quarta-feira, 1 de agosto de 2018


AMIGOS – 8

SEM PROLEGÓMENOS

Este é o penúltimo texto sobre Amigos. Ainda poderia escrever sobre mais uns quantos que já nos deixaram. Vou deixá-los no merecido descanso sem jamais os esquecer.
Hoje vamos abandonar as “corporações” e apresentar-lhes algumas figuras de legenda.

Em Angola jogava-se ténis e em Luanda sobretudo no Club de Tênis. Ali era também um simpático ponto de encontro ao fim do dia e nos fins de semana.
Como em todo o lado tinha jogadores bons, outros pouco mais que medíocres (como eu, que joguei desde os 10 anos até que um dos joelhos, uns anos depois de ter sido atropelado por um trator... não permitiu mais) e alguns piores ainda, além dos convencidos e dos simples.
Mas um dos aspetos mais importantes é que eram todos amigos.
Começo, em Luanda com o Fernão Dornellas, um ferrenho batalhador, que hoje, quando vejo o espanhol David Ferrer, também um lutador, me lembro muito deste amigo. Se jogava comigo sempre me dava uma surra, mas quando se organizou um torneio inter bancários, nós formámos um par e, podem crer, fomos à final. Mas nessa altura o meu joelho estava já a pedir socorro e tive que entrar em quadra com a raquete numa mão e bengala na outra. Du jamais vu! Mal aguentei até ao terceiro jogo e saí arrastando a perna! O Fernão ficou muito chateado comigo, mas nunca deixámos de ser grandes amigos.
Os grandes nomes daquela época – anos 60 – eram principalmente dois que, do mesmo modo, e que me desculpem a comparação, me lembram deles quando vejo o Nadal e o Federer!!! Não é brincadeira.
O Francisco Correa de Sampaio, jogo firme, determinado, combativo, seguro, meio século depois, agora, teve um “seguidor”, tipo Rafael Nadal. O outro, Cristiano Lane que, como o anterior conheci em 1944/45 quando passei um ano no colégio dos jesuítas em Santo Tirso, descontraído, elegante, um jogo lindo, não há dúvida que “baixou” no Federer.
Eram ambos o top do Club e, nem sempre ganhava o mesmo. Alternavam. Tal qual hoje.
Eu joguei muito em Sintra, desde criança, naquele ano em Santo Tirso, com os mais velhos, e em Benguela, mas nunca me dediquei muito. (Tinha outras coisas para fazer!)
Saudades do Fernão, do Francisco e do Cristiano.

O Fernão e o Francisco, num grande encontro de amigos em 2012

E em Benguela, 1954/55 – Os três tenistas daquela cidade maravilhosa!
À esquerda (esqueci o nome) foi diretor de Fazenda; à direita colega na Lusolanda, Mário Magalhães

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Agora um “cara” muito especial!
Um dos maiores guitarristas que Portugal já teve. E um grande parceiro para as farras! Senhor conde, cujo título nunca usou nem lhe interessava. Nobre, marialva, caçador, fadista, amigo.
Tocava desde adolescente, com um toque que foi só dele. Quando voltava do liceu e tinha alguma notícia menos agradável para dar aos pais, refugiava-se no sótão da sua casa e a guitarra gemia!
Eu também cheguei a tocar alguma coisa, guitarra e violão, mas em África, por falta de parceiros para tocarmos juntos abandonei, e hoje não consigo tocar nada.
Mais velho do que eu uns 17 anos, ele sempre em Portugal e eu peregrinando por África e Brasil, quando nos encontrávamos, erámos amigos sem diferença de idade.
Um dia convidou-me para uma caçada aos coelhos no Ribatejo. Dezembro. Um frio de cortar à faca, pior para quem já era semi africano. Emprestou-me uma espingarda, mas nem as luvas evitavam que enregelasse as mãos. Creio que dei um tiro, não matei nada, mal podia mexer os dedos enregelados! A turma toda da caçada tinha preparado uma bela almoçarada, o que me valeu um pouco, e regressámos no fim do dia no carro dele, sem aquecimento! Cacei uma friagem maior do que na Antártica. Mas repetiria hoje se pudesse.
Em 1961, eu estava a morar em Sintra, na quinta que ainda era da família, e aguardava que a Cuca me mandasse de volta a Luanda. O virtuoso da guitarra também morava ali perto, em São Pedro.
Combinámos fazer uma fadistice em nossa casa. Desafiámos uns quantos amigos fadistas. Eu disse que arranjaria um barril de cerveja e ele comprometeu-se em arranjar o vinho, visto que era grande conhecedor da bebida e dos produtores da região. Saiu de casa a seguir ao almoço e eram oito na noite e... nem o guitarrista nem o vinho. Telefonei à mulher que me disse que quando ele ia comprar vinho era obrigado a provar e beber uns copos em todo o lugar onde passava!
Por fim chegou, com um barril de 20 litros. Uma delícia, claro. O verdadeiro e saudoso Ramisco.
Foram chegando os amigos, e vá de começar a farra.
Por volta das duas da manhã chegou a senhora condessa, uma das maiores fadistas de todos os tempos, com os seus acompanhantes, vindos dum serão para trabalhadores na FNAT!
A festa prosseguiu até ao nascer do dia. O vinho bebeu-se todo e da cerveja, no dia seguinte, mal saiu um copo. Mas ninguém estava “entornado”!
Uma ou duas semanas depois repetimos a festa na casa dele. Bem mais incrementada, e com a nata do fado. Os convivas saíram de lá, sol mais que nascido, mês de Junho, de óculos escuros!
Nunca quis gravar um disco, o que nos fez perder um virtuosismo único, e era “péssimo” acompanhante de cantadores, porque ele cantava melhor na guitarra!
Foi grande, e grande amigo, o José António Sabrosa e a sua mulher Maria Teresa de Noronha.
A farra em nossa casa começou assim:
Segue uma guitarrada com Zina Torre do Vale, José António e Fernando Alvim;(o anfitrião engasgado)
E continuou assim, com a Maria Tereza de Noronha, até... o sol raiar

