quinta-feira, 9 de maio de 2019




O Mestre

Muitos de nós já ouvimos falar de Dédalo, aquele grego, escultor, que matou um sobrinho, fugiu para o Egito e depois para Creta onde criou o famoso labirinto, de onde, quem entrasse, nunca mais conseguia encontrar a saída, e onde guardaram o Minotauro que andava a traçar as cretenses todas! Só Teseu, que era esperto, conseguiu lá entrar e sair, guiado por um fio que amarrou na entrada, e que, depois de matar o Minotauro, lhe mostrou o caminho de volta. O rei Minos, não gostava de Teseu, que namorava a sua filha, e como Dédalo os protegia, condenou este e seu filho Ícaro a ficarem abandonados dentro do labirinto, de onde não sabiam como sair.
Mas de Ícaro quase toda a gente já ouviu falar. Era filho de Dédalo. Este, hábil, decidiu que só dali poderiam sair... voando! E, com penas e cera fizeram umas grandes asas, elevaram-se no ar, e conseguiram dar o fora.
Ícaro, jovem, imprudente, maravilhado com a vista das alturas, foi sempre subindo, contra os conselhos do pai, aproximou-se do sol, a cera derreteu, ele caiu no mar e afogou-se. Dédalo foi fazendo um voo rasteiro e chegou à Sicília.
Se a lenda estiver certa, foi por volta de 1400 antes de Cristo, que aconteceu o primeiro voo e o primeiro desastre aéreo! Sem esquecer que os gregos tiveram o famoso Pégaso, cavalo alado que devia voar tão bem que ficou como símbolo da eternidade e ainda com direito a uma constelação com o seu nome.




Lendas de ensaios de voos vêm desde tempos que se perdem, com figuras de “aviadores” como o ferreiro germânico Wieland, outro ferreiro finlandês, Ilmarinen, o canadense Ayar-Katsi, o chileno Maitschanlé, em África o “piloto” ter-se-á chamado Kibango, na Índia as filhas do rei Indra Deva voavam até ao céu carregando os maridos, o persa Kai-Kaus, e possivelmente outros, em tempos que só a lenda manteve.
Na China usavam os famosos papagaios de papel para se elevarem no ar, o mesmo faziam os japoneses. Estes para espiar os inimigos e traçar a logística da batalha, que pouco mais faziam do que se guerrearem. No começo da nossa era foi Simão, o Mágico, companheiro dos apóstolos que fez um voo desastroso, e até dizem que Maomé viu o anjo Gabriel vir do céu numa mula.
Já na idade média cabe à Península Ibérica um voo. Um árabe, cordovês, Abu-al-Qasim, voou, caiu e morreu, outro árabe em Constantinopla, repetiu a dose. No século XV foi um italiano Giovanni Battista que fez um voo planado aterrou em cima duma igreja e quebrou-se todo, mas sobreviveu.
Depois aparece o génio Leonardo da Vinci, que nunca voou, mas desenhou, com a sua imensa queda para a engenharia, asas para serem usadas por homens e até projetou um princípio que mais tarde se aplicou aos helicópteros.
No século XVIII foram vários os sonhadores: Blanchard, que após vários insucessos deixou o voo mas atravessou a Mancha num balão, em 1808 Degen, em Viena, fabricou uma espécie de paraquedas com fitas de seda, o que hoje seria quase uma asa-delta, em Ulm, Alemanha, Berblinger propôs-se atravessar o Danúbio, mas caiu dentro de água, mais tarde de Groof, sapateiro belga, fabricou duas asas de 11 metros com que se esparramou no chão. Pénaud e Tatin fizeram experiências com aviões miniaturas, já com propulsão própria, e aí começam a aparecer os primeiros “sintomas” de aviões. A seguir Phillips e Otto Lilienthal, possivelmente o pai da Asa Delta, porque já soube aproveitar as correntes de ventos,  Percy e Pilcher ensaiaram planadores, para o que tinham que subir a altas colinas e de lá se lançarem pelo ar até... normalmente aterrarem em quedas graves!


       
Imagens de Otto Lilenthal em 1896

Chegou Otave Chanute que parece ter sido o primeiro com um “mais pesado do que o ar a voar 73 metros. Samuel Pierpoint Langley, em 1896 construiu um outro com o qual voou 1600 metros.
Finalmente os irmãos Wright voam, considerados os pioneiros da aviação, e por muito que isso custe aos brasileiros, três anos antes do primeiro voo de Santos Dumont, sem que isso lhe tire o mérito de ter insistido e conseguido depois voar bem mais.
Ora muito bem: de onde eu fui coligir tantos elementos que até há poucos dias me eram quase completamente desconhecidos, ou totalmente, se retirar desta história Dédalo e Ícaro, e os dois últimos?
Ao grande Mestre da CULTURA, que além disto nos deixou biografias de dezenas de personagens, como Francisco de Assis, Zola, Pasteur, Lincoln, Moisés, George Washington, Van Gogh, Piccard, Robert Owen, Benjamin Franklin, Miguel Angelo, Lamennais, Monaldo Leopardi, Leonardo da Vinci, William Pen, Gandhi, Beethoven, Ferdinand de Lesseps, Livingstone, Fridtjof Nansen, Cervantes, Dostoievsky, Anton Tchekov, Claude Bernard, Confúcio, Sócrates, Narendranath Dutt, conhecido como, Vivekananda, John Ruskin, Angel Canivet, Platão, Thomas More, Fénelon, e muitos mais pequenos-GRANDES, trabalhos de divulgação de cultura, como a Vida das Enguias, e as extraordinárias apreciações sobre Literatura Latina e Literatura Portuguesa, sobre Budismo, Islamismo, Cristianismo, Animais Pré-Históricos, Marte, A Vespa, A Raposa, e um nunca acabar de grandes lições de divulgação de cultura.
Tomei conhecimento da vida e obra deste grande MESTRE, há relativamente pouco tempo, mas não paro de me extasiar perante tamanha capacidade de conhecimentos, do seu método de nos ensinar apresentando-nos exemplos de figuras que por sua constante determinação e objetivo de vida nos deixaram exemplos de ver que, na verdade, está dentro de cada um de nós decidir até onde quer e deve ir.
Lições de vida de quem, tendo nascido pobre ou rico, decidiu seguir o que a sua consciência lhe ditava.
Nos pequenos textos sobre Literatura, Latina e Portuguesa, é de tal forma amplo o seu conhecimento que nos faz doer a alma face à nossa imensa ignorância.
A análise dos autores latinos é um desvendar constante de novas fontes, desde Lívio Andronico, a Névio, Pacúvio, Ácio, Plauto, Terêncio e tantos outros de quem eu, ignorante, jamais tinha ouvido falar, a Cícero, Lucrécio e Catulo (não o da Paixão Cearense!) e Virgílio de que li algumas coisas nas suas Geórgicas, porque ligadas à agricultura (que na altura achei um frete dos pesados!) ou a Eneida que li (traduzido, como é de supor) mais de uma vez, e tantos outros autores. Análise que tem que se ler mais do que uma, duas vezes para fingirmos que ficámos a saber alguma coisa.


