terça-feira, 29 de novembro de 2022

 

Carta Aberta

ao sr. Luis Fernando Padulla

e seu blog “Biólogo Socialista”

 

Primeiro apresentemos o sr Padulla: doutor em ciências da vida (doutorou-se em chimpanzés e outros animais selvagens... à distância), professor de biologia, mestre em entomologia, estudos em agricultura (por exemplo “como cultivar hortaliças), sociologia e mais uma boa porção de outros estudos diversos. Muitos estudos publicados, e um sangue envenenado, cheio de fel, admirador e adorador de ladrões e corruptos (como o ex presidiário) e outros  de afáveis e doces características.

Comecemos por dar uma olhada no tal blog:

Uma imagem de Jesus, dizendo “Jesus é socialista”. Imagem em cor vermelha (evidente) e na base, como configurando o socialismo de Jesus, o martelo e a foice, para o aproximar de Stalin, Mao, Fidel, King Kong III, Pol Pot, lula e outros adoráveis personagens que a história registra que, só à conta destes, foram assassinados dezenas de milhões de inocentes.

Como não creio que Jesus tivesse assassinado um só ser vivente, creio que o mestre de dezenas de matérias se deve ter equivocado.

O que me chamou a atenção deste mestre foi um artigo que ele escreveu naquele jornalzinho inocente, francês, o “Le Monde”, um jornal tão avermelhado que um dia, 1961 eu ia sendo posto fora de um hotel em França porque o estava a consultar e os donos não queriam comunistas lá hospedados.

O texto, longo do famigerado “Le Monde”, teve uma vantagem: o mestre criou um novo vocábulo. Chamou ao desenvolvimento do agro negócio no Brasil como sendo agronazismo.

Não creio jamais ter ouvido dizer que Hitler tenha cultivado hortaliças, mas quem sou eu para contradizer um mestre! O Hitler era louco, drogado, mas tomates tinha. Só para que tenha uma vaga ideia, quando o tal Adolf se tornou o chanceler da Alemanha já eu andava pisando esta terra... impoluta. De modo que muita, muita coisa ouvi até hoje do tal Hitler.

E então, mestre Padulla solta a verve e malha no desenvolvimento – extraordinário – da produção agrícola do Brasil, e considera o ainda atual presidente um assassino, pelo uso “excessivo” de insumos, que poluem rios, terras, todo o ambiente, e serão até responsáveis por parte da população ter apanhado o covid.

Vejam só: todos nós temos um profundo asco ao tal covid, mas dizer que as hortaliças do Brasil ajudaram a espalhar a pandemia... aí é um pouco exagero, né?

Pois é, o tal mestre vomita ódio e fel, sem saber NADA do modo como se desenvolveu a agricultura no Brasil, e chora pelo retorno do presidiário.

Ora vejamos o desenvolvimento do agro negócio, como e quando ele se deu, e para isso nada melhor do que as estatísticas do Professor Evaristo de Mendonça (este sim, Doutor) da Embrapa, quem mais sabe deste assunto, e foi inclusive colaborador ao anterior presidente, o seu tão admirado lula.

Para quem não sabe, a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Agro Pecuária, é uma empresa pública, que tem demonstrado um profundo conhecimento da área que lhe está adstrita, e não conheço em qualquer outra parte do mundo alguma outra que se lhe compare em resultados.

Lembro até, talvez há perto de meio século, que o Brasil precisava importar ervilhas, porque a produção local era muito baixa e nada rentável. Entrou a Embrapa no assunto e em dois ou três anos apareceu com novas sementes e quintuplicou a produção. Alguém sabe onde, em outro país, se obtiveram resultados similares?

Olhemos para o 1º gráfico: a evolução de pastagens e do efetivo bovino:


- A curva de crescimento do plantel sobe mais rápido entre 1999 e 2004 (quando entra o pt, recua durante os primeiros 4 anos do “fome zero”com lula, estagna com a chegada da discursiva “mulher sapiens” e continua depois a crescer de forma regular e constante até 2018, tendo o rebanho passado, em 26 anos, de 145 milhões de cabeças para 187 milhões, e hoje está em cerca de 230 milhões.

