quinta-feira, 14 de abril de 2011


O Moribundo


Em 1885 a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, quis homenagear ainda em vida o poeta Francisco Gomes de Amorim, e mandou gravar numa lápide:

“... nasceu nesta casa
uma das glórias desta aldeia,
deste concelho e deste infeliz e velho Portugal...”

Infeliz e velho Portugal. Há mais de século e meio!
Parece que daí para cá pouco mais tem feito do que envelhecer e empobrecer, com exceção de alguns momentos de relativa calma, que hoje se nos afiguram como os estertores dum moribundo.
Em 1917 apareceu em Fátima a Senhora. Grande entusiasmo, grandes procissões, alguns, poucos, com verdadeira Fé, a maioria com a fé que pensam aparentar batendo com a mão no peito fazendo ar compungido, a seguir Salazar endireitou as finanças, depois foi Angola com o seu curto momento de euforia e morte, e, as últimas forças parece terem sido aniquiladas depois que, em 1974, entrou a anarquia, que os desavergonhados políticos teimam em chamar democracia, o moribundo encheu-se de flores raras e caras, caixão com pegas de ouro, tipo Mercedes e BMWs, mas a patologia não engana.
Entrou na UTI! Vai agonizar mais um tempo. O povo chora, mas nem se dá ao trabalho de limpar as lágrimas.
Parece, segundo dizia Pascal, que a única solução é apostar em Deus: se Ele existe ganha-se tudo; se Ele não existe, nada se perde.
Podem até contratar-se carpideiras, mandar rezar missas, de preferência em latim; só não se pode mandar nova embaixada ao Papa, oferecendo-lhe girafas e rinocerontes. O quadro não se altera.
Portugal entrou na “economia” da moeda falsa. Emprestou e gastou o que não tinha. Mas a moeda falsa sempre derruba a verdadeira se ambas estiverem em circulação ao mesmo tempo, conforme a famosa Lei de Gresham.
É o que está acontecendo ao pobre e velho moribundo.
Nunca produziu sequer o que come, desde os primórdios da nacionalidade. Sempre teve que ir buscar fora quase três quartas partes das suas necessidades! E assim mesmo aguentou quase nove séculos. Gente rija que venceu o tempo. Gente inútil e estúpida que o governou tanto tempo.
Portugal sempre gastou mais do que produzia, até mesmo mais do que conseguia ir buscar à Índia ou ao Brasil.
A chegada da grande esmola da União Europeia forneceu ao inculto povo o instrumento da sua própria destruição: o luxo. Em lugar de aplicar os excedentes em produção para manter trabalhadores, fonte real do poder, o povo usou esses excedentes para comprar berloques e bugigangas. Para se enfeitar. Para que parecesse importante pelo lado de fora, quando por dentro estava oco.
Não foi capaz de investir a prazo longo. Em ciência e tecnologia e até mesmo na agricultura. Exemplos de quem passou piores fases, no mundo, e hoje estão fortes e seguros, não faltam. Basta lembrar Londres em 1944, montes de cidades alemãs, Sebastopol em meados do século XIX e na II Guerra Mundial, Espanha depois da Guerra Civil, Israel que começou num quase deserto, e o Japão, o Japão! Que lições!
Portugal adormeceu sob o mito de Ourique, da Reconquista, da glória de Aljubarrota e por fim, de ter dominado o conhecimento dos mares.
Outros bem mais preparados logo se apropriaram deste nosso maravilhoso conhecimento, mas sempre se encontrava Portugal a pedir empréstimos para ir à Índia, ao Oriente, e até ao Brasil.
E o esforço, imenso, brilhante, de tantos, esvaiu-se nas mãos dos Fugger, dos ingleses e dos judeus que o Venturoso não teve vergonha em expulsar do país.
Hoje, jaz de mão estendida à “caridade” de novos agiotas!
E não vai, jamais, sair deste ciclo vicioso, infeliz.
Cantemos o REQUIEM ! Talvez o de Mozart...
Ou... fazer o que? Ir à luta. Trabalhar, trabalhar, trabalhar!