A Literatura Portuguesa, começa com os Cancioneiros, e as lendas compiladas por Alexandre Herculano, compara, depois dos filhos de D. João I, os cronistas  dos séculos XV e XVI, destacando as qualidades de alguns sobre outros e os porquês, e como sempre me interessei por história muitos destes cronistas têm sido objeto de leituras minhas, jamais tendo tido capacidade de os analisar e comparar. Não pode deixar de falar em Fernão Mendes Pinto, tão maltratado durante séculos e hoje reconhecido como um aventureiro moralista, e segue por todos os grandes nomes da nossa literatura, como D. Francisco Manuel de Melo, padre António Vieira e Tomás António Gonzaga, o famoso Bocage, para chegar aos mestres do romantismo, Herculano e Garrett, ao inesgotável Camilo e ao tão admirado santo Antero, como lhe chamava Eça de Queiroz.
E são muitos os autores a serem comentados, renascendo a vontade de serem lidos, sobretudo os do grande período da expansão da literatura portuguesa que foi o século XIX.
Fala-se muito em Fernando Pessoa, descobrem-se com frequência inéditos desta grande figura das letras portuguesas, sempre aparece alguém a lembrar alguns de seus poemas, mas sem dúvida que o ajudou ter-se manifestado contra o Estado Novo, daí o ter sido exponencial a divulgação da sua obra depois da revolução encravada.
George Agostinho da Silva, professor, ensaísta, novelista, poeta, historiador, orador, investigador, tradutor, figura de primeira grandeza na história de Portugal e de todo o mundo, nunca se meteu em política, sofreu as agruras duma polícia de Estado totalmente imbecil, e parece (Deus permita que me engane) ter ficado um tanto restrito a seus alunos e a uma intelectualidade fora do alcance do povo por quem ele tanto se esforçou para levar cultura, numa altura em que o analfabetismo nos jovens e adultos era a maioria em Portugal.
Não cansa ler a sua obra. Mas tem que ser bem mastigada porque é muito profunda.



Sobre política tem uma passagem genial (como tudo que era dele!):
Começa com a marcha de Sidónio sobre Lisboa, e comenta que o marechal tinha mais corpo do que cabeça, se tão bem se tinha entendido nas lutas das Flandres... não mostrou grande vocação para governar países, no que muito o imitaram Mendes Cabeçadas, Filomeno da Câmara e Vicente de Freitas. Quando garantiram a um governo em risco de naufrágio que o melhor era chamar quem conhecesse aritmética prática (nem a racional era precisa), soubesse o que queria, e tivesse, quanto à metafísica, a certeza de que Deus existe, ele próprio, o chamava a salvar a Nação, dando-lhe por armas o desprendimento de si mesmo e o desprezo dos outros, se transportou de Santa Comba e seu minifúndio para o Terreiro do Paço.
Sensacional!
Uma frase lapidar do Mestre:
“O que impede de saber não são nem o tempo nem a inteligência, mas somente a falta de curiosidade.”

