sexta-feira, 16 de agosto de 2019



Amigos - 33

Não lembro já de onde vem o conhecimento e amizade com este amigo, mas lembro de algumas histórias com ele passadas, e isso é o que importa. Mas vem de muito tempo.
Em Luanda, na rua do Quintas & Irmão, a velha rua Salvador Correia, quase na esquina com a Calçada Gregório Ferreira, havia uma sala de bilhares num prédio, e o salão ficava no segundo andar. Ali se juntavam alguns amigos e sobretudo os especialistas em bater com um pau numa bola de marfim, habilidade que, como muitas outras, nunca me distinguiu.
Um belo dia este amigo, que gostava de beber o seu copo – eu também gosto – ali foi dar as suas tacadas. Quando decidiu ir embora, chamou o elevador. Abriu a porta, entrou, mas o elevador não estava ali. Como qualquer um de nós o teria feito, de noite... entrou.
E aí vai ele, despencando em aceleração de velocidade até se encaixar lá... bem fundo, com um toco de ferro onde o elevador deveria parar! É evidente que quebrou algumas coisas, e tenho ideia de que, pelo menos, uma perna. Felizmente o elevador, com a porta aberta não funcionou mais, e foi assim que o foram encontrar lá encaixado nos fundos, todo quebrado.
Hospital, etc., onde o fui ver, jovem, recompôs-se.
Alguns anos passados fui para Lourenço Marques. Lá estava ele.
Organizei uma festa de recepção a uns amigos que iam de Luanda para LM, e convidei aqueles que já conhecia entre eles o que tinha “voado”, a descer, no túnel do elevador.
Um sujeito sempre de ótima disposição, fazia amigos com facilidade, e normalmente nos encontrávamos para beber um copo nos fins do dia, junto com mais outros companheiros.
Chegou o miserável, chamado “glorioso” vinteecincobarraquatro e um descarado e abjeto interesse dos que tomaram o poder em Portugal, de entregar as colónias aos comunistas.
Lourenço Marques reagiu muito mal a essa política, bramou e manifestou-se contra os covardes “acordos de Lusaka”, e logo se criaram organizações, reuniões, fadadas à falência, que queriam que Moçambique, de brancos e pretos, não fosse vendido aos comunas. ******
Quem tiver interessado em saber detalhes desta época leia o livro que aqui já comentei, “O Puto” do jornalista Ricardo de Saavedra, edição Quetzal.
Veio a diáspora, regressei a Angola, depois Brasil e nunca mais soube deste amigo.
Neste livro vim encontrar um pouco mais da sua história. O autor, por razões de ética, tinha-lhe trocado o nome mas quando o consultei confirmou que se tratava deste meu amigo.
Depois duma teórica rebelião com o Rádio Club de Moçambique, o desgoverno comuna de Portugal, decidiu caçar todos aqueles que se opusessem ao seu criminoso programa.
Prisioneiros na Polícia portuguesa, um dos grandes contrassensos e crimes que se cometeram, eram espancados, passaram fome até que um dia, habilidosamente conseguiram fugir.
Quem relata tudo quanto aconteceu nesse período, e deu origem ao citado livro, lembra este companheiro da prisão:
O HOMEM  que esteve preso comigo em Loureço Marques foi de facto o SENHOR TEÓFILO ESQUÍVEL Quando fizemos as gravações eu disse que era a pessoa que recebia as garrafas de 7Up com Whiskey lá dentro e era ele que depois dos enxugos de pancada que o Ferreira e outros levávamos usava o Whiskey para nos esfregar. Até à nossa fuga o SENHOR TEÓFILO ESQUIVEL portou-se como os HOMENS se devem portar. Anos depois já eu estava no Batalhão 32 (Búfalo) encontrei-o em JHB tinha o café Nicola na Kerke str, em sociedade com o Forjaz de Brito. O Teófilo faleceu em 2009 aqui em JHB.
Chamou-se Teófilo Esquível, e foi amigo, alegre e valente.
Seu pai e homónimo, foi um dos melhores jogadores de futebol na primeira equipa da Académica de Coimbra, segundo, anos mais tarde, o meu sogro, também pertencente à mesma equipa, quando perguntado quem eram os melhores jogadores daquele tempo, referiu o seu amigo e colega Teófilo Esquível.
No churrasco, em LM, de recepção aos recém chegados de Luanda.
Teófilo, animado, dançava ao sabor do batuque dum grupo de nativos!

