segunda-feira, 18 de março de 2019



Gente da Cuca

Na Cuca trabalhou muitos anos um sujeito fabuloso. Era o homem das Relações Públicas, a quem era impossível dizer Não.
Quando começou o terrorismo em Angola, Março de 1961, o Renato estava em viagem pelo norte de Angola, em visita a distribuidores da cerveja. Ouvia as suas queixas, se as havia, ajudava a resolver problemas de logística, mas sobretudo deixava a todos muito bem dispostos e animados com a empresa, porque sempre terminava as suas visitas com uma bela petiscada generosamente regada com as tais Cucas, e a sua contagiosa e boa disposição.
Para ele não havia problemas que não pudessem ser resolvidos, dizia a tudo que sim, mesmo que depois tivesse que voltar a trás e dizer talvez. E se os problemas não se resolviam, não era com ele que alguém se aborrecia. Nunca. Não, jamais dizia.
Mas nessa visita ao norte, de carro, dormiu uma noite em Quitexe, e como era madrugador e as estradas que ia percorrer estavam em muito mau estado, saiu ainda mal o dia estava a nascer. Almoçou em Muxaluando e nessa noite pernoitou em Zala. No dia seguinte, pelo mesmo horário, de madrugada, seguiu para o Ambriz.
Ao chegar a esta cidade o alvoroço era enorme. Tinham recebido notícias do que estava a acontecer por toda a região que acabara de atravessar. Tinha irrompido o que se chamou, e foi, o terrorismo. Momentos após a sua saída de Quitexe a povoação foi atacada e massacrada toda a população branca ou mestiça que ali vivia. À tarde aconteceu o mesmo em Muxaluando, e naquela mesma manhã em Zala.
O Renato quando ouviu isto ficou aterrado. Tinham escapado incólumes, ele e o ajudante, andando sempre só alguns minutos à frente da morte, sem terem a menor noção do horror que estava acontecendo.
Durante muito tempo não havia quem o arrancasse de Luanda. Ficou traumatizado, o que é natural, face à brutalidade desses ataques, que só tiveram como resultado um outro brutal contra ataque da parte dos brancos. Enfim.
Mas o tempo foi diluindo o choque, e o Renato voltou a ser o mesmo, sempre amável e atencioso, alegre, muito educado, prestável, bonancheirão, generoso.
Mas voltar a percorrer Angola de carro, isso não foi capaz.
Sendo eu o seu “chefe” um dia estávamos a combinar ir a Nova Lisboa. Ele seguiria de carro, com o ajudante, ótimo, que tínhamos para essas viagens, e eu iria lá ter, de avião, dois dias depois.
O Renato, transtornado vira-se para mim e diz:
- Não vou!
- Não vai??? O que se passa?
- Pode até despedir-me, mas de carro eu não vou!
 Despedir o Renato, peça chave na companhia, nem o Papa! Muito menos eu! Só depois é que entendi que tudo aquilo eram os resquícios do trauma, violentíssimo, que vivera.
Mandámos um motorista levar o carro e fomos os dois de avião.
Como responsável comercial da companhia, um dia organizei uma espécie de reuniões de formação para os promotores e o restante pessoal de vendas. Usava uns painéis com frases chave e ia discorrendo com exemplos sobre os métodos de atuação. O Renato, depois do almoço, ainda nem a meio do meu papo ia, já dormia a sono solto.
Um dos painéis tinha uma frase bombástica: “Se queres comandar a natureza tens que obedecer às suas leis. Francis Bacon”.
Renato, bom garfo e gourmet, só ouviu a palavra bacon! Abre os olhos meio estremunhado e diz:
- Ah! Bacon, eu gosto muito!
É fácil imaginar o riso que contagiou a assembleia!
Quando o levava para almoçar ou jantar conosco, sempre fazia a mesma brincadeira: sabia que a minha mulher “instruía” o cozinheiro, lendo-lhe do seu, hoje famoso, livro de cozinha, o prato que ele devia cozinhar. Lia mais ou menos de uma fornada, e o cozinheiro fazia à moda dele, mas sempre impecável.
O Renato, sempre fazia a graça de telefonar lá para casa e perguntar à minha mulher:
- O jantar hoje, é do livrinho?
Adorava receber em sua casa onde sempre se preparavam uns petiscos ótimos. Recebia com a maior lhaneza e fazia questão que todos se sentissem totalmente à vontade, aliás uma maneira de ser africana, exponenciada por ele.
O Manel Teixeira, licenciado em Direito, jovem alferes, vinte e poucos anos, acabara de chegar a Luanda para cumprir o serviço militar na guerra colonial. Nos serviços administrativos do exército, nunca andou pelo mato. Sorte dele.
Renato soube da sua chegada, que estava sozinho em Luanda, sabia que era um grande amigo meu, fez questão que o levasse para jantar em sua casa.
Uns dez convivas, mesas postas no terraço, fresquinho, onde sempre corria uma agradável brisa. Chão de cerâmica. O anfitrião incansável nas atenções para com os convidados, que se sentissem bem. Ótimo jantar, tudo muito bem arranjado com a colaboração do Pincelinho, uma simpática amiga sua, baixinha, junto de quem acabou seus dias. O Manel, fazendo cerimónia, porque ainda não estava nem familiarizado nem angolanizado. Era a primeira vez que ia a casa do Renato.
O serviço de pratos era ótimo e lindo. Moderno. Branco, com um rebordo vermelho, muito bonito. Made in USA, Pirex, inquebrável, novidade.
O Manel estranhou, quando lhe disseram que era inquebrável. Lá na terrinha não havia disso, pelo menos que ele tivesse conhecimento.
- Muito bonito. Mas é mesmo inquebrável? Pode cair ao chão e não quebra?
- Pode. É mesmo inquebrável. Pode experimentar.
O Manel, meio desconfiado, agarrou num prato para o deixar cair, curioso, mas temeroso. O Renato:
- Oh! Doutor. Experimente. Deixe cair.
Caiu. E fez-se em mil pedaços! Convidado vermelho de vergonha, e logo o anfitrião:
- Experimente outro doutor. Esse devia ter algum defeito. Tome este.
Segundo prato. Mais mil pedaços. Risada geral. O Renato encantado com a experiência.
- Pode partir mais doutor. Não faça cerimónia, nem fique preocupado.
Grande figura. E grande amigo.
Depois do 25/4, a nova diáspora. O Renato vai para o Brasil, teoricamente representava uma casa de vinhos da família Vinhas, mas não lhe dava para viver, e estava a ficar velhote.
Voltou para Lisboa, com a sua simpática companheira, que ele tratava por Pincelinho, uma excelente pessoa, mas a saúde começava a dar sinais ruins.
Já na faixa dos 70, vão os dois na rua, em Lisboa, cruzam-se com uma senhora, que os pára, reconhece o Renato e cai-lhe nos braços! Não se viam talvez há meio século, mas ela não tinha esquecido o seu amor da adolescência.
Estava viúva, sem filhos e o marido tinha-lhe deixado muito folgadas finanças.
Sabendo da situação difícil do “amor juvenil” logo ali o “intimou” para que fosse viver em casa dela. Ele e a companheira. Tinha uma casa grande, automóvel e motorista, e não havia qualquer intenção de compartilhar o namoro perdido, mas não esquecido.
Lá foram.
Não tardou a que Renato piorasse e tivesse que ser internado. Numa das melhores clínicas de Lisboa, tudo por conta do antigo amor!
Mas estava já muito mal. Ainda o fui visitar. A cabeça baralhada. Reconheceu-me bem mas logo me associou a Luanda e perguntou-me se estava hospedado no Hotel Universo que é em Luanda.
Saí chocado da clínica. Regressei ao Brasil uns dias depois e entretanto o meu muito querido amigo, Renato Lima,  a quem os nossos filhos chamavam de Tio Relato, finalmente, descansou. Na foto ele teria uns 40 e pouco.

