terça-feira, 6 de agosto de 2019



Mais Vinho
Um pouco de História

Muita gente gosta de meter o nariz no vinho, ou na vinha – coisa errada! – conjeturando que esta terá sido introduzida na Europa pelos gregos.
Ninguém sabe bem quem primeiro chegou a essa Europa, mas a verdade é que no Médio Oriente como no Egito houve vinho desde tempos muito antigos. E eles deixaram a prova. Produziam, exportavam e chamavam-lhe a “bebida de Horus”. Pelo menos em 2733 a.C.


Olha aqui todo o processo: vindima, fermentação, embalagem e exportação

E em França?
Segundo a arqueologia, que tanto nos ensina, há alguns cem milhões de anos, ou perto disso, ainda não havia nem Europa, nem o que estava a aparecer desta, nem tinha ligações com África, já um arbusto que se enrolava e crescia para o alto, sem, como é evidente, classificação botânica na família das ampelidáceas, estava presente naquele solo.
Era já a vinha, no seu estado espontâneo, uma vitis, a futura Vitis Vinifera de Lineu.
Os homens de Neaderthal não tinham aparecido, nem os de Cro-Magnon, nossos pré-vovozinhos, mas a vinha já lá estava... à sua espera! Quando apareceram... devem ter-se logo metido nos copos!
No laboratório de geologia da Sorbonne há um fóssil da “Vitis Sezannensis”, descoberto em 1870 em Sézanne, na região de Champagne.

Fossil da Vitis Sezannensis encontrada numa escavação de mármore

Esta vinha, vestígio anti-diluviano, apresenta um estreito parentesco com a vinha atual. Data do período Eoceno, entre 55 e 35 milhões de anos atrás (!), notável pelo seu desenvolvimento lenhoso, não estaria ainda suficientemente desenvolvida para produzir fruto para a vinificação. (Também não havia muita gente para beber... nem bares).
No sítio Paleolítico Terra Amata, perto de Nice, que data de 400.000 anos, há evidências de que os Homo Heidelbergensis colhiam e comiam uvas selvagens.
Com isto se quer demonstrar que a origem da vinha, até onde vão hoje os conhecimentos, era europeia, confirmada também pelos fósseis de vinhas, suas folhas e gavinhas, muito bem conservadas em tufos quaternários, na região de Montpellier.
Daí que não há porque aceitar ou insistir que a vinha apareceu no médio oriente, mas é sim europeia.
Um dia surgiram os tais Neanderthais e seus subsequentes Cro-Magnons e não há razão para deixar de crer que eles um dia descobriram que aquelas frutinhas esquecidas num canto da caverna tinham fermentado, e ficavam com um gostinho agradável e até davam “nova vida à vida”.
E vá de espremer uvas e criar recipientes cerâmicos para guardar aquele néctar.
Há 10.000 anos havia uma bela adega no sul da Georgia, fronteira com a Arménia. Há pouco desenterrada.
O pior foi quando aquela bebidinha gostosa azedou. E lá vão os trogloditas à procura de algo que impedisse aquela maravilha de se estragar.
Segundo consta, um deles, mais esperto, certamente, decidiu juntar-lhe resina de pinheiro e a bebida aguentou-se mais tempo.
Lá pelo Médio Oriente, onde Alá ainda não tinha ditado ordens, os bebedores deliciavam-se também com esta bebida, encontraram outro conservante, ainda hoje fonte de sobrevivência de alguns povos de algumas partes desertas das arábias: deitaram mão a uma outra resina, a goma adragante, exsudada pelas Astragalus gummifer Labillardière e Astragalus Microcephalus Willd.
Nomezinho complicado, mas resina muito boa. Também se usou – ou usa ainda? – a goma arábica, constituída principalmente por arabina, mistura complexa de sais de cálcio, magnésio e potássio do ácido arábico. Este ácido é um polissacarídeo que produz L-arabinose, D-galactose, ácido D-glucorônico e L-ramnose. Você, leitor, quer um copo disto? Só para dizer já é difícil! Também se usou e talvez use ainda o ácido málico e muitos outros.
Ainda hoje essa goma é utilizada em vinhos que bebemos todos os dias e em outros que são só bebidos pelos milionários, os de champagne!
Há quem suspeite que até ácido málico é utilizado, mas como a sua principal fonte será a maçã... fica bem disfarçado. Deve ficar uma espécie de cidra vinicolada!
Um amigo meu, sobre quem vou ainda escrever, teve um restaurante em Lourenço Marques. O vinho que lá servia, o vinho da casa, era bastante aceitável, e barato. Quando lhe perguntei que vinho era, ele, em segredo me afirmou, ao pé da orelha, que era feito por ele mesmo, ali nas margens do Índico, na cave do seu restaurante, e nem uma uva entrava da sua composição!!! Fiquei de olho arregalado e pedi-lhe a fórmula. Depois ma daria. Infelizmente nunca mais falámos nisso e perdi, com certeza uma grande lição de pseudo-enologia e de química.
Voltando à história, muitos séculos e milénios se passaram desde os fosseis das pré-vinhas encontradas, até ao seu cultivo, que só aparece, em antigo documento egípcio que indica a sua cultura o que não significa que ela seja dali oriunda.
Se foram ou não os gregos e romanos os primeiros a dedicarem-se à sua cultura, a selecionar variedades, e instituir técnicas, foram eles quem transmitiram essa maravilha através do Mediterrâneo, não esquecendo que a vinha era já cuidada em tempos neolíticos.
Segundo o que a arqueologia tem descoberto no fundo desse mar, e até em diversos outros sítios, é fácil acreditar que o vinho era a principal mercadoria que viajava pelos mares europeus.
Os egípcios há muito tinham abandonado a cultura, e foram os gregos e suas colônias que o tornaram mais conhecidos, e grande fonte de riqueza.
Em Massilia, hoje Marselha, era maior a quantidade de vinho exportado do que o importado da Grécia. Estes como viajavam e demoravam para serem bebidos eram conservados com conservantes incríveis que hoje custa a aceitar: cinzas de pinheiro misturadas com resina, argila e até gesso. Os vinhos produzidos no sul da Gália, hoje França, não necessitavam de conservantes, mas como eram vinhos espessos, fortes de álcool levavam uma boa mistura simplesmente de água.
Apesar dos romanos serem já bons vinicultores, não só na Itália como na Sicília, também se sabe que o vinho da região hoje conhecida como Alentejo, em Portugal era muito cobiçado por Roma. Ainda hoje e não só por romanos!
O vinho chegou a ser proibido na Gália. Os homens bebiam de tal modo que iam completamente bêbedos para as batalhas!
Somente no ano 273 um édito romano autorizou a cultura da vinha em qualquer lugar.
Quem diria que Paris, Lutèce, estaria rodeada de vinhas e que, por exemplo em Montmartre se produzia um magnífico “gran cru”!
Graças aos celtiberos peninsulares que pacientemente foram melhorando as cepas indígenas, os Bituriges Visbisci plantaram a variedade “biturica”, que deu origem aos cabernets, e desenvolveu a cultura da vinha na região de Bordeaux.
Mais tarde Lyon torna-se a capital do vinhos dos francos.
Quem diria, há milhares de anos, que destas coisinhas lindas ia sair um néctar melhor do que hidromel? E que até faz bem às coronárias?


