quarta-feira, 24 de outubro de 2018



Amigos – 12 a

Vou fazer como nalguns lugares que evitam o número 13 por causa dos supersticiosos, o que não deve perturbar muito o espírito dos amigos a quem dedico estas pequenas passagens pela vida.
Começo por um membro da minha família.
Tinha mais uns cinco anos do que eu. Pertenceu a uma numerosa família, e na devida altura foi estudar agronomia. Forte, gostava de luta, fanático jogador de rugby, um dia pegou-se de razões com um professor, deu-lhe uns tapas e... foi expulso do Instituto, quando estava a meio do curso!
Ainda solteiro, ele e eu, ambos desempregados, sem sabermos um do outro, no mesmo dia fomos oferecer a nossa força de trabalho a um tio milionário, mas mesquinho.
Comecei por lhe dizer que gostava de ir para África e sabia que eles tinham lá uma imensa propriedade, onde eu poderia bem desenvolver os meus conhecimentos. Respondeu-me mais ou menos assim: Angola é uma mééé... e eu não quero saber daquilo para nada! Depois diz-me com ar que me dispenso de classificar que fosse vendo os anúncios dos jornais e se aparecesse alguma coisa, ele, que disse, conhecia muita gente poderia dar uma mãozinha!
Fiquei p. da vida e saí de lá com vontade de o mandar... para Angola!!!
À noite encontrámo-nos em minha casa, casa da minha mãe, e ele eufórico diz-me que tinha ido falar com o mesmo tio “m” e que ele o nomeou logo gerente de uma fábrica de farinhas!
Eu, o sobrinho – por afinidade – que ele mais elogiava, mandou ver os anúncios nos jornais, o outro, pretendente a sobrinho foi logo admitido!
Coisas.
Casou dois anos depois de mim. Uma noite, já não sei se casados ou solteiros fomos a uma boite lá prás bandas do Estoril, devemos ter dançado, bebido uns copos e não lembro porque nos desentendemos. Ele era bem mais forte do que eu, ameaçou-me logo de me “dar porrada”! Como é evidente não nos íamos envolver ao tapa ali dentro e disse-lhe: Se isso te dá muito gozo, o melhor é dares-me logo um soco e pronto. Acalmou. Rimos e o assunto ficou resolvido.
Carnaval de 1956. A minha irmã ainda solteira, eu, casado e segundo filho a caminho, tinha comprado um “carrão”: um Rugby 1926. Uma delícia. Saímos à noite para a farra, acompanhados da noiva e ainda da minha mãe.
Começámos por tomar um café na “Versailles”, Lisboa. À saída o carro não pegou, mas como o velhinho fazia muito sucesso, saíram logo uns quantos clientes voluntários que empurraram o carro e lá seguimos os cinco, para uma boite em Paço de Arcos. O prédio da boite tinha, já dentro, uma escadaria que levava ao âmago da “farra”. Quando começámos a subir aparece um casalinho, vestido de Arlequim ele e ela de Columbina, que pareciam querer ir embora. Ela tropeça ao descer o primeiro degrau, voa pelo ar e cai nos braços do meu (futuro!) cunhado. E ali fica ele, parado a meio da escada com uma Columbina, muito bem instalada nos braços, braços do valeroso salvador, o Arlequim entupido, sem graça, pensando já perder para o salvador a sua amante, e o restante de nós à gargalhada.
O Carnaval podia ter acabado ali. Uma cena destas não se repete na vida de ninguém.
Nos jantares de família, irmãos, a sua presença era fundamental. Sempre bem disposto. Houve vezes em que depois do jantar nos sentávamos os dois no sofá, abríamos a lista telefónica e “cantávamos os nomes e endereços” que ali apareciam em “ritmo” gregoriano! Um cantava o nome e o outro a morada! Uma beleza!
Era um sujeito generoso e com uma tremenda sorte no jogo. Tinha até visões estranhas. Mais de uma vez, seguindo de carro pela estrada, fixava os olhos na placa do carro da frente, gostava do número e comprava a loteria com esse número. E saia-lhe! Depois distribuía o dinheiro pela mulher, irmãos, o que calhasse.
Um dia a minha irmã e ele foram estar conosco uns dias em Lourenço Marques - Maputo  - depois da desgraça que se tinha abatido sobre nós com a perda de um filho. Entretanto fomos a Johannesburg onde havia a feira anual de agricultura.
Saímos cedo do hotel, deixando as mulheres ainda no descanso. Quando entrámos no elevador já descia uma família de fazendeiros sul africanos, boers, papai, mamã e um casal de filhos na faixa dos 15, 16 anos. Enormes, todos! Nós os dois, na faixa de 1,77m. parecíamos, e éramos, os baixinhos!
Depois na exposição, ele jamais imaginou o quanto aquele país, africano, ainda em pleno apartheid, estava desenvolvido, e se extasiou perante a maravilha dos animais exibidos: gado vacum, porcos, carneiros, etc., todos enormes, lindos. Imponentes. E mais as máquinas e a organização. Não esperava encontrar aquele nível de desenvolvimento, e ao fazer comparações com Portugal... Esquece!
Não demorou depois disto a chegar o famoso tempo dos cravos nas espingardas, que arruinou tanta gente. Empresas que fecharam, ou foram nacionalizadas e espoliadas, gente perseguida porque não era da cor, e a vida tornou-se difícil para muita gente, incluindo para ele. Ainda lutou uns anos, mas a sua alegria de viver tinha sido abalada. Foi entristecendo e deixando-se ir.
Grande parceiro. Guilherme d’Orey Mouzinho de Albuquerque Gaivão, o Gui.



