domingo, 13 de janeiro de 2019




Uma Ínclita Geração – (A saga de um juiz)

Ia também escrever sobre um primo deles, que por ser muito chegado, como irmão, está incluído no mesmo grupo, outro Dom Fernando, outro tio Fernando, mas após começar a procurar, investigar, tanta coisa interessante achei sobre este Senhor que terá que ficar para uma crónica separada. Lá para Março.
Chegou então a vez do terceiro filho, D. Augusto, o Augustinho como lhe chamaram durante muitos anos os irmãos mais velhos, o “Juje”, como carinhosamente o chamávamos (entre nós, e à sogra, a “Juja”), que se formou em Direito na Universidade de Coimbra, novo, com ótima classificação. Vivo, inteligente, porte digno como convinha a um aristocrata, atrevido, teimoso. Louro, desempenado, bonitaço, grande desportista.
Terminado o curso em 1924 foi convidado para assistente da faculdade mas não se interessou.
Na história da Associação Académica de Coimbra, fundada em 28 de Outubro de 1922, cuja equipa de futebol ficou conhecida como a Briosa, calção e camisa pretos, cor da capa dos estudantes, está registrado (ou registado) que começa com o primeiro jogo contra uma seleção de Braga, em 23 de Março de 1922, onde os estudantes venceram por 2x1.
Académica - 1922. Um ponto vermelho D.  Augusto; dois o irmão D. Fernando

