segunda-feira, 11 de junho de 2018


Deixemos agora um pouco a História (lá voltaremos) e vou lembrar de mais alguns dos grandes amigos que nos deixaram, e que continuam a fazer-nos muito falta.

PROLEGÓMENOS e AMIGOS – 3

Angola vivia e vibrava, finalmente, com o aparecimento da Universidade, que por razões da mesquinhez de alguns mestres lusitanos, não pôde ser chamada de Universidade, mas Estudos Gerais, regredindo aos tempos do fabuloso Diniz.
Muitos dos professores nem mestrado tinham, mas eram profissionais de alta qualidade e dedicação, sem os galardões que enfeitam tanto burro que vegeta por tanta faculdade, e quem por lá passou e estudou tinha toda a competência que se podia exigir após a sua formatura, quer fosse de engenharia ou medicina.
Nesse tempo eu trabalhava com material fotográfico, mas cedo dediquei a maior parte da minha atenção à “fotografia e ótica” especializadas – fotografia aérea, impressão de cartas geográficas, artes gráficas, microscopia e as novas máquinas de revelar e imprimir fotografia a cores e reveladoras de películas de raios X. Era um campo bem mais interessante do que a máquina fotográfica e toda a parafernália de miudezas e acessórios para profissionais.
Por meu intermédio chegaram a Angola equipamentos nunca ali vistos e que pouca vida ainda tinham pela Europa. Assim a primeira reveladora-impressora de fotografia a cores, pequenos e muito úteis equipamentos para artes gráficas, uma colossal máquina para os Serviços Geográficos e Cadastrais, (onde trabalhou o pai do meu querido “sobrinho” general Fernando Andrade), e através do criador da disciplina de Radiografia do Hospital Universitário, as primeiras reveladoras de chapas de Raios X para o que foi o Hospital Universitário.
Grande amigo, o melhor médico que conheci, sempre com uma espantosa boa disposição contagiosa – (que deixou esses genes no filho, hoje médico também e Grande Professor) – quando eu me sentia menos bem ia visitá-lo. Resposta habitual: “Olha, isso deve ser... (já não lembro o que) mas é bom consultares um médico!” Ao mesmo tempo sempre pronto para ajudar quem precisasse.
Todos os alunos que lhe passaram pelas mãos ainda hoje o adoram.
Tinha dinheiro, do seu trabalho e da mulher, um dia comprou um avião. Um pequeno monomotor. Foi a Malange com ele, e um “amigo” que tinha sido piloto, e por fazer várias asneiras tinha perdido o brevet, pediu-lhe para dar uma volta, fazer o gosto ao dedo! Uma pequena volta por cima da cidade, o “ex” piloto nos comandos, quase no final, na aproximação, vai muito baixo, antes de alcançar a pista as rodas batem em campo de plantação, o avião vira, quebra-se todo e ambos ficam também quebrados.
Avião para a sucata, o nosso médico, precisou de algum tempo para curar umas fraturas e o “ex” passou um tempinho no hospital, tudo bancado pelo amigo. A quem tinha destruído o avião.
Como agradecimento, esse tal “ex” teve o desplante e a covardia de mover um processo contra o amigo que lhe tinha feito um enorme favor. E ganhou o processo, que envolveu uma indenização pesada.
Perguntado sobre o assunto, tranquilamente respondia: “Coitado.” Ainda teve pena do cretino que lhe deu cabo do avião e dos dois ocupantes, mesmo não tendo gasto um cêntimo enquanto esteve no hospital.
Em 75 veio para o Brasil e, quase trivial, foi enganado por colegas! Regressou a Portugal, e lá ficou meio entristecido, apesar da sua alegria natural.


Muitas histórias tem este grande médico, tão alegre, impecável o saudoso, o Grande Amigo, Zé Guilherme Pereira Caldas.
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Para quem viveu em Luanda, e onde lhe nasceram e cresceram uma boa quantidade de crianças, não falar no pediatra, sempre disponível, carinhoso e grande médico, seria um ato vergonhoso.
Quase nosso vizinho, na mesma rua, presença indispensável nos dias em que em nossa casa havia ou um jantarada ou uma noite de fados – a mulher também “viajava” na dolência do fado e era muito aplaudida – eram os dois uns bons e eternos amigos, amizade que continuou por Portugal.
Um dia voltou de férias da Europa onde tinha comprado um Mini-Cooper. Quando chegou a Luanda diz-me que não gostava do carro, era pequeno, etc., e que mo vendia pelo preço que lhe custara. Estava novo. Comprei, entrei em vários ralis (aproveito para dizer que ganhei TODAS as provas complementares!...) o carro andava que era uma beleza, mas em breve também conclui que era apertado, incómodo, mais ainda para a minha mulher que estava de barrigão e sentia-se mal lá dentro. Vendi-o, tinha à volta de 10.000 kms!
Os nosso filhos adoravam aquele simpático tio que velava pela saúde deles.
Expulsos também de Angola, não se adaptou a Portugal. Não era a terra dele. Um dia desligou-se de tudo, fechou-se, não conseguiu vencer a onda da saudade e, infelizmente, não tardou a nos deixar