*             *             *              *             *
Outro amigo que o tempo mais não fez do que consolidar uma amizade muito franca. Foi ele que me entrevistou, em 1957, Lisboa, para a possibilidade de preencher uma vaga de técnico na Cuca em Angola.  Era o secretário da administração, em Portugal. Gordo, simpático, grandão, irradiava simpatia. Eu não o conhecia, e só tinha algum contato, muito esporádico, com um seu irmão, amigo duma irmã minha.
E lá voltei eu para Angola.
Em 1961 a Companhia me mandou fazer uma série de estágios e visitas de estudo pela Europa, era com ele que me entendia, em finanças, destinos, etc. Os patrões eram muito “patrões”! Não sei já como me fazia chegar o dinheiro lá ao estrangeiro, mas sempre fazia questão de dizer que não esquecera de mandar o meu salário a casa dos sogros, onde tinham ficado os primeiros quatro dos nossos filhos. Não se preocupe com as crianças. O dinheiro vai lá ter certinho!
Quando em 1963 surge e violentamente se espalha um boato caluniando o administrador da Cuca, Manuel Vinhas, dizendo que ela andava a dar dinheiros aos terroristas, dentro da companhia fui eu o único que não acreditei em semelhante estupidez, como iniciei uma tremenda luta contra isso.
Mas a verdade é que teve nefasta influência nas nossas vendas e eu era o responsável. O administrador local, Dr. Francisco Maia de Loureiro, aconselhou-me a escrever um relatório detalhado para a patrãozada em Lisboa, e ele mesmo escreveu a dizer que o sr. Amorim está a preparar um relatório...
O tal senhor Vinhas não gostou que alguém lhe apontasse o dedo e ficou bravo.
Uns dias depois recebo um telefonema de Lisboa. Do já meu amigo secretário da administração. Conversa tipo telegráfica, porque em questões de política nunca se sabe quem e o que estão escutando, e disse-me só:
- Estão todos bem aí em casa?
- Tudo perfeito.
- Não mande o relatório.
Não entendi e perguntei:
- Qual relatório?
- O que o dr. Maia Loureiro anunciou.
- Porque?
- Sabe que eu sou seu amigo, não sou? Então esqueça o relatório, e adeus.
Desligou!
Fiquei sem entender o que se estava a passar, tinha o tal relatório alinhavado, guardei numa gaveta e... não disse nada.
O boato foi de tal maneira que o “patrão” estava até proibido de sair de Portugal.
Um ano depois tive que ir a Lisboa, em serviço, contei ao meu sogro, juiz, o que se estava passando e, sobretudo que nada tinha acontecido e que a PIDE, como de costume, sem qualquer prova, mantinha o caso aberto.
Na ocasião o Chefe de Gabinete do Ministro do Interior tinha trabalhado como Delegado com o meu sogro, que decide telefonar-lhe e pedir uns minutos para expor-lhe um problema.
Lá fomos os dois. Expliquei bem a situação, o senhor não sabia de nada, mas disse que ia mandar buscar o processo e falar com o ministro. Depois do almoço telefonaria.
Assim foi. Disse que eu lá fosse ter com ele que me entregaria uma carta, dirigida ao “suspeito” assinada pelo ministro, informando que o processo acabara, tinha sido arquivado.
O meu amigo, secretário da companhia sempre fora, e continuou a ser muito amigo do “patrão visado”. Quando lhe telefonei a dizer que o problema estava resolvido, não acreditou.
Encontrámo-nos ao fim da tarde, entreguei-lhe a carta e as lágrimas apareceram-lhe nos olhos. O tal “patrão” ... nem uma palavra. Podia ter mandado um cartão de visita a agradecer, mas... dois anos depois foi grosso comigo, eu respondi-lhe e mandei-me! Não gosto de desaforo de rico.
A amizade com o “secretário” logo passado a administrador, essa ficou, firme e forte, mesmo quando o oceano nos separou. Vivíamos no Brasil, mas todas as vezes que ia a Portugal um almoço com ele era prato obrigatório.
Em 80 o nosso filho Luis lembrou-se de ir para Portugal atrás duma... e casar. Não valeu conselho de velho, foi e casou, mesmo que o casório não tenha durado mais que alguns meses.
Festa do casório em Oliveira de Azeméis. A nossa família contratou um ônibus e lá foram os convidados, numa farra que jamais alguém havia visto algo parecido, o que se ficou a dever à nossa sobrinha Zeza, que animou a excursão de tal modo que as pessoas foram e voltaram a rir!
No regresso a Lisboa, o querido amigo João Matos Chaves vira-se para mim e diz-me:
- Oh! Chico! Tem que casar todos os filhos aqui em Portugal. Um casamento como este nunca aconteceu antes.


