domingo, 11 de janeiro de 2015


  
Índia
Histórias da história - 2

3.-RAMA-GUPTA e DHRUVADEVI

Um drama do século sexto conta a história de um Rama-Gupta, que se pensa ter brevemente sucedido a Samudra Gupta e quem tentou arrancar os sátrapas ocidentais de Malwa. A tentativa deu errado. Rama-Gupta foi derrotado, e preso, quando tentou se soltar, foi informado que o preço da fuga seria a rendição e entrega da sua rainha. De acordo com uma biografia muito mais tardia, o sátrapa de Shaka cobiçava ao máximo a adorável rainha Dhruvadevi. Sem dúvida ela tinha sido representada a ele com olhos de lótus, com coxas como hastes de bananeira e todos os outros atributos maduros da feminilidade desejável, como detalhado na tradição textual e ilustrada nas yaksi sedutoras das esculturas de Mathura e Sanchi. O tipo da “mulher-ideal” ou “simbolo sexual” da época! Em chamas, com o desejo, o lascivo rei de Shaka foi inflexível; Rama-Gupta, indigno de uma tão desejada consorte, irremediavelmente admitiu a derrota e concordou em entregar-lha.



O “símbolo sexual”: a bela e tão desejada Dhruvadevi ?
(Vejam bem a perninha estilo tronco de bananeira!)

Mas a ignomínia foi demais para o irmão mais novo de Rama-Gupta. Este irmão de alguma forma se disfarçou como Dhruvadevi, toda bem torneada, e foi dando entrada no campo inimigo onde prontamente matou o sátrapa. Ele também deve ter auxiliado a fuga de seu irmão Rama-Gupta, tendo este sido irrevogavelmente desonrado por este caso; era o irmão honrado que agora assumia as rédeas do Império como Chandra Gupta II. Ele pode ter tido que matar Rama-Gupta no processo; mas certamente, foi ele quem eventualmente ficou com a mão de escultural Dhruvadevi.

Chandra Gupta II

Não surpreendentemente, a ofensiva principal de Chandra Gupta II foi uma continuação da luta contra os sátrapas de Shaka. A julgar pelas inscrições em torno de Sanchi ele parece ter sido de Malwa Oriental alguns anos antes, presumivelmente enquanto conduzia as necessárias campanhas. A sua paciência foi recompensada. No ano de 409 d.C. Chandra Gupta II emitiu moedas de prata para substituir as dos sátrapas. E depois de ouro. Os territórios de Shaka na Índia ocidental foram anexados aos Guptas, e dos sátrapas ocidentais não mais se ouviu falar.
Assim, os Guptas garantiram sua fronteira ocidental e herdaram tudo o que restou das tradições culturais estabelecidas pelo sânscrito Rudradaman e seus sucessores. Na evidência de um site arqueológico budista em Gujarat norte (Devnimori) que pode datar-se de cerca de 375 d.C., tem sido sugerido que a arquitetura e escultura Gupta deviam vários motivos e características de design ao oeste da Índia. Também pode ser significativo que as realizações culturais associadas geralmente aos Guptas são pouco em evidência no século IV e só se tornaram estabelecidas após a conquista dos sátrapas por Chandra Gupta II.
Este sucesso contra os sátrapas também deu aos Guptas acesso aos portos de Gujarat e aos lucros do seu comércio marítimo internacional.

4. – ALEXANDRE  e  BUCÉFALO

Alexandre, como se sabe, foi o maior general de toda a história, de onde lhe vem o sobrenome, o Grande.
No seu caminho de batalhas e conquistas percorreu mais de 25.000 quilómetros, e acabou morrendo muito jovem, 32 anos, possivelmente por ferimentos recebidos num dos muitos combates que enfrentou quando descia o Hindus, hoje Paquistão, em barcos, descida essa que levou seis meses até ao mar, no regresso à Mesoptâmia, vindo a falecer na Babilónia. Uma seta ter-lhe-á acertado no peito e talvez tenha atingido os pulmões.
No mesmo dia em que Alexandre nasceu terá nascido um cavalo, magnífico, indomável que, segundo a tradição, havia sido comprado por Filipe II da Macedónia, pai de Alexandre, mas afastado por ordens do próprio rei pois não se deixava montar. Alexandre, depois de muito implorar, no dia em que fez treze anos, recebeu esse magnífico presente com permissão para tentar domá-lo, que parecia fadado a ser o grande companheiro do príncipe. Alexandre notou então que o cavalo se assustava com a própria sombra e o conduziu contra o sol de forma que ele não pudesse vê-la. Contra todas as expectativas conseguiu assim domar o cavalo, que ninguém conseguia. O cavalo só permitia ao seu treinador montá-lo mas, depois foi coberto por vestes reais, e permitia ser montado por Alexandre, e ainda se curvava para ajudar o rei.


