quinta-feira, 7 de setembro de 2023

 

INTROITO... não introduzido

 Há já algum tempo - em 1989, de que são passados 34 anos - comecei a escrever umas “coisas” que acabaram formando o livro “Contos Peregrinos a Preto e Branco”, e este gerou uma boa quantidade de agradáveis comentários, muitos deles guardados até hoje.

Essas “coisas” começaram por cenas de caça vividas em Angola, que mandei ao meu GRANDE amigo João Salgado, amigo de infância e parceiro de algumas caçadas, para que me desse a sua opinião sobre os escritos.

Respondeu-me logo. Tinha gostado imenso, fez alguns comentários e relembrou várias outras cenas. Enfim incitou-me a que continuasse a escrever.

Continuei.

Para isso, na altura lembrei-me de escrever um Introito, que pareceu fundamental para iniciar um possível livro, introdução essa acabou não sendo usada, e agora descoberta um papel amarelado e fragilizado pela idade, no meio de uma infinidade de outros papeis a que estou a ver se sou capaz de ordenar.

Achei o Introito “abortado” na ocasião, pois não o encontro em nenhum dos livros que escrevi.

Achei interessante (não me estou a gabar) e decidi que o daria a conhecer aos que leram o livro e aos que não leram!

Podem comentar à vontade, dizer bem ou mal, o que desde já agradeço!

N.- O que vai entre parêntesis e em itálico não é do original.

 

INTROITO

Todos os, como eu, cresceram e foram educados no tempo do Estado Novo (em Portugal), talvez também uns quantos mais antigos e, quem sabe?, se igualmente muitos das gerações mais novas, ficámos imbuídos de um complexo histórico que nos marcou estranhamente, com uma espécie de aversão aos espanhóis que sempre procuraram dominar toda a península, mas a quem os nossos ancestres tão bem enxotaram do terreno luso.

Haja em vista a Batalha de Aljubarrota, o movimento para a Independência em 1640, sem falar no nosso rei Afonso IV que, não fosse ele, ainda hoje Granada ...

Depois a nossa ajuda durante a triste guerra civil (quando os comunistas que se preparavam para ganhar a guerra afirmavam que a seguir iriam sovietizar Portugal!). E até há poucos anos quando o escudo valia duas e meia pesetas, o que nos dava uma sensação de superioridade que confirmava a psicose recebida na escola.

Com o correr dos anos fui aprendendo que, em cada vinte jogos de futebol Portugal-Espanha nós conseguíamos a tremendo custo ganhar um, empatar outro e perder os outros dezoito! Isto, segundo se badalava, jogando melhor que os adversários, como é de imaginar. Mas sempre havia azar, árbitros do contra, etc..

A seguir assistimos a um estupendo surto de desenvolvimento harmónico dos nossos vizinhos, a um inteligente jogo político entre os diversos partidos, e... a uma constante desvalorização do nosso dinheiro que hoje vale dois terço de uma peseta!

Felizmente que já há muito tinha conseguido constatar que aquela noção de comparação Portugal-Espanha estava totalmente errada. Graças a Deus, quando não o choque teria sido muito grande.

Com respeito aos mouros, uma vez que haviam sido escorraçados do nosso território há muitos séculos, ficou-nos o tal complexo por termos sido “colonizados” durante quinhentos a seiscentos anos por “gente de condição tão inferior” à nossa. Como tal havia sido possível? Só por questão de números: nós éramos poucos e os “infiéis” aos milhões! Só assim.

Na escola creio que se esqueceram de nos ensinar algumas coisas que me parecem de importância relevante na nossa vida quotidiana, mesmo hoje, final do século XX,

Por exemplo só o facto de nos terem deixado o “almoço”! Imaginem se tivéssemos ficado sem ele. E o fado? Sim, o fado? Já pensaram o que seria dos portugueses, sobretudo lisboetas e estudantes de Coimbra, sem o fado? E não me venham dizer que isso não é herança dos árabes. E os alcatruzes das noras? E as moiras encantadas, de olhos azuis, que davam toda a beleza aos contos com que adormeciam os nossos avós? Que mais nos deixaram? Tantos e tantos ensinamentos de ciências matemáticas, médicas, agrícolas, etc. Talvez a maior herança desse povo tenha sido ainda a nossa capacidade de miscigenação, que criou os novos mundos onde não se chocam nem raças nem credos.

Deixou-nos também um provérbio, cuja origem se perde no tempo, de uma saberia imensa: “Um homem só se realiza neste mundo se tiver um filho, plantado uma árvore e escrito um livro.”

Parece um ditado machista, mas tanto pensei nele, por achá-lo curioso, que não foi difícil encontrar-lhe o profundo significado: em primeiro lugar, se o homem não fizer filhos a humanidade acaba por se extinguir.

Crescei e multiplicai-vos. Há que perpetuar a espécie. Mais do que evidente.

Depois tem que plantar uma árvore para deixar aos vindouros a natureza equilibrada, tal ou melhor de como a recebeu. Usou madeira, lenha, e sabe que se não replantar, um dia os seus descendentes não vão ter mais florestas, perigando a sua sobrevivência. E hoje em dia que tanto se fala em equilíbrio ecológico, há quantos anos os árabes nos deixaram essa mensagem?

Finalmente escrever um livro. Para quê? Para que possamos passar aos filhos os ensinamentos que conseguimos ir colhendo ao longo dos anos.

