terça-feira, 21 de setembro de 2021

 

O Ocaso da Europa Política

 

Acabou o reinado da grande Chanceler da Alemanha. Em boa hora para ela. Foi a única pessoa em toda a União Europeia que sempre pisou firme, não roubou e falou verdades.

Esqueceu-se, nos entretantos, ou procurou ignorar, que o envelhecimento dos parques industriais, o encarecimento da mão de obra (autóctone) e a desmesurada importação de mão de obra barata e inimiga da cultura ocidental, não tardariam a derrubar o “império germânico” dos pseudo arianos superiores.

A economia da Alemanha afunda. E não tarda. Os Mercedes, se continuarem a ser fabricados, sairão dá fábrica com um crescente no capô em vez da clássica estrela de três pontas.

Quando, no século IV d.C. os godos se expandiram e chegaram à Hispânia carregavam ainda consigo os druidas que faziam manigâncias nas florestas. Ficaram boquiabertos ao verem a civilização romana que se retirava.

Será que vão também esquecer Beethoven, Bach e outros grandes daquela terra?

Da França fica até difícil falar. Um povo que dominou a filosofia e cultura ocidentais desde o século XVI até princípios do XX, que teve a língua que unia os povos (a primeira língua internacional), com tanta gente espalhada em todo o mundo ávida da literatura e filosofia de Victor Hugo, Dumas, Voltaire, Balzac, Baudelaire, Zola, estudava e deliciava-se com Corneille, Molière, Racine, Rostand e tantos outros, admirava o país, a história dos francos, Versailles e a Torre Eiffel, os vinhos de Bordeaux, Bourgogne e muitos outros e esqueceu-se de constatar e/ou aceitar que a França, há mais de um século é um país de perdedores.

Antes disso Filipe IV, o Lindão, assassinou os Templários para os roubar, Luis XIV, o Rei-Sol, deixou o país arruinado para construir Versailles (lembra até o lula... não, só o lulinha), e os últimos presidentes...

Derrotada na Guerra Franco-Germânica, glorificando-se com Napoleão para logo a seguir o ver derrotado na Rússia e em Waterloo, esmagada nas I e II Guerras Mundiais ganhas pela Inglaterra e EUA, sentindo-se De Gaulle, que fugira dos alemães, o capataz da vitória, entregue hoje a um vaidoso e presunçoso veadinho casado com a avó, que assiste, sem nada fazer, ao país ser dominado pelo Islão e pela Sharia. (Chora agora de raiva ao ver que não vendeu os submarinos à Austrália e promete retaliar aos EUA !!!)

A França será talvez a primeira a cair, sobretudo se as ex colónias de África deixarem de mandar anualmente bilhões de Euros. O franco CFA está ligado ao euro - o que impossibilita uma política monetária independente. Além disso, esses países africanos pagam até 65% das suas reservas de divisas ao tesouro francês. Parece incrível, mas os governos africanos não sabem quanto dinheiro no tesouro pertence a cada país, individualmente. Mitterrand (1916-1996), presidente da França disse que se essa dinheirama deixasse de vir de África, a França abria falência. A estátua, na Dinamarca ( uma das 9 Muser) mostra com grande evidência a África – um homem ou criança, magra, frágil – a carregar nas costas a França – velha senhora, gorda, gordíssima, sarcástica, com uma balança na mão.

Os franceses que, eventualmente sobrarem irão ao teatro ver “Cyrano de Bergerac” falado em árabe!

Faltam-lhes Obelix e Vercingetórix!

A Bélgica, que finge ignorar um dos grandes assassinos que a governou, Leopoldo, o matador do Congo, vai dilacerar-se entre flamengos e valons, com os muçulmanos a aplaudirem da bancada, e a Holanda, se o mar não engolir a maior parte, o Islão engole.

A Espanha, depois que se empenhou ao Chavez e Maduro, mesmo sendo grande produtora de alimentos, suicida-se com um governo super esquerdista e super corrupto. Destrói tudo quanto pode, desde a monarquia, às igrejas, à cultura, mobiliza tribunais e políticos para imporem o aborto, o sequestro dos filhos para os educarem à moda soviética, promove a cizânia entre as várias províncias, e só aguarda que um outro Tarik venha dar arrumo na casa, instaladão no magnificente palácio de Alhambra que os seus cultos filósofos e destemidos ancêtres construíram.

Aí vai deliciar-se com o flamenco e com uns copos de Rioja, que os muçulmanos só bebem às escondidas.

Portugal... Ah! Portugal! De gente pobre e valente, que “fundou” a globalização, que tratou como irmãos reis africanos e rajás indianos e deixou, com o suor dos seus filhos e dos africanos, um dos mais belos países de mundo, hoje perseguido por não alinhar com os corruptos! Onde fica mesmo essa coisinha, agora a desmontar-se com a arrogância, ganância e “desgovernância” do PS?

Será sugado pelos novos ventos que não tardam a assolar a Europa.

Como eram precisos uns Afonsos de Albuquerque, uns Mouzinhos, e até o terrível e corrupto Marquês de Pombal.

A Itália, depois que o Império Romano caiu, nunca mais se levantou. Teve uma Renascença magnífica, destruída pelas lutas em que os papas entraram como cavaleiros do Apocalipse, e hoje... vai-lhe sobrar o Etna e o Vesúvio! O resto engolido por Cartago e quejandos.

