sábado, 15 de maio de 2010


Duas recomendações de
. 
leitura


Para quem gosta de África, especificamente de Angola, foi agora publicado um livro magnífico do fotógrafo baiano Sergio Garcia, sobre os Hereros. O livro - Hereros - é magnificamente ilustrado com belissimas fotografias, farta informação recebida diretamente deste povo e ainda uma recolha de música.

Diz a editora: "O fotógrafo Sérgio Guerra aprofunda seu olhar sobre a cultura angolana com ‘Hereros – Angola’, luxuosa edição bilíngue (português-inglês) em formato 30 cm x 30 cm (Editora Maianga, 260 páginas, R$ 190,00) que traça um amplo painel do modo de vida e das tradições dos pastores da etnia Herero. Acompanha o livro um cd de 18 faixas com cantos cotidianos – gravações realizadas em julho e agosto de 2009, sem qualquer intervenção posterior que pudesse alterar a autenticidade dos registros."
Podem procurar na Internet, e como é um livro grande e em papel couché, o custo do seu envio postal para a Europa ou Angola não será muito barato.


Mas vale a pena. Uma delícia para os olhos, ouvidos e conhecimento.

Outro livro, de assunto diferente, sem ser uma edição de luxo, mas com bastante interêsse histórico, na só da cidade de Cuiabá, mas de todo o Brasil. Um tema raramente abordado, e que pode também retratar o que se passava em quase todas as cidades do mundo, "pouco tempo atrás".

Água de Beber no Espaço Urbano de Cuiabá (1790-1886)



A professora Neila Maria Souza Barreto convida-nos a caminhar pelo espaço urbano de Cuiabá de outrora para observarmos como os rios, os córregos, as fontes, os chafarizes, indistintamente saciavam a sede dos escravos, dos pobres livres urbanos e dos homens e mulheres da elite, apontando-nos os instrumentos que eram utilizados para o transporte e posterior uso da água, como as carroças, as pipas e os bois. Leva-nos também aos espaços aos quais a autora denominou de Espaços Privilegiados de Água Potável Urbana, onde as primeiras penas d’água finalmente foram instaladas em Cuiabá, já no final do século XIX, especificamente no ano de 1886.

Porque me interessou o livro, alguns perguntarão? Porque quem finalmente, em 1882, acabou resolvendo o abastecimento de água, através de caixas de água, túneis e encamentos de ferro, etc. um trabalho de bela engenharia, foi o Eng. João Driesel Frick, de quem já aqui falei.



Edição de Carlini & Caniato; Caniato Editorial, de Cuiabá. Também na Internet.

Podem ler os dois que eu recomendo!

quinta-feira, 13 de maio de 2010


Mais um pouco de história de Angola. Esta é a carta que deve ter dado origem à de 1619, que se transcreveu antes.

Do Padre Francisco de Gouveia para o Padre Diogo Mirão (i)

1564



Depois de partida a outra gente no batel que se fêz em Pambalungo, ficámos aqui quatro pessoas cristãs das que viemos, s. o senhor Paulo Dias e eu e dois moços, e passámos muitos trabalhos, porque, além de nos não darem muitas vezes nada, nos espancam muitas vezes, pelo que a gente nos foge e deixa sós, e dizer isto a el-rei não muda nada, pelo que nós sofremos acomodando-nos com vender secretamente esta pobreza que temos, farrapos, coisas velhas, a fidalgos da terra a troco de mantimento. — Na cristandade se não faz nada.

Os reis grandes que são nomeados em Angola são Manicongo e Cutange e têm seus reis negros. Os fidalgos e pessoas nobres com que falamos não dão pelas coisas de Deus e o rei vemos mui poucas vezes e, quando lhe falamos nas coisas da fé, faz que não entende e, depois de importunado, diz que êle vira a aprender, e isto cheio de riso e zombando de nós.

Nosso amo, que se chama Gongacinza, me diz que el-rei ainda há pouco que começou a reinar e que por isso não dá ainda pelo que lhe dizemos, mas que tempo virá em que êle me mande chamar para o ensinar. Isto faz para nos deter, parecendo-lhe que enquanto aqui estivermos virão navios de portugueses aos portos com fazenda de que tirará proveito. — Outro dia diz que somos escravos de el-rei e que vamos fazer seu serviço, como algumas vezes fazemos, como de coser-lhe capas e outros vestidos de Portugal e brear almadias em que el-rei se lava e outras coisas semelhantes; e nisto passamos a vida.