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Vamos lembrar outro Zé, compadre do anterior, praticamente da mesma idade, grande caçador, fadistinha, outro GRANDE amigo que tive em África e depois, bem mais tarde, em Portugal.
Em 1955 regressava eu de Benguela a Portugal num navio de passageiros e carga, o velho “Quanza”, poucos passageiros e uma grande carga milho para o Funchal (naquele tempo Angola exportava alimentos!). Parámos em Luanda, onde embarcou um inglês maio babaca, que tinha vivido em Luanda três anos e nada falava de português, e logo a seguir em Pointe Noite no Congo (francês) para carregar mais alguma coisa e meter mais uns passageiros, entre eles um casal de suecos já “idosos” e outro casal de portugueses, o Zé e a mulher.
Num ambiente pequeno, todos se cumprimentaram e este “novo” Zé, que muito estimei e admirei, não sei já como logo descobrimos que ele era compadre do Zé António, primo direito dum primo direito meu! Pronto. Criou-se logo uma amizade que durou até ao seu desaparecimento.
O que se faz a bordo, num navio mais cargueiro do que de passageiros? Levantar tarde, para esticar a manhã, depois passear um pouco pelos decks, beber um copo antes do almoço, mais outros durante o mesmo, dormir a sesta, repetir à tarde o programa da manhã, e depois do jantar jogar cartas. O inglês que parecia meio burro (e era), o sueco, que enchia a cara com cerveja enquanto a mulher, já entrada em anos sentava-se no deck, levantava as saias todas deixando finas e horríveis pernas a arejar, e o Zé jogavam bridge, mas precisavam de outro parceiro. Entrei eu de alegre, sempre parceiro do meu novo amigo, que jogava muito, de modo que ganhávamos sempre. Não exatamente a dinheiro mas os perdedores pagavam as bebidas.
Mais tarde, em 1964, ganhou um torneio de bridge, organizado pela Cuca, de parceria com outro amigo, o pediatra Rui Rebelo de Andrade.
Entretanto, na vigem de navio, eu levava a minha guitarra e o violão, que o Zé sabia manejar, e fazíamos uns pequenos serões, magníficos, sobretudo quando ele cantava uma letra especial, em “ré maior” de que, infelizmente já não lembro tudo (é preciso ser biligue... especial para compreender!) :
Si une riche soupière
De chaises desenvolviu
Avec um lace por la tête
Tout amarré dans le cu
???????
Oui, oui me repondit
La dame acenan le leque
Et moi comme um catite
Fui cear com ela avec!