Era bom que não esquecessem Da Vinci, Verdi, Rossini e até a Sofia Loren.

Mais para norte os tão “civilizados” povos escandinavos também esqueceram de preservar a sua cultura e costume, atiram à cara de mulheres atacadas e/ou estupradas por muçulmanos estrangeiros multas em dinheiro por recorrerem aos tribunais, toda esta covardia baseada na deturpada ideia dos “direitos humanos”

O famoso Reino Unido, cada vez mais desunido, gosta de continuar a brincar aos príncipes e princesas, que é um magnífico item de exportação (até já anunciaram que o testamento do príncipe Philip só vai ser aberto daqui a 90 anos para não incomodarem a majestática senhora da colorida panela de pressão na cabeça) e de ver o país encher-se de estrangeiros, para, muito em breve os nativos estarão em minoria.

Um William Wallace, a Margareth Thatcher e até Shakespeare seriam, hoje, muito bem vindos.

O Bloco do Leste Europeu, vai ter que se agarrar à Rússia, que tanto precisará dele, face ao crescimento das influências das outras grandes potências.

Depois de tudo isto ainda alguém irá assistir aos grandões que ficarem: China, Rússia e comparsas, Índía e verem o Islão ir para o lixo.

O Brasil deverá ficar quietinho, como seu samba e caipirinha a alimentar os esfaimados orientais, desde há muito sonhando com estabilidade política e económica, acendo velinhas à Senhora de Aparecida, pedindo que chegue o futuro lindo previsto, não por Zaratustra mas por Stefan Zweig.

Quem sobreviveu a tamanha desgovernança, desde que a parceria Cabral e Caminha aqui chegou, sobrevivendo com uma inflação acumulada de 1965 até 1994 de aproximadamente 1.142.332.741.811.850%. (vejam se sabem dizer quatrilhões???) e a seguir, com a moeda “estabilizada” em 1994 a apanhar com uma leve desvalorização (só um ligeiro aumento de 569,5% em 27 anos), ficará como os crocodilos que vivem há 400 milhões de anos e... seguem de barriga cheia, sem inflação!

Não sou o Zaratustra que nem consta na minha árvore ginecológica. Mas não sou cego.

Quem viver, sobretudo netos, verá.

 21/09/2021 – Entra aqui a Primavera, e o Outono, na Europa, derruba as folhas, mas ninguém derruba esse desgoverno de ladrões.

 

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

 

Às voltas com Voltaire


 Apesar de ter sido o mais influente filósofo francês do século XVIII, haverá muita gente que já tenha ouvido o nome de Voltaire, mas muitos não sabem se é algum jogador de futebol e outros ainda que se dedicam a estudar a sua obra, a sua filosofia, a sua herança; mas a imensa maioria não tem a mínima ideia de quem se trata.

Hoje vou só escrever umas anedoctes e remarques da vida do grande mestre que mostram as caturrices que normalmente ajudam a definir a personalidade desse tipo de pessoas, e o seu espírito crítico. Como todos os génios, tinha também as suas fraquezas e não se acanhava em as mostrar.

Voltaire viveu desde 1760 no seu chateau em Ferney, quase junto à fronteira com a Suíça, onde, nas obras que mandou fazer quando comprou a propriedade, incluiu um teatro privado. Ali recebia os seus admiradores e, um dos seus grandes prazeres era ele mesmo representar, peças dele ou de outros e disso se ocupava com imenso ardor e minúcia.

Sempre queria que a roupa a usar na representação estivesse pronta no mínimo com oito dias de antecedência, e dava um trabalho insano aos costureiros para que atendessem aos mais ínfimos detalhes.

Um dia decidiu representar Cícero nas Catilinárias, quando este em 63 a.C. no Senado de Roma pronunciou um celebre discurso contra a conspiração pretendida pelo senador Catilina,[que logo de início começa:

“Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência? Não vês que tua conspiração foi dominada pelos que a conhecem?”

 

Cícero “arrasando” Catilina no Senado Romano (pintura do sec. XIX)

Desde a manhã da representação, Voltaire já se vestira como um senador romano e foi andar pelo jardim recitando o seu papel, que interrompia para pôr algumas questões ao seu jardineiro. Este, espantado pela indumentária do mestre não conteve uma gargalhada.

Voltaire não achou a menor graça: “O que você acha de extraordinário na minha veste? Cícero andava assim vestido como eu pela sua horta antes de ir para o senado, e eu vou-o representar esta noite. Você acha que eu devia fazer duas toilettes?

Voltou para dentro de casa de mau humor e durante muito tempo não conseguia perdoar ao jardineiro ter dado uma gargalhada no “nariz” de Cícero.

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Voltaire gostava muito dum filhote de águia que tinha preso com uma corrente no pátio do seu castelo. Um dia a aguiazinha lutou contra dois galos e ficou gravemente ferida.

Desolado, mandou um emissário expressamente a Genève com ordem de trazer um homem reconhecido como hábil médico de animais.

Impaciente, ficou correndo do ninho da águia para a janela do seu quarto de onde descortinava a grande estrada que deveria trazer o médico. Enfim lá vê o seu mensageiro trazendo atrás o Esculápio tão desejado. Dá um grito de alegria, corre para o receber, acolhe-o da maneira mais distinta, pródigo em pedidos e promessas para o interessar em favor do seu doente.