Ainda novinho...

Querido amigo António Castro Ferreira, que deixou imensa saudade em todos os que o conheceram
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Falando no António, pediatra, não é elegante esquecer o irmão, cirurgião. Os dois irmãos casados com duas irmãs, todos angolanos. O pediatra tinha três filhos, o cirurgião nenhum, o que se traduzia que os três filhos acabaram por ter nos tios, um complemento perfeito de mais uma mãe e um pai.
O nosso filho mais novo nasceu com uma hérnia pubiana, larga, e cada vez que chorava ou fazia força para que o seu cocó saísse, logo pela hérnia saia também um pedaço de intestino que ficava entalado, e era necessário, com a mão remetê-lo para dentro. Assim o neném não podia chorar! E como todos os neófitos, têm manhas que sabem interpretar perfeitamente: este só queria colo, o mal educado!
Cirurgia. E o paciente tinha só 45 dias de vida. Casa de saúde, o pai, eu, senta-se numa cadeira, espera, super nervoso, e ao fim de quase uma hora devolvem aquele boneco ainda anestesiado.
Logo a seguir entra o médico e diz-nos com ar até divertido:”aquela hérnia deu um trabalho de cerzideira! O músculo estava que parecia esfarrapado. Vai resolver por um tempinho, mas voltará a abrir. E não adianta voltar a operar antes dele ter uns 12 ou 14 anos!
Foi o que aconteceu. Apesar disso, ainda hoje, acaba de fazer 49, ainda sente a hérnia, mas é ele que toma conta do problema. Evidente!

O nosso bom cirurgião, Zé Castro Ferreira. Bom homem, bom médico, bom amigo.

Os dias passavam e o nosso doente não melhorava.
Um dia a mulher dele telefona para a Cuca, e diz-me secamente, voz entrecortada, que ia levar o marido para casa para morrer junto dela e dos filhos!!!
O que se passa? Ele está muito mal e o médico só lhe dá calmantes.
Pedi-lhe que nada fizesse, corri para a clínica, e mandei que alguém entretanto procurasse o médico responsável e o informasse que o doente estava muito mal.
Entrou entretanto o diretor da clínica, cirurgião, apresentei-lhe o problema e respondeu-me que o caso era com o dr. “x”, ao que eu lhe disse “se ele morrer vou pôr a clínica e seus responsáveis em tribunal!
Foi ver o doente e ficou horrorizado. Preparou tudo para que fosse operado imediatamente.
O médico da companhia, avisado do caso de extrema gravidade, em vez de correr para a clínica foi... ver o futebol. A minha indignação foi enorme. Fiz um relatório para a administração da companhia, que lavou as as mãos, como Pilatos e resolveu da maneira mais simples: “os empregados que escolham o médico que quiserem.”
A Assistente Social escolheu alguns nomes, fez-se uma votação e entrou novo médico, que por acaso eu já conhecia, e duas vezes por semana dava consulta lá na fábrica.
Nesse tempo, apesar dos meus trinta e poucos anos, alguma coisa volta e meia corria mal (Estômago? Dos copos?) e lá ia eu à consulta. À segunda, terceira ou quarta vez o novo médico diz: “Não te passo mais nenhuma receita. Tu não tomas o que te aconselho!” “Tens toda a razão, mas devo dizer que médico assim é que é bom! Enquanto os sintomas me incomodam tomo o remédio, direitinho. Quando não sinto mais nada, nunca mais me lembro disso!”
Riamos, ele ralhava comigo, mas era ótimo médico. Nunca mais o vi, nem sei se ainda anda a penar neste mundo dos medicamentos.
Para onde estiveres vai um forte abraço, meu amigo Salvador Rodrigues.