§          §          §          §          §

Não foi esquecimento, mas por falta de espaço que deixei para diante outro colega.
Feitio complicado, o que não impediu que a nossa amizade, por vezes com aparência de acabada, perdurasse sempre.
Nos primeiros anos dormiamos no mesmo quarto, e o "artista" já começava a mostrar a sua faceta "rabo de saia". Tinha uma namorada em Lisboa, mas tinha ido nesse dia a Évora e houve por lá uma festa não sei onde. Voltou eram umas duas horas da manhã, boa dose de copos no bucho, acorda-me, e diz-me que era "um infanticida"! - Eu estremunhado: Mataste alguém? - Não mas pedi namoro à "X" e tenho uma namorada em Lisboa. Além disso esta é muito mais nova do que eu"! - Dorme. Amanhã vamos discutir esse complicado assunto"! O que eu queria mesmo era continuar a dormir!
Um dia, não sei que desaguisado nos opôs, certamente na discussão de algumas “profundas e filosóficas” opiniões, quase terminámos à chapada. Uma besteira qualquer a que eu não dei importância, mas que para ele foi o suficiente para deixar de me falar, o que para mim não fez qualquer diferença.
A Escola estava a 12 quilómetros de Évora, dinheiro de bolso para gastar era coisa rara, tanto mais que para irmos farrar precisávamos de um taxi que nos fosse buscar e outro levar de volta. E isso já era muita grana!
Já no último ano, quartos individuais, as antigas e austeras celas dos monges capuchos que ali se tinham instalado no século XVI, num edifício sempre belíssimo, quando já nos preparávamos para dormir, ouço chegar um carro. Coisa rara àquela hora. Corremos para ver o que era. Um taxi trazia um professor.
Moral da história, tínhamos transporte de borla até à cidade e só teríamos que pagar o regresso.


O Colégio Velho. Antigo mosteiro, Século XVI

Fui desafiar o meu “inimigo” para que nos acompanhasse.
- Eu não falo contigo.
- Nem é preciso. Vamos para Évora, bebemos uns copos e tu falas com quem quiseres.
- E ainda te dou porrada.
- Então resolve isso rápido porque o taxi está ali parado à nossa espera. Dá logo a porrada, mas vem embora.
Foi e acabou-se a “profunda questão” que nos separara e que nem ele sabia porque! Nem eu.
Já o curso terminado estávamos muita vez juntos. Ele era vendedor dos automóveis Simca e um dia desafiou-me para ser seu co-equipier num rally da Shell. Aceitei a ideia; a minha missão era cronometrar todo o trajeto para não passarmos em controles secretos fora da média imposta. Para isso entregou-me um painel com quatro cronómetros ligados dois a dois: quando parava um o outro começava a contar e assim fomos sempre muito bem classificados. Mas... numa saída apressada para carimbar a ficha de controle, tropecei, deixei cair aquela preciosidade e dois cronómetros ficaram com seis – 6 – segundos de diferença dos outros. Qual deles estava certo? Tivémos que escolher.
Azar o nosso, escolhemos o que estava desregulado, e daí para a frente fomos penalizados em 6 segundos em todos os controles! Não fosse isso teríamos ganho o rally na categoria dos carros de passeio!
Não chorámos, rimos!
Durante anos, entre 1948 e 50 fomos sempre parceiros nas touradas: eu feito “espada” ou “bandarilheiro”, ele forcado. Depois passou a fazer parte do Grupo dos Forcados de Santarém onde seu pai sempre pegara.
Antes de embarcar a segunda vez para Angola comprei com ele um belo Simca Aronde, 1957, que fui buscar a Paris, e nas poucas vezes que ia a Portugal muito rapidamente e raras vezes nos encontrámos.
Pouco depois ele decidiu entrar nas corridas de automóveis em Monsanto, na mesma categoria dos carros de passeio. Entregou-me o conjunto de cronómetros para que eu controlasse os seus treinos; ; a seguir a esta categoria entravam os carros de corrida que deram origem, depois à Fórmula 1. Eu, entretido com os cronómetros ia controlando um ou outro, até porque no meio deles havia um primo nosso com um belo Ferrari (que nunca ganhou nada!). Um desses corredores chamou a minha atenção porque, fez umas quantas voltas sempre exatamente com o mesmo tempo. Todos os outros faziam uns segundos a mais, uns segundos a menos, mas aquele era matemático. Fui ver quem era: o Fangio. Só podia; o maior de todos os tempos.
Casou, descasou, tornou a casar e nada lhe correu muito bem. Um feitio complicado acabou porque lhe provocar a terrível doença, que atinge as pessoas já desinteressadas.
Acompanhei-o um pouco neste seu final, mas era um castigo tirá-lo de casa para irmos a um tasco qualquer comer um petisco, distrai-lo, conversar. Estava azedo.
Meu querido e complicado amigo e colega de curso Carlos Mariano de Carvalho.
Estudante ainda – Évora 1950