O mais extraordinário disto é que a área de pastagens diminuiu de 225 milhões de hectares para cerca de 162 (hoje 167).

Ora bem seu mestre, aumentou-se a produção de bovinos em mais de 30% reduzindo a área ocupada em mais de 30%.

Entendeu? A isto chama-se agronazismo? Ou o sr., mestre de hortaliças desconhecia?

Mas tem mais, quer ver o segundo gráfico?  Produção de grãos:


Nitidamente se constata uma evolução constante, desde 1976 (tempo dos seus admirados generais!)

até 2018, onde se vê um fenómeno único, no mundo:

- a área de plantação começa com cerca de 40 milhões de hectares e chega a 2017/18 (transição lula/atual Presidente) a cerca de 67 milhões;

- entretanto a produção de milho passa de 40 milhões de toneladas para 240! Só 6 – seis – vezes mais! Só milho! Será milho nazista?

- o feito mais interessante é que a produção que era de 1.300 kg por ha está em 4 a 4.500!

Só pode ser milho do Hitler ou dos seus amigos fideis.

Resumindo: aumentou-se a área de produção em 67% (em 40 anos, note bem) e a produção de milho aumentou 600%.

- E vamos deixar a soja quieta, porque temos outro gráfico que cala a boca a quem se atrever a abrir, mas pode saber-se que só de soja o Brasil exportou, em 2021, US$ 35 bilhões!

O gráfico 3º, e último é talvez o mais interessante:

Olhem esta beleza: o Brasil, para cada 1 US$ gasto em defensivos agrícolas, produz 142 kg de alimentos! A Argentina que tem um dos mais ricos solos do mundo só chega a 114, os USA 94, a União Europeia 62, a França 53 e o Japão que quase não tem terras aráveis, só 8 kg.

Somos campeões em muito coisa, mestre, sobretudo em inventar mentiras e transmiti-las aos alunos.

Dá para perceber porque o mundo está todo contra o Brasil?

E porque querem de volta um ladrão?

Sobre isto eu explico no próximo texto.

Sr. Padulla, veja se ensina os seus alunos a amarem e respeitarem o seu país, que parece o sr. quer ver destruído.

 

28/11/2022

 

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quarta-feira, 16 de novembro de 2022

 

Menos um Amigo na Terra

Parece muito bonito viver-se muitos anos, mas as pessoas muitas vezes não realizam o que é ver os Amigos a irem embora deixando-nos mais pobres. Mais tristes.

Hoje recebi a notícia que mais um, depois de ter vivido os últimos anos bastante doente, finalmente descansou o corpo sofrido e a mente magoada com as injustiças por que passou.

Conhecemo-nos em 1965 quando fomos ambos trabalhar na mesma firma, em Luanda.

Ótimo colaborador, competente, sempre nos entendemos perfeitamente, e esse entendimento acabou em amizade.

Infelizmente quando de lá saí, pouco voltei a vê-lo, depois fui para Moçambique e depois da diáspora do 25/4 então durante muitos anos nada soube dele.

Quando nos reencontrámos, via Internet, fiquei a saber que tinha estado em Macau, de princípio numa boa situação, que depois lhe passaram a perna, em Portugal teve muitas promessas e nada de concretizar-se, os anos já a pesarem e a vida difícil.

Foi ele que me descobriu pela Internet.

E a carta que me escreveu, que não mostro porque a sua amizade extrapolou os elogios, guardo-a com especial carinho. Foi uma alegria termo-nos reencontrado.

Estava já doente, e eu a prometer-lhe que o iria abraçar quando fosse a Portugal. Em 2018, não me foi possível e tinha perdido a sua morada!

