domingo, 11 de abril de 2021

        O silêncio no alto de Angola

(já no blog em dez/2011)

Quatro horas da madrugada, noite ainda escura, aqueles dois amigos que estavam a dormir numa modestissima pensão de Artur de Paiva(1) acordam para cedo sairem para caçar. Na pequena povoação os justos dormem. Os escassos guardas da noite, embrulhados nos seus cambriquites, continuam encolhidos nas soleiras das portas que lhes foram entregues à guarda, e dormem também.

Noites frias naquela região com mais de 1.000 metros de altitude!
Quem se levantara primeiro foram os donos da pensão para preparar o matabicho(2) para os hóspedes: um belo bacalhau cozido com batatas, um bife de golungo(3) – morto pelo hospedeiro havia dois dias – com batatas fritas, tudo isto, alta madrugada, acompanhado de alguns copos do tinto de capacete(4), e um bom e forte café para terminar. Era preciso “abastecer-se em terra quem ia para o mar”, ali, o mato, onde nunca se sabe o que pode acontecer.

O lindo Golungo

Saem os caçadores, agasalhados com lãs, blusões espessos, cachecoles, barretes, as óbvias armas, e ainda um sucolento farnel para o almoço e até jantar.
Jeep aberto, um frio que penetra toda aquela vestimenta, correndo para chegar ao despontar do dia aos locais onde se imagina estar a caça.
Uma ténue luz azulada indica que não tarda o sol vai aparecer, e como nos trópicos os dias num instante se enchem de luz, lá desponta o astro num horizonte longínquo ainda de cores frias. Pouco ainda se enxerga; umas árvores aqui e além.
O jeep agora anda devagar, e os caçadores vão-se livrando dos agasalhos com a chegada dos raios do sol mais quente que já se apareceu inteiro e esplêndido!
Respira-se ainda o ar frio da manhã, os olhos dos caçadores vasculham lentamente a entrada das matas ou dos muxitos(5) onde é suposto encontrar alguma peça de caça.
Em pouco tempo já os agasalhos vão todos no banco do carro, os caçadores só de camisa, e por vezes até sem elas, silêncio, mas os animais nesse dia teimam em não aparecer.
Dez horas da manhã, sol alto, bem quente, os animais vão esconder-se. A caça e os caçadores param.
Escolhem todos a melhor sombra, animais e seus perseguidores, estes desembrulham o farnel, bebem algumas cervejas que permaneceram geladas, dorme-se, mesmo no chão, algo muito ao longe parecido com uma sesta, e a meio da tarde, volta ao jeep e continua a procura da caça. Por fim um outro pequeno antílope é apanhado.
Aos saltos dentro do jeep ninguém sente cansaço, mas quando o sol vai também descansar volta a faina de começar a vestir os agasalhos.
O dia esta a chegar ao fim, depressa vai escurecendo, os céus dançam numa panóplia de cores que só o Criador sabe compor e são os mimos que nos dá ao entardecer. Não há como não se extasiar!
Por toda a África, como pelos planaltos de Angola, as fogueiras começam a queimar!
A lenha a crepitar, elevam-se fagulhas ao alto, cada vez se sobressaindo mais no escuro, erguendo-se a perder de vista, e quando pensamos que já não se vêm, é porque se transformam em estrelas! É o agradecimento daquelas gentes ao espetáculo que, todos os dias, lhes é oferecido.
Senta-se o povo à volta da fogueira, a conversa segue devagar para não perturbar aquela quietude, como uma oração, e logo se escutam histórias que vêm também de tão longe, como aqueles pôr do sol, transmitindo a velha sabedoria, os contos e lendas ouvidos desde sempre e que se confirmam verdades milenares.
Devagar o chefe da senzala, ordena “cuatiça o ngoma”(6) e os tocadores enchem os ares de ritmo e alegria, mas só em plena escuridão porque antes disso o ambiente não está formado, e aproveitam o silêncio para louvarem o Criador pela beleza com que foram acariciados.
O ritmo e animação vão aumentando, e todos dançam. É um louvor à vida, simples mas de trabalho, um agradecimento ao Alto por não consentir que a sua alegria de viver seja perturbada.
E os caçadores, que ao anoitecer se juntam a este povo, compartilham extasiados tamanha vida, tamanha simplicidade e tamanha pureza na forma com são recebidos.
Num instante a caça foi esfolada, limpa e recebe como homenagem as quentes fagulhas que a vão transformar em deliciosa comida. Para todos. As cervejas, ainda geladas também correm soltas.
Todos meditam e pedem a Deus que aqueles momentos se eternizem, porque, no dia seguinte, o regresso “à civilização” é uma tristeza. Aqui reina o chefe, o poder, a falta de verdade.
Sair duma noite assim é como ser rebaixado do céu a um purgatório.
Quem viveu momentos destes não esquece nunca. De vez em quando se o silêncio volta a “falar” e estas memórias afloram, teima também em aflorar um lágrima de saudade.
Gostaria que pudéssemos todos viver a noite de Natal naquele ambiente, ouvindo o silêncio entrecortado pelo som dos ngomas, mas onde se pode louvar a Deus.

1. Hoje a vila de Cuvango, a cerca de 280 km a sul do Huambo.
2. A primeira refeição da manhã, que “virou” verbo: eu matabicho, nós matabichamos, etc.
3. Pequeno antílope – Tragelaphus scriptus – que pesa cerca de 35 a 40 kg.
4. Os melhores vinhos de garrafão eram enviados para Angola bem fechados com um “capacete” de gesso. Bom!
5. Bosque. Pequena mata.
6. Toquem os tambores.

17-dez-2011

sexta-feira, 2 de abril de 2021

 

MORO  NUM  PAÍS  TROPICAL


Já muito tenho escrito sobre isto, mostrado que sou grato por me ter acolhido sem burocracias, reconheço e afirmo que o Brasil tem o melhor povo do mundo, mas... até hoje ainda não acertou em ética, responsabilidade, corrupção, organização, etc.

Uma tristeza.