Provérbio sensacional. Foi ele que me inspirou a escrever.

Filhos tive número suficiente para me terem mantido ocupado e preocupado durante muitos anos, e ainda hoje. Netos já começaram também a chegar (em 2023 estamos nos bisnetos) que continuam a povoar este mundo.

Árvores plantei muitas, de muitas espécies e em muitos lugares. Talvez milhares. E continuo plantando, não só por considerar isso importante para o equilíbrio da natureza, mas por puro egoísmo também: as árvores são seres lindos, e dá um enorme prazer vê-las crescer. Eu sei que algumas levam dezenas e dezenas de anos a se tornarem “adultas”, e a grande maioria eu já não vou ter possibilidade de apreciar. Mas o mundo não acaba quando eu fechar os olhos.

O livro. Não que eu tenha pretensões em deixar aos vindouros algum ensinamento especial. A minha ignorância não o permitiria. Mas todos nós temos passagens nas nossas vidas que pensamos merecem ser contadas.

Tudo aquilo que escrevi não é ficção. Foram episódios da minha vida ou da vida de alguns amigos que compartilhei. Podem não estar cronologicamente corretas, mas isso não impede que se tenham passado como os conto. Infelizmente do mesmo modo não soube contá-los com a graça e a vida que alguns tiveram, nem descrever a cor local.

São um apontamento e assim devem ser lidos

 

São Paulo, Abril de 1989

 

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

 

O Mistério da Tinta Azul

 

Lá pelas bandas onde fui nascido, os indígenas daquela terra usam umas frases que, sendo clássicas, usadas desde tempos imemoriais, que hoje nos fazem rir, e gramaticalmente, soltas, não fazem qualquer sentido, como por exemplo o “ele há coisas...!”

Mas a verdade é que quando menos se espera nos deparamos com situações de tal forma insólitas que, regredindo ao berço natalício sou obrigado a exclamar, repetidas vezes até, o tal ele há coisas...

E há mesmo. Vou contar-vos o Mistério da Tinta Azul, a que se levantou já um pouco do véu que encobria a razão da sua existência, sem porém, todavia, contudo ter deixado revelar a origem de tal caso.

Começando pelo começo ou pelo princípio, há uns dias começaram a aparecer na roupa que vestia umas pequenas manchas de tinta azul, sem que eu tivesse mexido em tintas, nem andasse na fase das pinturas e/ou retratos, até porque estava sobretudo na fase de uma fraqueza que mal me podia aguentar em pé mesmo sem pinceis nem mesmo só com as ideias pictóricas. (Felizmente essa fase passou, e já fiz alguns riscos... pouca coisa).

O problema era descobrir de onde vinham essas manchas.

A minha mulher, com aquele instinto feminino que aos homens parece estar vedado, foi dizendo que eram de tinta de caneta.

Para quem usa, nos dias de hoje só esferográficas – o tempo das canetas tinteiro já passou, e que ainda me lembro que as que nos eram dadas para ir para escola eram baratas – nada de Mont Blanc, Parker ou similar -  às vezes eu chegava a casa com a camisa... azul! O depósito da tinta tinha estourado.

Discutindo o assunto em concílio familiar, conclui-se que necessitávamos de ajuda de especialistas para investigarem e, se, descobrirem o insólito.

E assim se fez.

Deixei-me de cerimónias e escrevi, não na Internet mas no Etéreo...net, primeiro, a Conan Doyle, Sir, pedindo-lhe que explicasse o assunto ao grande Sherlock Holmes, que ele certamente encontraria uma explicação.

Não tardou a que recebesse uma mensagem do famoso detetive dizendo que após discutir o assunto com o seu colaborador Dr. Watson, possivelmente encontraria qualquer resposta em alguma flor, dada a exuberância dos trópicos, mas para confirmação eu deveria enviar-lhe uma série de flores, que ele descreveu, para análise.

Sugeriu que eu verificasse se não seriam resíduos, pingos, de sorvete de açaí ou da tinta de alguns calamares.

Não sr. Sherclok Holms, há anos que não como “chocos em su tinta”, mas fico-lhe agradecido porque gosto muito do açaí gelado, que fazia dias que não comia, e o açaí é cor quase preta. E tudo isto bem antes das manchas de tinta terem começado a aparecer.

De qualquer modo fiquei lisonjeado pela rapidez com que os senhores Conan Doyle, sir, e Sherlock Holmes saíram do seu eterno sossego, para colaboram com um mísero e já gasto terráqueo, pelo que logo lhes enviei os meus profundos agradecimentos.

Face a este insucesso restou a grande Agatha Christie, a maior vendedora de livros deste planeta, que do mesmo modo, sem querer ficar atrás do seu admirado percursor, já Sir, Conan Doyle, no meio dos seus imensos trabalhos – os seus livros, já venderam mais de 4 bilhões de exemplares! – mandou dizer-me que tinha entregue o assunto a Hercule Poirot, que pediu mais detalhes do Mistério, quando ainda chegou a dizer que iria convocar a Miss Jane Marple para o ajudar, porque o assunto parecia circunscrever-se a um ambiente familiar.

Miss Marple fez uma rápida análise sobre os habitantes desta casa e não demorou a suspeitar de uma bolsa que costumo usar pendurada no pescoço onde guardo óculos e uma caneta, que ela, com sua perspicácia descobriu numa aquarela minha feita há mais de 20 anos!