O primeiro golo de toda a história desta Briosa equipa deve-se ao nosso futuro Juje. Foi ainda capitão da mesma Académica no ano em que esta foi à final do Campeonato de Portugal, 1923, contra o Sporting, capitaneado pelo grande internacional Jorge Vieira.
Além disto, no I Torneio de Atletismo organizado pelo jornal “A Voz Desportiva”, também em 1923, o nosso estudante de Direito ganhou o primeiro lugar na corrida dos 100m com 11s e 7/10, venceu a estafeta 3 x 100m em que participou o seu irmão caçula, Fernando, que foi mais tarde bibliotecário da Biblioteca da Universidade, e o colega Luís Rodrigues, e ainda conquistou o 2º lugar no arremesso do disco com a marca de 26,74m.
Além disto gostava de treinar boxe, nunca tendo competido.
Enveredou pela magistratura, e um dia, Delegado (Promotor de Justiça), com 29 anos foi convidado para Governador Civil do Distrito da Horta, nos Açores, onde não aqueceu o lugar, mas onde nasceu a primeira filha. Incomodou os superiores burocratas com a sua dinâmica e inteligência, e não tardou a ser exonerado, a seu pedido, menos dois anos após ser empossado, voltando para a promotoria pública prosseguir a carreira escolhida.
Enquanto Governador, num daqueles dias de Mau Tempo no Canal, em que o vento sopra com violência e o mar lhe responde alteroso, como briga de titãs, recebe Sua Excelência um telegrama enviado de bordo do couraçado HMS Hood, o mais famoso navio de guerra inglês, glória da arrogante marinha de sua majestade britânica, que foi afundado durante a II Guerra Mundial com um único tiro disparado de bordo do navio alemão Bismarck. Mas não cabe aqui contar a história desta outra guerra.
O telegrama, recebido já o sol encostara no poente, dizia mais ou menos
ALMIRANTE “X” COMANDANTE NAVIO ALMIRANTE HMS HOOD STOP APRESENTA CUMPRIMENTOS AUTORIDADE PORTUGUESA STOP PEDE AUTORIZAÇÃO FUNDEAR SUAS AGUAS TERRITORIAIS STOP (já estava fundeado!) ABRIGAR TEMPORAL STOP LAMENTA NAO PODER APRESENTAR PESSOALMENTE CUMPRIMENTOS STOP ESTADO MAR MUITO PERIGOSO.
Não seriam estas as palavras exatas, tanto mais que o big almirante telegrafou em inglês, mas a verdade é que, se sempre os ingleses se estiveram bem lixando para Portugal, não era um importantérrimo almirante que se ia incomodar para cumprimentar um simplérrimo governador de quatro misérrimas ilhas!
- Vá chamar o capitão João Costa. O comandante da polícia da terra, padrinho da filha do Governador que nasceu entrementes lá na Horta. História contada por este.
Chega o capitão debaixo de chuva e mau tempo ao gabinete do Governador que lhe lê o telegrama.
- Oh! Capitão! E se a gente fizesse uma partida a estes sujeitos?
O capitão estremeceu, porque já sabia que da cabeça do jovem governador alguma aventura maluca ia sair.
- Já que estes ingleses são tão importantes que não podem vir a terra, vamos mostrar-lhes o que valem os portugueses. Veja se arranja algum pescador que se queira arriscar a entrar no mar com este tempo, e envie um telegrama para bordo a dizer a esse almirante que se ele não pode vir a terra o governador pode ir a bordo!
- Mas, senhor Governador, o mar está imenso. Isso é loucura.
ALMIRANTE “X” STOP FACE SUA IMPOSSIBILIDADE DESEMBARCAR SUA EXCELENCIA GOVERNADOR  NAO VE DIFICULDADE IR BORDO STOP
Como seria de esperar, entre açoreanos experientes e destemidos homens do mar não foi difícil arranjar mais do que um voluntário que logo correu a preparar a sua fragilíssima embarcação, um baleeiro, à vela!
- Capitão! Vista a sua farda de gala. Eu vou também vestir-me a preceito, e já nos encontramos no cais para embarcar.
Ainda não haviam embarcado já outro telegrama de bordo estava em terra:
NÃO VENHAM STOP MAR  MUITO PERIGOSO STOP
- Responda: “para os portugueses não há mar perigoso!”
Governador e comandante da polícia debaixo de grossa capa de oleado para se molharem um pouco menos, lá vai a embarcação baleeira, conduzida por experientes e calejadas mãos, voando por cima daquele mar imenso.
O almirante “x” ficou aterrado porque se acontecesse um acidente ao governador alguma explicação oficial ele teria que dar, o que lhe seria, no mínimo, desagradável.
O grande couraçado logo se avistou, todo iluminado, botes salva vidas prontos a serem lançados à água, para um quase certo resgate, oficiais no convés à espera daquele novo Gil Eanes, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, reencarnado.
A casquinha de noz num instante emparelhava ao longo do longo costado do imenso vaso de guerra, ora no topo da ondulação chegando ao convés deste, como desaparecendo lá em baixo na cava da onda. Não havia como estabilizá-la para subir a escada de portaló, mas para um atleta isso foi resolvido com simplicidade. Ao passar junto à escada, um salto, e lá vai Sua Excelência o Governador, de fraque, altivo, imponente, a subi-la.
Apitos, continências, guarda de honra, recepção no salão dos oficiais, discurso do embasbacado almirante, em inglês, perante a coragem dos navegadores portugueses ali consubstanciada naquele gesto, resposta do Governador, em português.
A seguir, confraternização em inglês, que o Governador falava, para novo espanto do mono linguista almirante, e rápida visita ao navio.
Segundo contava o já então coronel aposentado João Costa, o ar de espanto da marinhagem a olhar para aquele homem louro, vestido a rigor, que se atrevera a sair de terra com forte temporal, teria sido digno de um quadro de Goya!
Hora da despedida. O mesmo cerimonial.
- Capitão! O senhor desce primeiro, senta-se no fundo da embarcação para me segurar as pernas enquanto eu fico de pé para corresponder às saudações.
Mar enorme, saltar da escada de portaló do navio para dentro daquele baleeiro, qual ínfima tábua perdida, era necessário ser artista de circo! Mais artistas ainda os marinheiros açoreanos para governarem a pequena embarcação sem a deixarem espatifar-se contra o monstro encouraçado.
Finalmente, outro salto, entra o Governador. De bordo, continências, música e outros cerimoniais da praxe.
No fundo do baleeiro o capitão João Costa, agora todo molhado segura com força as pernas do Governador para que este, cartola na mão, possa permanecer de pé, firme naquele balançar imenso.
De manhã o governador recebeu outro telegrama, desta vez com protestos de admiração e respeito de toda a tripulação do majestoso Hood.
Outra façanha do Governador, era a sua aversão à estátua de um político que estava a ser colocada numa praça da cidade. Todas as noites Sexa Governador ia urinar para cima da estátua! O comandante da polícia tinha que fechar o acesso a essa praça, para que ninguém visse tal desaforo! Seria a estátua a Manuel de Arriaga, o primeiro Presidente da República de Portugal, nascido na Horta, que aliás fez um governo bastante medíocre, e foi corrido? Até hoje não consegui desvendar esse mistério!
Não gostou da política que envolvia o seu trabalho, pediu a exoneração do cargo.
Foi para Porto de Mós onde nasceu a segunda filha (que eu conheço bem!). Como o caracol, andou com a casa às costas. Começou a vida profissional em Coimbra, depois Cantanhede, volta a Coimbra, Chaves, Meda, Trancoso, Horta (Açores), Porto de Mós, Angra do Heroísmo, Torres Novas, em 1938 é convidado para Governador da Índia, que não aceita, vai para Torres Vedras onde em 1940 passa a juiz e é colocado em Elvas, a seguir Vila Nova de Ourém, e em 1943, finalmente Lisboa.
