terça-feira, 1 de maio de 2018


 

PROLEGÓMENOS e AMIGOS - 1



Vi-me grego para descobrir uma palavra, já descoberta pelos gregos, que significasse “o que dizer antes do que se vai dizer”. Aí está. Complicado, mas é isto. Prolegómenos.
Tal como as “falas” complicadas que Cervantes põe na boca de Dom Quixote, cavalheirescas ou cavalheirosas, ou como o complexo há pouco descoberto de se não poder falar da descoberta do Brasil, porque já estava descoberta pelos índios; achamento foi a palavra que Caminha achou que ficava melhor. Encontro, também não parece ser o indicado, porque poderia parecer algo pré-combinado com, sei lá, talvez um Caramuru qualquer, para que um dia por aqui se encontrassem, daí que, para acabar com essas polêmicas semânticas, sugiro que agora em diante se diga e se ensine que o Cabral, no seu trânsito (palavra adequada, e hodierna, esta) para a Índia, se deparou com uma terra, nova para ele, e não para quem lá vivia ou tinha estado antes e lhe deu as dicas para que ali fosse meter água.
Passaria a ser o Deparamento do Brasil!
Que isto de semântica tem muito a ver com o que se lhe diga!
No meu tempo, apesar de ser eu ainda deste tempo de hoje, mas deslocado, havia umas quantas palavras que não eram citadas, por desnecessário. Faziam parte do nosso ser intrínseco como o foi mamar quando se nasce, não dizer palavrões em frente de pessoas crescidas ou de meninas, logo que se aprendem, cumprimentar respeitosamente os pais, avós, tios, professores, etc., enfim, aquilo que se poderia chamar trivial. Trivial é hoje saber cozinhar feijão, arroz e ovo frito, e coar café através duma meia. Suja de preferência, para não ter que lavar duas vezes.
O que isto tem a ver com Prolegómenos? Aguentem, nada de pressas, porque no que se vai falar depois do que aqui se diz antes, é sobre algumas pessoas que conheci e conheço de quem pretendo fazer um rápido retrato.
Porque algumas dessas palavras que então se não usavam, hoje simplesmente se ignoram, tais como respeito, dignidade, humildade, pobreza de espírito que não se deve confundir com atraso mental, e até amizade verdadeira, uma vez que esta foi ultrapassada e estratificada por valores contabilizáveis em bens, influência e poder político ou financeiro.
Alguns Mestres, e atenção que sempre distingo Mestres de mestres, aqueles os autênticos, na sua personalidade, qualidade e exemplo, doutores ou não; estes exatamente pelas mesmas qualidades, só que por míngua delas, doutores de canudo, que exibem ex-cátedra ciência falsa, imodesta e demagógica, que muito babaca, ignorante e não no termo de candomblé, aceita como verdadeiro.
Um dos Mestres dizia que tinha amigos e não amigos, sem que estes fossem inimigos; só que ainda não eram amigos”. Outro tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos, e este mesmo dizia ainda que enlouqueceria se morressem todos os meus amigos”.
Quanto pensamento bonito sobre o amigo, como este: “Nosso verdadeiro amigo é aquele que nada nos desculpa e tudo nos perdoa”. Até Camões se “atreveu” a dizer “Do certo e fido amigo é não temer nenhum perigo”.
Só há uma maneira de manter os amigos: vivos. É lembrá-los, estejam eles longe, já lá no mais longe, que o passar dos tempos vai aproximando, quer só afastados em espaço geográfico, ou mesmo os que estão por perto.
Quanto mais falamos neles, mais cimentamos essa amizade. Nenhum deles necessitaria de mais cimento, mas é sempre melhor pecar por excesso que por defeito.
Tudo isto parece brincadeira, mas falar de amigos é coisa que não pode ser feita com tristeza. Mesmo dos que já nos deixaram, porque o que ficou deles não foi tristeza, mas a muita alegria da amizade.
Um pequeno flash” de uns quantos.  Nada de biografias.
***
Em Luanda morava num prédio de esquina em frente da nossa casa. Num terceiro andar, com janelas viradas para a nossa rua. Ele, a mulher e os filhos, que continuam, quase meio século passado e já muitas décadas afastados, a sentirem-se irmãos. Os pais nossos irmãos e os filhos sobrinhos do fundo do coração.
Amigo desde toda a vida, era mais novo do que eu, dois dias!
No dia dos meus anos, ele esperava à janela para me ver sair de casa – trabalhava-se bem nesse tempo! – e gritava lá do alto:
- Eh! Pá! Ó Chico! Tás muito velho!
Muitos anos esta graça! E sempre este carinho.
Nesse dia costumava haver ou um jantar ou uma fadistice lá em nossa casa. Dois dias depois uma jantarada na casa dele.
Era muita canseira, praticamente os mesmos convidados e encontrámos uma ótima solução: fazer uma festa só, no dia do meio.
1969, lá em nossa casa, fez-se uma bela farra, com fados e cerveja a correr, que durou até o sol obrigar os últimos a irem embora, a pôr óculos de sol!
E um fadista se destacou. Igual ao Marceneiro. Sempre com uma ótima disposição, um amigo para todas as horas. Um grande parceiro.

1968

O grande Zé Perestrelo. O Perestrelão. Saudades. Um abraço, forte, lá para cima!