Feita uma inspeção à dita bolsa constatou-se que estava cheia de tinta... azul.

Oh! Mistério! Quem pôs ali a tinta? A caneta, esferográfica estava seca, não suja e a escrever, os óculos não usam tinta e estavam limpos e secos, mas quando decidi lavar a bolsa, de lá saiu uma quase infindável quantidade de tinta misturada na água da lavagem.

Mas, Miss Marple, como foi a tinta ali parar?

Aí Miss Marple engasgou e, claramente disse que já não era assunto que pudesse analisar e não fazia a menor ideia.

O mesmo aqui em casa. Muitas opiniões ouvidas, todas inconsistentes não levaram a qualquer solução.

Que a tinta estava na bolsa, estava, mas como foi lá parar nem os grandes detetives da história foram capazes de saber.

Lavou-se, muito bem, a bolsa, ficou um dia pendurada ao sol, voltou a estar em uso, pendurada no meu pescoço, mas ficou o segredo ou a incógnita, do modo como a tinta tinha entrado na bolsa.

Realmenteele há coisas”!

31/08/23

 

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

 

A Velha Gaveta

 

Quem não tem em casa uma gaveta, normalmente num móvel antigo, onde durante a vida se foram guardando pequenas coisas, como uma cartinha que escreveu aos pais quando tinha 7 ou 8 anos, o acessório de uma máquina fotográfica dos anos 60 ou 70 que deixou de ter utilidade, a caneta tinteiro que levou para o exame do 3º ano (hoje a 7ª série), um velho e pequeno pincel que a mãe ou a mulher abandonaram quando deixaram de usar pó de arroz para se embonitarem, e que lhe serviu para limpar as lentes das máquinas fotográficas hoje também aposentadas ou perdidas, carteiras e caixas de fósforos, uma do hotel Ramada, (talvez de Johannesburg), onde passou uma noite há muitos anos (talvez uns 60!), outra que era uma pequena propaganda da fábrica de cervejas (1971), e muita outra tranqueira, como uns óculos que tinham sido do seu avô, ali jazendo arrumadinha, envelhecendo e/ou deteriorando-se mas que constituem a toca de velhas recordações?

Volta e meia uma pesquisa à procura de qualquer coisa que se lembra de ter tido mas não sabe onde está, sempre com cuidado para não desarrumar o restante que ali descansa até... ao dia em que um herdeiro decida que tudo não passa de lixo e faça desaparecer.

Entretanto tudo bem arrumado dava até prazer abrir só para olhar para dentro!

Mas um dia, novamente à procura de algo que ele mesmo nem sabia bem o quê, abre gaveta toda e... “Ó! C’os diabos!” o fundo da gaveta, velho, roído, desprende-se, desaba e todas aquelas “preciosidades” se espalham pelo chão num raio de 1 a 2 metros, perante o olhar estupefato e entristecido do “dono”.

Com muito cuidado, não deixa ninguém aproximar-se da “zona de conflito”, arranja umas caixas de papelão enquanto não conserta a gaveta, vai buscar um banco, senta no meio da confusão e começa a recolher com todo o cuidado e carinho aquilo que até àquela altura tinham sido “preciosidades históricas”!

Uma a uma apanha, analisa, vê com cuidado se tem alguma referência especial, encontra as cartinhas que escrevera era ainda menino, lê-as lembrando que tinha sido a sua mãe que as guardara antes de chegarem às suas mãos, experimenta a velha caneta, que depois de limpa e com nova tinta escreve perfeitamente, e assim permanece recordando, selecionando e separando todas essas coisas para diferentes caixas, deixando o seu coração vagar pelos tempos de cada peça, relacionando-as com acontecimentos coevos, e fica sentado, cabisbaixo, meditando, no tempo de cada peça.

Como vivia, onde estava, e vê como tudo mudou muito mais profundamente do que tinha pensado.

Guardou tudo nas caixas de papelão, agarrou na velha gaveta, foi restaurá-la com um fundo novo, sem saber se depois de pronta voltaria a pôr lá dentro tanta coisa que afinal já pouco ou nada representava na sua vida como a caixa de fósforos do Hotel Ramada os acessórios das antigas máquinas fotográficas, etc.!

Muita daquela coisa deixara de ter interesse, ninguém mais queria saber daquilo e, a verdade, é que ocupava um espaço que poderia fazer falta para coisas úteis, atuais.

A pensar.

* * * * *

Que interesse tem a história de uma gaveta velha, cheia de tranqueira que para nada serve a não ser para ocupar espaço e muita vez ganhar cupim e mofo?

É verdade.

Mas quem não tropeçou já num degrau de escada ou numa pedra mal calcetada no passeio de uma qualquer rua, deu um tombo, se esfolou um pouco mais nos joelhos, na canela, num ombro, etc., e que socorrido ou não, deixa-se ficar sentado no chão, não para curtir eventuais dores que só se manifestam uma mão cheia de minutos mais tarde, quando começam as nódoas negras, os “roxinhos” a se espalharem pelo corpo.

