segunda-feira, 7 de janeiro de 2019


Uma Ínclita Geração

Não, não esqueci. Como poderia, mesmo tantos anos passados? Segundo documentos arquivados (quase na Torre do Tombo!) desde o Natal de 1947, quando, gentil, ofereci a uma gatinha um magnífico presente, aquele para que as minhas mais que limitadas posses permitiram: um pequeno, micro calendário para 1948.
Tinha a Bela garota 13 anos e o Chique galã acabado de fazer 16.
Vejam só a beleza do presente (com régua e tudo para se ver a grandeza da oferta)

Os anos correram, os enfeitiçados cresceram, e um dia, a vida profissional consolidada, a minha Mãe, como mandava o cerimonial da época, foi pedir a mão da donzela, que havia já quase sete anos nos havíamos mutuamente escolhido para vivermos juntos o resto das nossas vidas.
Quem pede a mão, os futuros sogros têm a “obrigação” de entregar o “material” todo, e um mês depois nos uníamos na Igreja da Lapa, e mais treze dias passados o “noivo”, já saudoso, triste e acabrunhado, seguia para Angola, só, para reconhecer o terreno, onde iriam começar três meses depois a construir juntos as suas vidas.
Ao receber a mão da linda e apaixonada donzela foi o noivo presenteado com outra mão, desta vez uma boa mão cheia de outros parentes, tios e primos que passaram a fazer parte integrante e duradoura da nova família.
É de alguns deles que hoje vou recordar umas facetas curiosas.
Tios da minha mulher que, desde antes de termos casado me consideravam já como membro quase genético da sua família, e eu os estimei sempre muito.
Quatro irmãos, um deles sogro, e um primo da mesma geração. Tudo gente de magnífica formação e os quatro costados bem assentes em sangue, tradições e conduta na vida.
Todos de grande nível intelectual e de muita simpatia. Não foi só D. João I que deu origem a uma Ínclita Geração. Esta pode, e deve, ser assim tratada. Com o Dom precedendo o primeiro nome próprio, Dom, do latim Dominus, uma distinção feita pelos reis a pessoas da nobreza que se haviam distinguido.
Os quatro irmãos, sem exceção, sofreram com as intrigas miseráveis da PIDE. Eram pessoas da mais alta distinção e muita simplicidade que isso fazia inveja àqueles mentecaptos delatores e pseudo chefes duma polícia secreta.
Comecemos pelo mais velho, o Dom José, o tio Zé.
Estudante fraco, mas apaixonado por música, muito cedo já se exibia como bom violonista, fez parte do Orfeão da Universidade de Coimbra, acabou por se formar em Fisíco-Química, bem tarde, e no Instituro Superior Técnico de Lisboa, passando a lecionar em liceu e colégios, mas a sua vida estava fadada para a música.
Mais tarde surgiu uma hipótese de ser nomeado diretor da Casa da Moeda. Alguém “lá do alto” disse-lhe que o Salazar precisava que ele tivesse o curso de Matemática para ocupar esse lugar.
Num instante cursou Matemática, e em vez de lhe darem a direção da Casa deram um trabalho subalterno na secretaria. (Olha o problema dos irmãos com o salazarismo!)
Foi viver para Leiria e aí juntou uma centena de homens simples, do campo, operários, muitos deles que nem escrever sabiam e criou o Orfeão de Leiria. Masculino. Exibiam-se em festas, na rádio e até na TV, além de viagens que faziam pelo país e até para Espanha. Tão bem cantavam que um dia recebeu da BBC uma carta que lhe comunicava que o Orfeão de Leiria era um dos seis melhores orfeões masculinos que a BBC tinha captado.
Este tio, que recebeu por herança vários títulos de nobreza a que não ligou a mínima importância, era uma pessoa simples, mas com um sentido de humor muito especial, sempre modesto e amável com todos com quem lidava. Mas ao reger o Orfeão... virava uma fera!!! Não admitia a mínima falha, berrava com os cantores, que todos, sem exceção, tinham por ele uma verdadeira veneração.
E gostava muito de inventar histórias “estranhas”! E muita gente as engolia como verdadeiras! Gozava imenso com isso, até com os parceiros do café, lá na cidade.
Um dia foi a Lisboa com a mulher que aproveitava essas raras ocasiões para visitar umas primas, com a cerimónia própria do século XIX! Coisa que o tio Zé, simplesmente detestava. Almoçaram em casa de um dos irmãos, e a seguir ao almoço a tia aprontou-se toda para as visitas às primas, até chapéu na cabeça, e cutucava o marido, porque iam sendo horas de sair de casa. “Zé está na hora de irmos à prima...” Ele, descontraído e ausente, lia o jornal. A tia insistia. De repente ele diz: “Co’a breca! Olha esta notícia; vê o que aconteceu! Um tigre fugiu do jardim zoológico e não o conseguem agarrar!
A tia quis logo saber por onde andava o temível felino. “Parece que está pela Praça de Londres.”
-Que horror. É por aí que temos que passar. Já não vamos a casa das primas.
O tio Zé continuou a ler o jornal!
Lá por Leiria, onde moravam, a casa era nas Cortes, a uma meia dúzia de quilómetros do centro da cidade, pelo que tinha que percorrer uma estradeca de chão, estreita.
O tio Zé conduzia o seu Rover, sempre devagar e sonhando com as suas músicas. À frente surgem duas carroças, uma que ia e outra que vinha.
- “Isto não vai passar. A estrada é muito estreita.”  Mas continuava nos seus 30 ou 40/km por hora, e cada vez mais perto das carroças. “Não vai passar não.”
Não passou. Atirou as duas carroças para fora da estrada, e com a mesma calma de sempre, confirmou: “Eu bem disse que não ia passar!”
Foi um artista, um nobre simples e modesto, uma pessoa que todos adoravam. Por isso, Grande.
O Senhor Dom José Paes de Almeida e Silva (1899-1968)



