segunda-feira, 4 de julho de 2011

 
Historia da residência dos Padres da Companhia de Jesu em Angola, e cousas tocantes ao Reino, e conquista

CAPITULO PRIMEIRO. INFORMAÇÃO DESTE REYNO E MINAS

O reyno dos Ambundos vulgarmente dito de Angola se chama nas cartas de mercês, e provisões dos Reys de Purtugal desdo tempo delrey dom Sebastião a esta parte novo Reyno de Sebaste na conquista de Ethiopia (2). Está em nove grãos na Etiópia meridional norte sul entre o de Congo e o de Benguella, leste oeste com Pernambuco na costa do Brasil. Os nomes das províncias mais nomeadas, que em si agora encerra são:
A liamba do rio de Coanza para a linha equinoxial. A Quiçama da banda do sul; o Mosseque, Dongo aonde está a cidade de Cabaça em que vive o Rey, o Are, o Ungo, e outras (3) Da villa de S. Paulo até Cabaça avera sesenta legoas (4). Todo o Reyno ao comprido (tomando por arraya Caçanze (5) que está oito da mesma villa) terá oitenta e de largo na mor dis¬tancia dizem que terá outras oitenta.
Algumas partes da costa, e principalmente os lugares que estão ao longo do rio Coanza são doentios, por resão de lagoas e terras apauladas com a vizinhança do rio até a vila da Vitoria em Maçangano que também está cercado do Coanza e Lucalla. Com tudo sustentão os portugueses esta villa ainda que enferma e muito calmosa por estar no meio do Reyno em sitio muito forte, donde com facilidade se acode aos alborotos e novidades dos naturaes entre os lugares marítimos; este morro em que está situada a villa de S. Paulo, cabeça do Reyno, he muito sadio, e de bons ares. O mais do Reyno he fresco e temperado, antes tem exsseço de frio e nenhum de calma especialmente as terras do sertão, posto que também ao longo da costa ha muitas de bons ares, e sadias. A província do Ari e outras vezinhas com caírem mais para o nascente, e perto da linha, no tempo das aguas quando o sol anda sobre nós, he necessário aos portugueses que nelas se achão andarem bem roupados e chegaremse ao fogo. Já nos meses de Junho até Setembro que na lingoa chamão o Quicivo quando o sol se aparta de nós para o trópico do norte são insofríveis naquelas províncias os frios, e ventos. A terra de Cambambe da província do Mosseque, aonde estão as minas de prata mais nomeadas he tão temperada que o governador Paulos Dyas (7) a comparava nos ares a Cintra. Andando nela o nosso campo no anno de oitenta e sete com tanta necessidade que se mantinhão só com pal¬mitos, por ser a terra de minas estéril, e falta de mantimentos, nenhum sol¬dado adoeçeo antes andavão tão bem despostos como se andarão em Lisboa com serem novos na terra.
A maior parte deste Reyno he cuberta de grandes palmares donde tirão seu vinho, e azeite em muita quantidade, retalhado com muitos rios caudalozos e ribeiras muito frescas. Em algumas partes pela terra dentro tem larangeiras, e limoeiros, figueiras da terra, e bananeiras. De humas arvores muito grossas e altas a que nos chamamos cabaceiras tirão os naturaes os panos com que se cobrem da cinta para baixo, e em cima põem suas colmeias de que recolhem muito fermoso mel. Ha também inhames, batatas, bredos (8), mangericões pelo campo, beldroegas, jasmins e outras ervas proveitosas. Muitos géneros de ligumes da terra, e as sementes de Portugal em lugares frescos aonde não falta agoa, se dão muito perfeitas.
Ha muita variedade de aves de cores muy aprazíveis. Agueas, patos reaes de grandes cristas, e de tanta carne como hum carneiro, muitas aves de rapina, galinhas do mato, perdizes, galinhas corvaes, guinchos, pelica¬nos, paios bravos, adens, marrecas, corvos marinhos, outras aves de asas vermelhas a que chamão framengos (9). Entre estas ha huma ave de meãa grandura, de cores parda e branca a que chamão Fune, tem o voar muy sereno, e vão dando huns guinchos mui compassados. Nesta parece que reconhesem as outras superiolidade, como se vee em duas cousas, a pri¬meira que tanto que as outras aves vem, ou ouvem deixadas suas occupações a vão logo acompanhar. A segunda he que ao tempo de fazer o ninho as outras se aiuntão, e lho fazem em arvores altas com muitos e grandes paos. O ninho he comprido obra de vinte palmos, e no cabo delle cria dous filhos.
De animaes ha muitas castas pelo mato. Alifantes, leões, onças, empa-caças (10), que são como vacas, empalangas (11) maiores que bois, zevras como mulas listradas, veados, corças, lobos, gatos dalgalea, lebres, coelhos, porcos espinhos, porcos montezes; nos rios ha grandes cavalos marinhos e lagartos de trinta e quarenta pees.
O pescado, asi do mar como de rios, he muito e sadio. Junto da ilha Loanda da banda do mar, e da terra firme se tomão os peixes seguintes. Pescadas, Imgoados, salmonetes, gorazes, canteiras, maçuços, corvinas, sei" gás, macoas, tainhas, cavalas, mugens, roncadores, pâmpanos, garoupas, chicharros, sardinhas, peixe espinha, peixe coelho, peixe prata, peixe viola, peixe agulha, ostras, briguigões, amejoas, caraguejos, polvos, arraias, tar¬tarugas, botos, pargos, meros, visugos, arenques, barbos e outro muito gé¬nero de pescado. Ha também em alguns rios hum peixe chamado Angulo que quer dizer porco, a que no Brasil chamão peixe boi (12).

