quarta-feira, 8 de junho de 2011


Da Lisboa Antiga

e

da Nova Lisboa


Não sei se alguém se lembra, mas foi no verão de 1147, que se juntaram (a 28 de Junho) à volta de Lisboa, uns milhares de loucos, chegados em 190 navios – colonienses, bolonheses, flamengos, normandos, francos, bretões, ingleses – e ofereceram seus préstimos ao rei Dom Afonso Henriques, para ajudarem na conquista da cidade de Lisboa, que havia já 358 anos estava “ilegitimamente” na posse de mouros que a usurparam a anteriores cristãos, catequizados, “in illo tempore” por Donato, Torquato, Secundo, Indalécio, Eufrásio, Tesifonte, Victor, Pelágio e “muitos outros assinalados varões apostólicos.”
Lisboa contaria por essa época com 60.000 famílias que pagavam tributo, além de outros homens livres isentos desse pagamento. Na cidade “o cimo do monte era cingido por uma muralha em redondo, e tanto à esquerda como à direta, as muralhas desciam em declive até às margens do Tejo. Os seus territórios, no perímetro em redor, não ficam atrás de nenhum, pela fartura dos produtos do solo, quer das árvores quer das vinhas. Predomina a oliveira. Nada fica nela por cultivar, e é extremamente rica em figos. Próximo fica o castelo de Sintra, local onde há uma fonte puríssima, cujas águas servem para curar a tosse e a tísica, pelo que os moradores quando ouvem alguém tossir sabem que não é natural dali. Saudável de ares. Nos seus campos espinoteiam éguas de surpreendente fertilidade, pois, ao serem bafejadas pelos favónios, concebem do vento, e depois, atacadas pelo cio, copulam com os machos, assim se acasalando com o sopro das brisas. A Sul fica a região de Almada, rica em vinhas, figos e romãs, e tão fértil de cereais que de uma mesma sementeira se fazem duas colheitas”.
 
Aquarela de Alfredo Roque Gameiro (1864-1935)

(Maravilha de terra deveria ser aquela!)
Entretanto aquela turba de “cruzados”, seguia para a Terra Santa, não por razões de fé, mas desvairados com a possibilidade de saques que os poderiam enriquecer ou tirar da miséria. Eram, na opinião do cronista deste feito, uns bárbaros selvagens, com exceção dos ingleses, uma vez que o cronista, um senhor ”R”, em carta ao senhor “O”, a eles pertencia!
Era difícil o entendimento entre eles, desconfiava cada grupo do outro que lhe poderia “passar a perna”, chegando a afirmar que o rei de Portugal os queria enganar a todos.
Por fim, Afonso Henriques prometeu que o saque ficaria todo com os cruzados e só a cidade com ele. Uma exceção se abria: o alcaide mouro poderia sair da cidade com toda a sua família e seus pertences, ao que se opôs o flamengo conde de Aerschot, porque cobiçava para si uma égua árabe que aquele tinha, e se propunha tirar-lha de qualquer jeito!
Os assaltantes, atacando por grupos separados, construíram torres, algumas chegando a 34 pés de altura (mais de 10 metros), para tentar entrar por cima das muralhas. Na primeira vez que aproximaram a torre das muralhas, e de feroz luta com os defensores, à noite a maré alta deixou a torre isolada! Os mouros aproveitaram para a atacar com todo o ímpeto, mas os poucos defensores conseguiram não a deixar incendiar, nem destruir. No dia seguinte a cena repete-se, mas com sorte, e muita bravura, o resultado não se alterou.
Os flamengos trabalharam algumas semanas para abrir uma entrada na muralha pelo lado sul. Quando ao fim de imenso esforço o conseguem, dão de caras com um morro mais difícil de vencer do que as muralhas.
Durou quatro meses esta luta de assaltantes e defensores, que for fim, esgotados, mas ainda com razoável estoque de grãos e água, decidem parlamentar. A proposta dos assaltantes foi simples e clara: “Podem sair todos, mas não levam nada que temos que pagar aos cruzados!”
Proposta rejeitada. Os sitiados ainda haviam tentado buscar apoio escrevendo ao rei de Évora, Abu Moamede, que os informa que havia estabelecido tréguas com o rei Afonso Henriques e nada poderia fazer.
Dias depois a cidade acaba por se entregar.
O assalto foi bestial. Enquanto alguns, como ingleses e bretões procuravam cumprir com o combinado, saquear sim, mas sem maltratar os habitantes, outros grupos saqueavam, roubavam, incendiavam, matavam e estupravam as mulheres. Tão bestiais que até degolaram o bispo cristão moçarabe! Nada escapava à sua sanha.
Os lisbonenses fugiram, vaguearam, miseráveis, pelos campos, morrendo aos milhares, porque entretanto, Afonso Henriques havia já conquistado Santarém, Almada também sido, facilmente, tomada, e Sintra se entregara. As terras nos arredores não protegiam os “inimigos” da fé.Resistiram heroicamente os tais mouros por quatro meses. Certinhos. A 28 de Outubro de 1147, Lisboa passou a fazer parte de Portugal. Desde há 864 anos, menos de duas vezes e meia o tempo que lá estiveram os “inimigos”.