Alexandre Magno e seu cavalo Bucéfalo, na Batalha de Isso.
Mosaico encontrado em Pompeia, hoje no Museu Arqueológico Nacional, em Nápoles

Bucéfalo era o nome deste famoso cavalo de guerra de Alexandre, rei da Macedônia depois de, com a ajuda da mãe, ter assassinado o pai!  
Com o seu dono percorreu milhares de quilómetros, sempre se impondo pela sua postura, força e elegância. Quando Bucéfalo ficou velho, Alexandre o poupava das atividades de menor importância: durante a revista das falanges, antes da batalha, Alexandre montava outros cavalos, apenas montando Bucéfalo na hora de atacar o inimigo.
Bucéfalo viria a morrer por ferimentos e pela idade durante a campanha de Alexandre no norte da Índia. No local de sua morte, o imperador prestou-lhe uma última homenagem, fundando a cidade de Bucéfala próxima a Taxila (30 km a NE de Islamabad), no atual Paquistão.
Taxila tem uma história incrível. Foi a capital de uma série de reinos, inclusive de Alexandre, e sabendo-se, pela arqueologia, que a sua fundação remonta a uns cinco milénios a.C., no século V a.C. tinha já uma universidade onde se ensinavam os princípios budistas. Hoje o sítio, espetacular, é Património Mundial da Unesco.
5.- Tanque

Se procurarmos a etimologia desta palavra tanque, nos vários dicionários de português, encontram-se as “probabilidades mais absurdas” que se possam imaginar. Dizem que “talvez” venha de “estancar”! Mas explicar... nada. Estancar a água?
A história calcula que os arianos terão chegado à Índia cerca de 1500 a.C., passados dois séculos da há pouco descoberta civilização Harapana. Civilização que se terá iniciado mais de 3.000 anos a.C.
Agricultores, já trabalhavam e transformavam de forma magnífica o algodão, que os arianos, espantados por que o desconheciam começaram por chamar de “lã vegetal”!
Poucos animais estavam domesticados de modo que sobreviviam, e bem da agricultura, e de alguns animais selvagens, como o porco.
Os remanescentes desta civilização ao longo do Hindus, se viram obrigados, possivelmente por desertificação da região, a mudar-se para as margens do Ganges, onde a agricultura se fazia com a fácil irrigação na planície gangética, entre os rios Ganges, Gahara e Jumuna, sempre cheios de água.
Quando mais tarde alguns governantes ou rajas, quiseram expandir-se para a região central da atual Índia, os povos dali sobreviviam mal à época inter monções. Chovia torrencialmente durante os meses das chuvas – entre Junho e Agosto – e depois no resto ano chegava uma canícula que tudo queimava.
Era preciso alimentar aquele povo.
O governante mandou construir uma série de tanques onde se pudesse guardar boa parte das chuvas imensas que depois eram utilizadas para regas e assim desenvolver a agricultura.
Quer isto dizer que tanque é uma palavra de origem indiana, levada para a Europa pelos portugueses e adoptada bem mais tarde pelos ingleses. Isto dizem os próprios ingleses.
Estes, quando começaram a fabricar umas novas “máquinas de guerra”, no início da I Guerra Mundial, criaram uma palavra código para se referirem a estas máquinas. O nome escolhido foi Tank.
Mas, até em Inglaterra, como em Portugal, a palavra tanque aqui, ou tank lá, significa um reservatório de água, por exemplo para lavar a roupa, ou o tanque de combustível dos veículos e só mais tarde se vulgarizou como a máquina de guerra!


Qual tanque você prefere?


23/12/2014

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015


J’ai eté
toujours
CHARLIE
Je suis
CHARLIE
et je serai
toujours

CHARLIE

domingo, 4 de janeiro de 2015

Comecemos o ano com coisas do passado longínquo!
As do recente, muitas delas, são como feridas, para nós.


Histórias da história
Índia - 1

1.- A QUEBRA DAS ÁGUAS

Na tradição hindu, como na tradição judaica, na cristã e até nos maias, a história de uma antiguidade “gerenciável” começa com um dilúvio. Renovando as obscuridades de uma velha ordem, a inundação serve um propósito universal em que estabelece seu único sobrevivente como o fundador de uma sociedade nova e homogênea, em que todos partilham a descendência de um ancestral comum. Um novo começo é sinalizado.
Na Bíblia a inundação é o resultado de descontentamento divino. Enfurecido pela desobediência e maldade dos homens, Deus decide cancelar a sua criação mais nobre; só o justo Noé e seus dependentes são considerados dignos de sobrevivência e dar à humanidade uma segunda chance. Muito diferente, à primeira vista, é o dilúvio indiano. De acordo com o mais antigo de várias contos, a inundação que afligiu o povo da Índia foi um acontecimento natural.
Manu, equivalente a Noé, sobreviveu graças a um simples ato de bondade. E, surpreendentemente para uma sociedade que adorava deuses do vento e da tempestade, nenhuma divindade recebe menção.
Quando Manu foi lavar as mãos numa manhã, um pequeno peixe veio ter às suas mãos junto com a água. O peixe implorou a proteção de Manu dizendo ‘dá-me guarida”. Vou te salvar.’ A razão que apresentou foi que os peixes pequenos eram susceptíveis de ser devorados pelos maiores, e precisava de proteção até crescer. Ele pediu para ser mantido num frasco e, mais tarde, quando superou isso, voltou para uma lagoa e finalmente ao mar. Manu agiu em conformidade.
Um dia o peixe avisou Manu de uma inundação iminente e aconselhou-o a preparar um navio e entrar nele, quando veio o dilúvio. O dilúvio começou a surgir na hora marcada, e Manu entrou no navio. O peixe então nadou até ele, amarrou a corda do navio para seu chifre - talvez fosse um espadarte – e passaram rapidamente para a montanha lá do Norte. Aí Manu foi orientado para subir a montanha, depois de amarrar o navio a uma árvore, e desembarcar somente após a água ter abrandado.
Daí foi descendo, e, assim a encosta da montanha do Norte passou a chamar-se Manoravataranam, ou descida de Manu. As águas varreram todos os três céus, e Manu sozinho foi salvo.