Em janeiro de 58 estava volta a Luanda, e o Zé era o gerente geral da Comfabril (CUF). Logo nos encontrámos, não só para jogar cartas mas sobretudo para caçar.
Era um grande caçador. Talvez o melhor caçador que conheci, com quem tanta vez fui para fins de semana no mato... Já contei no meu livro histórias magníficas de caçadas, muito há anos já postas no blog, que lembro com frequência. E naquele tempo não havia frescurices de proteção aos pobres animais, porque só se caçava o que era permitido, pouco, e sempre com cuidado para não matar fêmeas, além de não se desperdiçar nada de carne.
 Guitarrista, e o Xico Manolete             De manhã cedo, na caça      Os campeões do bridge

Naquele tempo o horário de trabalho era o da “semana inglesa”: sábado até meio dia, e eu tinha por hábito sair depois de todo o pessoal de modo que chegava a casa mais tarde.
Por vezes mal tinha começado o almoço, já à porta de casa tocava a buzina do jeep. E uns gritos de lá saiam:
- Chico! Vamos hoje para (por exemplo, para a Baixa de Cassange) e voltamos amanhã. Vem depressa que o caminho é longo!
Baixa de Cassangue, Panguila, Bengo, Cambambe, Ambriz, por todo o lado.
Metia qualquer coisa na boca, subia a correr ao meu quarto para trocar de roupa, calçar botas, preparar roupa para o frio da noite e madrugada, armas e munições, e mal me despedir da mulher e filhos, e lá íamos.
Tanta vez! Sempre com ótima disposição, e uma pontaria invejável. Uns fins de semana, quer se caçasse muito ou pouco, eram sempre uma maravilha.
Meu querido amigo Zé Ferreira Neto. E Arlete. Que saudade!

31-jul-18

Nota: Podem clicar em cima das fotos para aumentar

segunda-feira, 23 de julho de 2018



PROLEGÓMENOS e AMIGOS – 7


Foi por acaso que comecei por agrupar alguns amigos por “corporações”, como surgiram na Idade Média a partir do século XII, para me facilitar o tentar não esquecer algum.
Hoje vamos “navegar” um pouco com alguns deles. Poseidon e Neptuno, de comum acordo autorizam os navegantes a vir até nós.
Homens do mar, da Marinha de Guerra, comercial e de recreio. Um pequeno apontamento de cada um, que já não estão entre nós, e por isso mesmo, falar deles, por pouco que seja, é não deixar que se afastem da nossa memória.
A maior riqueza que uma pessoa pode possuir enquanto peregrina por este mundo de cobiça, inveja e desgraça é a família e os amigos que desta fazem parte inseparável.
Talvez o maior dom que eu tenha recebido foi a capacidade de fazer amigos! Agora, que a idade vai demasiado avançada, quando nos parece que os dias, meses e anos se sucedem cada vez com mais rapidez do que quando éramos jovens, recordar esses amigos são momentos de grande satisfação, mesmo que a tristeza de saber que nos deixaram há mais de quarto de século não nos largue.
Morre a carne; “do pó viemos e ao pó voltaremos”. O espírito é eterno. Falando deles, com eles, essa eternidade torna-se real.

Vamos começar com os “guerreiros do mar”!
Éramos jovens. Eu sempre com os bolsos vazios, precisava fazer quase milagres para me deslocar a Santo Amaro de Oeiras, a 20 quilómetros de Lisboa, onde vivia a gatinha! Hoje, 20 quilómetros são “a porta ao lado”, mas naquele tempo... era uma viagem. São passados uns 70 anos. Ninguém vai acreditar, mas como tenho por hábito não mentir, cada um pense o que lhe aprouver.
Combóio de e para Lisboa, elétrico de casa para a Estação e volta, por pouco que fosse, para quem não tinha quase nada era uma senhora ginástica.
Ali perto morava um casal amigo dos futuros sogros e dos meus pais, que tinha um só filho, um pouco mais novo do que eu, muito simpático, alegre, tranquilo, amável. E os seus pais tinham sempre a porta de casa aberta para este andarilho!
Lembro muito da mãe dele, que sabia das minhas andanças, e muita vez me convidou para jantar com eles e até lá ficar a dormir para não ter que tornar a desembolsar aquela “enorme quantia” para voltar no dia seguinte.
Convivemos muito até que um dia, “amarrei” a gatinha, casámos e quase desaparecemos nas infindáveis savanas e florestas da África!
Ele seguiu a carreira da Marinha, e foi em Luanda que passámos a ter novamente mais contato, quando a Fragata de que era imediato dava uma folga ao pessoal. Eu, terráqueo luandense, nessa altura era possuidor duma viatura especial, que servia quase que ininterrupta e exclusivamente para emprestar aos militares que, do mar ou do interior, iam passar uns dias na capital. Um até cumpriu um ano na cidade, deslocando, glorioso, nesse inolvidável meio de transporte!
Esse “carrão”, um Morris Minor, sem capota, de 1932, forte motor de 600 cc, fazia a alegria desses amigos que ficavam independentes. O contrato de empréstimo era simples: devolver como leva; se avariar nas mãos de terceiros... consertem. Nunca avariou!
Olhem a belezura! (1963...? com o João Matos Chaves e César Silveira Machado)

Os navegantes chegavam a Luanda e a primeira coisa que faziam era telefonar a perguntar se o carro estava disponível. Passado pouco chegavam lá a casa o Imediato e o Comandante (cujo nome esqueci) e o bólido seguia com eles, felizes da vida.
Depois... acabou a comissão em Angola, e dificilmente nos encontrávamos nas raras idas minhas a Portugal.
Aposentou-se como Mar e Guerra e foi já quase no fim da sua vida que tornei a estar com ele, um pouco entristecido.