Prometi que seria em 2020. O artificial e assassino covid manteve-nos prisioneiros em casa. Pensei poder ir em 2021. Ainda estávamos presos. E recebi esta mensagem:

Meu querido Francisco! Como vai tudo? Venho fazer-lhe duas confissões: uma, estou com cancro. Duas, fiquei muito triste por não me ter dado a possibilidade de o ver quando cá veio a Portugal. Teria sido o nosso último encontro físico e eu sabia disso. Mas já passou. A gente encontra-se por aí, num dia destes... Um abraço para si e um beijo para ela. Fiquem bem, na graça de Deus. Descrição: ❤Descrição: ❤Descrição: ❤

Informei que não fora. Finalmente este ano, em Fevereiro, levava como dos objetivos primários cumprir a promessa e o prazer de um forte abraço. E assim foi.

Conversámos um pouco, pouquíssimo tempo num café, nem meia hora, e à despedida o forte abraço, que sabíamos ser o último, tão apertado foi que nos fez a ambos que as lágrimas não se contivessem “lá” dentro!

Não sei se lhe chame um grande filósofo, se místico, mas profundo nos textos com que nos foi deliciando no livro “Era Uma Vez Em LUANDA” e nos inúmeros textos no Facebook, sempre com uma qualidade de escrita admirável, mas acima de tudo um AMIGO.

Para o livro “Os Meus Amigos”, fiz também este retrato dele


Meu querido Amigo, não falta muito para termos todo o tempo do Universo para conversarmos.

Sei que está em muito merecida Paz.

Vou fechar este apontamento com um dos seus e profundos poemas com que nos presenteou:

 

Lembro-me da criança que eu fui

E dos sonhos que não tive

Lembro-me de outros sonhos que sonhei

Que eram doutros

Sonhos doutros que roubei

Lembro-me das viagens que eu fiz

E de lugares donde fugi

Lembro-me de tudo, enfim, que já vivi

Mil séculos passaram já por mim

Vagabundo de mim próprio

Proscrito de mil vidas que já vivi

Em viagens loucas me perdi

Em sonhos de rei me confundi

Em pedinte da esperança me tornei


Desculpem-me: esqueci-me de dar o nome deste Amigo:

Guilherme Augusto Valadão

16/11/2022

sábado, 12 de novembro de 2022

 

Histórias da Velha do Arco

Como o Ali virou Ali Baba

(Relembrando...)

 

Há uns poucos meses escrevi um pretencioso poema, em que falava numas noites passadas com a famosa e formosa Sherazade!

Contou-me imensas histórias. Algumas delas, garantia ela, como se tendo passado, autênticas, mas tão embebido estava eu a contemplá-la e ouvi-la que não me interessou acreditar, mas simplesmente ouvir aquela voz doce e carinhosa contar-mas para me entreter... malgré houvesse outros entretimentos entremeados! Mas esses são íntimos, que não seria correto contar.

Passou algum tempo e comecei a recordar umas quantas dessas, aliás famosas, histórias, que me fizeram pensar que tinham até sido sugeridas pelo, igualmente famoso Nostradamus, tal a coincidência de premonição.

A bela história de Ali Baba.

Todos sabem que Ali era um jovem, modesto, dizem uns que era lenhador, outros que andava à procura de notícias, correndo o reino, para informar o rei lá daquela banda, a Pérsia, outros ainda afirmam que ele nada mais fazia do que limpar as cavalariças do rei, cheia de cavalos e camelos, o que é confirmado por historiadores mais recentes.

Assim corria a vida do alegre e descuidado Ali.

O pobre Ali pertencia à dinastia dos Ghznévidas que fugira dos Seldjúcidas quando estes ocuparam toda a área da Pérsia, e depois dos mongóis, comandados pelo simpático Gengis Kan, e a seguir por Tamerlão, que conquistaram novamente a Pérsia, destruíram tudo na sua passagem, e o Ali perdeu o emprego de estafeta/limpador de cavalos, pois teve que dar o fora... Se ferrou!

Fugiu, desempregado, analfabeto, foi ter a um lugar escondido, onde seu pai, o Baba, era o chefe dum bando de ladrões, assaltantes, e estava cheio de riqueza. Quarenta era o número dos bandidos, conhecido na época por Κλέψτε ό,τι μπορείτε (está escrito assim, nos livros antigos, em grego), fora os que por fora o iam informando onde havia riqueza para assaltar, e que recebiam uma “comissão” pelo “serviço de informação”.