A outra “FICAVA EM ANGOLA E CHAMAVA-SE NOVA LISBOA”. Mais tempo levou esta Nova Lisboa a “cair”! Só se chamou assim entre 1928 (quando, por decreto foi nomeada capital de Angola) e 1975. Fundada por Norton de Matos em 1912, com o nome de Huambo, nome que voltou a ter depois de 1975. Nesta data deixou de estar “ilegitimamente” na posse dos invasores!
A propósito: quem viveu em Nova Lisboa, ou por lá passou, ou mesmo que jamais lá tenha ido, pode recordar ou conhecer o que era aquela linda cidade... nos antigamentes!
Eu por lá andei muitas vezes, sempre como visitante, e lembro, com aquela saudade que chega a doer, o Ruacaná, onde me hospedava, o seu ótimo restaurante, e a Cuca para quem trabalhei tanto tempo, e vi nascer a partir da primeiras paredes! Lembro bem da Chianga, onde tantas vezes fui “apostar” qualidade de rações! As da “Cuca-Protector” contra as que faziam lá no IAA. As primeiras ganharam sempre!
Leiam o belo, simples (por isso mesmo mais agradável) e muito bem documentado livro, que vos leva a uma bonita visita a essa cidade.
Acabou de sair pelas Edições Colibri – Lisboa.