Confere se não quebrou nada e depois verifica que a sua cabeça ficou igualzinha à gaveta que perdeu o fundo!
As ideias baralham-se, não sabe onde tinha o tele móvel guardado, se o tinha consigo, leva tempo até realizar que horas são, e quando por fim consegue levantar-se, velhote, só com a ajuda de alguém, e depois sentado confortavelmente, e com alguém da família a estudar os estragos no corpo, limpando sujeira e eventuais feridas, enfaixando outras, trazendo um copo de água e talvez um analgésico para diminuir as dores do impacto, começa a tentar re-arrumar as ideias que lhe ficaram todas baralhadas.

Ao fim de algum tempo conclui, já sorrindo, que nós somos como aquelas gavetas, cheias de “não vale nada” mas que ocupam espaço nas nossas vidas, da mesma maneira que muitas vezes nos preocupamos com problemas para os quais não tempos qualquer condição de reverter o curso do que nos parece errado, muito errado e até perigoso, como o caso das políticas nalguns países, quando deveríamos ocupar esses pequenos espaços que ainda temos nas nossas cabeças, com pensamentos mais úteis e, se possível partilhando as preocupações de quem realmente sofre de qualquer mal, seja físico psíquico ou material.

Eu já dei tombos mais ou menos violentos. Recordo alguns de quando era um “garotão” quando as “gavetas da cabeça” ainda estavam vazias e por isso deixaram só na memória o caricato ou até perigoso de alguns desses acidentes.

1.- 1949. Estava a estudar, e nesse dia a aula era sobre poda de oliveiras. Meus colegas, e eu, subimos numas quantas dessas magníficas árvores, levando numa das mãos uma serra e na outra uma tesoura de poda, sempre grandinhas e bem afiadas.

Sentados em pernadas, aí a uns 2 metros do chão, devíamos podar os ramos do centro para que a luz entrasse e permitisse que essa parte também produzisse mais azeitonas.

O ramo onde me encaixei e sentei, de repente.... trás! Quebrou, e aí vou eu, em voo picado direto ao chão, levando nas mãos objetos que me podiam perfurar todo! Nesse instante só lembrei de abrir os braços para afastar esse perigo, e caí muito bem, como um paraquedista profissional, dei uma cambalhota no chão e fiquei sentado, tranquilo, com braços abertos. Incólume.

O professor e os colegas assustados e eu a rir!

A gaveta era ainda bem novinha! Não se desarrumou nada.

2.- 1953. Exposição de Máquinas Agrícolas. Eu a tomar conta do estande da empresa onde trabalhava, e que exibia uns quantos tratores, umas colheitadeiras e outros implementos. Tínhamos a maior e mais bonita exposição daquela Feira.

Quando pediram aos expositores para porem todas as máquinas a trabalhar para saudar a chegada do ministro que ia inaugurar o evento, eu corri para um dos tratores sem me assegurar que a caixa de marchas estava no ponto morto.

Sem subir na máquina, ao seu lado, dou partida e ele começa a andar sozinho. Quis acompanhar o andamento para desligar a chave, tropeço, caio de costas e o bendito trator passou por cima das minhas pernas. Um funcionário correu, resolveu a situação e eu levantei-me com as calças rasgadas e dores numa das pernas.

Rimos com o acidente, mas tive rotura dos ligamentos do joelho esquerdo, andei um mês com gesso da virilha ao calcanhar, e pelo resto da vida o trator ainda ri de mim, quando sinto uma dorzinha no local.

Levou tempo para arrumar essa “gaveta”! Não o conteúdo.

Mas a juventude cura até doença de velhice!

 19/08/23

 

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Como a saúde tem andado a "brincar" comigo, deixando-me bem mais magro (foram-se 6 kilos, e com as forças bem reduzidas) a minha ausência no bolg é evidente.

Falta-me inspiridade e disposição para criar novos textos e assim vou-me valendo - para não deixar a peteca cair - de textos escritos há 10, 15 ou mais anos, na esperança que quem os venha a ler não lembre de o ter feto já. Aqui vai um de 2008.