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Vou aproveitar que estou em Lourenço Marques e falar duma outra figura, de outro amigo.
Estava eu diretor comercial da 2M­ - Mac-Mahon - cerveja, Coca Cola e 7-Up, e era grande e suja a guerra comercial entre as duas concorrentes, a nossa e a Laurentina. Faziam-se as maiores burrices que em comércio imaginar se pode, dando inclusivamente dinheiro ao cliente para se comprometer a comprar 70 ou 80% dos produtos deles, o que era uma verdadeira aberração.
Bem lutei e tentei convencer o concorrente a acabar com a estupidez, o que foi mais ou menos em vão, e por isso logo que surgiu a oportunidade regressei ao banco - BCCI - e deixei aquela farra.
Um dia aparece-me lá na companhia um cliente que estava a montar um novo restaurante mas tinha-se-lhe acabado a grana e vinha pedir o nosso apoio para acabar as obras. E disse que fazia o melhor bacalhau de Lourenço Marques e até de Portugal e arredores!
A Mac-Mahon não era empresa financiadora de capitais, e eu tinha todas as ligações com o banco a que pertencia (estava nas cervejas de empréstimo). Interessei-me pelo assunto e pedi informações do sujeito.
Comerciais e financeiras não eram muito aproveitáveis, porque em qualquer altura do seu percurso como restaurador teria tido uns azares financeiros o que lhe dava um nome pouco recomendável na banca.
Mas insistiu que eu lá fosse comer o tal bacalhau, para o que desafiei dois colegas do banco, e na realidade o bacalhau era o que de melhor nós conhecíamos.
A 2M ia fazer uma pequena festa de aniversário, coisa que eu gostava de fazer nas empresas por onde andei, e fazia parte da festa um “copo de água”, comes só, que líquido tínhamos nós.
Consultei três hipotéticos fornecedores e disse a este que fizesse o melhor preço que pudesse para eu poder arguir que era merecedor do nosso apoio.
Esmerou-se. Apresentou o tal “copo de água”, com tudo da melhor qualidade e com o melhor preço.
Acreditei nele, ganhei coragem e propus ao banco que lhe financiasse os 500 contos que ele precisava que a 2M ficaria de avalista.
O cliente acabou a obra, logo tinha a casa cheia e sempre cumpriu perfeitamente os seus compromissos, e ficámos amigos.
Chega o desgramado vinteecincobarraquatro e ele decide ficar mais um tempo em Lourenço Marques. Chegaram novos donos do poder que se exibiam a comer nos melhores restaurantes e o nosso amigo juntou algum dinheiro e partiu para a Metrópole.
Lá chegado comprou uma velha carvoaria em lugar bem central de Lisboa, fez obras e abriu o seu restaurante, sempre com a especialidade de bacalhau à cabeça.
Não tardou a criar fama. E eu que com a diáspora o havia perdido de vista, ouço um dia dizer que o melhor bacalhau que se podia comer era no restaurante dum moçambicano. Alto lá! Deve ser o meu amigo. Consegui o endereço e fui lá para me certificar se seria ou não a mesma pessoa.
O restaurante estava ótimo. Bonito. 1ª classe. Perguntei quem era o dono.
- O senhor Pereira.
- Por favor pode dizer-lhe que está aqui um amigo que o quer ver.
Aparece o meu amigo. Baixinho, gordinho, brilhantina num cabelo pintado de preto, e dá-me um imenso abraço. Quase chorámos nesse abraço.


Era hora do almoço. A casa cheia.
Agarra-me por um braço, leva-me até à entrada da sala, e pede aos clientes que se calem que tem alguma coisa a dizer-lhes. Eu a ver em que aquilo ia dar.
- Ouçam bem. Se eu hoje estou rico devo tudo a este senhor.
Se ali houvesse um buraco eu teria entrado nele. E continuou:
-  Em Lourenço Marques eu estava a meio de uma obra. Acabou-se-me o dinheiro e este senhor fez o banco emprestar-me 500 contos. Com isso ganhei lá algum dinheiro, trouxe para Portugal e abri este.
Não me deixou sair do restaurante. Voltei a comer o maravilhoso bacalhau, a Couvada de Bacalhau, comida dos deuses, abriu uma garrafa de vinho e ali ficámos um monte de tempo na conversa.

Quem não comeu esta couvada não sabe nada de bacalhau

Depois insistiu para que eu lá voltasse sempre mais vezes e levasse quantos amigos quisesse que era seu convidado.
Eu morava e moro no Brasil. Mas sempre que lá voltei a Lisboa era destino sagrado ir ao Restaurante Laurentina – o Rei do Bacalhau.
Soube depois que o meu amigo ficara muito doente, até que descansou.
Depois disso não voltei lá. Custa-me pensar que não vou encontrar o tão simpático e amigo António Francisco Pereira, uma grande figura.

13/08/2019

domingo, 11 de agosto de 2019





Ahhh!  Ler Camilo!

Vão fazer o favor de me desculpar a imodéstia, mas eu disse um dia, e até escrevi, que escrever um romance como os do Eça eu talvez fosse capaz. Muita fofoca, muita bambinela, muita, aliás, pouca vergonha, um constante malhar nos grã-finos portugueses etc., mas escrever como  Camilo, jamais.
A verdade é que jamais mesmo serei capaz de escrever como um, muito menos como o outro. Mas que sou fã de Camilo, sou mesmo.
Em 1876 Camilo publica um livro que raros leram e daí ser um quase desconhecido.
O jornalista e escritor, grande especialista em Camilo, José Viale Moutinho publicou, parece que em 1986, o “Curso de Literatura Portuguesa” que eu tinha há muitos anos, mas, confesso, nunca me tinha apetecido ler.
Desta vez voltei a pegar em alguns livros do maior romancista português, que sempre são obras de arte, e lá estava na estante, aguardando a minha coragem, um tratado “histórico-filosófico” sobre literatura. Não se lê como um romance, quem como eu, ignorante nesse passado literato português (e em muitas outras coisas) quase nada conhece desses vetustos escritores e desses temas, mas... escrito por Camilo, a maçada e canseira que é ver desfilarem dezenas ou centenas de nomes de quem nunca ouviu falar, torna-se um jogo de procura por frases que só Camilo seria, foi, capaz de escrever.