Somos capazes de lançar satélites, tudo made in Brasil, fabricamos aviões de altíssima qualidade que está a vender como água, para todo o mundo, temos a melhor agricultura do planeta, o maior rebanho de gado, as exportações das nossas commodities alimentam 1,5 bilhões de pessoas fora daqui, e podemos aumentar muito rapidamente sem alargar as áreas plantadas, em 30 a 50% a produção de grãos, temos a maior maravilha do planeta, a Amazónia, rica, riquíssima, cobiçada (5.500.000 de kms2 com 20% de área protegida) uma imensidão com gigantes dificuldades para se proteger integralmente), e saqueada por gente e empresas do Brasil, EUA, França, etc.

1.- Tem situações caricatamente absurdas com a ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária – que estabelece, por exemplo, os preços dos medicamentos duma forma pior que idiota. Vejam este exemplo:

- precisei de comprar um medicamento. Perto de nossa casa há duas farmácias, uma ao lado da outra o que já é um contrassenso; pelo mesmo medicamento uma pediu R$ 77,00 e a outra R$ 47,00. No Brasil os medicamentos pagam 39% de imposto!!! Em Portugal 1% e na Argentina e EUA 0 % !!!

A Anvisa é quem estabelece o preço máximo de venda, em patamares além de absurdos. Vejam esta nota

 

O Aciclovir 400 mg tem o preço “limitado” a R$ 230,05!!! A farmácia faz um desconto de 79,5% !!! E ainda deve ter um lucro de 150% ou mais porque há milhares de farmácias, por todo o lado! É um magnífico negócio. Comprei mais dois medicamentos e vejam como fechou a Nota:

Valor Total R$285,37, desconto $202,96, valor pago R$ 82,41!!! Absurdo. 

2.- Agora vai sendo “moda” a bandidagem roubar a fiação dos telefones. As companhias têm obrigação de resolver o assunto de imediato. Pois bem o nosso telefone fixo está mudo há mais de 3 meses! Depois de “n” reclamações veio um dia um técnico. Resolveu. Assim que ele saiu daqui choveu um pouco e logo o telefone emudeceu, até hoje. Desta vez não foi de roubo de fiação.

Faço a conveniente reclamação, responde o computador: “Estamos a trabalhar. Ficará resolvido amanhã às “x” horas”. Já reclamámos umas vinte vezes, e ligarem o telefone que é bom... nada!

3.- Quando chove, tanto faz que seja aqui como na Suécia, falta a energia elétrica. Há dias estivemos sem luz 16 horas. Cada vez que mandava uma mensagem a avisar que faltara a luz recebia um SMS a dizer que “Estamos a trabalhar. A energia voltará às “x” horas” Não volta a não ser 4, 5 ou 10 horas depois!

4.- Neste momento estamos a viver a maior catástrofe mundial: Covid e destruição da cultura.

Sobre a Covis o infame STJ tirou do governo central – Bolsonaro – a luta contra a pandemia, e entregou-a aos governos dos Estados e Prefeituras. O governo central tem que mandar o dinheiro para o combate. Assim quando morre alguém que eles dizem que foi de Covid o governo manda uns milhões para a “luta”. Está-se a ver que uma grande quantidade de mortes, de infeções pulmonares (como tem havido desde sempre) câncer, cardiovasculares, atropelamentos, etc. são registradas como Covid! Daí estarem estatiscamente a morrer tantos e tantos, e haver tantos e tantos corruptos a roubarem o país. Basta pensar que há 26 estados federados, 5 568 municípios. Já prenderam vários secretários de saúde, governadores e outra canalha. E há muitos inquéritos em andamento.

Vão morrendo inúmeras pessoas e o ataque ao Presidente é abaixo de vergonhoso: chamam-lhe genocida e entram com processos crime contra ele em todos os tribunais possíveis.

Bolsonaro não é o presidente ideal, mas só o fato de não deixar roubar... o torna o inimigo nr. 1 da politicagem, e a mídia em vez de informar somente e desinforma.

A esquerda não para de soltar inverdades e desinformação, Os políticos não abdicam das suas milionárias benesses, juízes do supremo, 90% deles, com um curriculum ligado à pouca vergonha, soltam a gatunagem política, e procuram atacar  os juízes da Lava-Jato que os condenou, É evidente que o povo já não acredita em nada e mais ninguém.

Decreta-se um lockout e enchem-se os bares, as praias e até hotéis.

E isto da Covid, uma das maiores desgraças que atingiu o planeta desde o meteoro que matou os dinossauros, é ao mesmo tempo um dos maiores crimes da história, com Fauci e semelhantes a mentirem e esconderem a verdade sobre os medicamentos eficientes para só propagandearem a medicação das indústrias que os financiam!

Mentem, desorientam e mantém o mundo aterrado, confinado, afastando cada vez mais profundamente a família e os amigos, a base da sociedade e da felicidade entre os homens.

Chegaram as vacinas. Mas... objeto de negociações abjetas, porque o interesse das indústrias farmacêuticas e dos seus governos não é a cura ou salvação de pessoas, mas o inimaginável lucro que estão a obter.

Não há dúvida que caminhamos, a passos largos para um fim desastroso.

 

02/04/2021


terça-feira, 23 de março de 2021

 

ERNESTO  LARA


Quem não o conheceu pessoalmente, pode ir fazendo uma ideia da sua personalidade, através de alguns textos e poemas que nos deixou.

Foi um amigo, coração grande, e sempre ótima disposição. Angolano a mais de 100%. Na sua querida cidade do Huambo, foi atropelado e faleceu na hora. 1977.

Hoje dois poemas. Sempre de grande sensibilidade. Merecem ser lidos mais do que uma vez.

Caminhos dos Musseques

Caminhos dos musseques
lá onde a areia entra pelos sapatos
daqueles que têm sapatos
lá onde o sol se filtra pelas fendas
pelos buracos dos pregos
dos tetos de zinco.

Caminhos antigos.
Caminhos antigos como o Mundo.

A cidade empurrou os musseques
e o cacimbo caíu mais de mansinho
escondendo as figuras esguias
e os rostos de chumbo.


onde a esteira cobre o chão varrido todas as manhãs

onde a fuba substitui todas as claridades

onde a cerveja escorre pouco
porque não há dinheiro de comprar.

Caminhos antigos
onde a eletricidade começa a fazer circular
"idéias estrangeiras"
onde os motores dos carros
acordam as madrugadas das crianças
que antigamente ouviam passarinhos.