§          §          §

Diretor da Mobil em Angola, como se pode imaginar vivia bem. Muito simpático, sempre amável.
Em 1961 estava eu por França a fazer uma série de estudos e visitas a fábricas e feiras especializadas, para o que a Cuca me dava generosamente 500,00 escudos, o equivalente a US$ 20, por dia. Nesse tempo o Franco Francês, valia 0,80 de Escudo. Com essa fortuna eu, e minha mulher tínhamos que pagar o hotel e comer. Fomos de carro e os quilómetros a companhia pagava à parte.
Começámos por ficar numa Pension de Famille em Versailles (era ali o primeiro curso) mas como em Paris é que estava o by night, museus, ópera, etc. decidimos procurar hotel na capital. Num posto de turismo deram-me um livro com os hotéis todos, pesquisámos e encontrámos o ideal. Ao lado da Gare Sant Lazare, para eu poder ir para Versailles sem ser de carro. Só atravessar a rua. Um hotel de uma única *, mas um quarto ótimo, espaçoso, um quarto de banho enorme com banheira “quase olímpica” e por um preço muito baixo. Um verdadeiro achado, e quase no centro de Paris.
Numa visita a um dos museus encontramos o senhor diretor da Mobil, que estava em Paris a trabalho e, claro, hospedado num dos hotéis mais caros. Custava bem mais o hotel do que a ajuda de custo que eu recebia!
- Vem ver o hotel que nós descobrimos.
Fui mostrar-lhe. Ficou boquiaberto,
- Só te digo que este quarto é muito melhor do que o meu, que custa “x” vezes isto. E então o quarto de banho, também sem luxo, é um luxo!
Ficou tão entusiasmado que depois foi contar a todos os nossos amigos a descoberta que nós havíamos feito em Paris.
De bolso recheado, nesse dia pagou-nos o jantar! Haja Deus. Pagou a Mobil.
Não tenho uma foto dele, mas saudades, sempre ficam. Guilherme José da Camara Ferreira Pinto Basto. Outro Gui, Pinto Basto

§          §          §          §
Mais um da Mobil. Engenheiro, uma das pessoas que sempre me fizeram inveja! Não pelo cargo, bem remunerado, que desempenhava, mas pela facilidade com que adormecia.
Deslocavam-se a miúde, os técnicos das companhias de petróleo, à Europa, América, etc. A maioria chegava ao destino cansada de longas viagens, e bem antes dos aviões a jato, nos Super Constelation, muito confortáveis, mas que ao atravessar o continente africano sacudiam como aqueles shakers para gelo e coquetails. Eu experimentei algumas dessas viagens e chegava a pensar que para acabar com aquilo o melhor era mesmo o avião cair!
Mas o nosso amigo creio que já subia a escada do avião com, pelo menos, um olho fechado. Sentava, fechava o outro, e no destino, avião parado, todos os passageiros saídos, as aeromoças tinham que ir acordá-lo!
Viagem santa! Que inveja!
O primeiro casamento, um dia, acabou. A mulher era um bocado ciumenta. Um bocado é favor, e o nosso engenheiro era um homem alto, elegante, simpático, alegre e certamente bonito, e nem consta que andasse a saltar a cerca.
Fez um Curso de Cristandade e passou a querer compartilhar as reuniões semanais. A mulher fazia-lhe a vida difícil. Desconfiava até daquelas saídas à noite! Por vezes tinha que pedir a um amigo, como fez comigo, para lhe telefonar a convocá-lo para uma importante reunião. Passava o telefone à mulher e eu tinha que lhe explicar que tipo de reunião estava prevista, quem eram os outros participantes, e como nenhum tinha fama – nem proveito – de ser rabo de saias... lá fechava a boca e deixava o marido sair.
Era uma bela folga, para ele, uma vez por semana, quando não tinha que ouvir sermão da mulher.
Tanto falou que um dia ficou a falar sozinha!
Ele, um cara extremamente simpático, tranquilo, amigo. O Jorge Viegas.


Um “boa praça”!

23 out. 18


quinta-feira, 18 de outubro de 2018



Amigos – 12


Creio que hoje vou contar algumas coisas só de um amigo. Tivemos muita coisa que nos uniu.
Natural de Moçamedes, Cabeça de Pungo, como por lá chamavam aos naturais daquela terra maravilhosa, o pai faleceu e a família, mãe e quatro filhos – três meninas – foram para Portugal.
Em 1946 fui estudar para Évora e ali que nos encontrámos. Da mesma idade, todos nos dávamos muito bem, mas não esqueço um dia, estava eu com um forte resfriado, ou gripe, numa cama da enfermaria, e ele, que havia recebido de casa algumas guloseimas – o que era habitual entre todos os estudantes – foi ver-me e ofereceu-me uma embalagem de goiabada, a única que tinha recebido, porque eu “estava doente”! E a nossa amizade ficou fortaleceu.
Atitudes impossíveis de esquecer, apesar de já terem passado mais de setenta anos!
Para tentar se livrar dos trotes que habitualmente se faziam aos caloiros, afirmava que tinha vindo da Escola Agrícola de Xivinguiro, em Sá da Bandeira, Angola. Nunca se apurou se era verdade, mas ele lá se foi safando e ficou conhecido como “Xivinguiro”!
Passámos cinco anos juntos, a estudar e a tocar guitarra (que eu, imodesto, lhe ensinei) e nas férias, em Lisboa, onde morava, sempre nos encontrávamos. Saíamos para ir ouvir uns fados, no verão com uns mirréis no bolso íamos à Feira Popular, ou ouvir uns fados e beber um copo na velha e magnífica Adega da Lucília, no Bairro Alto, ele muita vez almoçava em nossa casa, e como costumava chegar bem cedo, para me obrigar a sair da cama e irmos rondar a cidade, as minhas irmãs, que andavam ainda pela casa sem os fundamentais cuidados dos arranjos femininos, chamavam-lhe “O Despertador”!
A família vivia com pouco dinheiro, mas no bolso dele sempre havia alguns escudos, poucos. Nos meus, pouco mais do que ar! De modo que os nossos passeios por Lisboa, regra geral eram feitos a pé!