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Dando este passeio pela Cuca, há pelo menos mais um colega de quem volta e meia me lembro.
Sobre ele escrevi um pouco no meu livro, de 1998, no capítulo “ESTÁ  FRESQUINHA”.
 Cuca foi a primeira fábrica de cervejas a instalar-se em Angola, em 1956, e até ao fim do tempo colonial manteve a liderança do mercado, apesar da concorrência de mais quatro que entretanto foram nascendo.
Foi seu cervejeiro, chefe dos serviços de fabricação durante muitos anos, um açoreano, filho de cervejeiro, homem calado, teimoso e simples, ótimo profissional, cioso do seu trabalho.
Sempre tinha vivido ligado à cerveja, a quem dedicava todo o seu saber e experiência.
Para se manter inalterada a qualidade e tipo de cerveja, a sua fabricação obriga a uma série de cuidados que vão desde a eleição das matérias primas, os diversos tipos de cevada ou malte e lúpulo são previamente submetidas a análises rigorosas.
Até os cuidados com a água são de importância capital. A matéria prima mais importante na cerveja é, sem dúvida, a água. Esta era toda lavada e depois acrescentada com os sais que o laboratório indicava diariamente, após feitas também as convenientes análises.
Depois, durante o processo de fabricação, de que se faziam por dia quatro ou cinco caldeiradas de milhares de litros cada uma, era necessário misturar essas caldeiradas umas com as outras. A este mosto que segue para tanques de fermentação é adicionada a levedura, ou fermento, que começa imediatamente a transformar o mosto em cerveja. O tempo de fermentação varia com o tipo de cerveja a fabricar, e finda a fermentação principal a cerveja entra em tanques de fermentação secundária ou amadurecimento. À saída da fermentação primária misturam-se vários tanques e finalmente dos tanques de amadurecimento final, se faz outra mescla para que a qualidade do produto a engarrafar e seguir para o mercado, se apresente de tal forma homogêneo que não possa sujeitar-se a oscilações.
A fermentação faz-se com levedura que, como qualquer ser vivo, apesar de todos estes cuidados, sempre encontra possibilidade de manifestar a sua personalidade individualista. Assim aparecem de vez em quando uns tanques em que a cerveja, por razões mais ou menos desconhecidas sai diferente. A sua cuidada mistura com outros tanques acaba por disseminar essa diferença sem alterar a qualidade final.
Quando num desses tanques aparecia alguma coisa de muito especial, o nosso cervejeiro, sentia um prazer maior, e gostava de o compartilhar com os colegas, o que era natural.
A um por um mandava recado para irem à sua sala, evocando qualquer pretexto de trabalho, e sem alardes mandava à adega buscar dois copos daquela cerveja. Ninguém suspeitava, porque mesmo que nada de especial estivesse acontecendo, sempre que alguém ia falar com ele, era de praxe oferecer-lhe um copo de cerveja tirada diretamente da adega. Mas naqueles dias a intenção era outra.
Depois do colega beber o primeiro gole, com ar aparentando total despreocupação, perguntava:
- Que tal está essa cerveja?
Quase sempre a resposta era a mesma, estava muito boa, sem dúvida. Aliás beber cerveja saída diretamente dos tanques da adega, apesar de apresentar turvação própria da levedura ainda em suspensão, que é depois retirada durante a filtragem, era sempre uma delícia. Muito leve.
Dessa vez porém a cerveja estava bem para lá do simples muito boa.
- Aahh! Mas isto está uma maravilha! Que cerveja é esta? Alguma novidade na manga?
Era o que o pai da criança queria e gostava de ouvir. Ficava todo feliz! Eram pequenas coroas de glória que sem prejudicar alguém lhe davam enorme satisfação. Dessa vez a cerveja estava muito especial.
Teciam-se depois alguns comentários sobre a excepção daquele tanque, que tal como acontece nas adegas de vinho, em que se fazem milhares e milhares de litros, no meio de tudo aquilo há sempre uns quantos barris que se sobressaem. No vinho ainda dá para fazer seleções, engarrafando o especial com rótulo e preço de eleição, porque há sempre quem compre o que é superior, quando não é o próprio produtor que o guarda para si. Na cerveja não se pode variar a qualidade, mesmo que por acidente ela se apresente melhor. Nem engarrafar em separado para os amigos, porque quanto menos tempo de engarrafada, melhor é para se beber. O destino destas pequenas maravilhas é acabarem diluídas no meio de tantas outras, a fim de se manter a qualidade estabilizada. Nada mais do que isto.
Entre os colegas havia um responsável pela manutenção do equipamento da fábrica, engenheiro de máquinas, o Sampaio, a quem chamávamos de Xampaio por ser lá de xima, das Beiras de Portugal, onde em algumas regiões se fala ainda com sotaque galáico português (que me perdoem os linguistas se estiver dizendo algum disparate). Baixinho, forreta, mão de vaca, sem qualquer sentido de humor, mas competente na sua área.
Foi também chamado a pretexto de discutirem algum detalhe técnico-mecânico, assim que à sua sala já lhe estava passando às mãos um copo da tal maravilha. O Xampaio, bebeu um gole e nada. Segundo. Terceiro. O copo todo.
- Então, que tal acha essa cerveja?
- Está fresquinha. Está muito fresquinha!
Imaginem a cara do cervejeiro. À espera de mais um elogio, limitou-se a ouvir que estava fresquinha. Talvez porque a responsabilidade da manutenção do equipamento de frio fosse dele, do tal Xampaio! O Cabral deve ter tido vontade de estrangular aquele provador para quem um copo de cerveja, vinho ou vinagre teria sido a mesma coisa, desde que estivesse fresquinho!
O cervejeiro, que eu muito considerava como colega e amigo era o Ricardo Cabral.
Foto dum jantar com os “patrões”:
1.- Miguel Monteiro – Presidente do Conselho de Administração
2.- António Fonseca – Presidente de... ?
3.- Leonor Aragão – Secretária do Diretor
4.- Alfredo Duarte Figueiredo – Diretor da Fábrica de Nova Lisboa
5.- João Matos Chaves – Secretário da Administração em Lisboa
6.- Eu
7.- Ricardo Cabral – Mestre Cervejeiro
8.- Renato Lima – Relações Públicas
9.- José “Xampaio” – Engenheiro de Manutenção