Em Torres Vedras, para resolver um conflito de Terras, e não tendo ninguém capaz de ir ver do ar como era o problema na foz dum rio, que frequentes vezes alterava o seu curso, tirou o brevet de piloto, sobrevoou a área e resolveu o Processo a favor da Câmara, o que mereceu imensa divulgação.
Quando em Elvas, em 1942, é convidado para participar, em Berlim, duma reunião de juristas onde se discutiria uma “Nova Ordem Mundial”! (Coisa do Hitler!) Foi, ficou hóspede de um diplomata português, e fez uma palestra, em alemão, pela Rádio Emissora de Berlim, sob o tema “A Revolução Moral e Mental do Homem Europeu”, cuja tradução a “comissão de Censura” da PIDE... aprovou!
Como é evidente isto provocou um burburinho tremendo no seio dos burocratas covardes!
As suas sentenças eram assunto que os jornais não cansavam de publicar e elogiar. Por todo o lado é homenageado. Isso parece ter incomodado os medíocres. Salazar não gostava dos que se destacavam sem lhe lamberem as botas e assim o nosso juiz passou a ser alvo de permanentes controles da PIDE que informavam os seus superiores com os relatórios mais idiotas que se pode imaginar: “parece que... talvez... dizem que... esteve com... foi homenageado por...”  sem jamais encontrarem algo que tivesse consistência ou interesse. Sabia-se, bem do seu fundo aristocrático, mas apoiando a república e o governo de Salazar, de mistura com um azedume pelos ingleses que sempre traíram em todo o mundo, incluindo Portugal mesmo depois que assinaram o famoso Tratado de Aliança em 1373. (O Imperador D. Pedro II também não gostava desse pessoal!), o que levou muita gente a simpatizar com a Alemanha, quando ainda eram desconhecidas as loucuras e massacres que o louco provocara. Além disso os negócios de Portugal com a Alemanha eram demasiado importantes desde há vários séculos.
Em Lisboa o nosso juiz entra para os tribunais cíveis e correcionais, depois no Tribunal de Polícia, com sentenças que são páginas antológicas, e em 1958 está com um contrato de “x” anos, juiz auditor no Tribunal Militar Especial.
Com muita frequência, ao fim da tarde, ia gastar dois dedos de prosa com uns quantos amigos num café na rua 1° de Dezembro (hoje restaurante), amigos de vários setores, como oficiais do exército reformados, agentes da PIDE, advogados e jornalistas, reuniões bem descontraídas a que algumas eu assisti e sempre me divertiam!
No Tribunal Militar Especial algo de “grave” entretanto se passou porque o juiz auditor, no processo dum réu desafeto à ditadura, terá dado um parecer de onde as devidas frases rebuscadas e jurídicas podiam ser traduzidas por “o réu é inocente, o bandido é o regime, i.é, Salazar”!!!! Como é evidente foi mandado ficar em casa, não voltar a esse tribunal, o salário continuava a receber, e os meses passavam à espera do prazo final do contrato.
Mandaram um outro juiz fazer uma inspeção. O pobre inspetor parecia que tinha medo do Dr. D. Augusto, porque a fama deste, como juiz era já conhecida e respeitada, e então tratava-o cheio de atenções e cuidado. O inspecionado só lhe dizia: “Caro colega, por favor inspecione tudo, o mais fundo que puder.”
Como sempre a inspeção não deu nada.
Por sorte, um dos amigos que volta e meia apareciam no café, general, depois do “infantil golpe” que em 1961 “pensou” afastar Salazar, foi nomeado Ministro do Exército. Sabendo exatamente da perseguição que faziam ao seu conhecido juiz, assim que entrou no Ministério, pediu o processo. Assinou-o, mandou arquivar e telefona ao amigo:
- O seu problema está resolvido. Mas não pense mais no Tribunal Militar. Eles não o querem lá!
Nunca permitiram que passasse a juiz da Relação, desembargador. Sempre que essa hipótese surgia, criavam uma inspeção ao seu trabalho, que acabava dizendo que eram um “bom juiz e muito inteligente” mas como demoravam as inspeções, entretanto a vaga havia sido preenchida. E assim o torpedearam toda a vida.
Amigo que era, e disso fui testemunha, de um dos mais influentes advogados de Portugal, o dr. Acácio de Gouveia, que por diversas vezes assisti no seu escritório a consultar o seu amigo juiz, eu insistia com o meu sogro para que mandasse a magistratura pró diabo e se juntasse ao dr. Acácio de Gouveia, que muito gostaria de o ter ao lado. Livrava-se da intrigalhada pidesca, e teria, em poucos anos, ganho “n” vezes o que ganhava (mal) como juiz. Respondia-me sempre:
- Eu ainda lhes vou mostrar quem está certo!
- Lamento, mas ao Salazar e à PIDE ninguém mostra nada.
Em 1958, como auditor do Tribunal Militar vai a Angola inspecionar os presídios militares.
À chegada a Luanda foi recebido pelo governador interino, o Dr. Luis de Vasconcellos, colegas e amigos dos tempos da Universidade em Coimbra, que o recebe com ar cerimonioso e estas brilhantes palavras:
- Luis de Vasconcellos, uterinamente governador desta Província! (o Governador, Coronel Horácio de Sá Viana Revelo estava em Portugal)
Este Dr. Luis de Vasconcellos era uma figura. Um gozador bem disposto. Uma das histórias que ele contava era sobre a família Sousa Machado. Três irmãos: um Sousa Machado, rico, investidor, com muita coisa em Angola, outro Machado de Sousa e um terceiro, Inspetor Superior Ultramarino, Sousa Santos.
Ele que conhecia bem os três, quando um dia lhe perguntaram o porque dos nomes, ele logo resolvei a charada:
- Sousa Machado estava o pai por cima e a mãe por baixo; Machado de Sousa estava a mãe por cima, e Sousa Santos... parece que o pai não estava!”
Isto provocou uma cómica celeuma lá naquelas terras africanas!
Chegou o casal a Luanda pouco antes de nascer o seu terceiro neto, o que foi uma ótima visita à família. (A sogra ajudou, na mesma ocasião uma nossa querida amiga a pôr neste mundo o atual e muito considerado Embaixador de Portugal em Washington Domingos Fezas Vital!)
Numa daquelas agradáveis tardes de Luanda, depois de um passeio de carro, normalmente indo até à Ilha, ao voltarmos para casa, eu avisto, a porta de sua casa, no passeio, falando com alguém, o grande Jorge Vieira que terá sido o maior jogador de futebol de todos os tempos do Sporting, a quem a companhia das cervejas em Portugal tinha arranjado um lugar de inspetor na Cuca em Luanda onde eu estava a trabalhar. Eu sabia que ele tinha sido o capitão da equipa que enfrentou a Académica em 1923, quando o nosso estudante de direito foi também o seu capitão. E disse ao sogro:
- Sabe quem ali está ? O Jorge Vieira, do Sporting.
- Oh! Co’a breca. Pára aí quero falar com ele.
O encontro entre os dois que não se viam desde essa data foi uma festa. Um abraço que esperou tantos anos! Tive que os deixar, levar a família a casa e depois levar os dois campeões para uma cervejaria onde, como grandes e velhos amigos, ficaram horas, tal crianças, animadíssimos, a recordarem o que se passara há mais de 35 anos.
As suas inspeções incluíam duas cidades na linha de Malange: ex Salazar, hoje Dalatando e Malange. Às ordens do sr. dr. Juiz foi colocada uma vagoneta na linha do Caminho de Ferro de Malange e como assistente um capitão de que não lembro mais o nome. Também fui nesse brinquedo e ainda pedi que levássemos de carona o meu querido amigo Xico Manolete (ver Amigos – 1). Foi um passeio ótimo, parámos para visitar as Quedos ex Duque de Bragança, hoje Quedas de Calandula, uma das belezas de Angola