05/05/2019




sábado, 4 de maio de 2019




Benfiquista doente, sofredor pelo rádio (!), sonos agitados, eficiente e respeitado inspetor bancário, magnífico apetite, animado parceiro nos saudosos finos no Baleizão, e nas carteadas de bridge, antigo jogador internacional da equipa de vôlei de Portugal, belo e animado parceiro. Um metro e noventa de simpatia e amizade que vinha de longe.
Este, é só um primeiro retrato a la minuto, seco, não consegue mostrar quem e como era este amigo.
Como fanático de futebol, melhor dizendo, do Benfica, aos domingos era imperioso sentar-se ao lado do rádio e ouvir o relato do desafio que o seu clube enfrentava. E sofria se fosse um adversário mais valorizado. Até com os fracotes a sua atenção não desgrudava. Por fim, se vitorioso, uma Cuca bem geladinha dava o caso por encerrado.
Creio que isso lhe fazia até mal ao sistema cardiovascular!
Aquele metro noventa, secos, sem barriga, causava espanto, porque o apetite, sobretudo quando duma jantarada em casa de amigos, o que era relativamente frequente na “velha e dolente Luanda”, exibia-se sem quaisquer rodeios, e dava gosto aos restantes convivas vê-lo saborear uma magnífica bacaulhazada, quase em disputa com outro amigo de voracidade semelhante.
Ar feliz, dava gosto ouvir as suas risadas; contagiosas.
Parte integrante do grupo mais chegado que tínhamos em Luanda, não havia jantar ou fadistice em nossa casa onde ele e, evidente, a sua baixinha, faltassem.
Mas ele, e nós, nos esbaldávamos bem era numas saídas, quase religiosamente semanais, para nos encontrarmos ao fim do dia no famoso e bem antigo Baleizão (que Deus haja), ali, no Largo Infante Dom Henrique, mais conhecido pelo Largo do Baleizão, onde se bebia a melhor, ou uma das melhores cervejas a copo de Luanda. Os finos ou chopes. Juntávamos uns quantos amigos, ocupávamos uma mesa debaixo de uma das árvores, e ficávamos tomando uns e mais copos até que fossem horas de jantar. Conversávamos, normalmente ríamo-nos bastante.
As cervejarias mais frequentadas eram o Baleizão, que fazia sorvetes, picolés - desde há tanto tempo que em Angola, para a criançada um picolé era chamado de Baleizão - o Hotel Europa e a Cervejaria Suíça. Dependia de quem na ocasião estava tirando melhor a cerveja, e sobretudo quem tinha os melhores e mais variados aperitivos. O despique entre as cervejarias estava no saber tirar um fino com categoria (regulagem da pressão, temperatura, copos bem lavados e gelados, etc.) e na invenção dos aperitivos, os tira-gosto, que tinham que ser bons e muito baratos, uma vez que eram oferta da casa. Baratos e salgados ou picantes para levarem os fregueses a beberem mais e mais cerveja. E bebiam. Aperitivo tinha de tudo: dobradinha guisada, camarão sete barbas cozido, pedacinhos de pão frito, tudo com tanto jindungo que além de deixar a goela ardida, fogo que os finos logo procuravam apagar, deixava ardendo também as beiças e tudo à sua volta. Mas como eram bons! Além disto ainda havia os tradicionais tremoços, jinguba, caju torrado na hora, raspas de bacalhau cru, pedacinhos de torresmos, quifufutila às vezes com um pouco de jindungo misturada (!) e tudo o mais que a capacidade criativa dos donos dos bares fosse capaz de preparar. Quando havia alguma fome extra, o Baleizão arranjava umas sanduíches de presunto cru servido num pão ótimo e aquecido no forno, a estalar... hummm! Eram uma delícia.
Foram grandes vivências. E essas ninguém nos tira.
Aos domingos, nos primeiros tempos da nossa estadia em Luanda, havia um trecho na praia da Ilha, do lado do mar, que um grupo já mais antigo ocupava há anos, e onde tinham colocado dois postes onde amarravam uma rede, para voleibolar um pouco naquele calor. O campo, marcado no chão com o calcanhar, que logo desaparecia com os “atletas” correndo atrás da bola, muita animada discussão se tinha sido ou não ponto, e o nosso “internacional” era quem pontificava porque ser o único que sabia as regras todas. E impunha-as! Nós os leigos e inábeis jogadores o que queríamos era aquecer um pouco e depois correr e mergulhar naquelas águas magníficas. E mais: tanto jogavam um ou dois de cada lado como seis ou sete, porque estavam sempre entrando e saindo para ir mergulhar.
Quando nos conhecemos? Não sei, mas éramos solteiros ainda. De tão longe que o primeiro filho dele nasceu em Luanda, dez dias antes do nosso número três, e quem lá esteve ao lado a consolar a jovem parturiente, foi a minha sogra!
Em Angola as portas viviam quase sem fechadura. Lembro que este benfiquista, não sei já em que ocasião – devia estar a mudar de casa, e a família em Portugal – esteve algum tempo a viver lá em nossa casa, também não sei bem como, porque só filhos nossos foram até oito e espaço de sobra não havia muito. Mas, à boa moda angolana sempre havia lugar para mais um ou... dois.
Bem mais tarde, quando depois do 25/abril regressámos de Moçambique e a nossa casa estava ainda ocupada com um inquilino, fomos nós que nos albergámos na casa dele que na altura estava até vazia.
Inspetor, estimado e conceituado no mesmo banco onde eu também acabei as minhas atividades profissionais em África, vivemos nesse período uma imensa incerteza e preocupação com o futuro.
O banco em Portugal caminhava para a bancarrota e os portugas não queriam lá os retornados. Resultado, o Brasil foi quem nos acolheu.
De inspetor bancário, nível de diretoria, começou por vender sapatos. Bem sei que eram os melhores sapatos da época, com clientes certos e bons, mas certamente foi uma grande paulada, que ele enfrentou de cabeça levantada e muita classe.
Algum tempo depois a vida começou a correr-lhe melhor, mas, fumante inveterado, o tabaco não lhe perdoou, como acabou também por fazer com um irmão dele. E começam os problemas, graves, de saúde a manifestarem-se.
Volta e meia, sustos grandes na família e nos amigos, que o iam ver no hospital.
Uma das vezes, fui lá com o Zé Perestrello. Estava na UTI, cheio de tubos e complexas ligações a máquinas. Estava... bem, perfeitamente consciente, o caso grave e/ou difícil, controlado, e nós, os visitantes começámos na brincadeira com ele.
Tanta parvoada devemos ter dito que o paciente ria a gargalhada! O barulho chamou a atenção duma enfermeira que a primeira coisa que fez foi pôr-nos dali para fora.
Melhorou talvez mais depressa.
Os problemas repetiam-se. Muitas vezes fui a sua casa para lhe contar qualquer coisa que o fizesse sair do estado de abatimento que foi tomando conta dele. E insistir que largasse o maldito tabaco, coisa que, teimoso, nunca fez.
Regressou a Portugal, e um dia, cedo demais, teve o descanso que merecia.
Amigo de muitos anos, muita brincadeira e muita risada, o Fernando Fezas Vital. Saravá!