Neste ano de sessenta e quatro se queimou a cidade de Angoleme, onde el-rei então residia e dez vezes se pôs o fogo em diversas vezes, fazendo sempre grande estrago em casas, fazenda e gente, mas da ultima ardeu sem ficar casa, de maneira que foi necessário levantar-se el-rei para daí a duas léguas a outra sua povoação, e daí a poucos dias se veio a Cabaça, metrópole de seus reinos, onde agora reside e nos com êle, fazendo aqui nova cidade e em novo sitio; foi a coisa mais espantosa o fogo de Angoleme, que eu nunca vi nem os negros se acordam de tal, porque uma cêrca tamanha como os muros da cidade de Évora, com cinco ou seis mil casas de palha e madeira muito grossa e muros de paus altos e grossos, tecidos de palha e canas, assim por todas as ruas da cidade ateado tudo em um estranho e vivo fogo por todas as partes com mui tempestuoso vento, era o mais medonho estrondo que se podia imaginar. — Começou com uma hora da noite e acabou uma ou duas horas ante-manhã pouco mais ou menos, deixando tudo arrazado e feito em cinza e carvão; e, conquanto as gentes que acudiam a êste fogo serem perto de mil pessoas, que logo se ajuntaram ao tanger dos seus chocalhos para arrecadar a fazenda de el-rei, se queimou infinidade, assim da terra como da de Portugal. — Era tão bravo êste fogo, que, nas mui altas palmeiras de que a cidade estava toda cheia, andavam tão fortes as línguas dêle, que com serem verdes ardiam como tochas e, como eram altas e cheias de rama, tomavam maior vento, pelo que faziam maior estrondo, e toda a terra que descobríamos com a vista estava tão clara como se fora ao meio-dia, sendo tão alta noite. Neste fogo morreu muita gente queimada que se não pode salvar, outra que se mandou queimar e lançar ao mesmo fogo para o aplacarem, que bem pouco lhe aproveitou, porque o Diabo assim o costuma com êles e com todos os seus servos, que é obrigá-los a fazer-lhe muitos serviços e maldades que lhes ordena, sem fazer por êles nenhuma coisa das que lhe pedem, antes tudo ao contrário. — Fêz, como digo, muito espanto êste novo fogo em toda a gente da terra e o que mais espanto fêz foi estarem as nossas casas pegadas com os muros de el-rei, não lhes fazendo nenhuma das vezes o fogo nada, antes vinha sempre morrer na nossa testada como milagrosa, e que ninguém o vira que o não atribuísse a grande milagre.

E outra coisa que nao fêz pouco espanto foi verem nosso fato na rua sem guarda e não se furtar coisa alguma e o seu com muitas guardas se roubou quasi todo, coisa que nêles causou mui grande admiração, e falava toda a terra nisto. Nós atribuímos a especial providência e misericórdia de Deus.

Todos nos diziam que a igreja e coisas que de Deus nela tínhamos nos guardavam e por isso folgavam muitos de nos ter por vizinhos, por se verem livres do fogo e crer que por isso foram livres, como êles também crêem, por estarem a par da igreja, principalmente um gentio fidalgo, parente de el-rei, bem valoroso e capitão-mór dêste reino.


—Ao primeiro de Novembro de mil quinhentos e sessenta e quatro.


- - - * - - -

A dureza do cativeiro aumenta. Os portugueses são espancados com frequência e, para não morrerem de fome, sujeitam-se a “vender secretamante esta pobreza que temos, farrapos, coisas velhas»!
Na propagação da fé cristã não havia também quaisquer progressos: o rei, ou fazia que não os entendia ou francamente zombava das crenças dos cativos, caídos sob as garras do feiticeiro-mor Gongacinza, que os ia enganando conforme lhe convinha.

Todavia os portugueses já tinham igreja em Angoleme, como se vê da parte final do documento.

A carta dá a indicação dos reinos limítrofes de Angola: Manicongo e Cutange (Cassange?), mas fá-lo tão incompletamente e duma forma tão cortada tão cortada, que fica a suspeita de ter a carta sido truncada neste ponto.

Em face do grande incêndio que quasi por completo destruiu Angoleme, residência do rei, êste mudou para outra povoação, a duas léguas de distancia. Daí deslocou-se para Cabaça(ii), metrópole de seus reinos «onde agora reside e nós com êle, fazendo aqui nova cidade e em novo sítio».

A igreja portuguesa de Angoleme escapara do incêndio. (iii)


(i) Provisão de 10 de setembro de i555 expedida a Diogo de Teive, mandava entregar ao Provincial i da Companhia nestes reinos, que era Diogo de Mirão, o Colégio das Artes, para que os Padres dirigissem e lessem as Artes e tudo o mais que lessem os mestres franceses».—Historia da Literatura Portuguesa, de Mendes dos Remédios, pag. 328 (5ª edição).


(ii) Nbanza-a-Cabaga, segunda côrte ou segunda banza — Da Mina ao Cabo Negro, L. Cordeiro, pag. 10, nota. Ver outra derivaçao em Lopes de Lima, intr., pag. ix, nota 4ª.

(iii) do livro Relações de Angola (Primórdios da Ocupação Portuguesa) – Pertencentes ao Colégio dos Padres da Companhia, de Luanda, e transcritas no Códice existente na Biblioteca Nacional de Paris. Prefaciadas, comentadas e anotadas por Gastão de Sousa Dias. Coimbra, Imprensa da Universidade. 1934.

quarta-feira, 5 de maio de 2010


2ª parte – continuação da







Copia da relação dos costumes, Ritos e usos do Reino do Congo, que o Bspo deu a vmgde. e pecados que nelle se cometem.

(da Biblioteca Nacional de Lisboa. Secção Ultramarina. Caixa 145 Angola)


 
Snor.