A vinha foi-se assim espalhando e se instalou em toda a Europa, e todo mundo. Até a Grã Bretanha tem já vinhos de qualidade. Há muitos anos.
Graças a cientistas como eu, que não dispenso o meu copo às refeições.
E com uma vantagem: acabaram os vinhos fracos, ruins, de baixa qualidade. Quem quiser vender tem que ter qualidade, o que nos leva a poder comprar, quase de olhos fechados uma garrafa de vinho, de baixo custo, e qualidade bem aceitável.
Que tal um copo de Biturica Saint Emilion ???

03/08/2019

quinta-feira, 1 de agosto de 2019



O Calcanhar do Aquiles
ou
A Saga do Joelho Esquerdo

Coitado do Aquiles! Dizem que o cara era lindão, o mais belo dos heróis gregos, mas, enquanto o J. F. Kennedy foi a Dallas e levou-as, o Aquiles foi a Troia e levou uma flechada no calcanhar; morreu de morte matada.
É evidente que o calcanhar do Aquiles nada tem a ver com o meu joelho. No entanto este parece ser um dos meus, muitos, pontos fracos.
Vamos à história.
- 1 -
1953, mais ou menos aí por Maio.
Já despachado de estudos e dever cumprido como brioso militar, para defesa da pátria (que se veio a revelar pior que madrasta!) e, de acordo com a opinião de algumas gatinhas, ainda mais lindão que o famoso Aquiles, trabalhava então no Herold, com máquinas agrícolas, Massey-Harris.
Uma grande exposição de máquinas foi organizada num terreno da Tapada da Ajuda, Instituto de Agronomia, e lá vamos nós, numa bela área expor tratores, ceifeiras debulhadoras (colheitadeiras no Brasil) e outras interessantes máquinárias.
Fomos os maiores, e melhores expositores, alinhámos as máquinas todas, fez-se uma espécie de “corredor” para os visitantes circularem, e como o terreno era em declive, instrui o mecânico que estava comigo, que todas as máquinas deviam ficar engatadas (caixa de velocidades ou caixa de marchas) para maior segurança.
A exposição ia ser inaugurada pelo ministro da agricultura, ou algo similar, e vieram pedir-nos que, à sua chegada, todos os expositores pusessem os motores das suas máquinas a trabalhar, para saudar o insigne inaugurante.
Assim se fez. Refiz as instruções e mandei pôr todas as máquinas em ponto morto e com as chaves de ignição no respectivo lugar.
Eu estava “fardado” com o macacão do Herold e o meu tio e patrão mandou-me trocar e vestir traje social de calça, camisa, gravata e casaco, o que não gostei. Era preciso cumprimentar o inaugurante que tinha sido amigo do meu pai o que requeria... quase ismoke!
Como não se encontrava uma das chaves dos tratores, deixou-se esse engatado.
Chega o ministro, e lá... em baixo, na entrada, no começo do terreno, deram sinal para se fazer a manifestação motorizada. O mecânico corre para um dos lados, eu para o outro, e sem subir nas máquinas ligava-se o motor. Tudo muito bonito, exceto que o nosso mecânico entretanto encontrara a chave perdida e vai colocá-la no único trator. Engatado. E não me avisa.
Lá fui pondo uns quantos a funcionar e quando cheguei a este fiz o mesmo. Trator engatado, uma charrua pendurada no engate hidráulico, pegou num instante e começou a andar sozinho! De lado, tentei desligar a chave, ia recuando ao lado da roda grande, quando tropeço e o monstro passa por cima das minhas pernas. A primeira preocupação foi ver-me livre da grande roda traseira e sair fora para não ser arado... nas ditas pernas.
O mecânico corre, pára o bicho, eu levantei-me, pernas doridas e roupinha de ver ministro... rasgada!
Voltei a vestir o macacão, e esperei o cerimonial da visita, que vinha acompanhada pelo meu tio, que logo:
- Eu não te disse para tirares o macacão?
- Disse, sim, e eu até fui a casa vestir-me, mas... o trator passou por cima das minhas pernas e rasgou tudo!
Aí o tio engoliu em seco. Era médico e fez logo um monte de perguntas. Quebrado não tinha nada.
Veio o ministro, viu tudo, cumprimentou todos, achou muito interessante, conversou um pouco, etc., e a dor aumentava.
O dito ministro foi embora e eu para casa da futura, a coxear.
O meu sogro, futuro, chamou um médico amigo que foi lá a casa e constatou rotura dos ligamentos do joelho. O esquerdo. A perna abanava um pouco para os lados!
Solução: ficar deitado umas três semanas. Mínimo.
Impossível. Morreria de tédio, ainda por cima a viver em casa duma tia, e madrinha, que era pior que o primeiro sargento do meu regimento, e pontificava em tudo. (Época em que a minha mãe mudava de casa e nós, irmãos, fomos “pulverizados” por várias tias. Mas não deixo de ser grato pelo acolhimento.)
Solução: engessar.
Hospital de São José, um médico amigo do tal tio, disse-me que fosse comprar ligaduras e gesso, porque senão teria que esperar já nem sei o porque, e que assim que tivesse tudo se faria o resto.
Fui a uma farmácia (creio que era farmácia) comprei o que mandou e num instante estava com a perna toda engessada, desde a virilha a meio do pé. Trabalho de enfermeiro.
Quando me quis por em pé e andar, a perna esquerda não andava! Parecia que estava grudada no chão. Era o peso, imenso, de todo aquele gesso.
Lá me fui arrastando até à saída, com a ajuda dum enfermeiro, e chamei um dos taxis que ali aguardavam os maltratados da vida.
Amável o taxista abriu a porta de trás. Meti a cabeça dentro, depois, com a ajuda do dito motorista a perna direita, mas logo verifiquei que a esquerda, não entrava. De jeito nenhum. Batia na lateral, não levantava o suficiente, enfim, um drama!
- Vamos entrar pelo outro lado.
Mesma cena. Agarrando a perna engessada, ainda foi possível entrar com ela no carro, mas o resto do corpo... nada.
- Bom, vamos nos sentar ali naquela mureta para eu pensar como entrar.
Taxista e eu que fazia gestos equacionando a estratégia da penetração (Honni soit!) taxística, e o dito do volante olhava para mim com ar de espanto. Parecia assistir a uma sessão de espiritismo!
De repente:
- Eureka! Já sei. Vou entrar de costas pelo outro lado (o direito). Mas preciso da sua ajuda.
Lá fomos. Entrei de bunda. A perna esquerda era um trambolho imenso, pesadíssimo, mas com a boa vontade do parceiro, e o recuo sistemático e bundístico, o assunto resolveu-se e o motorista sorriu feliz.
Fomos. Novamente para casa da futura, que morava, felizmente, só num primeiro andar, SEM elevador.
Chegados, foi uma outra aventura sacar-me para fora do carro. Sempre o amável motorista pegou na perna foi puxando, bunda escorregando no assento, acabei por sair.
E subir as escadas?! A “gatinha” e mais que prometida parceira até c’a morte nos separe, quase pegou em mim no colo, ajudava a levantar a perna para alcançar o degrau acima, até que finalmente, sentindo-me como o famoso Edmund Hillary que, mais ou menos na mesma data tinha atingido o Everest, alcancei uma confortável poltrona onde consegui resfolgar!
Durou um mês a perna de gesso. Fui-me habituando e até já apanhava o autocarro com ele a andar (o bus) e ouvia o pobre trinca bilhetes a xingar-me, com toda a razão, até que finalmente fui tirar aquela carapaça.
De novo no Hospital de São José. Dois enfermeiros. Um pega na tesoura de cortar gesso e vá de cortar! Quando eu lhe dei um grito:
- Pára. Você está a cortar a minha perna!
- Não estou, não.
- Está sim, que eu sinto. Pára.
Tomou mais cuidado e quando o gesso saiu, finalmente, lá estavam uns 7 ou 8 centímetros de pele cortada na canela! Pela tesoura.
Mas isso foi o de menos. Depois do gesso todo cortado por um dos lados, metem-lhe as mãos e arrancam-no. Aí quem deu outro grito fui eu. Não foi grito, foi berro, que nem o Quincas Berro d’Água.
Os miseráveis, quando puseram o gesso “esqueceram” de me vestir uma meia para o gesso não agarrar. Agarrou, e por isso durante todo o tempo que andei com ele sempre tinha uma coceira danada, porque ia arrancando uns pêlos. Quando o arrancaram com um esticão saíram duma vez só todos, TODOS os pêlos da perna! Os que restavam.
Quando olhei para a perna só me lembrei de Auschwitz: pele e osso! Com a inatividade os músculos tinham, também, sumido!
Novamente uma tourada para recomeçar a andar, qualquer movimento a perna doía pra valer, entrar no taxi foi uma segunda sessão já ensaiada, bem como para sair, e uns seis meses de auto-fisioterapia.
Vinte e poucos anos de idade curam até cabeça cortada fora e voltei à vida normal.
Ano seguinte, 1954, casados, fomos para Benguela. Muito ténis joguei, muito andei pelo mato em trabalho e à caça, com o joelho ótimo.
- 2 -
1964, férias, em Portugal.
No aniversário do filho de um dos sócios das cervejas fui convidado para lá ir com o nosso filho mais velho que teria 9 anos.
Casa boa, rica, sala de ping-pong (ou ténis de mesa!) onde a garotada brincava à sua volta.
Lembrei de entrar na brincadeira para distrair os garotos.
Escorreguei naquele chão polido e encerado, caí abrindo as pernas tipo bailarina, e... voltei a romper os mesmos, os mesmíssimos ligamentos.
Ortopedista. Um amigo.
- Tens duas opções. Uma é operação, complicada; de entrada fica tudo bem e com os anos vai piorando. Outra, não se faz nada, amarras agora por algum tempo com uma ligadura até te sentires melhor, ficas bem, e com o tempo vai piorando.
­Optei pela segunda.
Em algum tempo voltei a jogar ténis e fazer a vida normal. Mas os anos iam somando.
- 3 -
1969. Luanda. Trabalhava no banco BCCI.
Com o meu querido amigo Fernão Dornellas, entramos de parceiros num torneio de ténis, interbancários.
Fomos jogando e ganhando, e o joelho xiando. E já coxeando durante o dia.
Chegámos até à finalíssima do torneio. Entrei de bengala numa mão e raquete na outra, e avisei:
- Fernão! Não vou aguentar. Eu fico na rede e tu corres como puderes.
Aos já 3 x 0 a favor dos adversários, capitulei.
- Meus amigos: não tenho condição de prosseguir.
É evidente que não ganhámos e o Fernão ainda me barafustou, o que não afetou a nossa amizade.
Nunca mais joguei ténis. Passei para a vela e golf. Nunca ganhei torneios nem regatas mas tinha um prazer enorme no que fazia.
(Nota: Olhem como se fica podre: em Portugal, 1990, cada vez que ia jogar golf ficava uns dias com as costas quase imobilizadas. Problemas da 5ª coluna! Deixei o golf!)
- 4 -
2012. Rio de Janeiro. Em casa.
Ao sair do escritório, dois degraus a descer e dois para subir, errei a pontaria dos para cima. Tropecei, caí que nem um bêbado. Era de manhã e não tinha bebido nada!
O miserável do joelho, sempre o mesmo, bate em cheio na quina do degrau. Dessa vez a cara decidiu acompanhar e foi de encontro à borda do passeio. Nada quebrou. Doía o joelho, a cara e o ombro, também esquerdo, não deixando o braço mover-se totalmente. RM: só uma pequena luxação, rachadura ou qualquer outro nome estranho (talvez craquelé!) no ombro esquerdo que levou à fisioterapia. E uma leve torcedura no pé esquerdo, mas, mixuruca.
Resultado: Joelho amarelou, depois o amarelo escureceu e ócrou, passou por um verde oliva velha e finalmente roxou, até ficar bom. O olho direto e o queixo seguiram a escala cromática do joelho. Só o ombro não roxou! Uma lindeza.