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Ainda há pouco, a propósito de livros, escrevi um pouco sobre um outro amigo, mas creio ter-me debruçado mais sobre o que ele escreveu do que sobre alguns detalhes que fomos vivendo juntos e que foram cimentando a nossa amizade.
Creio que nos conhecemos aí por 1962, em Luanda, quando o mandaram para Angola cumprir o serviço militar, já formado em direito e talvez no início da sua carreira diplomática no Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Aliás por esse tempo apareceram em Angola amigos de infância que eu não via há muitos anos, e onde foi possível recuperar antigas amizades.
A nossa casa tinha sempre a porta aberta, com um gastronómico ritual todas as quartas feiras, quando fazíamos o “almoço dos solteiros”, onde apareciam civis que tinham mandado a família à “metrópole”, e um ou mais “guerreiros” que vinham partilhar conosco, e até outros, antes desconhecidos, com quem fizemos amizade, muitos dos quais, pós 25/4 não vimos mais. 
Para esses almoços nunca sabíamos quantos vinham, Entre um e mais de meia dúzia! Alguns novos vinham pela mão de camaradas já nossos amigos. O nosso “diplomata” apareceu poucas vezes, mas também o encontrávamos em casa de colegas seus, nossos amigos de infância.
Depois de sairmos de Angola vim encontrá-lo como Consul Geral no Rio de Janeiro, e os contatos foram mais frequentes, incluindo quando ele e a querida Senhora Consulesa foram passar um fim de semana numa fazenda onde eu penei quase um ano!
Mais uns anos longe uns dos outros, uns raros e casuais encontros, até que em 1991 fui eu que passei uns dias na residência dos senhores embaixadores, em Bona. Eu que sou pouco ou nada de ir ao cinema tive uma recepção especial: a senhora Embaixatriz tinha comprado bilhetes para irmos à segunda sessão ver o “Jurassic Park”, o que, para quem já chegava cansado da viagem, ouvir o ronco descomunal do “Tirano Rex”... foi dose! O que me valeu foi ter dormido nos intervalos dos roncos!
No dia seguinte levou-me para uma recepção na Embaixada de Espanha. Eu tinha ido à Alemanha para visitar uma Feira de máquinas e não levava roupa “decente”! Abriu o guarda roupa e lá encontramos um casaco que me serviu!
Infelizmente quando esteve na Santa Sé não consegui coordenar uma ida a Roma sem que a sua casa estivesse cheia de hóspedes!
Depois de tudo isto, do correr dos anos, só me restaram os encontros que tenho promovido com os velhos amigos quando vou a Lisboa.
E aí, os abraços, pesando anos de amizade e milhares de quilômetros de saudade, mitigavam um pouco o que não pudemos viver mais perto uns dos outros.
O último em que estivemos juntos foi em 2012. Depois perdi, perdemos todos, este amigo que foi uma pessoa a todos os títulos excecional António Pinto da França.
Aqui, jovem de 30 anos, acompanhado da mulher, quando na Indonésia desempenhou uma difícil função diplomática com imensa categoria, até hoje lembrado e homenageado.


*          *          *          *          *

Não sei já onde nos conhecemos. A ideia mais antiga vem de 1946 quando moravam numa casa, em Lisboa, que ficava bem atrás da nossa, na rua seguinte, avenida Visconde Valmor.
Muitos anos depois, um quarto de século, fui encontrá-lo em Lourenço Marques, onde creio que até terá nascido. Se não ali, algures em Moçambique, onde seu pai, o famoso médico e a maior voz do fado de Coimbra, António Menano, viveu praticamente toda a sua vida profissional.
O filho era um dos mais hábeis relações públicas que conheci, uma simpatia contagiante, e uma alegria que jamais acabava.
Ao mesmo tempo um belíssimo e ótimo parceiro no golfe.
Teve um dia que ir à (ex)Rodésia, tratar dum assunto delicado, para o que necessitava de ali se encontrar com o ministro das Finanças.
Foi com tempo, para no sábado jogar o seu golfe. Só, naquela terra, no clube de golfe foi logo convidado para acompanhar dois jogadores. O correto entre golfistas é (ou era?) simplesmente se cumprimentarem dizendo somente o primeiro nome e nada de sobrenomes ou cargos.
O jogo correu muito bem, sempre um papo descontraído, e no fim um whisky no bar. Aí, perguntado ao que ia fazer na Rodésia, explicou que tinha que se encontrar com o tal ministro para... não sei o que. O parceiro, amável perguntou-lhe onde estava hospedado, disse que ia ver o que conseguia e que na manhã seguinte, segunda feira, lhe telefonava.
Segunda de manhã toca o telefone no quarto: “O senhor ministro... manda avisá-lo que o pode receber pelas 10 horas!”
Tiro na mosca. Lá vai o estrangeiro à hora combinada e quando é introduzido no gabinete de Sua Excia. dá de cara com o seu parceiro do golfe!
Missão resolvida. Rapidinho e perfeitamente.
Muitas vezes nos encontrámos em Lourenço Marques, umas vezes no golfe ou a beber uns copos algures.
Até que chegou o malfadado dia 21 de Outubro de 1974. Grande era já a confusão naquela terra. A meio da tarde passam no centro da cidade alguns jipes com soldados comandos, que desprezados e maltratados correm as ruas dando tiros para o ar.
Essa história, que eu vivi bem por dentro, conto-a em detalhe no meu livro “Contos Peregrinos a Preto e Branco”.
A população aterroriza-se. Não se sabe se é guerra entre brancos e pretos, se o que é. Os pretos fogem dizendo que os brancos os querem matar e fazem barricadas em todas as saídas da cidade.
Os que aí tentaram passar, sem que fossem moradores dessas zonas periféricas, e mesmo sendo, foram mortos. A maioria à paulada e catanada.
O meu amigo ouve aquilo na rádio e decide ir levar o seu cozinheiro a casa. Ao chegar à barricada pára atrás de outro carro, com três brancos dentro que apavorados fecham as janelas. Abrem-lhes as portas, puxam-nos para fora e derrubam os três. Mortos.
Grita para o cozinheiro:
- Abre as janelas todas. Depressa.
Ele faz o mesmo e abre a porta para sair, logo rodeado por uma turba de indivíduos carregando e ameaçando com paus e catanas. Explica que vai levar o amigo a casa, mas eles dizem que ali ninguém passa, e as ameaças aumentam.
Valeu-lhe ser um homem alto. Talvez mais de metro e noventa. Uma voz sai do meio da turba enlouquecida:
- “É o senhor Xico. Eu conheço-o bem. Deixem-no passar!”
Não deixaram. O cozinheiro que fosse a pé para casa e ele que retornasse para a cidade.
Tão nervoso e abatido ficou que ao virar a primeira esquina e sem ver mais aquela zona de massacre, encostou o carro. Não conseguia dirigi-lo.
Só nos voltámos a encontrar uma vez, em Lisboa, onde com mais uns Coca-Cola nos juntámos para jantar.
Grande abraço, lá onde estiveres, Francisco Paulo Viterbo Menano, amigo Xico Menano.