Manu salvo pelo peixe

Tal é a versão mais antiga do dilúvio conforme consta no Satapatha Brahmana, dentre vários apêndices prolixos para os hinos sagrados conhecidos como os Vedas, que eles próprios estão entre as composições religiosas mais antigas do mundo. Redigidos na língua clássica do sânscrito, alguns dos Vedas datam de antes do primeiro milênio a.C. Juntamente com obras posteriores como os Brahmanas, além de dois grandes épicos em sânscrito, o Mahabharata e Ramayana, eles constituem uma gloriosa herança literária de onde todo o conhecimento da história da Índia antes de a.C. 500 tradicionalmente tem sido derivada.
Direto e claro, a história de Manu e o dilúvio serviu seu propósito de introduzir um novo progenitor da raça humana e, a aproveitou-se para explicar o nome de uma montanha. Tal, no entanto, era uma interpretação demasiado modesta para as gerações posteriores. Mito, a fumaça da história, é visto para sinalizar significados novos e mais relevantes, quando visto à distância de milênios mais tarde. Em tempo, a situação dos pequenos peixes susceptíveis de serem devorados por peixes maiores tornou-se uma metáfora em sânscrito para um estado anárquico de assuntos (matsya-nyaya) equivalentes à lei da selva em português. O dilúvio de Manu, como Noé, veio a ser visto como o meio de acabar com este caos. E quem melhor para orquestrar a matéria e para salvar a humanidade do que o Senhor Vishnu? Uma divindade menor quando os Vedas foram compostos, Vishnu desde então subiu como o grande salva-vidas do mundo no panteão Hindu e o segundo membro da sua Trindade. Assim, oportunamente, a inundação se tornou um símbolo da ordem-fora-do-caos através de intervenção divina e o peixe (matsya) reconhecido como o primeiro (avatar) das nove encarnações do deus Vishnu. Mito, seja qual for e quão remoto, serve as necessidades do momento. Assim na história da Índia, como em outros lugares.
Alguns historiadores dataram a inundação muito precisamente em 3102 a.C., sendo este o ano em que, pela computação elaborada, concluem que a nossa era atual, o Kau Yug na cosmologia indiana, começou quando Manu se tornou o progenitor de um novo povo, bem como o seu primeira grande rei e doador de leis. É provavelmente a primeira data credível na história da Índia, e, mesmo sendo um dos tais improváveis de exatidão, merece respeito.

2.-AJATASHATRUS e a LINDA KOSHALAN
Século V a.C.