13/04/11





segunda-feira, 11 de abril de 2011

.
Há oito anos, quando sexa, o analfabeto, assumiu a presidência deste país, o senador Cristovam Buarque foi nomeado ministro da educação. Não poderia haver melhor escolha no país.
Mas quando se anunciou o novo orçamento, em 2004, o ministro, indignado por ver reduzida, ainda mais, a verba para a educação, reclamou.
Resultado: foi imediatamente demitido.
Homem íntegro, foi reitor da Universidade de Brasília, e é senador desde 2003.
É dele o texto publicado hoje no jornal “O Globo”.

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Sábado, 9 de abril de 2011

As vergonhas que temos

CRISTOVAM BUARQUE

No século XIX, Victor Hugo se negou a apertar a mão de D. Pedro II, porque era o Imperador de um país que convivia naturalmente com a escravidão. Hoje, Victor Hugo não apertaria a mão de um brasileiro para parabenizá-lo pela conquista da 7a posição entre as potências económicas mundiais, convivendo com total naturalidade com a tragédia social ao redor. Estamos à fren¬te de todos os países do mundo, menos seis deles, no valor da nossa produção, mas não nos preocupamós por estarmos, segundo a Unesco, em 88° lugar em educação.
Somos o sétimo no valor do PIB, mas ignoramos que, segundo o FMI, somos o 55° país no valor de renda per capita, fazendo com que sejamos uma potência habitada por pobres. Mais grave: não vemos que, segundo o Banco Mundial, somos o 8° pior país do mundo em termos de concentração de renda, melhor apenas do que Guatemala, Suazilãndia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Bot suana, Lesoto e Namíbia.
Somos a sétima economia do mundo, mas de acordo com a Transparência Internacional estamós em 69° lugar na ordem dos paí¬ses com ética na política por causa da corrupção. A nota ideal é 10, 04 Brasil tem nota 3,7.
Somos a sétima potência em produção, mas, quando olhamos o perfil da produção, constatamos que há décadas exportamos quase o mesmo tipo de bens e continuamos importando os produtos modernos da ciência e da tecnologia. Somos um dos maiores produtores de automóveis e temos uma das maiores populações de flanelinhas fora da escola.
Um relatório da Unesco divulgado em março mostra que a maioria dos adultos analfabetos vive em apenas dez países. O Brasil é um deles, com 14 milhões; com o agravan¬te de que, no Brasil, eles nem ao menos reconhecem a própria bandeira. De 1889 até hoje, chegamos à sétima posição mundial na economia, mas temos quase três vezes mais brasiÍeiros adultos iletrados do que tínhamos naquele ano; além de 30 a 40 milhões de analfabetos funcionais. Somos a sétima economia e não temos um único Prémio Nobel.
Segundo um estudo da OCDE (Orgaizaçào para Cooperação e Desenvolvimento Económico), que pesquisa146 países, o Brasil fica em último lugarar em percentagem de jovens terminando o ensino médio. Estamos ainda piores quando levamos em conta a qualificação necessária para enfrentar os desafios do século XXI.
Segundo a OIT, a remuneração de nossos professores está atrás de países como México, Portugal, Itália, Polóinia, Lituânia, Letónia, Filipinas; a formaçào e a dedicação deles provavelmente em posição ainda mais desfavorável, por causa da péssima qualidade das escolas onde são obrigados a lecionar.
Somos a 7a potência econômica, mas a permanência de nossas crianças na escola, em horas por dia, dias por ano e anos por vida está entre as piores de todo o mun¬do. Além de que temos, certamente, a maior desigualdade na formação de cada pessoa, conforme a renda de seus pais. Os brasileiros dos 10% mais ricos recebem investimento educacional cerca de 20 vezes maior do que os 10% mais pobres.
Somos a sétima potência, mas temos doenças como a dengue, a malária, o mal de Chagas e leishmanio-se. Temos 22% de nossa população sem água encanada e mais da metade sem serviço de saneamento. Segundo o IBGE, 43% dos domicílios brasileiros, 25 milhões, não são considerados adequados para mo-radia; não têm simultaneamente abastecimento de água, esgotamento sanitário e coleta de lixo.
Esta dicotomia entre uma das economias mais ricas do mundo e um mundo social entre os mais po¬bres só se explica porque nosso projeto de nação é sem lógica, sem previsão e sem ética. Sem lógica, porque não percebemos que "país rico é país sem pobreza”. Sem previsão, por não percebermos a grande, mas atrasada, economia que temos, incapaz de seguir em frente na concorrência com a economia do conhecimento que está implantada em países com menor riqueza e mais futuro. E sem ética, porque comemoramos a posição na economia esquecendo as vergonhas que temos no social.