As fendas, os muros, os tetos
os buracos dos caminhos
esboroando-se no passado
alcatrão penetrando e desmentindo a mudança
cimento e cal erguendo os muros cinzentos das fábricas
saias lutando contra os panos das velhas
telefone até.

Nas almas... um grande vazio
preenchido pelos merengues que vêm de fora.

Lá - caminhos da vida
Lá no mato. Lá no campo. Lá na floresta. Lá no estrangeiro.
Lá onde se nasce, vive e morre todos os dias
com kambaritókué ou sem ele
com um lençol simples ou uma vala comum
morrendo apenas é que tudo acaba.
A vida tem de ser dignamente vivida.
Vamos juntar as nossas cobardias
os nossos sofrimentos
as nossas ansiedades
nossas angústias
nossos sorrisos
nossos sarcasmos
a nossa coragem
nossas vidas.
Vamos
Lá - no musseque - areais vermelhos
onde passam os caminhos da vida
e vamos dizer
corajosamente
às crianças que esperam o nosso exemplo
que este quintal
tem de ser estrumado com sangue
adubado de sofrimento
cultivado com as dores
mangueiras
anoneiras
gindungueiros
frutificando ao sol e ao luar
para quê dizer mais versos
que só o povo entende?

(Antologia de poesia da Casa dos Estudantes do Império. Deve ter sido escrito nos anos 60)


HUAMBO

a que depois de Stalinegrado, Barcelona, Madrid, Londres,

também foi metralhada.

Depois das grandes cidades, também há pequenas cidades.

Viemos encontrar-te destruída, na paz das tuas ruas mortas,

desertas, mas não conformadas.

No teu arquejo de vida mais forte do que o estoiro

dos morteiros e das bazookadas.

A tua fria vontade de resistir.

HUAMBO,

das casas abandonadas, de portas arrancadas,

vidros partidos, destelhadas,

as belas cidades do Mundo contemplam-te com tristeza

e silêncio,

débeis em face do teu pavoroso sofrer,

mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios

não profanados com o sangue dos mortos,

as pobres e prudentes cidades, que se entregaram sem luta,

aprendem contigo o gesto do fogo.

Também elas podem esperar.

HUAMBO,

quantas esperanças!

Que felicidade brota das tuas casas?

De uma apenas resta a escada cheia de trampa,

de outras um cano de água partido, uma torneira,

nem uma bacia de criança.

Não há livros para ler, nem um teatro, um circo,

nem trabalho nas fábricas.

Uns morreram, outros estão estropiados,

os últimos como nós escrevem em pedaços de parede

onde escrevem o que sentem.

Mas a vida em ti é prodigiosa, começaram as chuvas,

está tudo a reverdecer, os insectos pululam ao sol,

oh meu querido HUAMBO de menino, das goiabeiras,

das pitangueiras, das mangueiras, dos milharais,

dos mandiocais, dos morangais,

apalpo as tuas paredes, os muros das tuas casas

desmanteladas,

caminho solitário pelas tuas ruas

Vejo as tuas crianças passarem de batas brancas

para as escolas

uma criatura que não quer morrer e combate

nas bichas do pão, do óleo, da farinha de milho e de bombó,

uma criatura que não quer morrer e combate

contra o céu, a chuva, as intempéries, o metal das balas,

a lâmina das catanas traiçoeiras,

contra outras criaturas que combatem, que nos combatem,

combatemos contra o frio, a fome, a noite,

combatemos sempre

Em teu chão regado pelo sangue dos que tombaram,

onde apodrecem cadáveres,

hão-de florir dálias roxas como as que colhi ontem

no meu quintal .

 

Ernesto Lara Filho                                                                           Dezembro de 1976

segunda-feira, 15 de março de 2021

 

Na Índia em 1943

 

Já faz anos que escrevi uma pequena história que me veio de Goa, sobre uma carta escrita a Camilo Castelo Branco, que nunca lhe fora entregue e um dia veio parar às minhas mãos.
Quem me entregou essa carta foi um amigo da família, nascido em Goa, de família tradicional, Noronha, que se formou em medicina no Porto, casou com uma amiga de infância da minha mãe e fez toda a vida profissional na Índia.
Tempos a tempos ia até Portugal, era muito comunicativo e nós, irmãos o tratávamos por tio. Foi dele que eu ouvi, faz muito tempo esta história, que de autentica tinha o facto de esse “tio” ter conhecido bem as personagens envolvidas.
Após a implantação da República em Portugal, Francisco Manuel Couceiro da Costa foi o primeiro governador, republicano, na Índia.
Um dos secretários do Governo, que já ali trabalhava há alguns anos era José Afonso Pereira da Costa, nascido em Goa, descendente de antigas famílias portuguesas com raízes no tempo de Afonso de Albuquerque, considerado brahman pelo lado da mãe e que casara também com uma senhora indiana, Alisha Sing, igualmente de casta superior indiana.
Em 1919 nasceu o primeiro filho, aliás o único de que ficou notícia, a que puseram o nome de Afonso Singh Pereira da Costa, educado com todo o cuidado e mandado mais tarde para Coimbra estudar na universidade, onde formou em Letras Orientais, sempre preocupado em conhecer cada vez melhor as línguas da sua origem asiática, que incluíam o hindu, árabe e outras.
Formado, voltou à sua terra onde foi recebido com grande alegria e festas, que o ajudavam a melhor penetrar nos costumes, língua e história de todo o país.
Num desses encontros foi-lhe contado por um velho brahman, meio em segredo, que em toda a Índia, as festas de casamento eram espetáculos lindos, mas em algumas regiões havia por vezes detalhes que vinham de tempos muito antigos, que todos conheciam, mas de que se fazia a mais completa discrição: a noiva não podia ser entregue virgem ao noivo para que não sofresse com o primeiro encontro sexual, que em alguns casos havia dado triste resultado.
Assim os pais da noiva encarregavam alguém de total confiança para que encontrasse um jovem, bem apessoado, desconhecido, que viesse de longe, ninguém o visse, que a meio da festa era levado a um quarto, com a noiva, para cumprir o seu trabalho, que lhe era pago, saindo logo após por um canto, escondido.
Afonso, 24 anos, jamais ouvira tal história, tinha sido já convidado para vários eventos onde, regra geral, as noivas eram lindas, muito bem vestidas e maquiladas, que o deixavam de olhos arregalados.
Arriscou. Disse ao velho brahman que se prontificava para exercer, pelo menos uma vez, esse papel, com toda a educação e secretismo que era exigido. O velho riu e disse-lhe que lhe comunicaria quando houvesse tal possibilidade.
Entretanto Afonso viajou por quase todo o país, encantou-se com os monumentos grandiosos que ia visitando, e sempre aprendendo com as gentes com quem conversava.
Não demorou muito, foi chamado pelo seu “amigo”, o tal senhor que lhe havia contado o caso das noivas.
- “Olha, vai haver um importante casamento em Gandhinagar, bem longe daqui, mais de 600 milhas, e eu já avisei que tinha encontrado o jovem ideal para aquele ‘trabalho’. Educado, culto, brahman e muito correto. Aceitaram. Dei um nome fictício e vais aparecer como sendo somente मनु, Manu. Deves chegar, no mais tardar, na véspera do casamento, encontrarás ao fim do dia o pai da noiva no Hotel Cambay Sapphire, onde receberás todas as instruções.
O casamento é daqui a duas semanas, mas tens que pensar que o trem vai levar uns 3 dias. Não pares no caminho à ida. À volta poderás visitar muitos lugares interessantes. Eu te avisarei quando deves partir. Agora é só boca calada!”
Afonso ficou perplexo. Jamais algo parecido lhe havia passado pela cabeça! Ficou nervoso, quase não saía de casa, disfarçando que estava a aprimorar o seu conhecimento de sânscrito, mas sonhava com a noiva, uma noiva! Como seria ela?
Talvez fosse a mulher mais feia lá da cidade! Ou a mais bonita. E como deveria comportar-se? Entrar, cumprir o serviço e sair correndo, fugindo? Se fosse como aquelas com quem sonhava... ia ficar perdido!