O camponês maravilhado por tal recepção, a que não estava acostumado, examina as feridas do bichinho.

Voltaire inquieto, procurava ler nos olhos do médico os seus temores ou as suas esperanças. O médico declara então, com ar de competência, que não podia se pronunciar senão após que o doente se levantasse, promete voltar no dia seguinte e retirou-se depois de ser generosamente pago.

Até ao dia seguinte Voltaire andou nervosíssimo; a questão era que o doente não apresentava qualquer melhora.

A primeira questão que Voltaire, todas as manhãs, punha a uma servente, chamada Madeleine, encarregada de o servir logo desde o seu despertar, era:

- “Como está a minha pequena águia?

– Bem docemente meu Senhor, bem docemente.”

Um dia responde-lhe, a rir:

- “Ah! Meu Senhor, o vosso filhote de águia já não está doente.

– Ele curou-se! Que felicidade!

– Não, ele morreu.

 – Morto o meu filhote de águia! E você me anuncia esta notícia a rir-se?

– Pela minha fé meu Senhor, ele estava tão magro! Mais valeu que tivesse morrido.

– “Como magro?” Grita Voltaire, furioso. “Bela razão! Você tem que me matar também porque eu sou magro. Olha a debochada! Rir da morte do meu pobre pássaro porque ele estava magro! Como você tem o cu gordo pensa que não há gente da sua espécie que tenha direito à vida? Sai, sai daqui!”

Madame Denis, sua sobrinha, acorreu aos gritos do tio e perguntou pela razão da sua cólera. Voltaire contou-lhe, sempre murmurando “Magro! Magro! ... É preciso também que me matem...” E exige que Madeleine seja despedida.

A sobrinha, complacente, finge obedecer, e manda a pobre garota que se esconda dentro do palácio.

Passados dois meses Voltaire perguntou como ela estava.

- “Está muito infeliz – diz-lhe Madame Denis – não conseguiu arranjar trabalho em Genève desde que se soube que ela tinha sido despedida do palácio de Ferney.”

 – “ É culpa dela. Porquê rir-se da morte da minha pequena águia? No entanto não é preciso que ela morra de fome; mande-a voltar; mas que ela jamais se apresente na minha frente, entendeu?

– Oh! Meu tio, ela terá esse cuidado.

Madeleine sai do esconderijo, evitando com todo o cuidado não se encontrar com o Mestre. Mas um dia, Voltaire ao sair da mesa encontra-se cara a cara com ela. Madeleine, proibida de um tal encontro, cora muito, baixa os olhos e pretende balbuciar alguma desculpa.

“Não falemos mais nisso - diz-lhe Voltaire – mas pelo menos lembre-se que não é preciso matar tudo que seja magro.”

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Em 1778 Voltaire foi a Paris e hospedou-se em casa do Marquis de Villette. Todo o Paris queria ver esse grande homem que tanto ilustrara o seu século como o seu país. Um dia várias damas da corte foram a casa do Marquês para terem o prazer de o verem. Voltaire estava num acesso de mau humor e recusou-se a aparecer no salão, mas forçado a ceder às instâncias de madame de Villette que lhe implorava como um favor que ele se mostrasse mesmo num pequeno instante. Ele então desceu, abriu a porta do salão deu duas ou três voltas, e disse:

- “Aqui tendes, mesdames, eis o urso, contentai o vosso desejo, aqui está. Olhem bem!”

E bruscamente voltou para o seu quarto!

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Num outro dia, apesar dos pedidos do Marquês, decidiu ir a pé até à Academia. Ao passar em frente ao Louvre uma mulher reconheceu-o e lança-se aos seus pés gritando: “Meus amigos, é o vingador dos infortunados Calas *, prostremo-nos na sua frente.” Esta cena atraiu uma multidão desejosa de o admirar e abençoar. A emoção que Voltaire sentiu forçou-o a voltar para trás. Confessou que nunca tinha sentido uma emoção tão desagradável e tão deliciosa!

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Comentários e pensamentos:

- O cardeal Lecamus * (1632-1707) dizia um dia a um cornudo: “Monsieur, vale mais ser Cornelius Tacitus do que Publius Cornelius, e à duquesa de Lesdiquières – que vendia o seu leito – quando os trabalhadores vendem as suas ferramentas, é porque o negócio não vai bem.”

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- “Turco, tu acreditas em Deus através de Maomé, indiano por Fohi *, japonês por Xaca *, etc. Oh! Miseráveis! Por que não acreditais em Deus por ti mesmo?”

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- Não é a superioridade do génio que faz um grande ministro; é o caráter e o temperamento; é um corpo infatigável, e coragem de espírito. A maioria dos homens vê bem o que deve ser feito, mas é a intrepidez da alma que determina a fazer o que é mais raro e difícil. Mentira, enganação, vingança, falsos discursos, o desprezo por tudo que diz respeito aos homens, eis o caráter. Clareza, ciência, invenções, transparência, eloquência, eis o espírito. A alma tem um toque sobre a qual trabalham cinco martelos, cada um trabalhando em seu diferente lugar. Não há nenhum ponto matemático para que a alma seja estendida, e por isso é material. Devo espoliar um ser de todas as suas propriedades que incomodam os meus sentidos, por que a essência desse ser me é desconhecida? Pode ser que nos tornemos qualquer coisa depois da nossa morte. Uma lagarta também duvida que venha a tornar-se uma borboleta?