Selo comemorativo do centenário do seu nascimento

E então a canseira de ler um livro com interesse quase exclusivo para estudantes de letras, tornou-se um desafio que me levou muita vez a rir com vontade.
Vou desfilar umas quantas frases, nele encontradas, sem que tenham relação umas com as outras. Todas têm com a verve e o espírito crítico de Camilo, sem igual.
Vamos a elas:
- D. João III, à semelhança de Carlos V, ganhou medo aos grandes homens que admirara e estimara enquanto, minguado de compreensão, lhes não previu os intuitos.   
Sobre Manuel de Faria e Sousa que se bandeou para Madrid para agradar à corte, até que um dia perdeu o apoio do rei:
- A baixa lisonja não logrou o estipêndio que os Filipes por via de regra costumavam decretar às consciências vendidas por escritura pública.
Quando diz que nem a História Geral da Etiópia é tão de Baltasar Teles nem a Vida de D. Frei Bartolomeu dos Mártires é de Frei Luis de Sousa, porque ambos completaram o que estava escrito por outros: 
- Para os historiógrafos andaram outros alvenéis quebrando os mármores.
O Padre João de Lucena
- ... é inferior a todos os quinhentistas de melhor quilate, e excede-os a todos nas delongas fastidiosas. Escrevia como quem tinha de seu que dizer, e ainda se aproveitava do que os outros disseram.
Sobre o Padre Manuel Bernardes:
- O seu escrever deve ter sido mui de espaço lavrado para sair tão cuidadosamente asseado e ileso das borbulhas que pruíam nos mais talentosos escritores da sua idade.
Do famoso Dr. João de Barros:
- Em 1522 um outro João de Barros, seu parente, publicava a “Crónica do Imperador Clarimundo”, que requinta na insulsez e na inutilidade.
Frei Francisco de Santo Agostinho de Macedo:
- Frei Francisco sabia vinte e três línguas, a índole da portuguesa de Camões e João de Barros decerto era a prejudicada pela confusão da Babel que se fizera na soberbia glótica do franciscano.
O Dr. Teófilo Braga é quem leva mais bordoada! E não lhe perdoa o mínimo deslize. Professor de Letras no Curso Superior de Literatura, escreveu no seu Manual:  “Depois que Camões soube do desastre de Alcácer Quibir, nunca mais teve saúde; ao começarem os motins populares no curto governo do Cardeal D. Henrique, era em volta de Camões que se agrupavam os leais portugueses...” E Camilo:
- Isto não é provável, mas romanticamente é bom.
E volta a Teófilo, sobre a História do Teatro Português, onde diz que Afonso Mendes é um tipo de criado do género de Esganarello (sic) e de Scapin. Confunde o carácter de Scapin com o de Esganarello. Esta segunda personagem não é criado, “é bourgeois et cocu imaginaire” diz o autor da comédia. O comentador, Teófilo,  ainda insiste que “o tipo de criado astuto e velhaco foi (Molière) tomá-lo nas comédias italianas... sintetizando-o em Sganarello e Scapin”. Mas não escapa:
- Não é conveniente que os professores escorreguem assim aos pares, quando a juventude se queixa de ser reprovada em exames por não acudir com resposta certa a perguntas difíceis.


Teófilo Braga, na época em que Camilo não lhe perdoava nada!

Mais adiante, sobre as “Éclogas” de Bernardim Ribeiro, onde falam dois pastores, “Jano” e “Franco de Sandomir”. TB: “Franco” era evidentemente Francisco Sá de Miranda, e “Jano” o próprio Bernardim, que o Dr. TB assenta categoricamente que este se passara do Torrão para Lisboa em 1496.
Entra o sagaz comentário de Camilo:
- Francisco Sá de Miranda nasceu em 1495, e pondo-se a tagarelar pastorilmente nas margens do Tejo com Bernardim Ribeiro em 1496 ficamos em dúvida qual seja mais prodigioso, se o tal Sá pequerruchinho de um ano a falar, se o senhor doutor e mestre de Literatura (TB) a escrever!
 D. Frei Francisco Alexandre Lobo, bispo de Leiria, o mais esmerado biógrafo de Camões e Frei Luis de Sousa, avisadamente presume que Manuel de Sousa Coutinho (Frei Luis de Sousa) esteve em cativeiro dos argelinos em 1577, e como naquele tempo Miguel de Cervantes estivesse também cativo, inferiu o ilustre biógrafo a possibilidade do encontro dos dois escravos. Diogo Barbosa Machado, o abade de Server, historiando o que sabia sobre Frei Luis de Sousa, já tinha dito que Miguel de Cervantes contraíra estreita amizade com Manuel de Sousa Coutinho. Vai daí romanceia uma “linda” história passada com os dois e até inventou um epitáfio para o túmulo de Manuel de Sousa:

Aqui jaz a viva memória do já morto Manuel de Sousa Coutinho,
cavaleiro português, como se vivo fora. ...
Opinião de Camilo:
-  Não lhe parece, caro leitor, que Miguel Cervantes, a custo de muito lidar com o seu D. Quixote de La Mancha, já estava gafado das mesmas roncarias?
Ainda sobre o Abade de Server diz
- Que lhe falta a concisão da linguagem que ele engrinalda de flores sem brilho nem cheiro.
Camilo não duvida nem dos amores nem da existência da religiosa Mariana do Alcoforado, mas, percorrendo a genealogia da família Alcoforado de Beja, conclui:
- Ainda assim cabe alguma glória aos Alcoforados de Beja, se alguns existem, porque lá têm a mimosa vergôntea da apaixonada freira, que provavelmente feneceu e se pulverizou no claustro de Beja, sem ter frutificado, tendo florescido tanto em cartas de fina amante, amando talvez muito o conde, não escreveu tais cartas, e apenas lhe deu o amor e o nome para a vaidosa ficção.
D. Francisco Manuel de Melo:
-  Os seus escritos estagnaram-se na grande represa das obras condenadas pela inutilidade dos assuntos. D. Francisco foi o espírito mais esterilmente afadigado e o mais simbólico das academias do seu tempo.
Sobre “As Odes Pindéricas” de António Diniz da Cruz e Silva
- ... encomiadas hiperbolicamente por Bocage, graças ao seu afeto ao metaforismo, são uns transuntos de crónicas, uns fastos rimados de façanhas orientais que nos estão ressumando o sangue barbaramente espadanado nos estandartes triunfais dos heróis de Dinis, que são os mesmos de João de Barros e Diogo do Couto. Não lustra um lampejo de alguma suave e humana aspiração nessa ininterrupta cadeia de monótonas proezas.
Teófilo Braga, que no seu Manual de Literatura cita um dito de António Ribeiro Chiado: No beber sou um Golias. Camilo não perdoa:
-Não se lhe aceite o dislate. O personagem querendo inculcar que bebia muito, mediu hiperbolicamente o líquido pelo bojo do corpulentíssimo gigante filisteu Golias, a quem David derrubou com a pedrada. Como quem diz sou um gigante.
O professor (TB) porém, confundiu o gigante com o truão enfrascado na taverna fazendo Golias sinónimo do Goliardo. Tem maravilhosas intuições.
Luis Pinto de Sousa Coutinho, (1735-1804) primeiro visconde de Balsemão, casou com D. Catarina Michaela de Sousa César e Lencastre. No dia do casamento dedicou-lhe um Hino Epitalâmico!
- Esta ode (o Hino...) fecha de maneira tão desusada e tão picarescamente original que pode considerar-se a preexistência do realismo moderníssimo!   
Em Vila Real na procissão do Corpus Cristi a imagem de São Jorge desde há muitos anos costumava ir a cavalo. Por razões desconhecidas o senado da terra ordenou que passasse a ir no andor e não a cavalo. António Lobo de Carvalho poeta de língua farpada não perdeu oportunidade de os satirizar. Camilo comenta:
- A razão deste descavalamento não é bem líquida. Há muitos mistérios que nunca se hão-de elucidar, mormente em coisas de cavalgaduras.
Os fidalgos, que os havia em Vila Real, vila dileta d’El Rei D. Dinis, a julgar pelos brasões musgosos em que as andorinhas dormem no verão e as corujas assobiam no inverno, assanharam-se contra o poeta, fazendo-se representar no desforço pelos seus mochilas.  
Tem mais malhação em Teófilo Braga, mas estas já dão uma ideia!
Para rematar, duas pequenas passagens de cartas escritas ao seu amigo José Barbosa e Silva:
Meu Caro Barbosa
Não respondi ontem à tua carta, por que estive de cama combatendo com remédio preventivo um incómodo gástrico. Eu agora, já não as espero, previno as moléstias, e medico-me de antemão. É mais uma originalidade.

D. Eufrázia manda-te abraços. “Horribile dictu!” É sempre boa patroa, pacientíssima, e sedutora no seu género. Ralha e dorme, e faz regularmente digestão.
Camilo chama-lhe em outra carta “D. Eufrásia (La Forêt em 3ª mão)”; tinha casa de hóspedes, onde Camilo viveu vários períodos, e com ela terá mantido relações íntimas!           

23.06.2019

terça-feira, 6 de agosto de 2019



Mais Vinho
Um pouco de História

Muita gente gosta de meter o nariz no vinho, ou na vinha – coisa errada! – conjeturando que esta terá sido introduzida na Europa pelos gregos.
Ninguém sabe bem quem primeiro chegou a essa Europa, mas a verdade é que no Médio Oriente como no Egito houve vinho desde tempos muito antigos. E eles deixaram a prova. Produziam, exportavam e chamavam-lhe a “bebida de Horus”. Pelo menos em 2733 a.C.


Olha aqui todo o processo: vindima, fermentação, embalagem e exportação

E em França?
Segundo a arqueologia, que tanto nos ensina, há alguns cem milhões de anos, ou perto disso, ainda não havia nem Europa, nem o que estava a aparecer desta, nem tinha ligações com África, já um arbusto que se enrolava e crescia para o alto, sem, como é evidente, classificação botânica na família das ampelidáceas, estava presente naquele solo.
Era já a vinha, no seu estado espontâneo, uma vitis, a futura Vitis Vinifera de Lineu.
Os homens de Neaderthal não tinham aparecido, nem os de Cro-Magnon, nossos pré-vovozinhos, mas a vinha já lá estava... à sua espera! Quando apareceram... devem ter-se logo metido nos copos!
No laboratório de geologia da Sorbonne há um fóssil da “Vitis Sezannensis”, descoberto em 1870 em Sézanne, na região de Champagne.