Notas:
(1) Esta História terá sido escrita em 1594 pelo Padre Pedro, ou Pêro, Rodrigues, natural de Évora, onde se alistou na Companhia de Jesus em 1556, foi um dos mais categorizados jesuítas do século XVI e XVII. Era mestre em Artes, ensinara primeiro letras humanas por cinco anos e outros tantos teologia moral; foi sete anos reitor do colégio do Funchal e outros sete do colégio de Bragança, mais de um ano Visitador de Angola, de 1592 a 1594, e nove anos Provincial da Província do Brasil, onde chegara a 19 de Julho de 1594. Faleceu em Pernambuco a 27 de Dezembro de 1628. No Brasil escreveu, pelo ano de 1606, a Vida do P-' José de Anchieta, que serviu de fonte principal às que depois se publicaram do vene-rando apóstolo {Annaes da Bibliotheca do Rio de Janeiro, volume XXIX, páginas 181-286). Poucos anos antes ministrara também ele ao P. Quirino Caxa materiais para outra biografia menor de Anchieta, a qual ficou por largo tempo sepultada nos arquivos. Foi descoberta em mais de um exemplar no ano de 1923; e no de 1934 a deu a lume, prefaciada e anotada, o P.° Serafim Leite.
(2) Paulo Dias de Novais edificou uma ermida de S. Sebastião na vila, depois ci¬dade, de S. Paulo, que fundou em frente da ilha de Luanda, em memória do Rei de Por¬tugal, D. Sebastião, como também deu àquela conquista de África o nome de «novo reino de Sebaste na conquista de Etiópia» em homenagem ao mesmo monarca. Mas em seguida passou esse nome ao esquecimento e ficou o primeiro de Angola.
A essa parte do continente africano chamavam também os nossos portugueses Etiópia. nova Etiópia, conquista da Etiópia, e mais designadamente Etiópia meridional ou ociden-te;, como diziam Etiópia oriental a região do mesmo continente do lado de Moçambique, e a seus negros habitadores davam genericamente o nome de Etíopes. Teles, na sua Histo¬ria da Ethiopia, página 6, escreveu: «£ste nome de Ethiopia he muy geral e comprehende todas aquellas regiões cujos habitadores têm cores pretas, porque a todos estes costumam chamar Ethiopes... ...O mesmo nome tem... tudo o que se estende até ao cabo de Boa Esperança e dobrando este cabo, tudo o que ha de terras até Angola e Cabo Verde, porque a todos os que povoam estas costas e o sertam delias chamam ethiopes e ás terras chamam Ethiopia».
3) O missionário Diogo da Costa, enumera só três províncias de Angola em carta datada de Luanda a 31 de Maio de 1586: «A primeira chamamos liamba que está entre o Rey [reino?] do Congo e o rio Lucala. A segunda he o Moseque [Mosseque] que está entre ai Lucala e o rio Coanza... A terceira a Guitama [Quissama] que está entre o Coanza e o Reyno de Benguella». Boletim da Sociedade de Geografia, IV, pagina; 382. A província de Are (Ari) fica ao norte de Coanza, e a de Ungo para o sul.
4) Cabaça ou Cabassa era a corte do rei Angola, a que os indígenas chamavam Dongo, segundo observa Franco, Synopsis Ann,. pág. 63: Urbs regia Dongus dieta ab indigenis, a lusitanis Cabassa. Lopes de Lima, Ensaios sobre a statistica, página XV, nota que o nome Cabassa é «corruptela da palavra Cabanza (capital)». Diz-se agora Pedras Negras de Pungo-Andongo.
(5) Caçanze ou Cassange.
(7) Assim, em vez de Paulo, escrevem outros autores, como Abreu de Brito, Sumario,...; Teles, Chronica, II, 620, e Franco, Imagem da Virtude. II, 460.
(8) Planta herbácea, oriunda de Portugal, que serve para fazer esparregado. Seria bredo?
(9) Framengos, flamengos e flamingos.
(10) Empacaças ou pacaças, pacassas: mamíferos semelhantes a búfalos.
(11) Empalangas ou empalancas, palancas, do género dos antílopes.
(12) Angulo ou Ongulo, como lhe chama o padre Garcia Simões na carta de 20 de Outubro de 1575. Na língua bunda escreve-se N'gulo. (Porco)

4 de julho de 2011

segunda-feira, 27 de junho de 2011


O “tal” Paraíso


Neste momento a grande ocupação, ou preocupação, do Brasil, são as marchas da maconha e dos homossexuais e o “casamento” entre estes. Não se fala noutra coisa, e a maioria dos governantes vive eufórica a apoiar para ver se leva mais uns quantos votos.
Está tudo liberado! Estou a pensar, por estes dias pedir ao STJ, o tal tribunal supremo, autorização para a “Marcha dos Pelados”, onde população vai toda nua para as ruas, o que além de ser totalmente natural, essa marcha vai abrir com grandes imagens da Afrodite, Apolo, Discobolo, e muitas outras, sobretudo retiradas de alguns templos hindus, para mostrar que o nu é uma arte, admirada em todo o mundo, através de muitos séculos.

