segunda-feira, 15 de agosto de 2022

 

ALCIBÍADES


Não se preocupem. Não vou tecer considerandos sobre o velho Alcebíades que viveu meio milénio antes da E.C. É bem possível que este, de quem vou escrever, ainda hoje esteja vivo.

Isto começa lá, nas largas planas do Alentejo, onde trabalhava José, um homem simples, que, desde o começo do século XX, muito novo, dava seu melhor, braçal, e vivia numa modesta casa na herdade do dr. Romão de Matos, médico herdado e abastado, muito conceituado na região.

Um dia, já homem feito, humilde, foi pedir autorização para casar! Encontrara a sua Anastácia, filha de outro trabalhador rural. Tinham-se visto numa feira e faíscas saltaram!

Aplaudido pelo patrão que o estimava e logo providenciou para que a casa do Zé recebesse mais alguns móveis e conforto; ainda lhe prometeu a festa do casório!

A vida seguiu, os dois filhos do dr. Romão estariam com uns 10 a 12 anos, e não tardou a ver-se a barriguinha da Anastácia a aumentar de volume.

O patrão chamou o Zé e disse-lhe: “Esse filho ou filha que vais ter, não vai andar no campo de enxada ou a tocar os bois. Vai estudar. E se for esperto e trabalhador como os pais, chegará longe. E tem mais, os padrinhos da criança vão ser a minha mulher e eu. Você merece.”

Zé, quis beijar as mãos do patrão, que não deixou, saiu eufórico e foi contar à futura mamãe. A criança ainda não nascera e já tinha o futuro assegurado.

Mas o azar rondou a casa de José. Anastácia não se recompôs do parto e logo deixou um órfão pouco mais do que recém nascido e um viúvo.

Batizado de imediato, o dr. Romão assumiu fez questão de dar o nome à criança: Alcebíades, porque sabia que em grego significava filho de um homem com muita força vital! E ainda decidiu levar o afilhado para ser criado em sua casa, com todos os cuidados e segurança, deixando o Zé triste mas sem o problema de ter que cuidar aquele pequenino ser.

Todo o dia, depois do tralhado, o triste pai, ia a casa do patrão, pedia permissão para entrar, tirava o chapéu, cumprimentava os compadres, muito cerimoniosamente a comadre, D. Guiomar, e ia sentar-se ao lado do filho que estava a crescer cheio de saúde. Ali ficava a olhar para a criança, os olhos sempre molhados, mas o coração feliz, sabendo que melhor para o órfãozinho não havia.

Assim que o garoto começou a crescer e a brincar era a atração de todos. Uma criança saudável, risonha, tratada quase como irmão. Os filhos da casa, Amélia e Alexandre estimavam-no como um irmãozinho… pobre, mas quando foi para a escola ajudavam-no e estimulavam-no, fazendo com que ele sempre fosse um dos melhores alunos daquela escola.

À tarde, com o pai, desabafava: “Eles ajudam-me muito, é verdade, mas tratam-me com superioridade. Bem sei que são mais velhos e os donos da casa. Eu sinto que a amizade deles tem alguma coisa, que me reconhecem como um favor, ou um peso”.

O pai retrucava: “meu filho, o que fizeram e estão a fazer contigo, é milagre. Porta-te sempre muito bem e sente-te agradecido. Nunca lhes faltes ao respeito, nem percas a amizade que, melhor ou menos bem, têm para contigo”.

Alcebíades, no entanto, sentia que tudo isso era verdade, mas bem lá no fundo algo o incomodava. Sabia que não era igual a eles...

Quando entrou para o liceu os “irmãos maiores” estavam já na universidade, Amélia em veterinária e Alexandre em medicina.

Não tardou a haver mais dois doutores naquela família e Alcibíades com esses exemplos já tinha decidido que iria ser engenheiro agrónomo.

Estava um belo rapaz, forte, simples, sempre muito bem classificado nos seus estudos foi para Lisboa e não tardou a terminar o seu curso o curso superior.

Aplaudido, festa na herdade que o padrinho não dispensava, desta vez ao “senhor engenheiro!”