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- Tullius Hostillius *, era um camponês. Tarquínio o velho *, comerciante, Servius Tullius *, escravo. Dos sete reis antigos de Roma, eis aqui três plebeus. A nobreza é uma quimera insultuosa para o género humano; ela supõe que há homens formados por um sangue melhor do que outros.

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- Augusto II, rei da Polónia era um homem forte, e quando foi a Viena visitar o rei Leopoldo, apareceu-lhe o seu confessor. Augusto atirou-o pela janela.

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- Uma madame dizia: reverendo padre, para ter filhos, a que santo aconselha dirigir-me? – Madame, eu nunca peço a outros o que posso fazer por mim mesmo!

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Os homens não nascem maus, todas as crianças são inocentes, os jovens confiantes e pródigos nas suas amizades, os casados amam os seus filhos, a piedade está em todos os corações, somente os tiranos corromperam o mundo. Depois inventaram os padres para se oporem aos tiranos; os padres foram piores. O que resta aos homens? A filosofia.

Notas:

Tudo isto foi recolhido num pequeno livro “PENSÉES, REMARQUES ET OBSERVATIONS DE VOLTAIRE”, impresso em Paris, An X – 1802. “Obra inédita, após a morte de Voltaire, esta recolha de aspetos da sua vida ficou em mãos de M. de Villevieille, e ninguém queria publicar para não comprometer a glória deste grande homem, que seria como apresentar Voltaire em negligé! Mas isso seria um crime de lesa-literatura privar o público nem que fosse de uma única linha de quem foi justamente célebre.” E assim se publicou 24 anos após a sua morte.

Este pequeno livro de 200 páginas era de um dos meus bisavôs. Estava muito estragado e hoje, depois de um caseiro restauro, está para durar mais uns séculos. Inteirão!

 

* Quem se interessar em saber quem foram os cidadãos ou divindades citadas... procure na Internet. Tem muita coisa.

 

12/09/21

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

 

E foi assim


Terminada, em Lisboa, a Faculdade de Economia, e o desejo de sair do velho mundo, levaram Filipe para Angola, contratado para um cargo oficial no governo, onde a sua iniciativa e capacidade logo o tornaram conhecido e respeitado.

Em poucos anos um dos bancos locais decidiu dar-lhe uma nova oportunidade mais folgada em termos financeiros.

Com 33 anos fazia parte do grupo de diretores, quando novo desafio o levou, junto com o diretor-geral, a ir para a outra sede do mesmo banco, em Moçambique, Lourenço Marques, aqui se instalando com a família – mulher e três filhos entre os 7 e os 2 anos – quando estava a correr o ano de 1971. 

Leonor, jovem, simpática,18 anos, bonita e uma bela figura, a quem o pai faltara havia tempo, a mãe a entregara logo após ter nascido a uma velha tia, frequentava o curso Superior de Letras, também em Lisboa, quando se enamorou de um finalista do mesmo curso. O namoro foi longe demais e Leonor engravidou. Curso terminado o jovem é convocado para cumprir o serviço militar, e não tardou a ser escalado para Moçambique, em plena Guerra Colonial.

Decidem então casar e Leonor, assim que a criança nasce, vai com ela também para Moçambique na esperança de se encontrar com o marido, o que se tornou quase impossível, visto este estar em plena frente de combate no Norte da Província, e só uma ou duas vezes conseguiu licença para se deslocar à capital para estar com a mulher e filha.

Um dia recebe a última visita do marido que lhe diz que o que tinham feito era um enorme erro, ele não tinha condições nem estava preparado para sustentar uma família e decidem divorciar-se!

Leonor, sozinha numa terra onde ninguém conhecia, procura maneira de sobreviver e, com o nível de estudos que já alcançara, é admitida num banco como secretária da diretoria, com a finalidade de receber e distribuir o correio e datilografar todas as cartas dos diretores. Eficiente, educada, simpática, conquistou a aprovação de todos os chefes e colegas.

A filha, pequenina, aos cuidados de uma creche, crescia de ótima saúde, o que trazia Leonor sempre despreocupada.

*********

Chega a revolução do 25 de Abril, e as antigas colónias-províncias portuguesas se desestabilizam. A economia começa a definhar em grande rapidez, empresas a fecharem, o abandono quase total das áreas rurais e, voos ou navios lotados com destino a Portugal, com gente que queria fugir do que se adivinhava, começando por aqueles que tinham ficado sem trabalho.

Os bancos congelados nas suas normais operações financeiras, limitavam a atividade a pouco mais do que gerir os depósitos dos clientes que os sacavam para transferir o dinheiro para algo que tivesse valor. Vários membros da direção deixaram também seus cargos a caminho de algum outro futuro, o mesmo acontecendo com a maioria dos funcionários, exceção para aqueles que, nascidos naquela terra, apostavam em continuar.

Não tardou a que no banco ficassem só dois diretores e uma única secretária, a Leonor, apavorada porque não só não tinha mais família, como nem dinheiro para ir embora.

