terça-feira, 3 de agosto de 2021

 

O  SOLITÁRIO

 

Depois que me mandaram para casa, aposentado, velho imprestável, tenho saído pouco de casa, pelo menos para andar pelo bairro, e agora, bem menos. Uma das coisas que gosto de fazer é tentar uma conversinha com alguém, desconhecido, normalmente com vendedores ou vendedoras de lojas várias, e muitas vezes com gente, simples, que encontro no supermercado. Aconselho um vinho, peço orientação sobre o melhor peixe, e sempre recebo em paga um belo sorriso. Também não esqueço o que aprendi no primeiro terço do século passado: dar sempre prioridade a senhoras, ricas ou pobres, velhas ou mais novas, brancas e escuras.

À entrada ou saída, por exemplo do banco, portas rotatórias, sempre digo às senhoras: “primeiro as senhoras; foi assim que eu aprendi”! Se é gente humilde, a maioria do bairro, faz um sorriso que parece terem com isso, tão simples, ganho o dia!

Uma manhã fria, como tem feito aqui no Rio, desde há quase dois meses, sol bonito, em uma das minhas raras saídas de casa, sem que a pandemia tenha muito a ver com isso, mas mais a ver comigo que pouco tenho que ir xeretar lá fora, encontrei, mais de uma vez, um homem idoso, sentado na borda dum baixo muro, olhar longínquo e triste, sem nada mais fazer do que ali estar.

Gente, e muita passava por ele, alguns olhavam, outros nem o viam, mas se preocupava. Era normal ver gente apanhando um pouco de sol, nestes dias em que o frio nos fez parecer que estávamos no norte da Europa.

Roupa decente, via-se que não era um mendigo, não falava com ninguém, nada tinha nas mãos nem um jornal ou um folheto, e imaginei que ali estivesse à espera de alguém que tivesse entrado numa das muitas lojas daquela lugar, e segui em frente, mas com um peso dentro de mim que não sabia explicar.

No dia seguinte tive que passar no mesmo lugar e lá estava o homem. Mesma posição, mesmo olhar para lugar nenhum. Estava ali, simplesmente.

Fui buscar o resultado de umas análises a um laboratório e quando voltei continuava o homem, imóvel. Quase uma estátua.

Parei ao seu lado, nem me olhou.

Perguntei se estava bem, se precisava de alguma coisa. Agradeceu, disse que não precisava de nada.

Sentei a seu lado e comecei a “puxar” conversa, inclusivamente convidando-o para, mesmo ali em frente irmos tomar um café ou um suco de frutas. Podíamos nos sentar numas cadeiras. Gosto de conversar com esta gente, e por vezes aprendo muito,

Agradeceu novamente e disse que estava bem, para onde vinha habitualmente, quando o tempo permitia, e que o sol que fazia lhe estava a saber muito bem.

Fiz-lhe algumas perguntas como, se se estava a sentir bem, se precisava de ajuda, doente, idade, família, etc., a que ele foi respondendo com cortesia, parecendo que ia ficando mesmo mais animado, porque no seu olhar aparecia já algum brilho.

Conversa vai e vem, disse-me que tinha nascido no Rio, o pai era português da região das Beiras, estava com 89 anos, casara, teve vários filhos, todos espalhados pelo Brasil, e que hoje só um, desquitado, é que vivia com, ele, mas continuava a trabalhar. E ele, ficava o dia todo sozinho em casa. Quando o tempo e as pernas lho permitiam, saía para dar um giro, gostava daquele canto, gozando o sol que lhe sabia muito bem, coisa que raramente tem acontecido nesta cidade, que normalmente, mesmo no inverno, é quente.

Quando o vi mais animado tornei a convidá-lo para tomar um café. Aceitou.

Sentámo-nos numa mesinha, ali na calçada e o bom idoso (da minha idade) começou a desenferrujar a língua.

Contou-me onde morava, numa rua ali perto, onde tinha estudado, por onde andou na vida profissional, aposentou-se com 60 anos mas trabalhou mais quase 15, e hoje, com as forças a faltarem, nada fazia. O maior trabalho que tinha era encarregar-se de preparar alguma comida para, à noite, ele e o filho jantarem. Coisas leves.