O meu querido amigo Eurico Burguete. E sempre saudades dos seus pais.

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Outro dos marinheiros “fardados”, que igualmente terminou a carreira como Mar e Guerra, amigo com quem convivemos não só em Luanda, mas também no longínquo Lourenço Marques.
Jovem, aos 25 anos, atleta de pentatlo, representou Portugal nas Olimpíadas de Helsínquia em 1952. Ainda lembro de o ver um dia, em Luanda atirar-se ao mar, que estava de calemas, para ir salvar um homem que se estava a afogar. Sempre pronto com grande calma e presença de espírito.
Foi a ele que recorri quando decidi obter a carta de “Patrão de Alto Mar” (no Brasil é Capitão Amador), uma vez que tinha já em Angola a de Patrão de Costa (Mestre Amador), porque o sonho de um dia entrar por esses mares e correr novas terras e gentes, me atormentava desde criança!
Naquele tempo, 1971, a navegação não tinha muita diferença da utilizada por Pedro Álvares Cabral ou Vasco da Gama. Não havia GPS e estava fora de questão um radar, que só navios de maior porte usavam. Quando muito um rádio ADF por onde se podia, perto da costa calcular uma posição desde que... se reconhecessem os sinais emitidos por emissoras de rádio, e assim fazer uma “triangulação”! Mas o indispensável era o velho sextante, e depois uma série de consultas de tabelas, contas com trigonometria à mistura, enfim, uma complexa e delicada trabalheira.
O nosso Mar e Guerra, há muito fora desses cálculos, apresentou-me um jovem tenente há pouco saído da Escola Naval, que me pediu uma semana, porque já não se lembrava bem como era o arcaico procedimento!
Bom, lá me deu umas aulas até me apresentar ao Capitão do Porto que me fez o exame! Fui aprovado, com dificuldade... e nunca me servi desse documento!
Depois de aposentado, e já em Portugal nos encontrámos com alguma assiduidade e volta e meia recordávamos esse aprendizado, e por fim, já muito doente consegui visita-lo algumas vezes!
Era uma pessoa simples, amigo, muito, do seu amigo, o António Jonet.


(Desculpem a péssima foto! Já estava muito doente)

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Outro irmão do Tó (António), uns bons anos mais novo, seguiu também a carreira da Marinha. Esteve em Angola, casado e alguns filhos. Foi ajudante do Almirante, comandou as comunicações, passou um ano no Norte, mas o que contou para a nossa amizade foram os dez anos passados em Luanda. Foi também daí que criámos aquela amizade que só aquelas terras souberam dar.
Regressa a Portugal em 1969, e começa a apresentar complicados problemas de saúde, passando à reserva.
De entrada sem mais nada para fazer, nem qualquer outro trabalho à vista passou um mau bocado, mas não tardou muito a ser convidado para a vida civil, onde deu mostras do seu saber e ficou até quase ao fim do seu tempo.
Em Portugal, não deixámos a amizade esquecida, e sempre fazíamos parte dum grupo de amigos cimentados pela intensa vivência em África.
Alegre, bom amigo teve um fim sofrido, até que descansou.
Não esqueço nunca o Jorge Jonet e a família.


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Creio que já um dia contei este pequeno episódio da minha iniciação na vela: um querido amigo, como irmão desde a nossa adolescência, sempre fez parte da nossa família. Quando nós, os irmãos de sangue nos juntávamos, quando eu aparecia por Lisboa, este irmão estava sempre presente.
Gostava de mar e tinha um Sharpie 6 metros (?), de uma vela só, boca aberta, enfim um barquinho bem simpático para navegar em solo, ou com mais um ou dois “convidados, pela baía de Cascais e arredores.
Um dia lá fui eu, de convidado, teria talvez uns 14 anos. “Inocente”, a certa altura levantei-me, e o piloto não perdeu a ocasião: decidiu cambar (virar de repente com vento pela ré), a retranca vira com violência e o convidado foi jogado na água! Muito se riu o “velho marinheiro”!
Esta brincadeira serviu, durante muitos anos, para nos lembrar tempos há muito passados. E foi o meu início como marinheiro.
Uns anos depois o Luis foi meu padrinho de casamento e mais tarde padrinho do meu filho Luis. Era o meu muito querido irmão mais velho, e a mulher, Maria de las Mercedes, madrinha da Joana. Luis Quintella.


