quarta-feira, 18 de setembro de 2013



Muito Prazer em  Conhecer !


É sabido que o brasileiro tem um tremenda capacidade para inventar nomes estapafúrdios para registrar os filhos. Mas, normalmente só os nomes próprios, que dos sobrenomes guardam os Silva, Pereira, Costa, Mendes, etc., que não querem perder.
Há algumas pérolas, aliás milhares de pérolas, tais como Cincero do Nascimento, Bispo de Paris, Carabino Tiro Certo, Céu Azul do Sol Poente, Chevrolet da Silva Ford, Clarisbadeu Braz da Silva, Colapso Cardíaco da Silva, Benedito Frôscolo Jovino de Almeida Aimbaré Militão de Souza, Arquiteclínio Petrocoquínio de Andrade, Caso Raro Yamada, as irmãs Xerox, Autenticada e Fotocópia, ou os irmãos Cedilha, Vírgula, Cifra e Ponto, etc. Uma maravilha.
Em Portugal, regra geral ficaram-se pelos Maria, Madalena, Ana, Manel e Jaquim, José, João, Francisco, António e etc., exceto a “alta nobreza” que, como o rei D. João VI, se alargava em nomes, como se isso lhe acrescentasse grandeza, e se chamou João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís António Domingos Rafael de Bragança, filho de Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana de Bragança, a Louca, e pai de Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon (o I do Brasil e IV de Portugal) - como eram modestos! - mas o que, no século XIX irrompeu como enxurrada, foram, na “terrinha”, os sobrenomes que as famílias se deram. Queriam diferenciar-se e assim...
Além de já ter alugado um armazém a um senhor Parcelas, porque o pai em vez dum terreno grande herdara uma quantidade de pequenas parcelas e assim ficou conhecido, tenho colegas e amigos Lebre, Cabrito, Vaca, Leite, Pato, Lobo, Sal, Salgado, Chichorro, Sardinha, Peixinho, Pavão, Banha, Uva, Paleta, etc., e alguns mais indigestos, como Rato, Gato, Raposo, Leão e outros.
Só com os nomes portugueses pode montar-se um cardápio completo, sem esquecer as alfaias necessárias, como Prato e Copo, Frigideira, e “oferecer aos clientes” o prato Frio ou sopa Morna, sempre servindo Pão, Pãozinho, Pão Alvo e até Pão Duro, além de Farinha para uma farofa.
Para os pratos de substância tem, além da Vaca e da Paleta, Costela, Bucho, Tripas, Chouriço e Presunto, Borrego e Cabrito, Coelho, que se podem acompanhar com Tinto, Branco, Cerveja e até, no final, um Generoso cálice de vinho do Porto ou uma Aguardente ou um Conhaque Velho! Para os que sofrem do estômago aconselha-se um copo de Leite ou Coalhada.
Peixes tem de montão: desde Bacalhau a Pescada, Garoupa, Cachucho, Carapau, Truta e Tuna, regados com bom Azeite, podendo ser acompanhados de Batata.
Fruta também não falta: Uva, Laranja e Pêssego encontra-se com facilidade, e no fim de tamanho repasto o “freguês” paga um Vintém, um Pataco, e se for mais abastado alguns Dobrões.
Por fim, bem comido e bebido pode o indivíduo refestelar-se numa macia espreguiçadeira, e tomar o seu Café e fumar um Charuto, um Cigarro ou, à moda dos velhos marinheiros apreciar o seu Cachimbo, tendo o cuidado de não deixar cair as Cinzas no chão.
Não é comum mas até pode beber o vinho por uma Palhinha!
Bom Apetite.