Fev.19


sábado, 9 de março de 2019




ESBOÇO  DE  ALGUÉM

“Aqueles que por obras valerosas,
Se vão da lei da morte libertando!”

Quando no final do século XVI, Yermak Timofievitch entregou ao Duque de Moscovo, Ivan Vasilieivitch, o famigerado Ivan o Terrível, toda a Sibéria que havia finalmente conquistado e submetido por seu esforço e mérito, a alguns dos seus mais diretos colaboradores foram concedidas mercês e regalias como prova de agradecimento do primeiro governante russo que se intitulou o Grande Tsar das Rússias.
Entre essas mercês estava o direito ao uso, para si e seus descendentes, do patronal vitch, que significa filho de. Assim foram nobilitados alguns homens que ajudaram a engrandecer a Rússia, e seus filhos passaram a poder acrescentar ao seu nome próprio o nome de seu pai. Não eram mais simples comerciantes ou guerreiros, mas membros da nobreza.
Nos primórdios da nação portuguesa as gentes dividiam-se por bem definidas camadas sociais, tendo no topo os ricos homens, os grandes senhores de terras, de castelos e de gente, que ocupavam os principais cargos públicos, e assim detinham o poder e a autoridade, e a seguir os infanções, os nascidos e criados entre os mais poderosos senhores. Só estes pertenciam à nobreza, classe fechada, quando não endogâmica, que mais tarde começou a ser representada por outros membros, a que talvez se pudesse chamar nobreza de 2ª, como os cavaleiros.
Talvez com o receio de permitir que um qualquer penetrasse nesse meio de nobres, estes juntaram à sua classe mais uma designação: filhos de algo. A nobreza mais antiga, que vinha de pais para filhos, tinha que se distinguir dos que entravam nessa classe pela porta do serviço. Por muito que se tivessem destacado e merecessem o reconhecimento real, não tinham ancestrais, pais ou avoengos nobilitados que lhes permitissem ser filhos de algo, de alguém.
A esses um dia os reis tiveram que se agarrar para conter a força imensa dos grandes senhores, que com seu poderio económico, estratégico e até de gente que podiam recrutar para batalhas, desafiavam e ameaçavam o poder central.
No entanto os filhos de algo, os fidalgos, meta que todos almejavam atingir, de modo mais submisso ou arrogante, sempre dominaram as cortes.
Na verdade nobreza é algo que não está no sangue, nos livros de linhagens, nos brasões, nem nos avós, mas no comportamento e sentimentos. Onde está a nobreza de alguns membros da família real inglesa que só dá escândalos sujos? E das meninas de Mônaco? Que respeito merecem?
Nobreza está no caráter. De muita gente simples se ouve dizer que tem uma grande nobreza de alma, de caráter. São simples por não terem antepassados importantes, e são grandes porque assim são as almas simples.
Almeida Garrett, em atenção à sua grande obra artística e política foi nobilitado com o título de visconde e Par do Reino. Um dia, em que por doença não pôde comparecer ao Parlamento, foi alvo de uma crítica desagradável feita por um membro da velha fidalguia, que por sarcasmo insinuou a sua recém entrada na nobreza. Na sessão seguinte, Garrett, começou a sua réplica: - A nobreza que em mim começa talvez termine em Vossa Excelência! Eu fui nobilitado por meus serviços ao país, enquanto Vossa Excelência simplesmente nasceu assim.
Esta introdução não pretende ser uma incursão na história, mas uma muito singela homenagem a Alguém, porque parece no fim de tudo isto, o que vale é ser-se alguém. É bem verdade porque o que todos querem é ser alguém na vida.
Neste caso o Alguém, que de acordo com o dicionário significa pessoa de relevo, foi além disto.
Não só pela sua obra artística, de que se evidenciam a pintura, o desenho, a poesia, os profundos conhecimentos etnográficos, os científicos. O maior destaque da sua vida foi a sua personalidade. Foi ele todo.
Alegre, brincalhão, divertido, a sua companhia não dava lugar a tristezas. Ao seu lado tanto se aprendia sobre Angola e seus costumes.
Conhecia-o, bem, de nome, mas pessoalmente só depois de 1962 ou 3. Morávamos na mesma rua.
Angola que foi a maior paixão da sua vida. Percorreu-a de lés a lés, conviveu com suas gentes, e desde menino a sua máquina fotográfica foi o lápis e o papel. Retratava com mais realismo o seu desenho do que qualquer fotografia ótica.
Ele via e fixava os detalhes das gentes, seus requebros, sorrisos e tristezas, sombras e cores, trajes e adornos, suas conversas mudas que se ouvem nas expressões dos rostos, suas danças e costumes, suas vidas.
Os animais e seus habitats, as plantas, a mata, as casas, os céus, o cacimbo das manhãs, a névoa úmida das regiões de café, as nesgas de sol atravessando de mansinho as copas das árvores no Maiombe, nada lhe escapava, nem do traço nem da mente, continuando por muitos anos a reproduzir com fidelidade inigualável a cor de cada céu, de cada região que tão intensamente percorreu e viveu.
Não necessitava cantar em poesia aquilo que os seus pincéis reproduziam, como o Tocador de Quissange, onde a cor, a posição e a expressão do músico parecem por si próprios transmitir a dolência do instrumento. Observado com cuidado pode até escutar-se a sua música.
Dos Quintalões de Benguela que não mostram mais do que um muro, uma porta e uma árvore lá dentro, emana toda a dengosidade daquela cidade mulata, e ao fim de poucos momentos consegue-se até sentir a brisa que sopra, constante, da Praia Morena.
Quem atravessou as plantações de café do Uige, de manhã cedo, toda a área escondida na neblina a manter a umidade necessária para que Angola fosse o terceiro produtor mundial desse frutinho que faz uma bebida deliciosa, e vê uma pintura dessa região, sente os pés a derraparem em cima daqueles caminhos de barro escorregadio. E se o café estiver em flor fica inebriado. Os olhos presos naquele ambiente de sonho, sente nos ossos a umidade, e o cheiro a sair da tela, vivo, profundo, até entontecer.
A seguir um Imbondeiro, triste, grotesco, enorme, sem folhas, seu aspeto mais comum, passando a seu lado uma mulher com uma bilha de água na cabeça. Quem não sente o calor sufocante daquela região? Quem não se extasia perante aquela grandeza pobre, mas altiva, imponente?
Depois o Maiombe. Aqueles verdes!... Da tela sai a pujança do equador que nos faz sentirmo-nos menores do que os pigmeus, que estão por perto. O calor invade-nos, começa-se a suar e a louvar a Deus pela imponência daquelas obras da Criação. As duas, a de Deus e a da tela.
Esfumadas noutra neblina da madrugada, vem-se agora, perto mas ao longe, algumas gazelas esguias, elegantes, descontraídas, a pastarem. É um crime atirar em animais tão bonitos, mas... qual foi o caçador que resistiu?
Num Mercado no Luena qualquer um pode discutir preços e comprar panos, peixe seco, jinguba, sentir vertigens à beira da Fenda da Tunda Vala, encolher-se para atravessar a Floresta nos Dembos, ou refrescar-se debaixo das águas das Quedas do Duque.
Encanta-se com uma doce e altiva Bessangana de Luto, seu coração altera o compasso ao ver uma Moça de Massabi, Cabinda, ou da Gabela, acelera ainda mais a pulsação ao desejar aberta ou intimamente uma das Mulatas de Luanda e a reverenciar-se perante a beleza dum penteado Muíla.
Quem não sacode a anca ao ver a Marrabenta de Moçambique, ou a Rebita de Benguela e não dá uma umbigada com a Massemba de Luanda? Naqueles requebros vêm-se e ouvem-se os ritmos da dança.
Os desenhos, as aquarelas, as telas sucedem-se e de repente entramos pela Bahia do Salvador de Todos os Santos. Mesmo quem nunca foi à Bahia, a um candomblé, e pára em frente duma destas telas, começa a sentir o cheiro do caruru e o sotaque carinhoso e quente dos nossos irmãos do Brasil.
E muito mais do que só isto.
As suas poesias têm que ser lidas. Só lidas. Comentar poesias só por descaramento ou presunção se pode fazer, sobretudo quando elas tocam fundo na alma de quem viveu Angola. E é difícil encontrar quem tenha vivido em Angola, que não tenha vivido Angola.
Ler os seus poemas - Macuta e Meia de Nada - que escreveu pré e pós 1975, data em tivemos todos que sair de Angola, retrata bem o que isto significa. É impossível, ainda hoje, e sempre, ficar insensível a tão triste mágoa.
Este pequeno esboço de Alguém é uma muito simples, talvez até mesmo atrevida, maneira de recordar um Amigo. Um Amigo que teve muitos amigos e em cada um destes um grande admirador.
Se a sua obra foi mais do que suficiente para o distinguir e fazer dele Alguém, a sua personalidade sempre ultrapassou a obra. Sem aquela não teria existido esta!
Brincalhão, alegre, uma das graças que gostava de fazer era desenhar a sua caricatura em pratos ou copos e oferecê-los aos amigos. Mas os pratos e os copos não eram dele! Eram dos bares, dos restaurantes, das boates, que se orgulhavam da sua presença, mesmo conscientes do prejuízo que tal brincadeira lhes acarretava!
Em Luanda no Hotel Universo, do Trigo, um galego forreta, como todos, mas simpático, havia uma boate, que durante muito tempo foi o lugar da capital de Angola mais agradável para se passar parte da noite.
A boate era feia, não tinha decoração, e um dia o Trigo propôs-lhe a medo:
- Se você me fizesse uns painéis para aqui...  Mas custam muito caro, com certeza, e não vou poder pagar muito por isso.
- Eu faço. Não se preocupe. Você vai pagando em bebida, que eu venho aqui beber.
Dito e feito. A boate ficou com uns painéis sensacionais, linda.