***

1961 – No último dia do ano, último dia de caça, que a seguir entrava o defeso, com o grande Zé Neto, fomos dar uma volta pelos arredores de Luanda. Caçámos um belo e velho antílope, macho solitário, sempre com carne saborosíssima.
Dia 4 de Janeiro, batizado de um dos nossos filhos. Uns quantos amigos se juntaram e ficaram para à noite comermos uma das pernas do dito antílope, cozinhado pelo grande cozinheiro Miguel – que um dia teve que ser dispensado porque, por vezes bebia o vinho que sempre estava arrumado na cozinha, para eu beber e para os cozinhados, e “esquecia-se” de fazer o almoço para as crianças (e já eram de meia dúzia) – grande Miguel, do alto do seu metro e cinquenta, e no máximo uns quarenta quilos de peso, sob orientação técnica dum belo livrinho de receitas que até hoje a dona da casa religiosamente guarda, esmerava-se no fogão.
A cena era simples. Miguel ar compenetrado e atento, perfilava-se para ouvir a dona da casa, que abria o livrinho, discursava a receita, uma vez só, e no fim perguntava:
- Miguel! Você ficou a saber? Não esqueceu nada?
- Sim, senhora. Não esqueceu.
E partia para a lide.
Pois a perna do bicho ficou uma delícia.
No fim do jantar, num lado da sala, uma mesa de canasta para as senhoras e na varanda outra de bridge para os homens. Esta teve nesse dia a personagem que operou o batismo. O padre António... (?), bom vivant, frequentador da alta sociedade, e... metido a esperto.
Seu parceiro numa das mãos um tio, sempre alegre, ótimo companheiro. Não era nenhum campeão de bridge, mesmo sendo muito melhor do que eu.
Começaram a perder, porque a dupla Zé Neto e Fernando Fezas jogavam a sério.
Padre António, irritado por estar a perder, começa a dar sentenças: “em vez de jogar a Dama devia ter jogado o Valete.” Pouco depois ao darem as vozes de marcação: “Em vez de três ouros devia ter marcado Três Sem Trunfo”, e outras semelhantes.
E continuou a encher o saco do parceiro que de repente, já saturado, vira-se para ele e diz:
- Ó padre António, vá “berdamerda!” E logo a seguir solta uma daquelas suas gargalhadas, contagiosas, que só ele dava, deixando todo o mundo à gargalhada!
O padre António engoliu.
2006

Um copo à tua saúde de quase 95 anos.
Medalhista Olímpico de vela em Helsínquia, 1952.
Grande Francisco Rebelo de Andrade. O Xico d’Água!
***

O mestre do cavalheirismo! Gostava de jogar às cartas, mas sempre o fazia junto com as senhoras. Nunca jogava com os homens, porque, dizia ele, alguém tem que acompanhar as senhoras! Nunca se devem deixar sozinhas, o que é uma falta de educação! Muito simpático, amável, simples, todas as jogadoras “adoravam” tê-lo a jogar nas suas mesas. Não reclamava, era um parceiro ideal.
E tinha mais. A única pessoa que eu conheci que, no meio duma conversa entre amigos, todos numa roda, em pé, copo de whisky, cheio, na mão, encostava-se a uma janela, braço no parapeito e, devagarinho, ia fechando olhos até adormecer. E dormia bem, profundamente. De pé!
Mas o copo não caía da mão, nem entornava. Os amigos chegaram a pregar-lhe um susto, para ver como ele acordava. Serenamente abria os olhos e entrava na conversa como se tivesse estado sempre atento.


Um ótimo e alegre companheiro, que deixou saudade imensa. Lutou muito e foi vencido.
Grande Armando Avillez. A falta que faz.

***
Dois metros de altura! Dois metros de gente boa. Nem gordo, nem magro, mesmo já quando velhote.
Teria uns quarenta e poucos anos foi passar um ou dois meses em Angola, sócio da empresa representante das calculadoras Burroughs e, como acontecia com quase todos os que chegavam aquela terra, em breve estava apaixonado por ela (país!). Chegou a cogitar comprar uma pequena fazenda de café, para o que, após algumas consultas, nos deslocámos lá para os interiores do Uige! Havia um intermediário interessado em ganhar uns cobres, um pseudo vendedor de terrenos e o proprietário à nossa espera.

O intermediário, o proprietário, o pseudo vendedor e os dois metros de “cliente”

Ninguém sabia qual a área da fazenda, documentação era abaixo de provisória, o que significava que nada valia, acesso difícil, todo o mato para limpar, mas nada disso impediu que por lá déssemos uma volta.
Fez-se noite. O dono (?) do terreno tinha uma cabana de madeira, menos que tosca, e não tinha mais do que uma cama que, gentilmente, cedeu aos visitantes. Cama de corpo e meio, estreita, colchão de palha, enfim, comodidades de hotel de 5 estrelas... negativas!
O hipotético comprador disse logo que não dormia com outro homem! Eu. Mas não havia mais onde repousar o corpo. Decidiu-se então colocar as almofadas entre os dois e assim nos deitámos. O que sobrava era tão estreito que nem um de nós dormiu bem! E ele com os pés e um pouco das pernas que sobravam... para fora!
Não comprou a “fazenda”.
Caçador de perdizes e coelhos em Portugal, a caça em África era toda outra coisa, e logo o vício aflorou com força. Não lhe chegavam um ou outro fim de semana. Mesmo durante a semana queria ir fazer o gosto ao dedo.
A empresa tinha um pequeno furgão, pintado de amarelo agressivo, o que mais dava nas vistas.
Caça à noite com farolim era proibido, o que não impedia que muitos, ou quase todos, o fizessem.
Pois o nosso amigo mais do que uma vez, vinha até nossa casa, aí pelos nove da noite, rua sossegada, ninguém à vista, tocava ao de leve a buzina e sem sair do carro:
- Chico! Vamos ali à estrada de Catete matar um javali!
- Olha: primeiro é proibido caçar de noite, pior numa estrada principal e terceiro os javalis não dão os olhos, não refletem a luz. Se queres podemos ir amanhã ao fim da tarde, eu saio um pouco mais cedo, mas só caçaremos até o sol se pôr.
Deixava o carro, entrava, conversámos um pouco e ele voltava para o hotel... desiludido!
Quando jovem chegou a estudar no Instituto de Agronomia, onde, no fim do ano letivo, sempre era organizada uma garraiada para os alunos demonstrarem as suas qualidades tauromáquicas.
Logo inscrito e convocado com “espada” ou “bandarilheiro”, entrou na arena, em Vila Franca de Xira, e fez uns passes que mereceram aplausos.
Não tardou a que os espectadores vissem nele a figura do mais famoso “matador” daquele tempo: o espanhol Manolete, e animados, começaram a aplaudir e chamar-lhe “Manolete”.
Ficou famoso! E até ao fim da longa vida, ficou sendo chamado de Xico Manolete.
Grande (mesmo) Xico Manolete. Francisco Andrade e Sousa.
Um companheiro sempre tranquilamente alegre, dois metros de simpatia. 