Fossil da Vitis Sezannensis encontrada numa escavação de mármore

Esta vinha, vestígio anti-diluviano, apresenta um estreito parentesco com a vinha atual. Data do período Eoceno, entre 55 e 35 milhões de anos atrás (!), notável pelo seu desenvolvimento lenhoso, não estaria ainda suficientemente desenvolvida para produzir fruto para a vinificação. (Também não havia muita gente para beber... nem bares).
No sítio Paleolítico Terra Amata, perto de Nice, que data de 400.000 anos, há evidências de que os Homo Heidelbergensis colhiam e comiam uvas selvagens.
Com isto se quer demonstrar que a origem da vinha, até onde vão hoje os conhecimentos, era europeia, confirmada também pelos fósseis de vinhas, suas folhas e gavinhas, muito bem conservadas em tufos quaternários, na região de Montpellier.
Daí que não há porque aceitar ou insistir que a vinha apareceu no médio oriente, mas é sim europeia.
Um dia surgiram os tais Neanderthais e seus subsequentes Cro-Magnons e não há razão para deixar de crer que eles um dia descobriram que aquelas frutinhas esquecidas num canto da caverna tinham fermentado, e ficavam com um gostinho agradável e até davam “nova vida à vida”.
E vá de espremer uvas e criar recipientes cerâmicos para guardar aquele néctar.
Há 10.000 anos havia uma bela adega no sul da Georgia, fronteira com a Arménia. Há pouco desenterrada.
O pior foi quando aquela bebidinha gostosa azedou. E lá vão os trogloditas à procura de algo que impedisse aquela maravilha de se estragar.
Segundo consta, um deles, mais esperto, certamente, decidiu juntar-lhe resina de pinheiro e a bebida aguentou-se mais tempo.
Lá pelo Médio Oriente, onde Alá ainda não tinha ditado ordens, os bebedores deliciavam-se também com esta bebida, encontraram outro conservante, ainda hoje fonte de sobrevivência de alguns povos de algumas partes desertas das arábias: deitaram mão a uma outra resina, a goma adragante, exsudada pelas Astragalus gummifer Labillardière e Astragalus Microcephalus Willd.
Nomezinho complicado, mas resina muito boa. Também se usou – ou usa ainda? – a goma arábica, constituída principalmente por arabina, mistura complexa de sais de cálcio, magnésio e potássio do ácido arábico. Este ácido é um polissacarídeo que produz L-arabinose, D-galactose, ácido D-glucorônico e L-ramnose. Você, leitor, quer um copo disto? Só para dizer já é difícil! Também se usou e talvez use ainda o ácido málico e muitos outros.
Ainda hoje essa goma é utilizada em vinhos que bebemos todos os dias e em outros que são só bebidos pelos milionários, os de champagne!
Há quem suspeite que até ácido málico é utilizado, mas como a sua principal fonte será a maçã... fica bem disfarçado. Deve ficar uma espécie de cidra vinicolada!
Um amigo meu, sobre quem vou ainda escrever, teve um restaurante em Lourenço Marques. O vinho que lá servia, o vinho da casa, era bastante aceitável, e barato. Quando lhe perguntei que vinho era, ele, em segredo me afirmou, ao pé da orelha, que era feito por ele mesmo, ali nas margens do Índico, na cave do seu restaurante, e nem uma uva entrava da sua composição!!! Fiquei de olho arregalado e pedi-lhe a fórmula. Depois ma daria. Infelizmente nunca mais falámos nisso e perdi, com certeza uma grande lição de pseudo-enologia e de química.
Voltando à história, muitos séculos e milénios se passaram desde os fosseis das pré-vinhas encontradas, até ao seu cultivo, que só aparece, em antigo documento egípcio que indica a sua cultura o que não significa que ela seja dali oriunda.
Se foram ou não os gregos e romanos os primeiros a dedicarem-se à sua cultura, a selecionar variedades, e instituir técnicas, foram eles quem transmitiram essa maravilha através do Mediterrâneo, não esquecendo que a vinha era já cuidada em tempos neolíticos.
Segundo o que a arqueologia tem descoberto no fundo desse mar, e até em diversos outros sítios, é fácil acreditar que o vinho era a principal mercadoria que viajava pelos mares europeus.
Os egípcios há muito tinham abandonado a cultura, e foram os gregos e suas colônias que o tornaram mais conhecidos, e grande fonte de riqueza.
Em Massilia, hoje Marselha, era maior a quantidade de vinho exportado do que o importado da Grécia. Estes como viajavam e demoravam para serem bebidos eram conservados com conservantes incríveis que hoje custa a aceitar: cinzas de pinheiro misturadas com resina, argila e até gesso. Os vinhos produzidos no sul da Gália, hoje França, não necessitavam de conservantes, mas como eram vinhos espessos, fortes de álcool levavam uma boa mistura simplesmente de água.
Apesar dos romanos serem já bons vinicultores, não só na Itália como na Sicília, também se sabe que o vinho da região hoje conhecida como Alentejo, em Portugal era muito cobiçado por Roma. Ainda hoje e não só por romanos!
O vinho chegou a ser proibido na Gália. Os homens bebiam de tal modo que iam completamente bêbedos para as batalhas!
Somente no ano 273 um édito romano autorizou a cultura da vinha em qualquer lugar.
Quem diria que Paris, Lutèce, estaria rodeada de vinhas e que, por exemplo em Montmartre se produzia um magnífico “gran cru”!
Graças aos celtiberos peninsulares que pacientemente foram melhorando as cepas indígenas, os Bituriges Visbisci plantaram a variedade “biturica”, que deu origem aos cabernets, e desenvolveu a cultura da vinha na região de Bordeaux.
Mais tarde Lyon torna-se a capital do vinhos dos francos.
Quem diria, há milhares de anos, que destas coisinhas lindas ia sair um néctar melhor do que hidromel? E que até faz bem às coronárias?