Fev.19

domingo, 28 de abril de 2019



Recordações Britânicas ou British Memories

Não se passam quarenta dias em Londres, mesmo sem fazer quase nada, sem que isso deixe de afetar a nossa “caixa de memórias”.
Desta vez a mais grata foi conhecer a bisneta, que fez um ano enquanto lá estávamos, aquela idade em que pais, avós, bisavós e outros membros da família passam horas a apreciar o seu evoluir, a graça das suas risadas, as tentativas para começar a andar e a falar, lembraram do meu avô, que face ao seu primeiro bisneto, com a família toda à volta, dizia his magesty, the baby” !
Eu já não visito museus nem beijo mãos de rainhas ou similares, não gosto de almoçar fora, muito menos em Londres onde a gastronomia... (também não gosto de falar mal!), de modo que ocupei o tempo a curtir a bisneta, a ler, a fazer de cozinheiro (Chef privé!), e logo que a temperatura máxima alcançou os miseráveis 11°C (antes não passava de 8) comecei a desenferrujar as pernas e dar umas passeatas naqueles maravilhosos parques de que Londres está cheia. Uma beleza, a grama, ou relva, sempre verde, um sossego imenso, uns quantos londoners passeando os seus cães (e apanhando os seus poops que guardavam britanicamente em saquinhos de plástico).


Um despontar da primavera que se notava já nas árvores frutíferas que embelezavam alguns parques e jardins residenciais, com florações branca, rosa e até azul, coisa que eu nunca tinha visto!


Um festival de cores e flores, com “amores-perfeitos”, tulipas e outra grande variedade de plantas, à mistura com uma imensidão de corvos e pegas, duas espécies de pombos, uns de colarinho branco (seriam da City?) e outros mais “classe média”, todos gordos e grandes, diversos outros passarinhos menores, ajudavam a alma a bendizer o clima que, mesmo por vezes gelado, geladíssimo, sempre nos retira o calor imenso com que este verão fomos bombardeados no Rio.
Depois, sempre saí de casa umas quantas vezes, andar de carro, ou bus, naquelas ruas é um show! O respeito, um trânsito imenso mas que flui com paciência, com a cabeça fresca, sem conseguir encontrar buracos nas ruas para poder dizer que afinal eles também têm buracos, ver os famosos bus que passam em ruas estreitas e nem reclamam nem batem nos carros que ali estão estacionados, os jornais, gratuitos, que todos os dias a minha filha trazia do Underground, e que eu lia de fio a pavio, tudo isto e muitas outras coisas me levavam a pensar na Cidade Maravilhosa, que só tem de maravilhas aquilo que o bom Deus aqui deixou e os homens , e mulheres, têm estragado.
Para o Brasil a Libra está cara, pois assim mesmo muita coisa por lá acabava por ser bem mais em conta do que nos supermercados populares do Rio!
Bebi bom vinho, com muito bom preço, da África do Sul, Austrália, Roménia e Grécia, além de outras origens, como Portugal, Espanha, França e etc. (continuo a dar um bom gasto nesse medicamento milagroso que sai das uvas), deliciei-me com um festival daquelas frutinhas azuis e vermelhas (tudo berries) cujo gosto, delicioso, os sommeliers de hoje gostam muito de dizer que aparece nos vinhos, mais os famosos lamb chops, grilled em casa, of course, e muitos outros petiscos que, comprados nos supermercados acabam sendo, por vezes, muito mais baratos do que neste “país tropical...”.
Peixe! Belo peixe com imensas espécies daquelas águas frias, grelhados com umas batatinhas sauté, ameijoas do Vietnam (aqui nem se sabe o que isso é!) para recordar o amigo Bulhão Pato, camarão grande por metade do preço do Rio... estas são memórias que deveriam fazer água na boca, mas devido à carestia carioca, nem isso acontece.
E o Brexit? Ah! O Brexit é uma festa. Como todos os dias vem o relato desta novela, em todos os noticiários do planeta, pouco se pode dizer sobre isso que não seja mais do que sabido.
Uma mulher arrogante e burra, e dois adversários políticos. Um comunista e preguiçoso, e outro farrista e perdido. Os ingleses que sempre foram mestres em relações internacionais, e os mestres em sense of humor, sobretudo quando dominavam metade do planeta com o seu Império fajuto, hoje estão perdidos. Discutem muito, todos os dias, berram, mas nada concluem. Parece até o Parlamento italiano como disse o ex-primeiro ministro da Itália: Tutti parlano, urla e nessuno capisce.
Os jornais já quase só trazem notícias em termos de gozação, como há dias diziam que este ano May ends before end of April. E assim vão gozando, irritando o povo, que começa a revoltar-se, mas as apostas no final de tudo não deixam de ser feitas.
Uma espécie de Ascot no Parlamento!


A fronteira entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda está a matar qualquer acordo.
Assim, os MPs, Members of Parliament, são os primeiros a fazerem chacota com o caso, e sempre a adiarem qualquer solução “viável”, que tudo indica deverá passar por novo referendum, no que o comunist labour  não está muito interessado porque diz I can’t do this! It’s too stressful!!
Entretanto, dentro da própria EU, igualmente ninguém se entende sobre este assunto. Uma beleza de governantes, por toda a parte.
Para nossa despedida o casal Gripper levou uns 3 kilos de bacalhau que a bisavó transformou num petisco de fazer chorar as lágrimas da calçada, e dias antes o hóspede Kamisch apareceu com uma bonita variedade de peixes e mariscos – lulas, camarões, ameijoas e... – que proporcionou ao bisavô exibir, uma vez mais, as suas credenciais de Chef Privé, com uma caldeirada portuguesa que se acompanhou com muito Chablis e Alvarinho.
Quem disse que em Inglaterra se come mal?
Final: naquele aeroporto de Heathrow, dá para se tirar o chapéu à organização britânica. Tudo perfeito, simples, eficiente. Passadas onze horas e pouco, os passageiros arrasados, estafados, incomodados, chegam, ao Rio de Janeiro.
Saem do avião e têm que caminhar mais de dois quilômetros dentro do Terminal 2, para ir buscar a bagagem. Um terminal imenso, quase vazio – sem referir o Terminal 1 que funcionou durante muitos anos, e razoavelmente, que agora está fechado, abandonado – para finalmente poder sair para a tristeza duma cidade que só por piada chama de maravilhosa.
Trânsito fácil porque era dia feriado (dia de São Jorge !!!), atravessa favelas, avistam-se, por todo o lado muitas favelas, muito xicoesperto a querer ultrapassar por qualquer lado e a furar a fila nas cabines de pedágio, e um aperTo na garganta e no peito nos entristece por ver o abismo entre as duas civilizações.
O Brasil, com uma superfície maior do que duas vezes a Europa toda, com ótima engenharia, magníficos arquitetos, industriais e profissionais em todos os campos, que absorvem os cabeças pensantes, parece que se limita a imitar o Haiti ou o Congo.
Quem sobra? Os penduras, os gananciosos, incapazes, ineptos, inaptos, ladrões, que acabam por se encaixar na administração pública, em todos os ramos e níveis, e o Brasil... Ah! O Brasil? Para que pensar nisso.
Há exceções. Mas não é verdade que são as exceções que confirmam a regra ?????