(N.- Quem quiser ver mais nomes de brasileiroes pode, por exemplo ir para

26/08/2013


sexta-feira, 13 de setembro de 2013



Vira Casacas


O mundo já foi dos valentes? Às vezes! Porque tantas vezes foi dos covardes, dos traidores, dos Vira Casacas, e hoje cada vez mais. E sobretudo dos ladrões e corruptos (desculpem a insistência!)
A história dos lusitanos começa com uma dessas cenas tristes, quando as grandes legiões romanas, sempre derrotadas e enxovalhadas por um punhado de valentes que não queriam vender a sua terra, encontraram a maneira mais vergonhosa de se verem livres do maior heroi seu inimigo: Viriato.
Subornam com presentes e promessas de riqueza os três enviados de Viriato para as negociações de faz, para que estes o assassinem. E assim acabou na Lusitânia a oposição aos romanos!
A história dá muitas voltas, e sempre é contada pelos vencedores. Os vencidos perdem tudo e o mundo perde, sempre, a verdade.
E, vergonhosamente, cada vez mais se cultuam os criminosos. Dos tempos mais recentes até o Hitler tem cada vez mais seguidores; por todo o lado se vêm surgir bandeiras com a suástica. Enaltece-se ao topo os “heróis” assassinos, frios como Che Guevara, a (des)governança brasileira continua a beijar a mão e financiar o Fidel, os marxistas-capitalistas, os que em nome da “liberdade” por aqui mataram, sequestraram, assaltaram, são hoje os heróis venerados e... temidos!
E assistem-se a cenas de verdadeira degradação moral.
Há dias o jornal “O Globo” veio publicamente pedir desculpas por ter apoiado o golpe militar de 1964! Diz que se enganou!
Meu Deus! Como é possível tamanha falta de vergonha e carater? O golpe militar deu-se (em 1964, há quase cinquenta anos!) porque o país estava a entrar no caos: sargentos da marinha a mandar nos almirantes, cabos em coroneis, e os meninos terroristas-marxistas – dilminha, dirceuzinho e outros zinhos – a obedecerem às ordens do soviete supremo a quererem apoderar-se do Brasil.
Até no Chile o Allende é que virou herói, ele que igualmente conduzia o país direto para a bancarrota!
É evidente que as ditaduras brasileira e chilena, com base na argumentação de porem ordem na casa  - que puseram – cometeram barbaridades inesquecíveis e imperdoáveis. Mas que na ocasião tinha que se dar um “chega p’ra lá” nessa corja a soldo do comunismo, que faliu em todo o mundo, lá isso tinha.
Os chineses que sempre foram espertos e de sorrisinho amarelo, não tiram os retratos do Mao, porque ainda há muita gente que o venera; mas a verdade é que tal como o seu amiguinho Yosip Stalin foram os maiores assassinos da história. Hitler vem em segundo lugar, porque ele se atirou ao povo judeu que sempre quis considerar-se uma nação à parte dentro de outra nação, e isso deve ter sido o seu principal erro. Mas Mao e Stalin dizimaram, aos milhões, os seus próprios cidadãos. E os “herois” (des)governantes de hoje ainda querem seguir o seu exemplo! Assim como o do Fidel que mantém o povo cubano em situação de miséria, servindo-lhe de material de exportação, como gado.
O Brasil está a condecorar e indenizar as famílias dos que morreram nas guerrilhas subversivas, mas ninguém ainda levantou a voz para falar nos soldados e outros assassinados pelos revoltosos.  São mais de uma centena executados friamente pelos “patriotas vermelhos”.
“Virar a casaca” hoje é até bonito. Olhem, por exemplo, o “seu” Durão Barroso, hoje o bam-bam-bam presidente da União Europeia depois de ter sido um ativista maoista!
E nesta terra, agora que o “pt” agarrou o poder que parece não vai largar tão cedo, “O Globo”  mostra-se arrependido! Evidente! Com a dinheirama que o governo lhe dá ele tem que estar muito arrependido e não falar nos escândalos do lula pai, do filhinho, e de mais a caterva de sequazes de outros “arrependidos” ou “tradicionais”.
Político é como rato em navio que mete água: muda rapidamente para outro partido, e como a filosofia partidária só é forte na medida em que o “representante do povo” tem acesso ao dinheiro “da viuva”, qualquer partido serve.
Há anos que estamos a assistir a uma interminável novela: o julgamento do famoso “Mensalão” e da corja que nele participou. Mas... os juízes do “supremo” vão-se aposentando e entram alguns que até há pouco eram advogados dos réus! O julgamento corre a uma velocidade “negativa” e estamos agora a prever que alguns dos mais vergonhosos dos réus se “arriscam” a ter uma peninha do tipo prisão domiciliar.
Se isto acontecer o descalabro e a violentação da opinião pública será desastrosa.
Mas alguns juízes também mudam e viram facilmente a casaca, porque com tanta lei, tanta lei, basta invocar-se um artigo qualquer para que tudo pare para se analisar essa situação.
E os réus já estão a preparar o festim da impunidade.
Juiz a virar a casaca?
Tu quoque?


13/09/2013

segunda-feira, 9 de setembro de 2013


Histórias e Memórias

Os Portugueses


Faz tempo, lá pelos idos dos anos 60, descobri que para conhecer os portugueses “que deram mundos ao mundo”, deveria ter já lido o livro que me fez conhecer a índole e alma daqueles de quem eu sabia descender e pensava conhecer.
Mas, até então, nunca havia encontrado explicação para o “estar no mundo”, durante tantos séculos. Foi Gilberto Freyre com o seu famoso livro “Casa Grande e Senzala” – mais tarde estupida e covardemente condenado e criticado – que me fez conhecer e compreender melhor a gente da minha “raça”, a posição do português e a sua marca deixada em todos os continentes.
Não esqueço nunca uma frase do mestre Gilberto Freyre, quando se referia aos portugueses que ele visitara no interior de Portugal, gente humilde, simples, rija, quando dizia “adoro analfabetos”!
São os “analfabetos”, os simples, os que têm garantido “o reino dos céus”.
Antes disto foram talvez a Alda e o Ernesto Lara com os seus poemas, que ainda hoje conseguem arrancar humidade dos meus olhos, que me ajudaram a melhor ver o Outro.
Agora um outro livro, “Um olhar para Portugal no Mundo”, do Prof. J. Paiva Boléo-Tomé, traz alguns elementos, novos para o olhar de incultos, que nos obrigam a, bem devagar, mastigar as páginas de feitos sublimes que conseguiram preservar a memória dos Portugueses no Mundo.
Em finais do ano passado, neste mesmo blog escrevi sobre a memória dos portugueses na Indonésia, em ilhas distantes de tudo, infelizmente, chamado de civilizado. Ali se cultua com respeito e devoção a grandeza de alma daqueles que um dia lá chegaram em pequenas cascas de noz e os trataram como irmãos.
De tudo o que este livro de Boléo-Tomé nos relata, evidencia-se uma das maiores obras, que em todos os tempos marcaram a presença portuguesa por TODO o mundo: as Misericórdias, os hospitais que foram das primeiras obras a serem criadas aonde chegavam os navegadores.
Hospitais que nos fins do século XV foram organizados de molde a poderem, ainda hoje, servir de modelo de organização e eficiência, com objetivos perfeitamente definidos, sobretudo quando manda que nessas instituições sejam tratados, de igual forma, ricos e pobres, cristãos, judeus ou pagãos.
E as Misericórdias espalharam-se por todos os cantos do planeta, com um sucesso ainda hoje bem real.
A de Goa, fundada no primeiro quartel de quinhentos, onde se internaram até rumes (os muçulmanos nossos adversários na Índia) obra que espalhou o nome dos portugueses pelo Industão, e todo o Oriente; a do Rio de Janeiro, fundada de urgência em 1582 para tratar de marinheiros espanhóis que estavam morrendo de escorbuto; o primeiro hospital do Japão, fundado pelo jesuita Luis de Almeida em 1525, onde se criou uma autêntica escola de medicina – Nanban-Ryu-Igaku-Geka – e hoje de tal forma reconhecida que em 2009, em Oita, ilha de Kyushu, foi inaugurado o novo edifício do hospital, com toda a tecnologia moderna, mas mantendo o nome de Hospital Luis de Almeida.
E foram centenas as misericórdias criadas pelos portugueses: Ceuta, Macau, Bahia, Luanda e sempre e onde conseguiam um pedaço de terreno para comerciar e tratar dos doentes.
Duas pequenas histórias, ouvidas e vividas, me ascendem à memória, e que ilustram bem  o tal “modo de estar” ou de “ser”.
Lembro...
Do que me contou um capelão do exército que tinha estado na Índia com tropas portuguesas. Nos hospitais indianos os párias, a última e mais baixa e pobre classe de gente daquelas paragens, gente desprezada, considerada imunda e lixo, quando adoecia, e adoeciam muitos porque viviam miseravelmente, eram confinados em isolamento e os médicos não se dignavam sequer visitá-los! Eram párias, e pária era quase abaixo de gente! Os médicos portugueses eram os únicos que o faziam sendo sempre objeto de reclamação dos colegas hindus! O próprio capelão lá ia todos os dias levar um pouco de consolação àqueles segregados, mesmo não sendo eles cristãos!