A vinha foi-se assim espalhando e se instalou em toda a Europa, e todo mundo. Até a Grã Bretanha tem já vinhos de qualidade. Há muitos anos.
Graças a cientistas como eu, que não dispenso o meu copo às refeições.
E com uma vantagem: acabaram os vinhos fracos, ruins, de baixa qualidade. Quem quiser vender tem que ter qualidade, o que nos leva a poder comprar, quase de olhos fechados uma garrafa de vinho, de baixo custo, e qualidade bem aceitável.
Que tal um copo de Biturica Saint Emilion ???

03/08/2019

quinta-feira, 1 de agosto de 2019



O Calcanhar do Aquiles
ou
A Saga do Joelho Esquerdo

Coitado do Aquiles! Dizem que o cara era lindão, o mais belo dos heróis gregos, mas, enquanto o J. F. Kennedy foi a Dallas e levou-as, o Aquiles foi a Troia e levou uma flechada no calcanhar; morreu de morte matada.
É evidente que o calcanhar do Aquiles nada tem a ver com o meu joelho. No entanto este parece ser um dos meus, muitos, pontos fracos.
Vamos à história.
- 1 -
1953, mais ou menos aí por Maio.
Já despachado de estudos e dever cumprido como brioso militar, para defesa da pátria (que se veio a revelar pior que madrasta!) e, de acordo com a opinião de algumas gatinhas, ainda mais lindão que o famoso Aquiles, trabalhava então no Herold, com máquinas agrícolas, Massey-Harris.
Uma grande exposição de máquinas foi organizada num terreno da Tapada da Ajuda, Instituto de Agronomia, e lá vamos nós, numa bela área expor tratores, ceifeiras debulhadoras (colheitadeiras no Brasil) e outras interessantes máquinárias.
Fomos os maiores, e melhores expositores, alinhámos as máquinas todas, fez-se uma espécie de “corredor” para os visitantes circularem, e como o terreno era em declive, instrui o mecânico que estava comigo, que todas as máquinas deviam ficar engatadas (caixa de velocidades ou caixa de marchas) para maior segurança.
A exposição ia ser inaugurada pelo ministro da agricultura, ou algo similar, e vieram pedir-nos que, à sua chegada, todos os expositores pusessem os motores das suas máquinas a trabalhar, para saudar o insigne inaugurante.
Assim se fez. Refiz as instruções e mandei pôr todas as máquinas em ponto morto e com as chaves de ignição no respectivo lugar.
Eu estava “fardado” com o macacão do Herold e o meu tio e patrão mandou-me trocar e vestir traje social de calça, camisa, gravata e casaco, o que não gostei. Era preciso cumprimentar o inaugurante que tinha sido amigo do meu pai o que requeria... quase ismoke!
Como não se encontrava uma das chaves dos tratores, deixou-se esse engatado.
Chega o ministro, e lá... em baixo, na entrada, no começo do terreno, deram sinal para se fazer a manifestação motorizada. O mecânico corre para um dos lados, eu para o outro, e sem subir nas máquinas ligava-se o motor. Tudo muito bonito, exceto que o nosso mecânico entretanto encontrara a chave perdida e vai colocá-la no único trator. Engatado. E não me avisa.
Lá fui pondo uns quantos a funcionar e quando cheguei a este fiz o mesmo. Trator engatado, uma charrua pendurada no engate hidráulico, pegou num instante e começou a andar sozinho! De lado, tentei desligar a chave, ia recuando ao lado da roda grande, quando tropeço e o monstro passa por cima das minhas pernas. A primeira preocupação foi ver-me livre da grande roda traseira e sair fora para não ser arado... nas ditas pernas.
O mecânico corre, pára o bicho, eu levantei-me, pernas doridas e roupinha de ver ministro... rasgada!
Voltei a vestir o macacão, e esperei o cerimonial da visita, que vinha acompanhada pelo meu tio, que logo:
- Eu não te disse para tirares o macacão?
- Disse, sim, e eu até fui a casa vestir-me, mas... o trator passou por cima das minhas pernas e rasgou tudo!
Aí o tio engoliu em seco. Era médico e fez logo um monte de perguntas. Quebrado não tinha nada.
Veio o ministro, viu tudo, cumprimentou todos, achou muito interessante, conversou um pouco, etc., e a dor aumentava.
O dito ministro foi embora e eu para casa da futura, a coxear.
O meu sogro, futuro, chamou um médico amigo que foi lá a casa e constatou rotura dos ligamentos do joelho. O esquerdo. A perna abanava um pouco para os lados!
Solução: ficar deitado umas três semanas. Mínimo.
Impossível. Morreria de tédio, ainda por cima a viver em casa duma tia, e madrinha, que era pior que o primeiro sargento do meu regimento, e pontificava em tudo. (Época em que a minha mãe mudava de casa e nós, irmãos, fomos “pulverizados” por várias tias. Mas não deixo de ser grato pelo acolhimento.)
Solução: engessar.
Hospital de São José, um médico amigo do tal tio, disse-me que fosse comprar ligaduras e gesso, porque senão teria que esperar já nem sei o porque, e que assim que tivesse tudo se faria o resto.
Fui a uma farmácia (creio que era farmácia) comprei o que mandou e num instante estava com a perna toda engessada, desde a virilha a meio do pé. Trabalho de enfermeiro.
Quando me quis por em pé e andar, a perna esquerda não andava! Parecia que estava grudada no chão. Era o peso, imenso, de todo aquele gesso.
Lá me fui arrastando até à saída, com a ajuda dum enfermeiro, e chamei um dos taxis que ali aguardavam os maltratados da vida.
Amável o taxista abriu a porta de trás. Meti a cabeça dentro, depois, com a ajuda do dito motorista a perna direita, mas logo verifiquei que a esquerda, não entrava. De jeito nenhum. Batia na lateral, não levantava o suficiente, enfim, um drama!
- Vamos entrar pelo outro lado.