CRISTOVAM BUARQUE é senador (PDT-DF).

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João Ubaldo Ribeiro é um dos maiores escritores brasileiros.
Ganhou em 2008 o Prémio Camões.

Se reformarem, é para piorar



JOÃO UBALDO RIBEIRO


Desde que me entendo, ouço falar em reformas e as únicas que lembro ter visto efetivamente realizadas são as ortográficas. Já devo ter pegado umas quatro ou cinco e ainda encontrei muitos livros em orthographias extranhas, na bibliotheca de meu pae. Aprendi a ler no tempo em que a palavra "toda" se escrevia "toda", para não ser confundida com o nome de uma tal ave, jamais vista por quem quer que seja. Jorge Amado perdeu a paciência, depois de fazer força para se adaptar a diversas ortografias. Uma vez, quando ele estava acabando de redigir um artigo ou prefácio, como sempre incentivando algum escritor novato, eu cheguei e ele me disse, datilografando as últimas palavras do texto, arrancando o papel da máquina e o entregando a mim:

— Ah, ótimo que você apareceu. Bote, os acentos nessa merda aí, que eu não tenho mais saco para reaprender a soletrar de cinco em cinco anos.

Talvez eu esteja sendo injusto e tenha presenciado a realização e implantação de alguma reforma não ortográfica. Mas não aquelas que antigamente eram chamadas de "reformas de base" e consideradas essenciais para o desenvolvimento ou até a sobrevivência do país. Reforma agrária, reforma tributária, reforma judicial, reforma administrativa, reforma educacional e por aí se desfiam as benditas reformas, um longuíssimo rosário, impossível de recitar de cor. Ao mencionar-se sua necessidade ou urgência, todos assentem com ares graves — "sim, sim, naturalmente, as reformas".
Contudo, passar da anuência à ação é aparentemente impossível. Reforma é uma coisa na qual se fala, mas não se faz. É excelente para comícios e entre¬vistas, mas não para agir. De vez em quando, um governante diz que fez uma reforma. Se não me engano, o ex-presidente Lula anunciou que fez uma ou duas reformas. Não lembro quais e provavelmente nem ele, são coisas do passado e ninguém viu reforma nenhuma mesmo.
Tenho uma teoria simples a respeito desse assunto. Todas as reformas, de todos os tipos, iriam prejudicar os que ganham com a manutenção do que está aí. Como o país, de cabo a rabo, em todos os níveis, em todas as classes e categorias, é essencialmente corrupto, a corrupção não deixa. Não existe setor da administração pública, novamente em todos os níveis e dimensões, que não seja território de uma ou diversas máfias, algumas das quais institucionalizadas e quase todas alimentadas por uma burocracia pervertida e feita para ensejar propinas, vender influência e fazer proliferar os despachantes e seus equivalentes mais graduados, os chamados consultores — entre estes últimos constando o hoje injustamente esquecido filho de d. Erenice.