Em Luanda, um dia, acompanhei o grande ator Raul Solnado (que Deus o tenha), a visitar o Hospital Militar. O diretor, amável, foi-nos mostrar as salas de tratamento, de operações, as enfermarias, etc. e, à porta de uma delas estava postado um soldado, equipado e de arma na mão! O Solnado, como eu, achou aquilo estranho, e o diretor então explicou-nos: “ ali naquela cama – era uma enfermaria com umas oito camas todas com gente estropiada, pernas e cabeças engessadas, braços levantados com pesos, enfim um espetáculo de guerra – está um terrorista que foi apanhado numa operação”. E o Solnado, olhos arregalados: “Vocês tratam aqui dos terroristas, e ao lado dos soldados portugueses?” – “Tratamos.” – “E depois o que lhe fazem? – “Quando estiver curado mandamo-lo embora. Aquele, por acaso, é a terceira vez que é apanhado ferido e que nós tratamos.”
O Solnado pareceu entrar num mundo irreal; pediu um café, forte, tanto mais que a seguir ia dar um espetáculo para os doentes, e não podia ir entristecido. Tinha que os fazer rir! Não dava para acreditar. Portugal em guerra, apanhava os inimigos feridos, tratava deles como se fossem portugueses e depois... deixava-os ir embora!!!
Passa pela cabeça de alguém que qualquer outro povo – ingleses, franceses, americanos, espanhóis, etc. – fosse capaz de tais atitudes? Jamais.
Coisa mesmo de português! Que estes poemas identificam:
Primeiro, um pouco da grande poetisa de Angola, Alda Lara, médica, que morreu muito nova:
Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão,
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras ...
E o meu suor se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!
E agora um pouco mais do seu irmão, o Ernesto Lara Filho, também de Benguela:

Nesse tempo, Edelfride,
Com quatro macutas a gente comprava
Dois pacotes de ginguba na loja do Guimarães.
Nesse tempo, Edelfride,
com meio angolar a gente comprava
cinco mangas madurinhas no Mercado de Benguela.
Nesse tempo, Edelfride,
montados em bicicletas a gente fugia da cidade
e ia prás pescarias ver as traineiras chegar
ou então à horta do Lima Gordo
no Cavaco comer amoras fresquinhas
Nesse tempo, Miau,
(alcunha que mantiveste no futebol)
nós fazíamos gazeta da escola coribeca
e íamos os quatro jogar sueca
debaixo da mandioqueira.
Era no tempo
em que o Saraiva Cambuta batia na mulher
e a gente gostava de ver a negra levar porrada.
Era no tempo dos dongos da ponte
dos barcos de bimba
dos carrinhos de papelão
Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!
Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira brava
para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias do Ferreira Pires
que tinha aquele quintalão grande e gostava dos meninos.
Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar.
Mais tarde vieram os passeios noturnos
à Massangarala e ao Bairro Benfica.
E o Bairro Benfica ao luar
O poeta Aires a cantar
(Meu amor da rua onze e seu colar de missangas...)
Tudo era bonito nesse tempo
até o Salão Azul dos Cubanos (*)
e o Lanterna Vermelha - o dancing do Quioche.
Foi então que a vida me levou para longe de ti:
parti para estudar na Europa
mas nunca mais lhe esqueci, Edelfride,
meu companheiro mulato dos bancos de escola
porque tu me ensinaste a fazer bola de meia
cheia de chipipa da mafumeira.
Tu me ensinaste a compreender e a amar
os negros velhos do bairro Benfica
e as negras prostitutas da Massangarala
lembras-te da Esperança? Oh, como era bonita
[essa mulata...)
Tu me ensinaste onde havia a melhor quissângua de Benguela:
era no Bairro por detrás do Caminho de Ferro
quando a gente vai na Escola da Liga.
Tu me ensinaste tudo quanto relembro agora
Infância Perdida sonhos dos tempos de menino.
Tudo isso te devo companheiro dos bancos de escola
Isso e o aprender a subir aos tamarineiros
a caçar bituítes com fisga
aprender a cantar num kombaritòkué
o varrer das cinzas do velho Camalundo.
Tudo isso perpassa me enche de sofrimento.
Diz a tua Mãe
que o menino branco um dia há-de voltar
cheio de pobreza e de saudade
cheio de sofrimento
quase destruido pela Europa.
Ele há-de voltar
para se sentar à tua mesa
e voltar a comer contigo
e com teus irmãos e meus irmãos
aquela moambada de domingo
com quiabos e gengibre
aquela moambada que nunca mais esqueci
nos longos domingos tristes e invernais da Europa
ou então aquele calulu de dona Ema.
Diz a tua Mãe, Edelfride,
que ela ainda me há-de beijar como fazia
quando eu era menino branco bem tratado
quando fugia da casa de meus Pais
para ir repartir a minha riqueza com a vossa pobreza.