O “galã” aí por 1948 (com a minha guitarra!)

Acabámos o curso, ele começou a trabalhar na função pública e percorria boa parte do país.
Eu entrei na empresa de que ainda fazia parte, para trabalhar com máquinas agrícolas, e um dia recebi a visita de um senhor dinamarquês que procurava um representante para equipamentos do seu país, em que se incluíam diversos aparelhos de laboratório para exame de sementes. A empresa, com um diretor menino rico, mas absolutamente incapaz, torceu o nariz, eu achei que tinha interesse e comprometi-me a cuidar do assunto. Esse senhor, Erling Foss, muito mais velho do que eu, tornou-se um amigo que até me foi depois visitar em Angola.
Um dia o avô da minha futura (e atual) mulher deixou, em Coimbra, a alma ir embora, e aí vou eu, com sogros, noiva e cunhada, acompanhá-los. Lá estava o meu colega. Alegria no encontro, fomos jantar juntos quando lhe propus que, nos seus contatos pelo país, começasse a vender os aparelhos dinamarqueses. Dividíamos o lucro. Começou assim um pequeno negócio que nos ajudava de maneira simpática no fim de cada mês.
O restaurante era pequeno, numa mesa quase ao lado estavam duas turistas inglesas. O “Cabeça de Pungo”, rabo de saias incurável, como vamos ver, meteu logo conversa, dizendo-se meu apoderado - palavra espanhola para os empresários de toureios – e que eu era um grande matador! Abre a carteira e lá tinha duas ou três fotografias minhas a tourear! As inglesas ficaram entusiasmadíssimas. Nunca tinham visto um torero! Eu não podia rir para não desmascarar aquela “cantada”. Rimos todos, conversámos e no dia seguinte não o vi mais. Tinha ido para a praia com as misses, e certamente não se espraiaram só junto ao mar! Contou-me isso uns dias depois!
Um dia disse-me que ia ter uma festa em casa dum ministro, que tinha uma filha toda gatinha.
- Se eu tinha sido convidado? - Não. - Nem eu, mas vou. - Como, sem convite?
Dia seguinte contou-me a peripécia. Vestiu o smoking, todo elegante, entrou pela porta de serviço por entravam os criados que iam servir a ceia, passou ao salão e misturou-se com os convidados.
Cara de pau, sempre metia conversa, e era bom de papo, esteve lá muito bem a noite toda.
- Bela festa. E tem mais! Pedi namoro à filha do ministro, que gostou de mim, apresentou-me os pais, e agora posso lá ir quando quiser!

1950 – Na Adega da Lucília (ou “O FAIA”?)
Lucília do Carmo, Henrique, eu e de costas o compadre dos dois: Ruy Fragoso