EIRey dom Alvaro segundo, foi bem quisto, e muy melhor obedecido que os que lhe suçederão, ainda que da mesma vida, chamousse magestade por assy lho meterem em cabeça algús Religiosos, e outras pessoas, tomando para isso motivo de entenderem mal hua carta q o sumo pontifiçe lhe escreveo, e por Eu lhe estranhar a magestade, e lha impedir por vertude de huá carta de V. M.de que para isso tive, e por prender e embarcar o padre deão diogo Roiz pestana, que era muy seu valido por V. M.de assy mo ordenar por outra, recebeo contra my grande odeo, e impedio o effeito desta prizão muitas vezes, de maneira que para a poder fazer, uzei de escomunhões, e interdictos, como V. M.de me mandou que o fizesse, E estas çenssuras, se levantavão huás vezes, e se tornavão a por outras, porque por muitas, mostrou elRey que obedecia a ellas, tornando logo a desobedesser, e cõ esta sua preçeguissão, e odeo que durou em quanto elle viveo, receby Eu notavel perda, na quietação, Jurisdição, e fazenda, sem me apartar hum ponto do q V. M.de me mandou, como constara de muitos papeis q tenho em meu poder ./.
EIRey dom Bernardo que lhe sucedeo, e que durou pouco por ser morto por EIRey dom Alvaro terceiro seu sobrinho como he dito, e que Eu não vy por no seu tempo estar em loanda, no principio, correo bem comigo em cartas, e eu cõ eIle, quis tambem chamarsse magestade, e pediome que fosse a Congo para..lhe lançar o habito de Christo, ou lhe mandasse licença para lá o receber, respondendo lhe Eu, segundo o q V. M.de me tinha mandado, que nenhuá daqla. cousas, podia, nem devia fazer, representandoselhe, que Eu lhas negava plo molestar,e não por não poder, tambem se indinou muito contra my, e durou nisso em quanto viveo, que foi pouco, e numqua tomou o abito de Christo, nem tambem apertou muito sobre o titulo de magestade ./.
Tem a gente do Congo, e de Angola muitos ritos gentilicos de que assy uzão, os que o são, como os bautisados, e a Christandade pla maior parte he só de nome, porque quando os curas vão correr os districtos de suas capellas, he mais para receber as colheitas, que para ensinar, e assy bautisão a todos os q se lhe offerecem, sem diferença de pessoa, e sem os catequisar, e posto que por este modo ficão bautisados, he o bautismo informe, e tantos sacrilegios cometem, quantos bautismos fazem, e dando Eu distintamente a ordem que isto se devia ter, nem isso foi bastante para tirar este abuso (posto que em parte se melhorou) e para sever qual he a christandade daquellas partes, e como ellas se administra bautismo, digo o q me aconteçeo, indo visitar os presidios, a onde numqua foi outro prelado; e he que achando entre os sovas da obediencia de V. M.de no presidio de Cambambe, sete bautisados, e perguntandolhes publicamente pla doutrina, nem essa, nem o sinal da Cruz sabião, nem se tinhão confessado numqua, nem entrado em Igreja, afirmando que nenhuá destas cousas se lhe diçera, quando forão bautisados, e perguntandolhes, se deixarão as mancebas, ou quantas tinhão, o principal respondeo que çento e vinte, outro que çento, outro q sessenta, outro que çincoenta, outro q trinta, outro que vinte, e outro que quinze, e sendo esta a christandade assy querem os governadores que os padres bautisem; entendendo que nisso acertão e poderão alegar que converterão muitas almas, e tambem se não fas este officio cõ a perfeição devida, quando em 1oanda se bautisão os escravos q se embarcão para fora, porque ha aly, só hum Vigario a que pertence, e que alem de não saber a lingua, trata mais de receber o premio, que de acertar em seu officio ./.
Naquelle Bispado não achey constituições, nem cousa por onde me ouvesse de governar, e por isso as fis com muito trabalho, e he magoa grande que sendo a gente tanta, as terras tão fertis, e tão largas, se perca tudo, por falta de ministros Eclesiasticos, o Porto de loanda he excelente, mas o territorio cõ seus arredores, sequo, e infrutuoso, e passão dous, tres e mais annos que não chove, sendo muito ao contrario pla terra dentro, os Reys do Congo trasem todos o habito de Christo cá sua seta de são Sebastião, e o mesmo os duques, de batta, e bamba, e os manilouros, tendolhes V. M.de por veses mandado declarar, q não pode ser, por ser cousa Eclesiastica e de grande escrupulo e só concedida a V. M.de, como mestre da ordem, e não ha podelos tirar deste abuso, por q crem firmemente que o q hua ves se lhe deu, he para dos os q lhe suçederem, sendo assy, que o que eIles dão, tirão cada ves que querem, e trasem ao pescoso muitas cadeas de ouro, alquime, e aço, cõ muitos habitos, tendo o por grandesa, e loucainha. São os Rey do Congo, univerçaes erdeiros de todos seus vassaIlos, e tomando para ssy, o que querem do q lhes fiqua, o mais dão livremente a quem querem, e os que oge são duques amanhã os tirão, e ficão servindo a fidalgos ordinarios ./.
Esteve o Rno do Congo despois de sair deste o capitão mor Anº Glz pita, sem capitão, nem Angola ouvidor de V. M.de algus annos, e despois fis Eu cõ muito trabalho reçeber hum que mandou o governador luis mendes de Vasconcelos, a q se tem muy pouco respeito, porque ElRey se mete em tudo, e trata muy mal os vassallos de V.Mde, levando os consigo a força descarapusados, e o mesmo fazia aos saçerdotes, e ainda os obrigua a que o acompanhe as guerras e a outros caminhos que fas, sem lhes dar o neçessrio para isso, aos paçageiros desbalijão, e empendenlhe os caminhos, levanlhe extraordinarios tributos, e peitas, q acressentão, cada dia, e postas e outras, extorções, ha grandes desgostos, queixas, e perdas. pedem Sol, e chuva aos prelados, e aos sacerdotes, como a pedem aos seus feitiçeiros, e queixãosse de lha não darem, como se isso fora em sua mão ./.
V.M.de manda que nenhuás fazendas prohibidas plos. Reys de Congo, levem os portugueses, a seus Rnos e q se lhos tomem por perdidas, todas as que não registarem, e porque isto se não guarda ha cada dia, grandes inquietações, tem EIRey de Congo prohibido cõ grandes penas, que não levem os Vassalos de V. M.de a seus Rnos, Zimbo do brazil, e de outras partes, porque como essa he moeda que nelles corre, esta cõ a grande cantidade q vay de fora; tão abatido o seu, que perde nelle as duas partes de suas rendas, e o mesmo aconteçe aos Eclesiásticos porque nelle lhe fazem o pagamto de algús disimos q lâ ha, e por este respeito a petição do mesmo Rey, o prohiby Eu por escomunhão, E nem cõ ella, nem cõ as penas q EIRey tem posto, deixa de entrar, em tanta quantidade, que vay deitando aquele Rno a perder, e se EIRey para o atalhar dá algum castiguo alevantãolhe que presegue os vassalos de V. Mde. E não respeitão que elles são os que o perçeguem a elle, levando lã muitas mercadorias falças, e vendendoas por finas, em muy grande perjuiso de suas consçiençias e desacato de hum Rey christão, que V.M.de ampara, e manda amparar sempre ./.
Todas as materias de Justiça, se Julgão por audiencias verbaes, e co muy pouca prova confiscão as fazendas, degredão, matão, empenão, e apedrejão, e se logo se não executão suas resoluções verbaes, por qualquer roguo e peita se perdoão- dilictos gravissimos, e plos. Liviçemos e mal provados, morrem e padeçem os dos favorecidos, e estão tão entregues a este modo de proceder gentilico que não avera força umana que cõ elles introdusa outro christão, deixãosse entrar de qualquer sospeita, e são façelissimos em levantar testemunhos falços, e em se desdiser delles, e sendo arguidos dos vicios em que caem de maravilha os negão, os principais tenho aprontado, e para os q ficão serião neççsarios livros inteiros ./.