O ocre a descer pela perna e as manchas roxas a enfeitarem o lindo rosto

Mas não fica por aqui.

- 5 -
2013. Ushuaia. A cidade mais ao sul da América.
Com filha, genro e netos, um com 16 e o outro com 11, aí vamos nós para o frio. Um tempo bonito, mas um friaco valente.
Os netos queriam esquiar. Eu queria comer bem e beber melhor, passear pelos arredores e gozar a paisagem.
Lá onde se ia esquiar, um belo restaurante servia um cordero fueguino de chorar por mais, e tudo à volta neve e gelo.
À saída do dito comedor, uma pequena passarela de madeira para que os clientes não escorregassem. Acabada a passadeira... gelo. Escorregadio. Aí fui eu, num aparatoso escorregão bater com o bendito joelho esquerdo em cima do gelo durrérrimo.
Coxeia, procura diclofenato na farmácia, e lá vem aquela paleta de cores, que eu já tão bem conhecia! E as dores para andar.
Felizmente não cortou o apetite e atacámos a maravilhosa merluza negra¸ o melhor peixe que comi em toda a minha – longa – vida, e as big santollas ( que os argentinos pronunciam santoja). Entrava e saía do restaurante a coxear, mas sempre de papo bem fornido!
- 6 -
2019. Julho. São Paulo
Um semana em casa da filha e netos paulistas.
Durante a noite costumo me levantar uma ou duas vezes para... para isso mesmo.
Conheço bem o caminho do quarto até ao banheiro, não acendo a luz.
Mas, aqui é que está o busílis: a Joana tem em casa uma esteira para fazer um pouco de, teórica, caminhada. Faz talvez uma vez por ano, ou duas. A maquineta é grandinha e jaz lá num quase canto à saída do banheiro.
Aqui o cegueta, sai do dito banheiro, descalço, como sempre, dá um violento chuto com o dedo mindinho, um miserável minúsculo, bem na base da esteira, forte e pesada, e aí vai ele esparramar-se no chão.
O que machucou mais e até esfolou? O joelho esquerdo.
E lá vai ele a doer, esfolado e a percorrer aquela escala cromática à volta do ferimento!
Já decidi: vou comprar duas joelheiras, daquelas que usam os gool keepers  do hóquei americano no gelo.
Ou será melhor uma armadura de ferro medieval? Bem acolchoada por dentro, como é de supor.