Namorico que durou pouco. Aí em 1956 casou, com outra (!) teve um filho, mas o casamento também não aguentou muito.
O nosso negócio continuava, sem depender de conquistas amorosas, e quando decidi voltar para Angola, ofereci-lhe o negócio todo, apresentando-o ao amigo dinamarquês, que nos mandava tudo ou em consignação ou a pagar quando tivéssemos o dinheiro, como pessoa séria e trabalhadora.
Passa algum tempo uma australiana surge em Portugal onde foi passar uns dias. Conhecê-la e... o resto, foi rápido. A australiana engravida, regressa a casa, e o nosso amigo, arruma os negócios, deixa Portugal e segue-a.
Como qualquer não inglês foi mal recebido pela família da nova parceira. Desembaraçado, decide pôr-se em contato com uma série de empresas portuguesas para as representar naquele país, ao que logo foi atendido. Louças, tapetes, cortiças, vinhos, móveis, etc., e o negócio não tardou a florescer. A família já o olhava com outros olhos (de inveja) e o terceiro filho – depois do português dois australianos – chegou.
Quando rebenta a famigerada revolução dos cravos eu sabia que tinha que sair de Angola. Ir para onde com tamanha carga familiar? Só duas hipóteses me atraíam: Canadá e Austrália.
Entrei em contato com o velho amigo e sócio que me diz:
- Vem para aqui. Eu estou bem, tenho duas lojas de artigos portugueses. 50% do que tenho passo para ti.
Foi um choque. Era uma amizade antiga, verdadeira, estruturada em cima de confiança e brincadeiras, e decidi encarar essa perspectiva. Mandei a família para Portugal e meti-me a caminho de Melbourne, preparar para lá receber a família, para o que tracei o caminho via Brasil e Chile. Antes de sair de Luanda e depois durante todo o caminho fui tentando falar-lhe, mas nenhum dos números de telefone que tinha respondiam. Fiquei meio perdido, o tempo passou e vi-me obrigado a ficar no Brasil.
Tempos depois soube que tinha estado ausente quase três meses em viagem de férias e negócios na Europa, e foi assim que perdi a ida para um país sensacional!
Durante muito tempo soube unicamente que vivia em Melbourne e pouco mais.
Muitos anos depois, aí por 1990, Agosto, lembrei-me que era o dia do seu aniversário. Não tinha já o seu número do telefone, pedi à Embratel, dando o nome da pessoa e a cidade onde vivia e algumas horas depois recebi a informação correta.
Na ocasião nem me lembrei que haveria quase meio dia de diferença horária e assim mesmo chamei.
Atendeu numa voz feminina, ensonada. Lá era uma e meia da madrugada!
- Who is calling so late?
- A very old friend, from Brasil.
Perguntei pelo menino dos anos. Dormia. Disse-lhe que o acordasse que eu estava a falar de muito longe.
- Wake up. Is a friend of yours.
Voz rouca, de sono:
- Quem fala?
- Vou já dizer quem fala porque estar com adivinhas custa caro! Sou o Chico Amorim.
- Tu estás na Austrália???
Infelizmente não estava. Pouco falámos, mas anotámos o endereço de cada um e voltámos a trocar correspondência, moderna, por fax. Uma das cartas repetia que estava bem, casado pela terceira vez, com um muito jovem casal de filhinhos, e dizia que mandasse para lá um dos meus filhos para lá trabalhar com ele. Nem um se atreveu, o que eu considerei uma babaquice!
Só a Joana, sempre voluntariosa, achou a ideia interessante, tratou do passaporte e visto e lá foi, garantido alojamento em casa dele, alimentação e algum argent de poche¸ como baby sitter dos dois últimos filhos, que tinham quatro e dois anos. Passou lá seis meses, adorou, mas não quis ficar!
O conquistador que se gabava de continuar a fazer filhos quando do meu lado eu tinha já dois netos, prometeu que numa próxima ida à Europa passaria pelo Brasil. Este terceiro casamento também não tardou a findar!
Nunca mais nos vimos e pouco depois as comunicações foram interrompidas.
Só uns anos depois soubemos que um câncer de estômago o tinha levado.
Meu muito querido amigo Henrique Godinho, como um irmão, sempre pronto a ajudar, o “Xivinguiro”, de nome todo Henrique Manuel de Mendonça Torres Pereira Godinho, que lembro sempre com muita amizade e saudade.

16/10/2018

terça-feira, 9 de outubro de 2018


Democracia ???
Que democracia?