Filipe, prudente, mandara também a família para Portugal, além de estar em boas condições financeiras ainda tinha lá na terrinha os pais que logo receberam a nora e os netos com o maior carinho. 

Filipe nunca lhe havia tocado com um dedo nem demonstrado intimidade com a secretária que não fosse estritamente profissional, respeitava-a e não deixava de a admirar ainda mais pela sua postura, simpatia e até beleza.

Um dia ela entra no seu gabinete, via-se que tinha estado a chorar, e confessou o seu desespero, por não ter para onde ir nem dinheiro para isso, com uma filhinha de pouco mais de três anos.

Filipe não conhecia o seu histórico familiar, porque sobre isso ela jamais havia contado a quem quer que fosse. Só se sabia que se divorciara pouco depois de casar e que tinha uma filha.

Filipe ficou uns instantes mudo, com vontade de a abraçar, mesmo que fraternalmente, o que não seria postura apropriada, mas conseguiu dizer-lhe que não se preocupasse com isso. A viagem dela e da filha para Portugal ele a pagaria com o maior gosto e ainda escreveria para alguns amigos que lá lhe pudessem dar uma ajuda, apesar da situação estar toda arruinada, em ambos os lados.

Leonor chorou mais ainda, mas o choro era da emoção de ver grande parte do seu problema resolvido.

No fim do expediente, que era pouco, ou muito pouco, Filipe chamou-a e disse-lhe que a levava a casa. As ruas começavam a estar tumultuadas, a insegurança fazia com que todos, moçambicanos ou portugueses vivessem com medo, sem exatamente saberem que medo era.

No caminho para casa, foram buscar a filhotinha à creche e ao chegarem a casa ela convidou-o para entrar um pouco, tomarem um café e discutirem sobre a oferta que ele lhe fizera.

Era fácil. Chegando a Portugal procuraria dois ou três amigos que certamente de alguma ajuda lhe serviriam.

Filipe queria convidá-la para jantar. Mas e a criança? Ao lado da Leonor morava um casal de moçambicanos, meia idade, muito simpáticos que já por diversas vezes se tinham oferecido para tomar conta da criança, que os encantava como se fosse sua neta. E foi isso que fizeram. Deixaram a pequenita em boas mãos e saíram para jantar, num lugar tranquilo.

Filipe estava já enamorado! Conhecia-a há alguns anos, mas nunca manifestara tal sentimento.

Agarrou na mão de Leonor e disse-lhe o quanto tempo guardava essa oportunidade.

- “Mas o senhor é casado, dr. Filipe!”

- “Para começar deixe de me tratar por dr. E sobre o meu casamento, há muito que estou à espera que acabe. Como sabe, logo a seguir ao 25 de Abril mandei a família para Portugal porque o ambiente já não estava bom, e eu não queria brigar, porque amo muito os meus filhos. A solução foi separar-me um pouco e ver se as coisas se podiam arrumar, o que eu sei que jamais vai acontecer.”

Entretanto pegou na mão de Leonor, que não retirou, e disse-lhe que sentia algo de novo e muito importante na sua vida.

Pouco mais falaram. No fim do jantar foram dar uma volta de carro e aí tudo começou a acontecer. Filipe parou o carro num lugar sossegado, abraçou a Leonor e um longo beijo deu início ao que ambos, pelos vistos, há muito esperavam.

- “Isto está tudo a acabar. Daqui a dois meses é a Independência, e eu tenho que esperar até depois para entregar o banco a quem o novo governo mandar. Depois vou embora, mesmo que me convidem para ficar, direi que tenho que ir a Portugal ver a família. Uns dias antes vou transferir algum dinheiro para uma conta, sua, em Lisboa. Quando lá chegares, levanta o dinheiro todo e troca por qualquer outra moeda porque o Escudo vai desvalorizar-se depressa e muito.”

- “Mas de onde vem esse dinheiro?”

- “Não te preocupes. É assunto que eu resolvo. E fazes mais: para que nos possamos encontrar escreves uma carta para esta morada – dos meus pais – dizendo mais ou menos assim: Caro dr. Filipe. Preciso muito de falar com o senhor. Por favor, logo que possa ligue para o telefone... Cumprimentos Daniel Gomes (ex-tesoureiro do banco...)”

A troca de beijos, dentro do carro, não podia acabar tão rápido. Ao voltar para casa, Leonor, foi buscar a filhinha aos vizinhos, que dormia como os anjos, e disse a Filipe para entrar. Acabaram na mesma cama, amaram-se como se tivessem esperado por isso durante anos.

A partir daí Filipe deixou o apart-hotel onde tinha estado e ficou, SEMPRE, em casa da Leonor. Pouco tempo, porque não tardou a chegar a hora dela se ir embora.

A Portugal, terra de inveja e bisbilhotice não tardou a saber-se do novo romance e sempre há quem goste de se imiscuir na vida dos outros. Foram contar à mulher do Filipe, que após confirmar que havia romance novo, logo pediu o divórcio e abandonou os filhos em casa dos sogros, o que é evidente deixou o terreno livre ao marido!

Ao chegar a Portugal Leonor foi recebida como refugiada, e alojada num hotel. Depois sabendo que tinha já dois anos completos da faculdade providenciaram para que continuasse os estudos com as ajudas de custo do governo.