Licchavis e Koshalans eram dois povos do Norte da Índia na base das montanhas do Everest. Os Koshalans seriam de origem “além montanhas”, da área central da China.
Ajatashatrus, do grupo Magadha, sem ser contestado, e respeitado pela sua conduta, foi elevado a rei em 460 a.C., quando seu pai, velho, não tinha mais possibilidade de exercer o comando. Logo foi envolvido em uma guerra com Koshala e uma poderosa coalizão de repúblicas liderada pelos Licchavis. Magadha estava prestes a dar mais um passo gigante em direção à hegemonia na região média do Ganges.
O problema com Koshala parece ter surgido sobre um pedaço de terra nos arredores de Varanasi que Maha-Koshala tinha passado a Bimbisara, rei de Magadha, talvez o mais poderoso raja da região, como dote da sua filha Devi, irmã de Prasenajit. Além desta, Bimbisara tinha outras “rainhas principais”, como Chetaka, filha do raja Licchavi e uma terceira, Kema, filha do raja Madda de Punjab. Quando Devi morreu de desgosto pela morte de Bimbisara, Prasenajit de Koshala, seu irmão, revogou a concessão da terra e quis controlá-la. Ajatashatru, o filho de Bimbisara, tentou retomá-la, mas parece inicialmente ter sido derrotado. Sua reivindicação para o disputado enclave foi, no entanto, reforçada quando o Prasenajit envelhecido, foi presa fácil do seu próprio filho, a caminho de Magadha como um suplicante. Sozinho, o velho rei chegou as paredes de Rajagriha e lá, enquanto esperava a noite para abrirem os portões, morreu de exaustão e exposição. Apesar de suas diferenças, Ajatashatru de Magadha prontamente honrou a memória de Prasenajit e jurou vingar seu tratamento pelo Koshalans. Aguardou a ocasião para primeiro lidar com outra grande ameaça ao seu reino e em seguida se beneficiar com a aniquilação do exército Koshalan; acampado no leito seco do Rio Rapti, foi subitamente apanhado por uma enchente. Daí em diante, embora as fontes tenham silenciado sobre os detalhes, Ajatashatru parece ter superado Koshala, que prontamente desaparece dos registros.
Esta importante conquista foi viabilizada por uma vitória decisiva de Magadhan na luta prolongada com seu principal vizinho, a República de Licchavi. Os Licchavis, com capital Vaisali eram a cabeça de uma confederação de repúblicas, ao norte de Magadha. Aqui novamente, porém, o problema dos Magadhas parece ter começado no reinado de Bimbisara e de ter sido extremamente complicado por um assunto do coração... ou de saias! Aliás saris!
Como se poderia esperar numa república, a bela Amrapali (ou Ambara-pali) não era uma princesa. Na verdade, ela era uma cortesã cuja perfeição física e contornos proeminentes assegurara sua elevação ao estatuto de um património nacional. Em outras repúblicas realizavam-se concursos de beleza elaborados para selecionar a principal cortesã, e isto também pode ter sido o caso em Vaisali. Mas Amrapali, como convinha a uma das mais devotadas seguidoras de Buda, era astuta, bem como graciosa. Embora seus favores supostamente fossem reservados “exclusivamente” para os 7707 cavaleiros Licchavi-raja, ela também exercia grande influência política e tornou-se, com efeito, a primeira-dama dos Vaisalis.
A bela Amrapali, cujos favores estariam “reservados” para 7707 nobres Licchavis!

Foi, portanto, um golpe esmagador na auto-estima de Licchavi quando se descobriu, no meio de uma luta com Magadha, que o rei de Magadhan entrara em Vaisali disfarçado e, sem ser detectado, ali estivera em amores na deliciosa companhia da lindissima e generosa Amrapali. O rei Magadha teve que pagar por sua indiscrição, e os Licchavis multiplicaram seus ataques no território de Magadhan.
Reconhecidamente, o detalhe desta história sobrevive apenas em uma fonte mais tarde tibetana que certamente teria inspirado versos pungentes e libretos de óperas. Mas a partir de outros textos budistas é claro que Bimbisara realmente incorreu na ira dos Licchavis e que algo nocivo e prejudicial provocou seu filho Ajatashatru em busca de vingança. A subseqüente guerra parece ter durado pelo menos doze anos. Inicialmente ela foi agravada por uma luta de sucessão entre Ajatashatru e um dos seus irmãos. O irmão, que residia na Anga (presumivelmente como seu governador), recusou uma oferta generosa para ceder um colar de valor inestimável. Ele também reteve um elefante ainda mais admirável, que tinha sido treinado para agir como uma mangueira de chuveiro, polvilhando as senhoras da casa Magadhan com um spray deliciosamente perfumado quando elas fossem tomar banho. Sem dúvida tanto o colar como o elefante foram visto como uma grande regalia e símbolos de poder. A aquisição deles por Ajatashatrus foi, portanto, essencial para maior legitimidade de seu governo. Mas o irmão permaneceu desafiador e, temendo qualquer ataque, refugiou-se em Vaisali onde garantiu o apoio dos Licchavis.
Outro conto diz que outro item de disputa era uma montanha de onde escorria um unguento altamente valorizado, porque muito perfumado; ainda outro parece indicar uma ilha disputada no Ganges, que formou a fronteira de Magadha-Licchavi.
Sabemos de tais detalhes porque Ajatashatru decidiu consultar o Buda sobre iminentes hostilidades, e comentaristas mais recentes, budistas, decidiram gravá-las, embora vários a tenham aprimorado. Escultores de budistas seguiram o tema. Num painel do segundo século em Barhut (agora no Museu de Calcutá), um recatado e mais pacífico Ajatashatru é retratado chegando num elefante com um séquito de esposas e depois fazer a reverência diante do trono do Buda. Bem preservado no arenito castanho-avermelhado de Barhut, esta cena eloquente pode ser taxada como a mais antiga representação na arte indiana de uma figura histórica genuína. Textos budistas também mencionam que na sua última viagem ao norte, Buda, após seu encontro com o rei, mas antes de cruzar o Ganges, passou num canteiro de obras onde um novo forte de Magadhan estava sendo erguido. O lugar chamava-se Pataligrama.