Desculpem, mas... a idade não perdoa


28 de nov. de 2008



DECOLORES

Nos tempos cada vez mais incertos e inseguros em que vivemos, quando a tecnologia nos traz simultaneamente benefícios e desgraças, o homem, e a mulher, em vez de procurarem ir ao encontro de Deus, seja qual for o nome que lhe dêem, e a forma como O concebem, visam sobretudo o seu mundo externo, a sua aparência, a ganância, o poder.
As maiores potências do mundo, as maiores fabricantes de armamento, gastam fortunas em lutas contra terrorismo, a quem fornecem as armas que depois matam indiscriminadamente, sobretudo inocentes civis de ambos os lados, e não só.
Vive-se um mundo em que a mentira se sobrepõe à singeleza e à verdade, em que se ignora o que está na posição mais baixa, em que se estimula o consumo e o crédito fácil para continuarmos a assistir ao sufoco financeiro da maioria.
É bom lembrar alguns terríveis governantes que só deixaram má memória a quem falta coragem para lhes reconhecer o mérito que também tiveram. Um deles, o tão mal tratado, post mortem, Salazar e tão reabilitado por uma consulta popular feita há pouco tempo, dizia que quanto mais dinheiro se puser na mão do povo, mais sufocado ele vai ficar, porque vai querer comprar tudo, endividar-se e viver desgraçadamente.
Parece profecia. E é. Hoje a maioria da população vive de crédito. E não tem como pagar. Depois os bancos transferem esses créditos podres para a mão dos governos que lhes acodem com milhões que vai sair do bolso de quem? Dos mesmos. Dos trabalhadores, da classe média, sobretudo. E gira a roda do infortúnio.
Grande sorriso na cara, os funcionários das empresas prestamistas são como terroristas: sabem que estão a promover a desgraça de quem cai na sua cantiga.
Já não se sabe mais quem é amigo ou inimigo. Dificilmente se encontra um governo que mereça a aprovação do povo. Surgiu agora uma esperança com Barak Obama, e o mundo torce para que ele faça milagres. Mas um milagre ele não fará: reduzir ou até acabar com a produção de armas! Nem ele nem ninguém. Pelo contrário; os países fabricantes continuam a destinar verbas astronômicas para o desenvolvimento de artefatos com maior poder destrutivo. Destrutivo de vidas humanas e de todo o meio ambiente.
No norte da Espanha, no tempo das lutas contra os sarracenos, as populações das zonas de conflito nunca sabiam quando e quem viria perturbar o seu sossego. E os peregrinos que, de quase toda a Europa se dirigiam ao túmulo do apóstolo Tiago, em Santiago de Compostela, enfrentavam muitas vezes, se não a fúria, a desconfiança dessas populações.
Criaram então uma palavra de “passe” que lhes permitia serem reconhecidos, e acolhidos, ao longo de todo o imenso percurso, por vezes de milhares de quilômetros, que faziam, cheios de fé e paz interior. Iam rezar junto ao Santo. Não consta que lhe fossem pedir armas ou mais guerras, ou fome ou peste. Procuravam paz. Paz interior e para o mundo. Alma alegre, aberta, viçosa, colorida. A palavra estabelecida para serem reconhecidos foi “DECOLORES”.
Cerca de mil anos mais tarde essa mesma palavra foi adotada por um Movimento que levava os homens a melhor conhecerem e seguirem a Cristo. O Movimento dos Cursilhos de Cristandade. Com que alegria cristã eles se cumprimentavam com o “Decolores”.
O mundo está cada vez mais preto e branco; está cinza.
O que é que cada um de nós pode, e deve, fazer para o tornar, todo, “Decolores”?
do Brasil, por Francisco G. de Amorim
29-nov-08

sábado, 29 de julho de 2023

 

Meus amigos e leitores

Há quase um mês que não venho ao computador! Alguns amigos chegaram a telefonar  para saberem se eu ainda estava vivo! Estou, mas...

Uma série de complicações de saúde me desinspiraram e desmotivaram.
Tentei algumas vezes escrever qualquer coisa mas não saiu nada!

Primeiro foi o tempo (e dinheiro) gasto em dentistas: o Covid em menos de um ano quebrou-me sete (&) dentes)! Resultado arranca uns, fura outros, próteses que não funcionaram, chatices mal estar e sobretudo a comer bem menos.

Acabou esta fase caiu-me em cima um stresse violento, que esse sim me derrubou, e não satisfeito com isso uma gripe violenta – felizmente sem febre, o que levaria a pneumonia) de que, parece estou a sair por estes dias... com menos 4 kilos. Parece que felizmente foram sobretudo da barriga (!) e um bom bocado das pernas.

Parei com as minhas atividades de ginástica, mas safei-me desta.

E aqui têm o panorama do que pode acontecer a um jovem, como eu.

**********

Mas para me deixar de lamúrias vou passar um texto, escrito há quinze anos e certamente está esquecido por quem na ocasião o leu

 

BANCARROTA

 

Vem bem a propósito, nesta altura dos catastróficos acontecimentos financeiros, que mais deviam chamar-se “vigarices a descoberto”, relembrar um pouco da história da banca, sobretudo da bancarrota.

Lá pelos antigamentes, tal como hoje, cada rei ou príncipe ou um big chefe qualquer, quando adquiria alguma importância, uma das primeiras atitudes que tomava era a emissão de moeda. Não precisamos voltar muito no tempo porque foi exatamente o mesmo que fez Dom João VI quando desembarcou no Brasil! Aqui a moeda era de papel mas lá... era de ouro, moedas grandes e bonitas nos reinos ricos, outras menores, ou de prata e até de cobre. Pesos e ligas diferentes conforme as regiões e a seriedade do emitente, mais vigarice ou menos vigarice do fundidor ou de quem cunhava, ao ponto de terem proporcionado a Arquimedes o célebre passeio, todo peladão, pelas ruas de Siracusa gritando “Eureka”! Tinha acabado de descobrir como saber se os trabalhos em ouro encomendados pelo rei Hieron II, tinham a conveniente liga de ouro ou se o ourives estava empalmando algo a mais!

No “dantes”, os ourives desonestos “empalmavam” um quanto do ouro que lhes passava pelas mãos, enquanto que hoje se faz o mesmo, mas com outra sutileza: troca-se o chamado dinheiro bom por dinheiro ruim, como subprimes e outras vigarices.

Com o andar dos tempos e o aumento do comércio e das viagens de negociantes por essa Europa fora, carregando cada qual um tipo de moeda diferente, houve necessidade de arranjar “especialistas” que pudessem, com rapidez, apreciar o verdadeiro valor das diferentes moedas e trocá-las pelas correntes em seu país, a fim de permitir ao negociante fazer as suas compras.

