sexta-feira, 10 de agosto de 2012



Monomotapa - 2



Para quem quiser saber “exatamente” onde ficava o reino de Monomotapa, só tem que seguir, qual com GPS, a descrição abaixo.
A carta de Gaspar Veloso a certa altura fala num homem, António Fernandes, que terá sido o verdadeiro, primeiro, descobridor do Monomotapa, por onde andou e era muito considerado.
Mas um pouco da história deste homem ficará para a próxima! Daqui a algum tempo, por que vou ficar fora de história de África até Outubro!

Carta de Gaspar Veloso, de Sofala, para El-Rei

1515-1516

(ANTT - Lisboa. Cartas dos Vice-Reis da índia - P.I. -162)

Estes são os Reis que há em Sofala ate à mina de Monomotapa e as coisas que há em cada um destes reinos.
Item - O primeiro Rei que confina com Sofala chama-se Mizandira e não há na sua terra senão mantimentos e marfim.
Item - Outro Rei que está além deste chama-se Rei de Mazira; não tem senão mantimentos e está a duas jornadas destoutro acima escrito,
Item - O Rei de Quitongue está a três dias de jornada destoutro e não tem senão mantimentos.
Item - O Rei de Embia está a quatro dias de jornada destoutro e não tem outra coisa senão andar ao salto (isto é: vivia só de roubo, de pilhagem).
Item - O Rei de Inhacouce está a cinco dias de jornada destoutro; é capitão-mor do Rei de Monomotapa; tem grande terra e todas as segundas-feiras fazem na sua terra feiras que se chamam feiras de "ssembaza" onde os mouros vendem todas as suas mercadorias e às quais acodem também os cafres de todas as terras; e assim tem (o Inhacouce) muitos mantimentos. Dizem que aquela feira é tão grande como a das ver temdes (?) e não há outra moeda senão ouro por pesos.
Item - O Rei de Manhica está a seis dias de jornada destoutro e e tem muito ouro cá.
Item - O Rei de Amçoce à quatro dias de Jornada destoutro e tira muito ouro de toda a sua terra. Este homem (António Fernandes) viu-o tirar e diz que se conhece onde o ouro está por uma erva, do tamanho de trevo, que sobre ele cresce. E que a maior soma que viu tirar num dia foi uma alcofa grande, cheia de barras tamanhas como um dedo e de grãos grossos. Não tem (o Rei de Amçoce) outra coisa senão este ouro e quem o tira paga ao Rei meio. Todos os mantimentos vêm de fora.
Item - O Rei de Bárué fica a quatro dias de jornada destoutro e tem ouro que lhe vem de fora marfim que há na terra.
Item - Q Rei de Betôngua fica a três dias de jornada destouro e não tem ouro, senão algum que lhe vem de fora.
Item - O Rei de Inhaperapara fica a quatro dias de jornada destoutro; tira ouro de toda a Sua terra e é grande Rei.
Item - O Rei de Boece está a cinco dias de jornada destoutro; este tem ouro de fora e é grande Rei.
Item - O Rei de Mazofe está a quatro jornadas destoutro; há muito ouro na sua terra e quem o tira paga-lhe ao meio.
Item - Dali a Embire, que é uma fortaleza do Rei de Monomotapa que a está agora construindo de pedra em sossa (pedra solta), à qual se chama Camanhaia e onde ele sempre está, há cinco dias de jornada. Dali por diante entra-se no reino de Monomotapa que é a fonte do ouro de toda está terra. É este (Rei de Monomotapa) é o maior Rei de todos estes e todos lhe obedecem desde Monomotapa até Sofala.
Item - Além deste há outro Rei que lhe não obedece e que se chama Rei de Butua que fica a dez dias de jornada destoutro. Tem muito ouro que se tira da sua terra ao longo de rios de água doce. E tão grande rei como o Monomotapa e está sempre em guerra com ele.
Item - Rei de Mombara está a sete dias de jornada deste de Monomotapa. Nesta terra há muito (ouro?) muito cobre e dela trazem o cobre a vender ao Monomotapa em pãis como os nossos e assim por toda a outra terra. Estes homens são mal proporcionados, não são muito negros e têm rabos como de carneiro (*). Entre este Rei e o de Monomotapa corre um rio grande o qual passam em almadias quando trazem as suas mercadorias a vender. Põem ás mercadorias no chão e tornam a passar para o outro lado do rio. Então, vêm os mouros ou os cafres, tomam a mercadoria, se esta os satisfaz, e deixam-lhes ali os panos ou outras quaisquer mercadorias que levem. Então, vêm os dos Rabos e se lhes agrada a mercadoria que aqueles lhe deixaram, levam-na; se não, deixam-na e vão-se embora, até que os outros venham pôr mais ou lhe tragam outra que os contente, conforme mostram por sinais. Estes dos Rabos adoram as vacas. Se morre algum deles, comem-no e enterram uma vaca. E quanto mais um negro for preto mais dinheiro dão por ele, para o comerem, e dizem que a carne dos brancos é mais salgada que a dos pretos.
Item - O Rei de Inhócua anda em guerra com o Rei de Monomotapa e o seu reino é de muito ouro. Dele ao Monomotapa há cinco dias de jornada. Este homem (António Fernandes) não passa além deste reino, por causa das muitas guerras que havia entre alguns destes reis e também por não ter presentes para dar aos reis, pois esta terra é costume o estrangeiro, para sua segurança e se quere falar ao rei, dar a este qualquer presente. Não lho dando, não lhe poderá falar. Os reis dão sempre, em retribuição, o dobro. Daqui voltou (António Fernandes) para trás e veio ter ao reino de Mozambia, caminho de Sofala, não sendo este o mesmo caminho por que fôra somente para ver outras terras. Neste reino há panos de algodão que vão vender ao Monomotapa.
Item - De Inhocua veio ter ao reino de Moziba, caminho de Sofala. Nesta terra não há senão panos de algodão, feitos nela e que são levados a vender ao Monomotapa.
Item - Dali veio ter ao reino de Quitengue que fica a sete jornadas destoutro. Nesta terra há muito ouro, que se extrai dela a qual confina com Batôngua onde há muito ouro e marfim, ouro que se tira dessa mesma terra e é muito. Esta terra tem um rio que vem ter a Cuama e vai sair para o mar a dezasseis léguas da barra de Sofala e neste mesmo rio da terra de Quitengue pode fazer-se uma casa de feitoria, num ilhéu que está no meio do rio e tem de comprimento uma carreira de cavalo e outro tanto de largura. Fazendo-se aí essa casa, teria Vossa Alteza todo o ouro desta terra, bem como o de Monomotapa que está a dez dias de jornada deste ilhéu. Além disto, podia resgatar-se muito marfim, para se levar à Índia ou a estes Reinos e assim se compensaria o resgate de Sofala que é prejudicado por um rio mais pequeno que de Amguoge vem ter a este de Quitengue e pelo qual vêm muitos zambucos carregados de panos para resgate por toda a terra. Tendo Vossa Alteza aquela casa ali feita, podia um bergantim andar por ali, guardando estes rios, para que não passassem mercadorias vindas de Anguoge ou de qualquer outra parte, porque os mouros de toda esta costa trabalham por danar este tráfico de Vossa Alteza, porque a todos lhes há de Vossa Alteza mandar desfazer a fortaleza de Sofala. Têm muita esperança nisto por agora se desfez de Quiloa. E pela feitoria que se construiu agora em Melinde, bem como por saberem que se desfez Angediva e Socotorá, parece-lhes que assim há de Vossa Alteza mandar fazer a Sofala. Fazendo-se aquela casa, segura Vossa Alteza o tráfico de Sofala e terá todo o ouro da terra de Quitengue assim como o de Monomotapa, por ser muito perto. Todas estas coisas tinha António Fernandes em segredo, sem as dizer aqui a ninguém, para as dizer a Vossa Alteza. E porque ele volta ao Monomotapa, com riscos de morrer por causa das muitas guerras que há nas terras, roguei-lhe que, se algumas de vosso serviço tinha guardadas para dizer a Vossa Alteza, mas dissesse, para eu as escrever a Vossa Alteza, por ele sempre me dizer que desejava ir a Portugal para dizer a Vossa Alteza coisas de seu serviço.
Item - Dali atravessou pela terra de Retôngua e veio ter à terra de Baro onde também há ouro. Deste Baro a Bétôngua há cinco dias de jornada. E dali veio ter a Sofala em vinte dias. Trouxe consigo, da primeira vez, cafres que com ele ousaram vir pelo medo que os mouros lhes metem, os quais trouxeram para resgate novecentos maticais que resgataram na feitoria e trouxeram de presente ao capitão cem maticais. E da segunda vez que voltou trouxe cafres que vieram resgatar e trouxeram presente ao capitão... no caminho, da primeira vez, em ir e vir, quatro meses e da segunda vez gastou mais tempo por causa das guerras e cheias. E esta gente toda não crê noutra coisa na lua nova porque no primeiro dia que (a vêem, adoram-na?)... gente que não é muito negra porém tem cabelo como os de guiné, e os dos Rabos que adoram as vaca e comem os homens são mais baços que estes. E esta gente, tirando os dos rabos anda armada com arcos e fechas ervadas, azagais e ticados. E todas estas terras m disse este António Fernandes em que andara e vira.