Já com uns anos de guerra em África, o curso terminado, Alcebíades é logo convocado e mandado para Angola, onde no fim da sua comissão decidiu ficar. Queria afastar-se um pouco daquela “pressão” dos “irmãos, mais velhos e mais importantes”, e em Angola, sentia-se senhor e dono absoluto de si mesmo. Admitido pelos serviços oficiais para trabalhar na região do Huambo, no Instituto de Investigação Agronómica, onde o conheci.

Lembro dele, jovem, vivo, estimado pelos colegas e agricultores da região, com quem eu conversava sobre o “seu” Alentejo, onde tinha vivido cinco anos.

Ia a Portugal com alguma frequência, ver os padrinhos e o pai, a ficaram velhotes, sem nunca esquecer de estar com “os irmãos”, nem de lhes mostrar algum complexo ou descontentamento.

Um dia, a filha de um colono italiano há anos radicado em Angola, Mirela, cativou o simpático engenheiro, com quem acaba por casar. Passaram a lua-de-mel em Portugal para apresentar a noiva a todos os “familiares”, cerimónia que Alcibíades não podia fazer longe de quem o criara.

Estoura a vergonhosa revolução dos cravos vermelhos, esquerdistas, que vai desestabilizar o país, forçar o abandono das colónias e nacionalizar as propriedades agrícolas, sobretudo as mais extensas, no Alentejo.

Alcebíades volta a Portugal, e vê a oportunidade de se tornar, pelo menos por algum tempo, o dono daquela herdade, junto com o já bem velho pai, igualando-se aos antigos donos.

Filho de pobre, mistura-se à política e decide assumir a herdade onde nascera, com a argumentação “vermelha” que o seu pai dera toda a sua vida trabalhando ali.

O governo esquerdopata, de mau grado aceitou a argumentação e permitiu que a herdade passasse para o seu nome. Certidões que mais tarde foram simplesmente anuladas.

Cinicamente informa os “irmãos” que fazia aquilo para o proteger, mas no fundo sentia uma estranha satisfação em se ter tornado igual aos que sempre foram seus superiores. Estava até mais bem economicamente do que eles, o que lhe dava satisfação ao seu ego.

Na herdade, morando na casa senhorial, nascem dois filhos de Alcebíades, que retomara o seu trabalho de agrónomo a serviço do Estado.

Amélia trabalhava na Direção Geral de Veterinária desde que se formara e Alexandre além de dar plantão em hospitais tinha consultório em Lisboa e outro em Redondo, no Alentejo, perto da herdade, onde tratava os trabalhadores da região, que lastimaram e comentaram a ingratidão de Alcibíades.

Nem um nem outro foram atingidos pela revolução e conseguiram fingir à revolta pelo “roubo” que haviam sofrido, a perda da sua herdade, para um “ingrato” que consideravam irmão.

Tudo comprometido, quando se cruzavam na rua desviavam-se um do outro. Já nem se cumprimentavam.

Alexandre não conseguia conceber que o seu “irmão” tivesse tomado tal atitude, mas também sabia que se não fosse qualquer ele, qualquer outro se ir aproveitar do comunismo exacerbado que se tinha instalado no país e lhe nacionalizado a propriedade.

Logo chegou o tempo de apanhar a cortiça, uma mina para quem se apropriou das herdades. Alcebíades vendeu com rapidez toda a cortiça retirada e, contra o olhar de espanto de todos, a maioria dos quais preferiu ir gozar o dinheiro roubado, começou uma extensa plantação de vinha, planificação de melhor captura de águas, etc. Ele era agrónomo e sabia o que estava a fazer.

Mirela tinha discutido muito com o marido. Sabia o quanto ele devia aos antigos proprietários que melhor ou menos bem o tinham elevado na vida e tratado como um filho, mas Alcibíades, só respondia que se não fosse ele um qualquer selvagem teria feito o mesmo e destruído tudo, e que sabia muito bem o que estava a fazer. Ele não era nem bandido nem ladrão, e se não se tivesse antecipado outro teria feito o mesmo e destruído o que ali havia. Mirela, sem saber o porquê de tal atitude sempre a achou uma vergonha.

A discussão entre os dois quase os levou à separação. Ele ia dizendo: “deixa o tempo passar e vais ver como tudo se arranja”.

Naquela herdade, não se matou um único animal para festas, nem se destruiu o que de produtivo lá existia. Parecia, e era verdade, que estava a ser um exemplo para todos.