Para esta marcha poderão aparecer todas as afrodites até com oitenta anos, bem como apolos até de cadeira de rodas.
E nesta marcha há um fator que não pode ser esquecido: tudo nu, nada a esconder. Tudo verdade.

A seguir vamos pedir para fazer a marcha, leia-se apologia, do crac (krak ?). Já autorizaram da maconha, o critério, a jurisprudência, deve ser mantida, porque a argumentação dos doutos juízes foi que a liberdade de manifestação não pode ser negada ao povo.
Preparem-se pois para duas grandes festas... populares, assim que o São Pedro estiver já a descansar.
Vejam os principais "desfilantes":


Só quem não descansam são os políticos. No pouco tempo que lhes sobra, depois das maquinações de corrupção e roubalheira, que havemos de concordar deve dar algum trabalho, muito bem pago aliás, o estar sempre a defraudar as contas públicas, meter a grana no bolso e ainda por cima apanhar outra canseira em tentar esconder o ilícito enriquecimento, ainda têm que legislar.

Coitados dos políticos, como sofrem!

E, imaginem crentes e tementes a Deus, que arranjam tempo para criarem todos os dias, repetindo, todos dias, dezoito – 18 – novas leis! Pessoal brabo mesmo.

Entre 2000 e 2009 o país criou 75.517 leis, uma média de 6.865 por ano.

Ora trabalhando assim, intensamente, pelo bem estar do povo, umas roubalheiras de permeio... são sempre desculpadas ou esquecidas nas gavetas dos tribunais!

Destas leis todas, 6.561 são federais! E de todas as que se criam, por exemplo no Rio de Janeiro, 80% são inconstitucionais! Mas a verdade é que são leis que projetam no futuro este país maravilhoso, leis de grande alcance social democrático, exemplo a seguir por todo o mundo, como a lei que cria o “Dia das Estrelas do Oriente”, ou o “Dia da Jóia Folheada”. Ora isto não é uma maravilha? Que sabedoria!
A preocupação é tanta com o bem estar geral, que até se tento legislar proibindo a utilização de telefones celulares dentro dos bancos, para evitar o contato com algum ladrão que estivesse fora a guardar o “pato”. Mas esta não passou; feria demais a liberdade de comunicação. Ah! Bom.

Há ainda leis que proíbem a exposição indiscriminada, em bancas de jornais e revistas, livrarias, e locadoras, de revistas, DVDs, etc. que contenham imagens impróprias, isto é ou nudismo ou até de sexo. Para se ver como o brasileiro é temente às leis e como a fiscalização é perfeita, basta ir a uma, qualquer, banca, e escolher a revista pelos seios ou pelo traseiro para bonito que as dezenas de revistas apresentarem. Traseiro de mulher ou de homem. Revistas para homens, para mulheres, e... para gays!

E tem uma particularidade curiosa: num país onde existe, na Constituição, e somente ali, a definição dos três Poderes, 85% das leis são propostas do Executivo a que os palhaços do Legislativo dizem sempre que sim, com medo de perder algum benefício “extra”!


Mas o povo não é bom, é ótimo, e então o carioca continua a ser o “rei da boa disposição”. Malgret tout.

Ora vejam estas delícias:

- há dias uma pessoa foi registrar uma ocorrência na 12ª DP em Copacabana, no Rio, e sentindo-se apertada precisou ir ao banheiro. Não tinha papel! Como resolveu? Não foi esclarecido, mas na ocasião um sabugo de milho teria sido a salvação;

- no domingo, dia 12, houve um apagão no Cinépolis Lagon, durante a sessão das 21h30m, com o filme “Se beber não case - 2”. Quando a escuridão tomou conta do cinema um garoto gritou: “Hé, gente, quem pagou meia já pode sair!”

- o famigerado ex ministro Palloci, que já foi posto fora dos governos, por indecente e má figura, duas vezes, tinha um apartamento alugado, no Rio, em condições escusas, em nome de um tal de Dayvini, mas que pertencia a seu tio, Gesmo! E, os escândalos do PT além de criminosos, são caricatos. Envolvem as seguintes “altíssimas” figuras: Erenice, Euriza, Eudacy, Delúbio, Francenildo, Barquete, Vedoin, Gedimar, Valdebran, Bargas, Lorenzeti e Freud. Viva a cultura dos nomes próprios!

- na penúltima sexta feira, numa agência do Banco do Brasil, um senhorzinho de cabelos brancos esperava na fila única, quando uma vovozinha mais velha passou direto e foi ao caixa. “Ei! Senhora! Tem fila”. Ralhou o senhorzinho.