Diante da realidade de que há quadrilhas em ação em todos os poderes, tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora, não se vai acreditar que os beneficiários de determinado estado de coisas abdicarão de suas vantagens pelos belos olhos de quem quer que seja. Ouso mês mo dizer que, em muitas das áreas mafiosas, quem for fundo demais na investigação e na reforma corre o risco de morrer. São muitas as histórias de assassinatos realizados a mando de algum esquema de corrupção, pelo Brasil afora. Não escapa área nenhuma, a começar, simbolicamente, pelas próprias polícias.
E não escapa, naturalmente, o Congresso Nacional, onde, segundo as más línguas (observem meu uso copioso do adjetivo "alegado", ou quem vai preso sou eu), há alegados ladrões, alegados estelionatários, alegados salafrários e outros alegados, em tamanha fartura que desafia a contagem. Agora o Conresso está entregue à tarefa de realizar a reforma política, todo mundo fingindo que acredita que algo que prejudique os interesses imediatos dos congressistas será aprovado. E que o nosso sistema eleitoral está sendo aperfeiçoado.
Aperfeiçoado para eles. O que eles pretendem chega a parecer brincadeira, mas, infelizmente, não é. Querem, como se sabe, instituir o que já chamam afetuosamente de "listão". O eleitor não votará mais em um candidato, mas na lista elaborada pelo partido, na ordem estabelecida pelo partido. Atualmente, com a lista aberta, pelo menos o eleitor es¬colhe uma pessoa e essa pessoa, se bem votada, fatalmente se elege. Mas não vai haver mais esse direito. De agora em diante, com a lista fechada, o eleitor escolhe o partido com que se identifica e lhe entrega a escolha dos nomes que serão eleitos.
Só pode ser deboche. Que significa um partido político no Brasil, senão a conglomeração temporária de interesses que raramente são os da nação, mas de grupos, categorias ou indivíduos? Até os programas partidários não pas¬sam de florilégios de frases vagas e altissonantes, tais como o combate à desigualdade e a injustiça social, os projetos de inclusão, o desenvolvimento sustentável, a preservação do meio ambiente e outras generalidades, quem ouve um, ouve outro e, se o nome do partido fosse apagado, não haveria quem o distinguisse. Apareceu até um partido que se declara não ser de esquerda, nem de direita, nem de centro. Talvez seja o mais honesto deles todos, por mostrar que re¬conhece a realidade política brasileira. Aqui nenhum partido quer dizer nada mesmo e podiam usar todos a mesma sigla: PPPPP, Partido Pela Predação do Patrimônio Público, porque tudo o que seus membros aqui almejam é abocanhar a parte deles.
Agora vêm com essa novidade da lista fechada. Se já não nos é permitido dar palpite no uso do nosso dinheiro, daqui a pouco nos tirarão o direito de escolher nossos governantes. Ou seja, seremos mandados pelas organizações oligárquicas e caciquistas dos partidos. Seemos uma "democracia" governada por conluios e manobras escusas. Ou por 171 *, como queiram.

JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor.


* - 171 – Artigo do Cod. Penal onde se enquadram os vigaristas!


11/04/2011

sexta-feira, 8 de abril de 2011


DOS USOS E COSTUMES

AMBAQUENCES

 
(Ambaca é um município de Angola, cuja sede é Camabatela. A cerca de 250 km a NE de Luanda)