27/07/2019


domingo, 28 de julho de 2019




Amigos – 32 a


Antes de qualquer procedimento de caça é preciso ir cumprimentar o chefe da aldeia. Conversar com ele sem pressas, oferecer-lhe alguma coisa, sendo o mais comum um ou dois garrafões de vinho, dizer-lhe ao que se vai, e pedir-lhe que arranje um pisteiro bom.
Chefe, sentado numa quibaca, os restantes homens no chão. Conversa lenta, pausada, dando a sensação de ser assunto que necessita de muito pensar! Isso levou a manhã toda.
Ali ao lado, o rio Cubango, a mais de quinhentos quilômetros da nascente, era já um rio largo, volumoso, apesar da época não ser de chuvas. Por vezes atravessa área pedregosa transformando o seu leito tranquilo numa série de rápidos, que deixam para montante as águas mais paradas formando como um lago, onde as margens se afastam uma ou duas centenas de metros.
Não só o pisteiro como todo o povo mostraram-se desde logo muito interessados em falar sobre os muitos hipopótamos que viviam ali, nesses rápidos. Não era intenção dos caçadores caçar hipopótamos, animal tranquilo, por essa ocasião uma das espécies cuja extinção estava já ameaçada, mas sim elefantes. Todavia um daqueles imensos hipopótamos seria uma magnífica prenda para aquela gente. Ficariam abastecidos de carne por um bom tempo, e por isso tanto interesse em falarem neles. O peso médio dum macho é de duas toneladas e meia. Caçar esta montanha de carne seria a melhor maneira de cair nas graças das gentes daquela sanzala, e o chefe mostrou-se nisso vivamente interessado, porquanto seria sempre ele a proceder à divisão da carne. E quem parte e reparte...
Foi decidido aproveitar o resto da tarde desse primeiro dia para ir procurá-los. Lá estavam, a razoável distância de tiro, parecendo tomar banho em piscina, mais de uma dúzia desses enormes bichos.
A aproximação, cautelosa, mas os caçadores eram seguidos não só pelo pisteiro e por umas dezenas de garotos, que todos queriam ver caçar um bichão, a cautela foi só teórica.
Os animais pressentindo a aproximação de gente vinham à superfície muito rapidamente respirar, não mostrando por mais de escassos segundos a ponta das narinas e os olhos, dificultando assim a hipótese de tiro, que para ser fatal deve atingir uma área muito restrita atrás da orelha. Esperou-se algum tempo para ver se algum mais curioso se expunha melhor, porque também a curiosidade é uma das características destes simpáticos monstros. Não estava fácil, mas assim mesmo arrisquei atirar assim que vi alguma possibilidade de sucesso, com a carabina equipada com óculo. Tiro preciso, o animal sente o impacto da bala, revolve-se na água, ferido e muito agitado, entusiasmando todo o grupo que já antevia comida farta, mergulha e desaparece. O resto da manada sumiu também, submergindo para ir depois aparecer bem longe, em lugar mais abrigado, sem perigo aparente.
Começava o dia a declinar e como já não valia a pena tentar procurar os animais, ficou decidido voltar na manhã seguinte. Se o animal tivesse sido ferido de morte algumas horas mais tarde apareceria a boiar, quando não teria que ser procurado. À noite, à roda do fogo, entre outras conversas, comentou-se a precisão do tiro. Fora bom, e pelo modo como o animal o acusou devia estar morto. De qualquer modo não duraria muito.
Manhã cedo, ainda mal se preparava o matabicho, uma porção de garotos de roda dos caçadores avisava que os cavalo-maria haviam subido o rio. Já os tinham localizado e igualmente alertado. Volta a equipa, sempre acompanhada por uma pequena multidão de garotos, ao local onde tinham atirado na véspera, para começar a procurar o animal. Ninguém queria perder o espetáculo. Se estivesse morto a corrente do rio já o teria arrastado para as pedras dos rápidos. Ali não estava. De acordo com a informação pré matinal, a manada tinha subido o rio e estavam ali, a cerca de mil metros.
- Vamos lá ver se encontramos o ferido.
Para a hipótese de terem que atravessar o rio, tínhamos levado um barco.
O meu amigo tinha uma carabina 9,3 mm com dois gatilhos, um primeiro para soltar a folga do segundo que depois ao mais leve toque dispara, o que dá maior precisão de tiro. Propõe:
- Eu vou para a outra margem, e atira aquele de nós que tiver os animais mais perto!
- Cruzar fogo por cima da água? Tá louco! Nunca.
- Porquê? Qual é o problema?
- Porque a bala faz ricochete na água e nós vamos ficar a atirar um no outro.
- Qual ricochete, qual quê! Eu caço há mais de vinte anos e nunca vi tal coisa. Pelo contrário, a água amortece a bala.
- Eu sei que faz ricochete. Já vi muita bala bater na água e seguir viagem. Portanto se você quer atravessar o rio vai que eu fico aqui à espera.
- Não, senhor. A caçada é sua, e o hipopótamo ferido foi também um tiro seu. Vamos seguir as suas instruções.
- Que fique bem assente: não só não vamos cruzar tiros por cima da água como ninguém vai para o outro lado, porque como sabe o diabo disparou uma tranca, e eu vou atirar deste lado.
- Está certo. Então eu aguardo aqui.
Deixei os companheiros sentados debaixo duma frondosa árvore, e seguido ainda por uns quatro ou cinco garotos fui subindo pela margem do rio para me aproximar da manada. Como na caça todo cuidado na aproximação é pouco acabei correndo com a garotada. Só atrapalhavam. Caminhei com cautela bem junto à água, afundando por vezes os pés na terra encharcada. Por fim lá estavam os bichos, longe, junto à margem oposta, a uns cento e cinquenta metros, o que não aconselhava a atirar, dada a precisão que o tiro requer. Cautelosos como na véspera, continuavam atentos, até porque a garotada os havia alertado, e nesta situação mantêm-se submersos o máximo de tempo possível, e só sobem à superfície para respirar a intervalos de largos minutos, mal aparecendo, tornando assim a espera muito morosa e cansativa. Era necessário esperar com paciência. Num lugar meio escondido, sentei num tranco caído, e para dar mais precisão ao tiro cortei um galho da mesma árvore para servir de apoio ao cano da arma.
Ao fim de uma hora e tanto as cabeças começaram a mostrar-se um pouco mais fora e, mirando com todo o cuidado através do óculo, arrisquei um tiro. Estando quase ao nível da água e atirando a uma distância grande, o ângulo formado com a superfície era mínimo. A bala, blindada, rasou e tocou na água, seguiu, voltou a bater na água um pouco mais adiante, e pensei pena o meu amigo não estar aqui que teria visto o tal ricochete.
Ainda tentei um segundo tiro, sem senso, porque àquela distância e sem ângulo era praticamente impossível atingir um alvo de cinco centímetros de diâmetro, a parte vulnerável do hipopótamo, e matá-lo. Felizmente não parece ter acertado em nenhuma das duas tentativas. Ferir e não matar era pouco digno de um caçador. Desisti e levantei-me para retornar. 
Neste momento chega o outro parceiro, no jeep, lívido:
- Venha depressa. O seu amigo levou um tiro numa perna. E acho que foi um tiro seu.
- Um tiro??? Como? Um tiro meu?
- Sim. O primeiro.
- Não me diga que vocês atravessaram o rio e subiram a outra margem, contrariando o que havíamos combinado?
- Foi. Quando ficámos ali sozinhos, ele disse que essa coisa de ricochete era conversa, e fomo-nos colocar mesmo em frente dos hipopótamos.
- Meu Deus! Atingiu algum osso? Sangra muito?
- Não. Quase não sangra.
Num instante estávamos no local onde os tinha deixado. O ferido sentado no chão debaixo da mesma árvore frondosa, perna estendida, ar de profunda desolação, duas lágrimas na cara magra, ainda por secar. Pisteiro e garotada à volta com ar de espanto.
- Oh! Homem! Que maneira estúpida de aprender que as balas fazem mesmo ricochete na água!
- Pois é. Tem razão.
- Deixe ver a perna.
Calça abaixo. Ferimento milagroso! Por muita sorte foi uma bala blindada, com forte poder de penetração, que não espalha nem estilhaça. Entrou na parte superior da coxa e saiu uns doze centímetros adiante. Não apanhou o fêmur nem a artéria femoral, que naquele local, longe de tudo e de todos, teria sido fatal! Fez um pequeno buraco na entrada, ligeiramente maior na saída, mas a velocidade com que atravessou o músculo deixara o caminho como que cauterizado e sem aparente perigo de infecção. De qualquer modo havia que o levar a um posto de enfermagem para ser visto. O mais perto, perdido no meio daquela imensidão, ficava a cinquenta quilómetros dali.
Quando lá chegamos a perna estava um tanto escura do hematoma causado pela pancada do tiro potente, mas o enfermeiro limitou-se a fazer um pequeno penso na entrada e na saída da bala, passar uma ligadura para segurar os pensos e recomendar uma medicação simples, que faria bom efeito porque o ferido, homem saudável, nunca até aquela altura da sua vida tinha tomado um único comprimido!
