quarta-feira, 27 de abril de 2011



Combustíveis e Concursados



Nada melhor do que viver num país onde Deus, certamente por distração, pôs tudo: floresta imensa, vida animal suntuosa, infindável espaço agricultável, reservas minerais de toda a qualidade, e o até pomo de toda a discórdia mundial, petróleo!
E então, quando o país, pela voz do seu (des)governo e da sua (deles) maior empresa – uma das maiores do mundo – anuncia aos crédulos que somos já autônomos em combustíveis, e líderes do mercado MUNDIAL em energia (quase) limpa para automóveis, o famoso etanol, derivado da cana de açúcar, não há como o cidadão não se sentir orgulhoso da sua terra, e aplaudir, com as quatro mãos o tal (des)governo!
Aplaudem com as quatro mãos porque, nuns casos elas são todas iguais e, em algumas exceções outras tantas (mãos) recolhem o maná discursivo que o big chefe, com a maior cara de pau, generosa, demagógica, crápula, e junto com grossa parte do erário público, corruptamente distribui.
E votam também com as mesmas quatro mãos.
Convém notar que a imprensa participa neste festim, basta ver o quanto de fotos e manchetes enganosas publica sobre essa gente. Mas enfim.
Depois, discretamente, aparecem os números, que ainda as tais quatro mãos, tapando os olhos dos entusiastas patriotas, não deixam ver, a mentira, a grossa mentira, da nossa realidade:

- só na semana passada (entre 18 e 20 de Abril, só três dias úteis) foram importados, diariamente, mais de US$ 400 milhões de petróleo, por dia!

- há dias mandou-se vir da Venezuela mais uns milhões de toneladas de gasolina;

- e, espantai-vos, ó gentes, estamos agora a importar etanol dos Estados Unidos, para suprir a demanda, que as nossas usinas de açúcar, por puro descaso do (des)governo, não conseguem fornecer.

Mas tem mais tristes anedotas, ou grosseiras e criminosas mentiras, em tudo isto: a gasolina, aqui, leva uma mistura de etanol! Claro. Houve época em que se fomentou a produção de etanol, e como não havia consumo suficiente, misturou-se na gasolina. Mas... só na semana passada o tal de etanol sofreu um ligeiro aumento de 28,5%.
Isto é o país das maravilhas!

Como dizia hoje o jornalista Luiz Garcia, “nas campanhas eleitorais promete-se tudo!” Mas isso é peste mundial, porque logo a seguir, ninguém cumpre coisa alguma.
Há tempos escrevi que o primeiro ministro do Reino Unido, na altura o Tony Blair, a seguir aos ataques terroristas que Londres sofreu, pediu ao parlamento que o autorizasse a aumentar o número de colaboradores para cargos de confiança, de seis para oito.
Hoje, no país das maravilhas, onde o desbocado big líder afirma que o PT vai ficar vinte anos no governo (e talvez fique mesmo enquanto for aplaudido a quatro mãos!), estão ainda hoje a mamar à custa do contribuinte 89.850 – oitenta e nove mil oitocentos e cinqüenta – indivíduos, admitidos sem qualquer concurso, por contrato, para os tais “cargos de confiança”.
Só no (des)governo anterior, foram mais de 115 mil... Claro que estes tachos são para o partido, ou para “fazer um agrado” a qualquer um que traga mais votos!
Como resultado neste (des)governo, continuação do anterior, continua a proteger-se o compadrio e a esculhambar a administração pública, porque quem assume esses postos não tem a menor idéia sobre o que fazer! Os profissionais... que se danem.
Vale a pena ler, na íntegra o texto de Luiz Garcia:

Sem concurso

"Nas campanhas eleitorais, promete-se tudo. Até pureza de vestal e honestidade angelical.
Mas uma promessa é bem rara, se não inexistente: a de realizar projetos e atingir metas com moderação e inteligência nos gastos.
Em outras palavras: a cantada ouvida pelos eleitores raramente inclui uma previsão honesta sobre quanto vai custar a construção do novo paraíso.
O governo de Dilma Rousseff, que sucedeu a oito anos de administração irmã, presumivelmente não tinha e continua não tendo um projeto revolucionário de gestão. A promessa eleitoral, como não iria deixar de ser, era singela: um tanto mais das mesmas coisas. Os oito anos Lula tiveram, entre seus traços mais marcantes, um extraordinário, digamos assim, apetite nomeador.
Algo do gênero costuma acontecer em administrações estreantes. No caso, o apetite foi particularmente assustador.
Esse dado foi devidamente registrado por adversários políticos e pela mídia. Nos dois casos, isso foi recebido pelo Palácio do Planalto com soberana indiferença. Do ponto de vista eleitoral, deu para entender. O fato de que, nos oito anos de Lula, 115 mil servidores foram admitidos na máquina federal não teve qualquer impacto na eleição tranquila de sua sucessora.
Como conseqüência talvez inevitável dessa indiferença da opinião publica, a farra continua na mal iniciada gestão de Dilma. Com um dado especial: cresceu extraordinariamente a porcentagem de cargos de confiança nos ministérios. O que parece ser, ao menos em principio, algo preocupante. Ou mesmo errado, em prin¬cipio. Numa administração estruturada com um mínimo de lógica, supõe-se que a maior parte do trabalho, principalmente em áreas técnicas, seja entregue a profissionais devidamente concursados.
Por dois motivos óbvios. Primeiro, o concurso assegura, tanto quanto possível, a competência dos candidatos mais bem colocados. Depois — e talvez principalmente — coloca a maquina publica a salvo de um perigoso fenômeno: a politização partidária da burocracia estatal.
A politização é visível no governo Dilma. É natural que, na Presidência da República, os cargos de confiança seja maioria. Hoje, eles são 85% do total. É muito; ainda assim, digamos que seja aceitável. Mas é difícil entender que, em sete ministérios nos quais as áreas técnicas são de considerável ou mesmo decisiva importância, o numero de cargos de confiança oscile entre 50% e 70%. Isso é opção técnica ou ocupação política?
A resposta a essa pergunta pode ser ajudada por um episódio. O Ministério do Turismo e a Embratur realizaram um concurso, e 112 candidates foram aprovados. Mas, por decisão do Ministério do Planejamento, nenhunzinho foi contratado. Pelo visto, sem concurso as portas se abrem com bem maior facilidade."



27/04/2011















A Questão Ortográfica

Muito se tem discutido, talvez mesmo verberado, sobre o últimos, e os penúltimos, acordos ortográficos da língua portuguesa.
Amáveis os subscritores do último acordo concluíram que, quem continuasse a escrever “à moda antiga” não errava, estaria somente usando termos arcaicos.
Todos nós continuamos a viver, tranquilamente, com uma boa porção de arcaísmos, mas com orgulho pela riqueza desta língua, de origem latina, grega, românica, árabe, celta, híndi, tupi, bantu, saxônica e até de lá das bandas caucasianas, e de mais não se sabe donde, certamente também dos berberes, antes deste se tornarem árabes.
Que maravilha de língua. Nenhuma outra no mundo tem a mesma riqueza, nem certamente a mesma imensa quantidade de sotaques: do Minho ao Algarve, da Amazonia ao Rio Grande do Sul, em Angola ao Norte e ao Sul, Moçambique, Timor, etc., etc.
Como continua muita gente a chorar pelo modo antigo, sem ganhar nada com isso, hoje temos o prazer de vos prestar um belo serviço, com um pequeno extrato das

“REGRAS
QUE ENSINAM A MANEIRA DE ESCREVER
E A ORTOGRAFIA DA LÍNGUA PORTUGUESA”.


Foram escritas por um português, filho de minhota e flamengo, professor de latim e português, copista da Torre do Tombo e, de duas viagens que fez ao Brasil, escreveu duas magníficas histórias deste magnífico país.
Chamou-se este ilustrado homem, nascido em Braga, Pero de Magalhães de Gandavo (referente ao pai que teria vindo de Gand) e, sem que conheça a data de nascimento (cerca de 1540 ?), faleceu em 1579.
Comecemos pelas “Regras”, de 1574, que devem esclarecer muito espírito crítico:

E as “Regras” continuam. Por elas se pode aprender a “não discutir” acordos ortográficos, para não sermos obrigados a voltar a escrever, por exemplo ortographia, defensam, hum, officina, meyo, Christão, etc.
Quem quiser ler, e imstruir-se, é só procurar o livro na Biblioteca Nacional de Portugal.