A vovó reagiu zangada e foi apoiada por todos: “É o caixa dos idosos, ela tem direito”.

O senhorzinho se desculpou e ouviu da vovó: “O senhor não vai lá porque? Qual a sua idade?” Ele: “Não sabia. Tenho 68.”

E ele: “Nem parece. Ainda dava bom caldo...” A fila caiu na risada e puxou o coro: “Pega o velho! Pega o velho!”

É assim esta gente: afável, descontraída, alegre, acolhedora, mas, infelizmente ainda sem capacidade de exigir dos malditos governantes um mínimo de decência!

Olhem a "turma que vai defilar (depois de uma pequenas intervenções ortopédicas):












27/06/2011



sexta-feira, 24 de junho de 2011



Ἀριστοτέλης

 
 e a Educação no Brasil


Há quase 2.500 anos! O que Aristóteles nos ensinou sobre educação, afigura-se, a quem minimamente pensa, ao mesmo tempo brilhante e elementar.
Num dos seus volumes “A Política” diz-nos que “a cidade não é obra do acaso, mas do conhecimento e vontade.” É evidente, porque se os humanos até hoje estivessem a viver na selva, selvagens, pouco mais precisariam conhecer do que alguns instrumentos de caça, e... !
Adiante dá-nos a lição básica do que deve ser a educação: “começa pela educação doméstica, informal, que vai até aos cinco anos; dos cinco aos sete a criança deve assistir a lições preparatórias; dos sete à puberdade, uma fase mais adiantada, e daí até aos vinte e um anos.
Na primeira fase a criança baseia-se, sobretudo no exemplo que lhe é transmitido e no ambiente que a cerca, e afirma que a boa condição física deve ser incentivada desde tenra idade, não por meio de atividades agressivas, mas jogos que estimulem um desenvolvimento salutar.
Como até aos sete anos têm que ser criadas em casa, é lógico que, sendo tão pequenas, poderão aprender coisas indignas a partir do que vêem ou ouvem. Na verdade, se receberem do pai e da mãe um trato rigoroso e justo, hão-de tornar-se pessoas de bem; se não tiverem recebido esse contributo vão acusar a falta dele: se os pais não derem o bom exemplo da própria vida aos filhos, estes vão ter uma desculpa para os desprezarem.
A exposição à realidade deve ser controlada, cabendo ao legislador criar leis que proíbam, por exemplo, a assistência a comédias obscenas, até terem suficiente idade para poderem filtrar essa informação e não serem mal influenciados.
Frisa Aristóteles que cabe ao encarregado de educação proibir o uso de linguagem imprópria.
Mais adiante defende uma educação igualitária para todos os cidadãos, opondo-se por isso ao ensino privado, uma vez que isso implica uma educação direcionada para propósitos particulares e não de conjunto.

Por isso, nesta terra “de brasilis”, os primeiros a dar o exemplo da deficiente educação, são exatamente os professores do ensino oficial, os primeiros que mandam seus filhos para escolas particulares. Quando podem! (No Rio de Janeiro, uma professora ganha R$ 765,55 brutos, por 16 horas semanais ($ 10,88 por hora, igual a £ 4,20! Assim, para não morrer de fome, e com curso superior, ela dá aulas numa escola pela manhã, em outra à tarde, ambas municipais, e à noite num estadual! Infâmia)
Apresenta-nos o grande filosofo o esquema dos “estudos liberais”: gramática, no sentido do aprendizado da leitura e da escrita, ginástica, música e desenho.
Ginástica para um saudável desenvolvimento do corpo, com desportos nem competitivos nem profissionalizantes, que não dignificam o homem, desenho pelo que pode vir a ser útil no futuro de qualquer um, e música que podendo não ter qualquer utilidade, orienta o ócio de modo mais benéfico, indispensável para a felicidade de qualquer indivíduo, contribuindo de modo saudável para os momentos de lazer, e estimula ainda o exercício intelectual, desde que não seja uma música de revolta, de rancor, ódio.
Brilhante este senhor Aristóteles, cujos ensinamentos perduram ao fim de vinte e quatro séculos, mas... a que raros por aqui ligam! Aristóteles passou a ser um velho louco, caduco, utópico, demente?!
Não previu o grande filósofo, que hoje o bom é ser profissional de futebol, tênis, golfe, basquete, corridas de automóvel, cantor de músicas selváticas, ou cantoras pornográficas, que muitas vezes nada entendem de música, aprender/ensinar a falar e escrever errado, praticar desportos brutos como boxe, judô, jiu-jitsu, competir só para ganhar, porque se não ganhar fica complexado, e desenhar... só para os naturalmente dotados.
Como se na Grécia antiga todos nascessem dotados, tal a beleza das obras de arte que chegaram, felizmente, até nós!
Para que ter ministros de educação com curso de Direito, mestrado em Economia e doutorado em Filosofia (saberá quem foi Aristóteles, ou sabendo o desprezou?), que mandam ou autorizam a distribuição de cartilhas, emanadas do próprio Ministério da Educação, ENSINANDO às crianças que se pode falar errado, outras contendo erros (ou propósitos?) aritméticos, mostrando que dez menos sete é igual a quatro, e, pior ainda editando cartilhas explicando que o sexo, o tal “plus”, como sua insolência o ministro do supremo tribunal lhe chama, pode ser usado indistintamente com parceiros do mesmo ou outro sexo?
Não esqueçamos que tudo isto objetiva, além da desestabilização da família, grandes negociatas – vulgo roubalheiras – entre autores/as, normalmente pessoal do próprio ministério, e as gráficas que faturam, a preços exorbitantes, para o mesmo ministério!
Como permitir que “pares” homossexuais adotem “filhos” para estes, amanhã, logo, logo, se sentirem inferiorizados, abandonados por terem só, aparentemente, pais ou só mães? Que os pares vivam juntos, que façam o que bem lhes apeteça, mas não destruam o futuro de inocentes crianças.
Passando à música: o que se ensina no Brasil? Nas escolas, nada, e além dos clássicos samba e trevo, que se aprende em clubes de ferranhos amadores, ouve-se o que? O Rap? Os gritos de rancor face a uma sociedade tremendamente injusta? Onde estão os corais, a harmonia, a doçura das músicas que embalam e enternecem as pessoas.
E o controle da Tv, onde é raro, raríssimo, ver-se um filme com fundo historio e/ou moral, mas antes abusando-se da violência, do sexo mais ou menos explícito, das atrizes e até locutoras em trajes provocantes?
A tudo isto, imagina-se o que o (des)governo brasiliense, mais perdido que cego no meio dum tiroteio, irá responder: NADA!
Até porque a começar pela tal cultura de base, a ser ensinada às crianças, em casa, necessitaria que os pais estivessem já num razoável grau de cultura. Estão?
Mas enquanto continuarem a votar naqueles que são “como a nóis”... não há muito que possa ser feito. Pobres crianças e alunos.
Mais um século, talvez dois! Como dizia este homem há mais de 200 anos:

“Só um povo bem instruído pode conservar-se livre”; James Madison, 4º presidente dos EUA, 1809-1817


17/06/2011


segunda-feira, 20 de junho de 2011


No rescaldo da Tomada de Lisboa

O Conde Henrique

e os novos colonos



Mais algumas “lembranças” sobre a Velha Lisboa, São Vicente de Fora, e o cemitério que a seu lado foi construído para teutos e flamengos. E vamos a alguns outros lugares.
Para começar, este Conde Henrique de que falamos a seguir, nada tem a ver com o pai de Afonso Henriques. Já vimos que Dom Afonso Henriques mandou que se fizesse tal cemitério para sepultar os “mártires” que, vindos com a 11ª Cruzada, o ajudaram na conquista de Lisboa, estando ainda a conquista de Lisboa por terminar.
Entre estes, tombou em combate na cidade, um certo cavaleiro Henrique, nascido numa cidade chamada Bona, que fica a quatro léguas de distância de Colónia, homem indubitavelmente nobre de estirpe e de costumes. Tendo sido sepultado, tal como outros, neste cemitério de São Vicente, começou-se a falar em milagres, e em grande número, feitos por ação de Deus, junto do seu túmulo, que ele era um verdadeiro mártir de Cristo, e que a sua morte era preciosa aos olhos de Deus.
Aconteceu, pois, que certa vez, dois jovens, ambos surdos-mudos de nascença (e que tinham vindo na tripulação com os francos), faziam guarda, à vez, ao sepulcro de Henrique, cavaleiro de Cristo; conta-se que o mártir lhes apareceu na figura de um peregrino, que segurava no ombro uma palma e os convidava a fazerem a guarda. Logo que sossegaram um pouco, causa admiração que se diga, achavam-se a falar com tal desenvoltura e também a ouvir, como se sempre tivessem tido o uso tanto da fala como do ouvido. E o que era mais extraordinário era que, de acordo com a diversidade das terras e de povos a que pertenciam, assim lhes era concedida também a cada um fala diferente. Propalado pois pelo acampamento tão admirável acontecimento, todos os que os viam e ouviam glorificavam o Senhor, tendo o cavaleiro Henrique como mártir verdadeiramente dileto de Cristo.
Poucos dias depois, aconteceu que caiu em combate um seu escudeiro, que foi sepultado um pouco afastado do sepulcro do seu senhor. Em sonhos, o cavaleiro de Cristo, Henrique, aproxima-se de um dos soldados que estava de sentinela, no átrio da igreja de São Vicente e, chamando-o pelo seu nome, roga-lhe com grande insistência que de noite retire o seu escudeiro do lugar onde está e o ponha junto de si. Isto acontece uma primeira vez e repete-se. Não tendo o guarda atendido à interpelação, veio pela terceira vez, tomando um aspecto irritado e ameaçador, faz-lhe ameaças, caso adiasse por mais tempo a execução do que lhe solicitava. Por tal motivo o guarda acorda, levanta-se apavorado, pois estava sozinho no local, e dirigiu-se à cova onde estava enterrado o escudeiro. Pegando nele, sepultou-o ao lado do seu senhor, no mesmo túmulo. Contando de manhã o que se passara, dizia que não sentia nenhum cansaço, nem mal estar, quer ao pegar no corpo, quer ao sepultá-lo.
Era já São Vicente, feliz com a igreja que lhe fora dedicada, a mostrar o seu reconhecimento, mesmo antes de ter sido trasladado para a Lisboa, escolhendo o Graff Henrique para se “manifestar”.