Não durou muito tempo esse bolchevismo rural, e quando a política em Portugal começou a desfazer os erros cometidos Alcebíades procurou Amélia e Alexandre que, de muito má cara o quiseram receber, e contou-lhes o que tinha feito na propriedade de onde não tirara um centavo. Vivia do seu salário de engenheiro dos Serviços de Agricultura, e tudo quanto saiu da herdade, cortiça e gado foi revertido em investimento, em vinha e hidráulica.

Vivia na casa principal sim, porque isso seria evidente. Mas agora queria reverter a situação “oficial” e entregar-lhes o que era deles.

O espanto foi grande. Ninguém fizera isso. Praticamente todos que se apoderaram do que não era deles, dizimaram o que foi parar às suas mãos e deixaram as propriedades arrasadas!

Amélia e Alexandre, perplexos, mudos, como primeiro gesto abraçaram Alcebíades, dizendo-lhe que nunca tinham conseguido compreender porque ele tinha feito aquilo. Consideraram um ato de tristíssima ingratidão, e agora viam como estavam enganados.

Alcebíades até representou perfeitamente o papel de vingança, para que ninguém entendesse o que se estava a passar, e tinha o prazer de lhes devolver tudo, e com consideráveis melhorias! Os irmãos, unânimes, logo propuseram então transformar a propriedade familiar em sociedade, ficando Alcebíades com 1/3 das quotas!

Alcebíades continuou a viver na casa grande, uma vez que os irmãos viviam na cidade, mas sempre com os seus quartos prontos para quando visitassem a herdade, o que faziam agora com frequência. Eles e os filhos.

Hoje a “Herdade do Romão” é produtora de um dos melhores vinho daquela ubérrima região.

Os padrinhos e o pai, já anos falecidos, estariam orgulhosos e felizes com a trajetória daquele afilhado/filho, mais ainda se pudessem ter assistido ao alegre e festejado casamento de uma filha de Amélia com o mais velho de Alcebíades, competente enólogo.

Belo fecho para uma história de vidas.

Se eu tivesse conhecimento disto há mais tempo, tinha lá ido ver se o vinho era mesmo bom!


14/08/22

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

 

QUEM CHORA MAIS ?

e

ZEBRA

Filosofia e História


Hoje vou espraiar-me em considerandos variegados: filosofar sobre quem chora mais, se homem ou mulher, e depois tecer algumas considerações sobre a zebra, não as zebras, que essas estão lá na vida delas, algumas a serem comidas por leões, leopardos ou jacarés. Não, só zebra.

Antes de entrar na choradeira consultei alguns homens, sobre o choro, e todos foram de opinião que eles choram mais do que elas... disfarçam bem, vão chorar em lugares isolados, mas parece terem lágrima mais fácil.

Por outro lado as mulheres choram mais abertamente, mas talvez menos vezes. Como não sou nem psicólogo muito menos psiquiatra, limito-me às minhas observações diretas, que pouco mais ultrapassam do que os limites da nossa casa, a minha mulher e eu.

Que ela sofre com traumas vários, e temos sofrido bastantes ao longo da nossa vida, não há a menor dúvida.

Talvez as mulheres que carregaram filhos, muitos, tanto tempo dentro delas, que padeceram para os pôr cá fora e os receberam com a maior alegria do mundo e os olhos molhados, sejam mais fortes para enfrentarem os dissabores da vida.

Eu que fui caçador em África notei, muito claramente que o macho atingido por um tiro deixa-se ir abaixo muito mais rapidamente do que a fêmea, sobretudo se ela estiver a carregar um filho na barriga. Ela tem que lutar por si e pelo novo ser. O macho talvez aproveite uma ocasião dessas para se aposentar desta vida. Outro irá substitui-lo na conservação da espécie. Qui lo sai?

Mas estes considerandos têm-me estado bem presentes porque de há uns anos para cá, encontro-me frequentemente com os olhos marejados. A minha sensibilidade está bastante fragilizada. Não choro por mim, mas pelo que vivi dolorosamente.

E isso acontece-me cada vez com mais frequência.

Choro disfarçadamente, porque passo o dia no meu escritório, sozinho, e se por acaso as lágrimas teimam em aparecer quando estou na sala, com mulher e filho, procuro não falar porque a voz se embarga, e discretamente vou limpando os olhos.