A seguir veio o Dom João, o tio João, ou o Joãozinho, como lhe chamavam os irmãos. Muito jovem teve tuberculose óssea, o que fez com que ficasse com uma perna bem mais curta do que a outra. Um dos sapatos tinha uma sola grossíssima para compensar um pouco a altura, e sempre necessitou de bengala para se mexer, mas nada disso impediu que se formasse em medicina, na Universidade de Coimbra.
Desde pequeno tocava, muito bem, violino, e mais tarde, como o irmão José, fundou um belo orfeão na terra em que foi viver e que subsiste até hoje.
Logo que formado, em 1926, foi trabalhar em Chão de Couce (cerca de 40 quilómetros a Sul de Coimbra) responsável por dois concelhos, onde era o único médico. Tinha salário do Estado, e fosse o doente rico ou pobre nunca recebeu um centavo pelas consultas. Em 1939, tendo-se manifestado, junto com muito mais médicos contra a política salazarista, foi imediatamente exonerado. Sem dinheiro, era o povo da região que lhe levava legumes, galinhas, etc. que lhe permitiu manter-se, com toda a sua modéstia durante mais de um ano.
Com dois colegas e amigos abriram um hospital e voltou a ter algum dinheiro, mas sempre, sempre, as suas consultas eram gratuitas.
Como acontece com todos os médicos recebia visitas de propagandistas médicos que sempre lhe deixavam uma quantidade de “amostras”, que ele guardava num quarto vazio de sua casa, tudo amontoado no chão. Quando os recebia, abria a porta do quarto e atirava os medicamentos para cima do monte que já lá estava.
Quando em 1973 fui a Portugal, com os filhos, o João, filho, com 11 anos, quis por força ir ver o D. Afonso Henriques! Tivemos que ir a Guimarães mostrar-lhe o castelo e a estátua do 1º Rei, e no caminho, como fomos num carro descapotável, o João ficou meio constipado. Passámos em casa do tio João.
- Joãozito! - chamou-o o tio - abre aquela porta e escolhe lá o remédio que quiseres. É tudo a mesma coisa.
Quando se abriu a porta vimos o chão inundado de remédios num monte com mais de dois palmos de altura!
Uma outra vez o irmão Augusto, juiz de direito, que o foi visitar queixou-se também de alguma coisa. O irmão diz-lhe:
- Augustinho, abra aquela porta e tire o que quiser.
Quando viu o que este escolhera:
- Esses não servem. São para grávidas.
- Se servem para grávidas também servem para mim. Você não sabe nada disto!
A conversa entre todos aqueles irmãos era um espetáculo. Mas eles amavam-se muito.
Quando, no inverno se telefonava para Chão de Couce para ter notícias deste tio solteirão, era uma empregada (que dizem que... parece que...) que atendia o telefone e, com a modéstia da casa e o muito frio da região, o tio João ia sentar-se na cozinha frente ao velho fogão de lenha.
A empregada atendia:
- O senhor D. João está ao lume!
O tio João, um médico como raros, um autêntico João Semana levou a vida toda a receber e visitar doentes sem nada receber deles. Para se deslocar por aqueles campos tinha um triciclo a motor, bem rústico, e que devia ser bastante incómodo. Chovesse ou fizesse sol, lá ia o doutor atender quem quer que fosse.
Um dia a tuberculose chegou-lhe aos pulmões, mas venceu-a.
Quando aos 70 anos se aposentou o povo da região juntou-se e ofereceu-lhe um carro já preparado para ele poder conduzir.
Teria mais de 80 fui com o meu sogro – o Augustinho – visitá-lo. Lá estava no café da terra à nossa espera, ótimo aspeto de saúde, e na farta cabeleira nem um único fio branco! Diz-lhe o irmão:
-  O João! Você pinta o cabelo?
Quase indignado responde:
- Ora essa! Eu era lá capaz de fazer uma coisa dessas!
Grande e muito estimada figura da região, lembrada até hoje, a nobreza que se manifestava na sua modéstia e humildade, sempre ao serviço dos outros, foi Dom João Paes de Almeida e Silva (1900-1991)