Estes especialistas tinham uma autorização especial dos governos, dos duques ou doges, para esta atividade, e pressupunha-se que seriam pessoas da mais alta confiabilidade.

Assim como Arquimedes saiu do banho, nu, a gritar que tinha descoberto um método, infalível, de verificar o conteúdo de cada liga, os genoveses “descobriram” um jeito, no mínimo curioso, de apreciar o valor de cada moeda: uma pele de gado. Isso mesmo, uma pele de gado, curtida, e esticada, onde as moedas eram deixadas cair! Pelo som, ou vibração, ou... por qualquer outro método que os tais especialistas encontraram, num instante o valor da moeda bárbara estava determinado e o câmbio feito!

Aquela pele, esticada como a pele de um tambor, era chamada de banca, banca essa onde se trocava qualquer tipo de moeda.

Enquanto o banqueiro se comportasse com a ética e seriedade que deles eram esperadas, as bancas prosperavam. Mas se o banqueiro “metesse a mão na massa” dos clientes e se visse inadimplente, um emissário do governo se encarregava de, com um punhal, rasgar a pele, acabando com a banca. Era a BANCARROTA !

O banqueiro além de, certamente algum castigo – talvez confisco de bens ou prisão – ficava proibido de voltar a ter outra banca.

Imagine-se se tais leis, simples e eficientes se aplicassem ainda nos dias de hoje... quantos punhais teriam que ser afiados!

O primeiro grande “banco” internacional que fechou, não por inadimplência ou má conduta dos negócios, mas exatamente pelo contrário, foi a Ordem dos Templários. O rei Filipe, o Belo, de França, quase falido e com a maioria das suas joias penhoradas aos Templários, obrigou o papa Clemente V a acabar com a Ordem. Depois de um julgamento vergonhoso, os responsáveis pela famosa Ordem foram queimados vivos e o rei, malandro, recuperou os seus bens sem gastar um cêntimo. Bom, gastar sempre gastou, porque teve que dar ao papa uma, certamente confortável, fatia do que roubou!

A grande diferença dos tempos: os Templários foram violentamente assaltados, espoliados, assassinados, apesar de sempre terem sido seriíssimos nas suas transações. Hoje os bancos entram em bancarrota, unicamente por culpa dos seus dirigentes, e quem paga o pato é o povo, com a moeda falsa que os governos hoje podem emitir quanta queiram, porque se trata unicamente de papel!

E tem mais, os gestores desses bancos rotos, sempre saem rindo à toa e com os bolsos cheios!

Aproveito para lembrar o GRANDE/BIG negócio que Portugal quer fazer com um novo aeroporto, que implica em nova ponte, nova linha férrea, etc, o que para um país miserável que está hoje todo eufórico com o turismo, mas não tem dinheiro para saúde, aposentadoria.

Mesmo que se atreva a lançar essa obra, será um crime imenso.

Mas esse governo português não está cheio de criminosos, corruptos e afins?

E o povo não vai vetar tamanha calamidade?

Por aqui as coisas vão de mal a pior. O Brasil decidiu financiar um oleoduto para a Argentina, a custo de bilhões dólares, o óleo jamais vai lá chegar, os argentinos dão risada e que paga é o banco brasileiro.

O cabeça de sapo-barbudo anda pelo mundo fora a falar mal dos EUA, já declarou em entrevista que é comunista, está a destruir infraestruturas poderosas, as fábricas de carros, algumas com suspensão de fabricação por 12 meses, outras com 50.000 carros encravados nos pátios, outras já avisaram que vão embora, rodeou-se de todos os generais comunas, cedeu terras aos EUA, à China e até á Coreia do Norte, na Amazónia para “manobras militares conjuntas”!

Isto, os brasileiros crentes esperam que termine com as próximas eleições.

Só em 2026 se...

 

29/07/23

 

domingo, 2 de julho de 2023

 

Racismo - Indenizações - Durban

                                                                                                       “Quem não quer ser lobo, não lhe vista a pele”.

Provérbio popular.

  

Á

frica à procura da sua identidade! Quem é africano? O que é a África Negra? O que é o racismo? Quem é racista?

A Conferência de Durban sobre o Racismo quis levantar uma série de problemas cuja principal vantagem seria, muito provavelmente, um maior desentendimento entre as gentes que povoam este planeta, que tenta caminhar para ser um Planeta Global

As ONGs querem à viva força que o Tráfico de Escravos, a Escravatura, seja considerado um crime contra a humanidade, e consequentemente que os países esclavagistas indemnizem os povos que sofreram essa monstruosa evasão.

Os ultras não querem saber de dívidas externas, e acham que essas dívidas foram uma outra forma de exploração dos países ricos sobre os pobres.

Outros ultras insistem em distinguir a África Negra de uma outra qualquer que será, pelo que depreende, menos negra.

Vozes, muitas, levantam-se contra o racismo. Que racismo? Onde? Como? Na Europa, por se preferir um trabalhador europeu a um africano? Ou em África onde se dificulta a contratação de técnicos não africanos? Qual terá mais habilitações? Será somente a pele que causa esse problema?

Clamores ouviram-se, e ouvem-se sobre a condenação dos países colonialistas e surgem propostas para condená-los a pagar mais outras indenizações por terem, durante uns quantos anos - ninguém sabe precisar quantos -  dominado alguns desses povos. No Brasil, onde há um feriado dedicado à negritude, e não há ao índio, nem ao branco, o que é mais uma forma de racismo, a isto pode chamar-se “ir cutucar em vespeiro”.