Papai Baba, assim que viu o filho na pior chamou-o para “trabalhar” nos assaltos e roubos, a seu lado.

Foi nessa altura que Ali passou a usar também o nome do pai e virou Ali Baba. Os 40 ladrões eram comandados pelo Baba, e estavam com um enorme depósito cheio de riquezas, até de presentes que adversários lhe tinham dado para fazerem acordos. Todos ricos. Compravam juízes, políticos, etc. Tudo.

Um deles, que se chamaria algo como Dhan Dhantass, rico, havia já pago generosamente ao Baba para que o deixasse continuar a negociar, e nessa altura Baba lembrou-se que o parceiro ideal pra o Dhantass seria o seu Ali Babazinho que, apesar de fraco de meninges e raciocínio, lhe serviria, não para levar mais notícias ao rei que havia sumido, mas para seu papai, o Baba, vulgo o καλαμάρι. Era um portador de notícias, como hoje são os telefones celulares, para fofocas, fake news e informações ‘.

Ali Babazinho, com o que o tal Dhantass lhe ia dando para manter o Baba quieto, não tardou a ficar rico, riquíssimo, e logo era grande proprietário e, agradecido, para recompensar o Dhantass, abandonou-o e o traiu!

O Baba quis até que ele fosse ouvido em tribunal... de malandros. Surgiram vários indivíduos que tanto queriam defender um quanto atacar o outro, ambos com nomes complicados (persas...) como o sr. Proto Genius Sathyagrah e o sr. γκρινάλντα.

Baba viu que o filhotinho, o limpador de cavalos, corria perigo com o desjo de vingança do Dhantass, chamou o seu secretário que ficou conhecido – e ainda é – por Guyl Querqus, o feroz, o sanguinário, obediente aos maléficos desígnios do Baba.

Logo o Querqus mandou liquidar o Sathyagrah (até pelo nome parecia que ia suceder o contrário), o Dhantass fugiu e refugiou-se na Mongólia, e o γκρινάλντα, subiu mais uns pontos na esfera do Baba.

Ali Babazinho, vendo a fortuna do Dhantass, parada, a dar moleza, meia abandonada, deitou-lhe a mão e ficou tão rico quanto o Baba. Isto é um pouco de exagero, mas que ficou riquíssimo, para os padrões da época – século XII – quanto mais para os padrões atuais, é o que reza a história.

Nunca mais cheirou as fezes de um cavalo, nem as dele, porque comprou logo uma privada japonesa (eles já as fabricavam nesse tempo) que lhe lavava as “partes” com água morna, fria ou quente conforme as estações do ano.

Não andou mais a pé, mas em carruagens cobertas a ouro, puxadas por quadrigas de zebras que outros escravos limpavam e, mesmo cada vez mais fraco, meningiticamente falando, logo se atreveu a fazer pronunciamentos políticos contra todos aqueles que não tinham um papai tão bonzinho. Se em vez disto se ter passado há dez séculos, hoje o Babazinho andaria de avião a jato.

Deixou de beber água de poços e, para satisfazer as suas sedes, e mandava buscar à Arménia e à Galiza (não é a da Espanha) os melhores e mais caros vinhos (reza a história que ele e o Baba gostavam muito de um chamado Tariri, que corresponde ao Chateau Lafitte deste tempo moderno, um dos mais caro vinhos do mundo naqueles tempos) e que bebiam nele como quem bebe água que os deixava normalmente αλκοολισάδος.

Também se entretinham, nas horas de folga da roubança, a fumar umas opiáceas, reclinados em camas de seda roubada aos mongóis.

Bem tentou o Danthass oferecer-lhes umas caixas dessa preciosidade enológica, para ver se recuperava parte do que lhe haviam subtraído. Mas não só não se livrou do ostracismo, como teve que sumir.

E assim anda, até hoje, o mundo: uns bebem do bom e do melhor, roubam, riem até que...

Outros bebem o que o diabo amassou.

São, uns as zelites, e os outros...

Eu sou dos “outros.