Vamos passar para o caçula, Dom Fernando, o tio Fernando, deixando o Dom Augusto para a próxima.
O mais novo dos quatro irmãos, magrinho, formou-se, também em Coimbra, em História.
Durante o tempo de estudante foi um bom desportista, tendo pertencido à equipa da Associação Académica de Coimbra, guarda redes (goleiro) e, junto com o irmão Augusto, participaram e ganharam várias corridas inclusive de estafetas, sempre entusiasta do desporto.
Na vida profissional foi Bibliotecário da Câmara de Lisboa, Conservador do Mosteiro de Mafra onde criou uma Galeria de Arte Sacra, até hoje o elogiada, fundou em Coimbra o Portugal dos Pequenitos, uma cidade miniatura que conta a história de Portugal, e deve ser  visitada por toda a gente, uma das grandes atrações da cidade, Conservador dos Monumentos Nacionais em Leiria., Presidente da Câmara das Caldas da Rainha, etc.
Andou com a casa às costas!
Quando casou, à mulher tinha uma casa de família, antiga, com uma bela quinta, na Lousã e aí acabou por fixar residência, independente das suas obrigações profissionais.
Pesquisador incessante sobre a história, a casa estava carregada de livros, que lia constantemente.
Como os irmãos, tinha um senso de humor bem subtil.
Era obrigado a sempre se deslocar e por isso viajava muito de combóio, mas nunca queria abdicar da 1ª classe. A mulher insistia que ir em 2ª classe era mais barato e chegavam ao mesmo tempo!
Um dia lá foram os dois, carregando umas quantas malas, comprou os bilhetes de 1ª. Entraram na primeira carruagem que lhes parou em frente, entraram, instaram-se, o trem seguiu e quando chegou o “trica-bilhetes”, o revisor, diz-lhes:
- “Os senhores estão enganados. Têm bilhete de 1ª e vão em 2ª.”
Logo a tia: - “Vamos aqui muito bem; não vamos mudar.”
- “Vamos sim.”  
Cavalheiro, o tio Fernando carregou as malas todas até à carruagem da 1ª classe, para o que teve que fazer mais do que uma ida e vinda.
Quando finalmente se assentam nos melhores lugares... chegaram ao destino!
Em outra viagem levavam um farnel para comer no caminho. A tia ao comer qualquer coisa engasgou-se, tossiu e saltou-lhe a dentadura da boca que foi parar no meio corredor.
- “Fernando: pega a minha dentadura, por favor,”
- “Não. Pega você.”
Mas lá foi ele. Agarrou na dentadura colocou por fora da boca, e depois explicou:
- “Assim os outros passageiros viam bem que não era minha!”
Quando Presidente da Câmara das Caldas da Rainha, como é hábito em politiquices, tinha alguns desafetos, um deles, um velho coronel, que reclamava de tudo.
A Câmara achou que era absolutamente necessário construir uns sanitários no ponto final onde chegavam os autocarros (ônibus sem lugar para aliviar... o pessoal vinha sempre muito “apertado”) e o lugar escolhido pela Câmara foi mesmo ao lado da casa do coronel. Que não gostou!
Por vingança, o coronel passou a chamar àquele local “as Capelas Fernandinas” ao que o tio, em vez de se melindrar, sempre achou a maior graça!
Outra pessoa encantadora, alegre, muito culta, o Dom Fernando Paes de Almeida e Silva. (1905-1996)



A continuar na próxima “postagem” com o D. Augusto, o sogro, e outro D. Fernando, primo.

3 jan. 19

terça-feira, 1 de janeiro de 2019



Hollywood
Uma história quase... quase verdadeira

Vamos começar o ano afastando do pensamento, se possível, os problemas políticos, sociais, nacionais ou mundiais, esperando que não apareçam mais cretinos a quererem julgar o Brasil através dos seus olhares de indivíduos traídos e que ainda choram, com profunda má educação, terem perdido a mulher para outrem.
Há uns setenta anos, um grupo de amigos, colegas, na faixa dos 16 ou 17 anos, lembraram-se de escrever às grandes e lindas estrelas de Hollywood, pedindo-lhes uma fotografia. Era costume na época, e as garotas faziam o mesmo aos galãs, que sempre respondiam. E apostaram quem ia ou não receber!
Não faço mais ideia como foram obtidos os endereços, mas estou a pensar que escrevemos somente Mis... – Hollywood – USA. A verdade é que as cartas chegavam ao destino.
A maioria escolheu as mais lindonas, sexys, pin-ups, como a Ava Garder, Heddy Lamarr, Doroty Lamour, Ingrid Bergman, Judy Garland, Jane Russell, Mauren O’Hara, e o meu amigo Fernando, mais descontraído, escolheu uma que não estava no topo das bonitonas, mas era uma “gatinha” bem simpática, Angela Lansbury.
Passa algum tem, não lembro já quanto (mas se compararmos com os Correios do Brasil, o “ir e vir” teria sido quase um fax!) e começam a chegar as respostas.
Quase todos receberam as fotografias das lindésimas em postais impressos, com uma pseudo assinatura também impressa, “With love...”, até que chegou a foto da Angela Lansbury, a única que vinha assinada à mão, com caneta por cima da foto! Um sucesso.
E vejam bem que a escolha foi acertada!