O que recebia de aposentadoria dava-lhe para viver, evidentemente sem luxos, mas o grande problema era o isolamento, pior ainda quando o abrigavam a andar de máscara e, pior, o tempo que teve ficar em casa – quase um ano – que lhe davam a sensação que o tinham ali deixado para que morresse!

Eu também lhe fui dando alguns dados da minha vida, tão longa quanto a dele, o quanto tinha sido, e ainda deste maldito confinamento, que tinha dificuldade em me entreter, em ver o tempo passar sem poder contatar com frequência filhos e netos, mas que estava esperançado que este Covid, que veio para ficar, dentro em breve a vida das pessoas voltaria a ter a mesma liberdade de sempre.

Em política não se falou, um pouco de futebol, porque ele não deixou de se manifestar que sempre fora torcedor “Vascaíno”, onde o seu pai chegou a jogar! Eu que pouco sei de futebol, e não torço por clube nem país algum, só pelos que ganham, por aí a conversa não avançou.

Um pouco mais de uma hora se passara, e eu tinha que regressar a casa. Perguntei-lhe o nome, Viriato Pereira. Ainda comentei que beirão de verdade tinha mesmo que recordar o grande Viriato!

Antes de me despedir perguntei-lhe se aceitaria ir num próximo dia almoçar em minha casa. Sem cerimónia alguma, que é coisa que na nossa casa não se usa!

- Podemos beber uns copitos de vinho, lá da “terrinha”. O senhor gosta, não?

- Gostar, gosto, mas não posso beber muito.

- Nem é preciso. E que tal um bacalhauzinho “à Gomes de Sá” que é tão fácil de comer?

- O senhor está a estragar-me com mimos!

- Não. Eu gosto de companhia, e um almoço com amigos sabe sempre melhor.

Hesitou em responder, com cara de espanto. Sosseguei-o, dizendo-lhe que o ia buscar no meu carro, nos daria muito gosto, poderíamos continuar o nosso papo, beber um copito de vinho – português – e o bom Viriato, depois dizer várias vezes que não queria dar trabalho, nem incomodar, acabou por aceitar.

Marcámos para dois dias depois. Deu-me o seu endereço que anotei numa folha de papel.

Despedi-me dele e dei-lhe um abraço, que pareceu que ele tinha gostado, e ainda lhe disse:

- Seu Viriato, foi um prazer conhecer o senhor e conversar consigo. Depois de amanhã, pelo meio dia, passo em sua casa.

Não sei se voltou para o seu “assento” apanhar mais um pouco do gostoso sol.

Ao chegar a casa contei o encontro à minha mulher e pedi-lhe que preparasse um almocinho simples, leve, porque o bom Amigo me pareceu um tanto debilitado.

No dia aprazado lá vou à procura da rua, rua de uma só “mão”, que me fez dar uma volta bem maior do que se tivesse ido a pé, e ao chegar, vejo que havia gente entrando e saindo da casa.

Estranho!

Parei o carro e aproximei-me. Logo na entrada pergunto se era ali que morava o senhor Viriato. Era, sim.

- Era?

- Era, sim. O meu pai. Faleceu esta noite. Estava muito animado porque um senhor que conhecera ali na rua o tinha convidado para ir almoçar em sua casa. Foi-se deitar desejoso de ver chegar a manhã para ir a esse encontro. Mas durante a noite faleceu, tranquilo. O senhor conhecia-o?

- Um pouco, sim. Vinha até saber se ele estava bem.

Não tive coragem para dizer mais nada. Duas lágrimas passaram pela minha cara.

Voltei triste para casa. Sozinho, mas quase a pensar que teria proporcionado um fim menos doloroso à solidão daquele homem, o que me deixava envergonhado. Parecia que me queria enaltecer.

Nada disso. Foi um amigo simples, simpático, que conheci, conhecimento que poucas horas durou.

Fiquei bastante abalado.

Descanse em Paz, amigo Viriato.

 

19/07/2021


3 comentários:

  1. Mas que pena o desenlace, ficámos sem saber o que teria sido interessante saber do percurso da vida do seu Viriato. Abraço.

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  2. Tio Chico obrigada pela partilha, comovi-me.....um abraço e este senhor que sorte teve com a sua solidariedade. Bjs grandes

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