Vimos também que os mouros, e até moçárabes cristãos, após a conquista de Lisboa e os infames tratos que receberam dos selváticos “cristãos” que se intitulavam cruzados, fugiram da cidade e arredores, deixando aldeias inteiras abandonadas, e incultos campos até então de abundante produção, devido à avançada técnica de agricultura dos árabes.
A muitos francos, e outros, que decidiram abandonar a Cruzada ou mesmo não regressar a seus países de origem, foram distribuídas terras onde se fixaram. Diz Alexandre Herculano que um Guilherme Lacorni ou Descornes povoou, com seus homens de armas, Atouguia da Baleia - outras fontes indicam que foi D. Childe Rolim, filho do conde de Chester, inglês, quem a povoou em 1147; Jordan, outro capitão, natural da Aquitânia, estabeleceu-se na Lourinhã onde uma pequena ribeira que ali passa, ainda hoje se chama Jordão, e Alardo, ou Adelardo, possivelmente teuto, em Vila Verde, talvez no Minho, aldeia primeiramente entregue ao Arcebispo de Braga, Dom Paio Mendes.
Aliás estes dados são controvertidos porque diversos autores indicam diferentes fundadores, mas...
Em pouco tempo muita desta gente, vulgacho indômito, como lhes chamou Herculano, foi-se habituando à vida sedentária e abandonando o trato das armas, ou porque os seus chefes desejassem, enfim, o repouso, ou porque o próprio rei os escusasse, temendo a ferocidade nativa deles, de que tinham dado suficientes provas.
Daí, possivelmente, também, o terem sido dispersados por todo o país.
Além de todas as Vilas Francas de Portugal continental: de Xira, perto de Lisboa, do Deão, na Guarda, da Cardosa, hoje Castelo Branco, de Sendas, em Bragança, da Serra, em Viana do Castelo, das Naves, em Trancoso, do Rosário, em Mafra, outra na freguesia de Aguiã em Arcos de Valdevez, mais outra em Castro Daire, ainda em Fafe, em Oliveira do Hospital, em Ponte de Lima, em Santo António dos Olivais, até aos Açores chegou o nome, com a Vila Franca do Campo.
Algumas destas não terão sido povoadas por cruzados, com certeza a dos Açores, mas... os naturais dessas terras que o pesquisem!
Que nomes de família terão hoje os descendentes dessa gente?

 
18/06/2011

quinta-feira, 16 de junho de 2011



Exulta Lusitania Felix

Santo António de... Pádua



Primavera de 1221. Frei António, doente, tem que regressar a Portugal, mas levado por um violento temporal, vai dar às costas da Sicilia, onde nas imediações da cidade de Messina, encontra abrigo num humilde conventinho de frades menores.
Está quase com 31 anos. Um erudito teólogo, profundo conhecedor das coisas da Igreja, da Bíblia, dos Santos Doutores, e de tudo quanto os muitos anos de estudo em Coimbra lhe proporcionaram. Até ali tinha sido um estudioso, mas o exemplo dos frades menores, franciscanos, com toda a sua humildade, pobreza e vocação missionária, o levam a ingressar nesta Ordem fundada por Francisco de Assis em 1209.
No final de Maio de 1221 realiza-se em Assis um Capítulo Geral, que ficou conhecido na história como o Capítulo das Esteiras, porque a multidão de frades era tal que a grande maioria teve que dormir no chão! Lá vai o nosso Frei António, desejoso de encontrar o Fundador da Ordem, Frei Francisco de Assis. Ali aprendeu ao vivo o que deve ser o verdadeiro frade menor.
Levado para o eremitério de Montepaolo, na Romagna, onde fica mais de um ano a celebrar missa, ajudar nos trabalhos domésticos, e a vida ativa com que sonhara em Coimbra converte-se em contemplativa.
Em finais de Setembro de 1222 há ordenações sacras na vizinha cidade de Forli, e o nosso Frei António ali vai. No momento próprio o superior da comunidade dos franciscanos pede aos dominicanos que tinham comparecido à cerimônia, para pronunciarem algumas palavras de circunstância. Perante a escusa destes, manda então a Frei António que anuncie a palavra de Deus. E acontece o inesperado: a revelação. Todos ficam rendidos à sua simplicidade e bom senso, à sua palavra leve e profunda. Frei António revela ser não só um frade santo, pronto a lavar panelas de cozinha, como um sacerdote de vastíssima cultura e brilhante arte da oratória.
Aos sacerdotes mais dotados nomeavam pregadores. Em pouco tempo o Provincial de São Miguel foi informado do que acontecera e “Frei António obrigado a deixar o seu silêncio e sair a público, encarregado do ofício de pregador, o que o fez percorrer cidades, aldeias, castelos e casais espalhando a semente da vida com tanta abundância como fervor”.
A sua doutrina e santidade começou a brilhar em muitos lugares do Norte da Itália. Em 1220 Frei João Strachia organizara uma casa de estudos em Bolonha, e Francisco de Assis ao se aperceber que ela se destinava a “poctius doctos quam piuos”, formar mais doutores do que frades piedosos, acaba com ela. Mas em Bolonha será por fim a primeira casa de formação intelectual da Ordem.
São Francisco viu em António que estudo e piedade podiam não só conviver perfeitamente, como influenciar-se positivamente, e expede o seguinte bilhete:
“A Frei António, meu Bispo, Frei Francisco envia saudações. Apraz-me que ensines Teologia aos frades, contanto que para tal estudo não extingas o espírito da oração e devoção, como está contido na regra.”