Vergonha? Não, não é. Mas quando memórias ou notícias dolorosas nos alcançam não quero transmitir a tristeza que me vai na alma para outros. A vida já é difícil de qualquer modo, nada de estar a afligir ou entristecer mais os que me rodeiam.

Às vezes saio até de casa e vou andar um pouco na rua. Aí deixo as lágrimas correrem, porque mesmo que alguém me veja pensa que me deve ter entrado poeira nos olhos!

Também não é por pensar que estou numa idade já exagerada, porque quando a minha hora chegar, chegou. É assim. Nessa ocasião, chorará quem cá ficar, se… ficar com saudades!

Assim concluo que as mulheres choram mais descontraidamente (será?), enquanto os homens, muito machos, escondem suas fraquezas!

Afinal essa definição de sexo forte e do fraco é uma falácia: as mulheres são mais fortes mesmo que a maioria tenha menos força física, mas parece não haver dúvidas que têm muito mais força interior.

Quem carregou uma criança dentro de si… é coisa que o homem não sabe o que é. E isso, sem dúvida, dá às mães uma força e uma resistência que supera, em muito, o homem que simplesmente se for pai, se limita a aguardar que que o filho apareça, sem lhe ter custado um só ái!

Depois desta busca pelo entendimento do choro, mais uma vez e por muitas razões tenho que tirar o chapéu às mulheres e dar risada na cara dos machos!

* * * * *

Vamos agora à ZEBRA.

É uma palavra, um termo, que designa, normalmente aquele animal lindo, mamífero africano do género Equus, da família dos equídeos, não domável, com riscas pretas que até hoje mantém os “especialistas” a discutirem se o animal é branco com riscas pretas ou preto com riscas brancas.

Devia, só por esta razão, simbolizar a maioria dos parlamentos políticos onde os eleitos lá não vão para melhorar a vida do povo, para se sacrificarem pela nação, mas para usufruírem de altas posições, discutindo a filosofia ou a zootecnia das riscas das zebras ou, mais simplesmente só o sexo dos anjos.

Mas deixemos esses sanguessugas a desbaratarem os mais fracos e vamos ao que interessa.

É sabido que o Brasil tem uma loteria, proibida por lei em todo o país, mas que se vende nas ruas, à vontade, e que é um altíssimo negócio.

O famoso Jogo do Bicho, que tem uma história muito interessante, é um jogo mais que popular, e toda a gente, mesmo pobre pode jogar e joga. São dezenas de milhões de apostadores no Brasil.

Pode apostar-se só R$ 1,00 e poucas horas depois já sabe se ganhou ou não, e se jogar esse realinho em uma milhar no primeiro prêmio (conhecido como cabeça por ser a primeira milhar no topo da lista de resultados), caso acerte ela inteira (os quatro números), ele ganha até 3 000 Reais!

A história deste jogo é muito curiosa. Foi criado em 1892 pelo barão João Vieira Drummond, fundador do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro. Uma crise econômica que ocorreu no Brasil, entre o final da Monarquia e início da República, marcada por uma forte inflação e pela formação de uma bolha de crédito, estourou durante a chama República da Espada, 1889/94 –dos marechais, desencadeando uma grave crise financeira e institucional.

Para melhorar as finanças do zoológico que estava em dificuldades financeiras, o barão, senhor de terras e escravos, criou uma loteria em que o apostador escolhia um entre os 25 bichos do zoológico.

Como naquele tempo não havia nenhuma zebra no zoológico, ela não está entre os 25 animais que emprestam o nome a essa loteria. Por isso, no jogo do bicho, dar zebra é algo impossível. Com o tempo, o termo passou a significar um resultado muito inesperado. Começou pelo futebol e, depois, para as demais modalidades esportivas. Atualmente, aplica-se a resultado inesperado em qualquer atividade. Não deu o previsto: é zebra. Qualquer coisa que dê errado… deu zebra!

Deste modo zebra é um nome, talvez uma metáfora (?) que ficou importantíssima no vocabulário do Brasil.

Além disso foi a zebra, ngolo palavra angolana, kimbundo, que os angolanos trouxeram para o Brasil um jogo bem mais interessante e não proibido que aqui ficou chamado de “capoeira”!