Ds, guarde a Catholica pessoa de V. Mde ./.
De lisboa a 7 de setembro de 1619.

sábado, 1 de maio de 2010


A IGNORÂNCIA (OU

 A GANÂNCIA?) É A

 FONTE DE TODOS OS

MALES



Há pouco mais de quatro anos escrevi uma crônica com este título. Nada mudou do que ali está, mas sempre há algo a acrescentar.
Não é de agora que se sente a Europa a agonizar. Está velha, gasta, e não consegue lutar contra a juventude e dinâmica de uma China, Coréia, Índia, nem com o Brasil apesar da sua altíssima corrupção, inépcia, sovietice disfarçada e de ter os juros mais altos do mundo.
Neste estado de saúde decrépito do Velho Mundo (?) acabamos de ver a Grécia entrar para uma UTI hospitalar, máscara de oxigênio, e todo o equipamento de manutenção da vida vegetativa que tanto se utiliza em doentes terminais, Portugal já hospitalizado, na fila para entrar também nos Tratamentos Intensivos, a Espanha na enfermaria, a Irlanda com “marca-passo” porque o coração esta a falhar, a Ucrânia, a Itália mais o imoral bilionário Berlusconi, e... o que mais audiante se verá!
Mas porque será que estes países não se agüentaram assim que entraram para a zona do Euro?
Resposta: indigestão de dinheiro “fácil”, muita ladroagem, incapacidade e aumento desmedido da máquina administrativa, salários e compensações astronômicas para os compadres e comadres, e tudo mais que um empresário normal não faria.
Então se um empresário não o faria, porque fazem os administradores públicos? Simples: porque não arriscam “o deles”, mas “o nosso”!
Pouco tempo faz que a estes países chegava um monte de dinheiro para promover o seu desenvolvimento, para os colocar ao nível do chamado primeiro mundo europeu: Alemanha, Inglaterra, etc.
Gastou-se que foi uma beleza. Portugal encheu o país de estradas, que se encheram de carros de luxo, fez a Expo, que custou uma fábula, e esqueceu-se de um só e simples detalhe: aquela mamata tinha prazo para acabar. E os governantes “esqueceram-se” que a “mamãe” Europa já tinha fechado a torneira da esmola.
E continuou a gastar-se. E continuou a gastar-se. Até que um dia a conta chegou, e dinheiro para a pagar... não há. Ignorância... ou ganância? Traição ao país, com certeza.
Sacrificam-se os aposentados, os menores, que os cima sobrenadam como a cortiça até em tsunamis.
Agora mais do que nunca vem à memória os tempos austeros, e por isso ditatoriais de Salazar. Vale ouvir a opinião de quem viveu, por dentro, essa época e os problemas que Portugal, pequenino, atravessou:

“Quinta-feira, 22 de Abril de 2010

MEMÓRIAS DE UM "PORTUGAL" QUE ERA RESPEITADO

Corria o ano da graça de 1962. A Embaixada de Portugal em Washington recebe pela mala diplomática um cheque de 3 milhões de dólares (em termos actuais algo parecido com € 50 milhões) com instruções para o encaminhar ao State Department para pagamento da primeira tranche do empréstimo feito pelos EUA a Portugal, ao abrigo do Plano Marshall.
O embaixador incumbiu-me – ao tempo era eu primeiro secretário da Embaixada – dessa missão.
Aberto o expediente, estabeleci contacto telefónico com a desk portuguesa, pedi para ser recebido e, solicitado, disse ao que ia. O colega americano ficou algo perturbado e, contra o costume, pediu tempo para responder. Recebeu-me nessa tarde, no final do expediente. Disse-me que certamente havia um mal entendido da parte do governo português. Nada havia ficado estabelecido quanto ao pagamento do empréstimo e não seria aquele o momento adequado para criar precedentes ou estabelecer doutrina na matéria. Aconselhou a devolver o cheque a Lisboa, sugerindo que o mesmo fosse depositado numa conta a abrir para o efeito num Banco português, até que algo fosse decidido sobre o destino a dar a tal dinheiro. De qualquer maneira, o dinheiro ficaria em Portugal. Não estava previsto o seu regresso aos EUA.
Transmiti imediatamente esta posição a Lisboa, pensando que a notícia seria bem recebida, sobretudo numa altura em que o Tesouro Português estava a braços com os custos da guerra em África. Pensei mal. A resposta veio imediata e chispava lume. Não posso garantir, a esta distância, a exactidão dos termos mas era algo do tipo: "Pague já e exija recibo". Voltei à desk e comuniquei a posição de Lisboa.
Lançada estava a confusão no Foggy Bottom: - Não havia precedentes, nunca ninguém tinha pago empréstimos do Plano Marshall; muitos consideravam que empréstimo, no caso, era mera descrição; nem o State Department, nem qualquer outro órgão federal, estava autorizado a receber verbas provenientes de amortizações deste tipo. O colega americano ainda balbuciou uma sugestão de alteração da posição de Lisboa mas fiz-lhe ver que não era alternativa a considerar. A decisão do governo português era irrevogável.
Reuniram-se então os cérebros da task force que estabelecia as práticas a seguir em casos sem precedentes e concluíram que o Secretário de Estado - ao tempo Dean Rusk - teria que pedir autorização ao Congresso para receber o pagamento português. E assim foi feito. Quando o pedido chegou ao Congresso atingiu implicitamente as mesas dos correspondentes dos meios de comunicação e fez manchete nos principais jornais. "Portugal, o país mais pequeno da Europa, faz questão de pagar o empréstimo do Plano Marshall"; "Salazar não quer ficar a dever ao tio Sam" e outros títulos do mesmo teor anunciavam aos leitores americanos que na Europa havia um país – Portugal – que respeitava os seus compromissos.
Anos mais tarde conheci o Dr. Aureliano Felismino, Director-Geral "perpétuo" da Contabilidade Pública durante o salazarismo (e autor de umas famosas circulares conhecidas, ao tempo, por "Ordenações Felismínicas" as quais produziam mais efeito do que os decretos do governo). Aproveitei para lhe perguntar por que razão fizemos tanta questão de pagar o empréstimo que mais ninguém pagou. Respondeu-me empertigado: - "Um país pequeno só tem uma maneira de se fazer respeitar – é nada dever a quem quer que seja".
Lembrei-me desta gente e destas máximas quando, há dias, vi na televisão o nosso Presidente da República a ser enxovalhado, pública e grosseiramente, pelo seu congénere checo a propósito de dívidas acumuladas.
Eu ainda me lembro de tais coisas, mas a grande maioria dos Portugueses, de hoje, nem esse consolo tem.

Estoril, 18 de Abril de 2010

Luís Soares de Oliveira”

Obrigado Embaixador Luis Soares de Oliveira por nos relembrar uma época em que se tinha orgulho de ser português.

Francisco G. de Amorim
01/05/10

quinta-feira, 29 de abril de 2010

1a. Parte

Copia da relação dos costumes, Ritos e usos do Reino do Congo, que o Bspo deu a vmgde. e pecados que nelle se cometem.

(da Biblioteca Nacional de Lisboa. Secção Ultramarina. Caixa 145 Angola)


Snor.