28/04/2018

N.- Só para chatear o esquerdismo populista: faz hoje 130 anos que nasceu António de Oliveira Salazar!



sábado, 20 de abril de 2019





Estamos, ainda na Páscoa.
Tempo de continuar a meditar sobre o que andamos a fazer neste mundo!
Não há, certamente, alguém que não abomine guerra, exceção, talvez os doentes mentais.
O texto abaixo, sobre uma das grandes figuras do nosso tempo, pode, e deve, também ser enaltecida nos dias de hoje, nesta época da Páscoa, quando os judeus festejam a saída do cativeiro do Egito, os cristãos celebram a vitória de Cristo sobre a morte e devem aprofundar os seus ensinamentos para reconhecer, e amar, todos os OUTROS como irmãos.
Ambas as atitudes pressupõem PAZ, a não-violência, o grande tema e objetivo de vida de Sua Santidade o Dalai Lama, que começa por dizer que a humanidade, em primeiro lugar deve procurar a felicidade.
Pois sejamos judeus, cristãos, budistas ou de qualquer outra religião a nossa passagem por este mundo deve orientar-se fundamentalmente pelo Amor ao Próximo, pela felicidade.
Boa Páscoa a todos. Muita PAZ. Muita FELICIDADE.

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Senhor do Lótus Branco

Há milhões ou bilhões de pessoas que buscam algum refrigério das suas vidas na religião, seja ela qual for. A sensação que nos fica é que a imensa maioria transfere para o seu etéreo Deus o problema que aflige, quando deveria começar por tentar olhar para o mais dentro de si próprio até descobrir o que realmente o perturba.
Há quem diga que o budismo não é uma religião, porque não terá um Deus criador e celestial, sendo assim só uma, muito profunda, filosofia de vida. O Dalai Lama dá-nos uma explicação bem mais simples: ... se definirmos o budismo como uma prática espiritual de orações e meditações que visa um resultado para além desta vida, nesse caso podemos dizer que o budismo é uma religião. Será uma religião, filosofia e ciência.
Mais um livro que, pelo seu imenso interesse, foi lido num instante, mas sempre com o máximo de atenção e penetração, porque dele não se pode passar sem ir ao âmago da vivência e dos terríveis problemas que assolaram, e continuam a assolar o Tibete, onde o maoísmo e seus seguidores, os de hoje, fizeram inconcebíveis atrocidades, matando mais de um milhão de tibetanos, destruindo mais de seiscentos mosteiros, torturaram, decapitaram, queimaram monges e agricultores vivos, uma barbárie inconcebível, e ainda hoje dominam aquele país na brutalidade.
Aliás a China continua a ser mais maoísta do que o próprio Mao, porque agora, para acabar com as religiões, obrigaram o Papa a autorizar o governo chinês a nomear os bispos - leia-se funcionários do Partido – assim como estão a fechar mesquitas, obrigando os muçulmanos a comer carne de porco, juntando-os em campos de concentração para lhes fazerem lavagem cerebral, um descalabro total, mas... quem se vai meter com a China: Tem que, um dia, cair de podre.
Ricardo de Saavedra, uma vez mais nos conta muita coisa sobre o Senhor do Lotus Branco, o Ser Supremo, O Dalai Lama, Kundun, Tensin Gyatso, numa escrita que nos prende, não só pelo assunto como pela cativante qualidade.
Por todo o mundo se fala no Dalai Lama, na desgraça do Tibete, ONU e outras organizações internacionais se manifestam, mas dum modo artificial porque parece que hoje todos dependem daquele gigante que não respeita nada nem ninguém.
E nós continuamos a comprar tudo que de lá vem, máquinas, brinquedos, automóveis, matérias primas, e os chins, com o seu tradicional sorriso amarelo, tal como a Rússia e os EUA, mandam, desmandam, matam à bala ou com o domínio económico e com a poluição, sem que possamos fazer alguma coisa para os impedir.