13/04/2018


quinta-feira, 26 de abril de 2018





Já lá vão 20 anos!. Há dias descobri esta pérola entre muita papelada que tenho guardada e que, vai dando de comer aos cupins e/ou salalés e/ou carunchos papelíferos.
Parece mentira, mas eu lembro de ter vitsto esta tão erudita revista que, qualquer dia, ainda vai aparecer por aqui meia roída!
E, no meu sentimento de colaborar com a história e geografia universais, escrevi, na ocasião, a carta que segue.

11/Nov/98

Sr. Diretor da Revista FATOS

Um dos números dessa “prestigiosa” revista publicou um lisonjeiro e erudito artigo sobre Lisboa, que foi, com a EXPO 98, a Capital Mundial dos Oceanos.
Como há alguns ligeiros detalhes que convém retificar quanto ao dito artigo, muito grato ficarei se V.S. mandar publicar esta modesta colaboração.
Tem toda a razão o redator do artigo ao informar os leitores que em Lisboa a língua oficial é o português e que também se fala muito castelhano, que o país é banhado pelo Oceano Pacífico, que é uma cidade plana e quase todas as suas construções são em estilo gótico.
É uma análise sucinta, clara, fruto de um conhecimento profundo do local, e com isso o redator está de parabéns, porque para definir assim Lisboa é forçoso conhecer a história desta terra.
Muita gente sabe que Portugal sofreu profundas transformações depois da revolução de 25 de Abril de 1974, e aqui é que entra a genealidade do redator.
Permita-me, senhor Diretor que me alongue um pouco para poder corroborar com a descrição feita em sua revista.
Lisboa é uma cidade antiga. Muito antiga, mesmo. Mais antiga do que Brasília-DF, Jacarepaguá-RJ, São Vicente-SP e até Cafundó-MG.
No antigamente era uma cidade com sete colinas, mandadas amontoar por Ulisses (não o Guimarães), o seu presumível fundador, para recordar outra cidade e outras formas arrendondadas que lhe tinham marcado o coração: Roma, onde ao passar se enamorou pela rubicunda Cicciolina.
Foi um imenso trabalho, escravo, claro, só comparável à construção das Pirâmides da Armórica, que como se sabe, anos mais tarde o Napoleão levou para o Egito para conquistar com a Cleopatra, sem o Marlon Brando saber.
Falava-se em Lisboa, nos tempos primitivos, uma língua meio estranha, mas assim que foi incorporada a Portugal, depois de conquistada aos índios Sioux com a ajuda dos cruzados, não os do plano Samey, mas ingleses, normandos e alemães, a língua que predominou a partir dessa ocasião foi uma mistura de holandês, idish e carolíngio.
Depois do 25 de Abril, a revolução que levou o país à democracia, tudo ali se transformou, começando pela língua que uma lei determinou, depois de consultados os lisboetas, que devia ser uma mistura de português e espanhol com vista à futura integração do país numa Espanha unida. (Ainda está um quanto desunida mas o tempo é o melhor remédio). Por isso é que a língua oficial é o português.
Mandaram também os revolucionários socialistas nivelar toda a cidade para que não subsistissem diferenças de nível entre os moradores das partes altas e baixas, tendendo-se assim para uma completa eliminação das chamadas classes dominantes em alturas.
Logo a seguir houve aquele horrível fogo que destruiu uma importante e antiga parte da cidade, e o então Presidente da Câmara - no Brasil leia-se Prefeito – aproveitou para baixar outra lei dizendo que tudo quanto se construísse ou reconstruísse dali para a frente teria que ser em estilo gótico, para condizer com o Centro Comercial das Amoreiras, de si uma obra prima do século XV (leia-se quinze). Infelizmente ficaram a destoar ainda alguns monumentos, como o Mosteiro dos Jerónimos, mandado construir pelo próprio Ulisses e financiado pelo Papa João XXI (21, e era português) em estilo grego clássico, mas agora com o apoio da Unesco vai ser todo demolido e reconstruído com a traça gótica do redator da sua revista. Finalmente quanto ao mar que banha a costa de Portugal também está muito bem observado ser o Oceano Pacífico, ligado ao Atlântico através do Estreito de Gibraltar.
Outra histórica decisão revolucionária mantida até hoje em total secretismo, porque dantes quem banhava a costa de Portugal era, alternadamente o Oceano Índico, quando as naus retomavam de Calicut, Malaca e outras aventuras, e o Ártico, na volta dos navios bacalhoeiros. Estes dois oceanos ligavam-se entre si através do Estreito de Malaca, que mais tarde, após a independência do Uruguai se denominou Skagerak. Hoje em dia com os conhecimentos precisos que os satélites nos proporcionam retificou-se toda esta confusão geográfica, e passou a definir-se, inclusivamente para os estudantes, que quem banha Lisboa é de fato um Pacífico Oceano, uma vez que já não há receios de revolucionárias inquietações, e a sua ligação ao Atlântico faz-se, não mais através do Estreito de Gibraltar, mas sim pelo estuário do Tejo, entrecortado com algumas pontes que foram construídas ainda no tempo dos celtas, sobretudo aquela compridona que sai do Poço do Bispo (onde o antigo bispo escondia a grana surripiada aos infiéis) para o Além Tejo, a parte montanhosa de Portugal, onde se pode skiar o ano inteiro, lugar duma tribo ainda com falar próprio, os Alentejanos, onde o decreto da língua unificada ainda não consegui implantar-se. Interessante também como o redator se lembrou de referir o Marquês de Pombal que mandou reconstruir 2/3 da cidade que ficaram destruídos depois da II Guerra Mundial. Foi ele, sim, mas que como era nazista, e depois da guerra isso era mal visto, e ainda por cima a Dª Maria, a 1a governanta do Salazar não gostava dele, quem ficou com a fama, indevida, foi o General Marshall, que no seu gabinete em Washington assinou todos os projetos de saneamento, inclusive o que saneou mais tarde o Marcelo Caetano e o General Spínola.
Para finalizar, o Estreito de Gibraltar, que como todos sabem fica na costa da Groelandia, hoje em dia só serve para separar a Espanha da Grã Bretanha, tal com as Falklands ou Malvinas, situadas no Mar de Bhering, separam este país do Peru. Parabéns, senhor Diretor, pelo nível de conhecimentos do seu redator. Peço que perdoe este meu atrevimento que não teve outra intenção que não fosse complementar, com alguns detalhes simples, as informações concisas da sua revista. Continue a informar assim os seus leitores que de outro modo serão sempre uns ignorantes em geografia e história, e com a precisão dos dados apresentados vão se extasiar ao visitar as suas cidades encantadas. Cumprimentos