Filipe na véspera da entrega do banco fez uma magnífica habilidade: transferiu para um banco na Holanda umas centenas de milhares de dólares... Chegou a ocasião, entregou o banco e nesse mesmo dia pegou o avião e saiu de Moçambique.

Várias alegrias o esperavam: o encontro com os filhos e os pais, uma carta do Daniel e o processo de divórcio da mulher. Sentiu-se um homem livre, quase, porque a esquerda que governava o país não gostava de diretores de banco nenhum, nem de quem tinha trabalhado para o governo colonial, e ele não tardou a sentir que os revolucionários o queriam pegar.

Tinha dinheiro de sobra, os pais estavam financeiramente bem, e refugiou-se de imediato no Brasil.

Antes porém, foi à procura do Daniel. Tinha saído daquele hotel e ninguém sabia para onde fora. Falou com os amigos a quem recomendara Leonor e nem um sabia dela. Ficou à espera que outra carta chegasse em casa dos pais, e foi para São Paulo, triste, só, e sem saber do seu novo amor.

Não lhe foi difícil arranjar trabalho. O seu CV bancário era muito bom e logo estava numa posição elevada.

Visitava os filhos duas a três vezes por ano, mas não se dispunha a levá-los para o Brasil onde uma mãe ou uma avó fariam a maior falta.

Notícias da Leonor... tinha perdido. Os pais disseram-lhe que tinham chegado duas cartas para ele, de um tal Daniel e que as tinham enviado para São Paulo. Filipe mudara também de casa e nunca recebeu nada.

O tempo corria. Cinco anos se passaram.

Um dia em Lisboa, no Marquês de Pombal, sempre meio desligado, vê dentro de um “autocarro” que lhe passou ao lado... a Leonor!. Louco, consegue logo um taxi e mandou: “Siga aquele autocarro, mas não o ultrapasse. Preciso falar com alguém que lá está dentro. Guarde já o pagamento da corrida porque assim que o ónibus parar eu salto do taxi.” E deu uma nota alta ao motorista.

Nos Restauradores o ónibus parou, Filipe corre e vê Leonor a sair!

Gritou por ela. Uma, duas vezes. Leonor parou e vê um vulto correr para ela. Quando percebeu quem era deixou cair o que tinha nas mãos e foi longo, longo, o abraço e o beijo!

Sentaram-se num café, ela contou que tinha terminado o curso superior e estava professora num liceu! A filhotinha, linda, já com oito anos, muito bem.

Filipe só disse que os seus filhos estavam também crescidos, lindos.

Quando Leonor quis falar nas cartas, porque não tinha tido resposta, Filipe disse que por razões diversas se tinham perdido no Brasil, mas que sabia que ela lhe tinha escrito.

A conversa, rápida, as mãos dadas, o corações de ambos disparado, Filipe pouco mais disse do que

“QUERO CASAR HOJE CONTIGO!”

 

08/09/21

terça-feira, 31 de agosto de 2021

 

A  VIDA

 

A VIDA!

O que é a Vida? Quando começou? Qual a razão? Onde existem outras vidas? Sabendo-se que um dia o Sol se apaga e toda a Vida na Terra acabará, porquê e como se criou a Vida neste planeta? E por que não em outros, pelo menos que se saiba?

Se nos basearmos na Bíblia, em qualquer altura escrita por homens que nada sabiam da Vida, mas sentiam necessidade de criar uma história que justificasse a sua presença e “supremacia” entre tudo, logo nos chocamos com algumas incongruências.

A mais flagrante é a história de um Deus, que fez um boneco de barro e depois que lhe soprou o boneco se fez homem, com vida.

Mas como foi que, antes disso, Deus havia dado vida às plantas, aos animais terrestres, aos peixes, etc.? Também lhes soprou? Ou para essa “vida” tenha usado um truque mais complexo que os escritores bíblicos não conseguiram explicar. Criou vida, e pronto!

Os teólogos e os crentes arranjam para tudo respostas simples, e a maioria nem admite discussão. Respostas complicadas levam os “teólogos” a procurar argumentos cada vez mais fantasiosos. As simples, como por exemplo “foi assim”, deixam as pessoas mais confortáveis, sem terem que contestar, a maioria das vezes com medo de pensar.

O cosmos, imenso, sem princípio nem fim (?) não consegue dar-nos uma qualquer noção de tempo ou grandeza, menos ainda explicar-nos o “porquê”, o “como”, a “razão” da vida.

Aos humanos foi dada a faculdade de pensar, meditar (não todos!) e pouco mais concluímos que a vida tem a duração de um “flash”, um relâmpago, que assim que acende já se está a apagar! E no mesmo instante solta um tremendo dum estrondo, o tal trovão, como a vangloriar-se da proeza que acabou de praticar.

Nós, os humanos, que pensamos, filosofamos, não chegamos a qualquer conclusão, menos a mais óbvia: entendermo-nos!

E, como todo o ser vivo que nasce, cresce, vive e morre, nós vivemos assistindo a esse remanejar. Ao nascer somos acarinhados, criamos um vínculo que de tão doce chega a magoar-nos, e estamos inseridos num família. Crescemos, criamos novas amizades, algumas tão fortes que parecem ter raízes naquele barro do Adão, mas estamos permanentemente sob choques emocionais ao ver desaparecer a família, para cima e para baixo, e os amigos, e é cruel a vida para os que se demoram um pouco mais, porque são os que mais sofrem com as perdas de todos aqueles que, na realidade, eram a sua vida.