E pensar, aliás, saber, que ainda existem muitos, muitos, com complexo de “vira-lata” que preferiam ser descendentes de ingleses, holandeses ou americanos!
Algum deles fez um outro Brasil? Ou preocupou-se com os pobres, ou estendeu a sua mão branca a outra mão negra?
O sonho de Luther King há muito, e em muito lugar, já se havia concretizado!
Por quem?


07/09/2013

quarta-feira, 4 de setembro de 2013



A 2ª Regata em Luanda

e outra 105 anos mais tarde!


Luanda, no século XIX, não tinha muitos entretenimentos! Pouco mais do que algumas récitas nos três teatros da velha Loanda, quase sempre com os mesmos atores, personagens importantes da vida da cidade e, sempre atentos aproveitavam quaisquer acontecimentos, sobretudo na metrópole, e até no Brasil, para festejar. Do mesmo modo a chegada e partida do governador, o seu aniversário, tudo era pretexto para quebrar a monotonia, morna, daquela terra.
E assim, em prosseguimento dos festivais já levados a efeito, para comemorar o nascimento do Príncipe D. Carlos, a “Associação Naval de Loanda”, de que era presidente o Governador Geral e vice-presidente o Chefe da Estação Naval, como tinha feito em Janeiro desse ano por ocasião do casamento de El-Rei D. Luiz, realizou no dia 29 de Outubro de 1863 mais um festival náutico.
O gosto pelos desportos náuticos parecia ter-se inveterado nas predileções da sociedade luandanse desde o estabelecimento da “Associação Naval de Loanda”. Organizavam-se regatas, com aparato de música e festa a que concorriam aos convidativos prémios embarcações pertencentes a cavalheiros abastados da cidade. E as senhoras aproveitavam a oportunidade para exibirem elegâncias, desejosas de se tornarem notadas num espetáculo a que a presença do Chefe da Província dava um prestígio cerimonioso.
Na manhã desse dia logo pela manhãzinha saía do Caes da Alfandega em direção à Ilha um escaler conduzindo o Governador e algumas damas convidadas. No rasto da embarcação de S.Exa. singravam, em alegre revoada, 14 barcos de remos servindo-lhe de escolta, onde se viam também muitas senhoras.
No cais da Ilha aguardavam respeitosamente os cavalheiros que constituiam a direção do Clube.
A banda de música do Batalhão de Infanteria n° 1 executou várias peças e a seguir o Chefe da Estação Naval deu instruções ao Capitão do Porto para posicionar as balisas para começarem as regatas.
A um sinal de tiro de peça, 6 escaleres a 4 remos, soltaram a carreira sobre a balisa.
Na melhor ordem voltaram, encalhando na praia, com o escaler “D. Izabel” que saiu vitorioso.
Meia hora depois e colocadas as embarcações de 5 remos, a outro tiro de peça partiram 4 escaleres sobre a balisa, voltando à praia da Ilha com a vitória da baleeira “Augusta” que mais uma vez venceu o escaler “Airam” e o “Sem Nome”, que protestou, com espírito, contra os que lhe haviam tomado a dianteira, o que deu mais diversão ao ambiente.
Seguiu-se o almoço, aliás um lunche, que estava servido com 70 talheres na residência do senhor Pamplona; no termo do copioso festim levantaram-se os inevitáveis brindes ao êxito e aos vencedores das provas desportivas e a Suas Magestades El-Rei o Senhor D. Fernando 2° assim como a El-Rei D. Luiz.
E concorreram de novo aquelas damas e cavalheiros aos seus postos de observação – sem dúvida já um pouco pesados e enlanguescidos na digestão dos acepipes – pois iria completar-se o programa com a competição entre dois escalares à vela e uma baleeira, que ao sinal convencionado singraram sobre a balisa, da qual voltaram na melhor ordem, tendo avançado com vantagem o escaler “Joli” do sr. J. J. de C. Leite, e do qual era patrão o sr. António de Souza, que recebeu o prémio que lhe tocava.
Às cinco horas e meia da tarde acabava o espetáculo quando o Governador e Vice-presidente da “Associação Naval”, após os cumprimentos de despedida embarcaram de novo no escaler que os conduziria a Loanda.
Dias mais tarde, na imprensa local, diria o ilustre e inspirado Arsénio Pompílio Pompeu do Carpo, no final de várias considerações de proselitismo liberal, habilidosamente inseridas, “...a regata é uma prova do desenvolvimento do progresso, é uma diversão sim; mas com ella as artes muito lucrão”.