domingo, 5 de junho de 2011

 
SUMMUM JUS
 
SUMMUM INJURIA 
 
 II

 
Com o título acima (sem o II !) foram escritos estes três primeiros parágrafos em Maio de 2007:
“Não é do tempo de Roma antiga que esta expressão veio mostrar o quanto de injusto é o excesso do direito: Quanto mais direito (justiça) mais injustiça! Já vinha de trás.
Os homens inventam leis que, se tiveram nos seus primórdios a intenção de regular e proteger as sociedades, as populações, logo se foram revelando uma prepotência e uma forma “legalizada” de, SEMPRE, prejudicar os mais fracos.
A história, por norma contada pelos vencedores, apodam os vencidos de bandidos e terroristas, e os vencedores de heróis, quase santos, e o direito, teoricamente estabelecido para reger igualitariamente o bem estar comum, quando entregue a um juiz, se mostra desde logo injusto.
O que pensa a cabeça de um, não é o mesmo do que pensa um outro, muito menos quando os juízes, como homens, ou mulheres, são vulneráveis às chaves de ouro, que abrem TODAS as portas.”
A tal “justiça” tem coisas que um semi-analfabeto, como eu, não consegue entender. Por exemplo, este primeiro caso, que vai a julgamento dentro de dias, o do famosérrimo Dominique Strauss Khan, que se terá atracado com uma camareira africana.
Não está causa saber quem atracou quem, nem se ele a forçou, nem sem ela consentiu, mas na forma com age a tal justiça.
Se o galã se declarar culpado, negocia uns diasitos de prisão – aberta, já se vê – dá um troco à camareira e não se fala mais nisso. Mas se o cara se declara inocente, aí os juízes viram feras. Vão malhar em cima do desgraçado (?) até o esfolarem todo.
Vamos ver se entendi: se ele se diz culpado... fica tudo numa boa. Se inocente (porque não?) vão-lhe para cima como hienas esfaimadas.
Será que os juízes agora se consideram iguais ao Deus Supremo, que perdoa a todos os homens do alto da sua magnanimidade, talvez por saber que algo deu errado com este seu “produto”?
O presumido réu, de qualquer das maneiras fica sempre entre a espada e a caldeirinha. Caldeirinha esta que mesmo cheia de água benta não o vai proteger da sanha jurídica!
O mesmo se está a passar com o famoso “terrorista, matador, genocida, etc.”, Ratko Mladic, considerado pelos seus compatriotas um super herói. Mas Haia acha que ele cometeu uma porção de crimes contra a humanidade (típico de uma besta apocalítica) e vá de sentar o tal Ratko no banco dos réus.
E volta a mesma conversa: se ele se declarar inocente, o que provocaria um grito mais atroz do que o de Edvard Munch, talvez fique hospedado em hotel de luxo... preso! Culpado, vai levar na cabeça!
Enquanto um terá tido um, possivelmente agradável, “acidente” com a camareira, este outro só não enfiou os muçulmanos todos numa câmara de gás, talvez por considerar esse método muito trabalhoso, caro e pouco original!
Pois fiquem sabendo: se me acontecer o azar (grande) que me obrigue a comparecer perante a justiça humana, mesmo sem saber do que estou sendo acusado, vou logo declarando que sou culpado. Não vou nem querer saber quais as eventuais acusações que poderiam pesar contra mim.
Há muitos anos (Luanda, aí por 1965), ainda eu não havia refletido sobre estes desequilíbrios próprios da covardia humana, fui multado por dois chefes de polícia (logo dois) que não me queriam deixar estacionar o carro onde eu acha que podia. E podia. Pediram-me os documentos, por desobediência à alta dignidade dos “chefias”, mas sem responder virei-lhes as costas e fui embora. Uns meses passados recebi uma “contra-fé” para me apresentar no tribunal! De entrada nem fazia idéia da razão disso, mas acabei sabendo que era por causa dessa multa declaradamente prepotente e injusta.
Lá fui, sem advogado. Para que advogado se eu tinha toda a razão?
O juiz, um baixinho que mal aparecia atrás da sua mesa. Ouviu a acusação, e depois o “réu”. Expliquei, com toda a clareza, o absurdo da multa. E sexa, o representante da lei e do Estado, declara: “Efectivamente parece que o senhor tem razão”. (Não só a tinha toda, como naquele tempo o efectivamente ainda tinha, também, o c!) E continua: “Mas como a multa foi aplicada por dois chefes de polícia vou ter que a confirmar!”
O juiz, baixinho, miserável. Acovardou-se perante dois analfabetos da polícia! Comecei a abrir a goela para o tal grito de Munch que o oficial de diligências, a meu lado, não deixou sair. E tive que pagar multa, custas, etc.
Confiar na justiça dos homens, vendo a pouca vergonha que se passa à nossa volta, eu, hein? Não!
Espero pela de Deus, até porque já não falta muito para ouvir o Veredito Final!
Amén.