Extrato de um relatório de Manoel Alves de Castro Francina. 1846

Os usos e costumes desta gente são difíceis de descrever; todavia, segundo as melhores informações, o mais notável entre eles é a maneira por que fazem os seus cazamentos, enterramentos, e óbitos. Nos casamentos observa-se o seguinte:—Depois de um esplendido jantar, quando elle dá para isso, o noivo é quasi violentado a recolher-se com a noiva ao quarto preparado, onde com antecipação se põe ao pé da cabeceira da cama uma arma carregada: depois de duas horas, mais ou menos, os parentes da noiva impacientes por saber se ella foi ou não achada intacta, e se o noivo é ou não varão perfeito, batem fortemente á porta com immensa gritaria, sem duvida ajudada pelo Baccho, que em taes occasiões sempre se gasta (ou caxaça) até que o noivo dê signal de si, e da honradez de sua mulher, disparando um tiro por uma janella, com a arma de que já fallei, ao qual correspondem todos com applausos e repetidos tiros, ficando depois os noivos tranquillos o resto da noite, em quanto os parentes e amigos folgam contentes e satisfeitos. Se o noivo não dá o tiro, provado fica que o matrimonio não está consumado ou que em algum delles ha falta; neste caso ficam tristíssimos, e tratam logo de indagar de onde ella provém. Se o homem acusa a mulher de falta de honradez, o sogro ou outros parentes tratam, por meio de dadivas de resolve-lo a que não faça o caso mais publico por meio de separação, ao que quasi sempre se annue; mas se pelo contrario ella accusa o homem de impotente, o casamento é immediatamente desmanchado, e fica o homem por este facto mal visto e aborrecido.—O mesmo observam os não casados, servindo-se de uma garrafa cheia de agua-ardente para provar a honradez da amasia, e meia para o contrario. —Outros ha casados, que tem o estado de casado como nada, porque sendo-o, têem em casa (por grandeza) além de pessoas livres (por amasias) um sem numero de mucambas, em quartos preparados no fundo de seus grandes quintaes, onde não entra um só escravo (homem) em que supponham já malícia: as respectivas mulheres são mudas expectadoras.
Nos enterramentos e óbitos seguem o seguinte: declarada a moléstia, é logo mudado da casa do amasio ou amasia para a de seus parentes, para ser tratado, e acontecendo fallecer é então carregado para a própria habitação, a fim de se tratar do enterramento, antes do qual procede-se a muitas nigromancias, fazendo até deitar o morto com a amasia, ou vice-versa, para terem copula; depois d'isto feito corta-se ao morto algum cabello, e as unhas, e metendo-as com diversos milongos em um pequeno embrulho, são levados a enterrar em logares privativos a que chamam «Quindos», levantando sobre a sepultura um tumulo, onde assentam diversas quinquilherias, como figuras de barro, pratos, tigellas, garrafas, etc, o qual é abrigado por uma casinhota que se faz de pé para a mão, a que dão o nome de «Quindumbila ». Este logar é diariamente varrido por pessoa de família, ou escravo reservado, e de tempos em tempos lançam sobre o dito tumulo algumas bebidas, e manjares em signal de commemoração: depois de todo este processo são ambos levados em tipóias differentes para a casa do sogro, a que elles chamam «Sogaragema» ahi fica o que sobrevive, e levam então a enterrar o cadáver no cemitério mais próximo (por haver muitos); concluído o enterramento, aquelle é levado ás costas de pessoa do mesmo sexo á borda do 1.° rio, que encontram, onde é lançado para ser lavado, ao que elles chamam tirar o «Usse», e sendo depois reconduzido para a sua casa fica encerrado por oito dias, privado de comer cosido, de lavar o rosto, e até mesmo de fallar a pessoa de differente sexo; também fica privado de ter claridade no quarto: nestes dias de óbito se matam muitas criações para sustento dos hospedes, que também presenteam ao individuo de nojo, para mais continuação e sustentação dos grandes batuques, constituindo-se assim sucessivos banquetes, em quanto duram os meios, nos quaes nada mais realça que completo prazer, e satisfação. Muitos ha que não tendo meios para fazer brilhante o óbito, lançam mão de algum parente, e o vão hypothecar por dinheiro ou fazenda, a quem dão o nome de «Gunge». Depois de oito dias é que se varre o quarto, podendo então ter claridade, e comer quente, e convocando-se então todos os parentes fazem sentar o filho mais velho, quando os tenha, em uma benza (pequeno assento quadrado, feito de bordão), põe-se-lhe á cabeça uma caginga (espécie de solideo feito de palha de palmeira desfiada), e se lhe pede a apresentação de todos os papeis do defunto, para verem se ha liberdade a fazer valer, quando não possam annulla-las, e finalmente apresentando todos os bens que houver; o tio do «Cabingano » (entre nós o primeiro herdeiro) tudo leva, por ser este entre elles o considerado legitimo herdeiro (sendo irmão materno), e o desgraçado filho fica sem nada, principalmente sendo menor, e que não tenha podido subtrahir alguma cousa.—O viuvo ou viuva conserva-se por um anno guardando castidade, e só depois deste tempo se pode unir a outra pessoa quando o fallecido não tenha deixado parente em gráo mais chegado, com quem neste caso deve amancebar-se; para se declarar o desembaraço do viuvo ou viuva convoca-se de novo a parentalha, mata-se então um cabrito, e uma galinha, que cozinham com certas mindráculas para todos comerem; e se aquelle não prova da tal comezana, o acusam de incastidade, fazendo-lhe recair criminalidade, de que facilmente são convencidos, expiando-a depois com dadivas por elles arbitradas, e convencionadas.
Os da classe mais elevada passam pela maior parte destas cousas muito em segredo.
As mulheres de Ambaca logo que parem são levadas a um rio para serem lavadas, ou em gamelas em casa, segundo a posição dellas, sem que disso lhes resulte o menor mal.