Outra das suas grandes obras é a

“HISTÓRIA DA PROVINCIA DE SANTA CRUZ
A QUE VULGARMENTE CHAMAMOS DE BRASIL”
dirigida ao muy Ilustre Dom Leomis Pereira
que foy de Malaca e das mais partes do Sul da India




É a primeira História do Brasil, uma delícia de se ler! Quem estiver interessado na edição última: Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2004.

27/04/2011


domingo, 24 de abril de 2011


INFÂMIA


O déficit dos Estados Unidos é algo como 99% do PIB, ou 1,6 trilhões de dólares. É evidente que a continuar assim, as contas a acusarem cada ano que passa um acúmulo e aumento dessa dívida, por muitos dólares que estejam espalhados pelo mundo... a grande economia americana entrará em colapso.
Parece que estamos a assistir a um governo sério, comprometido com o acerto de contas e com o problema social da maioria dos americanos, que vive, por muito incrível que isso nos pareça, mal. Sobretudo na saúde. Mais de 50% dos americanos não tem dinheiro para se tratar, nem da saúde, nem dentes, nem nada. Tudo é absurdamente caro.
O Presidente (com letra MAIÚSCULA) decidiu enfrentar, corajosamente os dois problemas: a dívida e a saúde. Mas, por muito azar, uma só cadeira no congresso o fez perder a maioria. E a luta dos republicanos, os ricos, para não perderem espaço financeiro, têm atacado, por todas as formas, a administração Obama. Obama que quer fazer da saúde uma obrigação nacional, e isso, como é óbvio tem custos, e altos, e ao mesmo tempo diminuir as despesas administrativas. Disse ainda, e muito bem que, quem deveria pagar a parte principal da conta seriam os ricos, os republicanos. E estes, os donos dos hospitais, indústrias farmacêuticas e outras igualmente mortíferas, não querem perder a boquinha duma série de desgraçados que pagam para ter saúde, e tudo fazem para negar ao Presidente, e ao povo, a assistência médica. E também não querem, de jeito maneira, que a conta sobre para eles pagarem, mesmo sabendo que as fortunas acumuladas foram à custa dos trabalhadores!
Em 1948, Inglaterra, em banca rota, devastada pela guerra, instituiu o programa nacional de saúde, para todo o povo do Reino Unido, incluindo odontologia, aposentadoria e praticamente toda a espécie de assistência médica! Maravilha.
Os americanos, ditos republicanos, querem que o povo se... Infâmia.
O Canadá é mais cínico! Além de ter um governo descaradamente pró semitismo, manifestando-se até agressivo com os palestinos, tem um razoável sistema de saúde. Mas... a um casal de franceses que ali vive e trabalha há mais de cinco anos, ambos com curso superior, mas ainda sem visto de permanência, foi-lhe, finalmente, negado o visto! Razão: este casal tem uma filha com grave deficiência, “e isso custaria muito caro ao governo tratar da saúde dessa criança”! Inacreditável, mas, infelizmente, verdade. Infâmia.
Há pouco tempo uns pescadores mexicanos depois de se lhes acabar o combustível, ficaram nove meses à deriva no mar! Por quase milagre, foram resgatados por um pesqueiro coreano, perto das Ilhas Salomão! Percorreram num barquinho, pouco mais que um bote, cerca de 7.500 milhas (náuticas), uns 12.000 kms.
Um feito único. Mas... duas semanas após terem começado à deriva, já em total desespero, avistaram um outro pesqueiro, embarcação grande, viu os náufragos, chegou perto deles, parou a seu lado e, sem dizerem uma palavra foi embora! Infâmia.
Moisés subiu o Sinai a ali esteve quarenta dias a rezar. Entretanto Deus entregou-lhe as Tábuas da lei. Quando desceu da montanha, seu rosto resplandecia, e encontrou seu irmão Aarão que, por vontade do povo, tinha mandado fundir um bezerro em ouro!
Moisés, furioso, quebrou as Tábuas, desfez o bezerro em pó, misturou esse pó com água que fez beber o todos; depois ordenou: “cada um cinja a sua espada; passe de porta em porta e cada qual mate seu irmão, o seu amigo o seu parente, e naquele dia cerca de três mil homens foram mortos. (Ex. 32.19-25)”
Por muito que se queira impor ordem, esta passagem da Bíblia, lembra os atuais acontecimentos nos países árabes e em África, onde à força se quer impor um comando. Tal como os extremistas islamitas. Infâmia.
Infâmia ainda a covardia dos chamados países ricos. Por um lado, mais ou menos, se mostram aliados aos rebeldes líbios, mas entretanto, como medo de os armarem, para não terem mais tarde o troco, como aconteceu com o Afeganistão, vão-nos deixam morrer. De vez em quando largam uma bombas no Kadaffi, e quando o material de guerra da Líbia estiver destruído e o maluco na cadeia, ali voltarão os abutres para lhes venderem armas!
Sempre a ganância, o lucro, o dinheiro.
Jesus, próxima a Páscoa, subiu a Jerusalém. E encontrou no tempo os vendilhões e os cambistas que negociavam à sombra do Senhor. Jesus, de suas próprias mãos fez um chicote e correu com essa corja do Templo, derrubando as mesas dos agiotas. “Não profanem a casa de meu Pai!”
O que é a Terra, como todos os seus seres, se não a casa do Pai? E como hoje a profanam! Aliás, sempre a profanaram!
Na Páscoa vendem ovos de chocolate, mas quem corre atrás dos vendilhões? Estes não têm vergonha de espécie alguma. Os republicanos vão lutar até ao fim para que o povo se...
O governo canadense, numa atitude inqualificável, quer que a criança francesa se...
A França vende 80 ou mais aviões de combate de última geração à Arábia, sabendo que é ela quem financia a difusão do extremismo islâmico.
Este texto vai sair depois do domingo de Páscoa.
Jesus, ressuscitado, não tem mais azorragues, e os cristãos, até aqueles republicanos americanos que se dizem cristãos (vejam a blasfêmia!), só sonham com o bezerro de ouro.
Infâmia!
 