Gaspar Veloso

Notas do organizador

(1) Manuscrito encontrado na Torre do Tombo por Eric Axelson, que o transcreveu. Faz parte das Cartas d. V. Reis da Índia P.I. - 162 f.3(b).Esta versão actualizada é da responsabilidade de Caetano Montez (1940).

In “Monomotapa”. Org de João C. Reis



(*) Quando Gaspar Veloso se refere a “gentios com rabos de carneiro” não está querendo referir-se a “cauda”, nem a depreciar, mas sim à característica da maioria dos hotentotes, habitantes do sul de África, com Esteatopigia, que é a hipertrofia das nádegas, ocasionada pelo acúmulo de gordura na região. O fenômeno ocorre em ambos os sexos, mas é mais visível em mulheres. A maneira que Veloso encontrou para defenir essa característica foi comparar aos carneiros que têm os quartos traseiros volumosos.
Este povo, descrito por Veloso, continua a ser a maioria na África do Sul.


Mulher Hotentote – desenho do sec. XIV

10/08/2012

terça-feira, 7 de agosto de 2012



Monomotapa



Nem toda a gente sabe o que é ou onde fica o (antigamente) Monomotapa. Uma breve descrição: Monomotapa, ou Mwenemutapa, significa “o senhor de tudo”, da região a sul do Zambeze, que abrangia, muito grosseiramente, o Zimbabué de hoje e o norte da República da África do Sul, mesmo sabendo que no século XVI fronteiras não existiam, mas zonas de influência. Mas...
Vasco da Gama na sua primeira viagem à Índia, o primeiro lugar onde parou na costa de Moçambique foi no “Rio dos Bons Sinais”, ou "Terra de Boa Gente”, hoje Quelimane, onde colocou o primeiro padrão. Daí foi à Ilha de Moçambique, onde “obteve curiosas informações das minas de oiro que, no dizer dos moiros, tinham fornecido o oiro do rei Salomão”.
Encontrou alguns os xeques (ou scheiks?) da costa do atual Moçambique, mais ou menos dependentes do rei de Quíloa, que lhe ofereceu uma porção de oiro que teria servido para a fábrica da célebre custódia dos Jerónimos, como consta da carta de mercês a D. Vasco da Gama, de 20 de Fevereiro de 1504.
Mas foi Sancho de Tovar, o segundo em comando na armada de Pedro Álvares Cabral, o primeiro a aportar em Sofala, 1501. Encalhou na foz do Zambeze e a sua nau teve que ser incendiada. Foi o seu piloto que deixou a relação desta viagem, que infelizmente, com o secretismo português, foi só publicada em Itália por João Batista Ramusio e em latim por Archangelo Madragnano:

«No anno de 1500 mandou o sereníssimo rei D. Manuel uma armada de treze naus (contando a caravela de Gaspar de Lemos que voltou ao reino com a nova do descobrimento do Brazil) e navios para as partes da índia, e por seu capitão mor Pedro Alvares Cabral, fidalgo da sua casa, as quaes partiram bem apparelhadas e pro¬vidas do necessário para anno e meio de viagem. Dez d'estas naus levaram regimento de hir a Calecut, e as duas restantes a um logar chamado Çofala para contratar em mercadorias, ficando este porto na mesma derrota de Calicut, para onde as outras dez iam.
Continuando a nossa viagem chegámos diante de Çofala, onde ha uma mina de ouro, e ahi achámos junto a esta povoação duas ilhas; estavam aqui duas naus de mouros, que tinham carregado ouro d'aquella mina.» Collecção de noticias para a historia e geographia das nações.
«Cap. II — Da Ilha de Çofala, do Rio dos bons Sinaes e de Moçambique.— Aos quinze de Julho achavamo-nos sobre a embocadura do rio de Çofala, e por estar calmaria estivemos aqui surtos em onze braças, desde uma sexta feira depois de jantar até ao Domingo á tarde; os da terra fizeram-nos muitas rogativas, e vimos muitos fumos com que nos convidavam a entrar, o que não fizemos, perdendo n'isso muito, pois não obstante achar o Almirante pouco ouro quan¬do alli passou, pelo terem levado dois ou três zambucos que d’alli tinham partido oito ou nove dias antes, e ser costume dos Mouros não o mostrar por medo que os Christãos lhes façam mal, comtudo já por fim principiavam a trazer-nos algum, por isso julgámos que os fumos eram sinal para chamar-nos.»
«Cap. III — Da Mina donde El Rei Salomão tirava o ouro, e da qual se extrahe Mirra fina.—Em uma sexta feira 22 julho chegámos diante de Moçambique...
Estando nós n’esta ilha foi nos affirmado que tinham ido á Capitanea certos Mouros honrados que aqui habitavam, a cumprimentar o Capitão; aos quaes elle perguntou muitas cousas a respeito da mina de Çofala; e perante muita gente que alli se achava, responderam que com toda a certeza havia então uma grande guerra no logar donde vinha o ouro, e por este motivo não podia chegar n'aquella occasião, porém que havendo paz podem-se extrahir da mina dois milhões de mitigaes, valendo cada mitigal um ducado, e um terço; e que os annos passados, estando o paiz pacifico, as naus de Meca de Judá e de muitos outros legares tiravam da mina os ditos dois milhões; e que a Rainha Saba, que levara a este rei um tam grande presente era natural das partes da índia. Collecção de noticias para a historia."

Um dos primeiros autores do séc. XVI que escreve sobre Moçambique, foi Duarte Barbosa que acabou de escrever o seu Livro em 1516.
Duarte Barbosa foi escrivão da feitoria de Cananor; regressando ao reino acompanhou Fernam de Magalhães a Sevilha a casa de seu pai Diogo Barbosa que estava servindo de alcaide mor de Sevilha e Andujar, logar dado a D. Álvaro de Bragança por D. Fernando. Diogo Barbosa deu a filha em casamento a Fernam de Magalhães e Duarte Barbosa acompanhou o cunhado na sua navegação e com elle morreu na ilha Zebu, no 1° de Maio de 1521.
O Livro em que dá relação do que viu e ouviu no oriente foi publicado em italiano na collecção de Ramusio, impressa em Veneza em 1563.
Eis o que nos diz Duarte Barbosa acerca de Sofala:

“Indo mais adiante passando estás Bucicas caminho da índia ha vinte ou trinta leguas delas, está um rio que nom he muyto grande pelo qual dentro está hua povoaçam de Mouros que chamam Çofala junto com ha qual tem el Rey N. Sr. hua fortaleza; estes Mouros ha muyto tempo que pouoaraom aqy, por caso do grande trato de ouro que tinham com os gentios da terra fyrme.....
...ha maneira de seu trato era que a elles vinhaom em pequenos nauios que chamavam zambucos, do regno de Quiloa, Mombaça e Melynde muytos panos pintados d’algodam, ou branquos e azuis e delles de seda e muytas continhas pardas e roxas e amarelas, que ha hos ditos regnos uem em outros nauios mayores do gram regno de Cambaya; has quaes mercadorias hos ditos Mouros que uinhaom de Melinde e Mombaça compraom a outro que aqui as trazem e lhes pagam em ouro pelo preço de que elles hiaom muyto contentes ho qual ouro lhe daom a pezo; hos Mouros de Çofala guardauaom estas mercadorias, e has uendiaom depois ha hos Gentios do regno de Benametapa que aly uinhaom caregados douro; ho qual ouro lhe dauaom a troquo dos ditos panos sem pezo, em tanta cantidade que bem ganhaom cento por huu. Estes Mouros recolhem tambem muyta soma de marfim que achaom deredor de Çofala, que também uendem pero o regno de Cambaya ha seis crusados ho quintal”.