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Vamos agora à navegação comercial, chamada mercante.
Os melhores, e ótimos, navios que havia em Portugal eram o Santa Maria (que foi sequestrado e deu origem ao início da guerra colonial) e o Vera Cruz.
Quando Portugal começou a enviar tropas para Angola o “Vera Cruz” foi o transporte escolhido. Levava para baixo e para cima milhares de militares de cada vez.
Durante uns anos inspetor da companhia em Luanda, casado com uma muito querida prima minha, apesar da diferença de idade, foi um dos meus mais presentes amigos.
Depois foi comandar o “Vera Cruz”. Chegava a Luanda, despejava quase toda a tropa e muita vez ainda, com o navio quase vazio, seguia até ao Lobito deixar mais uns poucos e receber os que acabavam a comissão para regresso à Metrópole.
Várias destas vezes convidava-nos para esse magnífico passeio, sempre com mais um ou dois casais amigos. Embarcávamos pelas seis da tarde, comíamos um magnífico jantar, ficávamos na conversa até tarde e por fim dormíamos como “anjos” até que de manhã cedo o navio atracava no Lobito.
A descarga e a carga demoravam quase o dia todo, o que me ajudava a visitar o depósito da Cuca, e ao fim da tarde regresso a Luanda onde chegávamos ao nascer do dia! Foram passeios maravilhosos!
Voltámos a estar juntos em Lourenço Marques, o atual Maputo, onde voltou a ser o inspetor da companhia de navegação, onde, uma outra vez convivemos muito. Os dois casais e os nossos filhos.
Mais tarde, em Portugal, quando ainda tentei ali voltar a viver, o país, arrasado pela revolução dos cravos, tinha-se desfeito de toda a sua marinha mercante, e o meu querido amigo e primo sem nada para fazer.
Um dia, quando os libertadores da ditadura arrasaram a navegação, o bom comandante encontra-se na rua com um indivíduo, muito bem vestido, pasta de executivo na mão que se lhe dirige:
- Senhor comandante que prazer em encontrá-lo!
- Mas onde vais nessa figura?
- Olhe, senhor comandante, como sabe acabaram com os navios todos, entretanto convenceram-me a assinar uns papeis do Partido Comunista, mas havendo ainda na companhia assuntos para resolver e não tendo ninguém, nomearam-me administrador!
O Comandante no seu camarote no “Vera Cruz”!

O mais categorizado ex comandante da companhia, só conseguiu reagir com um “Oh!”. O novo administrador tinha sido admitido por ele, como padeiro a bordo, e confessava tristemente que sabia andar a fazer figura de palhaço, e que nada entendia de administração!
Um detalhe da famigerada revolução que destruiu a economia de Portugal.
O meu muito saudoso primo José de Azeredo e Vasconcelos, tendo sido expulso da Escola Naval, com a argumentação de ter demasiada personalidade, fez a sua vida na marinha mercante.
Grande comandante e, sobretudo, grande amigo.

23 jul. 18


segunda-feira, 16 de julho de 2018


Interrompi um pouco este “encontro”, sonhado, com amigos, que continuam a fazer-me falta, para dar um grito de indignação com o descalabro administrativo, social e económico em que a gang esquerdista deixou o país (Brasil) e que continua com métodos bolcheviques a lutar para voltar e continuar a mamar no bolo da res publica.
Prefiro lembrar dos amigos. Cada um destes vale mais que toda a canalha política.

PROLEGÓMENOS e AMIGOS – 6


Ainda mais alguns que a vida ligou às agrícolas. Parece que nem um deles se dedicou muito à produção de trincadeira. Todos começaram por regentes agrícolas e só um nessa classe permaneceu. Um cuidou de filosofia e sociologia e um pouco de carneiros por causa da pele. Outro foi cuidando de árvores e celulose e depois passou para silvicultura. O terceiro começou logo a estudar agronomia, formou-se e acabou a vida profissional como professor em Évora.