O ano passado, cruzo-me na rua, em Lisboa, com um “velhote, como eu”, olhámos um pedaço um para o outro a tentar definir se nos reconhecíamos. Avancei:
- Estou a reconhecer alguns traços na sua cara mas não sou capaz de me lembrar de quem e de onde conheço.
- Curioso. O mesmo se passa comigo. Eu chamo-me Fernando Moura Dias.
- !!!! Fernando Moura Dias!!! Eu sou o Chico Amorim!
Companheiros de estudo e do mesmo curso, caímos nos braços um do outro. Não nos víamos há mais de sessenta anos!
Estávamos no Rocio, ainda a Pastelaria Suíça funcionava, e logo escolhemos uma mesa, lá dentro, sossegada, para darmos largas a conversas que durante tantos anos não tivemos. Queríamos saber tudo: como foi a vida profissional, a família, saúde, onde vives, etc. O trivial. A conversa fluía fácil, saudosa, com entremeados tipo “lembras-te daquela vez que fizemos...”, se lembro!, e “aquela cena na aula de...”
As horas corriam rápidas, iam passando e lá fora escurecendo, e nenhum dava por isso.
Num instante as duas vidas se desenrolaram. Ambos passados os oitenta, mas de boa saúde, estiveram por África, tão grande, que unicamente souberam que o outro por lá andava sem jamais se terem encontrado.
Os dois com filhos e netos em quantidade razoável, e do mesmo modo espalhados pelo mundo.
Fernando que foi quem escreveu para a Angela Lansbury, não conseguiu segurar a história de termos escrito às atrizes de Hollywood! Desta vez bem acrescentada.
-Lembras-te quando escrevemos às atrizes de Hollywood?
- Se lembro. Foste o único que recebeu um postal assinado à mão!
- Fui mesmo. Guardei a famosa foto alguns anos até que ela se evaporou no tempo, mas sempre conto essa história a que achava muita graça.
Muitos anos passaram. Vieram filhos e netos, e um dos filhos, casado, a viver nos Estados Unidos, em Los Angeles, levou o pai até lá para assistir ao casamento de uma neta, e mesmo com a velhice a bater, e mexer com a lombada, foi lá passar algum tempo.
Perto na Meca do cinema, mais uma vez contou a história do postal da Angela Lansbury, quando o filho lhe diz que ela continuava viva, e mais, ainda a trabalhar com muito sucesso no teatro e na TV.
- Interessante. Gostava de a cumprimentar o mostrar-lhe o meu apreço por ela. Deve ter uns 90 anos!
- Pai, vou-me informar onde ela mora, e se conseguir, não custa nada lá ir, e tentar visitá-la.
- Loucura. Esquece.
- Deixa comigo.
No dia seguinte o filho traz-lhe a informação completa: endereço, horário provável de a encontrar em casa, etc., e estabeleceram logo uma estratégia: primeiro ir a uma loja de flores e mandar um lindo ramo com um bilhete meio enigmático:

With much respect and admiration
An admirer since 1946

mas que fosse entregue só às 4 horas da tarde. Depois aparecer lá em casa uma hora depois, apresentando-se como o “admirador” que mandou as flores.
E assim se fez. Tocou à porta, foi recebido por um mordomo, deu a conveniente informação e disse que simplesmente queria cumprimentar a Dame Angela.  Nada mais do que isso e que não demoraria, porque além do mais não queria incomodar a senhora.
O mordomo retirou-se, volta uns instantes depois dizendo que a senhora o ia receber.
Fernando teve um choque. No fundo não esperava ser recebido.
- Sabes que eu estava até envergonhado, mas ela recebeu-me tão naturalmente que quebrou o gelo. Ofereceu-me uma xicara de chá, mandou-me sentar, e estava curiosa para saber o porque de 1946. Contei-lhe a história das fotos. Ela achou a maior graça e disse-me que nunca mandara fotos impressas. Sempre achou que as fotos impressas eram como folhetos de propaganda!
Depois fui-lhe dizendo que tinha acompanhado a maioria das suas peças, a conversa corria agradável, com ela sempre sorridente e atenciosa.
Entretanto chegou o filho, a quem a mãe me apresentou, contando a história da foto, e que tinha achado muito simpático que eu a tivesse ido visitar.
O filho é diretor de cinema. Vira-se para mim e diz-me que está à procura de um ator coadjuvante, para fazer uma pequena, mas importante cena no filme que está a produzir e, ao olhar para mim via exatamente o perfil da pessoa que procurava, e dispara: O que acha fazer duas ou três cenas no meu filme?
Imagina o meu espanto! Fiquei sem saber o que dizer, mas tive que confessar que nunca tinha representado.
- Não, senhor, isso é o que nós fazemos durante toda a vida; é representar! O papel é simples mas precisa de alguém com boa presença e firmeza. O senhor estaria perfeito.
Contou-me então como seria o papel: eu, grande empresário, já aposentado, tinha entregue a conduta dos negócios ao filho e outros sócios. Mas com a impressão que algo estava a correr mal e sabia que tinham convocado uma assembleia geral para decidir se vendiam ou não parte do grupo empresarial. Aí eu entraria na sala a meio da discussão, contra o espanto de todos, e ponho fim a esse disparate que eles estavam a ponto de cometer.
A minha intervenção tinha que ser clara e dura.
O que lhe parece? Eu disse-lhe que a bem da verdade me parecia uma loucura, mas...
Disse-lhe que estava em casa do meu filho e ele foi avisando: amanhã, aí pelas dez horas vai um carro buscá-lo. Falamos sobre a peça, almoça comigo e com alguns do atores com quem vai contracenar e à tarde já fazemos um ensaio!
E lá fui eu!
Muito simpático o filho, Anthony Shaw, recebeu-me muito bem, demos uma volta por aquele imenso complexo, o Universal Studios, um mundo, e depois do almoço levou-me para a primeira tomada. 