 

N. Quem souber grego... que se vire. Procure Aristóteles

 

09/11/22

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

sábado, 29 de outubro de 2022

 

O  RETORNO  DE  DEUS

(escrito em 2010)

 

No pequeno lugar ao sul de Inglaterra, Clayton, West Sussex, na sua simpática e simples “cottage”, casa típica das áreas rurais inglesas, Peter vivia com sua família, mulher e um casal de filhos na faixa dos 10 a 12 anos. Todas as manhãs saía de casa, andava cerca de quinze minutos até à estação de Hassocks para apanhar o trem para Londres, onde trabalhava há mais de dez anos sempre na mesma empresa.

Homem tranquilo, decidido e enérgico profissional, bom chefe de família, tinha, aparentemente, tudo para estar de bem com a vida. Aos domingos acompanhava a família ao serviço religioso, na antiga e linda igreja St. John Baptist, uma preciosidade do século 11, e sempre de lá saía cumprimentando os vizinhos, amigos e o pastor, mas com a estranha sensação de ter simplesmente perdido tempo.

O ambiente da igreja, com afrescos belíssimos, que ele conhecia desde há muitos anos, e os sermões do pastor, não lhe diziam quase nada, mesmo procurando estar atento, e isso acabou por se tornar para ele uma preocupação.

Num desses domingos, um lindíssimo dia de primavera, primavera com aquelas cores que só a Europa do Norte tem, nem um único fiapo de nuvem nos céus, tempo fresco, o ideal para gozar a beleza do mundo. 


 Sentado numa cadeira de jardim, Peter contemplava aquelas terras verdes e bonitas que se estendiam para além do limite do seu terreno. Eram dum agricultor, idoso, que parecia estar a desistir da sua milenar profissão por não poder competir com os grandes produtores, e até abandonara um equipamento agrícola que jazia a uns duzentos metros de sua casa. Ia ganhando ferrugem, entristecia um pouco aquele ambiente de calma e paz, e nada tinha já que se aproveitasse. Sucata.

Peter deixava o seu pensamento correr ao sabor daquela tranqüilidade, e teve então um quase sobressalto que de há muito mexia com a sua cabeça: “Se Deus existe, porque será que eu nunca me apercebi da Sua existência! Quanto gostaria de ter um sinal, qualquer que fosse!”

Naquele instante, do limpissimo céu claro, caiu um raio seguido de um trovão com um poder imenso. Peter, na sua semi sonolência, não esperava tamanho estrondo e quase cai da cadeira! Olhou em frente e viu que o raio atingira exatamente aquela máquina abandonada e que a fizera em frangalhos. E o céu não escureceu, nem qualquer outra nuvem se formou!

Peter temeu! Seria este o sinal que ele esperava que o tal Deus lhe mandasse? A verdade é que não havia nos ares a menor condição de formação de trovoada, e o trovão deu-se assim que ele “pedira” um sinal. Ficou abalado. Que “sinal” estranho aquele!

Não conseguiu almoçar nesse dia, mal falou com a mulher e filhos deixando a família receosa que algo estivesse a afetar a sua saúde. Quiseram levá-lo ao hospital, mas ele respondia que estava bem. Podia estar bem, mas parecia um estranho no seu próprio ambiente!

No dia seguinte voltou à rotina de ir pegar o trem, mas ao chegar à estação sentiu-se pouco firme, cambaleando, a custo voltou para casa e avisou a empresa de que não estava passando bem. Jamais faltara por essa razão de modo que, se profissionalmente isso não o afetava, os colegas e superiores ficaram preocupados.

Assim que entrou em casa foi sentar-se na mesma cadeira onde na véspera assistira ao estranho fenômeno, e ali esteve quase todo o dia à procura de compreender o que se tinha passado. Queria reagir, sair daquela espécie de torpor, e decidiu que no dia seguinte, sentindo-se bem ou mal, teria que voltar ao trabalho.

Voltou. O dia correu-lhe pesado, e até os colegas estranharam o seu silêncio e quase absentismo. Não parecia a mesma pessoa, jovial, comunicativa. Como na véspera avisara que não se sentia bem, o que era verdade, pensaram que seria ou o começo ou final de algum resfriado mais forte.

