terça-feira, 20 de novembro de 2012




Sobre a austeridade

Já mais de uma vez expandi minha estupefação perante um fenómeno “tsunamesco” que tem vindo sistematicamente a derrubar a chamada economia ocidental
Todos os países devem bilhões, trilhões ou quatrilhões, os bancos foram generosamente socorridos pelos governos falidos, os dias vão passando e ninguém enxerga – ninguém quer enxergar - o óbvio.
E o óbvio é que alguma coisa, ou a coisa toda está errada. Os únicos que estão certos são os bancos que sobem o custo dos empréstimos, e se estiverem em más condições os governos imprimem mais umas toneladas de notas – à surrelpa – e entregam aos bancos para... para que mesmo?
A solução há muito que se apresenta clara: devo não nego, pagar não pago.
Zera tudo, repõem-se os salários dos pequenos, só dos pequenos, que foram cortados, reduzem-se os juros, estimula-se o investimento particular, e encara-se de frente a concorrência da Coreia, China, Marrocos, Etiópia e outros.
E os países, voltam a poder respirar, porque hoje estão afogados na estúpida e brutal “austeridade”, que continua a matar a classe produtiva em favor dos sanguessugas.
Felizmente que nem todo o mundo compactua com esta ladroagem de austeridade. Graças ao Bom Deus ainda há gente neste planeta que pensa, age e resolve.
Leiam o texto a seguir que, mesmo sem autorização se transcreve, e que foi hoje publicado no jornal “O Globo”, com algumas passagens que merecem especial destaque:
- sairam para as ruas batendo com colheres em panelas vazias (e olha que há países com muitos paneleiros),
- demitiu-se o governo
- cadeia para os responsáveis
- fora com os partidos políticos
- escreveu-se nova Constituição.

A ilha da utopia

Era uma vez uma ilha, perdida nos mares do Grande Norte, si­tuada além do que a imagina­ção possa conceber. Era tão fria que a chamavam Iceland, terra do gelo. Em nossa língua, Islândia. Viviam nela cerca de 300 mil habitantes: um lugar próspero, rico para os padrões da épo­ca, uma gente bonita e saudável. Com um regime democrático estável, con­trolado pela população, dispunha de excelentes sistemas de saúde e de edu­cação, boa alimentação, baixa crimina­lidade, alta esperança de vida, desen­volvimento económico sustentável, re­gulado por diversas agências públicas.
Nada indicava que algo de mal pode­ria ocorrer naquela Terra da Promis­são. No entanto, trágicos fatos ali tive­ram lugar e sua recordação talvez possa ajudar a refletir sobre a crise que an­gustia o mundo atual.
Quando e como exatamente esta his­tória aconteceu? Os arqueólogos mais reputados, com base em evidências e documentos, atestam que as coisas co­meçaram a degringolar na virada no século XX para o século XXI, há centenas de anos...
Disseminaram-se, então, pela ilha, trazidas por mercadores estrangeiros, fantásticas promessas. Baseavam-se em três palavras-chave: desregulamentar, privatizar, internacionalizar. Se fos­sem capazes de enveredar por êste ca­minho, os ilhéus se tomariam muito ri­cos, e em pouco tempo.
Persuasivos eram aqueles mercado­res, e o povo resolveu segui-los. Os bancos públicos foram privatizados, e as empresas internacionais, autoriza­das a explorar os recursos naturais. As agências reguladoras, enfraquecidas, definharam. Os dinheiros agora circu­lavam em abundância, a Bolsa de Vai rés galopava e a construção civil alçai cava níveis frenéticos. Houve espantosos fenómenos, como o fato de os bancos privatizados contraírem empréstimos equivalentes a dez vezes ao que então se chamava o PNB, ou seja, a soma de todos os bens e serviços produzidos no país.
Vozes prudentes murmuravam: aquilo não podia dar certo.
E não deu.
Num belo dia, no ano de 2008, estourou a crise. Medonha. Os bancos faliram. A Bolsa despencou. Cessaram as atividades económicas. O desem­prego disparou. A ilha descobriu-se endividada até o último fio de cabelo.
Vieram então homens probos e pediram calma. Numa língua ininteligí­vel, explicaram tudo: os antecedentes e os consequentes. As coisas se resolveriam através de uma nova palavra mágica: austeridade. Instituições e bancos internacionais ajudariam. Os problemas seriam equacionados, embora fosse necessário apertar os cintos. Claro, muitos perderiam ca­sas, haveres, empregos, futuro e tudo o mais. As dívidas, porém, seriam pa­gas, e a honra, salva. O pacote, em­brulhado com laço de fita e aprovado pelo Parlamento, virou lei. Em 2009, a fatura parecia liquidada.
Entretanto, as gentes não mais se deixaram persuadir.
Queriam entender melhor como pudera uma terra tão próspera tor­nar-se em menos de dez anos uma nação de mendigos. Não haveria responsáveis! Foram às ruas, com apitos e bum­bos, batendo talheres em panelas va­zias. Pulando e gritando, cercaram o Parlamento, atirando ovos e tomates nos representantes. Não houve polícia capaz de segurar aquela ira. Corria o ano de 2010 quando a pressão das multidões organizadas impôs um referendo. A Lei do Parlamento foi recusada por 93% dos votos. A dí­vida, contraída por alguns, não seria paga por todos. Era preciso zerá-la e recomeçar.                     
E teve início a investigação sobre as responsabilidades. Altos executivos e gerentes dos bancos foram para a ca­deia. Os banqueiros que puderam, fu­giram, como ratos de um barco à deri­va. Ao mesmo tempo, decidiu-se redi­gir uma nova Constituição, capaz de proteger a nação de outros aventurei­ros.                            
Por toda parte, organizavam-se as gentes. Em cada distrito, uma assem­bleia. Participativa e consciente de que a Coisa Pública deveria ser trata­da com atenção e cuidado. Entre pou­co mais de 500 candidatos, sem pré­via filiação partidária (os antigos par­tidos tornaram-se suspeitos), elege­ram-se 25 representantes. Foram eles que, ouvindo as assembleias locais, autônomas em relação ao Estado e aos partidos, construíram uma nova Carta Magna, a ser aprovada em outro referendo popular. Regulação e controle, palavras esquecidas, retorna­ram, devidamente valorizadas. A primeira consequência foi a renacionalização dos bancos, baseada no con­ceito de que o dinheiro de todos é muito importante para ser deixado em mãos de poucos.
Aquele povo mostrou que, por ve­zes, como dizia E. Morin, o imprová­vel acontece. Demitiu-se um governo. Refez-se o Parlamento. Exercitou-se a autonomia. Foi escrita uma nova Constituição, preocupada com as pessoas e não com os dinheiros. E a prosperidade voltou, atestada por bons resultados em 2011 e 2012.
Uma revolução. Pacífica e democrá­tica.
Mas realizada há tantos séculos e numa terra tão longínqua... Talvez por isso se fale tão pouco dela e dos maravilhosos eventos que acontece­ram na bela Islândia. Uma ilha da “utopia.”
                     
Daniel Aarão Reis é professor de História Contemporânea da UFF

20/11/2012



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