Porque, na origem, em Angola, essa espécie de luta ou de dança, tenta reproduzir a zebra que não se deixa domesticar e que resolve os seus problemas com admiráveis coices!

Abaixo a tabela dos bichos do jogo.


08/08/22

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

 

A Dança da Doença


Há já alguns anos escrevi um pequeno texto reclamam ao éter sobre o preço dos medicamentos no Brasil.

É evidente que sabemos que estamos agora a atravessar um período de inflação mundial, resultado, em parte, pequena, da guerra na Ucrânia, mas fruto do crescimento da ganância humana que, para alguns não tem limites.

Bem sei que é chover no molhado, mas basta atentarmos sobre a pandemia, fabricada e distribuída mundialmente pela China, do mesmo modo que distribui quase tudo que compramos, desde roupas a telefones, máquinas de todos os tamanhos, brinquedos, pratos, copos, facas, computadores, e um monte de outros etcs.

Para ganharem mais e mais, os arquimilionários da “fashion” - Diors, Armanis, YSL e mais uns quantos – fazem as suas horrorosas maravilhas na China, Bangladesh, Vietnam, porque lá o povo pouco mais passa do que fome e eles enchem, também mais o bandulho.

É também sabido que o maior negócio do mundo são os equipamentos para matar – que todos os países vendem, como por exemplo Portugal e Brasil – a seguir são as drogas de que se não faz distinção entre as da indústria farmacêutica e as do tráfico internacional.

Todas estas atividades visam, não a resolver problemas, mas criá-los, em confronto direto com o Ser Superior que creou tudo quanto existe para que vivêssemos, todos, em PAZ.

O Brasil é uma exceção só num ponto: deve ser o único país do mundo onde farmácias anunciam descontos de até 90%.

Não é mentira não, é verdade, verdadinha.

Ninguém, ninguém deve dirigir-se à primeira farmácia que encontra e/ou conhece, e comprar o que quer que seja.

O médico passa a receita e o paciente, pacientemente tem que ir para casa, ou pedir ajuda a outrem para pesquisar na Internet onde pode encontrar o sobredito medicamento mais barato.

Vou dar só uns dois exemplos do que aconteceu comigo.

Fui com a minha mulher ao neurologista, por o tal covid lhe deu uma grande paulada na cabeça – coisa que parece não vai passar, mas ela consegue ir vivendo razoavelmente bem desde tenha alguém que lhe lembre das coisas – e para não perder tempo, eu, idiota, e sabendo do esquema, ao passar na farmácia comprei o medicamento: R$ 88,00. Uma droga de 5mg para o primeiro mês e a mesma de 10 mg para o segundo. Quando fui comprar a segunda, o preço “da tabela” é de $ 104,00, e a primeiro farmácia fazia por 4 88. A segunda por $ 59, a terceira por $ 60, e quando pensei que teria que gastar os 60 reaisinhos, encontrei por $ 37,92 !!!

Um descontinho de $ 66,36 que representa 63,6%.

Há uns meses o urologista receitou-me um medicamento cujo preço “oficial” é de R$ 924,70, 30 comprimidos, e tomar dois por dia, o que equivaleria para cima de um dinheiral imenso. Fui pesquisar e encontrei por $949,00 (acima da tabela) $424,92, $124,00, $66,71 e acabei por comprar por $52,30!!! Dá para acreditar? Um desconto de 94,3% !

Só para terminal; um medicamento de preço “oficial” $ 92,40, estava por $29,25, e se comprasse três embalagens saía cada uma por $10,75 (x3 = 32,25). Desconto 65%

O que isto significa? Quem marca o preço “oficial”? A ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a mesma que aprova ou não novos medicamentos?

Como é possível estabelecer um preço que deve ser equivalente a 1000% o custo para a farmácia?

Uma loucura, e fica fácil ver como nos roubam, porque as farmácias são grandes conglomerados, e ganham bilhões!

Tudo à custa do “Zé Doente”.

Comparando com Portugal, onde não há descontos; a seguir preços, seguido de Brasil e Portugal

- R$104,oo pago $37,92 = € 7,10 * Portugal € 5,80

- R$ 924,70 pago R$ 52,30 = € 10,00 * Portugal

- R$ 92,40 pago R$ 10,75 (devia ser liquidação!) = € 2,00 ! *Portugal só tem 25 mg - € 4,40

Para que acreditem melhor, cópia de uma Nota Fiscal

Gostaram?