04/06/2011

quinta-feira, 2 de junho de 2011


Entre a grana e a filosofia

 
Enquanto uns se preocupam com o chamado “vil metal”, ou como empobrecer o próximo, ainda há os grandes filósofos ou teólogos, que gastam as suas vidas a discutir o sexo dos anjos em vez de se preocuparem, verdadeira e eficazmente, com a felicidade dos outros.
No século XVI, um espanhol, jesuíta, teólogo e jurista, que lecionou em Coimbra e depois em Évora, criou uma tremenda confusão com a graça de Deus, sobre que arranjou duas “graças”: a “eficaz”, aquela que o homem aceita, e a “ineficaz”, quando o indivíduo não coopera com ela ou lhe resiste!
É verdade que foi há quinhentos anos, mas assim mesmo quer parecer que o tal Molina, que criou esta doutrina chamada de molinismo, depois de muito teologar, descobriu o óbvio! Mas ficou na história.
Meio século mais tarde aparece outro filosofo e teólogo, agora holandês, Cornelius Otto Jansen, que lecionou em Louvain, e era contra os jesuitas. Foi depois bispo de Yvrés, na região flamenga da Bélgica.
Diferindo poucos milímetros da doutrina molinista, o seu pensamento que ficou conhecido como o jansenismo, levou os fiéis para um maior rigor teológico do cristianismo. (O que será isto???)
Mai tarde, contava Voltaire: “uma mulher molinista recusava deitar-se com o seu marido jansenista; este chamou então os vizinhos: Senhores, disse ele, haverá entre vós algum molinista que se queira deitar com a minha mulher?”
É para isto que servem as complicadas filosofias!
Nada melhor do que DEScomplicar a vida. Por exemplo, neste país abençoado por Deus (como todos os outros), mas amaldiçoado pela corrupção (como muitos outros) os ilustres filósofos dos altos escalões propõem-se conduzir todos os seus cidadãos, “a modos que” um rebanho!
Vejamos:
- Criaram uma lei que marca um dia do calendário como “o dia nacional do orgasmo”! Ora se isto não é uma maravilha?
- Há dias, como apareceu já neste blog, um inspirado juiz, afirmou que os órgãos sexuais são um “plus. Um bónus”! Que ótimo. Alguém à nascença não foi beneficiado com esta “dádiva da natureza”?
- Agora vai sair outra lei, ou decreto, ou coisa semelhantemente similar, obrigando os fabricantes de calcinhas de muher, soutiens e cuecas de homem, a porem nestes artefatos de vestimenta, uma etiqueta, lembrando que as mulheres devem fazer regularmente o controle do cancer de útero, ou de mama, e os homens da próstata! Uma espécie de “livro de instruções”. Viram o que é ter cuidado com a saúde do povo? O unico inconveniente é ter que ler as etiquetas, todos os dias ao se vestirem. Uma espécie do jornal do dia com as notícias de todos os dias!
- Por estas bandas, como já devem ter ouvido, há uma verdadeira fobia ao glúten. De fato há gente alérgica ao tal gluten, mas... então, para facilitar a vida do pessoal, todos, todos, os produtos alimentares, esxeto os produzidos com trigo, centeio ou cevada, têm que trazer no rótulo “Não contém glúten”! Beleza, né? Até nas garrafas de vinho! Whisky, marmelada, conserva de atum, mel, açúcar, etc. Que tranquilidade.
- Sexa o ministro da educação, notem bem, da educação, pensa distribuir pelas escolas uma cartilha ensinando as crianças, crianças, que tanto faz ter relações sexuais com os meninos como com as meninas. Eles com eles, ou com elas, e vice versa! Não é pecado e escusam de contar aos papás.
É um tremendo avanço na educação sexual. Vamos sugerir ao ministro que mande professores de ambos os sexos fazerem ao vivo, e durante as aulas, a demonstração deste desinibido e variado comportamento social. Desde cêdo se fomenta o “à vontade” em optar por ser gay, lésbica ou... anormal, isto é, hetero.
Com todo este cuidado com a saúde e a educação sexual, o índice de nascimento deve começar a diminuir, ou mesmo chegar a zero, o que será ótimo para quem queira para aqui imigrar!
E até nisto se perde o sentido da língua portuguesa, ou até de qualquer outra: estão a querer chamar a dois indivíduos do mesmo sexo, “casal”! Dantes, lá muito no antigamente, quando se comprava um casal de patos, galinhas, porcos, etc., é porque se queria um de cada sexo para reproduzir. Hoje a tendência é outra: uns casais bestas, reproduzem e depois vendem as crianças a novos pares para adoção. Nem se pode, mais tarde, chamar a uma dessas crianças “sua filha de mãe”, quando ela tiver dois pais, nem outros mimos parecidos... Modernidade.
Tudo para verem quem abicha (sem trocadilho) mais grana!
Dou graças a Deus por estar quase velhinho, porque nem sequer pretendo imaginar como estará o mundo daqui a meio século!
Haja tsunamis, erupções vulcânicas, deslocamento de placas, inundações, subida do nível do mar, ciclones e outras catástrofes mais, para ver se, os que sobrevivem, começam a ser gente ... anormal!


02/jun/2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011



Desencarnação e morte!