(Note-se que o que está escrito é “...em prosseguimento dos festivais já levados a efeito...” o que pressupõe que vários foram entretanto realizados. No entanto não se conhecem outros “festivais náuticos”, o que leva a supor que esta teria sido a 2ª regata, conhecida, na baía de Luanda. Mas diz ainda José de Almeida Santos “...organizavam-se regatas...”. Também deve notar-se que a “Associação Naval” também é referida como Clube!
Tudo isto para que o Clube Naval de Luanda se certique que a sua idade não é de 130 anos, mas de mais de cento e cinquenta!)
*          *          *

Há pouco mais de 45 anos!
Deve ter sido a minha última regata, no barco com mais caracter que passou por Luanda e pelo Clube Naval, o “ARGUS”, CNL 29. Dia 15 de Agosto de 1968, naquele tempo feriado, dia da cidade de Luanda, comemorando a reconquista aos holandeses, 320 anos depois!
Agosto tempo de ventos fracos a fraquíssimos, o “ARGUS” um barco magnífico, mas invencível só com ventos fortes; vento fraco, para ele era calmaria.

O "ARGUS" na baía de Luanda


A tripulação toda altamente especializada: comandante, o proprietário, imediato o Luis com 12 anos, a seguir o Chico que nem 11 tinha e o “mestre” João com 7!
O percurso seria – já não recordo bem – entre a ponta da Ilha e a entrada do Mussulo e volta (?), e o vento, contrariando as previsões do cacimbo, portava-se de modo a favorecer o “ARGUS”, que corria, lindo, naqueles mares.
Concorrentes: nove veleiros no total.
Boa bolina para sul, e no regresso, com vento bom de SO, o velho “ARGUS” destacava-se e se a memória e saudade não me enganam, vinha orgulhosamente na frente, com a tripulação entusiasmada.
De repente... cacimbo típico: o vento acaba. Ficou fraquinho, fraquinho, os concorrentes, barcos muito mais leves aproximam-se, passam-nos e de fraquinho o tal bom vento ficou em zero.
A linha de chegada foi alterada duas vezes para ver se todos a alcançavam, e o bom “ARGUS” pairava, balouçava, mas não ganhava uma braça.
O João ao leme, boné de marinheiro, ar grave, quase não conseguia segurar a cana de leme com o ondular: leme reto, todo atravessado, reto, atravessado, retrancas batendo, cabeças baixas para não serem espancadas e esperar!

O “homem” do leme, atento e concentrado!

Por fim, a uns escassos metros da linha de chegada o juri passou-nos um reboque é lá voltámos ao Clube.
Mas brilhantemente, entre nove concorrentes ganhámos, sim, ganhámos, merecidamente, o 9º lugar!
Dias depois em “solenidade” a tripulação do “ARGUS” foi receber o seu prémio! Foi uma felicidade para todos.

Frente e verso do “grande” prémio entregue a todos os tripulantes.

Já não lembro quem ganhou, mas os manos Medina, antigos donos do “ARGUS” costumavam ganhar tudo!


03/09/2013

sexta-feira, 30 de agosto de 2013



CRIMINOSOS!

INFÂMIA!

PARASITAS! – DEVASSOS!

CORRUPTOS!

Ainda haveria mais alguns termos para definir os mais de 400 ladrões que se encobertam no refúgio de Ali-Baba, neste caso o congresso em Brasília, e que legislam em causa simulandi ou causa turpis.
O povo foi para a rua e... logo cansou. Ficaram os profissionais a soldo dos partidos comunistas e do “volta-meu-bem” conhecido por sapo barbudo, a destruir bens da população e do povo, sem que se lhes meta na cabeta uma paulada digna dos tempos chamados antigos, mas que eram bons. Ótimos.
E os (des)governantes e políticos nada aprenderam com o clamor.
Ontem a câmara dos deputedos, perdão, deputados, não cassou o mandato dum criminoso – com o lindo nome de natan donadon - condenado em última instância a mais de 13 – treze – anos de cadeia por peculato (expressão latina que significa o crime de receber dinheiro de particular em detrimento do fisco e delapidação de dinheiro público) e por formação de quadrilha e, a seguir, o criminoso, todo elegante, voltou algemado para a cadeia, para daqui a uns dois anos voltar para exercer o mandato dos bestas que nele votaram e são incapazes de criar uma queixa crime, já que o bandido em vez de representar o povo, os rouba. (natanzinho e sua quadrilha terão roubado, aliás desviado que é mais suave, somente uns R$ 9.000.000, mixaria, nove milhões de reais).
Como um dos crimes foi de formação de quadrilha... a quadrilha não o condena.
Mas este criminoso tem uma história curiosa e mostra como o voto no Brasil é pior do que piada, Também devia ser considerado crime.
Este donadon foi  julgado e condenado em 2010 a 13 anos 4 meses e mais uns dias de cadeia em regimem fechado. Mas como a justiça tarda, tarda, tarda, surgiram novas eleições e o bandido, condenado, candidata-se e consegue eleger-se para deputado federal. O povo gosta de bandido! Melhor do que isto só os anõesinhos da Branca de Neve!
A indignação é tanta que, de raiva, as lágrimas afloram. Os homens choram pouco, e normalmente só de dor psíquica e não física, mas a sistemática vergonha que nos assola, queima-nos a alma, o consciente, se é que, face a tamanha vergonha, o consciente pode continuar a existir.