Os dois pontos da acosta que mais chamaram a attenção dos portuguezes foram Sofala, pelo seu commercio de oiro e de marfim, e Moçambique, pelo seu porto a meio caminho do Cabo para a Índia e onde podiam refrescar as naus d’aquella carreira e invernar no caso de arribada.
Assim em 1505 Pêro de Anhaya funda a fortaleza de Sofala, e Vasco Gomes de Abreu é encarregado, em 1506 de levantar a primeira fortaleza em Moçambique sitio onde depois foi convento de S. Paulo (depois palácio do governo). Esta fortaleza foi substituída pela de S. Sebastião, mandada construir pelo grande D. João de Castro em 1545.
Em 1516 já havia também uma fortaleza em Angoche. (Duarte Barbosa)
Como Simão Botelho, que escrevia em 1554, declara que a mais levava a Sofala, e aguora de pouquo tempo pêra qua se leua taobem a cuama, se pode deduzir que os portuguezes por aquelle tempo começaram a estabelecer-se no Cuama ou Zambeze, como parece se estabeleceram em Quelimane em 1544 e depois em Sena e Tete.
D’estes pontos penetraram no interior do império do Monomotapa os negociantes, os missionários portuguezes e por fim expedições militares para occupação.
Um dos primeiros foi Gonçalo da Silveira, que levado pelo zelo religioso, partindo de Inhambane, onde havia já uma feitoria portugueza, penetra no sertão africano, indo converter o rei de Tongue, vasallo do Monomotapa.
Este potentado estendia o seu domínio até o litoral e se alguns xeques eram independentes e só aceitavam o protectorado do rei de Quiloa, nem por isso estavam menos sujeitos ás suas incursões nos primeiros tempos da dominação portugueza, como parece deduzir-se do que nos conta Gaspar Corrêa do cerco que sofreu Pero de Anhaya, primeiro capitão de Sofala. (1)
O primeiro que nos deixou noticia escripta do império Monomotapa é Duarte Barbosa, que descreve nos seguintes termos:

«Ho grande regno de Benametapa.
Indo asy desta terra contra ho certam jas huu muy grande regno de Benametapa que he de Gentios ha que os mouros chamam Cafres.

Zimbaohe

Indo adiante pera ho certam quinze ou uinte jornadas, está hua muy grande pouoaçam que chamaom Zimbahoe, em que ha muytas casas de madeira e de palha; que he de Gentios, em a qual muytas uezes esta, o Rei de Benametapa e dali a Benametapa são seis jornadas; ho qual caminho uai de Çofala pelo certam dentro contra ho o Cabo da Boa Esperança; nesta mesma pouoaçam de Benametapa tem assento mais acostumado do Rei em huu logar muyto grande donde trazem os mercadores ouro dentro ha Çofala, ho qual daom ha hos Mouros sem pezo por panos pintados e cpntas, que antre eles saom muyto estimadas has quaes contas vem de Cambaia; dizem estes Mouros de Benametapa que ainda este ouro vem de muyto longe, de contra o cabo de Boa Esperança doutro reyno que he sugeito a este de Benametapa que he muy grande Senhor de muytos Reys que tem debaixo do seu porte; ele he Senhor de muyto grande terra que corre pelo certam dentro, asy pera o Cabo de Boa esperança, como pera Moçambique.

Como vimos, um dos primeiros portuguezes que penetraram no interior do continente africano pelo costa oriental foi o padre Gonçalo da Silveira.


(1) «... mas como os portuguezes de sua propria constellação são suberbos e altivos onde nom tem sogeição, com o muyto fauor do Rey que era muyto nosso amigo, que se chamava Mana Matapa, que era filho de outro Rey chamado Unhamuda, tanto os nossos se soberbearão em males, que tratavão a agente da terra pior que cativos» .Gaspar Corrêa. Lendas da Índia.

- A continuar...

08/08/2012

sábado, 4 de agosto de 2012



Lições do passado



A história antiga, medieval e moderna, tão clara nos seus ensinamentos, é de pasmar a sistemática repetição dos erros.
Tudo é fruto sempre do mesmo mal: a ganância, o luxo, as demonstrações de grandeza. Os países, impérios ou simplesmente grupos tribais, feudais, etc., todos cairam quando os chefes permitiram o luxo de gastos exgerados acima dos impostos cobrados.
Vem exemplos da Pérsia, do Egito, da Grécia, Macedónia, das grandes conquistas de Alexandre, sendo mais detalhadamente conhecido o declínio e extinção do Império Romano.
Há que reconhecer que os romanos deixaram um espantoso legado na administração e na organização militar. Mas tanto deixou crescer essas organizações que o aumento dos seus custos tornou impossível manter legiões, pretores, senadores, e até à população em geral faltou comida.
Em decadencia, enfraquecido, desmoralisado com tanta despesa e luxúria, não foi difícil aos povos germânicos se apossarem de Roma, que passou a viver uma época de insegurança, saques, sem comércio e sem alimentos.
Fugiram das cidades os grandes senhores, levando consigo criados e servos. Instalaram-se no campo, criando as “vilas”, onde passaram a viver do que produziam, numa agricultura simplesmente de subsistência.
Passado pouco a Europa foi assaltada por todos os lados. A sul pelos árabes que transformaram o Mediterrâneo, o “Mare Nostrum” dominado por Roma, num mar onde eles eram senhores e quase únicos navegadores e comerciantes. A leste as invasões de povos vindos até das estepes longíquas e a norte as devastadoras invasões dos normandos.
Não havia poder concentrado na mão de um rei que pudesse fazer frente a tantos inimigos, e assim foram surgindo, como as vilas dos romanos, os feudos, com caracteristicas semelhantes: uns senhores nobres, uns tantos servos e escravos, que viviam numa comunidade fechada. As feiras nesses feudos não utilizavam dinheiro; quase exclusivamente trocas: galinhas por panos, vinho por carne, etc. Sendo que para os agricultores, os trabalhadores, sobrava menos de 1/5 do que produziam. Era quase tudo para os seus senhores, em pagamento direto ou... em impostos... diretos. Os feudos eram unidades de produção fechada, mas pobre. Para crescerem tinham que guerrear algum vizinho. Muitos deles se destruiam com a guerra entre os herdeiros, apesar da lei prever que o primogénito era o único a herdar. Muitas vezes os outros irmãos não aceitavam serem jogados na miséria e combatiam o novo senhor, dividindo terras. Assim os feudos iam enfraquecendo enquanto viam as propriedades da igreja sempre em grande crescimento; primeiro porque não havia herdeiros para as dividirem e depois porque recebiam de todo o trabalhador aquele vergonhoso dízimo.
Foi neste tempo que a Europa viveu o chamado período “das trevas”. Tudo se reduziu de uma forma profunda; conhecimentos, cultura, e até o comércio quase deixou de existir, já que raramente alguém tinha excedentes de produção!
E a que espetáculo assistimos nos dias de hoje? Luxo, luxo, luxo, máquinas administrativas e militares absurdas, desemprego em alta, e os negócios ilícitos e criminosos a prosperarem: drogas e armas.
Chega agora um golpe duro: as secas e inundações a arrasarem plantações e encarecerem as comodities de produtos alimentares a patamares perigosissimos: os países pobres vão comprar menos, os enfraquecidos vão ter aumento no seu custo de vida e os produtores de carne e ovos...
Safa-se o Brasil com seus excedentes de produção e... quem mais?
Ninguém aprende com o passado! O que interessa é enriquecer os amigos, provocar guerras e deixar que a população viva drogada. Morre mais depressa.
A chama das Olimpiadas foi criada na Grécia para avisar os povos que durante aquele período de jogos, em que qualquer poderia participar, amigo ou inimigo, cessavam todas as guerras. Mesmo se deixarem esta acesa... adianta alguma coisa?
Só gastará mais gás!