Continuando na informação q. V. M.de me manda dar por escrito acerca dos costumes dos moxicongos e naturaes do Reino de Angola, digo que segundo o que alcancey em perto de dez annos q tratei có elles, não tem vertude, vergonha, verdade, nem constancia, senão, em o mal, por q. são de ordinario çençuaes, sem perdoar a parentésco muy chegado, assy de consanguinidade, como de affinidade e per tradição antiga e rito gentilico tomão por mancebas todas as q. os paes e pessoas a que suçedem tinhão por suas, e as netas e tendo trato iliçito con a Irmaã mais velha, o tem con todas as mais, e os Reys se não tirão destes abusos e pecados, antes con mor liberdade, e descompocissão caem nelles; e o que agora Reyna chamado dom Alvaro terceiro, tem por mancebas muitas que o forão de seu par dom Alvaro segundo, e hua Cunhada sua Irmá de sua molher, ambas filhas de manibanda que se chama grão duque, e nem amoestado; nem reprehendido a dexa, nem se envergonha de lho dizerem, Esta foi casada; e tem filhos do Duque de Sundy dom Alvaro seu tio, e q. elle matou em guerra por levantado. E quando vay fora a Igreja, ou a escaramussar vão muitas dellas có elle, e chamãolhe damas o Quanto mores senhores são, mor numero dellas tem, como fazem os q. são gentios, q. por terem muitas, se dão por poderosos, riquos, honrados, e aparentados, e assy he, porque tem por essas as filhas dos senhores, e fidalgos principais, para cujo effeito lhas dão seus pais, e o duque de Batta que por titolo se chama Aio deI Rey de Congo, e he muito seu parente, sendo
casado có hua tia Dell Rey Irma de seu par, ella se foi amançebar cõ hum sova gentio das partes de dande Vassallo do mesmo Rey, ficando elle, e o Duque cõ isso muy quietos, e porque o duque tomou por manceba principal hua filha de hum fidalgo seu vassallo, e a tratava em publico e na Igreja como duquesa, e como a essa a fazia venerar, indolhe eu a mão e pedindo a El Rey que ho prohibi:se, El Rey e o duque me pedirão por vezes que deixasse estar a molher do duque tia delRey cõ o gentio co que estava por manceba principal, e desse liçença ao duque para se casar em vida da molhe e co a mançeba qo tinha, cuidando que podia ser, e não crendo dizer lhe Eu o contrario, antes escandalisandosse de lhe Eu não dar a liçença que pedião de que se deixa ver o como estão na fé, e como a entendem, e guardão, pois destas cousas ha muitas no Rey, e nos mores senhores) que delle tem mais noticia que a outra gente, e neste viçio vevem todos de ordinario, não o tendo por afronta, nem pecado.São tão dados ao vinho que de nenhuá manhã custumão (alias despois de jantar, nem El-Rey, nem os grandes senhores, por que não ficão para isso nem se correm de assy ser, antes o tem por grandesa, mas sendo elle as vezes de ma calidade lhes fas cometer pecados e alguas vezes, chegou ElRey a escaramussar de guerra contra my, Clerigos e vassallos de V. M.do, dizendo em publico, e em vozes cõ os seus que nos avião de matar a todos, e que ja não querião bautismo, Igreja, nem Clerigos, senão viver em sua liberdade e assy se está lá arisquo de o Vinho hua ves acabar cõ tudo. fazem cõ elle, arremedando as escomunhões da Igreja, prohibições de fogo, agoa, lenha, feira, e mais mercados a que chamão escomunhões da terra, e perseverão nellas algús dias com gritos, alaridos, e pregões, de dia e de noite, q atemorisão, e representão acabarsse tudo, padeçendo nisso os vassallos de V. M.de estas vilissimas necessidades, e vexações, e quando lhos passa como se nao ouvera nada, se dao per amigos, pedindo vinho e outras cousas, e q lhes perdoem, e tambem elles alguas vezes, perdoão co facilidade os agravos q recebem, e mostrão temer as escomunhões da Igreja, e em quais quer trabalhos pedem absolvições geraes, não dando numqua satisfação das culpas.
Dão por vaidade, porq tem muita, e por ella não ha cousa que diga grandes a magestade, Estado, que não procurem remedar, tendosse por valentes, não o sendo, por muy nobres e antigos (como são) por gentis homes e avisados, por mais poderosos q todos os monarcas do mundo, motejando de seus poderes, acompanhansse cõ muita gente sem ordem, tem muitos estromentos de musica, e de guerra ao seu modo, e cõ todos juntos saem fora, ainda q seja
na Igreja, representando cõ isso e cõ as muitas çerimonias q se lhe fazem húa confusão grandiosa, trasem panos, custosos, e riquos, da sinta ate os pés, em lugar de sintos huás ataduras muy grossas a q chamão empondas, cabayas sobre a carne nua, e os braços de fora, chapeos de Clerigo bem guarnecidos, sapatõens, e as vezes botas, muitos abanos de rabos de cavalos, muitas insignias de suas dignidades, e os seus ministros mais graves e vallidos lhes vão mosrando o caminho, e alimpando e tirando delles qualquer tropeço, e cousa sem limpesa.

Muita da gente milhor criada, sabe ler, quando ElRey vay a Igreja vay muy acompanhado, e quando falta não vay lá gente; os domingos guardão mal, e os santos peor, se não São Sãotiago e são João bautista, ElRey e os titulos trasem huás carapusinhas a que chamão empua que não tirão, nem ao santissimo sacramento, (posto q eu melhorey este abuso) mas não cõ EIRey, na proçissão das endoenças Vay ElRey descalço, e descoberto, e todos os seus, e assy andão a sesta feira, dá EIRey alguás esmolas e faz merces a muitos e aos Bispos mais q a todos por que tambem lhos pede a meudo o que ha mister.
As suas armas são, arcos, e frechas, espadas largas, e adargas, e adagas, podões, machadinhas, azagaias, e hús ferros ao modo das nossas lanças, ElRey e todos andão apee, e assy vão a guerra, e de hum dia para o outro se junta grande cantidade de gente, sem ordem e sem mantimentos, e se não levão consigo algus portuguezes, fazem pouco mais de nada, temem os jagas de manrª, que de ouvir fallar nelles se desordenão, e fogem.
São folgasóes, e preguicoosos, e por isso tendo terras larguissimas, e excellentes, por não samearem, senão muy poucos mantimentos peressem a fome, os mantimento os de que uzão são groçeiros, comvem saber: maça meuda, maça grossa, luco q he como painsso, felgoes, ortalissa, ervas, aboboras, canas de açucar, miçefos e bananas, e alguas frutas do mato, tem alguas parreiras, romeiras, figueiras, çidreiras, larangeiras, limoeiros, e limeiras, e dando isto tudo ao menos duas novidades no anno, todavia he pouco, porque não cultivão.
E o mesmo he em galinhas, porcos, ovelhas, cabras, e vaquas em todo o Reino de Congo, e no de Angola, e nos Ambundas tudo sobeja porque são mais trabalhadores e criadores, ha poucas fontes, e muitos Rios de que algus são caudalosos, muita caça, da de qua e outra diferente, e muitos generos de animais em que entrão, empacaças, e em palancas, q são como vacas, porcos monteses, e engallas q são ao seu modo; Zevras, Elefantes, tigres, onças, leões, gatos de Algalea, cobras grandissimas, e lagartos q fazem muito dano, cavallos marinhos, Ageas reaés, e bastardas, e da mesma manra Pilicanos, e muitos outros generos de Aves q esperão muito porq não andão acoçados.
ElRey he hum despençeiro ordinario de todos os seus, e se assy não for dandolhes de jantar lodos os dias, levantarssehão contra elle, e andando sempre em festas, o dia q lhe falta que dar aos fidalgos, escondesse e tudo he malencoria ./.
Morrendo ElRey dom Alvaro segundo, o duque de Bamba q he muy poderoso, governou tres dias, pondo e dispondo quanto quis, ao cabo delles levantou por Rey dom Bernardo Irmão do Rey morto, e por este despois de jurado o querer ser, se levantou contra elle mesmo manibamba que o tinha feito, e lhe deu guerra, e o constrangeo a que ferido se saísse do seu aposento, e se fosse a hum em que vivia antes de ser Rey, dando lhe palavra que o não matarião, e elle para se sigurar mais, se recolheo na Igreja de santo Antonio co seis ou sete dos mais seus vf1idos, levantou então manibamba por Rey dom Alvaro terceiro, que agora reina, filho de dom Alvaro segundo, Este despois de jurado por não ter companheiro no setro, e Croa, entrou de noite na Igreja cõ mão armada, e matou ao tio que estava deposto de Rey, e aos q achou cõ elle, e os descabeçou, e descabeçados os fes levar arastar ate o lugar publico do pelourinho, a onde estiverão quasy tres dias, despois dos quaes por obra de piedade os enterarão algús clerigos as escondidas, E ElRey Emanibamba tomarão tão mal este acto de misericordia, que declarão aos Clerigos por imigos seus, e nesta alteração tão violenta, matarão muitos senhores, e outra gente, em diversas partes a que tinhão oferecido, seguro e perdão ./,
Avera como anno e meo que por presunções mal fundadas, EIRey dom Alvaro terceiro, tem publicado guerra contra manibamba seu sogro e reconciliandosse alguas vezes por terçeiras pessoas, e por my, e por meu Vigairo geral, todavia, se não virão numqua, e agora tem apregoado guerra de parte a parte, a fogo e sangue, de q se entende q Manibamba levara o milhor, porque he velho, sagas e poderoso, e por todas as vias ajunta assy os portuguezes que pode, queixandosse que ElRey o quer matar sem causa, e porque lhe pede que não esteja amançebado co sua filha, pois he casado cõ outra, e he artificio muy ordinario nelles, quando querem derrubar alguem, publicar que he mao christão ainda que assy não seja, e para este effeito, tem manibamba cosiguo todos os que por qualquer via tem pretenção ao Reino ./.
7 de setembro de 1619