Dez. 2014


domingo, 28 de dezembro de 2014


O Mundo às avessas

Já uma vez vez tentei reproduzir uns versos de que só me lembra uma pequena parte, que cantava na Adega da Lucília, que mais tarde mudou o nome para O Faia, uma fadista já velhota, baixinha, que eu tanta vez ouvi, há mais de sessenta anos, e que tinha uma graça imensa e cujo nome infelizmente esqueci:
O mundo anda às avessas
E muitos julgam que não
Eu que me vejo por mim
Vejo que o mundo é assim
Com tanta contradição

Há latagões serafins,
Desventurados venturas,
Claras que são escuras,
Etc.
Mas olhemos um pouco à nossa volta:
- Genève ia fazer, num jardim publico, um monumento lembrando o centenário do genocídio do arménios, perpretrado pela Turquia em 1915, o que pressupunha o reconhecimento oficial desse genocídio. A Turquia ameaçou com corte de relações comerciais, e como dinheiro fala mais alto que moral e ética, o conselho federal suiço... aconselhou que se pensasse em outro local, não “tão exposto”, para o monumento. Mais ou menos escondido ou de modo a que ninguém veja! Quer dizer, a Suiça, e a sua apregoada neutralidade, uma vez mais baixa a cabeça ao dinheiro e, vergonhosamente não quis reconhecer o hediondo crime desse genocídio! Covardes. Política.

- Em Bruxelas, no último dia 4 de dezembro duas ativistas de uma quadrilha feminista internacional atacaram e destruiram um presépio instalado na Praça Central da capital belga, e não houve cristão que lá fosse, lhes tirasse as máscaras e as levasse para... um bordel. Covardes. Política?



- No Brasil uma comissão, montada pela esquerda – leia-se governo do pt – apresentou o seu relatório sobre torturas, mortes, etc., durante os anos da ditadura militar, relatório extenso, infame e que propunha anular a Lei da Anistia, assinada quando os militares entregaram o poder aos civis, e permitiu uma transição pacífica. Desse relatório constam 190 mortes, mas não consta nem um único dos 128 que os comunistas mataram e jamais indenizaram as famílias.
Nem referem os muitos crimes cometidos pelo ,madama dona presidenta ou pelo famigerado capitão Lamarca, um assassino que escreveu um tratado sobre guerrilha urbana traduzido em todas as línguas de guerrilheiros, que por proposta do pt foi post-mortem promovido a coronel, com soldo de general de brigada, e indenizada generosamente a viúva e filhos. Esse tal capitão um dia num confronto com uma tropa do exército capturou um tenente e todos os soldados. Mandou os soldados embora e deu ordens para que matassem o tenente à coronhada o que foi imediatamente cumprido.
Alguma diferença entre este assassino, che guevara, que se distraía a matar a tiros de pistola os prisioneiros em Havana, ou os jiadistas que degolam jornalistas e outros? Nenhuma. Com a arma na mão, são todos uns covardes. Política?

- Entretanto corre o processo chamado “Lava-Jato”, que descobriu a maior vergonha da história do Brasil: os bilionários roubos à Petrobrás, em que estão envolvidos dois presidentes, os do pt como é evidente, presidentes e diretores da Petrobrás e das maiores empresas fornecedoras e mais umas dezenas de políticos do mesmo pt e seus asseclas.
Aparecem até contratos de compra ou aluguel de plataformas de petróleo com o valor em aberto! O “contratado” escrevia o que quisesse, sabendo que a diferença para o valor real tinha que ser entregue ao “contratante” que o fazia chegar aos padrinhos!
No dia em que a CPI apresentou ao congresso o seu relatório sobre a Petrobrás, o relator, membro do pt, achou que estava tudo bem! Felizmente o Promotor que está a tratar do assunto e mais alguns juízes, acham que está tudo mal!
E vejam como é um assunto importante: nesse dia, depois da discussão deste problema nacional, e internacional, os doputedos entretiveram-se a aprovar uma LEI que determina o dia 25 de Outubro como o dia do macarrão!
Dantes a política era só de pizza. Agora já lhe chamam “rodízio de massas”!
Tudo ladroagem, covardia e... política.

Como é mesmo que dizia De Gaulle?

Para encerrar o ano, 2014, notícias chatas, tristes, revoltantes, dolorosas. Não podemos fingir que está tudo bem e que o próximo ano será de grande prosperidade para a humanidade e toda a natureza.
Por isso este apanhado de violência, corrupção, vergonha para uns e falta de vergonha para outros, vamos deixar no lixo do passado.
O lixo e o PIB deste “país do futuro” que não deve atingir este ano nem 0,2%. Zero, vírgula dois!
Não é um ano para esquecer. Temos que manter bem presentes toda a vergonha e covardia que dominaram este ano, para ver se podemos, de alguma forma evitar que se repitam.
Começaremos aqui 2015 com “Histórias da História” bem mais interessantes e menos desumanas.
Porque não desejar um Bom Ano Novo?
Não custa nada.