                 Seria assim?                Ou assim?                                Ou ...

Chegou o dia. Avisado, entrou no comboio, naquela parafernália carregada de gente dentro e em cima das carruagens, aguentou quase três dias e ao chegar correu para o hotel, descansar. Era antevéspera, foi passear um pouco pela cidade, sempre com muito para ver, olhares estranhos o percorriam porque tinha mais cara de ocidental do que hindu e consideravam-no um turista ou talvez estudioso de arqueologia, que mesmo no tempo da guerra ainda por lá apareciam.
À noite dormiu como pôde, para à tarde se encontrar com o pai da noiva, como previsto.
Na devida altura entrou um senhor que se dirigiu a ele e só perguntou: Manu?
Afonso responde-lhe que sim, e veio então a explicação das instruções finais.
-“Espero que saiba para o que veio. Primeiro, tem que chegar a meio do dia vestido como se fosse um dos criados que vão servir a festa, e com eles se misturar. Aqui tem a roupa que deve usar. Entre na casa pelas portas traseiras. Até deve ajudar no trabalho para não levantar desconfiança.
Quando eu for à cozinha procurar um criado para fazer um serviço qualquer, você apresenta-se logo e vai comigo. Fique atento. Vou deixá-lo num quarto com o mínimo de luz possível, sem janelas e a porta trancada.
Pouco depois chegará a noiva. Ela entra, fecha a porta com a chave, e o ‘serviço’ a fazer tem que ser muito cuidadoso, sem outras intimidades (???) para não deixar a noiva complexada.
E deve levar o mínimo de tempo possível.
Depois, a noiva sai do quarto deixa a porta aberta, você volta para a cozinha e na primeira oportunidade vai embora, se possível direto para a estação do trem e regressa a casa.
Tudo entendido?
- Sim senhor.
- Aqui tem o pagamento estipulado.”
Afonso estava nervosíssimo. Nem sequer havia visto a noiva, e tinha que se comportar com muita cautela, porque se não fizesse tudo como mandava a tradição, arriscava-se até a ser morto, para não abrir mais a boca.
Dia seguinte ali vai ele, com a roupa que o pai da noiva lhe deixou, e misturou-se com uma quantidade de criados atarefados.
Bebeu um bom copo de água, estava com a boca seca. Não tardou a ser chamado.
Quando se acostumou à penumbra do quarto, viu a cama, uns cabides e cadeiras onde pudessem pendurar alguma roupa.
Entrou a seguir a noiva que mal se conseguia ver, mas à medida que se foi, lentamente, aproximando as suas feições e o seu corpo se definiam.
Muito enfeitada, o tradicional, mas linda. Nesta fase, para Afonso era mesmo linda de morrer!
Poucas palavras trocaram. Não estava previsto conversa. Só o essencial.
A noiva entregou-se, suave, e Afonso procurou ser o mais delicado e cuidadoso que era capaz. Mas a relação foi aquecendo, o que é natural, e já a noiva perdia a postura de sacrificada, para se agarrar bem ao homem que estava a amar. Sim, a amar. E quis que demorassem mais tempo do que eventualmente haviam previsto.
Afonso limitou-se por fim a perguntar-lhe, com atrevimento, porque tudo deveria ser secreto, como se chamava:
- Miska.
Afonso não aguentou ficar calado.
- Miska, você é muito bonita e deixou o meu coração apaixonado.
Ela corou, demoraram pouco mais, recompôs-se e antes de sair do quarto olhou para trás e fez um pequeno sinal, quase imperceptível. Um sorriso.
Afonso vestiu-se, arrumou-se, passou pela cozinha e correu para a estação para apanhar o primeiro trem que passasse.
Mais dois dias na volta, sempre a sonhar com a Miska. Em primeiro lugar não podia contar absolutamente a ninguém o que estivera fazendo fora de casa quase uma semana. Turismo. Depois jamais pronunciar o nome dela a quem quer que fosse e procurar apagar tudo aquilo da memória... se fosse capaz.
Pouco tempo depois despediu-se dos pais e regressou a Portugal, continuou a estudar, doutorou-se e ficou em Coimbra como professor. Solteiro. Sempre a sonhar com a Miska que lhe perturbava o descanso!
Um dia, poucos anos passados, vê um casal de turistas indianos num restaurante da cidade, ouviu-os a falar a sua língua, híndi, e procurou uma mesa por perto para ouvir falar a sua língua maternal. Quem estava virado para ele era o marido, de modo que a cara da senhora não se via.
A refeição prosseguia e de repente o marido começa a sentir-se mal, a desfalecer, Afonso corre para o ajudar, manda chamar um médico, mas tudo foi inútil. Enfarto fulminante.
Afonso só depois olha para a senhora, e algo mexeu com ele! Ela a chorar agradece-lhe, em inglês, ter tentado fazer alguma coisa.
Afonso responde-lhe em híndi, disse-lhe como se chamava e que estaria à disposição dela para o que necessitasse. Deu-lhe até um cartão de visita. Que não fizesse cerimônia.
Ela agradeceu muito e disse que se chamava Miska! Estava no hotel...
Nessa altura foi Afonso que teve que se sentar. Perdera a cor! Não teve coragem de se dar a conhecer.
Disse-lhe que fosse descansar no hotel que ele trataria de tudo quanto fosse necessário, e lhe iria dando notícias. Burocracias, complicações, como laudo médico, certidões e o que fazer com o corpo.
Procurou Miska que disse que queria levar o corpo para a Índia.
Afonso tratou de tudo. Muita burocracia, até que o assunto estava chegando ao fim.
Miska preparava-se para voltar a casa.
Afonso não resistiu. Convidou-a para jantar num recatado restaurante, tentando dar-lhe ânimo.
A conversa começou a fluir e Afonso sem saber como lhe dizer onde e como a tinha conhecido, mas aventou uma hipótese que poderia dar resultado.
Perguntou se tinha filhos, o que ela negou, com muita pena.
Afonso adiantou o que estava atravessado há anos na sua garganta:
- “Miska, você é agora uma mulher livre. Aqui em Portugal, porque lá na Índia talvez seja obrigada a casar com algum familiar do seu marido.
- É isso que receio.
- Então ouça com cuidado, e não se precipite em responder. Eu quero casar com você!
Miska corou, engasgou-se e ... nada disse.
- Vou-lhe confiar um segredo que guardo, religiosamente comigo. Mas para isso você tem que me responder se quer casar comigo. Eu tenho meios de sustentar uma família, sou professor, e não estou a brincar. Acho que nunca falei tão a sério em toda a minha vida. Além disso, como viu, falo híndi, minha mãe era goesa, bem como minha avó e por aí atrás. Não sou nenhum aventureiro a querer tirar vantagem da sua difícil situação.
- Deixe-me pensar. Estou muito confusa.
- Pense o quanto quiser, mas a partir de hoje vamos estar juntos todos os dias até você se decidir. Quando tiver a resposta simplesmente dirá: Sim, quero casar ou não quero. Se não quiser volta para a Índia.
Não passaram muitos dias. Miska acabou por dizer o tão aguardado e sofrido SIM.
Só então Afonso lhe contou o que se passara no seu casamento. Miska não havia também esquecido. Choraram de alegria agarrados, a amarem-se.
Casaram. Registo civil. Mais adiante veriam que cerimônias, religiosas, fariam.
Miska escreveu ao pai a dizer que casara com “Manu”, agora professor em Coimbra.
Afonso também escreveu aos pais e contou ao velho amigo brahman como o mundo era pequeno!
 

