terça-feira, 1 de junho de 2021

 

O “Arne”

DE  VOLTA  A  1942

 

Certamente que terá sido uma emoção forte, aos dez anos de idade, entrar pela primeira vez no curso dos liceus!
Aquele edifício enorme, um monte de rapazes assistindo à chegada dos futuros letrados, muitos rindo com a cara acanhada de alguns pequenitos, e tentando dar-lhes ânimo.
Já contei, que no primeiro dia, apanhei uns “caldos”, devolvi umas chapadas, ganhei novos amigos, alguns mais velhos, com amizades que duraram largas dezenas de anos, e logo me enturmei também com a criançada da minha turma.
Tudo “matulões” do meu tamanho, a maioria com muito mais vontade de brincar do que ouvir a maioria dos professores, onde raros tinham a capacidade de aguçar o nosso desejo de aprender.
No próximo ano, se lá chegar, vou comemorar, possivelmente sozinho, 80 anos desse “intelectual” evento e, beber uns copos lembrando, do que ainda for capaz, de alguns coleguinhas.
Há cinco anos fui a Portugal e, é raro, não ir beber um ótimo cafézinho na Casa Chinesa, ali, na Rua do Ouro, a uns escassos 50 metros do Rossio. Sempre gostei de lá ir e até comprar a mistura que eles recomendavam, para beber em casa. Sempre muito bom.
Depois do almoço seriam aí três horas da tarde.
Aproximei-me do balcão, quase ao mesmo tempo que um velhote, como eu, e ouvi-o pedir, num muito rápido vocábulo, um ‘afé!” A seu lado, não pude deixar de sorrir, o que deixou o senhor com um olhar pouco amigável para mim, como se eu estivesse troçando da falta do “c”!
Logo lhe pedi que me perdoasse, mas que o meu sorriso não indicava qualquer “comentário” à maneira como pediu o café, nem eu tinha já idade para esse tipo de brincadeira, mas que me fez recordar naquele instante um coleguinha do liceu com quem muito brinquei, sobretudo no primeiro ano. O meu sorriso era de saudade e não de gozação.
O senhor mudou o visual, e perguntou-me em qual liceu eu tinha andado.
- Pedro Nunes, para onde entrei em 1942.
- E ‘em era esse seu coleguinha?
- Como imaginará não lembro do nome, mas sabia que o pai dele tinha lá para as bandas da Estrela um talho, e assim nós, lhe pusemos o nome de “Arne” porque ele também não pronunciava os “C”!!
Nos olhos do senhor vi aflorarem dois brilhos, sinal de duas lágrimas que pareciam querer sair. O café ficou arrefecendo em cima do balcão.
- E ‘omo era o seu nome? Perguntou.
- Penso que me chamariam por Amorim, ou como hoje, os amigos por Chico.
Pegou na sua xícara, disse-me para pegar na minha e que nos fossemos sentar numa das mesas ali disponíveis.
O senhor parecia transtornado e eu fiquei preocupado.
- Eu não me lembro do seu nome, também. Mas era mesmo assim ‘e me chamavam no liceu, para onde entrei nesse mesmo ano.­
- Meu Deus! Será possível? Eu jamais esqueci do meu amigo “Arne” com quem tanto brinquei! Toda a vida falei nele! E vir encontrá-lo aqui é uma benção. Como é afinal o seu nome?
- João Fernandes.
Dois velhinhos, certamente ambos da mesma idade, nos 85, a recordarem o que se tinha passado há quase 75 anos, embargavam-se-lhes as vozes.
Continuei:
- Eu morava na rua Almeida Brandão, nós saíamos juntos do liceu, passávamos pela “rua do Salazar” (Rua da Imprensa à Estrela), tenho ideia que formávamos um grupo de três ou quatro, cotigo, o “Arne”, um outro que era filho de um leiteiro, e nos demorávamos no canto do pequeno jardim daquela rua, a jogar com tampinhas de cerveja, tampas das caixas de fósforos e ainda com berlindes.
Eu chegava a casa sempre mais tarde do que o meu irmão mais velho e era interrogado sobre o que tinha andado a fazer! “Não podia ficar na rua a brincar”!
-  Meu amigo! Doces lembranças me trazes. Também guardo até hoje esses momentos de liberdade infantil. O nosso amiguinho, filho de um leiteiro era o Gabriel! Estivemos juntos até ao 3° ano. Depois também deixei de o ver.
-Nós só fizemos esse percurso juntos até pouco mais do que durante o primeiro trimestre do primeiro ano, e um pouco do segundo, porque depois os meus pais mudaram-se para a rua das Trinas e eu já não passava por aí. Era muito mais fácil atravessar o Jardim da Estrela! E tu, quanto anos estiveste no liceu?
- Só até ao terceiro. Chumbei uma ‘adeira no exame e o meu pai achou melhor ‘e fosse trabalhar ‘om ele! Aí o dinheiro ‘e conseguia ganhar estimulou a minha irmã, mais velha do ‘e eu dois anos, a ‘ontinuar a estudar, e a’abou se formando professora.