28-dez-14

domingo, 21 de dezembro de 2014




São Tomé

21 de Dezembro, o dia que a Igreja dedica a São Tomé. “O que quis ver para crer”!
No Evangelho de S. João, 11.16, quandoLázaro morre, os discípulos resistem à decisão de Jesus para que retornem àJudeia, onde os judeus tentaram apedrejar Jesus. O Mestre está determinado, mas é Tomé que toma a palavra final: "Vamos todos, pois poderemos morrer com Ele".
Sabe-se muito pouco sobre as vidas dos apóstolos, grande parte delas são lendas não comprovadas historicamente. Mesmo os nomes por que são conhecidos provocam muita controvérsia.
Sabe-se que Tomé, chamado Didimo, pelos gregos, é uma palavra de origem aramaica, Tau'ma (תום), que significa gémeo.
Chamar-se-ia Judas, há quem o confunda ou misture com Judas Tadeu, irmão de Tiago, Tiago Menor, o que terá ido catequizar para a Peninsula Ibérica. Tiago, Iacob, vem do hebraico Ia`qôb, “aquele que segura o calcanhar de seu irmão gémeo”. Tiago e Tomé eram gémeos?
Depois da morte de Cristo, quando os apóstolos tiraram à sorte quanto às suas respectivas missões, Tomé terá afirmado “qualquer que seja a Tua vontade, Senhor, assim o farei”, mas teria acrescentado que só para a Índia não iria! De pouco lhe valeram as orações! A tradição diz que São Tomé envangelizou os Partos, Medas e Persas e, talvez nem tempo, Tomé, que seria um construtor experimentado, encontrou-se contratado por um comerciante indiano, Aban, que o levou para trabalhar no novo palácio de Gondophares, um Parto, mais tarde identificado como Gudnaphar, um rei indiano mencionado num primeiro texto cristão. Este texto está nos Atos de São Tomé, de que chegaram até nossos dias versões completas em siríaco e grego. Existem ainda muitos fragmentos preservados do texto em que diz que o apóstolo tenha mesmo assistido de fato à corte do rei, na cidade de Taxila, às margens do rio Hindus, Punjab, quase no limite norte da península, onde hoje fica Islamabad, no Paquistão.

Lenda do palácio de São Tomé para o rei Gudnaphar
Jesus tinha dito aos discípulos que deviam levar sua mensagem para as pessoas de todo o mundo. Agora, aqui, estava Tomé na Índia muitos longe de casa e onde nunca tinha qerido estar! Tomé andava pelas ruas da cidade de Takshasila, no Punjab, de onde o rei Gudnaphar governava o Império. Tomé precisava de trabalho e perguntou se havia trabalho para um construtor, para que pudesse trabalhar com madeira e pedra.
Foi ouvido por um dos homens reis: você é um construtor de Jerusalém? Que sorte! Meu mestre, o rei Gudnaphar quer um palácio construído bem como o Palácio do rei Solomon em Jerusalém. Você é o homem que precisamos; então Tomé foi levado perante o rei. Me diga o que você pode fazer, disse Gudnaphar.
Em madeira, Vossa Majestade, posso fazer arados, jugos, saldos e polias, remos e mastros e navios. Em pedra posso fazer pilares, templos e palácios.
Você é realmente o homem para o trabalho, disse o Rei encantado.
Gudnaphar levou seu novo construtor para o lugar a algumas milhas da cidade onde seu novo palácio devia ser construído. A terra estava coberta de árvores e algumas em área pantanosa.
Quero que inicie imediatamente e me construia um palácio tão bonito como o famoso Palácio do rei Solomon.
Posso construir um palácio, Vossa Majestade, mas não poderei começar até Novembro. Vou ter que terminar em abril, no entanto.
Isso seria um trabalho rápido com efeito, disse o rei, mas não pode trabalhar durante o inverno. Você deve começar agora... enquanto o tempo está bom.
Não tenho medo de nada, disse Tomé.
O Rei concordou e quando finalmente viu os planos do palácio que Tomé desenhou, ele sabia que seria um palácio que valia a pena esperar. Como Novembro se aproximava o rei Gudnaphar enviou uma grande soma de dinheiro a Tomé para que ele pudesse empregar trabalhadores para começar limpando as árvores e para que comprar as melhores madeiras e pedras para construir seu maravilhoso palácio.
Mas assim que Tomé recebeu o dinheiro começou a andar pelas aldeias pobres nas proximidades, dando o dinheiro para alimentar os que tinham fome, ou a doentes para medicamentos; Tomé pagava casas para os desabrigados e certificou-se que órfãos, viúvas e idosos fossem devidamente cuidados.
Os meses foram passando o dinheiro começou a esgotar-se, mas não havia sinal de qualquer palácio.


Moeda com o “retrato” do rei Gundaphar - I séc. d.C.