07/03/21

segunda-feira, 8 de março de 2021

 

Seu Ascenso e a Morte

 

Com enorme espanto li há dias que um português, doente, um tal Ascenso, num feroz acesso certamente provocado por grave desequilíbrio mental, ou num delírio covidesco, fez um terrível pronunciamento, que se pode desdobrar em duas etapas.

Prima, uma dor retroativa que muito o perturba e incomoda, por não se ter matado muito mais gente no vinteecincobarraquatro.

Não sou psiquiatra e por isso não compreendo como uma pessoa pode guardar tantos anos essa dor – já lá vão quase 47 anos !!! (Coitado do Ascenso só tinha 11 quando chegaram os vagões de cravos a Lisboa!) – sem ter sido examinado e tratado pela ciência médica. Muito deve ter padecido o Ascenso! Estar há quase meio século a sofrer, possivelmente arrependido, por não ter conseguido na altura uma bazuca ou uma metralhadora e ter saído às ruas a matar “mais gente”. Indiscriminadamente. Só mais gente.

Agora que ele está a ver como fazem os jihadistas, que matam, degolam, em qualquer altura e qualquer lugar, um monte de gente, chora o passado não mortífero que lhe perturba a mente.

Bem sei que nos dias que vão correndo, com a pandemia, os hospitais em Portugal e todo o mundo, estão abarrotados, o que impede que se interne o Ascenso, se faça um profundo e detalhado estudo do seu afetado cérebro e sistema nervoso, para que o pobre sofredor esqueça esses tempos de matança... em que ele não matou!

Secunda. A sua doença mental tem-se agravado muito nestes últimos tempos porque agora rosna, tal tigre acuado e enfurecido, contra um monumento que os portugueses decidiram erigir em memória daqueles que por obras valerosas se foram da lei da morte libertando, que arriscaram suas vidas por mares nunca dantes navegados, que enfrentaram o Adamastor, os ferozes e belicosos africanos, árabes e persas, mas deram novos mundos ao mundo.

Esse monumento saudado e admirado por nacionais e estrangeiros, o Padrão dos Descobrimentos, o Ascenso quer derrubar. Talvez pense que derrubando essa obra de todos os portugueses, com as suas 33 imagens de GRANDES figuras da história, ele se sinta realizado pelas mortes que não fez, “matando” assim uma boa mão cheia de portugueses, e dos melhores da história.

Há porém um detalhe que me está incomodando! É que se o Ascenso derrubar esse Padrão vai mexer com, pelo menos, um meu antepassado. Não lhe digo qual é porque família deve ser discreta.

E atenção ó Ascenso: eu não gosto que mexam com a minha família! Mexeu com ela... eu, que toda a vida fui profundo adepto do código do grande Hamurabi, porque é a única lei feita em todo o mundo que resolve os problemas na hora, sem mais quesitos e requisitos jurídico-político-burocráticos, vou invocá-lo.

E é bem claro quando prescreve no capítulo 197°-

Quem quebra o osso a um outro, se lhe deverá quebrar um osso.