Francisco G. de Amorim



domingo, 22 de abril de 2018



Algumas leituras – 3

ANGOLA – O dia a dia de um embaixador

Tenho lido muito livro, e tenho tido sempre (quase!) o cuidado de escolher aqueles que me parecem bons. Um dia vi anunciado um livro, “Mamma Angola”, editado em 2000, nome sugestivo, comprei. Escrito por um super professor, super mestre, super doutor e prefaciado por outro ainda mais doutorado, li-o com um doloroso amargo na goela e a que fiz profundas críticas. O autor tinha ido como cooperante, professor de economia, brasileiro, para Luanda “ensinar”. Do PCdoB, claro!
Malhei o quanto consegui, desmenti inúmeras falsidades e ataques aos portugueses, e até ressaltei uma afirmação do autor de que tinha convencido uns alunos a roubarem na biblioteca alguns documentos de que se orgulhava possuir por ter ficado com eles.  Como é de imaginar o super não respondeu, apesar de eu ter conseguido o email dele e da instituição onde lecionava. Lecionava? Enganava.
De vez em quando somos enganados pelas capas!
Desta vez, além da capa ser muito bonita e nos trazer uma imagem icónica (pleonasmo?) de Luanda, não me enganei. Nem podia. Conhecia o autor e mais, já me encantara com o seu modo de ser e escrever.
Mas fazer um comentário a um livro como este, além de extremamente difícil, é um atrevimento da minha parte. A ideia é que aqueles que lerem este texto, que conhecem ou conheceram, ou querem conhecer Angola, fiquem com vontade de encontrar o livro, esgotado, e que merece, muito, uma nova edição. Como já se está a pensar em editá-lo traduzido em inglês e, quem sabe, noutras línguas.
É uma aula de diplomacia, elegância e humor.
Devia ser livro obrigatório no ensino da história recente de Portugal. Na Faculdade de Letras, História, e Relações Internacionais... compulsivo!