Mesma cena. Agarrando a perna engessada, ainda foi possível entrar com ela no carro, mas o resto do corpo... nada.
- Bom, vamos nos sentar ali naquela mureta para eu pensar como entrar.
Taxista e eu que fazia gestos equacionando a estratégia da penetração (Honni soit!) taxística, e o dito do volante olhava para mim com ar de espanto. Parecia assistir a uma sessão de espiritismo!
De repente:
- Eureka! Já sei. Vou entrar de costas pelo outro lado (o direito). Mas preciso da sua ajuda.
Lá fomos. Entrei de bunda. A perna esquerda era um trambolho imenso, pesadíssimo, mas com a boa vontade do parceiro, e o recuo sistemático e bundístico, o assunto resolveu-se e o motorista sorriu feliz.
Fomos. Novamente para casa da futura, que morava, felizmente, só num primeiro andar, SEM elevador.
Chegados, foi uma outra aventura sacar-me para fora do carro. Sempre o amável motorista pegou na perna foi puxando, bunda escorregando no assento, acabei por sair.
E subir as escadas?! A “gatinha” e mais que prometida parceira até c’a morte nos separe, quase pegou em mim no colo, ajudava a levantar a perna para alcançar o degrau acima, até que finalmente, sentindo-me como o famoso Edmund Hillary que, mais ou menos na mesma data tinha atingido o Everest, alcancei uma confortável poltrona onde consegui resfolgar!
Durou um mês a perna de gesso. Fui-me habituando e até já apanhava o autocarro com ele a andar (o bus) e ouvia o pobre trinca bilhetes a xingar-me, com toda a razão, até que finalmente fui tirar aquela carapaça.
De novo no Hospital de São José. Dois enfermeiros. Um pega na tesoura de cortar gesso e vá de cortar! Quando eu lhe dei um grito:
- Pára. Você está a cortar a minha perna!
- Não estou, não.
- Está sim, que eu sinto. Pára.
Tomou mais cuidado e quando o gesso saiu, finalmente, lá estavam uns 7 ou 8 centímetros de pele cortada na canela! Pela tesoura.
Mas isso foi o de menos. Depois do gesso todo cortado por um dos lados, metem-lhe as mãos e arrancam-no. Aí quem deu outro grito fui eu. Não foi grito, foi berro, que nem o Quincas Berro d’Água.
Os miseráveis, quando puseram o gesso “esqueceram” de me vestir uma meia para o gesso não agarrar. Agarrou, e por isso durante todo o tempo que andei com ele sempre tinha uma coceira danada, porque ia arrancando uns pêlos. Quando o arrancaram com um esticão saíram duma vez só todos, TODOS os pêlos da perna! Os que restavam.
Quando olhei para a perna só me lembrei de Auschwitz: pele e osso! Com a inatividade os músculos tinham, também, sumido!
Novamente uma tourada para recomeçar a andar, qualquer movimento a perna doía pra valer, entrar no taxi foi uma segunda sessão já ensaiada, bem como para sair, e uns seis meses de auto-fisioterapia.
Vinte e poucos anos de idade curam até cabeça cortada fora e voltei à vida normal.
Ano seguinte, 1954, casados, fomos para Benguela. Muito ténis joguei, muito andei pelo mato em trabalho e à caça, com o joelho ótimo.
- 2 -
1964, férias, em Portugal.
No aniversário do filho de um dos sócios das cervejas fui convidado para lá ir com o nosso filho mais velho que teria 9 anos.
Casa boa, rica, sala de ping-pong (ou ténis de mesa!) onde a garotada brincava à sua volta.
Lembrei de entrar na brincadeira para distrair os garotos.
Escorreguei naquele chão polido e encerado, caí abrindo as pernas tipo bailarina, e... voltei a romper os mesmos, os mesmíssimos ligamentos.
Ortopedista. Um amigo.
- Tens duas opções. Uma é operação, complicada; de entrada fica tudo bem e com os anos vai piorando. Outra, não se faz nada, amarras agora por algum tempo com uma ligadura até te sentires melhor, ficas bem, e com o tempo vai piorando.
­Optei pela segunda.
Em algum tempo voltei a jogar ténis e fazer a vida normal. Mas os anos iam somando.
- 3 -
1969. Luanda. Trabalhava no banco BCCI.
Com o meu querido amigo Fernão Dornellas, entramos de parceiros num torneio de ténis, interbancários.
Fomos jogando e ganhando, e o joelho xiando. E já coxeando durante o dia.
Chegámos até à finalíssima do torneio. Entrei de bengala numa mão e raquete na outra, e avisei:
- Fernão! Não vou aguentar. Eu fico na rede e tu corres como puderes.
Aos já 3 x 0 a favor dos adversários, capitulei.
- Meus amigos: não tenho condição de prosseguir.
É evidente que não ganhámos e o Fernão ainda me barafustou, o que não afetou a nossa amizade.
Nunca mais joguei ténis. Passei para a vela e golf. Nunca ganhei torneios nem regatas mas tinha um prazer enorme no que fazia.
(Nota: Olhem como se fica podre: em Portugal, 1990, cada vez que ia jogar golf ficava uns dias com as costas quase imobilizadas. Problemas da 5ª coluna! Deixei o golf!)
- 4 -
2012. Rio de Janeiro. Em casa.
Ao sair do escritório, dois degraus a descer e dois para subir, errei a pontaria dos para cima. Tropecei, caí que nem um bêbado. Era de manhã e não tinha bebido nada!
O miserável do joelho, sempre o mesmo, bate em cheio na quina do degrau. Dessa vez a cara decidiu acompanhar e foi de encontro à borda do passeio. Nada quebrou. Doía o joelho, a cara e o ombro, também esquerdo, não deixando o braço mover-se totalmente. RM: só uma pequena luxação, rachadura ou qualquer outro nome estranho (talvez craquelé!) no ombro esquerdo que levou à fisioterapia. E uma leve torcedura no pé esquerdo, mas, mixuruca.
Resultado: Joelho amarelou, depois o amarelo escureceu e ócrou, passou por um verde oliva velha e finalmente roxou, até ficar bom. O olho direto e o queixo seguiram a escala cromática do joelho. Só o ombro não roxou! Uma lindeza.