***
Mais um pouco sobre os médicos cubanos.
Estupidamente foram muito mal recebidos por uns quantos médicos brasileiros... bestas.
Que o Brasil precisa de médicos é mais do que sabido. E vieram de Portugal, Espanha e outros países europeus, e a estes ninguém apontou o dedo. Mas aos escravos cubanos, que vem para aqui degredados, sem que as famílias os possam vir visitar, e que vão receber a quarta parte do que os outros, tratá-los mal é outra vergonha. É covardia.
Vergonha para esses médicos de araque que se manifestaram contra os escravos, mas sobretudo para o Brasil que parece não se satisfazer com o recorde de importação de escravos de África, e ter sido o último país a abolir a escravatura, e pactua agora com o regime de Cuba importando carne em vez de médicos, a quem, POR LEI tem obrigação de pagar o mesmo a todos por serviço igual.
A lei permitirá que se pague aos donos dos escravos em vez de ser aos trabalhadores? Parece que o STJ estará a analisar o caso, mas como a justiça tarda, tarda, tarda... quando terminar o contrato, daqui a três anos, se verá.
E a madama dona presidentA que se arroga a vaidosamente querer dar ao mundo lições de Direitos Humanos, continuando a importar escravos? Que tal, hein?

***
No meio de tanta vergonha (des)governativa, deu-se agora mais um caso de triste palhaçada. Um senador boliviano estava há 455 dias refugiado na embaixada do Brasil em La Paz, porque com prisão decretada por 22 casos de corrupção. Como é evidente é inimigo mortal do evinho morales, mas não se dá asilo a quem tem problemas na justiça mas a quem é perseguido políticamente.
Para a embaixada se livrar do incómodo hóspede, montou-se uma operação com exército e polícia federal para trazer, “às escondidas” o senador para o Brasil.
Resultado: o ministro das relações exteriores disse que não sabia de nada (foi demitido) a madama presidentA também disse que não sabia (mas não se demitiu!!!) e agora cada um conta uma versão à procura dum bode espiatório.
E o evinho, lá das bandas dos Andes, p. da vida, diz que quer o senador de volta para ser julgado.
Apareceu até na TV a ler (com dificuldade! Não é ele que escreve os pronunciamentos) um protesto contra o Brasil.
Agora só falta irem daqui beijar a mão do evo que nos tem roubado quase todos os investimentos que o Brasil tinha no seu – dele – país, e devolverem-lhe o senador!
Tudo figuras amorosas.
A Madre Tereza se tivesse conhecido estas pérolas, teria morrido mais cedo!
Bem previu Aldous Huxley, em 1932: ) desenvolvimento demasiado rápido rumo a um “mundo novo”, conduziria a cidadões despojados de qualquer consciência moral”.
Rematando com esta maravilha (retirada do blog www.abemdanacao.blogspot.com)
O problema com o mundo é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas e as pessoas estúpidas estão cheias de certezas.
Frase atribuída a Charles Bukowski  (poeta e escritor americano 1920-1994)


29/08/2013

terça-feira, 27 de agosto de 2013



Os Príncipes de Portugal

nas Colónias

Creio que pouco se sabe sobre viagens dos Príncipes de Portugal às suas colónias ou províncias.
Pela minha parte, ignorante, além da “manobra” de Dom João VI refugiando-se no Brasil, e o primeiro da história a sair de Portugal, com exceção dos Ìnclitos ao Sebastião, que foram batalhar (e morrer) no Norte de África, só tinha conhecimento da grande viagem do Príncipe Dom Luis Filipe, em 1907, a São Tomé, Angola e Moçambique, que, sob todos os aspetos foi um imenso sucesso.
Um sucesso, uma euforia, não só entre os brancos como com os naturais que conheceram “aquilo” que para eles pouco mais era do que uma lenda!
Mas de repente surgem, nos cantos de uma ou outra publicação uma ou duas linhas falando de outros Príncipes que para Além Mar se deslocaram.
Por exemplo a Grande (grande!) Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, sobre o futuro rei D. Luis laconicamente indica:
“D. Luis foi investido no comando da corveta ‘Bartolomeu Dias’. Nesse navio visitou os nossos portos africanos, designadamente os de Angola.” E... nada mais!
Outros livros consultados nem isto contam. A não ser José de Almeida Santos que em l972 publicou com a Câmara Municipal de Luanda o livro “A Velha Loanda”, e aí não só descreve essa visita de D. Luis a Luanda como ainda transcreve o que sobre o assunto, foi publicado no “Boletim Oficial do Governo Geral da Província de Angola”.