Gudnaphar enviou mais dinheiro para Tomé comprar ouro para as paredes, mármore para o chão, prata para as lâmpadas; e Tomé foi dando todas as coisas para as pessoas pobres das aldeias. Como abril chegou o rei partiu para ver seu novo palácio, construído para ele em tempo recorde por Tomé de Jerusalém. Gudnaphar não poderia pensar em mais nada. Você pode imaginar o choque quando ele chegou no lugar onde deveria estar o seu palácio: viu as árvores ainda todas de pé e o solo pantanoso, mas não via nenhum sinal de um palácio.
Perguntou um transeunte se ele tinha visto Tomé. O rei gostaria de falar com ele. Quer dizer, Tomé, que tem dado dinheiro para os pobres e famintos, que cuida dos doentes e encontra casas para os desabrigados? Ele não come nada mesmo, só pão e água e viaja de aldeia em aldeia para falar às pessoas sobre Jesus.
Isso é tudo muito bem mas eu não vejo nem sinal do meu palácio.
Mas você não viu a felicidade nos rostos das pessoas por aqui, respondeu o homem.
Tomé foi logo encontrado pelos soldados do rei e levado perante ele. E quando o rei exigiu ver seu novo palácio, Tomé respondeu calmamente, você certamente verá o palácio que construí. Mas não é um palácio terreno. É um palácio nos corações dos povos, um palácio celestial que você não vai ver nesta vida.
Rei Gudnaphar ficou decepcionado e irritado. Ordenou que Tomé, o construtor, fosse levado para a prisão.
Você tem-me feito de bobo e desperdicei meu dinheiro, disse Gudnaphar. Você vai morrer de uma morte horrível. Sua pele ficará pedaço por pedaço, e então você vai ser queimado vivo.
Tomé foi levado embora dizendo, nada temerei, só acredito em Deus.
Naquela mesma noite Príncipe Gad, o irmão do rei, de repente adoeceu seriamente e nas primeiras horas da manhã, morreu. Sua alma foi levada para o céu onde os anjos lhe disseram que ele poderia escolher um palácio celestial para viver. Gad Príncipe olhou para todos os belos edifícios e logo percebeu que um era mais magnífico do que todo o resto.
Gostaria de passar para sempre em um palácio assim, disse Gad.
O palácio foi construído para seu irmão Gudnaphar, por Tomé o pedreiro, que se importou com os pobres com o dinheiro de reis disseram os anjos.
Enquanto rei Gudnaphar ainda deitado, sonhando com seu irmão, Príncipe Gad, este apareceu diante dele e disse-lhe que o maravilhoso Palácio que Tomé tinham construído para ele estava no céu. O rei compreendeu e saltou da cama para acordar seus guardas com ordens para deixarem Tomé livre imediatamente. A partir daquele dia Gudnaphar deu generosamente dinheiro aos pobres e continuou a construir o seu palácio no céu.

Uns historiadores dizem que ele foi recompensado pelo rei, outros que terá sido açoutado. Pela lenda, as duas situações podem ter acontecido!
Dali Tomé enceta sua segunda jornada pela Índia, tendo chegado a um dos portos na região de Cranganore, como Cochim, hoje distrito de Kerala, bem no sul da Índia, onde fez muitas conversões, e ainda hoje uma comunidade se diz descendente dos cristãos da Síria, e são também chamados de Nasranis, que em malaio significa “seguidore de Nazaré”, de Jesus e Nazaré.
Daqui Tomé atravessou todo o Sul e foi estabelecer-se na Costa Leste, Costa do Coromandel, em Miliapor, na altura longe da cidade de Madras, hoje Chennai, vivendo na mesma humildade, numa caverna. Converteu muita gente à Boa Nova, e até hoje a caverna e o morro onde viveu e foi martirizado, se chama o Monte de S.Tomé, e é venerado por multidões.

Monumento em frente da igreja de São Tomé, em Chennai

Foi morto por lançadas, que um rei, invejoso do sucesso da sua pregação mandou matar.
Sepultado na mesma caverna, teria sido transladado para Edessa, hoje Orfa – ou Urfa – na Turquia perto da fronteira com a Síria. São João Crisóstomo (347-407) assinalava o seu túmulo como uma das quatro sepulturas conhecidas dos apóstolos. Na primeira metade do século VI um viajante chamado Cosme, num livro que escreveu sobre as suas peregrinações diz que encontrou uma igreja de cristãos com clérigos e um bispo ido da Pérsia. Certamente aqueles de que reza a primeira viagem de Vaco da Gama que diz ter encontrado os “cristãos de São Tomé”.
Quando os portugueses lá chegaram, ainda existia um pequeno templo, e os brâmanes asseguravam que lá se encontravam os ossos do Santo. Em 1522 D. Duarte de Menezes, governador da Índia mandou reconstruir o templo que havia sido feito séculos antes. Ao abrirem os alicerces encontraram uma tumba de pedra com ossos que foram tomados como relíquias de São Tomé e, inclusive, um pedaço de uma das lanças com as quais fora morto com o sangue ainda coagulado.
Hoje tem um imponente igreja.


Basílica de São Tomé, em Chennai, construida pelos portugueses em 1896

Um fato recente e muito curioso foi quando do tsunami de dezembro de 2004 que devastou toda aquela região: o templo que guarda suas supostas relíquias ficou imune às ondas gigantescas que destruíram todas as construções adjacentes, tendo permanecido intacto. Uma antiga tradição afirmava que um poste fixado pelo apóstolo limitaria até o fim dos tempos as águas, que jamais o ultrapassariam. Este poste existe até os dias atuais e se localiza exatamente na porta principal da igreja que guarda suas supostas relíquias. Isto deixou os sacerdotes hindus desconcertados e os mesmos prometeram não mais perseguir e discriminar os cristãos daquelas regiões.
São Tomé ainda é honrado em Taxila em um festival anual no começo de julho, celebrado por milhares, celebrando a passagem dos seus ossos através de Taxila no seu caminho para Edessa (atualSaniurfa na Turquia).