Santo António e São Francisco

Em 1224 é mandado a França onde a sua santidade de vida e a sua pregação foi de tal forma eficiente, que lhe chamaram “martelo dos hereges”; aproveita o tempo e ensina nas escolas conventuais de Toulouse e Montpellier.
Em 3 de Outubro de 1126 morre Frei Francisco de Assis. Para escolher o seu sucessor são os frades convocados a Capítulo, em começo de 1227, onde Frei António é nomeado Provincial da Itália do Norte, e já não regressa a França.
Em 1228 vai a Roma, e prega, na Igreja de São João de Latrão, diante do Papa Gregório IX, cardeais e muito povo. O Papa tão impressionado ficou que o chamou de “Arca do Testamento”.
Dois anos depois é-lhe dada a carta geral de pregador e libertado do cargo de Provincial.
Decide então retirar-se para a sua querida cidade de Pádua, para ali continuar a sua missão de pregador e escritor. Aí Santo António, como já era conhecido por todo o norte da Itália, escreve uma série de textos, tentando levar a paz onde reinava o ódio, sobretudo em Florença entre os guelfos e os gibelinos, a libertar os presos por dívidas, o que levou a um estatuto publicado pela edilidade de Pádua em 1231, luta contra as usuras e bens obtidos pela violência, procura afastar as prostitutas da sua degradante vida, e até se esforça para convencer os ladrões profissionais a não tocarem no alheio e a trabalharem honestamente.
Escreve entretanto muita coisa mais, e também os seus famosos “Sermões”.
Com quarenta anos, sente-se cansado e vai descansar uns dias em Camposampiero, perto de Pádua. Durante a refeição do meio dia, 13 de Junho de 1231 sente-se desfalecer. Vendo-o tão mal levam-no para a casa dos Frades de Arcella, onde recebe os últimos sacramentos. Já com o Senhor à vista, disse aos que o assistiam: “Video Dominum meo!” e entregou a alma a Deus.
E apesar do silêncio guardado pelos Frades, logo correu a notícia pelo povo: “Morreu o padre santo” Morreu o Santo António!”
Em 17 de Junho foi sepultado em Pádua.
Nem um ano era passado era canonizado pelo Papa Gregório IX.
Em 1934 foi declarado Padroeiro de Portugal.E finalmente em 16 de Janeiro de 1946 o Papa Pio XII, em sua Carta Apostólica, que começa

Exulta Lusitania Felix,

o Felix Padua gaude

declara Santo António Doutor da Igreja, Doutor Evangélico.
Lisboa tem imensos ciúmes de Padua, que guarda lá os ossos do Santo, e nem se atreve a, alguma vez, dizer que o Santo é de Lisboa.
Com estes breves textos se pode ver que enquanto em Portugal, Santo António foi um frade desconhecido, mas onde estudou e se “encheu” de toda a bagagem que o tornaria famoso em Itália. Foi aqui que pregou, ensinou aos frades, pode considerar-se o primeiro lente franciscano, e ainda em vida já era chamado de santo.
Preparou-se em Portugal e revelou-se na Itália.
Deve ser o único Santo da igreja que tem dois nomes!