O Retrato de D. Brites



Cópia de uma carta que mandou o Dr. Manuel Soares Corrêa, juiz de fora, que foi de Penamacôr, ao seu amigo Francisco Alves, pintor na vila da Covilhã, pedindo-lhe que lhe pinte num quadro o recebimento e baptisado de sua filha, e a morte de sua mulher a Ilma. D. Brites.

“A pena com que pego na pena é tão grande e tão publica, que escuso de lhe contar: pois vocemecê saberá que quiz Deus levar a D. Brites onde ela só sabe; mas é certo que foi para o céu, que é a morada dos anjos, qual ela foi neste mundo; e como a tenho em presença na minha memória, quero também retratá-la em casa; e assim remeto a vocemecê um pano de estopa para que vocemecê pinte n’elle com as tintas mais finas, que tiver, três representações em um só quadro, que se ha de pôr na sala para memória deste infausto caso, com as figuras seguintes:

Recebimento

Vocemecê bem viu a D. Brites de marca ordinária; grossinha de corpo; o rosto não era comprido nem largo; entre clara e morena; os olhos entre azuis e pretos, com a cor de chumbo desmaiado; o nariz à flor do rosto; cova na barba; dentes brancos; beiços grossos, e alguns sinais de bexigas; o cabelo era louro e castanho, toucada como na corte, vestida de cor de goivo (veja que ha de ser de seda e não de lã).
Ao pé della ponha vocemecê duas moças vestidas de creadas; a mais velha de escada acima, e a outra de escada abaixo e a mim me há de pintar tal qual eu sou, com as feições que tenho, e vocemecê sabe; porem vestido honestamente, pela razão do meu cargo, com o meu vestido encarnado, véstia bordada; e calção com liga de prata; não se esqueça de pôr pluma no meu chapéu.
O acompanhamento é escusado dizer-lhe; vocemecê o sabe porque o viu. Ponha vocemecê uma igreja de pedra, que é a freguesia, com três clérigos, um deles vestido de ex sacramentis para nos receber; e veja que o dito padre não era alto mas sim clérigo de marca. Deixe vocemecê um campo em branco na pintura para se lhe pôr um dístico em verso, que ainda não passei.
 
Baptismo da minha filha

Pinta vocemecê d. Brites, doente em um pavilhão pardo, e ao pé d’ella uma mulher velha, vestida de moça; e a Oliveira, criada antiga da casa, e vestida de forma, que você já a tem visto por aqui; e mais algumas pessoas que assistiram ao parto, com os olhos chorosos e caras tristes por causa do aperto em que D. Brites se viu; o mais fica à sua disposição.
Segue-se logo a um canto a parteira de manto com minha filha D. Maria Soares Corrêa, recém nascida nos braços, involvida n’um corte de primavera tostada, e por diante guarnecida de prata. O acompanhamento que vocemecê viu seja o mais luzido que poder debuxar; lembre-se também de pôr todos ao redor a parteira, e os dois padrinhos juntos d’ella, vestidos de encarnado um d’elles com uma vela na mão junto à pia que há de ser de pedra dentro da igreja, o que vocemecê pintará da mesma sorte que fez no recebimento. Aqui deixará também lugar em branco para se lhe pôr uma legenda que há de ser feita em verso por mim.

Falecimento de minha mulher
 
Pintará vocemecê D. Brites deitada ma mesma cama; o cirurgião sangrando-a assistindo-lhe as mesmas criadas; ponha uma d’ellas com cara mudada por falta de somno, de sorte que se perceba que é por não dormir quasi uma semana; pinte uma a pegar na bacia, e outra a deitar água nas mãos; pinte a Oliveira, com uma almotolia de azeite virada com a boca para baixo, dando a entender que vai buscar mais à despensa; pinte D. Brites com a cara macilenta, enchada, e com os olhos papudos, com um círculo negro por cima, e outro por baixo; enfim cor de defuncta doente já morta, e as mulheres compondo-a com o hábito de freira vestia em um caixão rico, a cera acesa, quatro cavalheiros de preto para pegarem no caixão, e clérigos em quantidade.
Peço a vocemecê isto como obra sua, e sobre tudo a brevidade para que este coração sinta algum descanso em magua tão grande, de que vocemecê me há de aliviar como amigo. Não se esquecendo de pintar na freguesia uma torre com sinos a dobrarem, só dois dias e meio de manhã até à noite

Penamacor, 12 de Março de 1748

O dr. Manuel Soares Corrêa


N.- Dá-se um prêmio a quem for capaz de pintar este quadro! Sobretudo com os sinos a dobrarem só dois dias e meio!!!