Olha, tive que “vestir” um ar sério, para acabar com o negócio ruinoso que o “meu filho” estava a preparar.  O pessoal parece que gostou, e eu fiquei a suar de tão nervoso que estava.! Depois mais umas cenas, que continuaram no dia seguinte.
Vê lá tu que me tornei um “astro” de Hollywood”! Deram-me até um cartão, tipo passe, para lá entrar quando quiser.
E agora quando vais estrelar um longa metragem?
Como imaginas nunca mais lá devo pôr os pés. Mas para um velhote como nós, foi uma bela aventura, que fez enorme sucesso na minha família. Até hoje perguntam-me quando podem ver o filme! Eu nem sei como se chama e creio até que era só para a TV.
Antes de vir embora fui novamente cumprimentar a Angela Lansbury, que sabia da minha atuação, e ainda nos rimos com isso. E pronto. Vê lá tu, nunca a gente sabe o que nos espera.
Fizemos essa graça ao escrever-lhes em 1946 e tens, 70 anos depois, o remate dessa brincadeira! Sensacional.
Um abraço de despedida, com um até sempre.
Quem sabe ainda o vejo no cinema... feito galã!

Dez. 2018


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018




2019


Passou o Natal... onde o deixaram passar. Vem agora outro ano. E em todos os lugares do mundo as gentes se interrogam como será o 2019!
Países desenvolvidos, em desenvolvimento, estagnados na linha de pobreza, em guerra, subjugados por governos ditatoriais, sejam eles de qualquer extrema, como comunistas, teocráticos, oligárquicos, todos têm uma imensidão de problemas, quando pensamos no que se espera em termos de equilíbrio entre as populações.
Nos “grandiosos” Estados Unidos da América, onde crescem fortunas como cogumelos, a classe média está cada vez mais abaixo da média, a Europa cada vez mais dividida, a Espanha com governos a quererem perverter o entendimento, a França que queria avançar no equilíbrio e está cada dia mais desiquilibrada, a Alemanha, a Hungria, e até a Suíça que se julga o topo do mundo deve pensar que só outra guerra salva os seus gananciosos bancos!
Pelo Oriente, médio e longínquo, vê-se, o que dantes se chamava o “perigo amarelo” a expandir o seu domínio sobre tudo e todos – África, Europa, Américas, e mares da China – os muçulmanos, xiitas e sunitas, em vésperas duma guerra grande, feroz, mortífera, que começou há 1.500 anos, o covarde genocídio que a Arábia Saudita está a perpetrar no Yemen, com o apoio dos EUA e de outros países europeus, a Síria, onde a Rússia e os EUA se digladiam e experimentam nossos armamentos sobre a cabeça de miseráveis sírios, arménios, drusos, curdos, assírios e outras minorias, sem esquecer que por todo o lado, com ênfase na América Latina, a extrema esquerda não deixará de lutar, e muito, para voltar a se banquetear com os dinheiros públicos e champanhe francês, o que podemos esperar no próximo ano?
E Moçambique que estava tão bem e agora recomeça o desiquilíbrio no Norte?
O Brasil venceu uma luta que parecia impossível, mas o adversário não descansa, não dá tréguas e gosta de matar quem se lhes opõe.
60 milhões votaram em quem lhes mostrou que poderia pôr ordem e condenar bandidos e corruptos. Hoje bem mais do que 80% da população está animada e cheia de esperança aguardando Janeiro para ver o país começar a andar, e ser internacionalmente reconhecido como um “país sério”!
Há quase um século Stefan Zweig escreveu que o Brasil era o país do futuro. Passaram quase 100 anos, e nos últimos 13 ou 14 os governos tanto roubaram e malbarataram que o país em vez de caminhar para a frente regrediu algo em torno de oito a dez anos.
Votos para 2019?
Para todo o Mundo, a Paz. Impossível, mas é o que, certamente, deseja a maioria do 7,5 bilhões de seres humanos.
Mas não vou ser tão ambicioso, e dadas as condições em que o Brasil tem vivido os últimos anos, o que mais desejo é que o novo governo ponha ordem e respeito na casa. Que o país possa progredir. Que reformule a educação. Que se controle o judiciário partidário e que brinca com o país fazendo deste um joguete nas suas covardes canatadas, o senado e as câmaras legislativas onde têm reinado centenas, centenas de membros condenados pela justiça, mesmo sabendo que são órgãos independentes, que reduza o desiquilíbrio abissal entre os mais pobres e os mais ricos, e mais uma infinidade de situações que, sabemos, levarão anos a regularizar.
Mas a esperança é a última coisa que morre com o homem.
Os meus votos vão para o novo governo. Que cumpram o que prometeram. É difícil. Muito.
Mas é o que os mais de 200 milhões de brasileiros desejam (exceto os derrotados que tudo vão fazer para atrapalhar e torpedear).
Bom Ano Novo, Brasil.