16/06/2011










segunda-feira, 13 de junho de 2011


De volta a
 
Lisboa Antiga



Um dos assuntos que, desde sempre, se discutiu, foi a origem do nome Lisboa. A mais romântica explicação atribui a Odisseu, Ulisses em latim, a sua fundação, quando (como os “grandes navegadores do Mussulo”!) cruzou os mares na sua aventurosa Odisseia.
É uma hipótese pouco credível. Talvez mais ajustada seja o nome que os fenícios, que se supõe os seus fundadores, lhe terão dado: Allis Ubbo, baía amena. Os romanos chamaram-lhe primeiro Felicitas Julia e pouco depois Olissipo ou Olissipona. Os mouros Aschbona.
É tão antiga esta cidade que já Platão se referia a Olisipo ao falar sobre a Atlântida, e quando os fenícios ali chegaram já os primeiros habitantes, hoje desconhecidos, teriam um castrum, lá no alto, onde fica o Castelo da S. Jorge.
Conquistada pelos sarracenos, em 714, aos “primeiros” habitantes, cristãos, que tiveram no lugar de Campolide uma igreja dedicada aos santos Verissimo, Máximo e à virgem Julia, e no lugar da atual Sé, também outra igreja que os mouros transformaram em mesquita. A reconquista de Lisboa sempre foi um desejo forte dos cristãos: primeiro, Afonso II das Astúrias, o Casto, a retoma em 798; volta a recuperá-la em 811, e de volta aos “intrusos”, foi saqueada em 851 (por Ordonho I ?). Em 1093 é o rei Afonso VI de Leão que a conquista para voltar mais uma vez às mãos dos mouros. Por fim, em 1147, os sarracenos são definitivamente postos fora!
Nesta conquista final, com o auxílio dos cruzados, o ataque deu-se em três frentes: a ocidente, onde hoje fica a Baixa, no sopé do Monte Fragoso (Chiado) e que era inundável pelo rio nas altas marés, os ingleses, bretões e gente da Aquitânia; a ocidente os teutos, flamengos e colonienses, e pelo norte e também ocidente os portugueses.
Em todas estas áreas, fora das muralhas, os conquistadores começaram por despejar de suas casas, os antigos ocupantes, para aí se instalarem.
Em memória desta ilustre conquista para a cristandade e para a história de Portugal, chama o rei Afonso Henriques o Arcebispo de Braga, Dom João Peculiar, a quem mandou que se erguessem duas igrejas, e a seu lado os respectivos cemitérios para que fossem dignamente sepultados os “mártires-heróis” desta vitória sobre o Islam.
Logo todos os bispos se reúnem, aspergem de água benta os locais escolhidos para as edificações e levam ao rei duas pedras abençoadas, que seriam as pedras fundamentais, de acordo com a promessa real.
São Vicente, para os teutos, e Santa Maria dos Mártires para os ingleses e bretões, no morro fronteiro ao acampamento destes, e onde tombaram tantos “mártires”. A primeira foi entregue a um presbítero teuto, Rualdo ou Winando, e a um “leigo de vida santa, Henrique, que deveria tocar para as horas canónicas o sino que aí haviam erguido e, vigiando às portas da igreja, guardaria com o devido cuidado o átrio, por dentro e por fora”, a segunda a um bispo inglês, Gilberto, “homem bem instruído nas sagradas letras e merecedor de perpétua e piedosa memória”, que Afonso Henriques tinha feito também Bispo de Lisboa.
Lá continuam essas duas igrejas, muito modificadas na sua traça em oito séculos de vida, e ainda hoje se chama à Igreja dos Mártires, a igreja dos ingleses, “ali” na rua Garrett!
São Vicente, hoje São Vicente de Fora, porque construída fora das muralhas da antiga cidade, em honra do tão venerado santo, ferozmente martirizado pela perseguição ordenada pelo imperador Dioclesiano, que o tornou conhecido e um dos mais venerados santos dos cristãos peninsulares. O destino do seu corpo tornou-se uma lenda. Terá sido metido num saco, com algumas pedras para que afundasse no mar, uma vez que, após a sua morte, e largado o corpo no campo, nenhuma fera ou ave de rapina dele se aproximou.
Teria vindo, sempre protegido por um corvo, dar à praia, que a areia cobriu. Tempos depois foi encontrado e em sua homenagem construído um mosteiro e uma igreja, onde o sepultaram, e que esteve sempre guardada por alguns corvos, que, dizia o povo, eram descendentes do primeiro que o acompanhou. Segundo Edrisi, o cartógrafo árabe Abu Abd Allah Muhammad al-Idrisi, o santuário era conhecido entre os mouros como a Igreja dos Corvos.
Esta igreja ficava onde é hoje, também, o Cabo de São Vicente, no Algarve, em 1173 ainda em poder dos árabes. Para recuperar o corpo do santo, Afonso Henriques mandou fazer uma “entrada” em território almoada, de que era califa Abu Ya'qub Yusuf, para resgatar o corpo do santo, que foi levado para Lisboa numa embarcação, sempre acompanhado de dois corvos! Daí vêm as armas da cidade



São Vicente não foi para a “sua” igreja. Primeiro depositado na igreja de Santa Justa, (depois São Domingos) só em 15 de Novembro de 1173 foi trasladado para a Capela Mor da Sé.
Aí ficou até 1755, quando tudo ruiu e desapareceu com o terremoto, a que se seguiu imenso incêndio, acabando assim o cofre com os restos do Santo.
Depois disto terão aparecido somente algumas relíquias queimadas, mas, lá do Alto, o bom São Vicente ainda deve olhar com ternura para a terra que o acolheu. E para os corvos.

Apesar da carta de “R” para o senhor “Osb de Baldr” indicar a data de 28 de Outubro com o dia final da conquista, a tomada de Lisboa é festejada a 25 do mesmo mês, quando a igreja celebra a festa dos santos Crispino e Crispiniano, dois irmãos, sapateiros, romanos, martirizados e degolados em Soissons, na mesma altura em que mataram São Vicente.
À intervenção divina daqueles dois santos atribuiu Afonso Henriques a almejada vitória.

“O mosteiro de São Vicente foi construído no ano de 1148 da Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é bendito pelos séculos. Amen.”

10-06-2011