ao caso Rosemary — a afilhada de Lula e Dilma que protagonizou o escândalo da Anac, por acaso a agência responsável pela qualidade dos aeroportos. O governo popular transforma as agências reguladoras em cabides para os companheiros e centrais de negociatas, e o contribuinte sofre com a infraestrutura depenada como se fosse uma catástrofe natural, um efeito do El Nino. Novamente, nem os generais viveram tão imunes à crítica.
Com a longevidade do PT no Planalto, o assalto ao Estado vai se sofisticando. A área económica, que era indevassável à politicagem, hoje tem a Secretaria do Tesouro devidamente aparelhada: um militante do partido com a chave do cofre. E tome contabilidade criativa. Definitivamente, o Brasil não aprendeu nada com a lição do mensalão. Os parasitas progressistas estão aí, deitando e rolando (de tão gordos), rumo ao quarto mandato consecutivo. Não contem para o "Financial Times”, mas a conta vai chegar.

Jornal “O Globo”, 18/01/2013



sábado, 19 de janeiro de 2013



O  Vazio



Bem procuramos “conversar” com São Pedro, ou com o Pedro, e tentar compreender algo do que se passa no “além”. Mas sempre saímos com a mesma sensação de ignorância. Sem dúvida que o futuro não nos pertence.
Podemos prever, ou melhor, calcular sobre algumas situações que se vão passar aqui nesta mal tratada Terra, com suas intermináveis e cada vez mais brutas guerras, como este descalabro avanço dos jihaistas sobre África, podemos ficar com isso preocupados, mas só sabemos que do “tal após” nada sabemos.
Escrevi um dia um texto, plagiando um pouco Agostinho Neto, que terminava com um lamento, dizendo “O oceano separou-me de mim”, em que eu disse “O oceano separou-me duas vezes”!
Primeiro, ao ir para Angola, separou-me da família, dos amigos de infância e estudos e mais tarde separou-me dessa nova terra e dos amigos onde tão intensamente vivi.
Por fim nova terra, novas gentes e com idade em que são já fracas e raras as oportunidades de fazer amigos. Amigos, com A maiúsculo, aqueles com quem sabe bem conversar, diversificar assuntos, enfim passar “horas mortas” em agradável companhia e papo, um copo de vinho, sabendo que ninguém tem a pretensão de impor idéias aos outros, mas sim curtir a empatia que corre com tanta naturalidade.
Os anos foram-me subtraindo muitos desses amigos. A maioria, que o oceano separou, vão indo embora lá longe, e fica a tristeza de saber que não os voltamos a encontrar se por acaso pudermos visitar mais uma vez essas terras da outra margem. E é uma tristeza fria, distante, mas que magoa muito, e nos faz lamentar quanto tempo perdemos sem o gozo da sua companhia.
Na nova terra, onde fazer novos amigos é um quase milagre, quando se definem uns poucos, pouquissimos, agarramo-nos a eles como a mais gratificante sensação, e não os queremos ver longe, afastados, e sobretudo que não nos deixem.
Além da família - filhos e netos – todos com suas vidas definidas e seus ambientes de amizades, crescidos que foram em nova terra, esses poucos que aqui viemos encontrar são um enorme estímulo e uma forte raiz que nos interliga.
Os anos correm, com uma velocidade que parece acelerar cada vez mais, e somos obrigados a assistir à degradação física de alguns que, após mais ou menos prolongado sofrimento, encontram por fim o último descanso.
Mas, quando na cidade onde se vive só se tem um amigo, cuja amizade começara nos tempos de rapazes, há bem mais de sessenta anos, com quem se mantém um como que ritual de encontro mais ou menos semanal, onde se passam cinco, seis horas em muito amena conversa, e de repente se vê esse amigo a enfraquecer, a não conseguir reagir a uma qualquer doença estranha que por fim acaba de o levar, a dor é muito grande.
Empobrecemos de repente, mesmo sabendo com antecipação que isso vai acontecer. E, no meio da solidão que fica, voltamos a perguntar ao Pedro, porque a aproximação da morte, que é o mais natural processo da vida, há-de ser sempre sofrida? Ou por inesperado desastre, ou doença mais ou menos prolongada.
Quando chegar a minha vez vou falar com o Criador. Sugerir-lhe que à nascença todos tragam uma espécie de guia de validade, indicando o dia em que deve regressar ao Além, mas sem ter que sofrer! Parece loucura, mas seria a única maneira de enfrentar o fim da vida sem sofrer e fazer sofrer, e dos amigos se despedirem dele com um simples “Até já” sem se chocarem, ou chorarem a sua ausência.
Para sofrer bastará ter vivido e olhar o que se passa à sua volta.
Quando se perde um ente querido fica sempre um enorme vazio. Mas quando esse ente era o único com quem, por proximidade geográfica, podíamos ainda gozar a sua companhia, o vazio é muito maior.
E nós, em vez de nos alegrarmos por saber que ele deixou de sofrer e goza agora do descanso total, sentimo-nos frustrados e mais pobres.
Sempre que a morte nos rouba um amigo a solidão aumenta.

18 jan. 13