... a continuar

segunda-feira, 19 de abril de 2010


MEU  PAI


Para falar de meu pai, JORGE DE LA ROCQUE GOMES DE AMORIM, tenho que começar por seu pai e meu avô Francisco, Gomes de Amorim - o outro avô era também Francisco, mas Frick – que após terminados os seus estudos gerais que lhe teriam permitido ingressar na universidade, face às dificuldades financeiras em que a família vivia – seu pai escritor e quase sempre doente e mais quatro irmãs que naquele tempo não saíam de casa para ir trabalhar – decidiu imigrar para o Brasil. Destino: Santa Maria de Belém do Pará, onde seu pai estivera e deixara amigos, entre ele Agostinho José de Almeida, padrinho do novo imigrante.
No dia em que se despediram, em Lisboa, o pai escreveu-lhe uma carta, bonita. Vale a pena ser lida, não só pelos meus filhos e netos e vindouros, mas por toda a gente, porque encerra uma profunda lição de dignidade. Já foi aqui divulgada em 17.Abril.2009, mas nunca será demais ler essa lição de dignidade e ética.

Meu avô, homem equilibrado e trabalhador, casava, quatorze anos depois da sua chegada, com uma doce criatura, minha avó paraense, Aurélia Da Costa de La Rocque.

Veio o primeiro filho chamou-se Francisco, para continuar a tradição da família, mas ao fim de um mês morria. O clima era difícil e as condições médico sanitárias mais ainda. Veio segundo filho, também Francisco e durou três meses. Os pais ficaram extremamente traumatizados e veio a terceira, filha, Albertina, o nome da sua avó paterna Albertina Teixeira de Melo, que com poucos meses lutava entre a vida e a morte com pneumonias e outras doenças a que os médicos não conseguiam dar solução.

O conselho foi simples: se quer salvar esta filha saia de Belém. Meu avô vendeu o que tinha conseguido juntar e regressou a Portugal. Remédio “santo” já que esta minha tia acabou falecendo nas vésperas de fazer 101 anos!

No ano seguinte nascia em Sintra, com o novo século XX, meu pai, Jorge, que a saúde dos primeiros irmãos, não deixou ser brasileiro, razão porque comecei com a ida do meu avô para o Pará!

Alegre, simpático, formou-se em engenharia silvícola - silvicultura - e desde cedo, o seu bom gosto e extrema sensibilidade, o leva para o planejamento de parques e jardins, sendo nomeado diretor do departamento de Urbanização e Jardinagem da Câmara de Lisboa.

Vivia-se na Europa, nos anos 30, sob a ameaça da expansão do comunismo que, poucos antes provocara a revolução russa. A Espanha estava dividida e logo entrava numa horrorosa guerra civil que dizimou um milhão de irmãos, e Portugal, se o comunismo se instalasse no país vizinho, não teria como escapar de igual sorte.

A ditadura, com Salazar, habituada a perseguições de caráter político e religioso que vinham desde há mais de um século, usava de todos os meios para impedir que isso acontecesse, e entre as medidas tomadas criou uma força paramilitar para atuar em caso da possibilidade da revolução vermelha atingir o país, que se chamou “Legião Portuguesa”, e para a qual entraram, voluntariamente, todos os portugueses que não queriam ver o seu país submetido à violência daquilo a que eufemisticamente se passou a chamar democracia popular, e que não foi mais do que uma violentissima ditadura, haja em vista os muitos milhões que Stalin e Mao Tse Tung assassinaram para impor um regime, que, por antinatural, acabou ruindo.