dez. 2018

terça-feira, 18 de dezembro de 2018



2018

Como está a ser difícil falar sobre o Natal, o tempo da Família, do Amor entre TODOS os Homens, da Paz, ao ver que cada vez mais se procuram destruir os valores da Família com essa vergonhosa onda da “igualdade de género”, os países a crescerem nas suas indústrias de armamento para destruir a Paz, com armas sempre mais eficazes na morte e destruição, sendo já tão frágil a que existe hoje, com a invasão do ódio islâmico pela Europa e por todo o Mundo, pelo fosso astronomicamente crescente que separa os mais ricos dos mais pobres, pela falta de sensibilidade que está destruindo os corações e a vida das pessoas e pela destruição do Meio Ambiente, da Natureza.
Pela desvairada ganância.
É tão verdadeira a frase: “A Natureza não precisa do homem, o homem é que não vive sem ela”, se até os gigantes dinossauros desapareceram.
É costume nesta época desejar Boas Festas, Feliz Ano Novo, e outras mensagens que nem pensadas já são de tão gastas e, a maioria das vezes, sem qualquer sentido.
Como desejar a alguém Festas Boas quando se olha à volta e se vê que dois terços da humanidade vive em atroz infelicidade?
Ou como desejar um Ano Novo Feliz? Fecharmos os olhos, ouvidos e o nosso sentir, para fingirmos que estamos a acreditar na felicidade do próximo ano?
É evidente que ainda boa parte das pessoas de boa vontade procura lembrar com um pouco mais de carinho os parentes, próximos e longínquos, os amigos, e até, os de coração mais verdadeiro, dos inimigos.
Nesta quadra, a minha vontade seria de me poder isolar totalmente do mundo. Não para abandonar os que amo, os que conheço e ou desconheço e até os que nem amo nada! Mas recolher-me, ouvir o silêncio, procurar sentir que me aproximo mais de todos, que talvez consiga purificar um pouco algumas ideias de violência que, face a este mundo violentíssimo, muitas vezes me acodem ao espírito.
É evidente que o meu desejo é simples: que todos, todos, nesta quadra, e sempre, se lembrassem dos outros, não como simples seres viventes, mas como irmãos.
Utopia?
Sim, total.
Desde que o homem começou a pensar, logo estabeleceu hierarquias para poder tratar mal a maior parte do seu semelhante, mais fraco. A criar mecanismos, a que chamou de religiões, para que houvesse, sempre, os que sobrenadam sobre o sangue dos que para eles têm que trabalhar. A guerrear e matar aqueles que lhes pudessem aumentar ainda mais o poder.
Um dia chegou aquilo a que se acordou chamar democracia, palavra desgraçadamente vazia, porque só pode haver democracia, onde todos sejam realmente iguais, quando TODOS tenham as mesmas oportunidades de educação e de meios, dignos, de subsistência.
Entretanto democracia é uma palavra que ofende.
Será que nesta quadra do Natal se pode simular que todos somos iguais perante a lei e perante os recursos económicos? Não pode.
Então como é que posso desejar Festas Boas e Felizes? A quem? Só aos que estão acima de um certo nível de vida? E aos outros bilhões?
Prefiro não desejar nada disso. Vou mandar um abraço, católico, "katholikos", que quer dizer, “para todos”, universal. Aos que conheço e aos que imagino que existam.
Para lhes dizer como seria belo o mundo se todos se abraçassem!