24 mai. 11



quarta-feira, 25 de maio de 2011



A propósito de uma crônica de

Arnaldo Jabor

“O discreto charme da Corrupção”

Jornal “O Globo” 24 de Maio 2011



Cheguei ao Brasil há 36 anos, já bem passado dos 40. Com razoável experiência de vida, e sempre, não só desapaixonado da política, como contumaz crítico.
Pouco tempo depois conheci uma “excelência”, deputado, que em meio de conversa com vários seus amigos, sobre o Brasil, sua situação, futuro, etc., pediu a minha opinião sobre o assunto, uma vez que eu chegara de fora, olhos novos, sem os ouvidos cheios da politiquice daqui.
Foi muito simples responder, com o conhecido provérbio chinês que diz: “Se os teus planos forem a um ano, planta arroz, se forem a dez planta uma árvore, mas se forem a cem, educa o povo!”
-“Cem anos... ?!!! – Foi a exclamação de espanto e até de tristeza dos presentes. - “Cem anos para o Brasil entrar no futuro”?
- “E atenção! Cem anos a partir do momento em que se começar, a sério, a educar o povo”.
A verdade é que esse momento ainda não chegou, e parece estar para tardar, com as intelectuais iniciativas do MEC, como o ENEM esculhambado, Monteiro Lobato virando negreiro, e a ensinarem para que nóis fala mal, além da vergonhosa, infame, cartilha explicando às crianças e adolescentes que sexo é para usar de qualquer forma!
A destruição da célula base de uma sociedade. A família.
É evidente que não apoio qualquer forma de ditadura, mas não sou cego a ponto de deixar de ver o que se passa. Aqui, como por exemplo, em Portugal.
Não consta que houvesse este atual e permanente assalto à res publica no tempo dos militares, nem da ditadura portuguesa. Sempre houve ladrões e corruptos, aqui e em qualquer outro país do mundo, incluindo os evoluídos nórdicos. Mas ninguém pode levantar um só dedo que seja a qualquer dos generais que foram aqui presidentes.
Depois disso chegaram os pretensos democratas e a canalha revolucionária dos anos sessenta tomou conta do poder e das contas. Quantos membros do atual e anterior governo enriqueceram ou estão com processos nos tribunais?
Serão todos eles descendentes de portugueses, cujos avós eram ladrões, os bisavós negreiros e os tataravós degredados?
Alguns têm nome português, como Fernando Pimentel, o que quis seqüestrar o cônsul dos EUA em Porto Alegre. Mas e a dona presidenta? E o chefe da casa civil? E... tantos outros; serão todos descendentes de portugueses, ladrões, negreiros, etc.?
E qual seria o problema de ser descendente de degredado? Não foi assim que se fez o imenso país que é a Austrália?
Outra pergunta que já uma vez fiz ao senhor Jabor e que, como costume, não teve resposta: “Porque o seu pai, sabendo desta desgraça toda, optou por emigrar para o Brasil? Não veio encontrar um país onde pôde educar o filho, dar-lhe conhecimento e cultura? Será que teria sido melhor que o Brasil tivesse sido colonizado por libaneses? Ou até por italianos – veja-se o exemplo da Etiópia e Eritreia – tipo berlusconiano?”
Ou alemães, ingleses, franceses, holandeses, espanhóis? Todos estes, nas regiões tropicais, deixaram o que? Nada. Os portugueses deixaram o Brasil!
Não consigo entender porque o senhor Jabor, sempre que pode, insulta o passado dos portugueses!
Posso dizer-lhe que os meus dois avós, brasileiros, não foram ladrões. Um foi diretor duma companhia telefônica e acabou quase na miséria. O outro foi industrial e comerciante. Não conheci ninguém mais honesto.