Ler este livro, escrito durante um período extremamente difícil de Angola, além de ser grande aula sobre o comportamento de um diplomata, alterna a história do momento, com inigualáveis descrições de colegas e pessoal que ali conheceu, com um humor e respeito próprios dum espírito e educação elevados, como infelizmente é raro encontrar.
Levou-me a recordar amigos que conheci antes da independência e depois perdi de vista, a alguns outros com quem consegui manter e aumentar uma profunda amizade.
O autor esteve como embaixador em Angola de 1983 a 1988. Em Janeiro de 91 eu fui duas vezes a Angola quando trabalhava para uma empresa espanhola de projetos de engenharia e pescas.  Fui lá encontrar exatamente o ambiente que tão bem é retratado. Lê-lo foi reviver essa experiência, que teve até tiroteio em frente ao hotel onde me hospedei!
Mas o António Pinto da França demonstra, em todas as páginas, um cuidado, sensibilidade e firmeza nas suas atitudes perante a nova classe de dirigentes, inexperientes e arrogantes, pior ainda porque sob a pesada mão dos soviéticos e cubanos que, de entrada, se arvoraram em “donos do pedaço”, o medo e a subserviência não lhes permitia serem “eles mesmos”.
Com frequência, nos lembra que Cristo padeceu mas sempre amou até os seus algozes, são páginas que mostram que a humildade nada tem a ver com a firmeza do diplomata ao representar o seu país.
Logo de entrada nos diz que os angolanos vivem “apaixonados” por Portugal, somos a sua obsessão. Mas, como em todas as paixões violentas, também nesta se confundem sentimentos de amor e ódio. Grande mistura de politicagem. O coração de quase todos os angolanos permanecia com fortes saudades de Portugal e até dos portugueses. Os outros que para aqui vieram não falam a nossa língua e nos tratam como seres inferiores.
Exemplo edificante o do criado de mesa do embaixador da Suíça. Um humilde criado de mesa, independente de quem o suíço tivesse a jantar em sua casa, sempre servia em primeiro lugar, fosse quem fosse, um português. O embaixador já tinha deixado de insistir nas precedências, que nada o convencia a não proceder assim. Ele ficava na sua e passa sempre à frente de todos os outros convidados.
Os dirigentes angolanos estavam obrigatoriamente de relações cortadas com Portugal, pelo “apoio” dado à Unita e pela aversão de Mário Soares, então primeiro ministro, aos soviéticos. Além disso os “donos” do 25 de Abril, o PCP, eram quem escolhia os cooperantes, cuja missão parecia ser também o azedar as relações entre os dois países. Se o governo angolano abrisse bem as portas a Portugal o PCP perdia a razão de existir, e os soviéticos e cubanos a sua dominação, que passaria para o eixo Europa – EUA. A luta política era difícil, e por estranho e vergonha que pareça, quem mais dificultava esse diálogo eram esses pseudo cooperantes portugueses e brasileiros como o caso do livro do brasileiro que acima refiro, que procuravam denegrir o passado português, envenenando e torpedeando as relações.
O nosso embaixador, sentiu isso profundamente, e relata-o de forma inequívoca.
Entretanto a cidade em total abandono. Os cubanos haviam extraviado o plano de saneamento e os esgotos estavam completamente entupidos, vazando em inúmeros lugares da cidade, exalando cheiros nauseabundos. Uma tremenda falta de alimentos, medicamentos e outros bens essenciais.
O angolano, sempre com o seu brilhante jogo de cintura ia resolvendo o problema assaltando, roubando, os contentores que chegavam ao país, e nos mercados “paralelos”, uns acampamentos gigantescos e caóticos, com nomes bizarros – “Tira Cueca”, Ajuda Marido” e outros que deram origem a um que ficou famoso, com o nome da novela brasileira Roque Santeiro, vendiam de tudo. Desde medicamentos na caixa ou avulso, até eletrodomésticos e automóveis! Um caos.
Uma delícia são as descrições das personagens, que ele faz com um humor único, mas sempre envolvendo um tanto de carinho.
Convidado para um jantar dos Rotários, “sentaram-no entre o Presidente e a sua “Ana”, designação que o manual da instituição determina que assim se chamem todas as consortes dos rotários, em nostálgica homenagem à mulher do fundador que assim se chamava!”  E descreve: “esta “Ana” é uma daquelas mulheres que rebentam das ancas estreitas, numa girândola de carnes ebúrneas contidas pela cabeça, que quase afogam.”
Num dos aniversários das FAPLA houve parada. “Como os convites nunca chegam a tempo ou se extraviam, poucos eram os Chefes de Missão presentes. Não obstante a tribuna diplomática, um estrado, como sempre ao sol, estava a abarrotar de altas patentes russas e cubanas. Vi-os enfim, personagens mitológicas, que vivem reclusos no Olimpo. São eles que na sombra puxam os cordelinhos da guerra e da política desta desgraçada Angola. Estavam em massa, os corpulentos generais soviéticos, esplendidamente uniformizados, carregados de galões dourados, cada um com seu interprete privativo, acolitados por coronéis igualmente marciais.”
Recepção das “celebrações da Tomada da Bastilha! No mostruário dos diplomatas franceses perfilados para nos acolher... o embaixador, sempre excêntrico, atrevido e esticadinho. Num smoking em “lamé” cinzento de largas bandas negras, “toilette” talvez amorosamente combinada com a amante zambiana que lá dentro se rebolava num smoking igualmente “pailleté”, este em tons vermelhos. Imaginei-os logo à noite, de regresso a casa, na intimidade da alcova a dançar, gloriosos, um sapateado desenfreado, antes de caírem no tálamo entre Champagne e risos estridentes...” Maravilha!
A descrição que faz de um personagem emblemático, inglês que vivia em Luanda desde 1925, o senhor Frank Hollis, que eu, como todos os que ali viveram no tempo colonial conhecemos bem, é, como as outras, antológica.
O autor, que havia estado em Angola no início dos anos sessenta a cumprir serviço militar, já havia sido “mordido” pelo mesmo bichinho que mordeu a todos (ou quase todos) que por lá passaram, e não esqueceram, nem esquecem aquela terra e suas gentes. Além de que tinha por lá profundas raízes que começam com uma avó que nasceu em Moçamedes, até ao pai, engenheiro civil, que em 1949 projetou a captação de águas do Bengo para Luanda, cujo nome ainda hoje é reconhecido pelo belo trabalho que fez.
Já nesse tempo penetrou fundo na alma do povo, quer fosse o nativo como os portugueses que se tinham dedicado de alma e coração ao desenvolvimento do país.
Veio, como embaixador, a confirmar “a grandiosidade do trabalho das Missões, católicas ou protestantes, em África. Souberam abrir o mundo aos que por eles passaram sem lhes bulir com a identidade. Também aqui os mais articulados, aqueles que melhor se assumem como africanos, são os que frequentaram as Missões.
Aproxima-se a hora de deixar o posto. No Natal soube onde o Cardeal Arcebispo Dom Alexandre ia celebrar a Missa do Galo e informou que queria estar presente. Igreja de São Paulo, apinhada. Ao entrarmos fomos acolhidos por um grupo de mulheres com a dignidade de matriarcas, envergando as suas melhores roupas, todas com as fitas e medalhas das Filhas de Maria ao pescoço. Nós éramos os únicos europeus no meio daqueles angolanos. Conduziram-nos solenemente aos lugares que nos haviam preparado. Num dos bancos da frente haviam colocado duas almofadas de veludo vermelho e na balaustrada uma colcha de damasco da mesma cor. Enquanto se aguardava a chegada do Cardeal o pároco exultava a assembleia a cantar. Desnecessário porque só queriam mesmo era cantar. Entretanto o pároco interrompeu para lhe anunciar: “Temos conosco o embaixador de Portugal”. Logo toda aquela gente irrompe numa imensa salva de palmas.”
Depois começam as despedidas. Aqueles membros do governo que de entrada estavam “proibidos” de o visitarem eram agora quem o convidavam para suas casas “recebendo-nos com a maior familiaridade, deixando vir ao de cimo os afectos que os une ao “Puto”.
O final da estadia foi uma celebração ao estreitamento das relações que tão deterioradas estavam.
O secretário de Estado da Cultura abriu a exposição de aguarelas que a Sofia, senhora embaixatriz, pintara durante o tempo que passou em Luanda. Essas aguarelas guardaram boa parte do património construído na capital de Angola, algum quase em ruinas.
E tanto se interessaram pelo trabalho que pediram depois autorização para com algumas delas fazerem nova emissão de selos!
O remate vem com uma visão geral dos problemas que Angola enfrentou depois da Independência, com as veladas lutas pelo poder, com as interferências estrangeiras, com o dealbar do jeitinho e da corrupção, inevitáveis em todos os lugares do mundo, e com a continuação da guerra civil, com a Unita que só terminou em 2002!
Um livro a não perder. Um livro que os angolanos devem ler com muita atenção.
Enfim, um dos melhores livros que eu tenho lido.