Aqui onde vivo, na periferia da grande cidade, a 100 metros de altitude, rodeado de mata e bastante da exuberância tropical, a vida fervilha à nossa volta. Vegetação, mamíferos, aves, insetos, repteis, todos correndo para aproveitar o pouco tempo que lhes foi concedido.

Há dias agonizada na área externa da casa uma abelha, grande. Não tinha ainda morrido, mas mal se mexia. Certamente havia cumprido o seus destino, procriar e colaborar na fertilização de plantas, e agora ali estava, imóvel, esperando o último momento, e esse pequeno espetáculo fez-me impressão. Fiquei a pensar na Vida, como é curta, que me levou a tentar filosofar sobre a finalidade de tudo isto.

Um constante renovar, uma lentíssima evolução, sobretudo da espécie humana, na materialidade e espiritualidade do que nos envolve.

Não sou ateu, nem para isso caminho, tanto mais que nem saberia definir o que será ateísmo, por muito que tente recorrer a dicionários, nem sou um crente religioso, apesar de já me ter dedicado, com bastante entusiasmo à Mensagem “Eu sou o Caminho, a Verdade, e a Vida”!, que hoje não vejo como uma mensagem religiosa, mas com a singeleza, e a imensa dificuldade, que estas poucas palavras encerram.

Trilhar o Caminho que cada um deve escolher para ser correto, só pode assentar na Verdade; não podemos permitir que uma mão se contente com o que outra faça de bem ou mal, muito menos que uma delas procure esconder que a outra eventualmente viva na ignomínia, na mentira.

Sem Verdade, não pode haver Vida. A Mensagem, vem-nos dizer com toda a clareza que Vida, assente na Verdade, é o encontro com a Paz e a Felicidade.

Os homens (e as mulheres!) é tudo quanto devem almejar nas suas vidas: a Felicidade.

E ninguém pode ser feliz ao comprar um iate de vários milhões de dólares e ao mesmo tempo ver na Tv, a miséria a fome e doença espalhadas pelos países do chamado terceiro mundo. E depois dar uns quantos milhares, que nada lhes custa, para uma obra social. É o caso de uma mão a tentar esconder a vergonha da outra.

Pouca gente pensa, mas em poucas palavras a Vida não é mais do um mísero lapso de tempo entre duas eternidades.

 

Ago/2021

terça-feira, 3 de agosto de 2021

 

O  SOLITÁRIO

 

Depois que me mandaram para casa, aposentado, velho imprestável, tenho saído pouco de casa, pelo menos para andar pelo bairro, e agora, bem menos. Uma das coisas que gosto de fazer é tentar uma conversinha com alguém, desconhecido, normalmente com vendedores ou vendedoras de lojas várias, e muitas vezes com gente, simples, que encontro no supermercado. Aconselho um vinho, peço orientação sobre o melhor peixe, e sempre recebo em paga um belo sorriso. Também não esqueço o que aprendi no primeiro terço do século passado: dar sempre prioridade a senhoras, ricas ou pobres, velhas ou mais novas, brancas e escuras.

À entrada ou saída, por exemplo do banco, portas rotatórias, sempre digo às senhoras: “primeiro as senhoras; foi assim que eu aprendi”! Se é gente humilde, a maioria do bairro, faz um sorriso que parece terem com isso, tão simples, ganho o dia!

Uma manhã fria, como tem feito aqui no Rio, desde há quase dois meses, sol bonito, em uma das minhas raras saídas de casa, sem que a pandemia tenha muito a ver com isso, mas mais a ver comigo que pouco tenho que ir xeretar lá fora, encontrei, mais de uma vez, um homem idoso, sentado na borda dum baixo muro, olhar longínquo e triste, sem nada mais fazer do que ali estar.

Gente, e muita passava por ele, alguns olhavam, outros nem o viam, mas se preocupava. Era normal ver gente apanhando um pouco de sol, nestes dias em que o frio nos fez parecer que estávamos no norte da Europa.

Roupa decente, via-se que não era um mendigo, não falava com ninguém, nada tinha nas mãos nem um jornal ou um folheto, e imaginei que ali estivesse à espera de alguém que tivesse entrado numa das muitas lojas daquela lugar, e segui em frente, mas com um peso dentro de mim que não sabia explicar.

No dia seguinte tive que passar no mesmo lugar e lá estava o homem. Mesma posição, mesmo olhar para lugar nenhum. Estava ali, simplesmente.

Fui buscar o resultado de umas análises a um laboratório e quando voltei continuava o homem, imóvel. Quase uma estátua.

Parei ao seu lado, nem me olhou.

Perguntei se estava bem, se precisava de alguma coisa. Agradeceu, disse que não precisava de nada.

Sentei a seu lado e comecei a “puxar” conversa, inclusivamente convidando-o para, mesmo ali em frente irmos tomar um café ou um suco de frutas. Podíamos nos sentar numas cadeiras. Gosto de conversar com esta gente, e por vezes aprendo muito,

Agradeceu novamente e disse que estava bem, para onde vinha habitualmente, quando o tempo permitia, e que o sol que fazia lhe estava a saber muito bem.