04/08/2012

segunda-feira, 30 de julho de 2012



Mensagens das Olimpíadas

 
É sempre um espetáculo a não perder, a abertura dos Jogos Olímpicos, e uma vez mais a Inglaterra proporcionou-nos uma visão muito interessante da sua história. Na minha opinião só teve um bocado de música “pauleira” a mais, o que ia tornando esta festa num show de barulheira. Faz parte da sua história, mas.. possivelmente haveria outros aspetos mais marcantes.
Enfim.
Desta cerimônia, desta grande festa, três mensagens me tocaram de forma especial.
A primeira, foi a presença de Michelle Obama. Sempre sorridente, simpática, acionando com as mãos para os atletas do seu país, bonita e sobretudo simples. Apresentou-se como uma pessoa normal sem preocupações com toaletes espalhafatosas que acabam por ser ridículas. No dia seguinte assistindo às provas de natação lá estava ela com uma roupa de treino, que talvez não lhe tivesse custado nem vinte dólares! Uma lição de educação, simplicidade, coragem e muita simpatia.
Valeu Michelle.

Outra foi o aparecimento da brasileira Marina Silva carregando a bandeira olímpica. Marina, filha de seringueiros, nasceu numa palafita lá no interior da Amazónia. Teve uma infância pobre, doente, e só aos dezasseis anos foi alfabetizar-se. Quis continuar os estudos e formou-se em História. Foi vereadora, deputada e senadora, pelo Acre. Chegou a ser ministra de lula, com quem se desentendeu e saíu. Candidata à presidência teve um volume muito considerável de votos, ficando na terceira posição. Conseguiu com o seu trabalho, e imenso esforço, reduzir o desmatamento da Amazônia ao seu nível mais baixo de todos os tempos. Mereceu a distinção que lhe fizeram.
Mas agora vem o caricato, triste, a baixaria dos membros do (des)governo dilma presentes! Para já ficaram chicadis e invejosos, depois, como Marina e dilma não se entenderam no governo, o “vexame” foi difícil de engolir, e por fim os – sempre – desastrados e ineptos apaniguados da presidentA, com destaque para o ministro dos esportes – homem que nunca deve nem ter dado um chuto numa bola – membro do PCP, que fez o seguinte comentário: "Marina sempre teve boa relação com as casas reais da Europa e com a aristocracia europeia", afirmou o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, adversário político de Marina na polêmica do Código Florestal. "Não podemos determinar quem as casas reais escolhem, fazer o quê?"
Tamanha bestialidade! Marina Silva, nascida numa palafita, que passou anos no PCP e no PT ser amiga da realeza europeia, seria a última coisa que se poderia imaginar que saísse da boca dum (teórico) (ir)responsável dum governo!
Marina elevou o Brasil com sua presença. O ministreco, para quem leu o comentário, envergonhou-o.

Por fim o ponto mais alto de toda a cerimônia foi a exaltação do HNS “Health National Service”, uma tremenda bofetada na cara dos republicanos americanos, e uma demonstração inequívoca da primazia dos serviços sociais britânicos.
Eu mesmo já tive, infelizmente, que recorrer a esses serviços de saude. Não demorei a ser atendido, fui visto por dois médicos, e por fim, com a receita da medicação, passei numa farmácia e... não desembolsei um só cêntimo!
E pensar que o HNS foi criado por decreto, de repente, em 1948, tinha o Reino Unido acabado de sair duma violentíssima guerra, com cidades devastadas, infra estruturas a necessitarem de reabilitação, etc. O primeiro serviço de saude nacional em todo o mundo, e... quase que ainda hoje! Sobretudo na sua eficiência.
Mas... agora entramos na pior história dos últimos anos: a crise que assola a Europa, EUA e muitos outros. Num dos últimos textos deste blog, vimos que há cerca de trinta TRILHÕES de dólares em paraísos fiscais, sem renderem um cêntimo para o desenvolvimento global. Só pura especulação. Dez ou quinze por cento desse valor equilibraria as finanças da Europa.
Todos os governos têm máquinas – ótimas – para imprimir moeda. E imprimem, fingindo que os bancos centrais controlam!
Também é sabido que, para destruir a Inglaterra, Hitler aprovou um audacioso plano: falsificar milhões de libras e espalhá-las pelo Reino Unido, para desestabilizar a economia inglesa.
Não é para pensar um pouco porque jamais a Inglaterra tenha falado nisso? E não é de estranhar que devastada, extremamente endividada com os EUA, a Grã Bretenha tenha criado um Serviço Nacional de Saude, de custo elevadissimo, quanto estava sem dinheiro para se recuperar do básico?
Parece que Hitler cometeu um terrível engano. Saiu-lhe o tiro pela culatra! Secretamente esse dinheiro começou a circular, ninguém sabia se era dinheiro bom ou menos bom, e o país recuperou-se rapidamente. Foi, por exemplo, o primeiro a produzir aviões a jato comerciais no mundo.
De onde terá vindo tanto dinheiro???
E como é possível que, além do dinheiro que corre em todos os países do mundo, ainda hoje “sobrem” trinta trilhões de dólares estagnados nos tais paraísos? É fácil entender: as fábricas de notas não param.
Em 1925 um português teve a mesma visão: havia pouco dinheiro em circulação. Portugal vivia momentos de grande aperto (como hoje!). Angola, como São Tomé com o café e cacau, ofereciam grandes possibilidades de desenvolvimento. Mas não havia dinheiro para investir.
Habilidoso, inteligente, falsário, conseguiu que fossem impressas, uma imensa quantidade de notas, todas de 500 escudos, num volume equivalente a cerca de 1% do PIB (hoje seriam 25 bilhões de dólares). O “azar” dele foi começar uma vidinha de rico e sempre apresentando notas de 500 escudos para pagar o que quer que fosse. Desconfiou-se, foi apanhado, e o seu – inteligente – plano de investimentos... morreu, e ele foi para a cadeia.
Não há dúvida que os ingleses, vinte e poucos anos depois, foram muito mais sofiscados e espertos! Devem ter aprendido com o pioneiro português Artur Virgílio Alves Reis, só que não se deixaram apanhar!
Destas Olimpíadas ficaram-me três mensagens:
- a simplicidade e categoria da primeira dama dos EUA, Michell Obama;
- a homenagem a uma mulher, simples, que lutou, e luta, pela preservação da Amazônia;
- e uma pista (?) ou uma solução (?) para a malfadada crise que assola tanta gente em tanto lugar, e que uma maquineta de fazer notas pode resolver em menos de um abrir e fechar de olhos.