Difícil calar e tentar engolir tanta estupidez e tanta mentira com que nos têm martelado nos últimos dias. E eu que não gosto de levar desaforo, mesmo que ele não seja pessoal, mas coletivo.
O fantoche do pt, o imbecil Andrade, lá foi de mão estendida pedir ao papá lula, para lhe dizer o que fazer no segundo turno das eleições.
E o “poste” veio de lá dizendo que dia 1º de Janeiro ia subir a rampa do Palácio do Planalto junto com o lula, que será de novo o presidente do Brasil.
Que desfaçatez! É preciso ser muito imbecil! O presidiário, que nem candidato é, a preparar-se para voltar a desgovernar o país! Ele pensa que todo o mundo é besta como ele?
E diz que está a costurar alianças para repor a democracia no Brasil.
Jamais imaginei que viveria tantos anos para ouvir tamanha afronta à inteligência das pessoas. Não que eu seja muito inteligente. Nem precisa. Basta analisar o desgoverno dos treze malfadados anos do socialismo marxista, leia-se sobretudo super corrupto, para se fazer uma idéia da democracia que o imbecil diz que está costurando.
De acordo com um bolo que a canalha já preparou para essa ocasião, tipo bolo de casamento, em cima exibe as seguintes letras URSAL, quer só dizer União das Repúblicas Soviéticas da América Latina.
Jamais isso acontecerá.
Atacam o candidato mais votado que, por pouco, muito pouco não ganhou no primeiro turno (atenção: são centenas as reclamações de urnas violadas!), primeiro chamando-o de extrema direita, e eles, os bons ladrões só de esquerda.
Na minha adolescência, como praticamente todos os da minha idade, joguei futebol. Sempre esquerdista! Ou era back (defesa) esquerdo, ou ponta esquerda avançado! Era dos poucos que, às vezes, ainda acertava a bola com o pé esquerdo. Fui, portanto, extrema esquerda!
Mas toda a vida fui profundamente anti comunista, e com o passar dos anos parece que essa alergia se tornou quase obsessiva!
Vivi o desastre que se seguiu à vergonhosamente chamada revolução dos cravos, que me roubou mais de vinte anos de trabalho, além dos bens que fui obrigado a abandonar, com os mininos capitões arvorados em generais a perseguirem e prenderem banqueiros, opositores, a tentarem mentalizar o povo que iriam dividir o que era dos ricos, que quem tivesse duas vacas devia dar uma a quem não tivesse, e até a proporem matar os brancos que se opusessem ao evoluir do comunismo que se instalou nas ex colónias, comunismo esse que fez, tanto em Angola como em Moçambique, mais de um milhão de mortos em cada lado.
Vivi os treze anos do pt, que tanta esperança deu ao povo, aparelhar todo o Estado com apaniguados que lhe permitiu roubar, roubar, roubar, enriquecer as famílias, e aparelhar o judiciário com capangas que agora libertam a maioria dos condenados por corrupção.
Acompanhei, de longe, felizmente, mas atento, o desenvolver das desgraças de Cuba, Venezuela, Nicarágua e outros assaltos ao povo, cordato e simples, mas estou enojado, enjoado, de tanta vergonha a que nos têm submetido.
Não voto, nunca votei, mas nunca me calei.
A minha voz é ouvida num círculo muito restrito de pessoas porque o acesso aos órgãos de comunicação só se consegue se for filiado à inocente extrema esquerda!
Vejam quem ganhou prémios Nobel de literatura: a maioria, comunista. Assim como muitos nomes grandes da literatura e das artes: Jorge Amado, Niemeyer, José Saramago, e por aí fora.
No tempo do presidente Fernando Henrique escrevi uma porção de crónicas para alguns jornais, entre eles o Diário de Coimbra. A malhar nas asneiras do governo. Sempre publicaram. Quando a seguir chegou o governo pt, a primeira crónica que escrevi a batalhar contra o desgoverno que estava a aparecer, nunca mais aquele democrático jornal publicou um texto meu! Não me fez qualquer diferença porque nunca recebi um cêntimo pelo que tenho escrito, mas, confesso, tive um prazerzinho especial quando tomei conhecimento que poucos meses depois o tal Diário de Coimbra... tinha falido!
Vêm agora os gângsteres ptistas, dizerem que vão repor a democracia! Repor? Vão ter que voltar ao tempo do Império e chamar de volta Dom Pedro II. A menos que seja o tipo das republiquetas como o Congo ou Angola que se intitulam repúblicas democráticas, onde durante muito tempo nem eleições tinham.
Creio que tudo isto deve ser culpa do Acordo Ortográfico, ou então sou eu que não falo mais a língua de Camões ou Fernando Pessoa! As palavras perderam o sentido, não significam aquilo a que fui habituado a interpretar!
Como aconteceu na Polônia no fim de II Guerra. Fizeram eleições, os comunistas tiveram 9% dos votos e impuseram o marxismo.
Não sou candidato, não procuro um tacho (era o que agora mais me faltava) mas fico com uma tremenda má disposição de ver que me ofendem com esta verborreia ameaçadora, porque estas demonstrações do partido da ladroagem, constituem uma verdadeira ameaça.
Não só a mim, que nem sabem que existo, mas aos duzentos milhões de brasileiros, gente de cultura e tradição conservadora, a ser espoliada por um marxismo internacional.
Não, gente do pt e pc do B e outros extremistas que se auto denominam democráticos, porque nem sequer sabem o valor da palavra. Não voltam a mamar na teta da res publica durante muito tempo.
E se após perderem as eleições no 2º turno quiserem fazer baderna... paz às vossas almas.

9 out. 18



sexta-feira, 5 de outubro de 2018




Amigos – 11

Hoje vou “conversar” um pouco com alguns colegas que andaram comigo em Évora.
Começo por um com quem estive só um ano, porque era mais velho do que eu uns quatro ou cinco anos, mas nos conhecíamos bem desde os tempos de criança, de Sintra, onde passei todos os verões da minha infância, e um pouco mais, e só deixei aquela terra, linda, quando casei e fui para África.
No refeitório as mesas eram de quatro lugares. Junto da parede os muito queridos amigos Estevão Tojal e o Chico Dias, eu de costas para a cozinha e o nosso retratado de frente para o lado de onde chegava a comida.
Ao pé dele era impossível estar mal disposto. O sujeito estava sempre, mas sempre na brincadeira.
Um dia recebemos a visita de alguns colegas de Coimbra, e à noite fomos mostrar-lhes o “Évora by night”! Chamámos um taxi da cidade, um daqueles carrões dos anos 30, teoricamente de 4 lugares mas que levava uns dez ou doze, dois ou três na frente, meia dúzia no banco traseiro e alguns iam mesmo nos estribos! Tempos bonitos! O Duarte, o nosso primeiro colega agora lembrado, mais a sua boa disposição, sabia imitar, perfeitamente um grilo. E começou a grilar! Parou-se o carro para procurar o bichinho. Saíram todos, levantou-se o banco e o canto do grilo calou. Quando o Duarte entrava para procurar o grilo cantava alegremente. E assim estivemos algum tempo parados. Eu ria que nem um perdido, porque já conhecia a brincadeira.
O Estevão, filho único, de família abastada, era uma jóia. Muito simpático, simples, generoso, um dia regressando de férias trazia um relógio à prova d’água. Bonito, quase novidade, e mostrou-o aos companheiros da mesa. O Duarte: Não acredito que seja à prova d’água. Deixa ver. O Estevão tirou o relógio do pulso, passou-lhe. É mesmo à prova d’água? – É. – Deixa experimentar.  E enfiou o relógio dentro do jarro d’água!
Quando o Estevão fez 19 anos o pai deu-lhe um carro que não durou muito. Uma noite de sexta feira, sabendo que no dia seguinte não tinha aulas porque alguns professores não iriam aparecer, meteu-se à estrada a caminho de Lisboa. Com ele outro grande amigo, o Fernando Moreira Rato feliz porque podia ir estar com a mãe no dia dos anos dela.
O carro, um MG TC, dois lugares, conversível, era o carro dos sonhos de todo o jovem. Novembro de 1949, corriam, foram encadeados por um caminhão que vinha em sentido contrário, a estrada eram muito estreitas o que não lhes permitiu verem outro caminhão, avariado, parado na estrada, sem quaisquer luzes acesas. Não tiveram tempo de frear e... o pior aconteceu. Nessa noite perdemos, todos, dois ótimos colegas e amigos.
Pela vida fora o Duarte continuou com as suas maluquices. Já velho, finanças saudáveis, num jantar de cerimónia, que um banco ofereceu aos seus investidores, ele ficou ao lado de um outro senhor que ele jamais vira, o que não o inibiu de lhe perguntar: A sua fortuna foi feita com contrabando de cocaína?  Um gelo na mesa entre todos os convidados, mas o interrogado, magnífico espírito desportivo, dessa vez ganhou: Não! Essas miudezas eu deixo para o meu motorista! E continuaram a conversa, mas sempre com piadas pelo meio.
Já nos deixou o Duarte Mayer de Carvalho.