Só mais tarde, quando a mulher lhe perguntou porque fez o trabalho de graça é que ele explicou:
- Quando fiz a minha primeira exposição para angariar algum dinheiro, o Trigo comprou-me uma grande quantidade de aquarelas que foi o que me permitiu ir estudar para Portugal. Agora é altura de retribuir.
Trigo nunca soube a razão deste gesto. E lá foi servindo as bebidas que ele, com garbo e sempre bastante sede ia bebendo, não só enquanto foi pintando, como depois nas muitas vezes que ali ia.
Um dia descobriu que lá num canto da boate havia um pequeno móvel onde os criados guardavam os pratos. Foi ao lado desse móvel que escolheu a sua mesa habitual: tinha sempre à mão quantidade suficiente de pratos para ir desenhando a sua caricatura e oferecer aos amigos!
O senhor Oppenheimer, senhor porque arquimilionário, dono de algumas das mais importantes minas de diamantes na África do Sul, e de um dos maiores comércios de pedras preciosas em todo o mundo, foi um dia a Angola, e lá tomou conhecimento do grande mestre pintor.
Foi a sua casa, montado em cima dos milhões que todo o mundo reverenciava. Todo o mundo não!
Depois de ver dois ou três quadros, o último dos quais o busto espetacular duma mulata, fez um comentário racista, apartheidiano sobre o fato do pintor se dedicar sobretudo aos africanos.
Este senta-se, tranquilo, acende o seu cachimbo, e fica sorrindo para sua excelência.
- Então, não tem mais quadros?
- Não. Só os que lhe mostrei, e estes mesmo estão já vendidos.
- Mas o senhor tem uma grande quantidade deles ali atrás.
- Tenho, mas uns não estão terminados e os outros foram encomendados. Não são meus.
Continuava sentado impávido, perna traçada, sorrindo e puxando fumaça do cachimbo.
- Mas como é possível? Tantos quadros aqui e o senhor diz que não nem um para vender?
- É isso.
O milionário saiu porta fora puto da vida. Foi-se queixar ao Governo Geral. Daqui lhe telefonam como que a pedir explicações para o caso!
- De quem são os quadros? Quem os pintou? Quem pagou as telas e as tintas? Quem me deu algum subsídio para pintar? São todos meus, e eu faço o que bem me apetece com eles.
Fim de papo.
Passado algum tempo expôs em Windhoek, capital do Sudoeste Africano, hoje Namíbia. A exposição foi mais um sucesso. Um ou dois meses mais tarde outro sul africano se apresenta em sua casa.
Tinha sabido da exposição em Windhoek, que infelizmente não tinha podido ver e pedia-lhe muito que lhe mostrasse algumas obras.
Viu, muitas, e comprou uma meia dúzia de quadros, que levou com ele.
Mais algum tempo depois veio a saber-se que fora a tal excelência quem mandara um emissário comprar os quadros, mas proibido de mencionar onde quer que estivesse o nome Oppenheimer!
O nosso artista ficou furioso, mas...
Já exilado em Salvador, na Bahia, onde viveu os primeiros tempos muito entristecido com a desgraça das terras que tanto amou e com a ingratidão dos seus governantes.
Ainda passei por sua casa, talvez em 1980, quando fui a Maceió. Fiquei lá dois dias, com a simpatia da Luiza e a maestria e simpatia do Mestre, muito amigo, desde os tempos em que, em Luanda eu ia visitá-lo em casa, para gozar uma excelente companhia, o ver trabalhar, ouvir uma boa música clássica e beber um copo com ele.
Quando regressei a casa escrevi-lhe uma carta a agradecer a hospitalidade.
A resposta que me mandou é uma delícia:

Um dia disse à mulher:
- Estou com falta de verde.
- Compra.
- O verdadeiro.
Foi para a Amazônia. Talvez uns quinze dias.
Três semanas depois a mulher telefona para o hotel onde supunha poder encontrá-lo, e nada! Pôs em campo a telefonista das informações de Manaus, que à boa e tradicional moda brasileira se prontificou em pesquisar por sua conta em todos os hotéis da cidade.
Uma hora depois liga de volta e diz que a última notícia dele é que tinha estado no hotel X.
A mulher liga para lá e informam-na:
- Esteve aqui sim, mas saiu há uns oito dias. Deixou a mala com a roupa, que pegaria quando regressasse.
- Para onde ele foi?
- Foi com uma turma que ia cortar madeira lá para o interior, para uns igarapés.
Estava localizado, mas só de lá voltou, com a graça de Deus e muito verde, quase um mês depois!
Este ALGUÉM chamou-se Albano Neves e Sousa, e a melhor maneira de fechar este pequeno abraço de muita saudade é com um traço dele mesmo, que me deu no Estoril quando da sua exposição no Casino em 1994. Já tinha sido operado ao coração, como tão bem retrata o coração todo amarrado e o cachimbo com uma cruz a riscá-lo!


12 fev. 19

domingo, 3 de março de 2019


KÔNGO

Uma nova e aprofundada visão do Reino do Kôngo

Há uns dias, em boa hora, caiu na minha caixa de e-mails um livro, em PDF, trabalho de investigação de um doutorado de Angola, que me deixou curioso.
Não li o livro todo com o cuidado que parece merecer, mas numa leitura rápida, fiquei preso pelo interesse que desperta um trabalho sério, muito bem apresentado, com algumas lições de filosofia política, que abaixo reproduzo, para o que peço ao autor que me perdoe o abuso, apesar de referir o seu nome.
Muito bem escrito, uma ou outra rara gralha gráfica sem a menor importância, e o desenvolvimento de uma tese extremamente interessante.
O livro, O REINO DO KÔNGO E SUAS ORIGENS MERIDIONAIS, de Patrício Batsikama, merece ser lido por todos aqueles que se interessam pela história de Angola, de África.
O autor desenvolve, pela primeira vez, o conceito do espaço ocupado pelo antigo, antigo talvez de mil ou milhares de anos, Reino do Kôngo, que “nasceria” lá bem no sul Sul (Mbâmba), possivelmente ainda um pouco para além do Cunene, estendendo-se para Norte (Nsûndi) até ao Gabão.
Para chegar a estas conclusões fez interessantíssimos e profundos estudos linguísticos e etnográficos, que só lendo o livro se podem começar a compreender.
Há autores que não concordam com esta visão de Patrício Batsikama, mas o que se lhe não pode negar é a qualidade, a profundidade e a seriedade do muito interessante trabalho.

Vou deixar qualquer outra – hipotética – crítica sobre o livro para mais tarde, mas agora, como digo atrás, vou reproduzir os conceitos que se poderiam chamar de uma “Constituição” do Reino do Kôngo, a sua “lei sagrada” (bungânga), pela sua profundidade, humanidade e magnífica visão social.
Os países chamados desenvolvidos, há muito que perderam a pureza que os chamados povos primitivos faziam questão de honra em conservar.
Estes conceitos são uma tremenda lição de ética para aqueles que se têm apoderado, e continuam a fazê-lo, em quase todo o mundo, do mando, do poder, da riqueza.
Abençoados povos ditos primitivos, porque são milhões de anos avançados do que os “evoluídos”. Parece que a espécie humana, entre todo o reino animal, é única que regride, em vez de progredir. Talvez hoje coma melhor, mas rouba muito melhor, mente que é um horror, engana os mais incautos e então para matar... fá-lo com uma eficiência incrível, igual à mesma indiferença.
Mas vamos aos conceitos. Diz o autor:
A determinação destes princípios decorrem de estudos que conduzimos sobre as relações sociais (antropologia dos costumes) e as posturas comportamentais típicas do Kongo, geralmente encerradas nos enunciados “filosóficos” dos provérbios, adágios e contos que permeiam a cultura Kongo. Assim, o acesso a tais instrumentos do pensamento tradicional será aqui feito por meio de recurso à língua Kongo.