No final do dia, como de costume, saiu depois de todos os outros, e foi para Victoria Station pegar o trem de volta a casa.

Sentado num canto da carruagem, procurava nas páginas do “Evening Standard”, que sempre lia nas viagens de regresso, algo que ocupasse a sua mente cansada, baralhada, nem ele mesmo sabia exatamente por quê.

Na sua frente sentou-se uma mulher jovem, muçulmana, a cabeça coberta com o tradicional hijad, e ao seu lado um homem de origem africana, de meia idade, folheando também o mesmo jornal.

A viagem durava habitualmente hora e meia; dava tempo para, muitas vezes, ainda cochilar um pouco, mas nesse dia era no jornal que procurava distrair-se.

Pouco tinham andado, talvez trinta ou quarenta minutos e, de repente, um estrondo imenso, atirou com todos os passageiros para fora dos seus lugares, sentiam-se ferragens a torcer e a gemer até que a carruagem finalmente parou, fora dos trilhos, e inclinada sobre um dos lados.

A composição tinha-se chocado com outra parada irregularmente na mesma linha! Em Redhill.

Ouviam-se gritos de dor e pedidos de socorro. Grande desordem e caos dentro de cada carruagem. Peter foi projetado nem ele mesmo percebeu para onde e como. Deve ter perdido os sentidos por alguns momentos e quando começou a ter consciência da situação, percebeu que tinha havido um grave acidente. Sangrava, mas nem percebia de onde. À sua volta corpos espalhados, contorcendo-se e sangrando. Perto, com um profundo golpe na cabeça, reconheceu a mulher que vinha sentada na sua frente. Deslocando-se com dificuldade e muita dor em todo o corpo, procurou ajudá-la. Com o seu casaco improvisou uma espécie de almofada onde deitou a cabeça da mulher, depois de ter afastado o véu, rasgado, deixando à vista uma ferida grande. Com palavras calmas ajudou a mulher a agüentar o sofrimento e ajeitou-a num canto da carruagem.

O homem que vinha a seu lado, jazia também, sem sentidos, uma perna torcida. Tinha uma grave fratura exposta! Peter rasgou a sua camisa e fez um torniquete na perna do desgraçado que sofria horrivelmente.

Ajudou ainda alguns mais até que exausto se sentou num canto, aguardando socorros, que não tardaram. Todos levados para o hospital mais próximo, Peter só pensava por que razão ele havia socorrido primeiro uma mulher muçulmana e um negro! Podia ter ajudado uns outros quantos, mas foi a esses dois que dedicou a pouca energia que conseguiu reunir até cair exausto.

No leito do hospital voltou a pensar que tudo quanto lhe estava a acontecer eram “coincidências” demais! Primeiro o raio e o trovão, e depois o auxílio que prestara tão imediato àqueles dois que considerava “semi” estrangeiros!

Seria tudo aquilo “obra” de Deus que lhe queria mostrar que a vida só tem valor quando a dedicamos, desinteressadamente, aos outros?

Tão logo teve alta do hospital foi direto a um lugar sossegado, silencioso, a sua tão antiga e bela igreja e, meditando com humildade, foi-se apercebendo que o “tal” Deus, afinal, lhe dera um recado completo!

 

12-abr-10

 

sábado, 22 de outubro de 2022

 

Silvana e Vittorio * Encontrados

 

Quem se lembra deste simpático casal de velhotes que sumiram “atrás da neblina que às primeiras horas da manhã subia das águas do Laco di Garda”, cuja história contei há em 2014 e só coloquei no blog há 5 anos? (https://fgamorim.blogspot.com/search?q=Silvana)

Passou-se muito tempo, e parecia que eles tinham “sido sugados” por uma nuvem, como hoje se faz com arquivos do computador!

Até que surge nova personagem que nos elucidou sobre o final da história.

Lembram-se que Silvana tinha já 80 anos e Vittorio 85, estavam de boa saúde, a prova foi aquele passeio matinal, onde desapareceram das vistas de quem os procurava.