O ocre a descer pela perna e as manchas roxas a enfeitarem o lindo rosto

Mas não fica por aqui.

- 5 -
2013. Ushuaia. A cidade mais ao sul da América.
Com filha, genro e netos, um com 16 e o outro com 11, aí vamos nós para o frio. Um tempo bonito, mas um friaco valente.
Os netos queriam esquiar. Eu queria comer bem e beber melhor, passear pelos arredores e gozar a paisagem.
Lá onde se ia esquiar, um belo restaurante servia um cordero fueguino de chorar por mais, e tudo à volta neve e gelo.
À saída do dito comedor, uma pequena passarela de madeira para que os clientes não escorregassem. Acabada a passadeira... gelo. Escorregadio. Aí fui eu, num aparatoso escorregão bater com o bendito joelho esquerdo em cima do gelo durrérrimo.
Coxeia, procura diclofenato na farmácia, e lá vem aquela paleta de cores, que eu já tão bem conhecia! E as dores para andar.
Felizmente não cortou o apetite e atacámos a maravilhosa merluza negra¸ o melhor peixe que comi em toda a minha – longa – vida, e as big santollas ( que os argentinos pronunciam santoja). Entrava e saía do restaurante a coxear, mas sempre de papo bem fornido!
- 6 -
2019. Julho. São Paulo
Um semana em casa da filha e netos paulistas.
Durante a noite costumo me levantar uma ou duas vezes para... para isso mesmo.
Conheço bem o caminho do quarto até ao banheiro, não acendo a luz.
Mas, aqui é que está o busílis: a Joana tem em casa uma esteira para fazer um pouco de, teórica, caminhada. Faz talvez uma vez por ano, ou duas. A maquineta é grandinha e jaz lá num quase canto à saída do banheiro.
Aqui o cegueta, sai do dito banheiro, descalço, como sempre, dá um violento chuto com o dedo mindinho, um miserável minúsculo, bem na base da esteira, forte e pesada, e aí vai ele esparramar-se no chão.
O que machucou mais e até esfolou? O joelho esquerdo.
E lá vai ele a doer, esfolado e a percorrer aquela escala cromática à volta do ferimento!
Já decidi: vou comprar duas joelheiras, daquelas que usam os gool keepers  do hóquei americano no gelo.
Ou será melhor uma armadura de ferro medieval? Bem acolchoada por dentro, como é de supor.

27/07/2019