Os bisavós: um deles além de não ser negreiro, foi o fundador da primeira Sociedade de Emancipação de Escravos no Brasil, em Pelotas. No escritório dele reuniu-se esta Sociedade pela primeira vez, quando se alforriaram quatro escravas. O outro foi poeta e escritor, e no fim da vida era ajudado financeiramente pelo filho.
Tudo isto no Brasil.
E como é possível que o Brasil, estando no seu 189º ano de independência, ainda queira atribuir os seus descalabros de hoje a essa “herança maldita”?
O senhor, Arnaldo Jabor, sabe tão bem, ou muito possivelmente melhor do que eu, que tudo depende unicamente da educação. Em 189 anos o que tem proliferado são as faculdades privadas, fonte de lavagem de dinheiro e ensino abaixo de crítica, porque pertencem, quase todas à politicada.
Mas o alicerce, a instrução primária, é deixado ao descalabro, bem como a secundária, e até muitas escolas estão hoje nas mãos do MST, como sabe.
E o ensino técnico? Louvamos, só mínimamente, alguns cursos do SENAI e SESC. Mas quando se sabe que, por exemplo, em França, um indivíduo que queira ser açougueiro, tem que fazer um curso de dois anos! Um soldador, quatro. E aqui?
Só falta citar nessa “herança maldita” o ter-se obrigado, ainda no século XVIII a que só se ensinasse nas escolas em português. Se isso não tivesse acontecido, teria havido uma pulverização de pequeninos brasis. No entanto, hoje, o MEC, quer que se ensine o tal “nóis tamo mais burro”! E o ministro da educação será descendente de português?
Um país que renega o seu passado não tem futuro. Ciência antiguinha, mas uma grande verdade.
Depois que acabou o império britânico, foi a vez do império americano, dos yankees. Este já começou a agonizar. Está chegando o chinês. Depois a Índia. E o Brasil? Um país com tanta possibilidade! O Brasil não tem cultura nem tradição. Nem parece querer ter. Não tem suporte onde se agarrar. É por isso também que os pseudo revolucionários dos anos 60 não vingaram. Só tinham idéias importadas, e não ideais vinculados à terra de seus antepassados. O Brasil continua a ser a “terra dos outros”. Não dos índios, mas dos outros. Sempre dos outros. E isso é evidente ao ver como vota nas eleições. Por isso, apesar de ser uma potência emergente, faltam-lhe uns séculos de bom senso e educação de qualidade para se poder impor no cenário mundial, deixando de ser um exportador de matérias primas, mas de idéias!
É verdade que o Brasil começa com as capitanias. Se o senhor fosse o rei de Portugal, como teria organizado esse começo de colonização? Mas, aqui para nós, foi muito mais fácil ter chegado aqui no século XX do que no XVI, não foi? E criaram-se igrejas, é verdade, o que teve a virtude de, durante muitos anos, unir o povo.
O que se faz hoje para transformar o Brasil num país sério, para não ouvir mais piadas de nenhum De Gaulle?
Critica-se Monteiro Lobato, paga-se vergonhosamente a professores primários e secundários, muitos dos quais não têm mais do que um miserável ensino primário, grande parte dos edifícios escolares mais parecem pocilgas, ignoradas pelas “autoridades”, mas ensina-se que todo o mal vem da colonização portuguesa.
Francamente, senhor Jabor, eu que sempre leio as suas crônicas, e o admiro, não posso acreditar que esteja falando sério ao querer desmontar assim o passado e os fundadores deste país.