Domingo de Páscoa de 2011

quarta-feira, 20 de abril de 2011



Quando os Mares

eram de Portugal



O Infante Dom Henrique, apesar das repetidas viagens que ordenava, via que os seus navegadores não se atreviam a dobrar o cabo Bojador. Doze anos levou nesta insistência, sem nunca o conseguir, porque «... este cabo do Bojador he muito perigoso, por causa de hüa muito grande restingua de pedra que d’elle saee ao mar mais de quatro ou sinco leguoas... e asy os mareantes que com elles hiam, nam ousaram passar aleem... e como eram acerca do Bojador e hachauam o fundo baixo, que em três braças dauguoa estauam hüa leguoa de terra, e espantando-se das grandes correntes nenhum ousaua de se alarguar ao mar e passar alem d'este parçel, e entam se tornauam á costa de Barberia e de Graada, bonde andauam d’armada pera tomarem alguüas presas com que forrassem a despesa d'armaçam; e por nam passarem o dito cabo o Infante recebia d'isto grande des-prazer...» (1).

«Um dia, Gil Eanes, tendo partido para uma dessas viagens, chega às Canárias e traz, como prova, alguns cativos. O Infante anima-o, incita-o a ir mais longe e, teimando sempre, fá-lo sair para nova viagem, em 1434, em que Gil-Eanes dobra o cabo Bojador, chega à Angra dos Ruivos, desembarca e, regressando, veio contar ao Infante como sairá em a terra sem achar gente, ou pouoação algüa & que lhe parecera mui fresca e graciosa: & que em sinal de não ser tam esterele como as gentes diziâo, traria ali a sua mercê em um barril cheo de terra, hüas hervas q se parecião com outras que cá no Reyno tem flores a que chamâo rosas e de sancta Maria» (2).