Fiz-lhe algumas perguntas como, se se estava a sentir bem, se precisava de ajuda, doente, idade, família, etc., a que ele foi respondendo com cortesia, parecendo que ia ficando mesmo mais animado, porque no seu olhar aparecia já algum brilho.

Conversa vai e vem, disse-me que tinha nascido no Rio, o pai era português da região das Beiras, estava com 89 anos, casara, teve vários filhos, todos espalhados pelo Brasil, e que hoje só um, desquitado, é que vivia com, ele, mas continuava a trabalhar. E ele, ficava o dia todo sozinho em casa. Quando o tempo e as pernas lho permitiam, saía para dar um giro, gostava daquele canto, gozando o sol que lhe sabia muito bem, coisa que raramente tem acontecido nesta cidade, que normalmente, mesmo no inverno, é quente.

Quando o vi mais animado tornei a convidá-lo para tomar um café. Aceitou.

Sentámo-nos numa mesinha, ali na calçada e o bom idoso (da minha idade) começou a desenferrujar a língua.

Contou-me onde morava, numa rua ali perto, onde tinha estudado, por onde andou na vida profissional, aposentou-se com 60 anos mas trabalhou mais quase 15, e hoje, com as forças a faltarem, nada fazia. O maior trabalho que tinha era encarregar-se de preparar alguma comida para, à noite, ele e o filho jantarem. Coisas leves.

O que recebia de aposentadoria dava-lhe para viver, evidentemente sem luxos, mas o grande problema era o isolamento, pior ainda quando o abrigavam a andar de máscara e, pior, o tempo que teve ficar em casa – quase um ano – que lhe davam a sensação que o tinham ali deixado para que morresse!

Eu também lhe fui dando alguns dados da minha vida, tão longa quanto a dele, o quanto tinha sido, e ainda deste maldito confinamento, que tinha dificuldade em me entreter, em ver o tempo passar sem poder contatar com frequência filhos e netos, mas que estava esperançado que este Covid, que veio para ficar, dentro em breve a vida das pessoas voltaria a ter a mesma liberdade de sempre.

Em política não se falou, um pouco de futebol, porque ele não deixou de se manifestar que sempre fora torcedor “Vascaíno”, onde o seu pai chegou a jogar! Eu que pouco sei de futebol, e não torço por clube nem país algum, só pelos que ganham, por aí a conversa não avançou.

Um pouco mais de uma hora se passara, e eu tinha que regressar a casa. Perguntei-lhe o nome, Viriato Pereira. Ainda comentei que beirão de verdade tinha mesmo que recordar o grande Viriato!

Antes de me despedir perguntei-lhe se aceitaria ir num próximo dia almoçar em minha casa. Sem cerimónia alguma, que é coisa que na nossa casa não se usa!

- Podemos beber uns copitos de vinho, lá da “terrinha”. O senhor gosta, não?

- Gostar, gosto, mas não posso beber muito.

- Nem é preciso. E que tal um bacalhauzinho “à Gomes de Sá” que é tão fácil de comer?

- O senhor está a estragar-me com mimos!

- Não. Eu gosto de companhia, e um almoço com amigos sabe sempre melhor.

Hesitou em responder, com cara de espanto. Sosseguei-o, dizendo-lhe que o ia buscar no meu carro, nos daria muito gosto, poderíamos continuar o nosso papo, beber um copito de vinho – português – e o bom Viriato, depois dizer várias vezes que não queria dar trabalho, nem incomodar, acabou por aceitar.

Marcámos para dois dias depois. Deu-me o seu endereço que anotei numa folha de papel.

Despedi-me dele e dei-lhe um abraço, que pareceu que ele tinha gostado, e ainda lhe disse:

- Seu Viriato, foi um prazer conhecer o senhor e conversar consigo. Depois de amanhã, pelo meio dia, passo em sua casa.

Não sei se voltou para o seu “assento” apanhar mais um pouco do gostoso sol.

Ao chegar a casa contei o encontro à minha mulher e pedi-lhe que preparasse um almocinho simples, leve, porque o bom Amigo me pareceu um tanto debilitado.

No dia aprazado lá vou à procura da rua, rua de uma só “mão”, que me fez dar uma volta bem maior do que se tivesse ido a pé, e ao chegar, vejo que havia gente entrando e saindo da casa.

Estranho!

Parei o carro e aproximei-me. Logo na entrada pergunto se era ali que morava o senhor Viriato. Era, sim.

- Era?

- Era, sim. O meu pai. Faleceu esta noite. Estava muito animado porque um senhor que conhecera ali na rua o tinha convidado para ir almoçar em sua casa. Foi-se deitar desejoso de ver chegar a manhã para ir a esse encontro. Mas durante a noite faleceu, tranquilo. O senhor conhecia-o?

- Um pouco, sim. Vinha até saber se ele estava bem.

Não tive coragem para dizer mais nada. Duas lágrimas passaram pela minha cara.

Voltei triste para casa. Sozinho, mas quase a pensar que teria proporcionado um fim menos doloroso à solidão daquele homem, o que me deixava envergonhado. Parecia que me queria enaltecer.

Nada disso. Foi um amigo simples, simpático, que conheci, conhecimento que poucas horas durou.

Fiquei bastante abalado.

Descanse em Paz, amigo Viriato.

 

19/07/2021