Imagine, ó Ascenso (se eventualmente estiver em condições mentais de imaginar algo que não seja morte ou destruição) que se conseguir o seu paranoico objetivo de derrubar o Padrão, os corpos, mesmo de pedra, das trinta e três extraordinárias personagens que ali estão, vão ficar com os ossos todos quebrados. Todos.

E como ficarão os seus? Não se preocupe. Alguém vai cumprir a mais antiga lei e, como haverá muito osso a vingar, penso que o melhor é esmagá-lo totalmente, a si, ó Ascenso!

Já lhe disse que não gosto que se metam com a minha família!

Isto não é uma ameaça. Não. Nunca ameacei ninguém na minha já bem longa vida.

Mas é um aviso.

E tem mais: ameaçar destruir monumentos nacionais também é passivo de condenação em tribunal, mas como agora os tribunais estão, muitos deles, em mãos de outros alienados... pode até ser que lhe entreguem uma comenda: a Comenda da Morte a ser-lhe solenemente entregue por Caronte, com a presença do monhé e do que sobra da escória do MRPP.

Pode esperar por ela. Não tarda.

Entretanto seria bom que o resguardassem em Rilhafoles ou no Julio de Matos!

Com colete de forças e um pífaro na boca para não dizer tanta bestialidade.

*          *          *

Após ter escrito o que vai acima, pesquisei na Internet e o Ascenso lá está!!! Ou a discutir na rua e ofendendo o povo, ou discutir com grosseria adversários políticos. Belo CV também cheio de cursos e mestrados e bacharelatos, e comissões e presidências, etc.

Enfim tudo o que uma pessoa pode reunir para inflar o seu ego, ser grosseiro e depois... endoidar!

Mas vou-lhe contar uma coisa, seu Ascenso: não há muitos anos escrevi um texto no meu blog, sobre história de Portugal, que enaltecia diversos feitos e a seguir lastimava que após a tão apregoada democracia-demagoga, se tenha vindo a destruir o país. Como hoje você e sua camarilha estão a fazer.

Um dia depois recebo num comentário no blog uma ameaça de morte! Dizia mais ou menos:

“Ó pá! Já te estou a ver! Quando vieres a Portugal (eu moro no Brasil) vou-te matar!”

Estranho. Respondi de imediato ao anônimo ameaçador/matador, para que marcasse dia e hora para nos encontrarmos e ele me poder matar. (Os anônimos são muito machos!)

Logo o provedor tirou isso do blog, mas ainda fui a tempo de guardar uma cópia que tenho guardada.

Agora fico a pensar se não seria o Ascenso que me tenha feito essa ameaça! Você queria que tivesse morrido muita gente no 25/04. Logo eu que nessa altura vivia em África, gente a quem o Ascenso tem uma raiva danada. Ele que só sabe onde fica Angola pelo mapa!

Se foi você que me ameaçou... ainda vai a tempo. Deixa o Covid baixar um pouco eu irei a Portugal e poderá então cumprir a sua ameaça.

Não se preocupe porque não levarei nenhuma arma, nem seguranças, nem aviso a polícia. Nem testemunhas. Vou só para ver aonde está a machice dum boca-rota, ignorante.

Atenção: espero que o Covid não o liquide antes de eu aí poder chegar.

 

06/03/21

  

sábado, 27 de fevereiro de 2021

 

Ética - 2021

 