O Infante recebeu-o com imensa alegria, e as modestas ervas, se não foram postas no altar onde fazia as suas orações de cristão, foram-no, com certeza, no que erigira à sua obsidiante idea, que o novo moto que pensava em adoptar para a sua vida – IDA - melhor definia, e que ele servia com a sua fé de iluminado, e onde, pela sua vontade inque¬brantável, as pobres ervas rejuvenesciam e, da mesma forma que as da Rainha Santa Isabel eram a transformação do óbulo que levava no seu regaço, estas na sua simplicidade e pobreza, representavam o imenso valor que as terras de África guardavam.
El-Rei D. Duarte também não escondia a sua satisfação e o Infante aproveita a oportunidade e, incita agora Afonso Baldaia, que fora com Gil Eanes, a voltar, dizendo-lhe, para o convencer: “se vos achastes rasto d'homens e de camelos, parece que a povoação não é d'ali muito afastada, ou por ventura será gente que atravessa com suas mercadorias para algum porto de mar, onde haja algum ancoradouro seguro para os navios receberem carga... » Baldaia hesita, mas o Infante insiste e com novas razões o convence, pelo que ele parte para a descoberta, levando dois cavalos que o Infante lhe dera, para que ao desembarcar, mandasse alguém neles pela terra dentro, quanto pudessem, «esguardando bem a «todallas partes se veryam algüa povoraçom, ou gente que fizesse vyagem er alguu caminho... » (Azurara), mas que não levassem armas de defesa e apenas suas lanças e espadas.

Navegaram mais para o sul que na viagem anterior e, desembar¬cando, mandou Baldaia dois dos seus montar nos cavalos, e que fossem procurar a povoação. «Censuro aquy duas cousas, diz aquelle que screveo esta estorya: a primeira qual maginaçom serya no pensamento daquelles homees, veendo tal novidade, scilicet, dons moços assy atrevidos de coor e feiçooês tam stranhas a elles; ou que cousa podyam cuidar que os ally trouxera, e ainda em cima de cavallos, com lanças e spadas, que som armas que alguü delles nunca vira! Por certo eu magino que a fraqueza de seus coraçoões nom fora tamanha, que se nom teverom com o elles com mayor ardideza se o spanto da novidade nom fora. A segunda cousa he o atrevimento daquelles dous moços, seendo assy em terra stranha, iam allongados de socorro de seus parceiros, e filharem ousyo de cometer tamanho numero, cujas condiçoões em arte de pellejar, eram a elles tam duvydosas » (3).

Foram duas crianças de 15 e 17 anos, Heitor Homem e Diogo Lopes de Almeida, os heróis deste valoroso feito. Se a Azurara, conhecedor dos actos de heroísmo, então tão frequentemente praticados pelos nossos cavaleiros, mereceu referência especial o destas crianças, para nós, cinco séculos passados, apesar dessa África ter sido trabalhada com a vida de milhares dos nossos que lá têm ficado com tanta glória, atinge proporções extraordinárias.
Que poder imenso de persuasão, que esmagador domínio era o do Infante, para fazer arrostar com todos os preconceitos sobre os perigos da África, que a tradição incutira nos nossos? Já não são os homens, que ele poderia seduzir, mais ou menos, com promessas, excitando-lhe assim o interesse. Eram duas crianças, 15 e 17 anos! criadas e edu¬cadas na lenda do sobrenatural, que, magnetizadas e sugestionadas, desembarcam na costa da África de então, que não podemos com¬preender o que representaria no seu espírito, quando ainda hoje para parte das nossas populações do interior é qualquer cousa de horrível, e, montando a cavalo, um sorriso nos lábios, a lança no arção da sela, eles aí vão, trotando sete léguas pelo Desconhecido, avançando para o fim do Mundo, que lhes tinham ensinado que acabava ali adiante, onde as nuvens do Céu tocavam a terra que pisavam. Encontram dezanove negros, armados com zagaias, que ao vê-los se juntam em magote e fogem para uns penedos; mas eles avançam, procuram-nos e os negros atacam-n'os com as zagaias, indo ferir um deles num pé. Estão sozinhos num mundo novo para eles, mas não se amedrontam e avançam até tirarem vingança, e só então, já de noite, regressam ao seu navio, sem dúvida guiados e accionados pelo espírito do Infante, que os alumiou na escuridão do seu caminho, pois só de madrugada chegaram à praia donde tinham partido!


(1) Esmeraldo de Situ Orbis de Duarte Pacheco Pereira.
(2) João de Barros - Dec. Iª da Ásia, liv. 1, cap. III.
(3) Azurara - Crónica da Guiné

In: APONTAMENTOS SOBRE A O INÍCIO DOS PORTUGUESES NO CONGO, ANGOLA E BENGUELA – Extraídos de documentos históricos, coligidos por Alfredo de Albuquerque Felner.