19/04/2018

domingo, 15 de abril de 2018



Algumas leituras – 2


Que me perdoem os leitores, não só da página que há anos me concede o jornal Sol Português, de Toronto, e mais os deste blog, se vos impinjo alguns considerandos sob a capa de comentários a livros que (ainda) vou lendo, alguns dos quais me dão um prazer especial.
Se gostei, procuro compartilhar. Há, por certo, quem queira também se dar esse prazer.
No último texto falei sobre alguns livros de António Pinto da França, e voltarei a falar dele no próximo.
Desta vez só alguns detalhes sobre um autor que, muito mais do que escritor, foi toda a vida, e continua, já com largas décadas nos ombros, com o mesmo “bichinho” a desafiá-lo, um incansável, irrequieto trotamundo, sempre à procura de novas gentes, muito mais do que novas paisagens.
Desde garoto se meteu à aventura, viu o mundo abrir-se lhe e não perdeu tempo em o conhecer.
Andou à volta do globo, procurando em primeiro lugar conhecer as gentes, e por acréscimo, os lugares.
Escreveu primeiro um apanhado da sua inquieta ou irrequieta vida, a sua ânsia de mais e mais conhecer, a que deu um título que no Brasil seria “o bonde só passa uma vez; ou pega ou fica parado”, em Portugal poderia ser mais ou menos “mais vale um pássaro na mão...” em kikongo, algo parecido com “kwenda moki i kwenda luzi” que significa, em tradução livre “vendo é que se ganha experiência”! Certamente em todas as línguas haverá algum provérbio com o mesmo sentido que se pode adaptar ao seu livro.
O autor optou por aquele que mais configura o que foi sendo a sua vida:


E foi assim que agarrou dezenas de oportunidades que lhe foram passando à mão. Não deixou nunca o cavalo seguir sem o cavaleiro.
Desde o Magrebe a Moçambique e Angola, da Finlândia ao Monte Athos, a Montanha Sagrada na Grécia, e sobretudo ao Brasil com especial intenção de um dia poder visitar as regiões mais emblemáticas, como o Pantanal e a Amazónia.
Deu asas à sua curiosidade, inquiria, procurou viver, muitas vezes, do mesmo modo que os visitados, para os compreender e se fazer compreender.
O livro não é um “tratado” de literatura, mas é certamente uma lição de vida agitada, um contínuo aprendizado com novas gentes, o que nos deixa um pouco de amargo, para não dizer inveja de não termos podido também ter visto um Cavalo Encilhado nos passar tantas vezes à porta!
Curiosas, curiosas é palavra demasiado simplória, e muito interessantes observações nos transmite através das suas vivências, que nos fazem, de forma muito direta entrar em todos os lugares que visitou, como no meio de alguns povos indígenas, o que ajuda a compreendê-los melhor.
Tem um “quê” de Tratado de Geografia! Aprende-se muita coisa, em cada um dos lugares por onde andou.
São vivas as descrições que faz das igrejas/mosteiros gregos lá... plantados no alto de imensos rochedos, onde se revivem mil anos de história, a curiosa “notícia” duma igreja especial há meio século construída, uma maravilha da arquitetura, que em vez de sair do chão para as alturas, foi escavada num rochedo no centro de Helsínquia.
Igreja da Rocha - Temppeliaukio kirkko - em Helsínquia, na Finlândia

A travessia do deserto do Saara, numa expedição de aventureiros, quase nos faz colocar uma máscara para que não nos entre nos olhos aquelas areias.
O principal vem da magia da Amazónia. Milenar, mas novo. A vivência no meio dos índios, tudo isso contado com detalhes sempre de muito interesse.
E tanto a Amazónia lhe ficou a cutucar as idéias que um quarto de século mais tarde organiza uma expedição, a todos os títulos mais que louvável de que foi editado um livro contando toda essa imensa aventura. Leva-nos pelo interior da Amazónia, conta-nos dos seus contatos com os jovens das escolas por onde passou a dizer-lhes que a Amazónia é deles, brasileiros, porque Pedro Teixeira, em 1639, tomou posse de todas as terras visitadas em nome do Rei de Portugal, na altura Filipe III.
Distribuiu por todo o lado um pequeno livrinho dedicado às crianças, muito bem elaborado, contando a história do porquê a Amazónia é brasileira


O livro que relata toda a expedição, não é um livro de literatura. É um livro de história, de geografia, com sensíveis descrições dos contatos humanos, são lições de determinação e vontade, que define o autor e mentor como um trotamundo que parece imparável.



Quando vi anunciado o lançamento deste livro, em Portugal, escrevi a uns amigos perguntando como poderia comprá-lo. Não passou muito tempo recebo-o em casa com “um abraço” do autor que não conhecia.
Através da Editora escrevi-lhe um pequeno, comentário, que lhe chegou às mãos.
Quando me agradeceu começámos a descobrir que não nos tendo nunca encontrado, vivemos na mesma época em Luanda e São Paulo, tínhamos os mesmos amigos, e cada uma conhecia o outro, por ouvir falar dele, há mais de quarenta anos.
Precisámos dum encontro “ao vivo”. Aproveitámos a minha passagem por Portugal, e fomos dar o abraço da amizade “escondida” tantas décadas, num almoço em Lisboa, com dois amigos comuns de desde... sempre, bem aos pés do belo Padrão dos Descobrimentos.


Lugar com um simbolismo bem especial. A ambos correm nas veias alguns genes dos descobridores, irrequietos, desejosos de ver novos mundos e novas gentes. De viajar. De não estarmos quietos.
Foi um belo abraço. De amigos há meio século que nunca se tinham abraçado!
E aqui fica outro, António de Bacelar Carrelhas.

15/04/2018

quarta-feira, 11 de abril de 2018


Algumas leituras -1

Como sabem, não sou um crítico literário, mas gosto, quando gosto da leitura, de fazer o meu comentário. Quando não gosto, ou deixo o livro pelo caminho ou jogo o imprestável no fogo. O livro é como um degrau: se é bom ajuda-nos a subir, se não presta, mais nos afunda. E não quero ajudar ninguém a se rebaixar!
Mas sempre há alguns livros que me “conquistam”, normalmente os relacionados com história, Romances ficam bem lá para trás, com exceção de raros como alguns de Camillo Castelo Branco e outros de padrão semelhante o que é raro, raríssimo.
Acabei de reler Em Tempos de Inocência” do meu querido amigo António Pinto da França, sobre a sua missão na Guiné entre 1977 e 1980, como embaixador de Portugal.