Em primeiro lugar deviam ser feitas algumas perguntas para se poder chegar à conclusão de quem é africano. Cada um responderá conforme o seu ponto de vista e a sua lógica. O de pele escura? Quão escura? O nascido em África? E o de pele branca aí nascido? O que mesmo nascido algures vive África em toda a sua intensidade? O de pele mais escura ainda que nascido em qualquer país do continente dito negro (é bom acautelar-me com este termo não vão chamar-me racista!), imigrou para a Europa, aí casou com uma senhora de pele branca? E o africano que nasceu num país da Europa, já na terceira, quarta ou quinta geração? Será o superxenófobo senhor Kadafi, mesmo pertencendo a uma África que não é negra? Os boers que estão no sul de África há quase quatro séculos não são africanos? Afinal, quem é africano? E o que é a África Negra? Onde começa e onde acaba? Porquê a distinção? Será mais africano um gabonês do que um egípcio? Porque alguns ulcerados insistem em provocar a cisão dentro do continente, distinguindo dentro dele duas Áfricas? Ou tem mais do que duas? E o que é o racismo? Os dicionários divagam um tanto sobre este assunto, mas são unânimes em indicar que será o domínio de uma raça sobre outra, ou até o extermínio dessa outra.

Toda a história é, assim, um relato rácico! Um dos primeiros atos de racismo conhecidos talvez seja o cativeiro dos judeus no Egito e Babilónia, onde estiveram escravizados

Depois,  a expansão de Roma e seu imenso Império criado à força de lanças e gládios, a seguir o Islão, depois a expansão da Europa pelo mundo, entre muitos outros.

Extermínios, não reza a história que tenham sido assim tantos. Todavia bastaria um para que fosse ignóbil, condenável. Os invasores da América do Norte praticamente exterminaram os índios, e alardearam-no nos milhares de filmes de cowboys. Nos dias de hoje assiste-se, ao vivo, pela TV, a genocídios na Indonésia, nos Balcãs, mas sobretudo em África. Foi horrenda a guerra em Moçambique que hoje vive uma Paz maravilhosa, é para além de criminosa em Angola, onde de parte a parte se continuam a dizimar populações civis, a tiros de um lado, à fome do outro, pelo esbanjar e amealhar fortunas imensas, na Nigéria liquidaram-se os Ibos, na Somália, na Eritreia, no Ruanda, no Burundi, no ex Congo que se chamou Zaire e novamente virou Congo (República Democraticamente imposta a tiros e assassínios), e ainda se assiste à interminável luta dos palestinos pelo seu torrão, que os americanos, desculpem, os judeus, não largam por desmedido orgulho.

Mas, o que é mesmo o racismo? Concretamente? No dia a dia? Será o preterir um trabalhador africano, na Europa, frente a um europeu? Ou será o senhor Mugabe num derradeiro esforço para se manter na mamata do poder, correr com os brancos do Zimbabwe mesmo sabendo que está a levar o país à ruína? Ou um senhor Samora Machel que ao assumir Moçambique chamou macacos aos bispos de todas as igrejas, especialmente as católicas, e mandou ou autorizou que se praticassem sevícias incríveis a missionários que tinham dado a sua vida pelo bem dos povos do seu país? Ou o governo angolano do MPLA que assim que conseguiu livrar-se de Agostinho Neto, casado com uma senhora branca, votou ao ostracismo todos os menos escuros, mesmo os heróis da primeira hora na luta pela independência de Angola?

E quem matou Eduardo Mondlane, o fundador da Frelimo, homem de paz, também casado com uma branca, e portanto não racista? Claro que os que vieram a seguir a ele, racistas, sovietizados ou maoístas declararam que foi a PIDE, a famigerada, muitas vezes criminosa, sim, mas pouco estúpida para liquidar o único homem, e líder, não racista dentro da Frelimo.

Parece que não será fácil definir o que é racismo, a não ser quando se chega a um conceito simplista, mas muito mais racista: racista é o outro. Eu não. Fácil. Então, no fim de todo este arrazoado, a conclusão é evidente: racista é o outro.

Fica só por definir o “outro”. Da próxima vez pensa-se nisso. Deixemos por agora o problema em cima do outro, sem deixar de apoiar o barulho que todos os vários outros fazem, e vamos partir para cima dos chamados Crimes contra a Humanidade.

A diáspora africana foi um horror. Ninguém hoje tem outra opinião sobre o assunto. Então, passado este primeiro ponto, e para se poderem condenar os responsáveis por estes crimes, vamos procurar defini-los. Para não nos perdermos nos tempos, comecemos por aquilo que está escrito, e sem pretenciosismos de discutir ciência histórica, vamos ver quem escravizou os judeus na Babilónia. Os babilónios, é claro. Onde é hoje o Irão. Então os primeiros a terem de pagar uma indenização, e aos judeus, serão os iranianos (isso gostaria de ver!). Antes, já tinham sido os egípcios, que deverão igualmente pagar ao povo judeu (também a ver!) pelo tempo em que ali esteve a servir, construir pirâmides e templos e enterrar gatos embalsamados, que hoje os turistas pagam para admirar ou para levar como souvenir (quando não roubam, como fez Napoleão). A seguir, os egípcios pagam aos núbios que todos os anos eram obrigados a mandar-lhes, além de muito ouro, alguns milhares de escravos, por “contrato” assumido nos tratados de “paz” daqueles tempos.