O capitão, o nosso juiz e o Xico Manolete (foi aqui que morreu o bichicnho!)

e no regresso ouvimos um barulho estranho, uma pancada na vagoneta. Parámos para ver o que passava e uma Civeta... tinha se suicidado! Atravessou na hora errada. Coitado do bicho que era bem bonito.


Não quis, por teimosia deixar a magistratura. Quando se aposentou entristeceu, e assim viveu, mal, os seus últimos anos, quem teve uma vida agitadíssima, física e intelectualmente, homenageado, admirado, citado.
Depois da nojenta revolução dos cravos sentiu que poderia finalmente ir votar. Não deixaram. Porque quarenta anos antes tinha sido Governador Civil da Horta. Tinha chegado a democracia... depois da ditadura!
Quando houve aquela mentira do Humberto Delgado, o nosso juiz que o tinha conhecido deu-lhe um pequeno conselho:
- Não se meta com o Salazar. Ele tem meios para derrubar quem o enfrenta!
Nem o General Humberto Delgado, nem o nosso juiz mais tarde seguiram tão sábio conselho!
Merece uma biografia, a sério. Tem muita coisa, muita história, que se pode contar sobre quem foi o meu sogro, o jovem Augustinho, o Dr. Dom Augusto Paes de Almeida e Silva (1902-1976).


O “juje”            e      a “juja”


10/01/2019


segunda-feira, 7 de janeiro de 2019


Uma Ínclita Geração

Não, não esqueci. Como poderia, mesmo tantos anos passados? Segundo documentos arquivados (quase na Torre do Tombo!) desde o Natal de 1947, quando, gentil, ofereci a uma gatinha um magnífico presente, aquele para que as minhas mais que limitadas posses permitiram: um pequeno, micro calendário para 1948.
Tinha a Bela garota 13 anos e o Chique galã acabado de fazer 16.
Vejam só a beleza do presente (com régua e tudo para se ver a grandeza da oferta)