20/04/2011

















segunda-feira, 18 de abril de 2011




Óscar Ribas
 
do grande e saudoso mestre, de quem tive o privilégio de ser amigo,

“Dicionário de
 
Regionalismos Angolanos”

Ambaquista, s. m. e f. Natural da região de ambaca. Irón. O que reclama de tudo.

“Os naturais dessa região são inteligentes. Dum relatório de Artur Verdades, publicado no Boletim Oficial de 1 de Dezembro de 1906, extraímos os seguintes períodos:

“O ambaquista, para mim que o observei, é um benemérito, tem sido um desdenhado obreiro da civilização africana, embryonário quanto seja o seu estado em parte dos nossos domínios.
É elle o único missionário que à noite, por essas sanzalas, sentado ao conchego da fogueira conta, com muito phantasia é certo, aos gentios, que o rodeiam e avidamente o escutam, as façanhas dos kakis (soldados portuguezes), e quem lhes fala da grandeza, poderio e explendor de Portugal."

Duma obra que já citámos - "As Colónias Portuguesas, de Ernesto e Vasconcelos" - transcrevemos também os seguintes trechos, relativamente ao natural de Ambaca:

"O ambaquista, oriundo de uma região onde a acção missionária foi grande e educadora, procura assimilar-se ao branco pelo traje, e nas famílias conserva-se, em tradicção de pães para filhos, a leitura e a escripta. Esta circunstância torna-o um indivíduo superior entre as diversas tríbus, às quaes elle se impõe, captando as boas graças de todos, principalmente dos sobas, em quem impera como conselheiro privativo. É vulgar que certos sobas tenham secretário, o qual munido sempre do seu tinteiro, papel e pena, está constantemente prompto a dirigir mucandas (cartas) ao viajante que passa, ou representações à autoridade. Esse secretário é o ambaquista ladino, manhoso e sophista. Conta-se que tendo os ambaquistas de dirigir ao governo uma representação contra certa autoridade provincial, ao assignal-a se levantou a difficuldade de quem o faria, primeiro, porque nenhum queria figurar na cabeça do rol; adoptaram por isso o alvitre de inscrever as assignaturas em circunferência de círculo, solução que mostra bem a manha de que são dotados." (Castelbranco, História de Angola, p. 34/35, ed. 1932).

"O ambaquista distinguia-se à primeira vista, de qualquer outro indígena, nestas lonjuras - na época em que Ambaca ficava muito longe - pelo tinteiro de chifre e pela pena que trazia ao pescoço.
Com tais artes, cada vez mais aperfeiçoadas e divulgadas entre eles, por serem os mais próximos dos centros de influência, não tardaram em serem disputados por todos os potentados indígenas, que os tomavam como secretários de grande luzimento e prestígio - lugares que eles ocupavam como juristas, intelectuais e Cárdias Diabo.
Em menos de cem anos havia ambaquistas espalhados por todo o Norte da colónia, com a sua pena, o seu tinteiro de chifre, as suas luzes e o ascendente intelectual que lhe dava o poder de comunicarem com o branco, e com os mais que tinham as mesmas artes." (H. Galvão, Outras Terras, Outras Gentes, p. 216, vol. 1, ed. 1942).

"Vou dizer uma palavra do typo clássico, extranho, genialismo, do ambaquista. É molde para durar a eternidade inteira, segundo parece. O seu gosto, ou melhor o seu vício, é deitar as unhas a uma caneta e fazer requerimentos em papel sellado, com citações phantasticas da Carta Constitucional, do Código Civil, da Novíssima Reforma Judiciaria. Se tem um envellope d'officio para fechar aquella sua prodigiosa literatura, se tem sobretudo um coto de lacre para sellar a sua peça, para lhe dar a imponência e a consagração que resulta de um timbre, ah! como elle é feliz! O ambaquista compõe os seus trechos de uma maneira absolutamente impossível de definir; é capaz de citar, a propósito de qualquer coisa, a carta orgânica das províncias ultramarinas, os governadores geraes d'Angola, os reis do Congo, a corte do céo, trovoadas, inundações e campanhas. No entanto, atravez d'esses despejos incontinentes, d'essas ejaculações tumultuarias do pensamento, adivinha-se quasi sempre o que quer dizer o auctor na sua estylistica. Ao mesmo tempo o ambaquista é um bohemio; encontra-se em toda a parte, a reler pedaços velhos de jornaes ou folhas avulsas de qualquer livro, a dar sentenças, a escrever coisas, a secretariar os sobas, enfim, a ocupar-se dos destinos dos povos." (D. J. E. de L.Vidal, Por Terras d'Angola, p. 20, ed. 1916).