O Budismo ensina-nos o caminho da vacuidade em direção à iluminação para bem de todos os seres vivos.
(No budismo tibetano “O Caminho do Meio” diz respeito a percepção do ‘vazio’ – shunyata – que transcende os extremos da existência e da não-existência)
O Dalai Lama obrigado a fugir do Tibete, porque os chineses queriam reduzi-lo a uma espécie de prisioneiro de luxo – sem qualquer luxo – quando viram que o Senhor do Lotus Branco não aceitava a anexação do seu país à China, começaram a bombardear o mosteiro de Lhasa, por acaso não tendo acertado onde ele se encontrava.
Refugiou-se na Índia onde vive até hoje, e onde sempre admirara a filosofia de Gandhi, a ahimsa, a não violência, que adotou inteiramente.
Mais tarde confessou que a fuga me foi realmente útil. Aproximou-me mais da realidade e aprofundou a minha compreensão religiosa, sobretudo em relação à sagacidade da vida. Apesar do mundo estar em constante mutação, ninguém o nota. E, de repente, tudo desaparece. O teu lar, os teus amigos, a tua pátria. Isso mostra a perda de tempo que é mantermo-nos presos a esses valores.
O caminho da verdade é tão estreito quanto retilíneo e o mesmo acontece com a ahimsa. É como tentar equilibrar-se sobre a lâmina de uma espada. À mínima distração cai-se para o chão”.
E sempre a sua postura se baseou em difundir e “combater” pela não violência, como o único caminho que conduz à salvação da Humanidade, e foi seguindo este princípio que passou a ser admirado em todo o mundo... e odiado pelos comunistas chineses, que tanto o queriam eliminar mas são obrigados a assistir à imensa consideração de que  continua a gozar.
Como líder supremo e chefe do governo do Tibete teve que montar um governo no exílio. Só que, como desde menino sentiu, o Tibete tinha que caminhar para uma democracia, apesar de ver que a sociedade continuava amarrada a conceitos medievais e feudalistas. Valeu-lhe estar num país que caminhava para a abertura, bem como todas as dificuldades enfrentadas pelo exílio.
Renunciou a pompa e circunstâncias, introduziu a democracia como prática comum, e acabou criando um Estado aberto, mais simples e mais aberto nas suas decisões, sem jamais descurar a cultura tibetana, o ensino da língua, e pessoalmente a continuação permanente dos seus estudos, para continuar a ser um monge, com os mais altos graus académicos possíveis de atingir.
A certa altura da sua vida passou a ser um entusiasta da dieta vegetariana, enriquecida de frutos secos e muito leite. Ao fim de pouco tempo sentiu que estava a perder forças e acabou verificando que tinha contraído a hepatite B.
Curou-se com medicação tibetana, de que tomou grande quantidade. Já no exílio tinha instalado uma Faculdade de Medicina, onde a formação de um médico demora sete anos, com os conhecimentos milenares, de 2500 anos, trazidos do Tibete.
No entanto, apesar da eficácia dessa medicação o que mais lhe recomendaram foi cortar radicalmente com nozes e outros frutos secos, reduzir o exagerado consumo de leite e, apesar da relutância que sentia, comer carne. E assim se curou, deixou de ser vegetariano, sem ficar com sequelas!
Mas sempre, sem interrupção os chineses continuavam a perseguir, torturar e matar quem, ainda no Tibete, se destacasse, sobretudo como monge.
Quando, em 2001, concedeu a entrevista ao jornalista Ricardo de Saavedra que deu origem ao livro que acabamos de ler, referiu-se a sua ida a Portugal, Fátima, como peregrino, por respeito, admiração e apreço para com o catolicismo, e ainda dizendo que as principais religiões possuem basicamente a mesma mensagem: amor, compaixão, perdão, tolerância, felicidade e autodisciplina.   
Só mais uns pontos chaves para quem continua a manter a sua ética inalterada e não pactua com a pouca vergonha que se espalha cada vez mais pelo mundo como doença contagiosa, imparável, como eu procuro e, mesmo toscamente, manifesto nos meus escritos.
Sobre televisão: Na televisão privilegia-se quotidianamente o sexo e a violência. Duvido que os produtores dessas emissões desejam realmente prejudicar a sociedade. Desejam apenas um lucro financeiro. Parecem já não possuir o sentimento da responsabilidade social.
Para terminar esta difícil crónica sobre Alguém que vive uma moral e uma disciplina que a nós, mais fracos, e menos criados no rigor e por vezes no intolerável exemplo das nossas religiões, seja ela cristã ou outra, uma pequena meditação que o Dalai Lama, o Senhor do Lotus Branco, recita sempre que se levanta:
Pois enquanto houver espaço
E enquanto os seres vivos existirem
Até lá também eu posso ter esperança
De afastar a angústia do Mundo
Livro altamente recomendável.
Mais uma vez obrigado ao Ricardo de Saavedra que me proporcionou esta lição.

15/04/2019

domingo, 14 de abril de 2019




Um pouco do Pará

Esta coisa de vir a Londres, um tempinho – sempre pouco – para estar com filhos, netos e a bisneta, sem nada mais para fazer além duma ou outra rápida saída com um tempo friaco, miserável, tem proporcionado bastante folga para ler. E como só gosto de boa leitura, sobretudo história, tenho enchido o papo!
Parei até um pouco com “Os Amigos” (alguns só aguardam uma brecha para voltarem ao blog!) e, desde a história dos Plantagenetas, às lusas vergonhas do abandono de África, e até de volta ao grande professor Agostinho da Silva (de que não se faz qualquer comentário de ânimo leve; é muito sério) acabei agora de ler a primeira parte de um livro de imenso interesse sobre a Fundação de Belém do Pará.
Só a primeira parte, porque a continuação é a genealogia do Fundador, e daí, ou se entendem bem aquelas complexas ligações e/ou famílias, ou se fica perdido, sem já saber quem é a mãe ou o pai de quem quer que seja, apesar de lá (onde?) aparecer um simpático parente da minha família!
Mas o que interessa são as primeiras 120 páginas com a história do tempo em que os portugueses ainda andavam a fundar povoações, procurando ocupar o que lhes pertencia de acordo com o Tratado de Tordesilhas, a que só Portugal e Espanha dizia respeito, e sobretudo procurar demonstrar que ocupavam o território, contra franceses e holandeses que nos queriam roubar parte do Brasil, uns com a França Antártica e os outros, que pouco tempo depois se instalaram, quase definitivamente, em Pernambuco.
O Livro está muito bem documentado, vê-se que exigiu uma profunda pesquisa, e para além da descendência ali descrita, impõe-se como uma bela História de um curto, mas agitado, período da vida no Nordeste Brasileiro e um pouco no Amazonas, nos finais do século XVI e começo do XVII.