a)- Integridade e indivisibilidade do território: «Kôngo tadi: ka bâsu’embasinga» - O Kôngo é uma pedra impossível de dividir em partes.
b)- Emigração e/ou ocupação do reino: «Nsûndi tufila ñtu, Mbâmba tulambûdila mâlu» - Enquanto as nossas cabeças são sempre dirigidas ao Norte (Nsûndi), os nossos pés são direcionados para o Sul (Mbâmba). 1
c)- Respeito da personalidade humana: «Mbwa ñzîngi, nkulu ñzîngi, kimfwetete katânu’eñkânda; muntu, mfumu ka wându’embata, ngo ka bañkatul’eñkânda» - Assim como não é permitido pisar a pequena formiga, também é proibido atentar contra a vida de um servo, até mesmo a de um cão. Assim como não se pode abater um leopardo, rei da selva, não se pode maltratar (bater) um ser humano, que é o rei do seu meio.
d)- Paz e tranquilidade no reino: «Ku Lûmbu ke kwakota ngulu ye mbwa. Twavwikwa luwusu kwa yân’ampûluka, twalungwa muna makânda ma nkosi ye ngo» - Ao Palácio (país) não tenha acesso nem porco nem cão (inimigo). É quando estamos sempre cobertos de bênçãos que progredimos no entendimento, na união e na concórdia.
e)- Cidadania: «Wakôndwa mvila mu Kôngo, ñwâyi wa ntuma nkuni ye maza» - Aquele que não pertence a uma de suas três linhagens é escravo no Kongo, eternamente destinado a recolha de lenha e água.
f)- Nacionalidade: «Mpêmbele ndîng’andi luzômbo, kansi mpângi’aku muna mazimi ye mvila» - Mesmo sendo o Mpêmbele originário de Zombo, por sua linhagem sanguinea é seu irmão (compatriota).
g)- União: «Tusânga bungudi vwa kwa ntalu. Tu akimpalakani, lumbota-mbota mu ñlâmbu’a maza: ana fwâmbika, ana veteka; efûmbwa kana mfûmbilu, evetekwa kwa mpândi ye ñlôngo» - A união é um precioso tesouro; assim como os «lumbota-mbota» entrelaçados à beira de um rio, as correntes podem envergar-nos mas jamais serão capazes de nos desunir. 2
h)- Equidade das leis: «Nsi ya lukându, i nsi ya lubîndu; kakânda, bîndwidi; kabînda, kândwidi» - No mesmo país em que a lei é severa, há também tolerância.
i)- Igualdade dos cidadãos perante a Lei: «Mfumu ye mfumu: Ngânga ye ngânga» – Todos somos mestres, todos somos senhores. 3  
j)- Direito de contestar (direito da oposição): «Bana batêle, bana basekole», literalmente: onde há os que dizem, deve haver os que contradizem. 4
k)- Respeito aos estrangeiros: «Nzênza ka vângu’enkuta» - é proibido intimidar ao estrangeiro, e «Tukund’enzênza, ke tukayilwa kwa nzênza ko» recebamos os estrangeiros com hospitalidade e reverência, mas recebamos nada deles.
l)- Autoridade competente: «Kôngo dya ñkôngo’a ngolo; vo kuna ye ngolo ko, Kôngo k’atuma dyo ko» - o governo do Kôngo pertence ao Mu-Kôngo mais capaz; Sem as capacidades necessárias, é inutil pretender dirigir o Kôngo... Isto porque mu mpu mu zîngilânga nsi, isto é, a vida do país depende da capacidade daquele que exerce o poder.
m)- Eleição popular da autoridade: «Tadi ñlengo-ñlengo, vo k’ulengomokene dyo ko, Kôngo k’uyâla dyo ko» - Sou (o povo) que nem uma pedra muito escorregadia (tadi ñlengo-ñlengo), quem com ela não familiariza jamais chegará ao poder. 5
n)- Investidura:«Kimfumu, salu kya tûmbikwa» - o poder é um assunto de investidura (isto é, não há poder naquele em quem não foi investido por quem o detém).
o)- Aprendizagem da arte de governar e exercer poder. «Wazola yâla, teka tebwa kungulu»: corte todo o cabelo se queres governar.
p)- Mandatação constitucional dos cargos: «Zîngu kya bumpati, i zîngu kya Bungânga»: a duração de um mandato (bumpati), político ou administrativo, deve ser consagrada na “lei sagrada” (bungânga), neste caso a Constituição.
q)- Respeito da Lei: «Kodya dya môyo, ka dikomwa, ka dikatulwa ñlôngo» - No caracol (kôdya) da vida, a autoridade não pode tirar nem aumentar uma lei ao seu bel-prazer. Isto é, uma Constituição não pode variar consoante o detentor do poder.
r)- Linhagem do poder: «Na Mbênza wuyâlanga, Na Mavûngu ka yâlânga ko» – No Kôngo, somente os descendentes de lukeni (Mbênza) exercem o poder tanto político, administrativo, quanto judiciário.6
s)- Responsabilidade: «Vita wañtânga ñtu, ke mabûndu ko» – Em tempo de guerra contam-se as cabeças e não a quantidade de regimentos. 7
t)- Autonomia no poder: «Na Mbâmba ñkote, Na Nsûndi ñkote, ke vena wubângula ñkote’a ñkweno ko» – Tanto aquele que governa em Mbâmba, quanto aquele que governa em Nsûndi, têm cada um os seus deveres (nenhum dos dois poderá interferir nas prerrogativas do outro).
u)- Hierarquia: «Nkusu’a mbakala ka sângwa ye mbênde. Vo nkusu, nkusu ; vo mbênde, mbênde; vo ngone, ngone;; vo mfîngi, mfîngi» – O sulbaterno não pode merecer a mesma consideração que o seu superior (nkusu’a mbakala).
v)- Democracia: “Ndêngole, ndêngole: sya ayi mâtu”– Toda a autoridade deve exercer o poder com as orelhas. Isto é, o poder não consiste somente em ditar ordens, mas também em escutar o povo.
w)- Diligência: “Wundyeka mfûndi, k’undyeki dyambu ko” – Faça jejum de funge, jamais do conhecimento em que há a instrução.
x)- Pragmatismo: “Tukûmb’evwa, ke tukûmbi mâmbo ko” – Aclamamos as realizações e não as promessas.
y)- Liberdade de comércio: “Kânga ñsa, k’ukângi ñkela ko. Vo kênge ñkela, mbôngo yifwidi ye nzala” – Ao povo pode-se privar momentaneamente as liberdades individuais, mas não se deve privar o comércio para não provocar fome à nação.
z)-Respeito ao patrimônio público: «Kyame i vwa, kyeto ka vwa ko» – o que é meu acaba, mas é o que é nosso que perdura.
aa)- Direito público da terra: “Mbôngo mu ñtoto, fwa dya kânda, ka yidyânga muntu mosi ko” - a terra e tudo o que ela produz pertence à comunidade (ao povo). A ninguém é permitido apoderar-se isoladamente.
ab)- Defesa do território: “Nsi yakêmbo zimboma: tsimpangala” – um país sem forças de defesa é que nem hangar sem teto.
ac)- Vigilância do território: “Na Mata ma Kôngo, ngo kana lêle, nsânsi’añkila ka yilêndi lêka ko” – Tal como a cauda do leopardo que dorme, os soldados do Kôngo vigiam e movimentam-se noite e dia.
ad)- Honra: “Tobola nkosi, tobola ngo: lulêndo mbuta”: seja sempre mais forte e mais poderoso que o leão e o leopardo, mas jamais se canse de em tudo ser honrado.