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Sobre o primeiro já escrevi, há 20 anos no livro “Contos Peregrinos a Preto e Branco”.
O meu primeiro pouso em África foi em Banguela. Anos antes o meu avô, que por lá andou feito menino rico a gastar dinheiro tinha um amigo, grande comerciante e foi a ele que me dirigi, numa cidade em que não conhecia ninguém. Ernesto Lara, e logo me contou que o seu filho estava em Portugal a terminar o mesmo curso. Quando chegou não foi difícil criarmos amizade. Era um regente agrícola piradão. Angolano dos quatro costados, de Benguela, aquela cidade mulata, só tinha um defeito: era branco. Isso não o impediu de acérrimo defensor da independência de Angola, o que lhe valeu ser diversas vezes preso pela famigerada PIDE. Nunca demorou muito tempo preso. Não era nem político nem revolucionário.
Homem duma alegria e sensibilidade, muito especial. A melhor palavra que me ocorre para o definir seria: POETA. Um poeta que escreveu poemas lindíssimos, um poeta no seu modo de vida, descontraído e imensamente preocupado com o povo da terra onde nasceu.
Um poeta que amou, como só os poetas sabem amar.
E foi um amigo que o tempo não permite que me esqueça dele, sempre com a maior saudade.
O texto que se segue, escrito por um jovem de 25 anos, quando andava ainda pela Europa.
Irmão da grande poetisa angolana, Alda Lara, também branca, que cantou a miséria do nativo e o seu repudio aos métodos coloniais. A Alda, a PIDE nada pôde fazer porque infelizmente morreu muito nova.
Mas o Ernesto não era preso que interessasse à PIDE. Era um idealista, um sonhador, um poeta. Amigo do seu amigo, fosse ele da cor que fosse - era de Benguela! - inteligente, e com uma boa disposição e alegria contagiantes.
Andava sempre duro! O dinheiro queimava-lhe os bolsos e gostava de beber o seu copo.
A PIDE, sempre aquela droga de polícia que metia o nariz em tudo, dava até ordens ao governo, não tinha razões para manter o Ernesto preso, mas também não o queria junto de grandes centros para que as suas idéias libertárias, o seu amor a Angola, não perturbassem os indecisos, nem acirrassem mais os ânimos dos determinados, acabou por encontrar o lugar ideal para o colocar: no deserto de Moçâmedes, Namibe, como técnico da criação de carneiros Karacul, que estava crescendo com sucesso em Angola. Ali ele deveria ficar sossegado. Longe de tudo e todos.
Já depois de semi desterrado, teve que ir a Luanda onde ficou uns dias, e como era habitual, logo o dinheiro se lhe acabou. Pediu-me emprestado algum para o regresso.
- Depois to mando. Logo que receba o meu salário.
Passaram-se alguns meses e recebo uma carta:
...Aqui no meio do deserto onde se tratam melhor os animais do que os homens, finalmente consegui separar o dinheiro que te devo, e te ia mandar. Mas pensei: o Chico vai ficar chateado comigo se eu não beber um copo à saúde dele. O que seria infame da minha parte, porque a nossa amizade não merece isso. Assim, agarrei no dinheiro e bebi-o todo. Espero que a tua saúde esteja ótima. Um grande abraço...
Quanto vale uma carta destas, que guardo há tantos anos? Muito mais do que lhe emprestei!
Não saiu de Angola após a Independência e acabou morrendo atropelado numa das suas queridas cidades, Huambo, em 1977.




Não podemos fechar este apontamento sem um pequeno poema que o poeta escreveu para a irmã:

Um dia quando voltares,
não mais encontrarás à tua espera
a nossa casinha de adobe da rua principal.
Quando voltares da Europa, irmã,
hás-de ver ainda como a cidade mudou...
(Lembras-te das promessas que fizemos?) [...]
Quando voltares não mais encontrarás poesia no quintalão do Zé Guerra
agora transformado atravessado assassinado por uma avenida transversal.
Quando voltares só verás como deixaste o Mercado Municipal. [...]
“Lembras-te da palmeira do quintal?
Foi abaixo com duas machadadas no tronco...
” Um dia, quando voltares,
não mais encontrarás a Benguela que conheceste menina ainda
e que aprendeste a amar.
(1959)

Nas vésperas de morrer ainda escreveu estes versos, “pré monitórios”:
Em teu chão regado pelo sangue dos que tombaram,
onde apodrecem cadáveres,
hão-de florir dálias roxas como as que colhi ontem
no meu quintal (…)

Foi considerado por certos críticos como “Escritor Maldito”, pela sua postura de boémio, por contradizer o status quo e o bom gosto da "elite intelectual" da época (e não só). Mesmo depois da independência Ernesto Lara Filho nunca abandonou o seu espírito inconformista, individualista.
Uma das grandes personalidades com que aquela terra presenteou o mundo.
Saravá, querido amigo Ernesto Lara.