18/04/2011












quinta-feira, 14 de abril de 2011


O Moribundo


Em 1885 a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, quis homenagear ainda em vida o poeta Francisco Gomes de Amorim, e mandou gravar numa lápide:

“... nasceu nesta casa
uma das glórias desta aldeia,
deste concelho e deste infeliz e velho Portugal...”

Infeliz e velho Portugal. Há mais de século e meio!
Parece que daí para cá pouco mais tem feito do que envelhecer e empobrecer, com exceção de alguns momentos de relativa calma, que hoje se nos afiguram como os estertores dum moribundo.
Em 1917 apareceu em Fátima a Senhora. Grande entusiasmo, grandes procissões, alguns, poucos, com verdadeira Fé, a maioria com a fé que pensam aparentar batendo com a mão no peito fazendo ar compungido, a seguir Salazar endireitou as finanças, depois foi Angola com o seu curto momento de euforia e morte, e, as últimas forças parece terem sido aniquiladas depois que, em 1974, entrou a anarquia, que os desavergonhados políticos teimam em chamar democracia, o moribundo encheu-se de flores raras e caras, caixão com pegas de ouro, tipo Mercedes e BMWs, mas a patologia não engana.
Entrou na UTI! Vai agonizar mais um tempo. O povo chora, mas nem se dá ao trabalho de limpar as lágrimas.
Parece, segundo dizia Pascal, que a única solução é apostar em Deus: se Ele existe ganha-se tudo; se Ele não existe, nada se perde.
Podem até contratar-se carpideiras, mandar rezar missas, de preferência em latim; só não se pode mandar nova embaixada ao Papa, oferecendo-lhe girafas e rinocerontes. O quadro não se altera.
Portugal entrou na “economia” da moeda falsa. Emprestou e gastou o que não tinha. Mas a moeda falsa sempre derruba a verdadeira se ambas estiverem em circulação ao mesmo tempo, conforme a famosa Lei de Gresham.
É o que está acontecendo ao pobre e velho moribundo.
Nunca produziu sequer o que come, desde os primórdios da nacionalidade. Sempre teve que ir buscar fora quase três quartas partes das suas necessidades! E assim mesmo aguentou quase nove séculos. Gente rija que venceu o tempo. Gente inútil e estúpida que o governou tanto tempo.
Portugal sempre gastou mais do que produzia, até mesmo mais do que conseguia ir buscar à Índia ou ao Brasil.
A chegada da grande esmola da União Europeia forneceu ao inculto povo o instrumento da sua própria destruição: o luxo. Em lugar de aplicar os excedentes em produção para manter trabalhadores, fonte real do poder, o povo usou esses excedentes para comprar berloques e bugigangas. Para se enfeitar. Para que parecesse importante pelo lado de fora, quando por dentro estava oco.
Não foi capaz de investir a prazo longo. Em ciência e tecnologia e até mesmo na agricultura. Exemplos de quem passou piores fases, no mundo, e hoje estão fortes e seguros, não faltam. Basta lembrar Londres em 1944, montes de cidades alemãs, Sebastopol em meados do século XIX e na II Guerra Mundial, Espanha depois da Guerra Civil, Israel que começou num quase deserto, e o Japão, o Japão! Que lições!
Portugal adormeceu sob o mito de Ourique, da Reconquista, da glória de Aljubarrota e por fim, de ter dominado o conhecimento dos mares.
Outros bem mais preparados logo se apropriaram deste nosso maravilhoso conhecimento, mas sempre se encontrava Portugal a pedir empréstimos para ir à Índia, ao Oriente, e até ao Brasil.
E o esforço, imenso, brilhante, de tantos, esvaiu-se nas mãos dos Fugger, dos ingleses e dos judeus que o Venturoso não teve vergonha em expulsar do país.
Hoje, jaz de mão estendida à “caridade” de novos agiotas!
E não vai, jamais, sair deste ciclo vicioso, infeliz.
Cantemos o REQUIEM ! Talvez o de Mozart...
Ou... fazer o que? Ir à luta. Trabalhar, trabalhar, trabalhar!

13/04/11