Notas do autor:
1- A partir deste princípio iniciamos a nossa tese de uma origem meridional do reino do Kongo.
2- Um tipo de árvore selvagem, geralmente situado à beira de rios, cujos ramos crescem em forma de feixes de raízes cipoadas que se entrelaçam de forma anárquica formando um imenso feixe entrelaçado que torna praticamente impossível a tarefa de desuni-los sem recurso ao corte radical e paciente de cada ramo.
3- Este provérbio é uma fórmula que introduz um orador em cena diante de uma assembleia deliberativa, proclamando que todos os cidadãos são iguais no Kôngo.
4- Esta é também uma fórmula legislativa que introduz em cena os oradores tradicionalmente chamados de mpovi, responsáveis pelo contraditório num parlamento de cidadãos.
5- Estamos diante de um adágio cujo sentido fundamental é: chega-se ao poder mendigando-o do povo (como quem brinca com a pedra escorregadiça). Por isto aquele que tem o poder é chamado de mendigo, pedinte, isto é, Kiyala moko,
6- Refere-se à tradicional tridimensionalidade do poder público: «poder político», «poder administrativo» e «poder judiciário», excluída a ideia de se o seu exercício é democrático ou não. Adiante veremos o caso peculiar do Kôngo.
7- Tal como tradicionalmente utilizado, o adágio inclui a noção de que todo o líder deve consciencializar-se de que o erro dos seus liderados é seu erro.

Notas minhas:
Suponhamos por um só instante que a Constituição do Brasil pudesse ter esta base, e SOBRETUDO a capacidade para a cumprir com rigor. Vejamos por alíneas:
1.- a) Integridade do território: O Brasil tem estado a dividir o território guardando extensões quilométricas para tribos indígenas. Ao mesmo tempo faz vista grossa a que essas mesmas áreas sejam invadidas por fazendeiros, mineradores e ladrões de madeira!
2.- d) Paz e Tranquilidade: ... união e concórdia!!! Parece ser impossível. Há dias a um dos membros que decidem sobre a escolha do Prémio Nobel foi perguntado porque nunca um brasileiro o tinha recebido. O senhor não quis responder mas acabou por explicar: No Brasil se alguém é apontado para receber o prémio toda a gente começa a falar mal dele. No Brasil ninguém se entende!
Vejamos agora com estas eleições: ganhou quem teve mais votos. O que afirmaram os perdedores, enraivecidos: vamos fazer tudo para que dê errado!!! O Brasil que se dane.
Leia-se, em continuação a alínea g).
3.- h) Equidade das leis: Só de pronunciar esta hipótese doem até as meninges, quando vemos, diariamente o vergonhoso supremo tribunal federal com grande parte dos juízes comprados!
4.- i) Igualdade dos cidadãos: Outro assunto que no Brasil só pode ser piada, e de imenso mau gosto.
5.- j) Direito de contestar: Beleza! O direito a discutir, a ouvir opiniões diversas. A isto se chama democracia.
6.- l) Autoridade: Vinte anos sem autoridade, foi o que passámos. Vamos ver se agora, no caos em que o país está, pelo menos a autoridade se impõe... com justiça.
7.- o) Aprendizagem: Cortar o cabelo; símbolo da humildade, que tanta falta faz aos que se arrogam a tudo saber e mandar.
8.- q) Respeito à Lei: Outra maravilha. Por aqui fazem-se leis sobretudo para favorecer os que as ditam. Uma vergonha.
9.- v) Democracia: Exercer o poder com as orelhas. Só um sábio escreveria assim.
10.- w) Diligência: Não faça “jejum” de instrução! Copiaram Sócrates ou vice-versa?
11.- x) Pragmatismo: São incontáveis as inaugurações de obras que não se fazem, não acabam, que se prometem. Mas, cadê as realizações?
12.- ad) Honra: ... jamais se canse de ser honrado.

Recomendo que leiam o livro e, se possível que obriguem os homens públicos que o leiam, em voz alta, do “alto das suas confortáveis cátedras”!
Vale a pena comentar mais?

17/02/2019