Regresso ao acampamento em silêncio. A caçada estava estragada. Não sendo responsável pelo disparate do amigo, sentia-me mal, e quis saber exatamente como se tinha passado tudo aquilo. O acompanhante fez o relato.
- Ele disse que isso de ricochete na água era conversa! Então atravessámos o rio no barco, e subimos pela outra margem até que avistámos os hipopótamos, e fomo-nos colocar o mais perto possível. Aí uns trinta metros. Escondemo-nos atrás dum muxito, sentados de cócoras. Os animais estavam tão perto que ele carregou a arma, e preparou-se para atirar. Tirou a folga soltando o primeiro gatilho, e apoiou a arma na perna. Logo a seguir ouvimos um tiro, a arma dele sacode, sente uma pancada na perna, que lhe deu a sensação de ser o coice do tiro da sua própria arma e espantado diz:
- Olha, disparou-se a minha arma! - levanta-a e vê o percutor armado.
- E esta? O percutor armado! - abre a culatra e a bala estava lá dentro! - Como é possível? A bala está aqui! Como é que isto disparou?
Nessa altura eu olhei para o lado para tentar descobrir o mistério do tiro que não havia saído da arma dele, e vejo a perna a sangrar.
-Oh! Você levou um tiro na perna, e foi uma bala do Francisco!
O ferido sem acreditar: - Levei um tiro onde?
- Aí na sua perna.
Vê a sua perna ferida, porém continua sem entender o que se passava.
- Vamos embora daqui. Dê-me a mão que eu o ajudo a levantar-se.
- Não é preciso. Estou bem. Não sinto nada.
Levantámo-nos e começámos a andar. Uns poucos metros adiante ele senta-se no chão e com as lágrimas a romperem-lhe dos olhos diz:
- Ai! Que eu vou morrer!
Eu fiquei aflito, mas não me parecia que fosse caso para isso, perguntei-lhe:
- Vai morrer porquê? Foi só um tiro na perna e até sangra pouco!
- É sim. Mas eu já vi antílopes levarem um tiro que a gente pensa que não acertou, continuarem a correr como se nada fosse com eles, e de repente caírem para o lado, mortos! Comigo vai acontecer o mesmo!
Esta descrição fez o riso voltar aqueles rostos tensos. Até o ferido de perna atada teve que rir!
De volta ao acampamento, a vontade de caçar tinha-os abandonado. A ceia, sempre um bom momento de alegria e descontração foi comida em silêncio. Triste. No dia seguinte o doente ficou deitado no acampamento e eu fui só caçar um ou dois antílopes para arranjar comida para eles e aquele povo.
Entretanto o pisteiro já não apareceu naquela manhã. Tinha sumido! Quando perguntamos por ele as respostas eram evasivas que ele não podia ir mais, tinha outras coisas para fazer, etc. Nova conferência com o chefe da aldeia para arranjar outro pisteiro, e este do mesmo jeito, com os mesmos rodeios, não tinha outro capaz, estava ausente, e mais isto e aquilo, etc., a verdade é que ficamos sem guia.
Ainda mais um dia nesse acampamento, para descansar da emoção do acidente, mas como não se podia esperar mais apoio do povo dali, fomos obrigados a ir procurar outro local para continuar a caçada.
Desfaz-se o acampamento, carrega tudo de volta nos carros e aí vão eles, picada fora tentar continuar a caçada que tão mal começara. Percorreram algumas dezenas de quilómetros até outra sanzala, bem longe da primeira.
Mesma cena de início, conversar com o chefe da nova sanzala onde se depararam com as mesmas respostas, não tinha nenhum pisteiro bom, os animais andavam muito longe, a época não era a melhor, etc. etc.
Estranho. Muito estranho. Ninguém mais queria ir caçar com eles. Afinal o que se estaria passando?
Conseguiram a custo saber que naquela região, imensa, se tinha rapidamente espalhado a notícia de que andavam por ali uns brancos que se queriam matar uns aos outros! E como é evidente ninguém queria colaborar com essa guerra!
Para compreender esta atitude é necessário conhecer um pouco a mentalidade daqueles povos simples. Os mais simples, os mais manhosos! Analfabetismo não é sinônimo de burrice.
Quando por qualquer circunstância um homem quer vingar-se de outro, nunca o faz declaradamente. Tem que ser pela calada, sem que jamais possa levantar suspeita. A vingança pode provir de um caso de amor, da perca de uma posição mais influente, de uma acusação publica, até de simples inveja, se inveja pode ser coisa simples.
Sendo a paciência uma das virtudes dos povos simples, a espera não tem pressa porque tempo pouco conta. O momento oportuno sempre acaba por surgir, sobretudo nas reuniões de todos os homens que, em ocasiões especiais, se sentam a noite toda, em círculo, à roda do fogo, discutindo, pouco, e bebendo muito. Bebidas fermentadas, por eles mesmos preparadas, sempre de elevado teor de álcool para estas quizombas, reuniões a que preside o soba acompanhado pelo quimbanda, o feiticeiro e curandeiro e todos os homens da sanzala.
Para consecução desse ato, o vingador precisa da colaboração de um ajudante, a quem todavia não põe ao corrente do que pretende fazer. Escolhe um dos seus amigos, de amizade consolidada, que sem saber vai ser o cúmplice. Entretanto começa por procurar cativar a confiança de quem se quer vingar, tornando-se seu amigo, o mais prestável, mais humilde, mais íntimo, para afastar quaisquer suspeitas entre todos na aldeia, que passam a ver que eles são mesmo amigos.
Com o aproximar do dia da ação, prepara um veneno forte, coisa que não é segredo para ninguém que vive no meio da natureza, e na noite da assembléia acaba se sentando no meio dos dois amigos. A vítima de um lado, o cúmplice do outro, com o objetivo de afastar ainda mais qualquer suspeita. Ele fica entre os dois maiores amigos, o que é natural.
A bebida é servida em cabaças, continuamente, uma só estando na roda de cada vez, que vai passando de mão em mão, sempre num mesmo sentido de rotação. Cada um bebe uns quantos goles e passa ao seguinte. Do lado por onde ela há-de vir senta-se o cúmplice, do outro a vitima. O veneno, bem forte, vai embutido na unha de um polegar. A cabaça com a bebida alcóolica roda a noite toda, passada invariavelmente da esquerda para a direita, só parando quando vazia, para se encher de novo. Numa dessas rodadas a cabaça há-de chegar às mãos do cúmplice só com bebida suficiente para um ou dois beberem. O vingador está atento, e logo que percebe que o momento é chegado, sem que alguém note, o que não é difícil porque o álcool já tolda a maioria deles, não deixa o cúmplice beber, para não perder a oportunidade de receber a cabaça quase vazia. Nessa altura ele bebe um pouco, finge que bebe, enquanto mergulha bem o dedo com o veneno que se vai misturar aos últimos goles da bebida. Feito isto passa a cabaça para o lado, tendo o cuidado de fazer o parceiro beber até a derradeira gota, o que também não é difícil, porque a cabaça já vai quase vazia e todos gostam bem de se embriagar. A festa continua, o álcool vai fechando os olhos de alguns e a mente de todos, mas assim mesmo só pára alta madrugada quando caem os últimos bêbados.
No dia seguinte a ressaca é geral, mais sentida por alguns. A vítima tem uma ressaca muito mais forte, o que a ninguém causa espanto porque há sempre uns a quem a bebida faz pior. Mas a ressaca dele não passa, e ao fim do dia piora. Sente-se mal, com diarréia, febre, fraqueza. Ninguém o mandou beber tanto! Em menos de quarenta e oito horas está morto! O vingador perdeu um amigo! E leva a encenação até ao fim, mostrando-se muito sentido com a falta do amigo!
Foi este mesmo quadro que aquele povo viu naqueles brancos que foram caçar! Muito amigos, mas caçadores com boa pontaria como vai um acertar o outro? De certeza que querem matar-se! Até o tal cúmplice estava presente possivelmente para ajudar a posicionar a vítima no melhor local para levar o tiro! Não puderam convencê-los que entre brancos as coisas não funcionam desse jeito! Não houve maneira.
E esta caçada nas terras do fim do mundo que tinha tudo para ser uma maravilha, acabou por ser um tormento. O objetivo eram os elefantes. Tentaram depois procurá-los, mas sem pisteiro. Andaram muito perto deles, mas nunca em posição de tiro. Ao fim de uma semana foram obrigados a abandonar a região, tristes, tensos, com a perna dolorida ainda, mas sem dar preocupação de maior.
Levámos dessa caçada esta versão de costumes, estranha, mas autêntica.
Foi um grande parceiro. Amigo. Sempre com uma ótima disposição.
O Carlos Vieira da Maia, que perdi de vista quando fui para Moçambique em 71 e mais no pós 25/4.