Então, quem vive no Brasil… olho atento e vivo.

Quem aqui vier passear, turista, se lhe der um “treco” já sabe que tem que pesquisar antes de engolir o caroço dos ladrões.


03/08/22

sábado, 23 de julho de 2022

 

Carta aos portugueses


É tanta a falta de valores na governança do país, que me envergonho de “ainda” ser português.

Nos mais altos postos do país, o senhor M. R. das Selfies e o senhor Costa do Risinho Falso parecem entretidos, e divertidos, a destruir o pouco que esse país ainda tem.

Lembro de há alguns anos a Senhora Merkel ter feito uma crítica aos portugueses, sempre de mão estentida a esmolar fundos da UE, para os desbaratar, quando Portugal era o país com melhor clima e melhor comida da Europa, adormecido nas cantadas socialistas que o veem arruinando.

O Costa, a qualquer crítica que se lhe faça, responde como a hiena: a rir. Ri de quê, imbecil?

O Selfista, anda de cuecas nas praias, tira fotos com idiotas que o aplaudem, ofendeu e levou com a porta do Presidente do Brasil nas ventas – muito bem dada – e, incapaz de pôr ordem na governação passeia, exibe-se e, imitando o seu superior, ri também.

O país arde, arde todos os anos, prejuízos milionários, e não se vê um plano sustentável para proteger o pouco que sobra.

O medo que os clientes da celulose (parece que serão italianos) se zanguem e que país perca “essa boquinha” de exportação, fecha os olhos à expansão dos eucaliptais, bombas à espera de um verão um pouco mais quente, e que levam na sua frente casas, vidas, arrasando áreas imensas.

Plantar árvores que resistam ao fogo que, como é evidente, levariam muito mais tempo a crescer, parece estar fora de cogitação.

Mas os carvalhos, oliveiras e outras renderiam mais tarde bem mais do que a atual celulose, sem o perigo de se verem dizimadas pelo fogo.

Porque não se faz uma consulta geral ao país, aos técnicos e agricultores, para ouvir que soluções eles poderiam propor para evitar a repetida e sempre esperada catástrofe?

Porque o país não investe no futuro e esbanja os milhões e bilhões (o que por lá chamam de mil milhões!) que lhe chegam da UE?

E tem mais: o desgoverno apoia o concêlho nacional de saúde quando este, em pronunciamento oficial se regozija com as mortes de idosos pelo Covid, porque rejuvenesceu a população portuguesa! Tamanha atitude de imbecilidade e os seflies e costas não se manifestam! Talvez não tenham morrido todos os idosos dos cãosseituados membros de tal cãoncêlho, o que quem lastima sou eu, porque gostaria de saber se estariam na mesma felicidade com esse rejuvenescimento.

É exagero de estupidez, incompetência e inguinorança.

Devem estar mais felizes ainda com o mais de milhar de mortes causadas agora pelo fogo!

Portugal rejuvenesce com mortes!

E assim vai o país sendo desgovernado e atirado para o lixo.

A dívida do país é impagável, tal a monstruosidade do seu tamanho, que obrigam os selfies-costas a baixar as calças e sorrir, porque não sabem como fazer melhor.

A UE vai financiando, aliás vai investindo e assim não precisa de Napoleões ou Hitlers para ser ela – os credores – a tomar nas mãos as rédeas desse “belo país à beira mar plantado”.

Para já vai-se arrastando com o turismo, uma inflação que não existiu durante os tempos da feroz ditadura do Estado Novo, mas… e daqui a dez ou vinte anos?

Outros selfies-costas continuarão a rir ou virão os que vão chorar?

Pelo mundo fora “as coisas” não estão muito boas, também.

Cada vez mais é de esperar que a África venha a dominar o mundo. Não os chins, muito menos os russos e seus tártaros, bashkires, tchetchenos, bielorussos, chuvaches e outros.

Melhor estão aqueles, como eu, em frente das portas do Além, para não assistirem à depravação dos que não forem capazes de trabalhar para o futuro.

Podemos lamentar o que netos e mais descendentes virão a enfrentar, mas a própria história nos mostra que os povos, as etnias, as fronteiras são como água: quando esquentar, desfazem-se.