Guiné tornara-se independente há dois anos, tudo estava por fazer, organizar, uma tremenda falta de quadros, sem dinheiro, constantes faltas de alimentos, os “comissários”, à boa moda stalinesca perdidos e sem cultura, “procurando seguir os ideais marxistas, credo que lhes é contra natura. Pecados nossos! Teimando em fechar todas as portas aos Movimentos independentistas, empurrámo-los para os braços de Moscovo.” como escreveu o autor.
As descrições que faz sobre cerimónias oficiais, para o que não havia gente preparada para coordenar, como por exemplo “nas recepções e jantares é toda uma confusão de hesitações entre a gravata e a balalaica*. A mim nada disto escandaliza, inspira-me antes ternura e respeito por um povo que, com tantas dificuldades e falhas, se esforça por assumir os complexos desafios duma independência tão recente.”
Admiravelmente escrito, é um prazer contínuo a sua leitura, não só pela qualidade da escrita, mas por esta constante preocupação e compreensão dum povo simples, que quer continuar africano e apegado às suas raízes, como se quer ocidentalizar porque é daí que lhe virá o progresso.
O seu jeito africano, autêntico, de ser, amável, carinhoso, sorridente, acolhedor, tocam profundamente o mais íntimo do “Senhor Embaixador” que se mostra gratificado com a singeleza e as atenções daquela gente.
Observador perspicaz, tem algumas passagens em que se refere a colegas diplomatas, que são antológicas, como “a vampiríssima Madame Paquin, adjunta das Nações Unidas, matrona de olhos verdes com certo aspecto de patroa de casa de senhoras, reformada da profissão.”
Critica severamente a maioria dos portugueses cooperantes, aproveitadores do desregramento que vivia Lisboa, para ganharem um dinheirinho extra, inchados na sua condição de europeus frente a gente simples e que tanto necessitava de ajuda sincera e compreensão. E não eram só os portugueses. Numa pequena cidade no norte da Guiné viu numa “longa varanda do primeiro andar dum prédio colonial três paquidérmicas e louras figuras, uma mulher e dois homens, em camiseta e shorts, transpirados, debruçados, perdidos, num mundo em que nada acontece e que eles não compreendem. Três, cooperantes russos.”
(Em 1991 também presenciei figuras semelhantes. Maputo, ainda sob o controle-descontrole dos marxistas. À noite fui jantar, sozinho, como por lá andei, a um pequeno restaurante. Dentro só mais uma mesa ocupada com dois pares de nojentos paquidermes, louros, duas crianças a caminho de se empaquidermarem também, falando alto, bebendo cerveja, tratando o humilde funcionário que servia às mesas com uma arrogância de bestialidade doentia. Quando por fim este lhes levou a conta, insultaram o “preto” afirmavam que não tinham bebido tanto, enfim, mostraram quem mandava ali, e o pobre empregado nada dizia. Pagaram o que quiseram e saíram. Aquilo revoltou-me. A única forma de deixar o indivíduo menos triste foi dar-lhe uma gorjeta igual ao valor da despesa, que nada representava porque a desvalorização do Metical era absurda.)
Voltando à Guiné, sobram no livro exemplo das “cooperações”: uma arquiteta yougoslava, casada com um “comissário” do governo, apresentou um projeto para construção de uma nova aldeia para pescadores. Arquitetura à moda da Yougoslávia: casa construídas em tijolo, telhados de telhas, vários quartos, sala, banheiro, etc. Uma “beleza”, para substituir as tradicionais casas africanas, cujo custo é quase zero. Estas, só o projeto custaria 1500 escudos e a construção 900 contos! Para uma população que vive de subsistência, sobretudo da pesca artesanal, sem dinheiro, isto é mais do que absurdo! (Vi também projetos similares em Angola para agricultores, só que feito por cooperantes checos!)
Numa das praias dos Bijagós um hotel foi “construído” com umas pequenas cabanas, oferta de um país nórdico. Horrivelmente quentes, seriam de modelo usado para abrigos na montanha. Np frio.
(E isto também lembra coisas que presenciei em Angola. A Suécia, querendo colaborar com o desenvolvimento deste novo país, após a independência, mandou, como oferta, seis caminhões limpa neves! Era o que mais Angola necessitava!)
Talvez seja o mesmo país nórdico que depois encheu o governo da Guiné de automóveis Volvo, estes certamente pagos. E “tantos eram que a Guiné deixara de ser uma democracia para ser uma volvocracia!”
O autor demonstra, o tempo todo, um respeito e um imenso interesse pela cultura, tradições e ritos dos guineenses. Em todo o lado é recebido com o maior carinho, envolve-se com toda a sua simplicidade na contemplação e tentativa de compreensão dos povos simples.
A descrição que faz dos empregados da embaixada, e as suas constantes brincadeiras com eles, mostram bem a pureza do seu caráter, e o cuidado com que brincava com todos sem se dar “importância de europeu, nem de Sua Excelência”.

No outro seu livro “Cartas Baianas / 1821-1824” descreve o entusiasmo com que aceitou ser nomeado Consul Geral no Rio de Janeiro – 1974 – porque, entre muita outra coisa que ansiava conhecer, neste país onde viveram alguns dos seus antepassados, baianos senhores de engenho e militares, ia procurar estabelecer contato com uma imensa quantidade de primos, porque só um irmão de seu bisavô gerara 17 filhos.
A mesma constante procura, e mesmo cuidado e entendimento nas relações com todos os que o rodearam, características que demonstra de forma muito especial num outro livro “Influência Portuguesa na Indonésia”, livro mais que esgotado, mas que devia ser leitura obrigatória para todos os portugueses, e porque não?, para todos os que têm a língua portuguesa como língua nacional.
Nunca fiz um comentário sobre este livro, porque logo a seguir a o ter recebido de presente, do autor, este deixou-nos.
Comecei agora a ler “Angola – O dia a dia de um Embaixador”, outra pérola, para é angolano de coração e para quem aprecia um grande escritor.