 

Duarte, comigo
 Xico Dias, Duarte, Estevão, eu

§          §          §          §

Histórias boas, desse tempo, algumas com mais de setenta anos passados em cima, mas sempre recordadas com muita saudade. Só se é jovem uma vez, e amizades desse tempo, permanecem arreigadas nos nossos corações.
Um desses colegas, com quem me dava muito, esteve muito anos ausente, sem eu saber por onde andava. Alentejano de Moura, afinal casara e vivia em Lisboa. Depois de mais de um quarto de século, numa das minhas idas à terrinha, consegui desencantar uns quantos e juntámo-nos num memorável almoço. Alguns tiveram dificuldade para se reconhecerem, e até eu, que tinha falado com eles para os convocar para o encontro. Não passam trinta anos em cima de alguém sem o começar a mudar!
Um deles, que sempre fora sobre o magro, estava que parecia um esqueleto, mas de boa saúde, assim que nos abraçámos, começou logo por me dizer que tinha sido muito melhor do que eu em hidráulica!  Nessa altura eu já não fazia ideia do que tinham sido essas notas, mas ele explicou:
Estávamos na prova final do ano, e do curso. Eu não sabia nada de hidráulica, tu estavas na carteira à minha frente, e pedi que me passasses as respostas. Tu eras bom nisso. Acabaste, passaste tudo para uma cábula (cola, no Brasil) e eu consegui ainda copiar tudo e acabar a tempo. Quando vieram os resultados, tu eras quem tinha sempre a melhor nota, mas dessa vez o professor, o tão saudoso engenheiro Sardinha de Oliveira, deu-me um ponto a mais do que a ti!
Já não me lembrava disso, mas muito nos rimos. Depois, mesmo em tempos espaçados, fomo-nos encontrando mais umas vezes e ele sempre me vinha dizendo: Eu era melhor do que tu em hidráulica! Era a nossa brincadeira, mesmo que tivéssemos já bem mais de meio século nas costas.
Fomo colegas, do mesmo curso, e andámos também em lides tauromáquicas!
Todos os anos, ao findar o ano letivo, organizavam-se uma série de garraiadas, e muitos de nós se ofereciam para “toureiros”. Fazíamos uma espécie de apresentação, nalguma herdade, que sempre havia quem nos recebesse, e até nos emprestasse as “feras”, para mostrar a nossa “valentia”, e depois corríamos algumas cidades.
Évora, é evidente, Extremoz, Montemor e já nem sei mais onde, e lá iam os valerosos matadores. O produto da venda dos bilhetes revertia sempre para as Misericórdias locais. No fim das corridas as gentis meninas da terra vinham oferecer-nos um ramo de flores, com uma bela fitinha de gorgorão, que leva escrito com tinta dourada ou prateada (que beleza!) o local, data e nome da “madrinha”. À noite havia baile em nossa honra!
Acabámos o curso e logo fizemos o serviço militar, no mesmo Regimento de Cavalaria durante um tempo. Depois disso... levou um sumiço que durou anos.
O Zé Ravasco foi algumas vezes parceiro nessas andanças taurinas.
Eu, António Cordovil, Alberto Fonseca e Zé Ravasco
Évora, 8/Junho/1948