Dez. 2018

sábado, 15 de dezembro de 2018




O (quase famoso) Palace dos Amoríndios, teve a honra de ter recebido sob o seu teto uma ilustre amiga de há muitos anos que, além do muito prazer que nos deu, veio quebrar um tanto a rotina dos hospedeiros.
Foi muito bom. Aproveitámos para falar de muita coisa, esquecemos o calor, já a arrefecer, da polarização das eleições, recordámos alguns episódios dos nossos encontros através da vida, e ainda fui contemplado com um belo livro, o Teatro das Sombras.
E agora, como dar uma opinião sobre este livro, mesmo um pequeno comentário, que sempre gosto de fazer?
Uma vintena de contos, buscados e transformados, parecendo todos vindos da memória do escritor, onde em muitos deles não consegue esconder experiências muito interessantes durante a sua vida de diplomata profundamente integrado em todos lugares por onde passou.
Os retratos de personagens que tão bem descreve, sempre com um humor carinhoso, vão do caricato ao dramático, algumas delas chegam a parecer que a intenção foi camuflar situações de menos prestígio que alguns deles terão vivido.
Não é difícil, enquanto se vai lendo, imaginar que estamos a assistir a pequenos filmes, um pouco maiores do que aqueles que fazíamos há muitos anos em 8 mm. É um imenso recordar de vivências a que, com muito detalhe e cuidado, se dramatizam as situações dando-lhes um final que quase sempre nos faz soltar o riso.
Vê-se que o autor se deve ter divertido recordando passagens relativamente caricatas e cómicas que lhe foram passando pela vista através dos anos, sem querer pôr alguém em situação complicada, que o seu feitio de grande senhor, e grande observador, lho impediriam.
Mas tem muito conto que um dramaturgo habilidoso poderia aproveitar e criar scripts para levar à cena, no teatro ou no cinema, histórias que merecem ser vividas, apreciadas e aplaudidas por um grande público.
Algumas passagens do livro são peças antológicas, como não podia deixar de ser para quem tinha um grande dom para a escrita, e que me permito aqui reproduzir, muito resumidamente, por palavras minhas. A descrição do autor é muito mais rica.
- Dois irmãos, que herdaram uma substancial fortuna resolvem correr mundo. Em Taipé ouvem falar que um dos mais notáveis pratos gastronómicos é cobra, mas que tem que ser comida em restaurantes especiais. A dificuldade está no falar chinês para pedirem que alguém lhes indique um dos tais restaurantes especializados.
- No hotel fazem num papel o desenho de uma cobra e o gesto de comer e a recepcionista escreve, em ideogramas, o local onde devem ir. Lá chegados, uma espécie de boteco, onde estavam várias garotas com sorrisos amalandrados, cheio de cobras, vivas, de várias espécies, escolhem uma, o dono prepara, comem e desapontados acham o prato sem qualquer sabor. Ao velho chinês que lhes tinha dado essa indicação contam a sua opinião.
- Vocês foram comer a cobra a uma farmácia. Ali a ideia é a comer um afrodisíaco.
- Mas nós não sentimos nada!
- Tem razão. Só sente quem quer.
À mistura com estas anedotas, rebuscadas em histórias que foi ouvindo, há outras com cenas de esoterismo igualmente caricatas.
Tudo escrito com muita qualidade e com o delicado, mas oportuno humor que o nosso querido amigo e que foi grande embaixador, ANTÓNIO PINTO DA FRANÇA, sempre soube passar aos seus livros.
Obrigado, Sofia.

Livro para ler no Natal, no Ano Novo, no Inverno ou no Verão. Os que comprarem o livro... verão!