Os anos correram, os enfeitiçados cresceram, e um dia, a vida profissional consolidada, a minha Mãe, como mandava o cerimonial da época, foi pedir a mão da donzela, que havia já quase sete anos nos havíamos mutuamente escolhido para vivermos juntos o resto das nossas vidas.
Quem pede a mão, os futuros sogros têm a “obrigação” de entregar o “material” todo, e um mês depois nos uníamos na Igreja da Lapa, e mais treze dias passados o “noivo”, já saudoso, triste e acabrunhado, seguia para Angola, só, para reconhecer o terreno, onde iriam começar três meses depois a construir juntos as suas vidas.
Ao receber a mão da linda e apaixonada donzela foi o noivo presenteado com outra mão, desta vez uma boa mão cheia de outros parentes, tios e primos que passaram a fazer parte integrante e duradoura da nova família.
É de alguns deles que hoje vou recordar umas facetas curiosas.
Tios da minha mulher que, desde antes de termos casado me consideravam já como membro quase genético da sua família, e eu os estimei sempre muito.
Quatro irmãos, um deles sogro, e um primo da mesma geração. Tudo gente de magnífica formação e os quatro costados bem assentes em sangue, tradições e conduta na vida.
Todos de grande nível intelectual e de muita simpatia. Não foi só D. João I que deu origem a uma Ínclita Geração. Esta pode, e deve, ser assim tratada. Com o Dom precedendo o primeiro nome próprio, Dom, do latim Dominus, uma distinção feita pelos reis a pessoas da nobreza que se haviam distinguido.
Os quatro irmãos, sem exceção, sofreram com as intrigas miseráveis da PIDE. Eram pessoas da mais alta distinção e muita simplicidade que isso fazia inveja àqueles mentecaptos delatores e pseudo chefes duma polícia secreta.
Comecemos pelo mais velho, o Dom José, o tio Zé.
Estudante fraco, mas apaixonado por música, muito cedo já se exibia como bom violonista, fez parte do Orfeão da Universidade de Coimbra, acabou por se formar em Fisíco-Química, bem tarde, e no Instituro Superior Técnico de Lisboa, passando a lecionar em liceu e colégios, mas a sua vida estava fadada para a música.
Mais tarde surgiu uma hipótese de ser nomeado diretor da Casa da Moeda. Alguém “lá do alto” disse-lhe que o Salazar precisava que ele tivesse o curso de Matemática para ocupar esse lugar.
Num instante cursou Matemática, e em vez de lhe darem a direção da Casa deram um trabalho subalterno na secretaria. (Olha o problema dos irmãos com o salazarismo!)
Foi viver para Leiria e aí juntou uma centena de homens simples, do campo, operários, muitos deles que nem escrever sabiam e criou o Orfeão de Leiria. Masculino. Exibiam-se em festas, na rádio e até na TV, além de viagens que faziam pelo país e até para Espanha. Tão bem cantavam que um dia recebeu da BBC uma carta que lhe comunicava que o Orfeão de Leiria era um dos seis melhores orfeões masculinos que a BBC tinha captado.
Este tio, que recebeu por herança vários títulos de nobreza a que não ligou a mínima importância, era uma pessoa simples, mas com um sentido de humor muito especial, sempre modesto e amável com todos com quem lidava. Mas ao reger o Orfeão... virava uma fera!!! Não admitia a mínima falha, berrava com os cantores, que todos, sem exceção, tinham por ele uma verdadeira veneração.
E gostava muito de inventar histórias “estranhas”! E muita gente as engolia como verdadeiras! Gozava imenso com isso, até com os parceiros do café, lá na cidade.
Um dia foi a Lisboa com a mulher que aproveitava essas raras ocasiões para visitar umas primas, com a cerimónia própria do século XIX! Coisa que o tio Zé, simplesmente detestava. Almoçaram em casa de um dos irmãos, e a seguir ao almoço a tia aprontou-se toda para as visitas às primas, até chapéu na cabeça, e cutucava o marido, porque iam sendo horas de sair de casa. “Zé está na hora de irmos à prima...” Ele, descontraído e ausente, lia o jornal. A tia insistia. De repente ele diz: “Co’a breca! Olha esta notícia; vê o que aconteceu! Um tigre fugiu do jardim zoológico e não o conseguem agarrar!
A tia quis logo saber por onde andava o temível felino. “Parece que está pela Praça de Londres.”
-Que horror. É por aí que temos que passar. Já não vamos a casa das primas.
O tio Zé continuou a ler o jornal!
Lá por Leiria, onde moravam, a casa era nas Cortes, a uma meia dúzia de quilómetros do centro da cidade, pelo que tinha que percorrer uma estradeca de chão, estreita.
O tio Zé conduzia o seu Rover, sempre devagar e sonhando com as suas músicas. À frente surgem duas carroças, uma que ia e outra que vinha.
- “Isto não vai passar. A estrada é muito estreita.”  Mas continuava nos seus 30 ou 40/km por hora, e cada vez mais perto das carroças. “Não vai passar não.”
Não passou. Atirou as duas carroças para fora da estrada, e com a mesma calma de sempre, confirmou: “Eu bem disse que não ia passar!”
Foi um artista, um nobre simples e modesto, uma pessoa que todos adoravam. Por isso, Grande.
O Senhor Dom José Paes de Almeida e Silva (1899-1968)