Há 13 anos escrevi, com o título É  ÉTICA  ou  É TITICA ? um texto que podia ser hoje transcrito porque nada mudou para o bem, pelo contrário, evoluiu para pior. Começava assim:
Ética é um assunto que vem sendo discutido, pensado, matutado e até complicado por pensadores, filósofos, teólogos e outros matutos, desde há milênios até aos dias de hoje, divergindo os mais modernos à medida que vai evoluindo o conhecimento científico.
Concordam com uns aspetos, discordam de outros, mas para leigos obtusos, como eu, fica sempre no ar uma pergunta inocente: “Será que a evolução científica tem algo a ver com a ética, sendo esta simplesmente a “ciência” da moral e dos costumes?”
Segundo alguns desses pensadores “o Estado representa o ponto de partida e de chegada na ética...” E se o Estado nega todos estes princípios, desmontando de forma implacável tudo aquilo que levou milhares e milhares de anos a definir, permitindo os mais sujos jogos de corrupção, apadrinhamento, enriquecimento ilícito, corporativismo, e outras práticas abomináveis? Como ficamos?
Etc.
Agora que ando a desfazer-me de muitos livros que enchiam uns 75 metros lineares de prateleiras (já mandei, e vou mandar mais, para Moçambique, doei pra uma biblioteca de uma das favelas do Rio, vou dando a filhos e um dos netos que sobrou aqui pelo Rio, a amigos, etc.) vou pegando num ou outro que não me lembro de ter lido (sempre lá encontro uns pequenos pontos, sinal que o li!) e chamou-me à atenção um deles, pequeno, exatamente Ética, edição de 2003, escrito por quatro intelectuais brasileiros, e encontrei lá frases e ou pensamentos interessantes.
Diz um deles que hoje vivemos, não uma época de mudanças, mas uma mudança de época. Bonito, hein! Não sei o que o senhor pensador/intelectual quis dizer com isso mas é uma frase de efeito.
Um pouco adiante começa a ser um mais conciso: O mercado é o novo fetiche religioso da sociedade em que vivemos. Dantes os nossos avós consultavam a Bíblia diante dos fatos da vida, depois nossos pais consultavam a meteorologia “Será que vai chover?” Hoje consulta-se o mercado: “Será que o dólar desvalorizou? Subiu a Bolsa?” ao ponto de alguns crânios, nas suas poltronas, face a uma agitação qualquer só pensarem no “vamos ver como o mercado reage”!
Sempre houve publicidade, desde sempre, mas hoje em dia a publicidade é uma  irrefreável lavagem cerebral. Educação e cultura não estão mais na visão de futuro.
Só “felicidade”! Famintos de felicidade egocêntrica. E os publicitários ocuparam essa vaga: abre-se o telefone celular e entre cada notícia, quando não é notícia mas mentalização política, há dezenas de anúncios, de carros, soutiens, pílulas para emagrecer, outras para aumentar a potencia sexual masculina (alguns garantem que aumenta 15x... o que eu gostaria de ver!), outros prometem que podem aumentar também o pênis em 10 cm. (devem ficar iguais a burros antes de cobrir a burra), descontos em faculdades (sobretudo naquelas que nem para instrução primária deveriam abrir), relógios, joias, clínicas de estética, agências de viagens que prometem até 80% de desconto, roupas para “elegantes”, dezenas ou milhares de produtos de beleza e de rejuvenescimento, fotos de homens e mulheres que malham nas academias e não tarda apodrecem, importantes notícias sobre lésbicas que trocaram de parceiras, idem para gays, no computador é igual, e na TV filmes super asquerosos, com intervalos intermináveis carregados de publicidade, novelas com um nível de baixaria doentio, revistas pornô, Playboy e Playgirl e por aí vai, sem fim, o que leva a humanidade à alienação.
É o supérfluo a inflar o ego. Raros são já os que olham para dentro! Só para o espelho e para as revistas de fofoca à procura de se igualarem com os “famosos”!  Milhares sonham em conseguir participar de uma novela. Outros mais vivaços começam a cantar, apesar da música brasileira hoje ser pouco menos ainda do que lixo, e ganhar milhões de fãs e dinheiro. Elas despem-se para cantar por é o que têm para mostrar, eles, gritam, dizem obscenidades e... Outros são a nova moda dos influencers digitais, alguns conseguindo milhares de seguidores e ganhando dinheiro que a publicidade lhes dá.
Mas a grande preocupação da maioria da juventude é arranjar, não um trabalho, mas um emprego. Sobretudo funcionário público onde as regalias são inúmeras e o futuro parece garantido. 
No antigamente (eu sou do muito antigamente) namorava-se, ficava-se noivo, casava-se, e a grande maioria se a malvada não batesse à porta comemoram as bodas de prata, de ouro e, já raros, um pouco mais.
Dantes casava-se para criar família, para se respeitarem. Sempre entre os casais houve momentos de discórdia e tensão, mas o conceito de família e respeito prevalecia. Hoje... casa, se casa, descasa, namora que é o antigo conceito de amancebar-se, ao mínimo desacordo troca-se de mulher ou de homem, voltam a ser namorados, separam-se, namoram e... e, cadê a família? 
Há uns resquícios de famílias, enquanto existirem ou “velhos”. Depois... tende a implodir.
No meu tempo (bota tempo nisso) os mais velhos (ainda) me diziam “vais casar, mas olha que não deves pagar mais de 1/6 do teu salário pelo aluguer!” Hoje os jovens acabam não podendo casar, a menos que ganhem muito bem, ou então um trabalha só para pagar o aluguer e o outro para as restantes despesas! Resultado, filhos ficam para um dia se... e sobretudo na Europa, para que os países não fiquem desertos, em muito breve tempo, há que receber o máximo possível de estrangeiros, sejam eles, asiáticos, semitas, africanos, cristãos ou maometanos.
Que importa? As igrejas, as que não são comércio, esvaziam-se, não há vocações sacerdotais, as sinagogas, idem, os mosteiros vão-se abandonando ou transformando em hotéis, sobram as mesquitas, cheias!
Será que os maometanos têm mais religiosidade do que os outros?
Não. Só conseguem, aliás só os deixam ver o cisco nos olhos dos outros sem que vejam as toras, imensas, nos seus próprios olhos. E ouvem a mentalização de que um dia tudo será deles.
Será uma questão de espiritualidade?
Evidente! Parece que não há tempo para as pessoas olharem para dentro de si mesmas, para procurarem dentro de si o que lhes falta, que é muito simples: falta-lhes o Outro.
Hoje não sobra tempo para olharem para o Outro, aquele, igual a nós, rico ou pobre, para todos aqueles que deveriam ser e são mais excluídos, mas parte da nossa família. Somos todos da mesma Familia Hominidae (que, por muito que alguns não gostem, compartilhamos com os gorilas, chimpanzés, orangotangos) e dizem que até alguns humanos são sapiens, o que parece estranho face à estupidez que grassa como vírus (pior do que o Covid !).
Vale citar Hannah Arendt quando ela disse que o alheamento é uma forma pela qual se manifesta a banalidade do mal. As pessoas alheiam-se de si próprias, do que passa à sua volta, só lhes interessa o seu umbigo! O mal pode correr mesmo ao seu lado, mas... se não é comigo... não me meto!
Hoje quer-se refazer a história. Querem condenar os que, mesmo há milênios já condenavam as atitudes de agora! Édipo foi um infeliz. Sem saber, matou o pai e casou com a rainha que era sua mãe. Quando tomou conhecimento de tamanha desgraça, chorou, abandonou tudo e sumiu. Apesar desta peça de teatro ter 2.500 anos, entretanto houve muitos “édipos” que se refestelaram matando pais e mães, dormindo com irmão filhas e mães e... dando risada!