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Outro regente que por lá andou, cuidando de eucaliptos para que não faltasse papel, casou e descasou, teve um filho e depois de 75, regressou a Portugal. Voltou a estudar e formou-se em silvicultura. Já não era mais menino, e retornado, sofrendo com a animosidade dos que não viveram em África, teve dificuldade em encontrar trabalho que se pudesse compatibilizar com o seu entorno geográfico.
Andou um pouco de “Herodes para Pilatos” nos Serviços de Agricultura, voltou a casar com uma ótima companheira, e ainda viu o filho seguir-lhe as pisadas e formar-se, também em agronomia.
Estudámos juntos, fomos do mesmo curso e lembro brincadeiras curiosas quando íamos até Évora para a farra. Gostava do seu copo (quem não gosta?), soltava a língua, desinibia-se um pouco, sempre foi um ótimo e tranquilo companheiro, mas a grana curta, curtíssima, não o deixava farrar mais descontraído.
Por fim trabalhava na Tapada de Mafra, mas a alegria dos tempos de rapaz tinha desaparecido.
Não teve tempo de se aposentar aos 70 anos, porque antes disso foi descansar.


O Rui Craveiro Feio merecia uma vida mais alegre e descontraída. Mas foi um grande amigo.

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Poe último, o mais novo de todos nós. Começou como regente, foi para Nova Lisboa, onde nasceu, hoje Huambo, e teve a sorte de pouco depois ali se ter instalado o Instituto de Agronomia. Trabalhava e estudava e formou-se depressa. Seguiu-se o mestrado e o doutoramento já depois de 75 e, em vez de cuidar de capins e flores dedicou-se à docência e foi professor na Universidade de Évora até se jubilar.
Mas chega até nós carregado de livros que publicou! Começa cedo, fundando com o colega e poeta Ernesto Lara Filho, a coleção Bailundo, em 1961.
Escritor, sociólogo e professor universitário, membro da Sociedade de Geografia de Lisboa, da União de Escritores Angolanos e da Sociedade Portuguesa de Autores, deixou uma vasta obra em que o seu coração sempre escreveu sobre Angola, especialmente a sua terra Huambo.
O título de alguns dos seus livros mostram bem a linha de pensamento “Sou que nem uma Árvore Vinda de Angola”, “Ficava em Angola e chamava-se Nova Lisboa”, “Lamento de um Exilado”, onde na dedicatória que me faz escreveu “Para o Francisco Amorim, esta saudade feita de tanta ausência”.
Ainda docente nunca deixou de escrever e, com exceção dos assuntos técnicos, o seu coração nunca saiu de Nova Lisboa
Tive o privilégio de colaborar com ele durante os últimos nove anos, fazendo uns pequenos apontamentos desenhados, e chegando por vezes ao descaramento (eu) de dar alguma opinião!
Não convivemos muito. Ele estudou em Coimbra, eu em Évora, mais tarde em Nova Lisboa quando por razões profissionais nos encontrávamos, e depois de 75 ele ficou em Lisboa e eu exilei-me neste país sem futuro.
Mas o acaso nos uniu, sobretudo via Internet, e nos raros encontros em Lisboa.


O Inácio Rebelo de Andrade foi uma pessoa singular, e o fim da sua vida chegou cedo demais. Tinha ainda muito para nos dar, e até planos para isso.
Agora, vou relendo, com mais vagar e saudade aquilo que nos deixou.

terça-feira, 10 de julho de 2018

 

O Dia da Soltura – 2

O Ensaio para o Grande Golpe

Para quem leu a crónica de ontem, tem aqui uma pequena continuação.
O sapo, a meio da manhã, segundo os órgãos de informação, convencido que o iam soltar, já tinha arrumado as malas com os pertences que tem lá na “gaiola de ouro”! Probrecito! Teve que as desfazer.
Fora da prisão o pt tinha já montado um imenso arraial para a festa da soltura: uma imensa churrascada, com mais de uma tonelada de carne e linguiça para a festa. Bandeiras enormes do pt e do pcdob,  e notem, nem umazinha do Brasil. Não sei o que fizeram a tanta carne; só se sabe que não houve festa.
É bom ouvir a opinião de uma desembargadora que nos mostra com mais detalhes como foi montada a “Operação Soltura”, e quais as suas finalidades.