A VISITA DO PRÍNCIPE D. LUIZ, DUQUE DO PORTO

Em finais de Julho de 1860, Loanda aguardava alvoro­çada a próxima visita de Sua Alteza Real o Infante D. Luiz, Duque do Porto. Os preparativos para receber condignamente o régio visitante realizavam-se por aqueles dias num ritmo apreciável. E a chegada em breve do Príncipe, vindo de tão longe para honrar com a sua presença a capital da Província, excitava as imaginações e dominava todas as conversas, não só as domésticas mas também aquelas tra­vadas nos locais de tertúlia habitual.
A Câmara Municipal de Luanda tomava a sua quota parte nos trabalhos a levar a cabo para a recepção ao In­fante, encarregando-se do arranjo do Cais da Alfândega no local onde Sua Alteza iria desembarcar e da apresenta­ção do pálio sob o qual D. Luiz transitaria até à Sé. Toda­via, a carência de pessoal para efeito levava o Presidente do Município a pedir ao Governador Geral que lhe fossem cedidos sessenta libertos das Obras Públicas, os quais deve­riam concentrar-se no Cais às seis da manhã a fim de cola­borarem nos trabalhos a efectuar.
«A Camará Municipal de Loanda desejando dar um publico testemunho do jubilo que tem pela vinda a esta Cidade de Sua Alteza Real o Sereníssimo Senhor Infante D. Luís, não tendo outro meio por que solemnemente o pos­sa fazer (...)».
Para maior elucidação do Chefe da Província remetia-se-lhe em anexo parte da acta da sessão onde se haviam agitado aqueles assuntos, solicitando de Sua Excelência o deferimento rápido da proposta, a fim de poderem iniciar-se o mais breve possível os preparativos necessários.
Chegou finalmente a jubilosa data. A 31 de Agosto de 1860, surgia à vista de Loanda—nova confirmada pelo «telegrapho da Fortaleza de S. Miguel»—ao cabo de 29 dias de viagem, a corveta «Bartolomeu Dias» comandada pelo In­fante D. Luiz Filipe, Duque do Porto.
Logo que se obteve a confirmação de que se tratava do navio em que viajava o Príncipe, do brigue «Pedro Nu­nes», dos outros navios portugueses surtos no porto, da fragata americana «Constellation», da inglesa «Arrogant» e das fortalezas retumbaram em uníssono as sal­vas da praxe. Entretanto o Governador Geral, Carlos Au­gusto Franco, mandava publicar no «Boletim» a portaria n.° 110 — onde se especificavam as regalias especiais con­cedidas durante três dias aos funcionários públicos, em homenagem ao régio visitante, irmão de Sua Magestade El-Rei D. Pedro V. Na mesma portaria revelava o Gover­nador o fim da viagem à costa de Angola do Sereníssimo Infante «(...) o qual vem conhecer as mais immediatas precizôes da província para as levar aos pés do Throno de Seu Augusto Irmão EI-Rei o Senhor D. Pedro V» — declara­ção esta que, sem dúvida, iria encher de satisfação quantos na altura labutavam e viviam nas paragens angolanas.
Os funcionários públicos, durante os três dias de gran­de gala fixados pelo Governador, ficariam pois libertos do despacho nas respectivas repartições/excepto nas fiscais, a fim de concorrerem aos festejos anunciados.
A Câmara Municipal fez proclamar um bando em que se pedia aos moradores que, iluminassem as suas casas durante três noites seguidas.
O tenente-coronel Carlos Augusto Franco dirigiu-se imediatamente a bordo da «Bartolomeu Dias», a apresen­tar cumprimentos, gesto que repetiria no dia seguinte, des­ta vez acompanhado do Conselho do Governo, da Câmara, de muitos funcionários civis e militares e «dnma deputação do corpo do Commercio, para em grande cerimonia beija­rem a mão de Sua Alteza, e felicital-o pela Sua vinda a esta província». Incorporavam-se também na embaixada de boas-vindas os Cônsules dos Estados Unidos da América e da Inglaterra.
Sua Alteza fizera constar logo após a sua chegada que receberia as pessoas e entidades que o pretendessem cum­primentar a bordo, enquanto durasse a sua estadia em Loanda, todos os dias, entre o meio-dia e as três horas da tarde.
Contra a expectativa geral, o Príncipe não desceu logo a terra; sabia-se que por proibição do seu médico particu­lar em virtude de haver sido atacado de febres dois dias antes da chegada. Marcara o seu desembarque para o dia 9.
Raiava enfim o dia 9 — dia fixado para o desembar­que do Príncipe D. Luiz — o futuro rei D. Luiz I. E mal lu­zia o primeiro alvor da manhã podiam admirar-se as forta­lezas embandeiradas, assim os navios nacionais mercantes e de guerra surtos no porto e até a corveta francesa «La Recherche».
O Infante desembarcou pelas 9 horas da manhã, acom­panhado do Governador Geral e da sua comitiva. No cais engalanado, aguardavam-no já o Conselho do Governo, a Câmara Municipal, o Corpo Consu­lar, o funcionalismo civil e militar, o corpo comercial e as personalidades mais distintas da terra. Em redor, a massa popular acotovelava-se e atropelava-se para não perder o espectáculo. E o estralejar dos foguetes lançados de mo­mento a momento, uns atrás dos outros, tornava-se ensur­decedor.
Logo após o desembarque do Príncipe, adiantou-se o enervado Presidente da Câmara, Manoel Jorge de Carvalho e Souza, à frente da Vereação, a saudar Sua Alteza e a de­por nas suas régias mãos as chaves da Cidade.
E era chegado o momento de aparecer o famoso pálio sob o qual D. Luiz transitaria a pé do «Caes da Alfândega» até à Sé Catedral, onde deveria realizar-se o solene «Te-Deum» em acção de graças pela feliz chegada do Infante.
O cortejo que se formou e seguiu até à Sé no rasto de Sua Alteza, ao atravessar pelas ruas fixadas no pro­grama, passava entre janelas garridamente enfeitadas de colchas ricas, onde se debruçavam as damas luandenses também arrebicadas em galas de festa — as damas da Ci­dade, de ordinário sumidas no interior do ninho familiar...
Após o «Te-Deum», o Príncipe seguiu a cavalo até ao Palácio do Governo acompanhado pelo Governador Geral e demais oficialidade superior e escoltado por uma força de cavalaria. Ali, pelo meio-dia, realizou-se a ceri­mónia de cumprimentos com a comparência das persona­lidades mais distintas da terra, no decorrer da qual, o Presidente da Câmara, em nome do Município, dirigiu uma saudação ao régio visitante, que aproveitou aquela oportunidade para enume­rar perante Sua Alteza as grandes, as graves atribulações sentidas ha Província, como eram: a falta de estra­das, a falta da água suficiente para abastecer as cidades, a falta de trabalho para ocupar os muitos braços parados e inúteis, a falta de uma engrenagem judicial eficiente e dinamizada, de médicos bastantes para acudir aos doen­tes e prevenir as grandes epidemias, além da fortificação dos pontos estratégicos a fim de garantir a segurança e a defesa das populações havia pouco ameaçadas pelo risco de sublevações no interior - urgentes necessidades estas para o remédio das quais, Carvalho e Sousa punha a sua mais alta esperança na intervenção do Infante junto de El-Rei seu irmão.
D. Luiz Filipe, em resposta, assegurava gentilmente interceder como lhe era solicitado e empenhar nisso toda a sua boa-vontade.
Pelas três horas da tarde ofereceu o Governo um lan­che a Sua Alteza, com a comparência de 36 convidados se­leccionados entre as personagens mais notáveis da Cidade.
A bateria de montanha colocada defronte do Palácio sublinhava os vivas soltados no decorrer da recepção; o Príncipe elevou também o seu brinde pelas prosperidades de Angola. Findou aquele repasto cerimonioso pelas 5 ho­ras da tarde; e como o tempo se apresentava muito ameno e agradável, Sua Alteza decidiu ir a pé visitar o Hospital da Misericórdia, sendo acompanhado no percurso por to­dos os convidados.
De volta ao Palácio, resolveu D. Luiz Filipe montar a cavalo a fim de visitar também o Recolhimento Pio, donde depois desceu até ao Cais para recolher a bordo, escoltado pelo Governador Geral—aguardado já naquele local pelo habitual grupo de altas personalidades oficiais e particulares, que lhe apresentaram cumprimentos.
No dia seguinte, 10 de Setembro de 1860, o Duque do Porto participou ao Governador Geral a intenção de ofere­cer sessenta libras destinadas a serem distribuídas pelo Recolhimento Pio, Santa Casa da Misericórdia e presos pobres.
Pelas quatro horas da tarde do dia 12, o Infante des­ceu de novo à Cidade, prescidindo de cerimonial, com o desígnio de ir observar os quartéis e a Fortaleza de S. Mi­guel — encontrando muito arruinadas as instalações mili­tares, em absoluto carecidas de imediata reparação.
A 14 de Setembro decidiu Sua Alteza levantar ferro das paragens africanas, com destino a Lisboa. E, após os cumprimentos das autoridades oficiais e entidades particu­lares que se haviam deslocado a bordo da «Bartolomeu Dias», deu o Infante a ordem de partida, eram três horas da tarde,
Cinco escassos dias apenas durara a estadia do Príncipe em terras de Angola, tempo na verdade demasiado breve para poder aperceber-se dos grandes problemas da Província – como lhe destinara por missão seu real mano El-Rei D. Pedro V. E o jóvem Infante que, poucos anos depois, viria a ser o Rei D. Luiz I, não poderia de facto transmitir a seu Irmão mais do que uma visãomuito superficial da dimensão dos assuntos angolanos.
(A este tipo de visitantes se chamou mais tarde “os inspetores de cacimbo”! E desta vez o Infante D. Luiz esteve dois meios dias, só, em terra! Dia 9 e dia 12. Não viu nada, não se interessou por nada e deu uma esmola para alguns desgraçados. Fou uma grande visita!)