Meu pai entrou para a Legião, hoje vista em Portugal quase como algo fantasmagórico, brutal, inadmissível! E foi seu entusiasta, porque entendia ele, e muito bem, que se o país corria perigo, todos, todos, teriam que dar o seu contributo para o defender. Naquele tempo, e é necessário que se compreendam sempre “aqueles tempos” com os olhos “daquele tempo” e não com os de hoje, a Legião Portuguesa poderia ter sido chamada a operar como mais tarde trabalharam os membros da Resistência Francesa, contra um invasor, um inimigo. Não foi necessário, felizmente.

Naquela época, que eu ainda apanhei um período longo, todos vivemos sob a ditadura e não para a ditadura. Ainda mais os técnicos!

Entretanto remodelava os jardins de Lisboa, arborizava as ruas e a capital do país ia aparecendo cada vez mais bonita e arrumada.

Um dia, os setes filhos nascidos, morávamos ainda no segundo andar dum prédio na rua Almeida Brandão, à Estrêla, vésperas de Natal, um homem tocou à porta. Homem simples, trabalhador de enxada, a quem meu pai tinha conseguido emprego como jardineiro da Câmara. Roupinha lavada, grande perú vivo debaixo do braço, atraíu a meninada toda para a entrada da casa. Não que um perú fosse novidade, mas um perú, vivinho, “para nós brincarmos” num segundo andar... era um presentão!

Nosso pai apareceu também à porta. Recebeu o simpático aperto daquela mão calejada do trabalho e com o sorriso amável que era parte do seu ser, devolveu o perú ao pobre homem, contra a vontade da infantil assistência que já se antevia em correrias atrás do bichinho pela casa fora.

O homem insistiu. Que era uma lembracinha, que ele mesmo criara o perú, etc.. Não. O perú foi de volta, e não foi necessário explicar aos filhos aquela atitude, que no fundo, todos nós respeitámos e ainda hoje não esquecemos.

Ainda lembro de um dia 21 de Outubro, data da conquista de Lisboa aos mouros, estávamos talvez em 1941. O nosso pai entra em casa, chama os três (ou quatro?) filhos mais velhos, meus irmãos Luis com 12 anos, Helena com 11 e eu quase nos 10. Trazia umas moedas “lindas”, novinhas em folha, rebrilhando, de 2$50 cada. Vinte e cinco tostões, ou antes, “vintecincostões”. Para “comemorar” essa data, ao mais velho deu quatro moedas, a minha irmã duas e a mim... uma só, o que achei uma “injustiça” tanto mais que eu era “homem” e levara menos que minha irmã! E ainda recomendou que não gastássemos tudo de uma vez! Foi o que eu fiz, claro. Naquela mesma tarde comprei um chocolate e... pronto! Naquela tarde, sim, por nesse tempo todos tínhamos aulas de manhã e de tarde. No que respeita a educação e escolas, públicas, esses eram, sim, bons tempos.

Com a idéia de comemorar os oitocentos da independência do país e trezentos da libertação da tutela de Espanha, o governo decidiu promover um grande evento, em 1940, a “Exposição do Mundo Português”, tal como hoje se fazem as Expo´s por esse mundo fora.
A II Guerra Mundial rebenta um ano antes, impedindo que essa Exposição tivesse a repercussão que se esperava. Assim mesmo foi um enorme sucesso. Toda a decoração de plantas e jardins ficou a cargo do Eng. Jorge Amorim, que no final, pelo conjunto do seu trabalho aqui e em toda a cidade, foi agraciado com o grau de oficial da Ordem Militar de Cristo.


Reestruturavam-se também sob o comando do maior ministro que Portugal já teve, não o Marquês de Pombal, que fez obra mas enriqueceu e apropriou-se indebitamente de imensissimos bens, juntando uma das maiores fortunas do país, mas o Eng. Duarte Pacheco, o único homem público cuja visão se pode comparar ao também grande rei Dom Diniz. Reestruturavam-se os arredores de Lisboa, e com isto a transformação de morros desertos em parques florestais, como Monsanto. O projeto foi do arquiteto Continelli Telmo e a florestação a cargo de meu pai. Lisboa tem hoje uma cintura verde que, poucos sabem, mas foi começada a plantar em 1938. Sob proposta deste ministro meu pai foi também agraciado com a comenda da Ordem Militar de Santiago da Espada.

Quando ingressou na Câmara de Lisboa era o Eng. Duarte Pacheco o seu Presidente. Foi fácil o entendimento entre dois homens que se respeitavam e nunca deixaram de trabalhar juntos.

Por isso, em Novembro de 1943, lá foram juntos a Vila Viçosa, 150 quilometros de Lisboa, onde se estava a restaurar o Palácio dos Duques de Bragança. No regresso, atrasado como sempre para os seus compromissos, e desta vez para uma reunião de Conselho de Ministros, o carro que os transportava corria, tempo de chuvinha miúda, derrapou, saiu fora da estrada e no acidente morreram ambos.

Não pôde meu pai gozar de todo um trabalho profundo e até original que desenvolvera. Nem os filhos. Muito menos estes puderam aprender com ele. Com 43 anos deixou viúva e sete filhos, o mais novo com apenas ano e meio de idade.

Mas deixou muito mais do que isso: um sentido de respeito, bondade, dignidade e equilíbrio que acabou por nos ajudar a pautar a nossa conduta.



28/05/03