“Eu estou muito preocupada. Não acredito que o desembargador de plantão ignorasse não ter competência para suspender cumprimento de pena determinado por órgão colegiado. Óbvio que ele sabia! Óbvio que foi tudo previa e adredemente combinado entre o magistrado e os parlamentares travestidos de advogados. Ninguém é criança e nem criança acreditaria nessa estória. Tudo, cada passo dado foi antecipado e ensaiado e, desde o início, todos sabiam que esse era o único resultado possível e mesmo assim prosseguiram. Porque esse era o objetivo pretendido! Queriam criar um factóide e o fizeram. Mobilizaram todas as instâncias do judiciário federal em razão de um pedido juridicamente impossível. Usaram dolosamente advogados que não tinham procuração do réu, um desembargador politicamente comprometido no plantão do fim de semana, o recesso dos tribunais superiores. Tudo foi meticulosamente planejado e executado. E para quê?
Para acabar de desmoralizar o judiciário, já completamente desacreditado; para enfraquecer as instituições, demonstrando a facilidade com que se burlam as leis e se instaura o caos; para tumultuar e atrair a atenção da mídia e da sociedade eleitora para o PT; para demonstrar poder!!! 
E tudo foi alcançado! O factóide foi criado e alimentado pela recusa do desembargador plantonista em acatar a decisão do relator do processo. A presidente do STF se pronunciou sobre o fato e somente a intervenção do presidente do TRF-4 pôs fim, tardiamente, àquela insólita situação que tanto mal já havia causado ao país. 
O atuar do desembargador de plantão foi criminoso e em qualquer país sério ele já estaria afastado de sua jurisdição. Da mesma forma, os advogados signatários do Habeas Corpus teriam sua OAB cassada, estivéssemos em um país sério. 
O que testemunhamos hoje, contudo, foi apenas um ensaio, um trailer do que está sendo gestado por essas mentes malignas para retomar seu projeto de poder. O caminho foi mapeado, identificaram-se os focos passíveis de reação e o poderio do “inimigo”. Agora é só uma questão de tempo, do momento certo, para ser desferido o ataque final, o mais mortífero. E nós, como sempre, não faremos nada para evitá-lo, porque acreditamos piamente que os derrotamos hoje!!! 
Deus tenha piedade de nós!!!!”

Há muito que se vê, nítida e ostensivamente, o alargar dos tentáculos da esquerda criminosa. Juízes do supremo que, com uma simples canetada, e sem que seja ouvida a opinião do colegiado, mandam soltar os cabecilhas da organização criminosa, os que depredaram a res publica, destruíram o país, que vai levar algumas décadas para se recompor.
Aqueles que saborearam o poder absoluto, que roubaram tudo quanto podiam, ficaram milionários, alguns até bilionários, passaram agora vinte ou 30 anos na cadeia? Impossível.
Brasil, o país do jeitinho, passou do jeitinho simples, humilde, apesar de sempre com base na corrupção, para o país onde tudo, TUDO, é possível, menos aquilo que deveria ser normal e construtivo.
Segundo a opinião que acabei de recolher de um amigo, oficial superior das Forças Armadas, a quem volta e meia peço orientação sobre o que se passa, fez um retrato que no primeiro momento não entendi:
- O pt tanto esfregou o frasco que soltou o génio. E agora o génio nunca mais volta a entrar e ficar lá preso!


Teve que me traduzir: soltaram os militares. Os militares não querem o governo, mas uma coisa, de certeza, não querem, é continuar a assistir à destruição e ao saque incontrolado do país.
O pt, e muito pseudo intelectual metido a socialista, continuam a demonstrar uma estupidez doentia, querendo os mesmo gatunos de volta.
Socialismo, para essa corja, não é outra coisa se não o poder absoluto, a que normalmente se chama bolchevismo.
Para quem se interessar, volte a pesquisar e veja como a União Soviética se montou e esmagou o povo durante 70 anos.
De entrada uma pequena revolução, depois a mentalização e organização do operariado, os sovietes, a eliminação da polícia e criação das milícias populares, até à tomada total do poder.
Aqui o caminho percorrido até agora tem algumas semelhanças, e todos sabem disso, mas quem não esquece são as Forças Armadas e, de momento, as enormes organizações do tráfico de drogas, armas, tabaco, etc.; estes sabem que, quer ganhe a esquerda festiva ou o bom senso e a disciplina, eles vão perder, de modo que não vão alinhar ao lado de nenhum deles.
O Brasil vive um momento extremamente difícil. Um caos na administração de todos os níveis, uma corrupção de tal forma enraizada que, mesmo vendo a justiça a prender uns atrás dos outros (e depois os da esquerda sendo soltos!) não pára, um constante legislar em proveito próprio, em mordomias, e as eleições à vista, sendo que nenhum dos candidatos merece confiança.
Deus já foi brasileiro. Saiu. Deixou o lugar vago e entrou aquele que tem tantos nomes como disfarces:
belzebutinhosochifrudocornudodemôniopríncipe das trevassatãsatanás, rei da discórdia, dos ladrões, corruptos e assassinos.
Há que dar um basta a essa gentalha, a essa canalha.

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No meio disto tudo uma notícia maravilhosa:
Na Tailândia já estão fora da caverna e salvas, 
todas as crianças e o seu treinador.
Deus é grande... só que está longe do Brasil!

10-jul-18