Soube vagamente por um amigo comum, aí pelos anos 80, que viveria lá para as Beiras. Mas não o consegui localizar. Talvez agora um dos filhos venha a ler isto. Quem dera.
Um grande abraço onde quer que estejas.

10/07/19

quarta-feira, 24 de julho de 2019


Amigos - 32

Um dos agentes da Cuca pelo interior de Angola, comerciante em Vila da Ponte que se chamou Vila Artur de Paiva e hoje é Kuvango, era homem dos seus quarenta anos, baixo, seco e rijo, muito vivo e alegre.
Sendo eu o responsável comercial da Companhia, visitei todos eles, ajudando-os a organizar as suas vendas.
Com este, depois de visitada a sua área, disse-lhe como devia proceder, que em menos de um mês estaria a vender o dobro que vinha fazendo.
Não acreditou, mas cumpriu, e no fim desse primeiro mês telefona-me, muito animado. Tinha mais do que dobrado as vendas. E eu virei uma espécie de Nostradamus, mas sobretudo fizemos uma ótima amizade.
Português, beirão, estava em Angola desde os seus vinte anos. Para ali fora cedo por não querer cumprir o serviço militar! Estava-se em plena Segunda Guerra Mundial.
Logo ali chegado, com algum crédito junto a casas comerciais das cidades principais, foi estabelecer-se região dos ganguelas, perto de Vila da Ponte onde depois se veio a fixar. Por essa época estava a começar a construção do prolongamento da linha férrea de Lubango às minas de ferro da Jamba. Muita gente contratada (!) para essa obra, que era preciso alimentar.
Para obras públicas ou de envergadura importante, em que se empregava bastante mão de obra local, nativa ou não, o governo concedia a experientes caçadores uma licença especial de caçador profissional, que lhes permitia abater peças de caça para fornecer alimentação a esses grupos de trabalho. Eram homens com grande conhecimento das regiões onde atuavam, atiravam muito bem, e sabiam perfeitamente o que podiam e não deviam abater.
O nosso amigo antes de ir para Angola nunca tinha dado um tiro, e admirava profundamente o caçador profissional que ele recebia com frequência na sua modesta casa de comércio, e com quem já tinha saído algumas vezes. Via o outro apontar e com um só tiro sempre abatia alguma peça de caça, façanha que o fascinava. Um dia perdeu o acanhamento:
- Eu gostava muito de experimentar dar um tiro.
- Quando quiser. Vamos lá.
Pega na carabina do amigo faz uma marca numa árvore e dispara. Onde foi parar a bala, ninguém sabe. Ficou um quanto desapontado mas o caçador tranquilizou-o. Ele mesmo no princípio tinha dificuldade em acertar, mas tudo era uma questão de hábito.
O jovem sonhava em ter uma arma e ir à caça. Ao primeiro caixeiro viajante que depois disto por ali passou, comprando gêneros de produção local e recebendo pedidos de encomendas que seriam depois remetidas pelos camionistas, pediu um favor. Deu-lhe dois mil escudos para que lhe comprasse uma carabina. O dinheiro que sobrasse gastasse todo em balas. E ficou à espera, ansioso. Uns seis meses depois o mesmo viajante voltou, e trazia a arma! Que maravilha! Uma .22 Long e uma quantidade grande de caixas com balas.
Animadíssimo mal pôde esperar. Fez uma cruz no muro do pátio da sua casa, enfia uma bala na câmara, afasta-se uns dez metros, dispara, mas o tiro acerta a mais de meio metro do centro! Como era possível? O caçador profissional onde punha o olho punha o tiro e ele nada! Apontou de novo, devagar, e percebeu então porque não acertava. O cano oscilava muito. Tremia. A arma não ficava quieta, e assim ele não conseguia apontar.
- Hummm! É isso. Preciso apoiar o cano.
As janelas da sua casa tinham trancas por dentro. Pega uma delas, com um serrote faz-lhe um corte em V numa das pontas, e vai experimentar de novo. A tranca no chão, o cano apoiado dentro do V, agora sim, a arma ficava quietinha e ele apontava à vontade.
Mal escureceu, chamou um dos empregados de mais confiança a quem entregou uma bateria e um farolim, e não foi preciso andarem muito para que logo surgissem a brilhar dois olhos dum pequeno cabrito do mato. O Dik-Dik (Sylviacapra grimmia), bichinho que pesa uns dez a doze quilos, comendo tranquilo umas verduras na sua própria horta. Aproximam-se a poucos metros, o cabrito despreocupado, não pára de comer.
Farolim apontado, o Maia que tinha levado três balas, mais do que suficiente para o que ele queria - o caçador profissional com cada tiro abatia uma peça - apoia a tranca no chão, assenta o cano da arma na ranhura em V, firme, aponta, dispara, e a bala segue zunindo pela noite. O cabrito, ótimo, cheio de saúde, assustou-se, pestanejou e continuou comendo. Um sinal ao ajudante para que se aproximem um pouco mais. Dez metros, menos ainda. Tranca, arma apoiada, mas a tão curta distância já não era fácil apontar. A tranca era comprida, e dificultava o apontar para baixo. Segundo tiro, e a segunda bala segue correndo atrás da primeira. Atirador mais espantado do que o cabrito!
- Psst! - e novo gesto para que avançassem. Ficaram a uns cinco metros.
Com tranca a pontaria estava mais difícil e o caçador, de fraca estatura, teve que se pôr nas pontas dos pés para tentar mirar o bichinho. Terceiro tiro. Terceira bala a zunir na noite dos ganguelas. O cabrito? Continuava a pastar, ali mesmo na frente deles.
Admirado com a falta de sorte e já sem balas.
- Kuata espingarda!
Entrega a arma ao ajudante faz-lhe sinal que fique quieto e continue a apontar o farol. Passa fora do foco, vai por detrás do pobre cabrito e dá-lhe com a tranca na cabeça! Matou.
O empregado só disse
- Háca! Patrão! - e riu com vontade.
Patrão foi avisando:
- Você não vai contar nada disto. Diz que patrão matou só no terceiro tiro, porque não está habituado neste espingarda. Ouviu?
- Sim siô. Patrão.
Entrados em casa o empregado num instante põe em cima da mesa tudo o que seria o jantar do patrão e sai para o pátio, onde sempre à volta do fogo, se juntava com os restantes empregados mesmo de outras casas comerciais. Pouco depois começam a ouvir-se sonoras e gostosas risadas, e o patrão desconfiado vai ver o que se passa. O seu ajudante na caça, aquele a quem pedira segredo absoluto do modo como apanhara o cabrito, de pé, teatralizava a história gesticulando e enfatizando mais ainda o que de ridículo a situação pedia!