Além disso é o Padroeiro dos arquitetos da Índia e de outros.

21-dez-2014, 1942 anos após o martírio de São Tomé.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014




O  RENASCER  DE  UMA (quase) LENDA

Devia, o calendário, marcar qualquer coisa como 1967 ou 8.
Um pequeno veleiro, o “ARGUS”, um yawl de carangueja, cheio de caracter, com um comprimento de 25’ 6” – 7,77 metros, 2,44 m. de boca e 1,10 m. de calado, com quilha fixa, foi mandado construir em Luanda pelo Ten. Cor. Jacinto Medina diretor da DTA, a antiga companhia aérea de Angola, e lançado à água em 1952.
Passeava-se orgulhoso por aquelas águas e ao vê-lo navegar levava-nos, ao tempo de meninos, a pensar nos piratas, nas ilhas do Caribe e dos mares do Sul, a sonhar!
Quando soube que iria ser vendido o meu coração deu um pulo: “o meu barco”! E foi.


Um dia, um muito querido primo, como irmão, na altura comandante do navio “Vera Cruz”, José de Azeredo e Vasconcelos, na sua passagem em Luanda, foi, com o orgulhoso proprietário do veleiro, dar a sua “opinião”! Gostou. Mostrei-lhe os planos do barco, e pediu que lhos emprestasse.
Algum tempo depois, em mais outra passagem por Luanda, chamou-me a bordo – onde normalmente eu já ia para ou simplesmente bebermos um copo ou jantar – o navio quase vazio depois de ter despejado mais uns milhares de militares para a guerra colonial, porque tinha um presente-surpresa para mim!
O carpinteiro de bordo, um homem habilissimo, tinha feito uma maquete do “ARGUS”, com uma precisão e um carinho, adimiráveis.
Montou o barco, à escala de 1/10, precisos, como se estivesse a construir um autêntico veleiro de mar. Vejam como fez o lançamento da quilha e cavernas:

Ao ver aquela pequena maravilha fiquei sem palavras (com a autorização do comandante, claro, dei um dinheirinho ao artista – nem tenho ideia quanto terá sido!) e quando regressei a casa levava nos braços, com o cuidado de quem carrega um recém nascido, aquela jóia linda, com dois beliches com colchões (!) na cabine, um pequeno abat jour na mesa, com uma lampada que se acendia, um luxo.

Já lá vão mais de quarenta e cinco anos! Quase sempre esteve em lugar de destaque na nossa sala.
Mas a vida foi peregrina. Entretanto tive que ir para Moçambique três anos e meio, regresso a Angola, mais um ano, foge – foge mesmo – para o Brasil – primeiro no interior do Estado do Rio, depois São Paulo, a seguir uma estadia em Portugal, e finalmente estabilizado (?) no Rio de Janeiro desde 1995.
O “ARGUS”, muito frágil, sempre navegou nessas viagens, embalado, e como é de calcular foi sofrendo um trauma aqui, outro além, peças frágeis, como o cimo dos mastros, bujarrona e outras, deixou de caber na casa onde hoje vivemos e foi dado a um dos filhos.
Pouco dado à náutica e sem muito espaço para colocar a belezura, foi jogado numa caixa, num canto e o tempo se encarregou que o preservar-estragar.
Velas rasgadas, dois rombos no casco, brandais cortados para se poderem retirar os mastros, todos os “cabos” – escostas, adriças, carregadeiras, etc. – num bolo tão emaranhado que levou dois dias para separar, um monte de outros problemas, e etc.!
Faltavam ainda uma série de pequenas peças, algumas ínfimas, e tudo teve que ser refeito.
Foram quase três semanas de trabalho, dois pares de óculos, um em cima do outro, face à pistosguice do “restaurador”, e finalmente o “ARGUS” está pronto para novo lançamento... não à água mas à exposição.
Agora já está com os cabos arrumados no convés como mandam os velhos e bons marinheiros:

O Nr. 29 do Club Naval de Luanda, irá qualquer dia lançar ferro, definitivamente, na sede deste clube, descansar na terra onde navegou imponente, e esperamos que viva ainda muitos e muitos anos. Está prometido, consta do meu testamento – verbal, que não tenho escrito –e oportunamente fará a última viagem, “triunfal”, para Angola.
Por enquanto fica um tempo aqui em casa, entre um quadro brasileiro e outro angolano, para eu olhando para ele gozar, enquanto deixo os sonhos me levarem para o tempo em que cruzávamos aquelas lindas águas da Baía de Luanda e do Mussulo, os filhos pequenos a adorarem os passeios, muitos amigos também, enfim parte da vida que o “ARGUS” guarda, não só para mim como para os primeiros donos.
E continua a envergar, no topo do mastro principal a flâmula do C.N.L. !

10-dez-14