Entram os romanos. Dominaram praticamente toda a Europa, Médio Oriente e Norte de África, e daí levaram larguíssimos milhares de gentes para as suas legiões. Vão ter que pagar, começando por um canto: aos egípcios, líbios, argelinos, castelhanos, catalães e portugueses e franceses e ingleses e belgas (só não pagam aos descendentes do Astérix) e holandeses e alemães e suíços, e àquela turma da ex Jugoslávia, da Grécia e Turquia, Síria, Iraque, Jordânia, Palestina e... aos judeus, novamente!

Começa a expansão do Islão, e se os árabes já praticavam, há muito, a escravatura, é muito possível que se deva a eles o aumento da ganância por esse tráfego. Expande-se por todo o norte de África, Península Ibérica, e pela África a norte do equador, descendo pela costa oriental até meio do Moçambique de hoje. E fomentaram, se fomentaram, o comércio de escravos. Há mesmo um consenso sobre a sua primazia neste comércio que, não digam a ninguém, mas até hoje se pratica, não exatamente ali mas em muito lugar. Chegou a altura da Europa se expandir, e carregou gente, muita gente, imensíssima gente, em condições mais do que desumanas do continente para fora. Muito mais do que os árabes tinham levado.

A verdade é que, considerar como desumanas as condições de transporte dos escravos, parece até pleonasmo! Se os escravos não eram considerados gente, mas peças, mercadoria, eram como tal acondicionados nos infectos porões dos navios! E quem foram os negociantes de escravos? Segundo os números de que se dispõe, os campeões foram os mais tarde ferrenhos anti escravagistas ingleses. Depois de terem os seus estoques cheios... começaram a luta contra o tráfico! Em segundo lugar os franceses, e depois holandeses, espanhóis, portugueses, austríacos, suecos, dinamarqueses, italianos, alemães, etc. Enfim todos.

Todos no banco dos réus. Nunca esquecendo os árabes que, na costa oriental, foram os maiores incentivadores à captura, os exportadores, transportadores e utentes. E os chineses.

Mas... os escravos não eram produto de indústria. Eram gente, nascida e criada no seio das suas ou vizinhas famílias, clãs, tribos. Quem os caçava e os vendia? Quem os amarrava de pés e mãos para que não fugissem? Quem os deixava morrer no caminho para os portos de embarque sem se preocupar com a vida dos que eram afinal, e por muito incrível que pareça, gente?

Ah! É verdade. Quem os caçava e escravizava e vendia eram os próprios africanos, aqueles da tribo ali mesmo do lado. E se algum fugia e tinha o azar de ser apanhado de novo era morto. De forma simples. Cortavam-se-lhes as pernas e atiravam-se ao rio. Aos esfaimados jacarés. Entretanto os sobas, ou régulos, ou reis africanos, alargavam o seu poderio, os seus haréns, o seu número de mulheres-escravas que trabalhando para eles, os enriqueciam cada vez mais.

Fazendo então o ponto da situação, encontra-se nesta cadeia comercial, o triúnviro normal: produtor e/ou fabricante e/ou caçador que é o vendedor inicial, o transportador e o comprador final, sem contar com o milionário exportador, mancomunado com o vendedor inicial. Todos para o banco dos réus. Em justiça encontra-se aqui o que configura formação de quadrilha! Culpas para todos, sim, mas sempre há algum elo desta vergonhosa cadeia que tem mais culpa do que os outros. Se não se guerreassem entre si, com vista à captura, não teriam existido escravos, nem exportadores, nem transportadores, etc. Nestas circunstâncias, dunque, a evidência mostra que a culpa primeira e principal cabe ao caçador-vendedor. Como primeiro responsável de toda esta cadeia, deverá ter a condenação mais pesada. O próprio africano. Os chefes. Como estes já morreram, condenam-se os seus descendentes. Quem são os descendentes dos chefes? É só ir em viagem de turismo por essa África fora, que até tem um maravilhoso turismo para ser aproveitado, e ver quem são os presidentes, os chefes das oposições, os ministros, os generais, os donos da terra e das empresas e das gentes. Aproveitem, nessa viagem de turismo, e vejam também como esses novos democratas tratam o seu povo, o nível de salário que a ele distribuem, o nível de corrupção que entra nos seus bolsos.

Vejam bem, porque eles continuam até hoje a vender o sangue do seu próprio povo, roubando, descaradamente a maioria das verbas de que dispõem no governo, deixando o povo com fome e sem perspectivas, e a reclamar do resto do mundo indenizações para aumentar as suas já imensas fortunas pessoais.

Como no tempo do tráfico quando vendiam os próprios irmãos e filhos. Alguma diferença para hoje?

 

Este texto foi escrito em 2001, a propósito de uma “importante” reunião em Durban, África do Sul para discutirem como poderiam pedir mais indenizações aos últimos povos que praticaram escravatura, ignóbil, sim, mas provocada por quem?

Como vêm tenho escrito muito menos. Começo a estar cansado e a faltar-me inspiração para escrever coisas novas. Aliás comecei a cansar-me, há tempos.

Em 1931

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