Cada vez com mais frequência assistimos à eleição de incapazes e vorazes ganaciosos.

E depois?

"The rest is silence.

20/07/22

Em 2003 e em 2005 escrevi os textos abaixo a propósito de fogos:

Portugal a arder e...

Portugal arde no continente e até na ilha da Madeira; a devastação e os desastres são horríveis.

2003 – há 19 anos !!!

Pegou fogo! Ainda a propósito e... a tempo?

Todos os anos a mesma cegada. Vem o verão, um calor insuportável, uma secura tremenda e aí está o país a arder.

Este ano, um dos anos mais quentes que a história regista desde há vários séculos, tinha que arder mais. E foi uma catástrofe. Grande parte fogo posto, grande parte os mesmos incendiários e, pelos vistos, por todo o lado a mesma insana benevolência, a que algumas almas obscuras chamam de direitos humanos, poupando duros castigos a semelhantes canalhas.

Há uns quinze anos ardeu uma grande parcela das matas da Serra de Sintra. O fogo andou por onde quis e o vento o levou mas, chegando a uma área de belíssimos cedros (uma das taisPináceas), e não entrou. Rodeou os cedros, que se limitaram a ficar chamuscados na orla, e seguiu adiante na sua destruição. Passada a desgraça lá restava imponente, de pé, ligeiras feridas do duro combate, uma, infelizmente pequena, mata de cedros, heróicos sobreviventes daquela violência.

A pergunta que surge de imediato a qualquer um: porque não se plantam mais cedros? Porque não se fazem “cinturões” ou “aceiros” de cedros, já que, por diversas vezes ficou demonstrado que estas árvores não deixam o fogo propagar-se, pelo menos com a impressionante velocidade dum pinhal ou eucaliptal?

A resposta é simples: um pinheiro ou um eucalipto levam pouco mais de meia dúzia de anos a crescer para corte - se entretanto o fogo não os devorar! - e um cedro uns trinta! Quem quer fazer investimentos a trinta anos?

Onde está o grande Rei (“R” maiúsculo!) D. Dinis? Imaginem que esse Rei tivesse a mentalidade tacanha que, de há muito, vem presidindo os destinos de Portugal? O que tinha acontecido? O mar já teria levado uma boa parte da costa e a grande epopéia que honra e mostrou ao mundo a fibra dos portugueses... nem sequer teria acontecido! Naquela altura ainda não se faziam embarcações em fibra de vidro.

Sempre ouvi dizer que governar é prever, segundo os chineses. Não será possível fazer um plano de reflorestação a 30, 40, 50 anos? Foi o tempo que demorou a completar a auto estrada Lisboa-Porto, iniciada pelo também Grande ministro o Eng. Duarte Pacheco no início dos anos 40. Se uma auto-estrada (auto-estradeca de 300 km!) leva 50 anos a concluir, o futuro do interior do país não pode ser planificado para um prazo desses?

Todos sabemos que depois do terreno queimado os problemas que se levantam são imensos e enormes: empobrecimento, erosão, assoreamento de rios e barragens, destruição total ou quase de todo o eco sistema, etc., mas insistir naquilo que todos sabem que não resulta - plantar somente pinheiros e eucaliptos - é sem dúvida estar a jogar dinheiro fora e continuar a pôr em risco a vida de muita gente e deixar para os vindouros um deserto!

Será isso que as gentes, e porque não os governantes, querem?

15/Set/03

Dois anos depois, 2005, voltei à carga:

Os fogos “populares”

Há dois anos, grassava por Portugal um fogaréu imenso, como habitual, escrevi uma pequena crônica sobre os fogos, e lembrava um episódio que salvara uma boa área da serra de Sintra. Arderam eucaliptos e pinheiros mas o fogo não penetrou nos cedros.

Mandaria a lógica plantar mais cedros. Pelo menos fazendo com eles cortinas que pudessem conter a voracidade das chamas que sempre, sempre e cada vez mais, se declaram nesta época do ano em Portugal e não só. Temperaturas que rondam os 40° C e umidade do ar muita vez abaixo dos 30%, não há floresta que agüente.