A seguir veio o Dom João, o tio João, ou o Joãozinho, como lhe chamavam os irmãos. Muito jovem teve tuberculose óssea, o que fez com que ficasse com uma perna bem mais curta do que a outra. Um dos sapatos tinha uma sola grossíssima para compensar um pouco a altura, e sempre necessitou de bengala para se mexer, mas nada disso impediu que se formasse em medicina, na Universidade de Coimbra.
Desde pequeno tocava, muito bem, violino, e mais tarde, como o irmão José, fundou um belo orfeão na terra em que foi viver e que subsiste até hoje.
Logo que formado, em 1926, foi trabalhar em Chão de Couce (cerca de 40 quilómetros a Sul de Coimbra) responsável por dois concelhos, onde era o único médico. Tinha salário do Estado, e fosse o doente rico ou pobre nunca recebeu um centavo pelas consultas. Em 1939, tendo-se manifestado, junto com muito mais médicos contra a política salazarista, foi imediatamente exonerado. Sem dinheiro, era o povo da região que lhe levava legumes, galinhas, etc. que lhe permitiu manter-se, com toda a sua modéstia durante mais de um ano.
Com dois colegas e amigos abriram um hospital e voltou a ter algum dinheiro, mas sempre, sempre, as suas consultas eram gratuitas.
Como acontece com todos os médicos recebia visitas de propagandistas médicos que sempre lhe deixavam uma quantidade de “amostras”, que ele guardava num quarto vazio de sua casa, tudo amontoado no chão. Quando os recebia, abria a porta do quarto e atirava os medicamentos para cima do monte que já lá estava.
Quando em 1973 fui a Portugal, com os filhos, o João, filho, com 11 anos, quis por força ir ver o D. Afonso Henriques! Tivemos que ir a Guimarães mostrar-lhe o castelo e a estátua do 1º Rei, e no caminho, como fomos num carro descapotável, o João ficou meio constipado. Passámos em casa do tio João.
- Joãozito! - chamou-o o tio - abre aquela porta e escolhe lá o remédio que quiseres. É tudo a mesma coisa.
Quando se abriu a porta vimos o chão inundado de remédios num monte com mais de dois palmos de altura!
Uma outra vez o irmão Augusto, juiz de direito, que o foi visitar queixou-se também de alguma coisa. O irmão diz-lhe:
- Augustinho, abra aquela porta e tire o que quiser.
Quando viu o que este escolhera:
- Esses não servem. São para grávidas.
- Se servem para grávidas também servem para mim. Você não sabe nada disto!
A conversa entre todos aqueles irmãos era um espetáculo. Mas eles amavam-se muito.
Quando, no inverno se telefonava para Chão de Couce para ter notícias deste tio solteirão, era uma empregada (que dizem que... parece que...) que atendia o telefone e, com a modéstia da casa e o muito frio da região, o tio João ia sentar-se na cozinha frente ao velho fogão de lenha.
A empregada atendia:
- O senhor D. João está ao lume!
O tio João, um médico como raros, um autêntico João Semana levou a vida toda a receber e visitar doentes sem nada receber deles. Para se deslocar por aqueles campos tinha um triciclo a motor, bem rústico, e que devia ser bastante incómodo. Chovesse ou fizesse sol, lá ia o doutor atender quem quer que fosse.
Um dia a tuberculose chegou-lhe aos pulmões, mas venceu-a.
Quando aos 70 anos se aposentou o povo da região juntou-se e ofereceu-lhe um carro já preparado para ele poder conduzir.
Teria mais de 80 fui com o meu sogro – o Augustinho – visitá-lo. Lá estava no café da terra à nossa espera, ótimo aspeto de saúde, e na farta cabeleira nem um único fio branco! Diz-lhe o irmão:
-  O João! Você pinta o cabelo?
Quase indignado responde:
- Ora essa! Eu era lá capaz de fazer uma coisa dessas!
Grande e muito estimada figura da região, lembrada até hoje, a nobreza que se manifestava na sua modéstia e humildade, sempre ao serviço dos outros, foi Dom João Paes de Almeida e Silva (1900-1991)



Vamos passar para o caçula, Dom Fernando, o tio Fernando, deixando o Dom Augusto para a próxima.
O mais novo dos quatro irmãos, magrinho, formou-se, também em Coimbra, em História.
Durante o tempo de estudante foi um bom desportista, tendo pertencido à equipa da Associação Académica de Coimbra, guarda redes (goleiro) e, junto com o irmão Augusto, participaram e ganharam várias corridas inclusive de estafetas, sempre entusiasta do desporto.
Na vida profissional foi Bibliotecário da Câmara de Lisboa, Conservador do Mosteiro de Mafra onde criou uma Galeria de Arte Sacra, até hoje o elogiada, fundou em Coimbra o Portugal dos Pequenitos, uma cidade miniatura que conta a história de Portugal, e deve ser  visitada por toda a gente, uma das grandes atrações da cidade, Conservador dos Monumentos Nacionais em Leiria., Presidente da Câmara das Caldas da Rainha, etc.
Andou com a casa às costas!
Quando casou, à mulher tinha uma casa de família, antiga, com uma bela quinta, na Lousã e aí acabou por fixar residência, independente das suas obrigações profissionais.
Pesquisador incessante sobre a história, a casa estava carregada de livros, que lia constantemente.
Como os irmãos, tinha um senso de humor bem subtil.
Era obrigado a sempre se deslocar e por isso viajava muito de combóio, mas nunca queria abdicar da 1ª classe. A mulher insistia que ir em 2ª classe era mais barato e chegavam ao mesmo tempo!
Um dia lá foram os dois, carregando umas quantas malas, comprou os bilhetes de 1ª. Entraram na primeira carruagem que lhes parou em frente, entraram, instaram-se, o trem seguiu e quando chegou o “trica-bilhetes”, o revisor, diz-lhes:
- “Os senhores estão enganados. Têm bilhete de 1ª e vão em 2ª.”
Logo a tia: - “Vamos aqui muito bem; não vamos mudar.”
- “Vamos sim.”  
Cavalheiro, o tio Fernando carregou as malas todas até à carruagem da 1ª classe, para o que teve que fazer mais do que uma ida e vinda.
Quando finalmente se assentam nos melhores lugares... chegaram ao destino!
Em outra viagem levavam um farnel para comer no caminho. A tia ao comer qualquer coisa engasgou-se, tossiu e saltou-lhe a dentadura da boca que foi parar no meio corredor.
- “Fernando: pega a minha dentadura, por favor,”
- “Não. Pega você.”
Mas lá foi ele. Agarrou na dentadura colocou por fora da boca, e depois explicou:
- “Assim os outros passageiros viam bem que não era minha!”
Quando Presidente da Câmara das Caldas da Rainha, como é hábito em politiquices, tinha alguns desafetos, um deles, um velho coronel, que reclamava de tudo.
A Câmara achou que era absolutamente necessário construir uns sanitários no ponto final onde chegavam os autocarros (ônibus sem lugar para aliviar... o pessoal vinha sempre muito “apertado”) e o lugar escolhido pela Câmara foi mesmo ao lado da casa do coronel. Que não gostou!
Por vingança, o coronel passou a chamar àquele local “as Capelas Fernandinas” ao que o tio, em vez de se melindrar, sempre achou a maior graça!
Outra pessoa encantadora, alegre, muito culta, o Dom Fernando Paes de Almeida e Silva. (1905-1996)