§§§
Havia em Angola um médico que em criança deve ter recebido algum vírus de avião a jato! Não parava. Otorrinolaringologista. Tinha que ter uma especialidade “comprida”.
Consultório em Luanda, além de atender pacientes com problemas mais ou menos menores que não necessitavam de intervenção cirúrgica, operava gargantas, narizes e outras áreas complementares, já não lembro em que dia, mas suponhamos que era à segunda-feira. Terça metia-se no avião e ia dar consulta e operar em Sá da Bandeira, Lubango.
Saía dali, passava em Nova Lisboa, Huambo, e repetia os procedimentos. Na quarta estava de volta a Luanda para ver os pacientes operados na segunda. E recomeçar novas consultas e cirurgias se fosse necessário. Depois voltava ao périplo anterior para ver se tudo estava a correr bem. Estava.
E isto repetia-se semana após semana, sem que o nosso otorino... parecesse cansar-se.
Era um indivíduo de espírito bem desempoeirado, e sempre com uma boa piada para contar, gostando muito de dizer, quando se encontrava entre as senhoras, num jantar ou reunião de amigos “que ele era o homem que até hoje mais mulheres teve entre as pernas! Ah! E homens. Mas estes não têm graça!”
Porque nas consultas, ele abria as pernas, mandava as/os pacientes se chegarem bem para perto para ele poder analisar goelas, etc. Uma figura a não esquecer. Não esqueci, mas também nunca mais soube dele, depois do famigerado vintecincobarraquatro. Onde estiveres, tão velho ou mais do que eu, gostaria que continuasses a ter mulheres entre as pernas! Seria sinal que ainda estarias entre nós. A qualquer lugar muito desejo que um forte abraço vá ter contigo, Henrique Soudo.

§§§
Convocado pela Marinha, chegou mais um médico. Ortopedista. E foi morar na nossa rua, talvez um 50 a 100 metros mais para baixo.
Era ótimo porque os nossos filhos lá iam, volta e meia, quebrando qualquer coisa, nada de grave, mas que a assistência de um especialista facilitava a cura!
Em Portugal, o “chefe” do hospital onde ele trabalhava, homem metido a gostoso, lá... na Europa só andava de camisa e gravata de seda, e outros requintes. Foi a Luanda num congresso qualquer e o nosso médico marinheiro, que em Portugal não o suportava bem, entendeu que era de bom tom, convidá-lo para almoçar em sua casa.
Domingo, dia de África, solzinho agradável, a varanda onde sempre corria uma aragem, e para “tão ilustre personalidade” o almoço foi o mais descontraído possível: gambas cozidas – uma delícia – e sardinhas assadas”. Traje: mangas de camisa. Ali ninguém suportaria esquisitices de sedas!
Bem vista a descontração e o à vontade com que todos se falavam, sem que houvesse chefes, nosso amigo marinheiro decidiu: no fim da comissão não voltaria para Lisboa. Em Luanda vive-se melhor!
Um dia lá foi de férias e aproveitou para fazer algum tipo de curso ou “improvement” na sua especialidade, e quando voltou, encontrámo-nos e diz-me com ar bem descontraído:
- Agora diz aos teus filhos podem quebrar o que quiserem. Eu venho a endireitar muito bem!”
Rimo-nos, mas creio que não precisámos daquela ciência. Os filhos continuaram inteiros.
Entretanto fui para Moçambique, em 1971, e nunca mais o vi,
Um abraço, Carlos Vilão, e se ainda tiveres força, continua a endireitar os alquebrados!

05/05/2018

2 comentários:

  1. Tio Xico
    Estive a ler a sua publicação. O Henrique Soudo, depois de vir de Angola, viveu sempre em Setúbal donde era natural. No pós 25/4 e no auge da revolução em Setúbal, histórias do arco da velha entre ele, os PC e quejandos.
    Um dia vinha a sair do mercado e estava à porta um comuna a entregar panfletos que incitavam à morte de uns reaccionários. O Soudo olhou para o papel e lá estava a sua foto. Voltou atrás e perguntou ao tipo que faria ele se encontrasse um daqueles reaças. O homem terá dito que faria e que aconteceria ao que ele respondeu que um deles era ele. Vai daí deu um sovão no comuna.
    Foi líder do CDS em Setúbal e a mãe encontrava-se com ele na descida da avenida da Liberdade todos os 5 de Outubro ou 1º de Dezembro, não me recordo.
    Um abraço
    Tucas

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