Vergonha desapareceu! Cresce a ganância, a inveja e a estupidez.
Um dos nossos netos, vivo, dinâmico, inteligente (chega de encômios, mas teria mais para defini-lo!) foi chamado por um deputado estadual para ser seu Assistente Parlamentar, e só tinha 17 anos. O tal deputado, como os outros TODOS dispõem de uma verba mensal de R$160.000 para contratar assessores (Loucura, mas é o que reza a legislação... que ninguém se atreve a alterar) o que dá para uns vinte (20) penduras que não fazem ABSOLUTAMENTE nada.
Pois bem, o nosso neto, que não se vende, quis alterar o sistema de comunicação entre essa turma de vagabundos, porque todos usavam (e continuam usando) o Whatsapp para se comunicarem. Todos querem perguntar a este, aquele a esta, e assim ficam o dia todo sem nada resolverem. O novo assessor propôs alterar o sistema, por outro MUITO mais eficiente. O que foste fazer!!! Os mais antigos disseram que era complicado mudar o sistema, que isto e mais aquilo e tentaram crucificar o jovem! O deputado, que o respeita foi obrigado a dispensá-lo! Progresso aqui é assim, na política.
O neto, agora muito mais velho, 18 anos, não parou, nem de  estudar e no mesmo dia estava de volta na empresa de onde tinha saído!
Já escrevi o que vou reconfirmar:
Estava no Brasil há uns 3 ou 4 anos e um dia fui visitar uns possíveis clientes, num bairro de grã-finos de São Paulo, sábado. Havia uma festinha porque o filho fazia 18 anos. Não quis entrar mas insistiram e lá fui eu. Churrasco e cerveja a correr, amavelmente sentaram-me na mesa do dono da casa, onde estava um seu irmão, na altura deputado da Arena, o partido do Governo militar que começava a afundar-se porque se tinha aberto a lei para entrarem novos partidos. Este disse-me que se ia candidatar ao novo partido MDB, da oposição aos militares, e eu logo lhe fiz a minha previsão: “Não vai ser eleito! – Porquê? – Sai do partido do governo e quer entrar logo na oposição? O povo tem memória curta, mas não tão curta! – O senhor acha isso? – Não tenho bola de cristal mas tudo parece ser lógico.”
A conversa seguiu e depois perguntou-me (eu tinha já uma razoável experiência de vida, 46 anos com 20 anos em África, que eles nem sabiam onde ficava Angola!) como eu achava que se devia resolver o problema do Brasil, seu crescimento, etc. A resposta foi fácil:
- Seguir a filosofia chinesa! Se os teus planos forem a 1 ano, semeia trigo, ou milho; a 10, planta árvores, a 100, educa o povo!
- Cem anos ???
- Sim, depois que na verdade e com qualidade começarem a educar o povo. Todo. E parece que isso está ainda longe.
São passados mais de quarenta anos desta conversa.
Hoje o problema do Brasil está muito mais complicado.
Não se educa o povo, a corrupção corre solta (em 1980 era rara) o tráfico domina as cidades, agora com máfias que se chamam milicianos, os desgracentos “Direitos Humanos” não deixam resolver o problema que só irá a tiro (infelizmente), o país já não é governado por um Presidente, mas por uma pandilha, que domina o STJ, o mundo inteiro malha no Presidente porque não alinha com a tsunami mundial de uma mistura marxismo/capitalismo (que se está a entender às mil maravilhas), e o caminho para uma nova época, para uma revolução mundial, caminha a passos largos.
Quando um intelectual, que começa por escrever... “nós os intelectuais”, se orgulha de ter sido secretário de um governo no Rio de Janeiro, quando era sabido que o governador foi um dos maiores ladrões de todos os que por ali passaram, como pode falar de ética? Se toda a gente sabia que o governador era um corrupto e um vendido, como pode um indivíduo que se diz ético trabalhar sob sua orientação! Cadê a tal ética? Algo vai mal no reino da Dinamarca!
No livro em questão, outro dos autores, e que eu considero, engenheiro, como técnico põe o dedo na ferida:
“Os intelectuais saíram da liberdade do mundo onde agiam e pensavam e se alojaram dentro das universidades, aprisionados pela categorização do pensamento em cada departamento. Transformaram-se em doutores e professores, e esqueceram de pensar. Perderam a liberdade de pensar e caíram na malha da burocracia acadêmica... A situação é tão patética que aquele que tentar escrever em linguagem acessível ao grande público deixa de ser reconhecido entre os colegas”.
Daí o ensino que temos. Primeiro agradar ao status quo e depois...
Parece que não há mais professores como um Agostinho da Silva, Sófocles ou bem mais perto de nós um Ariano Suassuna.
Em 01/06/03 escrevi o seguinte texto sobre
Os Intelectuais 
Até hoje ainda não entendi bem o que é ser-se “intelectual”, menos ainda os que se afirmam “nós, os intelectuais”, uma vez que a simplória significação de referente a intelecto, e este ser a faculdade de compreender, não convence, já que qualquer cão compreende muito bem, mesmo, muita coisa que lhe dizemos e ainda outras que somos nós que não compreendemos!
Também não encontrei um antônimo para esta palavra, que proporcionasse um outro tipo de aproximação ao seu significado real. A não ser que os antônimos sejamos nós, os Outros, os que não nos auto proclamamos.
Não faltam intelectuais. Sobretudo aqueles que bramam contra os governos, que despejam sobre nossas cabeças e ouvidos frases lindas, cheias de referências a outros intelectos - que não os cães - que apontam, dedo mais ou menos em riste, o que está mal no mundo, nas sociedades, na nossa desequilibrada sociedade.
Todos, intelectuais ou não, como o meu caso, que sem qualquer falsa modéstia não me considero nada mais do que um comum, sabemos que muita coisa está mal, péssima, na nossa sociedade, mundial e especificamente brasileira, na concentração de renda, na miséria, etc.
Bramam contra isso os 170 milhões de brasileiros, descontados os tais 10% dos mais ricos, mas todos esperamos, ou antes, temos esperado, que dos eleitos cérebros desses auto proclamados intelectuais venha a grande revelação: a fórmula para acabar com este estado de coisas.
Aí... o tal intelecto parece sofrer um bloqueio e emudece!
Entretanto os mesmos intelectuais, normalmente autointitulados também de esquerda, já que parece não haver intelectualidade na direita - geometria curiosa esta - publicam livros, teses de mestrados ou superiores, crônicas em revistas, encaixam-se em cargos políticos, e acabam por deixar, a quem lê, uma espécie de amargo de boca igual ao que nos provoca o cheiro daquele feijãozinho minêro maravilhoso, mas que... não nos é servido!
Senhores intelectuais e/ou intelectualóides: apontar o mal é fundamental. Mantê-lo ou viver à custa dele já é crime, no mínimo de consciência.
Porquê havemos de ficar o resto da vida, farisaicamente a apontar os males e virar a cara para o lado quando esse mal nos passa mesmo ao lado?
Há dois mil anos um Homem, a quem jamais alguém chamou de intelectual, mas de Simples, trouxe a solução: “Faz! Faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti.”
Não tenhais medo de morrer pelo “ideal” intelectualmente apregoado nos vossos discursos acadêmicos ou políticos ou comerciais, na venda das “vossas ideias”, conhecidas há milênios, e mantidas no mesmo status quo, que tão bem serve a esquerda quanto a direita, mas não serve ao povo, à sociedade.
 
Hoje, se não está na mesma, está pior!
E continuam a faltar 100 anos, além do que falta para começar um verdadeiro ensino e alcançarmos a igualdade.
Utopia? Será. Só é necessário passarmos todos as ser utópicos.

 

27/fev/2021