Nessa noite o grande segredo ficou sendo do conhecimento de todos os habitantes daquela povoação!
Mas não desistiu. Só deixou foi de levar ajudante para a caça! Durante meses, sem que o ânimo lhe faltasse continuou a caçar, mas sempre sem sucesso, e a sua fama de péssimo matador foi-se consolidando. Aliás nem péssimo era. Não era! Sempre que regressava os vizinhos perguntavam
- Então?! O que caçaste hoje?
Nada. Sempre nada. Até que um dia...
Sempre insistindo, está numa área de capim bem alto e vê, vindo por um trilho, direitas a ele, duas Quissemas ou Burro do Mato ou Côco (Cobus Defassa Penricei). As quissemas são animais com uma altura dorsal de cerca de um metro e vinte, e peso que ultrapassa facilmente os duzentos quilos. Esconde-se atrás de uma árvore ao lado do caminho, carrega a arma e espera. Passa o primeiro animal a uns três metros, e sai o primeiro tiro. Cai uma. A outra fica especada sem saber de que lado estava o perigo, o matador carrega de novo, volta a disparar, e... mata a segunda!
Hurrraaah! Hurrraaah! Quebrara o enguiço. Tinha finalmente caçado! E logo duas quissemas!
Mas, e agora, como levar os bichões, enormes, para casa? Não tinha a menor condição de levar uma só quanto mais duas, e se fosse pedir ajuda, ninguém o ia acreditar. Solução? Simples. Cortou as quatro orelhas, meteu-as nos bolsos, e tentando aparentar tranquilidade que não tinha, volta com ar feliz à povoação, e vai direto a um vizinho, o único que tinha uma carrinha, pedir ajuda para carregar uns animais que tinha morto ali.
- Você? Você nunca matou nada! - e gozava.
Este com ar solene mete a mão no bolso e joga em cima do balcão o documento comprobatório:
- Duas quissemas. Duas. Estão a menos de dois quilómetros daqui.
- Puxa. Querem ver que é mesmo verdade!
Comerciante, mulher e filha conferem as orelhas, que eram verdadeiras. Duas do lado esquerdo e duas do direito, tinham que ser de dois animais. Querem ver que ele caçou mesmo?! A povoação despovoou-se. Todos acorrem ao local indicado, onde as quissemas jaziam. Foi uma festa. Carne para toda a gente. A consagração do caçador que, com esses dois tiros, mesmo disparados à queima roupa, deve ter aprendido como se atirava! Acabou sendo um ótimo caçador, e mais do que isso um estupendo e alegre companheiro de caça, que por fim até passou a saber que as balas fazem ricochete na água!
O interior de Angola, sobretudo o centro e sul é um planalto com altitude média acima dos 1.000 a 1.200 metros, o que lhe proporciona um clima seco, independente da quantidade de chuvas que caem, noites frias, madrugadas geladas formando com facilidade camadas de gelo na água que fica ao relento em tinas ou baldes, e temperaturas que durante o dia ultrapassam os 40º C. Nunca nessas áreas faltava cerveja gelada! Durante a noite ficavam as garrafas expostas ao frio, e de madrugada antes de se sair para a caça guardavam-se em caixas de papelão que por sua vez se embrulhavam em pesados cobertores de papa, indispensáveis para se poder dormir dentro das barracas de campismo, normalmente gélidas, e depois colocadas na melhor sombra das árvores. Ao meio dia, sob um calor de quarenta graus ou mais, os caçadores no regresso ao acampamento, sequiosos, encontrarem no meio do mato, a centenas de quilómetros do que se podia chamar civilização, uma cerveja muito gelada, era o máximo!
Nessas regiões, a saída de madrugada sob um frio que gelava até as idéias, obrigava os caçadores a agasalharem-se com múltiplas peças de roupa quente, cachecol, chapéu, luvas e tudo que pudesse proteger daquele frio imenso em cima de jeeps abertos! Assim que o sol nascia começava o streap tease!  Primeiro o cachecol, depois o blusão pesado, depois as luvas e as lãs, que tudo se ia jogando para a cabine do carro, até que por fim seguiam só em camisa quando não tiravam esta também! Ao lado do condutor ficava um monte de roupa!
Longe eram as chamadas terras do fim do mundo, lá no sul de Angola, região dos cuanhamas, dos ganguelas, dos cussos e de muitos mais, onde uma caçada pressupunha uma estadia mínima de uma semana, sendo necessário levar todo o indispensável equipamento de campismo, primeiros socorros para qualquer emergência, boas reservas de cerveja e vinho para beber e oferecer aos sobas que disponibilizassem pisteiros, que não saíam sem sua autorização, e ainda arroz, batatas, sal, café, conservas, frutas e mais um monte de bicuatas, que incluía cadeiras, mesas, camas de campanha, candeeiros Petromax, sacos de lona especiais para água de beber, que pendurados na frente do carro, com o deslocar deste mantinham a água fresca apesar do sol escaldante, enfim tudo o que uma semana daquelas dava direito. Muitas vezes levava-se cozinheiro que ficava feliz com esta variante da sua vida insossa na cidade. E até um barco, a remos ou com motor de popa quando se previa ter que atravessar algum rio mais largo.
Eram centenas de quilômetros para se atingir o coração da região, onde mais facilmente se podiam encontrar os grandes animais como o elefante. Cruzavam-se no caminho planuras imensas, savanas, chanas ou anharas (pastos úmidos e férteis) cheias de caça diversa, sobretudo antílopes desde a minúscula Seixa aos Nunces, Songos, Quissemas, e até Gnus e as enormes Gungas ou Elandes, e muitas outras espécies, que à noite os faróis dos carros refletindo nos seus olhos pontilhava de luzes. Espetáculo magnífico. Algumas áreas pareciam cidades iluminadas.
Um dos animais que habita nessas anharas é o Cuio ou Lebre Saltadora (Pedetes capensis). Não chega ao dobro do tamanho de uma lebre e lembra um canguru pequeno com membros posteriores muito desenvolvidos, sobre os quais se desloca saltando, e os anteriores muito pequenos de tamanho suficiente só para ajudar a levar a comida à boca. Herbívoro inofensivo, vive durante o dia em tocas, só à noite sai para se alimentar. Seus olhos refletem a luz com imenso brilho, vendo-se, quando se lhes apontam os faróis, uns pontos luminosos moverem-se aos saltos!