É claro que não se pode esquecer um aplauso aos atletas, sejam eles de onde forem.



29/07/2012

quinta-feira, 26 de julho de 2012



Lourenço Marques

- 2 -

Do seu estabelecimento


 

Voltemos a Lourenço Marques e comecemos ... pelo começo!
Assim que D. João II tomou conhecimento da entrada de Lourenço Marques na baía que levou seu nome, escreveu logo a Dom João da Castro que estava como Vice Rei na Índia:

Dom Joam de Castro Amiguo. Eu elrrey vos emuio muito saudar. Per bernaldo nacere capitão da naao de garcia de saa que chegou aquy no mês de feuereiro pasado receby a carta que me escreuestes de moçambique e dou muytas graaças a noso senhor da boa viagem que le¬vastes, de que folguey de me dardes conta tão particularmente; ......
Do descobrimento daqueles rios que fez Louremço marques folguey de saber, e parece que será cousa muy ymportante e necesaria acabarse bem de saber, pelo que vos emcomemdo muyto que ordeneis loguo mamdar da ymdia pêra iso hum navio ou fusta, qual vos parecer maes comveniente: e pela emformaçam e pratica que jaa disto tem louremço marques me parece meu serviço emcarregardelo desta viagem, ao qual dareis regimemto muy particular de tudo o que faça e procure de saber. E parecemdouos bem leuar ele no dito navyo algüas mercadorias, como parece que será necesareo, será bem mamdardeslhas, com as quaes ele poderá milhor resgatar as da terra, e saber uerdadeiramemte as que haa nela. E do que se nisto fizer me avisares. E posto que uos diga que mamdeys a isto Louremço marques, não o encaregareys diso, senam parecendouos que he tam soficiente pera iso que podereyes de mamdar a iso outra pesoa...
Bartolameu froes a fes em allmeyrim a oyto de março de 1546.
- Rey
Pera dom Joam de Castro

(Ainda que foi Lourenço Marques o primeiro explorador da bahia d'esse nome e rios que n'ella esboçam é de ver que já fora conhecida dos nossos navegadores desde a epocha em que D. Manuel mandou Cyde Barbudo(1) e Pedro de Quaresma(2) examinar a costa desde o Cabo até Sofalla para obter noticias de Francisco de Albuquerque e Pedro de Mendonça quen'aquellas paragens tinham desapparecido : a armada sahiu de Lisboa em setembro de 1505, e o regimento dado a Cide Barbudo pôde ver-se nos Annaes marítimos e coloniaes, serie 4.a paginas 162 e seguintes.)

O que parece se ter passado a seguir foi um quase abandono dos portugueses com o comércio naquela baía, até à sua “retomada” em 1781.
Portugal, por ter descoberto o caminho para a Índia, reservava-se o exclusivo do comércio europeu desde o Cabo até Sofala. Para norte já havia árabes e indianos há muito tempo.
Quatro anos antes, 1777, um aventureiro inglês, Guilherme Bolts, homem culto, arguto e diplomata, tipo “homem das arábias”, depois de ter trabalhado para os ingleses na Índia, e de ter enriquecido por meios escusos – que tudo perdeu porque a companhia inlgesa lhe sequestrou os bens - aparece em Lisboa e daqui vai a Viena e Trieste, onde consegue que alguns comerciantes lhe confiem um navio e mercadorias, esperando o “belo e lucrativo retorno”. Como a sua fama era conhecida em Portugal, onde nada conseguiu, passou à ilha da Madeira onde também não lhe venderam vinhos, depois Rio de Janeiro e finalmente em Lourenço Marques, onde não encontrou qualquer autoridade que o prejudicasse. E ali fundou uma feitoria, em nome de sua magestade imperial a arquiduquesa Maria Theresia Walburga Amalia Christina von Österreich, arquiduquesa e soberana da Áustria, Hungria, Bohemia, Croácia, Mântua, Milão, Galícia e Lodomeria, Parma e Países Baixos Austríacos. Pelo casamento, tornou-se duquesa da Lorena, grã-duquesa da Toscana e imperatriz consorte do Sacro Império Romano-Germânico. (É considerada um dos "déspotas esclarecidos", mas não se pode negar que não tenha sido “um bom partido” e uma grande parideira: teve 16 filhos!)
Bolts quiz a seguir negociar na Índia onde após uma série de “portas fechadas” conseguiu por fim fazer algum negócio, o que mereceu forte censura dos ministros e deputados da Junta da Fazenda da Índia. Dizia o ministro: “O dito Bolts tem arte, destreza, e astúcia, acompanhada de um grande conhecimento do comércio na Ásia, para poder persuadir e talvez determinar a Corte de Viena com estas ideias a formar uma Companhia em Trieste, ainda que ocorra o mesmo que à de Ostende”. Para ele “Bolts era um aventureiro e pirata por se intitular diretor geral de uma companhia que nem existe”!
Isso não o impediu de assonhorear do comércio com os régulos da região, correndo até com navios ingleses que ali aportaram.
Em 3 de Maio de 1777 assinou o primeiro tratado com o régulo Capela que designa por Rajá Mohaar Capelle, sempre assinando em nome de sua Magestade Imperial!
Dias depois assina novo tratado com o régulo Matola, a quem chama Rajá Chibanzan Matola, assinado também pelo Rajá Mafumo, que lhe vendeu toda a terra onde hoje se encontra a cidade de Maputo!
Portugal decidiu então correr dali com os “intrusos invasores” e a 31 de Março de 1781 ancorou, em frente do forte de S.José uma fragata, comandada pelo tenente-coronel Joaquim Vicente Godinho de Mira, que ali encontra três outros navios: um português, outro inglês e o terceiro, o Principe Fernandi da companhia de Trieste.
Godinho de Mira assim “que deu fundo” mandou logo apresar o navio “imperial” e com alguma tropa desceu em terra e sem encontrar resitência tomou conta da bateria de artilharia! No dia seguinte arvorou a bandeira portuguesa, notícia que logo se espalhou por toda a região, e os régulos acorreram para saber o que se passava, sendo o primeiro o régulo Mafumo, recebido a bordo com toda a dignidade.
No texto anterior transcrevemos o relato da visita do rei da Matola, o segundo a comparecer. No dia seguinte:

Em o dia 5 de abril, pelas nove horas da manhã, chegou a bordo da fragata uma pessoa do rei Capélla, mandado pelo dito, a fazer-nos saber que elle vinha já em marcha para ter o gosto de nos fallar, e que esperava nós fossemos encontrá-lo ao logar onde se fazia a agua, porque a bordo o dito rei não podia vir; o tenente coronel lhe procurou o motivo de não querer vir à fragata aonde já o rei Matolla tinha vindo, e entre elles era costume virem a bordo de todas as embarcações que ali chegavam; a pessoa do rei não respondeu nada, senão que o rei não vinha a bordo, a que respondeu o tenente coronel fizesse o que quizesse, comtanto que o dito rei ordenasse se nos viesse vender tudo que precisasse a fragata e que passasse ordem para se deixar fazer aguada, e tudo o mais que fosse preciso á fragata de Sua Magestade Fidelíssima; com esta resposta se foi a pessoa do rei, e o tenente coronel desembarcou para a terra aonde tinha a tropa da legião, e achando-se no mesmo sitio o capitão de mar e guerra, chegaram a este tempo pessoas do dito rei, dizendo que o rei era já perto d’aquelle sitio, e nos queria ali mesmo fallar e que vinha acompanhado da sua gente, que seriam três mil cafres antes mais do que menos; o tenente coronel respondeu que fossem dizer ao rei, que podia vir, que ali esperava, ainda que o logar era bem impróprio; retiraram-se as pessoas, e o tenente coronel fez desembarcar as peçinhas de amiudar, e alguma tropa de infanteria, e pondo tudo em or¬dem esperou o dito rei, que não tardou muito em chegar ao dito logar aonde se achava a tropa formada com os seus ofticiáes, o capitão de mar e guerra, e alguns, oíficiaes do corpo de marinha, que todos estes se avànçaram alguns passos a receber o rei e conduzi-lo a uma pequena barraca, aonde depois de muitos cumprimentos lhe foi dito pelo tenente coronel a pouca rasão que o rei tinha para deixar fazer estabelecimentos n’aquêlles logares, não o podendo, nem devendo consentir ali outra nação que não fossem portuguezes, a quem só era permittido o poder ali ir commerciar, e que por esta vez mandava Sua Magestade Fidelíssima fazer-lhe constar, que não era do seu real agrado aquelles estabelecimen¬tos, que lhe levaria muito a mal todas as vezes que elle consentisse n'aquellas terras alguma outra bandeira que não fosse a de Portugal; foi respondido pelo rei, que elle não queria a outros amigos senão os portu¬guezes, e que se estes tivessem continuado em levar saguates grandes, e roupas para a sua gente, que elles não teriam recebido outros, nem deixariam levar o seu marfim senão aos portuguezes, a quem elles tratam como irmãos; depois d'esta falla lhe assegurou o tenente coronel, que haviam vir áquelle sitio bastantes embarcações a levar-lhe os géneros precisos, e que elles olhassem a bandeira de Sua Magestade Fidelíssima com aquelle respeito, amor e veneração que deviam; que tivessem o maior cuidado, em que se lhe não fizesse nunca insulto, aliás seria obrigado a tornar áquelle logar aquella mesma fragata para os castigar. O rei protestou amisade e respeito á bandeira de Portugal; a esta resposta deu-se-lhe muito de comer, muito mais de beber, deu-se-lhe saguate com que foram satisfeitos, e se despediram, e ao sair da barraca se lhe deram nove tiros de peçinha; marchou a tropa para elle ver, de que gostou muito, e deram grandes gritos a sua gente; isto se passou tudo sendo presente todo o corpo de officiaes, e eu que por verdade o escrevi e me assignei,
==Antonio Joaquim Pinto Gollares, escrivão,
 
Notas:
1.- Cide Barbuda foi capitão do mar. Quando D. Francisco de Albuqueque, em 1505, se perdeu na volta de Cananor a Portugal, D. Manuel I ordenou que saisse de Lisboa uma esquadra, cujo comando foi entregue a Cide Barbuda e Pero de Quaresma, com a finalidade de procurarem Albuquerque e Pero de Mendonça que com ele viajava. Barbuda navegou até ao Cabo e dali a Sofala, mas todas as pesquisas foram baldadas.

2.- Pero Quaresma foi um dos construtores da fortaleza de Sofala em 1506.