Um jovem motorista passou àquela hora da manhã pela mesma estrada. Viu o casal de velhotes, muito agarrados (estava fria aquela neblina) e parou o carro para os ajudar.

O curioso é que esse motorista os reconheceu, a todas as família eram daquela região e, o curioso é o jovem ainda é da família da minha mulher, Meunier, e mais curioso ainda, tem o mesmo nome do avô dela!!!

A família Meunier, com várias gerações engenheiros especializados em tecelagem, em meados do século XIX dividiu-se e parte foi para Portugal e a outra ficou em Schio, onde até hoje têm fábrica de equipamentos.

Este parente seguiu a mesma profissão que lhe vinha de há uns dois séculos, veio há dias ao Brasil estudar um projeto de nova indústria, e sabendo que em Portugal havia família com o mesmo nome de família, ao passar por Lisboa tomou conhecimento da existência de uma senhora da sua família aqui no Rio de Janeiro e, muito amável veio visitá-la. Almoçou conosco, conversámos muito e no meio da conversa eu disse-lhe que tinha escrito uma pequena história sobre dois italianos, que haviam “sumido” passeando à bordas do Lago di Garda, e que quem leu se “zangou” comigo porque não tinha dado fim à história! Como podia, se eu não sabia o que lhes tinha acontecido?

Adriano (nome também do avô da minha mulher) fez uma cara de espanto, e disse que havia alguns anos tinha encontrado na estrada um casal idoso, que até conhecia bem as famílias, que moravam a menos de 20 quilómetros, e fez com que entrassem no seu carro, disposto a levá-los de volta ao hotel ou até a suas casas.

O casal entreolhou-se, abanaram significativamente a cabeça com um “não” e pediu-lhe que os deixasse onde houvesse um taxi para os levar a Milão.

- Adriano espantado: Milão???

- Sim, Milão. Decidimos ir para a Austrália.

- Para a Austrália???

- Sim. Tu, Adriano, sabes bem que eu vivo lá desde que saí de Vicenza, há mais de 60 anos!

E contou ao jovem como tinha encontrado a sua velha amiga de infância, e que tinham decidido juntar-se.

- E as malas onde estão?

- Vamos assim mesmo, antes de nos arrependermos. Compraremos no Aeroporto o que for necessário para a viagem e lá em casa, em Melbourne, teremos muita roupa!

- Mas sabem se tem voo, lugares marcados, etc.?

- Tem a toda a hora algum voo que vai para aquele lado, sabemos que haverá que fazer uma conexão no caminho, mas vamos lá chegar sem dizer nada a ninguém! Tudo quanto agora queremos é passarmos juntos o tempo que nos resta de vida, e não como dois viúvos meio isolados, mesmo com filhos e netos, e vivendo só de memórias. Tenho lá três filhos e uma boa quantidade de netos e bisnetos que nos irão ajudar. E mais, muito melhor para a Silvana, do que ficar só, num hotel, à espera de visitas de favor.

Minha mulher e eu, aqui em casa, ficámos espantados com a incrível história, mas não deixámos de aplaudir a coragem e decisão do casal.

Cada minuto que nos sobra de vida deve ser vivido com a mesma alegria de todos os outros. E a vida a dois é muito melhor do que a viuvez!

Perguntei: Adriano, você depois disso teve notícias deles?

Adriano: Eu pedi-lhes que me dessem dissessem alguma coisa após a chegada, mas só quase um ano depois é que soube, sem ser por eles nem alguém da família, que estavam muito bem. E nada mais. Imagino que nesta altura podem até estar já a dormir o sono dos justos, depois de terem aproveitado muito bem o que lhes restava. Achei sensacional.

Adriano pouco depois do almoço teve que seguir para o seu objetivo, e nós ficámos a cogitar como o mundo é pequeno: do nada surge-nos um parente, com o mesmo nome do avô da Dona Bela!

E mais, podendo finalmente dar a conhecer a uma amiga, carioca, que há anos nos pergunta se sabemos algo do casal “que desaparecera na neblina” e, por curiosa coincidência também através de um Adriano!

Tout est bien qui fini bien! Deo Gratias.

 

22/10/2022