No caminho para as tais terras do fim do mundo, um grupo de caçadores de que eu fazia parte, mais o meu amigo, o Arnaldo que foi de motorista e dois jovens, ao atravessar uma dessas chanas ou anharas, já noite, farol ligado varrendo os lados da picada para se gozar o espetáculo, avistam perto do carro um desses cuios.
- Vamos pegá-lo!
De cima do carro continuou-se a farolinar, sem perder o cuio de vista. Os dois rapazes saltaram logo fora, e no meio da noite só se via a estreita faixa que o farol iluminava, correram para pegar o cuio, que com a forte luz a bater-lhe nos olhos saltava também sem saber para onde, mas aproximando-se do carro.
Tropeçavam os garotos em troncos caídos que naquele contraste luz-escuridão não se distinguiam, davam tombos formidáveis, mas o divertimento era superior e por nada deste mundo interrompiam aquela caçada, à mão, sem no entanto alcançarem o animal, que igualmente perdido, conseguia assim mesmo enganá-los.
Eu encostado à traseira do jeep ria com aquele espetáculo. De repente o pobre cuio num dos saltos, cego com a luz, bate na lateral do jeep e cai estonteado. Num instante despi o blusão, cobri o bicho e segurei-o! Estava terminado o pega-pega!
E agora o que fazer com ele? Adaptou-se um engradado com uma das caixas dos mantimentos e o levámos.
Já tarde da noite chegam ao local previsto para acampar, como sempre junto a uma sanzala para que aproveitar a companhia e infra-estrutura daquelas gentes. Descarrega tudo dos carros, arma-se a tenda de campismo, prepara-se uma refeição rápida, deixa-se o cuio no engradado de madeira, e deita-se a turma.
Durante toda a noite o cuio fez um incómodo barulho roendo as tábuas da caixa e esse ruído no meio do profundo silêncio do interior de África era suficiente para não deixar dormir quem tivesse o sono leve!
De manhã constatou-se que o bichinho tinha roído quase uns cinco centímetros duma das tábuas e pouco faltou para ter alcançado a liberdade. O esforço foi meritório e de qualquer modo estava decidido soltá-lo, contra a vontade do povo nativo que queria aproveitar o petisco. Resolveu-se no entanto dar uma chance ao cuio: primeiro dava-se-lhe a liberdade e só quando ele se tivesse distanciado uns cem metros podia alguém começar a correr para o pegar! Foi outra cena.
O cuio, habituado somente a sair de noite, de dia vive escondido em tocas, e por isso vê muito mal. Assim que foi solto começou a correr, sempre aos saltos, ziguezagueando, estonteado. A criançada, só ela autorizada a pegar o animal, esperava ansiosa o sinal da largada para sair atrás. Este dado, uns vinte dispararam numa tremenda algazarra para ver quem o apanhava. Acabaram por pegá-lo, e com o destino numa panela acabou este bichinho simpático.
O grande parceiro, nesta e em outras caçadas foi o Carlos Vieira da Maia.
Continuaremos a falar dele no próximo texto.