26/07/2012

segunda-feira, 23 de julho de 2012



Porquê tanta crise ?



É sabido, cansados de saber, que a crise provém, em primeiro lugar, pelo desaforo dos gastos públicos, do dinheiro fácil, do descontrole, mas principalmente pela roubalheira que o “sistema” financeiro internacional, com o beneplácito dos governos – de TODOS os governos, pratica impunemente em cima de todos e qualquer um sem querer saber das consequências.

O “pai” da crise, é, evidente, a Suiça. Foi lá que os gangsters inventaram as contas secretas, e por onde começou a sugar-se o dinheiro dos países. Há muitos anos, e ninguém teve coragem de lhes ir em cima, porque, porque ?, todos estavam mancomunados no roubo.

Até que surgiram os chamados “paraísos fiscais”. Lembro uma conversa que tive uma vez, a seguir ao 25barra4, com alguém que estava ligado aos serviços secretos ingleses, em que fiquei a saber que os americanos pretendiam criar um desses paraísos nos Açores, para fazerem concorrência à Suiça. Como ficou... não sei. Ficou pelo menos na Madeira! O que é sabido é que paraísos existem em toda a parte, e segundo pesquisa na Internet são os seguintes:

Andorra; Anguilla; Antígua e Barbuda; Antilhas Holandesas; Aruba; Bahrein; Barbados; Belize; Campione d'Italia; Chipre; Singapura; Comunidade das Bahamas; Djibouti; Dominica; Emirados Árabes Unidos; Estados Unidos (não ocorre cobrança de imposto de residente que tem capital emprestado em outro país, estimulando o investidor a aplicar os juros em sua economia); Federação de São Cristóvão e Nevis; Gibraltar; Granada; Hong Kong; Região Autónoma da Madeira; Ilha de Man; Ilha Niue; Ilhas Bermudas; Ilhas Cayman; Ilhas Cook; Ilhas do Canal (Alderney, Guernsey, Jersey e Sark); Ilhas Marshall; Ilhas Maurício; Ilhas Montserrat; Ilhas Turks e Caicos; Ilhas Virgens Americanas; Ilhas Virgens Britânicas; Labuan; Líbano; Libéria; Liechtenstein; Luxemburgo (no que respeita às sociedades holding regidas, na legislação luxemburguesa, pela Lei de 31 de julho de 1929); Macau; Maldivas; Malta; Mônaco; Nauru; Panamá (facilidades para instalação de estaleiros); Paraguai (isenção de impostos para empresas que lá se instalarem e é permitida a repatriação total de lucros); República da Costa Rica; Samoa Americana; Samoa Ocidental; San Marino; Santa Lúcia; São Vicente e Granadinas; Sealand; Seychelles; Suíça (níveis moderados de tributação e segredo bancário); Sultanato de Omã; Tonga; Uruguai (imposto de 0,3 % para sociedade anônima de investimentos financeiros); Vanuatu (também Novas Hébridas).

Se algum dos leitores tiver um troquinho sobrando... a dificuldade é escolher o paraíso!

Uma alegria! Não há porque ter medo das autoridades (?) monetárias porque os donos da grana podem andar a passear com ela de um lugar para outro sem que sejam apanhados!
Vejam só quanto anda por esses paraísos, enquanto nós estamos entre purgatório e inferno, no artigo abaixo.

E... alguém vai fazer alguma coisa? Boa piada. Ninguém atira pedras ao ar!

*****

Do jornal “O Globo”, 23/07/2012

Bruno Villas Bôas

Os milionários brasileiros têm uma fortuna estimado em US$ 520 bilhões, o equivalente a mais de R$ 1 trilhão, depositada em paraísos fiscais, o quarto maior volume de recursos do mundo, atrás apenas dos chineses (US$ 1,8 trihão), russos (US$ 798 bilhões) e sul-coreanos (US$ 779 bilhões).

Para se ter uma ideia dessa “sangria”, o dinheiro brasileiro expatriado para centrso de sonegação fiscal seria suficiente para pagara metade da dívida pública federal (R$ 1,9 trilhão) e supera a arrecadação de impostos federais no ano passado (R$ 993 bilhões).

Os números estão num estudo divulgado ontem pela organização inglesa Tax Justice Network. O levantamento revela ainda que milionários de 139 países têm entre US$ 21 e US$ 32 trilhões depositados e "offshores" no fim de 2010.

O valor equivale ao Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos) dos Estados Unidos e Japão somados.

"O estudo examinou um enorme 'buraco negro' da economia mundial que nunca foi mensurado, a riqueza privada offshore, um vasto volume de ganhos que não são tributados", explicou o economista americano James Henry, ex-chefe da consultoria McKinsey, contratado para comandar a pesquisa.

Somente 100 mil milionários, que formam uma elite financeira global, respondem por US$ 9,8 trilhões do dinheiro depositado em paraísos fiscais. O tamanho da fortuna chama a atenção em um momento que os países precisam arrecadar impostos e cortar seus gastos para enfrentar a crise financeira internacional.

O estudo revelou ainda que 50 bancos privados movimen¬taram US$ 12,1 trilhões entre as fronteiras dos países em 2010 para os seus clientes. Os destaques ficam para três gigantes globais: UBS, Crèdit Suisse e Goldman Sachs.

"O setor offshore — especializado em sonegação fiscal — é desenhado e operado não por obscuros bancos sem nome em ilhas suntuosas, mas pelos maiores bancos privados do mundo, escritórios de direito e de contabilidade sediados em capitais como Londres, Nova York e Genebra", diz Henry.

O trabalho não detalha a participação desses bancos na sonegação de impostos no Brasil. O documento teve como fonte dados o Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial e Banco de Compensações Internacionais (BIS).»
 
E, cadê Angola? E Guiné Equatorial?

O quadro acima denota uma situação muito curiosa: quanto menos confiança nos governos, mais grana se pôe a andar. Infelizmente o Brasil ficou em quarto lugar!

Nem nas Olimpíadas ganharia uma medalha!

23/07/2012

Voltaremos a Lourenço Marques... em dois dias!