§          §          §          §

Para falar deste outro colega, e para o compreendermos melhor, é necessário contar um pouco da história do pai dele. Irrequieto, casou com uma senhora espanhola, tiveram este filho e depois sumiu de casa! A mãe voltou para Espanha e ele criado por um tio, que foi o autêntico pai.
Pois o pai, um aventureiro foi para a Legião Estrangeira, no Norte de África. Quando de lá saiu vagou um pouco pela Europa e, na Alemanha, macho como era foi visitar um campo de nudismo. Peladão, sem experiência, meio envergonhado, carregava uma toalha com que procurava tapar o principal! Logo veio um desnudo teuto que, à boa moda germânica lhe perguntou: Tem alguma coisa a esconder? – Não. - Aqui ou se anda completamente nu ou vai embora. Ele foi embora, envergonhado.
Passavam-se anos que não dava notícias e as que chegavam eram esparsas.
Um belo dia mandou ao filho uma fotografia. Estava em Hollywood! À beira duma piscina, sentadão numa cadeira, copo de whisky na mão, rodeado de beldades. Nas costas da fotografia mandou então as “notícias”: Como vês estou bem!... E foi tudo!!! Soube um tempo depois que tinha falecido.
Claro que herdou algo do pai: a boa disposição e, talvez da mãe, uma tremenda força de trabalho.
Quando acabou o curso o tio arranjou-lhe trabalho em Moçambique, onde foi tomar conta de uma grande área onde o governo estava a desenvolver importantes projetos de agricultura junto da população local.
Perto da casa onde morava passava um rio, rico de peixe e de jacarés. Tinha sempre peixe fresco, matou muito jacaré e vendia as peles a um comerciante.
Chegou o 25/quatro, regressou a Portugal e trazia um razoável dinheirinho no bolso do negócio, a maior parte dele devido aos “Crocodylus Cataphractus”.
Meteu-se a produtor de tomate, umas quantas estufas lá para as bandas de Sintra. Ótima qualidade, bons conhecimentos nos supermercados.
Quando fui tentar voltar para Portugal (já fui muito tarde!) encontrámo-nos, falámos sobre nossas frágeis situações financeiras e decidimos entrar num novo negócio: produtos hortícolas, frescos, preparados e embalados em “atmosfera modificada”. Novidade em Portugal.
Montámos a sociedade, projetos, apoio dos Serviços de Agricultura, alugar armazém, obras, ida a Alemanha comprar equipamento, até que finalmente lançámos uns quantos produtos com uma marca muito bem criada pelo designer Francisco Amorim (o filho): “HORTA FRESCA”.
O sócio, ficou com a responsabilidade da venda e eu com a produção e escritório. Trabalhámos ambos que nem condenados. Esgotámos as possibilidades do mercado que não supria o suficiente para que o investimento se pagasse, bem como as despesas de pessoal, distribuição, etc.
Deu um trabalho imenso, as madamas portugas não compravam porque preferiam descascar batatas em casa, e, imaginem, nos supermercados as principais clientes eram estrangeiras!!!
Hoje é um sucesso em todo o lado. Nós, os pioneiros, 1992, fomos forçados a fechar. O dinheiro acabou e não havia como fazer mais sacrifícios
O meu querido amigo e sócio apareceu doente. Muito, mas não parava um segundo. Parecia que a doença lhe dava forças. Não durou muito mais.
Grande lutador Joaquim Muñoz dos Santos Cruz.
Quando nos reencontrámos. Magoito – Sintra -1989

§              §              §              §

“Naquele tempo”... estudante, tive alguns colegas, companheiros, com quem criei uma especial relação de amizade e de farra, que se chamavam, e chamavam, Alberto.
Um deles, que está na foto atrás, fazendeiro de arroz no Ribatejo, o outro, lá do Norte, de Armamar. Com dezenove anos, depois de assistir ao desbaratar de todos os muitos e ricos bens da família, pelo pai e tio, jogadores inveterados, não lhe foi difícil ver que não havia mais dinheiro para continuar os seus estudos e, sem terminar os estudos, imigrou para o Brasil. Aqui fez a sua vida, prosperou profissionalmente, teve várias mulheres de papel passado e boa variedade de outras acidentais, mas nunca enriqueceu a trabalhar para “outrem”, para patrões, apesar de ter chegado depressa a gerente geral e mesmo a diretor de empresas de grande porte. Ganhou experiência, o que é evidente, e sempre foi um senhor, porque o berço o marcou!
Estivémos quarenta anos sem saber um do outro. Sem nos vermos! Pouco mais do que desconfiávamos que o “outro” estaria vivo! O reencontro foi uma festa! Falámos de filhos, netos, colegas “perdidos” e outros já idos. A partir de 1995 passámos a viver na mesma cidade, Rio de Janeiro, entrados em bons anos, encontrávamo-nos regularmente, falando sobre os tempos da juventude e sobre filosofias diversas quando nada mais há para dizer, e essa amizade, de tantos anos, por estranho que pareça se ia fortalecendo cada vez mais! Conversas sempre acompanhadas com um bom copo de vinho!
O meu maior amigo no Rio de Janeiro, assíduo a tudo quanto fosse celebração nesta casa, apadrinhou a nossa neta, aparecia regularmente para almoçar.
Os quarenta anos sem nos vermos sumiu da nossa memória, mas foi uma perca grande!
A idade foi deixando marcas e as mazelas apareciam. Consultava médicos e mais médicos e depois vinha perguntar-me se eu concordava com a medicação que lhe davam!
Por fim emagreceu muito, fiquei extremamente preocupado. Enfisema pulmonar. Conte-lhe que a minha irmã mais velha, há mais de 10 anos que não vive sem oxigénio, e ainda por lá está (em Portugal) para “as curvas”! A médica disse que o oxigénio não era indicado.
Lutei muito para que mudasse de médica. Em vão.
Perdi o meu maior e único amigo da mocidade, que vivia perto de nós,no Rio. Para mim esvaziou o Rio de Janeiro.
Passou um fim de vida triste, sofrido, um homem simples, educado, grande parceiro e muito amigo, o Alberto Borges da Silveira.

Com a afilhada
5 out. 18