Infelizmente, António Pinto da França já não está entre nós. Não é preciso tê-lo conhecido para o admirar e sentir que ali estava um caráter admirável, uma elevada educação e cultura e ao mesmo tempo sempre uma boa disposição e humor que contagiava. Um grande humanista. Um grande Senhor.
Felizes os que, como eu, o tiveram como amigo.

* Balalaica: tipo de casaco, de tecido leve, fresco, também conhecido como camisa safari.

08/04/2018

sexta-feira, 6 de abril de 2018



Notícias “quentes”

Bem sei que a maioria dos “pesquisadores” deste blog não são apreciadores de notícias chatas.
Mas para falar desta terra de onde o calor, teimosamente não se afasta é difícil dar notícias entusiasmantes, tais como seria inflação zero, juros bancários iguais aos da Dinamarca, seriedade na governança como a Suécia, etc.
Ao mesmo tempo as pessoas gostam de saber como se vive nestas bandas, sobretudo quando sabem que por aqui, sem opção de melhor escolha, continuam a lutar os amigos, e os desconhecidos, todos passando dos duzentos milhões.

O Banco Central baixou a taxa de juros para níveis quase milagrosos – 6,5% a.a. – e os generosos, os caritativos e beneficentes bancos cobram SÓ, no saldo do cartão de crédito não pago, algo em torno de 450%.Repetir para fixar: quatrocentos e cinquenta por cento ao ano! E deste modo são os bancos que batem os recordes mundiais de lucro. Mas não se preocupem comigo: dinheiro deles... não quero.

Os roubos explodem, afirma o jornal em grande manchete, sobre o que se passa na “cidade maravilhosa”! Quer dizer, só no Rio de Janeiro, fora o restante do país
- a pedestres: em 2004, 2.815 roubos; de Jan. a Mar 2018, 18.307, o que pressupõe 73.228 no ano
- de veículos: em 2001 4.347; 1º trim. 2018, 10.078; = 40.312 aa
- em ônibus: média 2003/4, 1.000; 2018, 2.088; =8.072 aa
- de caminhões de carga: em 2004, 571; 2018, 1.719;= 6.876 aa
- de caixas eletrónicos: 2003, 1 (um); 2018, 15; = 60 aa
- de celulares: em 2017, 1.315; 2018, 4210; =16.840 no ano.
Atenção: os números de 2018 são de um trimestre só, enquanto os dos anos anteriores são do ano todo.
Mas apresentamos a perspectiva, animadora, de como pode ser o resto do ano

Entretanto, neste ano só foram assassinados 32 policias... no Rio.

Todos os dias os jornais noticiam mais prisões de políticos: ontem, o perfeito de Cabedelo e mais cinco vereadores da camarilha, um municipiozinho na Paraíba com pouco mais de 60.000 habitantes, foram presos pela Polícia Federal. Só desviaram R$ 18 milhões. Uma mixaria. Dá só R$ 300 por munícipe!

Antes do STF se pronunciar pelo habeas corpus do insigne doutor honoris causa por coimbra, condenado, e confirmada a condenação a doze anos de xilindró, o Comandante do Exército “tuitou” um avisozinho simbólico: “ As F.A. estão atentas e não estão dispostas a permitir que se rasgue a Constituição, nem a aceitar a impunidade!”
O que foste dizer! A esquerda festiva zangou-se, xingou, o que não lhe deve ter feito qualquer diferença. Não se sabe que nomes lhe terão chamado, mas o mínimo foi de nazi. Eles queriam o honoris solto para continuar a roubar, mas... o que lhe vale é que ainda pode recorrer, tem direito ao embargo do recurso e ao recurso do embargo, e vide versa, como aconteceu com um ex-senador que roubou dos cofres públicos só uns cento e sessenta milhões (imagina quanto seria nos dias de hoje!), foi condenado à prisão em 1992, e ficou se pavoneando por aí porque, com aquela grana toda, os advogados foram interpondo recursos, embargos, vigarices, etc., - tudo de acordo e ao abrigo da lei que eles fazem! – num total de 36 recursos!

Tem por aqui um órgão do des-governo que se chama ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico.
Diz o jornal que o modelo adotado pela tal de ONS enlouqueceu. Na semana passada fez cair o preço da energia elétrica no Nordeste de R$ 229,53 para 40,16/MWh. Agora está a convocar as usinas termelétricas da mesma região para atender à demanda, ao preço de R$ 965,03. Viram para que serve o ONS? Eficiência, planificação e coerência!!!

Há poucos anos construíram-se dois teleféricos para servirem a população de duas áreas desfavorecidas do Rio: o Complexo do Alemão e o Morro da Providência, que custaram R$ 328 milhões e transportavam mais de 20.000 passageiros por dia. Como foi construção política ninguém pagava pelo transporte. Acabou a grana, e assim a manutenção. Fechou em Dezembro de 2016 e está no total abandono. E, como era de prever o pessoal tem lá ido buscar lampiões, cabos elétricos, etc. Depredar. Hoje são uma sucata.

Como é do conhecimento geral e mundial, o tal de sapo barbudo e deshonoris causa, parece, parece, que vai mesmo preso. Antes do douto veredicto final, as supremas e eternas eminências da altíssima magistratura discutiram, desavergonhadamente entre si, tudo passado na Tv. Mas como têm um linguajar próprio, erudito, ininteligível para o comum mortal, chamaram-se de distópico, disruptivo e, a mais linda palavra foi de teratológico. Achavam-se em concurso para representarem o Hamlet, procurando, pela ignominia... pulchra bello.
É evidente que estas palavras existem... em alguns dicionários, mas aqui para nós, são excrescências da língua.

O mais interessante é que foi expedida ordem de prisão, simpática, como é característica deste povo, convocando o facínora a se apresentar para ir em cana. Respondeu. Não vou. Se quiserem venham me buscar! O safado tem lá milhares de correligionários, cercando a casa onde ele se encontra e que se propõem afrontar a polícia.
A novela ainda vai dar muito que falar.
Aguardem os próximos capítulos.

Vocês já imaginaram o que teria sido se tivessem querido prender o Stalin, o Mao ou até o King Kong?

PS.- Prometo não voltar a falar de sujeira tão cedo!


06/04/18