12-dez-18

domingo, 9 de dezembro de 2018




Amigos – 17


Há cerca de meio século, certamente já passado, trabalhava na mesma empresa do que eu, um ainda jovem angolano, o motorista, sempre prestável, simpático, com quem foi fácil criar um vínculo, não só de respeito mútuo, por eu ser o “chefe”, mas sobretudo de amizade e entendimento.
Conversávamos, vez por outra íamos tomar uma cerveja juntos, e era impossível não gostar dele.
O Luis Alexandre Neto.
Casado, nasceu-lhe mais um filho, o terceiro, e convidou-me, com a minha mulher, para sermos o padrinho da criança a quem se deu o nome de Alexandre, convite que muito nos sensibilizou e honrou.
Morava no Bairro Prenda, numa casa modesta mas muito arrumada.
Pequena cerimônia na igreja, um simples beberete, uma “festa” sem luxo, mas grande na sua simplicidade.
Não passou muito tempo fui transferido para Moçambique, tendo perdido o contato com essa família.
Quando regressei a Luanda, já depois da revolução, antes de lá sair definitivamente, a cidade vivia um “estado de sítio” extremamente complicado. Ninguém procurava ninguém.
Os vários grupos políticos, sobretudo MPLA e FNLA, guerreavam-se (por cima da nossa casa assobiavam balas, e ouviam-se bazucadas, as entradas nas favelas eram rigorosamente controladas) e só uma vez consegui encontrar o meu compadre quando o fui procurar no trabalho, na mesma empresa em que sempre trabalhou.
Triste, como eu, com a situação, lá me contou que a família, estava toda bem, se alguém pudesse estar bem no meio daquele inferno, e o afilhado, que teria uns dez anos, lá ia estudando e crescendo.
Voltei a Luanda duas vezes em 1991, quando houve uma pequena trégua na guerra entre o MPLA e a UNITA. A empresa onde ele trabalhava, das poucas vezes que lá fui, encontrei a porta fechada. Foi-me impossível saber onde o encontrar, até porque as favelas não tinham nome de ruas, e eu não tinha a quem perguntar por ele.
Só em 2006, quando lá cheguei depois da travessia Rio-Luanda no “Mussulo”, conheci pessoalmente o Manuel de Sousa, amigo via internet desde alguns anos, e foi quem, com os seus conhecimentos e muito trabalho conseguiu saber onde o encontrar. Levou-me por caminhos que só alguém que lá vive teria capacidade de percorrer, perguntando aqui e além, quando começou a ser mais fácil nos orientarem, porque o respeitado “Kota Luis Neto”, vivia naquela área desde sempre.
Eu lembrava-me que a casa, grande para o meio onde se encontrava, ficava numa esquina de duas ruas largas, mas a favela tinha crescido de tal forma que até as ruas foram ocupadas por novas casas pouco mais do que palhoças.
Tivemos que deixar o carro um pouco longe e seguir por vielas onde nalguns lugares não se podiam cruzar duas pessoas. A casa tinha ficado cercada, abafada, por novos moradores.
Basta pensar que em 1975 a população de Luanda, entre a cidade urbanizada, das classes média e alta, e das favelas, teria cerca de 400.000 pessoas. Em 2006 calculava-se, porque nunca se fizera um recenseamento, talvez uns 5 ou 6 milhões!
Finalmente lá chegámos.
Foi um encontro de grande significado! O afilhado, nascido e batizado em 1964 era major do Exército. Que bom. Tinha feito a guerra, foi sendo promovido a Primeiro Sargento e por fim nomeado oficial. Disse ele que major era um posto que ninguém considerava, e que para passar ao grau superior estava a fazer um curso para tenente-coronel, onde então poderia adquirir um estatuto de bem mais alto nível e valor.
O pai, o meu querido e humilde amigo, grande no coração, não estava passando bem.
Caímos nos braços um do outro sem tempo para disfarçar as lágrimas que teimavam em correr-nos pela cara. A Comadre, magrinha, velhotinha como todos nós, chegou mais tarde. Ainda trabalhava, modesto trabalho nos correios, sabendo que tinha a visita do compadre veio correndo. Que abraço bonito! Meu Deus. Perguntou muito por todos os meus, mandou um filho buscar cerveja e refrigerantes e um bolinho!
Sorria com uma transbordante simpatia, ao ver outro velhote que, ela sabia que apesar de tantos anos e tantos milhares de quilômetros de separação, jamais os esqueceu.
Um dos netos, talvez com uns dois anos, sentou-se ao meu colo, muito espantado com a minha barba, passava a mãozinha e sorria, mas não deixou que alguém o tirasse dali!
2006

Os outros filhos presentes, admirados por tão insólita visita, foram buscar um velho álbum de fotografias em que lá estávamos, ainda jovens os três velhotes, e até o pai José Guilherme Pereira Caldas. Era muita emoção junta! Mais ainda por se sentir que talvez, só talvez, fosse esta a última vez que se viam e abraçavam!
No livro “MUSSULO – Um Abraço à Vela”:
“Manuel de Sousa mandou depois para o Brasil o relato do que tinha presenciado: ...lá para o interior do aglomerado de casebres e becos do Bairro do Prenda, um Compadre, o Afilhado, a Mãe e alguns dos filhos do primeiro, que já não revia há muitos anos - aqui houve o contar de inúmeras histórias, revisão de fotos antigas de amigos comuns e de família e algumas lágrimas caídas e sorrisos de alegria expansiva à mistura.

2007

O dia terminado, o sol já escondido atrás da fortaleza de São Miguel, mais uma vez sentado na esplanada do CNL, (o Tio) olhava para aquela cidade que lhe tinha visto nascer tantos filhos, e da qual se estava também a despedir, num atropelo de sentimentos difíceis de explicar. Angola lutara contra o colonialismo durante... quantos anos? Sempre! Mas houve uma época, enquanto a guerra colonial fazia as suas vítimas, que um estreitamento de relações entre as gentes se acentuou. Contra-senso? Talvez. Mas em quantos contra-sensos se tropeça durante a vida para se vir a concluir que são essas as grandes verdades?
Quem viveu Angola intensamente, conheceu o seu interior, contatou com o seu povo, sabe quanto isto é indiscutível.”
E inesquecível.
Ainda nos voltámos a ver no ano seguinte, quando fui novamente a Luanda para lançar o livro. A perna não estava melhor.
E não soube mais daquela família, mesmo tendo pedido notícias, por várias vias, que nunca vieram.
Que saudade!
Como eu faço votos para que tenham saúde e um Santo Natal.

08/12/2018