***
Em 1895 revoltou-se na Índia portuguesa uma companhia de maratas que não queria ir para para Moçambique, conseguindo a adesão dos rames (timorenses). A rebelião tomou vulto e como os rebeldes se dedicassem a atos de banditismo, decidiu-se na metrópole enviar uma expedição e nomear Vice-Rei da Índia o Infante D. Afonso Henriques, Duque do Porto, irmão do rei D. Carlos, já condestável do reino, general de brigada e inspetor da arma de artilharia.
Em 12 de Dezembro chegava a Pangim (“Nova Goa”) a expedição comandada pelo Infante, e a 24 organizou-se uma coluna com D. Afonso à frente do grosso das tropas, ao encontro dos rebeldes, que se achavam em Razingante. Após combates com guerrilhas inimigas, que se esgueiravam pelas florestas e desfiladeiros, avançou-se sobre Canacona, Cumbray, Sanguera, Samorden, Serodá, Pondová, até Sulav, encontrando-se a região devastada pelos insurretos, que voltaram para Satari.
D. Afonso acabou por conceder a amnistia aos rebeldes de Satari (1896) e regressou a Portugal.
Não chegou a ano a estadia do último Vice-Rei da Índia nas terras que lhe foram entregues!

Não parece terem sido mais do que estas as visitas dos Príncipes no vasto Império português.
Honra e glória ao jovem príncipe da Beira, Dom Luis Filipe, filho do Rei D. Carlos e com ele brutalmente assassinado em 1908.
A sua viagem ao Ultramar, em 1907, foi, essa sim, um imenso sucesso.


23/08/2013