- Olha, eu só estive no liceu no 1° e 2° anos. Em novembro de 43 o meu pai faleceu, no desastre com o Duarte Pacheco, e fui fazer o 3° ano em Santo Tirso, num colégio interno. Como detestei aquele colégio, voltei no 4° para o Pedro Nunes, e então, pelos vistos tu já lá não estavas. Fiz um monte de burradas nesse ano e depois fui para Évora onde tirei o Curso de Regente Agrícola. E em 1954 casei e fui para Angola! Conta-me um pouco da tua vida.
- ‘omo te disse, não tinha ainda 14 anos, estava a fi’ar forte, o meu pai achou melhor ajudá-lo no talho, ‘e ficava num prédio velho na Travessa das Inglesinhas. Já nem existe. O movimento do talho foi aumentando bem, eu fazia entregas em ‘asas das freguesas e isso deu um aumento grande às vendas. A minha irmã assim que se formou arranjou logo trabalho numa es’ola e não tardou em ‘asar. Depois fui fazer o serviço militar e no regresso achei o meu pai bastante abatido. A minha mãe tinha falecido e ele fi’ou desamparado e, pior, desinteressado de tudo.
Tive que assumir totalmente o trabalho e nem podia pensar em ‘asar! O meu pai ficou muito doente, deixou-se ir abaixo e em pouco tempo apagou também. ‘omprei a parte da minha irmã no talho. Trabalhei muito.
Ao lado havia uma pe’ena mercearia e na es’ina abaixo uma outra loja de roupas, mas não faziam negócio nenhum. Pedi um financiamento, ‘omprei as duas lojas e transformei tudo num Mini- Mer’ado.
Foi o melhor o que podia ter feito. Acabei por ‘asar já com 35 anos, tive dois filhos homens, o negócio prosperou muito bem e juntei um bom pecúlio.
Quando ‘omeçou a febre de renovação de Lisboa fizeram-me uma boa proposta para ‘ompra dos imóveis que aproveitei e vendi.
Os meus filhos foram um para França e outro para a Améri’a, onde estão muito bem, eu aposentei-me, passeei ‘om a minha mulher, ‘e faleceu também há dois anos, e agora, vago por a’i sozinho. De vez em ‘uando vou visitar um, depois o outro e... a’ui tens a minha vida. E tu?
- Como te disse, casei em 1954 e fui para Angola. Tivemos 8 filhos. Estive vinte e um anos entre Angola e Moçambique, e depois do 25 de Abril tive que ir para o Brasil, onde vivo agora, com filhos e netos espalhados pelo mundo que, quando posso, e não é sempre, vou visitar também.
Meu querido amigo João “Arne”. Nem imaginas o gosto que tive em te encontrar e relembrar as nossas inocentes e divertidas brincadeiras de crianças! Que saudade, meu Deus.
Daqui a três dias regresso ao Brasil, mas gostaria muito que nos encontrássemos de novo. Falar, falar, e até irmos jogar com as tampinhas das caixas de fósforos!
Vamos combinar o seguinte: se estiveres de acordo, almoçamos amanhã no melhor restaurante de bacalhau do mundo! O Laurentina que é de um amigo que conheci em Moçambique. O que achas?
- Muito boa ideia.
- Sabes onde fica?
- Sei, sim, já lá fui.
- Então como se está a fazer tarde, são quase seis horas, vamos deixar o nosso papo para continuar amanhã. Achas bem à uma hora no restaurante?
- Ótimo.
- Então lá te espero. Não Falhes.
Levantaram-se daquela mesinha na Casa Chineza, e o longo abraço que deram, com os olhos a denunciarem a emoção, trouxe-lhes de volta aqueles dias alegres, inocentes, e toda uma longa vida já passada.
Custou-lhes separarem-se, mas cada um seguia para um lado diferente.
No dia seguinte cheguei mais cedo ao restaurante, falei com o meu amigo Pereira e pedi-lhe uma mesa para dois, num discreto canto, e fui sentar-me na entrada à espera do saudoso “Arne”!
Uma hora, uma e meia, duas horas! Nada. Como lamentei ter esquecido na véspera de lhe pedir o número do telefone. O encontro trouxe emoções tão fortes que nenhum se lembrou do telefone.
Fui andando para a mesa, triste. Não sabia como comunicar com ele.
Ainda esperei mais um tanto. O almoço teve um gosto amargo.
E não voltei a ver o meu amigo. Esqueceu-se? Não pôde ir?
Se voltar a Lisboa não deixarei de ir tomar outro café na Casa Chineza.
Pode ser que outro milagre aconteça.

 

01/06/21

2 comentários:

  1. QUE SE REPITA O "MILAGRE". ABRAÇO. SAÚDE.

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  2. Que história comovente,quem dera que se voltem a encontrar tio. Não deixe de lá ir a ver se o encontra..bjs

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