A continuar na próxima “postagem” com o D. Augusto, o sogro, e outro D. Fernando, primo.

3 jan. 19

terça-feira, 1 de janeiro de 2019



Hollywood
Uma história quase... quase verdadeira

Vamos começar o ano afastando do pensamento, se possível, os problemas políticos, sociais, nacionais ou mundiais, esperando que não apareçam mais cretinos a quererem julgar o Brasil através dos seus olhares de indivíduos traídos e que ainda choram, com profunda má educação, terem perdido a mulher para outrem.
Há uns setenta anos, um grupo de amigos, colegas, na faixa dos 16 ou 17 anos, lembraram-se de escrever às grandes e lindas estrelas de Hollywood, pedindo-lhes uma fotografia. Era costume na época, e as garotas faziam o mesmo aos galãs, que sempre respondiam. E apostaram quem ia ou não receber!
Não faço mais ideia como foram obtidos os endereços, mas estou a pensar que escrevemos somente Mis... – Hollywood – USA. A verdade é que as cartas chegavam ao destino.
A maioria escolheu as mais lindonas, sexys, pin-ups, como a Ava Garder, Heddy Lamarr, Doroty Lamour, Ingrid Bergman, Judy Garland, Jane Russell, Mauren O’Hara, e o meu amigo Fernando, mais descontraído, escolheu uma que não estava no topo das bonitonas, mas era uma “gatinha” bem simpática, Angela Lansbury.
Passa algum tem, não lembro já quanto (mas se compararmos com os Correios do Brasil, o “ir e vir” teria sido quase um fax!) e começam a chegar as respostas.
Quase todos receberam as fotografias das lindésimas em postais impressos, com uma pseudo assinatura também impressa, “With love...”, até que chegou a foto da Angela Lansbury, a única que vinha assinada à mão, com caneta por cima da foto! Um sucesso.
E vejam bem que a escolha foi acertada!


O ano passado, cruzo-me na rua, em Lisboa, com um “velhote, como eu”, olhámos um pedaço um para o outro a tentar definir se nos reconhecíamos. Avancei:
- Estou a reconhecer alguns traços na sua cara mas não sou capaz de me lembrar de quem e de onde conheço.
- Curioso. O mesmo se passa comigo. Eu chamo-me Fernando Moura Dias.
- !!!! Fernando Moura Dias!!! Eu sou o Chico Amorim!
Companheiros de estudo e do mesmo curso, caímos nos braços um do outro. Não nos víamos há mais de sessenta anos!
Estávamos no Rocio, ainda a Pastelaria Suíça funcionava, e logo escolhemos uma mesa, lá dentro, sossegada, para darmos largas a conversas que durante tantos anos não tivemos. Queríamos saber tudo: como foi a vida profissional, a família, saúde, onde vives, etc. O trivial. A conversa fluía fácil, saudosa, com entremeados tipo “lembras-te daquela vez que fizemos...”, se lembro!, e “aquela cena na aula de...”
As horas corriam rápidas, iam passando e lá fora escurecendo, e nenhum dava por isso.
Num instante as duas vidas se desenrolaram. Ambos passados os oitenta, mas de boa saúde, estiveram por África, tão grande, que unicamente souberam que o outro por lá andava sem jamais se terem encontrado.
Os dois com filhos e netos em quantidade razoável, e do mesmo modo espalhados pelo mundo.
Fernando que foi quem escreveu para a Angela Lansbury, não conseguiu segurar a história de termos escrito às atrizes de Hollywood! Desta vez bem acrescentada.
-Lembras-te quando escrevemos às atrizes de Hollywood?
- Se lembro. Foste o único que recebeu um postal assinado à mão!
- Fui mesmo. Guardei a famosa foto alguns anos até que ela se evaporou no tempo, mas sempre conto essa história a que achava muita graça.
Muitos anos passaram. Vieram filhos e netos, e um dos filhos, casado, a viver nos Estados Unidos, em Los Angeles, levou o pai até lá para assistir ao casamento de uma neta, e mesmo com a velhice a bater, e mexer com a lombada, foi lá passar algum tempo.
Perto na Meca do cinema, mais uma vez contou a história do postal da Angela Lansbury, quando o filho lhe diz que ela continuava viva, e mais, ainda a trabalhar com muito sucesso no teatro e na TV.
- Interessante. Gostava de a cumprimentar o mostrar-lhe o meu apreço por ela. Deve ter uns 90 anos!
- Pai, vou-me informar onde ela mora, e se conseguir, não custa nada lá ir, e tentar visitá-la.
- Loucura. Esquece.
- Deixa comigo.
No dia seguinte o filho traz-lhe a informação completa: endereço, horário provável de a encontrar em casa, etc., e estabeleceram logo uma estratégia: primeiro ir a uma loja de flores e mandar um lindo ramo com um bilhete meio enigmático:

With much respect and admiration
An admirer since 1946

mas que fosse entregue só às 4 horas da tarde. Depois aparecer lá em casa uma hora depois, apresentando-se como o “admirador” que mandou as flores.
E assim se fez. Tocou à porta, foi recebido por um mordomo, deu a conveniente informação e disse que simplesmente queria cumprimentar a Dame Angela.  Nada mais do que isso e que não demoraria, porque além do mais não queria incomodar a senhora.
O mordomo retirou-se, volta uns instantes depois dizendo que a senhora o ia receber.
Fernando teve um choque. No fundo não esperava ser recebido.
- Sabes que eu estava até envergonhado, mas ela recebeu-me tão naturalmente que quebrou o gelo. Ofereceu-me uma xicara de chá, mandou-me sentar, e estava curiosa para saber o porque de 1946. Contei-lhe a história das fotos. Ela achou a maior graça e disse-me que nunca mandara fotos impressas. Sempre achou que as fotos impressas eram como folhetos de propaganda!
Depois fui-lhe dizendo que tinha acompanhado a maioria das suas peças, a conversa corria agradável, com ela sempre sorridente e atenciosa.
Entretanto chegou o filho, a quem a mãe me apresentou, contando a história da foto, e que tinha achado muito simpático que eu a tivesse ido visitar.
O filho é diretor de cinema. Vira-se para mim e diz-me que está à procura de um ator coadjuvante, para fazer uma pequena, mas importante cena no filme que está a produzir e, ao olhar para mim via exatamente o perfil da pessoa que procurava, e dispara: O que acha fazer duas ou três cenas no meu filme?
Imagina o meu espanto! Fiquei sem saber o que dizer, mas tive que confessar que nunca tinha representado.
- Não, senhor, isso é o que nós fazemos durante toda a vida; é representar! O papel é simples mas precisa de alguém com boa presença e firmeza. O senhor estaria perfeito.
Contou-me então como seria o papel: eu, grande empresário, já aposentado, tinha entregue a conduta dos negócios ao filho e outros sócios. Mas com a impressão que algo estava a correr mal e sabia que tinham convocado uma assembleia geral para decidir se vendiam ou não parte do grupo empresarial. Aí eu entraria na sala a meio da discussão, contra o espanto de todos, e ponho fim a esse disparate que eles estavam a ponto de cometer.
A minha intervenção tinha que ser clara e dura.
O que lhe parece? Eu disse-lhe que a bem da verdade me parecia uma loucura, mas...
Disse-lhe que estava em casa do meu filho e ele foi avisando: amanhã, aí pelas dez horas vai um carro buscá-lo. Falamos sobre a peça, almoça comigo e com alguns do atores com quem vai contracenar e à tarde já fazemos um ensaio!
E lá fui eu!
Muito simpático o filho, Anthony Shaw, recebeu-me muito bem, demos uma volta por aquele imenso complexo, o Universal Studios, um mundo, e depois do almoço levou-me para a primeira tomada. 



Olha, tive que “vestir” um ar sério, para acabar com o negócio ruinoso que o “meu filho” estava a preparar.  O pessoal parece que gostou, e eu fiquei a suar de tão nervoso que estava.! Depois mais umas cenas, que continuaram no dia seguinte.
Vê lá tu que me tornei um “astro” de Hollywood”! Deram-me até um cartão, tipo passe, para lá entrar quando quiser.
E agora quando vais estrelar um longa metragem?
Como imaginas nunca mais lá devo pôr os pés. Mas para um velhote como nós, foi uma bela aventura, que fez enorme sucesso na minha família. Até hoje perguntam-me quando podem ver o filme! Eu nem sei como se chama e creio até que era só para a TV.
Antes de vir embora fui novamente cumprimentar a Angela Lansbury, que sabia da minha atuação, e ainda nos rimos com isso. E pronto. Vê lá tu, nunca a gente sabe o que nos espera.
Fizemos essa graça ao escrever-lhes em 1946 e tens, 70 anos depois, o remate dessa brincadeira! Sensacional.
Um abraço de despedida, com um até sempre.
Quem sabe ainda o vejo no cinema... feito galã!

Dez. 2018