25 de maio de 2011

sábado, 21 de maio de 2011



Não é para ter inveja !

Mas a verdade é que, onde vivemos (i.é, eu vivo) no Rio de Janeiro, estamos felizmente afastados do centro, de ruas movimentadas, casa isolada no meio do terreno, muita árvore, sossego, silêncio, tranqüilidade.
O nosso palácio! Apesar desta “maravilha”, se quisesse, hoje, ir morar num apartamento mixuruco, lá no meio dos emergentes da Barra, teria que vender esta casa duas ou três vezes! Estamos no meio do “mato”... o que será pouco chique, mas é uma delícia!
E deliciamo-nos com as visitas daquilo que a natureza nos oferece como uma pequenina amostra da sua generosidade.
Quase diariamente temos que gastar uma ou duas bananas para dar aos pequeninos macacos, os Sagüis, que nos visitam, sem medo, sempre em grupo, uma família com seis a dez membros. Uma beleza. Os filhotinhos quando nascem têm, no máximo uns oito centímetros de comprimento!




Na casa ao lado, num coqueiro junto ao nosso muro, vive, desde que viemos para esta casa há, outra família, mas de “Bem-ti-vis”. Barulhentos, sem vergonha, todo o dia vêm “roubar” um pouco da ração do nosso fiel guarda! Quando pegam um pedaço maior, que não lhe entra logo na goela, voam até uns quatro metros de altura, soltam o granulado que se quebra ao bater no chão. Depois... é muito mais fácil comer!

  
E um “Sabiá”, que não canta, mas marca a presença constante batendo com o bico numa das janelas do andar de baixo! “Tuca, tuca, tuca”, olho muito vivo, olha para os lados e continua: “tuca,tuca...” mas é demasiado arisco. Só o conseguimos ver com um espelho! Se sente o mínimo barulho ou a aproximação de alguém, voa e esconde-se no meio da folhagem!



A seguir as “Rolas”, que durante anos fizeram sempre o ninho no mesmo arbusto e um dia... sumiram. Estão de volta, com moradia em lugar mais escondido!




“Beija-flores”, sempre por aqui estão, beijando uma ou outra flor! Pairando no ar, as suas asas fazem um ruído de ventilador! Não se assustam muito com a nossa presença. Creio até que alguns já nos conhecem bem!

Desde há alguns anos que, dependendo da época ano, temos a visita mais espetacular! Os “Tucanos de bico preto”. São uma maravilha. Sempre aos pares, às vezes três, possivelmente um filhote, têm um grito próprio. Sempre que aparecem, aqui no topo das árvores, corremos para fora de casa, binóculo na mão, para gozar este espetáculo maravilhoso!


Agora começou a aparecer a “Gralha cancã”. Originária do Nordeste, com o desmatamento daquela região, já se está instalando no Rio. É um pássaro lindo, branco e preto, mesmo nas costas, uns 40 a 50 cm. de tamanho, só que o gralhar dela, lembra, infelizmente, o de alguns políticos conhecidos: muito barulho sem se fazerem entender.




Mais raro, infelizmente, é o “Papagaio Fura Mato”. Só o temos visto isolado. Deve ser ainda solteiro ou viúvo!





Agora que uma das nossas árvores está completamente carregada de frutos, “Abiu” (Pouteria caimito), frutos com a consistência de nêsperas, maiores um pouco, agridoce, que faz a delícia da passarada, e, dentro dela – uma árvore com uns 6 a 7 metros de altura, e copa, bem fechada, com diâmetro igual – andam dezenas de pássaros que, os meus conhecimentos ornitológicos não permitem identificar. Tudo lindo, na comilança.



 Mas além destas delícias, volta e meia aparece um “Gambá”, mas morto, talvez mordido pelo cão, que há tempos se atreveu também a dar uma mordida num “Ouriço” – que só saem de noite para comer – e à meia noite teve que ir ao veterinário para lhe tirar da boca, beiças e nariz, mais de cem pequenos espetos! Esperamos que tenha aprendido a lição!

Filhote de Gambá



Bravo para o nosso “Mike” – uma belíssima cruza entre São Bernardo e Pastora Belga – que um dia matou, à porta da cozinha, uma “Surucucu”! Tinha uns 80 cm. de comprimento, e veneno suficiente para matar qualquer um!
Surucucu ou Jararaca ?


Volta e meia também vemos, muito bem dissimulada entre os verdes a “Cobra verde”. Parece ser inofensiva – o que não desejamos confirmar pessoalmente – mas tem uma cor linda.





E para finalizar um “Hurra” ao nosso guardião. Uma maravilha de cão. Enorme, fortíssimo, ronco e pata de leão, mas um doce, com os donos e seus amigos.

O “Mike”(com um ano e pouco!) e o Lourenço


E aqui têm uma visão de “história natural” caseira. Se não acreditam, podem vir confirmar. Além das portas estarem abertas, temos sempre um prazer especial em receber os amigos. E... até os outros. Porque não?

Até já.

21/05/2011