Por ele tomei conhecimento (ignorante que sou) que espalhados pelo interior da Amazónia e Maranhão já lá estavam, antes dos portugueses, umas centenas de franceses e holandeses, estes até com, pelo menos, duas plantações de cana de açúcar que mandavam para a Europa, sem que os portugueses soubessem onde e desde quando.
Todos, com a cara e a coragem de meia dúzia de portugueses, a que não podia faltar o capitão Pedro Teixeira, figura incontornável daquele tempo e região, desmontaram aquela prévia ocupação, submetendo uns e outros à coroa portuguesa.
Tempos difíceis, cheio de intrigas, invejas, mesquinhices , selvajarias, sobretudo da parte de alguns portugueses que conseguiram destruir o bom entendimento que se procurava com os nativos, num clima pesado, doentio, lutando ainda com falta de alimentos, faz-nos ser obrigados a admirar a força de vontade e determinação daqueles pioneiros.
Interessante ainda um pouco da descrição, e praticamente descoberta, da costa do Maranhão, sempre perigosa, da entrada no Amazonas com seus baixios, citando até a entrada forçada na barra do Apereá onde o patacho tocou num banco de areia de que escapou milagrosamente porque, levando todas as velas enfunadas o cortou, ou saltou como quem salta uma fogueira de S. João.... (Frei Vicente do Salvador – História do Brasil).
Quem se interessar pela História do Brasil, especificamente de Belém do Pará, ou também quiser saber se o Fundador de Belém, Francisco Caldeira de Castelo Branco é seu antepassado, vai encontrar neste livro, muita informação.
No Brasil, de uma forma geral é raro o interesse pela genealogia. Agora o que se vê é um tremendo afã na descoberta de avós ou bisavós portugueses para obterem a cidadania lusa, ou de qualquer outro país europeu, como Itália. E a verdade é que a grande maioria da população, se tem um pé na cozinha, tem outro nalgum português e numa aldeia tapuia, tupinambá ou outra. Sem esquecer os angolas, benguelas, iorubás, etc. Mas as pessoas não estão interessadas em saber, concretamente de onde veem.
O que é pena. Porque desprezando o passado...
O que sabe bem, no fim desta mistura toda é conhecer o povo brasileiro. Cordato, às vezes de mais, que descendo do fundador do Pará ou por exemplo do simples soldado Sebastião Amorim que ajudou na fundação de Belém. E certamente seria da Póvoa de Varzim!

N.- O soldado não deverá ser meu antepassado! Mas a origem será a mesma!

05/04/19



domingo, 7 de abril de 2019



Os Dias do Fim

Não referi no último texto que tinha sido presenteado por mais de um livro pelo meu amigo jornalista Ricardo de Saavedra, por uma razão muito simples: ainda só tinha recebido um!
Poucos dias passados recebi mais um, com uma dedicatória extremante simpática, e como o tema era do mesmo assunto de “O Puto” (a exemplar descolonização) interrompi a leitura de um outro autor (de imenso interessante também) e ataquei este, que relata, por meio de escritos de autores coevos, e que viveram duramente a página mais vergonhosa da História de Portugal, que foi a venda aos sovietes e à China das colónias portuguesas.
A vergonha não ficou só na matança de brancos e pretos – dezenas de milhares – até às respectivas independências, mas de milhões nos anos de guerras civis que se seguiram à liberdade colonial, como na destruição de todas as fontes de produção e renda, das infraestruturas, etc.
Começo por reproduzir uma passagem do livro, que de Os Centuriões, de Jean Larteguy, cita o padre Mornelier: Um grande número de centuriões do proconsulado de África abandonou as legiões para se instalar em Roma. Eles tornaram-se os guardas pretorianos dos Césares, até ao dia em que adquiriram o hábito de os nomear, depois de os escolherem no meio deles. E então foi o fim de Roma...
Tal como quando os catipãesinhos abandonaram a África portuguesa e passaram a desmandar e destruir um Portugal que, por teimosia e inépcia, já agonizava.


Falar no vintecincobarraquatro, hoje em dia é chover no molhado.
Mas este livro leva-nos aos meandros da covardia, das negociações escusas, ao conhecimento das ordens entretanto recebidas dos comunistas, às cenas do exército português (português ?) a metralhar portugueses, o mesmo com os terroristas (sim, terroristas) a dizimarem moçambicanos, ausência de poder de decisão de muitos oficiais portugueses que não sabiam mais se deviam apoiar e defender o povo em geral ou submeterem-se às ordens chegadas de Lisboa, enfim às intrigas, espionagem e falta de caráter, que levaram à hecatombe que a seguir de abateu sobre Moçambique.
Descreve, com detalhes, as atividades de Jorge Jardim que se quis arvorar em defensor da democracia, mas que foi sempre servindo de ingénuo anjinho no meio de hábeis e experimentados informantes sovietes. Houve até os que queriam elogiá-lo com o epíteto de O Lawrence de África, quando se constata que andou todo o tempo a dar uma no cravo e outra na ferradura, sem ter resolvido coisa alguma.
Chegou ao desplante de ter escrito até a Samora Machel “informando-o” que a China queria ser reembolsada imediatamente após a independência, dos empréstimos feitos durante a guerrilha... coisa que parece jamais ter acontecido, e por isso hoje mais manda por lá a China do que o governo moçambicano!
Aqueles que viveram em Moçambique, e ainda lá estiveram na época da s confusões pré independência, devem lembrar-se da vergonha que foi ver o exército português a meter na cadeia todos os funcionários da PIDE e saber o que estes deixaram dito quando foram soltos no famigerado, malogrado e inconsciente 7 de Setembro.
Grave ainda o que o texto deixa transparecer sobre ligações de Samora com a PIDE e da forma como assassinaram Eduardo Mondlane!
A venda de atestados escolares de passagens de ano em todos os níveis, permitindo que entrassem para as universidades verdadeiros atrasados... mentais!
Revê-se o arrogante e incapaz senhor do monóculo e o falso chefe geral das forças armadas de Portugal, protegendo amigos e condenando outros.
Este livro deixa ao mesmo tempo um amargo de boca e no coração, mas está muito bem escrito, e mesmo sendo por vezes brutal, as fontes são autênticas e escritas por quem estava no centro de grande troca de informações.
Quem viveu em Moçambique, e quer reviver um passado, mesmo triste e doloroso, como eu também vivi, deve ler este livro.
É um “relatório” de dentro, muito de dentro para fora, e daí também o seu grande interesse.
Daqui a poucos dias haverá um monte de ignorantes que irão para as ruas dar vivas aos cravos vermelhos. Era bom que antes de se meterem nessa farra se lembrem que o 25/4, covardemente, assassinou milhares de portugueses e de africanos. O 25/4, neste caso as tropas portuguesas.
Dá para celebrar?
Só uma missa solene por alma daqueles que foram mortos pelos vendilhões de Portugal.

4-abr-19