Não se sabe qual o fenômeno que num passado não tão remoto, provocou, sempre no hemisfério norte, as glaciações com seus períodos interglaciares, mas o que se sabe é que com o aumento de temperatura do nosso planeta, e o também visível aumento da área de influência do deserto do Saara, somados à falta de limpeza das florestas e rarefação de agricultores, gente do campo, nas aldeias, que ao primeiro sinal de fumo acudia com baldes e boa vontade, a ameaça dos fogos só tende a piorar.

Vão talvez dizer que o problema não terá grande solução, visto que só se podem plantar pinheiros e eucaliptos, que são os que mais rapidamente crescem e melhor servem as celuloses!

Os que mais rapidamente crescem, vírgula, quando crescem, se o fogo os não destrói, o que está acontecendo com cada vez maior e mais rápida intensidade. As celuloses terão que estudar alternativas, porque entre material talvez não tão adequado - e nem saberia dizer se isto é verdadeiro ou não - e troncos queimados com terras cada vez mais improdutivas, a solução não parece difícil de tomar.

O projeto de conservação (?) das matas e florestas, em Portugal, é um projeto a prazo médio. Vinte, trinta anos. Talvez caro. Mas entre a hipótese de termos um país minimamente decente para os vindouros, ou um campo arrasado, queimado, improdutivo, e um gasto anual imenso para combater o incombatível, não parece haver muita dúvida no caminho a seguir.

Tem que plantar outras espécies a intervalos regulares. Porque não frutíferas? Até atraem alguma fauna, esta a flora, etc. Ou será melhor continuar a esterilizar as terras com a ganância da venda rápida de madeira (de paupérrima qualidade) ou aumentar os lucros das celuloses?

Tem muito engenheiro florestal que saberá dar uma reposta conveniente.

A pergunta que fica é simples, como a faria qualquer criança: porque não se começa a executar um tal plano? Não temos em Portugal engenheiros silvicultores capazes de elaborar, com muita rapidez, um plano destes, à escala até nacional? Temos, muito bons, com arquitetos paisagistas, à frente dos quais me atrevo a sugerir o prof. Gonçalo Ribeiro Telles. O que falta então? Vontade e força política? Para variar deve ser isso. Sempre a maldita política que, em nome do desenvolvimento do país, muitas vezes só isto faz: atrasa-o.

Passam os anos e nada muda. Lembro outro episódio passado também há anos no Norte de Portugal. Grassava outro incêndio. A chefe dos Serviços Florestais conseguiu prender o incendiário e, de acordo a lei (direitos humanos e outras cretinices) entregou-a à polícia. Já não recordo o desenvolver do drama: ou a polícia ou o tribunal, ouviram o delinquente e... soltaram-no!

Hoje continua a passar-se o mesmo. E a “justiça” parece não perceber que esses delinquentes são ferozes assassinos. Destrói-se o meio ambiente, as propriedades particulares – casas e bens – morre gente queimada e... os assassinos ficam à espera da próxima oportunidade.

Ou há um lapso de dignidade, de lei ou de coragem para pôr esses energúmenos na cadeia por 40 ou 50 anos. Ou, para um tratamento mais rápido, ser levado de helicóptero e deixado no meio do fogo. Lá bem no centrinho onde o churrasco fosse mais quente. De certeza que a aprenderia... tostado.

Lembro ainda um juiz que proferia sentenças inéditas que eram criticadas nos jornais, sempre positivamente;

Uma delas: um jovem que ao andar nos carros elétrico (bondes) sempre tinha mão baixa para a meter nas bundas das jovens ou senhoras. Apanhado, preso, foi a julgamento. Sentença: durante dois anos não pode andar nos transportes públicos! Perguntaram ao juiz: E como ele se vai deslocar? – Nos mesmos transportes; mas vai ser o indivíduo mais bem comportado lá dentro. Se prevaricar apanha uns quantos anos de prisão!

Aceiros para evitar a expansão do fogo... não valem muito. Limpeza dos ramos secos nas matas... quem vai apanhá-los, como se fazia há 50 anos para ter lenha em casa?

As florestas estão cheias de combustível, a terra aquece cada vez mais, e ninguém parece querer ver mais além do que o “próximo ano”, pedindo aviões emprestados para ... para o que? Atenua? Talvez, mas não resolve.

Parece que quem comanda o país tem como lema “Deixa arder que eu pago!”

É triste ver como se abandona o pouco que se tem.

13-jul-05

21/07/22