DAS OPANDAS OU ADULTÉRIOS.

Quando qualquer homem desconfia da fidelidade de sua amasia, ou mesmo não desconfiando pretende com ella ganhar alguma coisa, força-a por meio de pancadas, a dizer que tem commettido opanda com este, ou com aquelle, e se o não faz é victima de seus furores; naquelle caso o amasio manda chamar logo um dos parentes della, que de ordinário é o tio, e fazendo-lhe patente a declaração, o encarrega da cobrança da expiação do crime, arbitrada em enormes quantias; o sugeito que o não tem commettido, mas, a quem é attribuido o crime, se recusa pagar, é citado para a presença do Chefe, e quando mesmo assim não é por testemunhas convencido, se resolve depois a pagar dentro em pouco tempo, por temer os feitiços, de que se servem muito a miúdo. Com esta acusação de infidelidades nem por isso o acusador se separa da acusada, porque deste procedimento lança mão muitas vezes, attribuindo opandas ora a um, ora a outro. Se a mulher ajudada por seus parentes se resolve a separar-se de tal monstro ou flagello, este faz logo conta aos dispêndios que tem feito desde os seus primeiros amores, e ella ou seus parentes, resignados a não querer que continue a viver em companhia de similhante homem, pagam toda a despeza, levando-se então em conta alguns offerecimentos que della tenha recebido, ou de sua família, formando-se assim uma conta corrente. —O mesmo ajustamento de contas se faz quando uma mulher lembada por qualquer homem, isto é, buscada da casa de seus paes, a troco de dinheiro adiantado, e achada por este imperfeita: ou estando unidos por um, ou quando muito dois annos, não tenham tido filhos; e neste caso são obrigados a separar-se dando se a mulher a outro, porque suppõem que o defeito sempre está no homem, a quem dão então o nome de «NBaco ou Xole.»

(a continuar, se...)

8/04/2011

quarta-feira, 6 de abril de 2011



Fastos & Nefastos

Ormuz, séc. XVI * Portugal séc. XXI



Tempo houve em que os portugueses se batiam por ideais, com uma valentia e determinação, quando “tão poucos valiam muitos”, que mudavam os caminhos da história e do mundo.
Seria veleidade estar a referir os nomes mais conhecidos da história. Muitos há, muitos, felizmente, que deveriam servir de exemplo, melhor, estarem ainda hoje vivos.

Fastos

"Irritados os Persas da severidade com que escreveo huma carta o Capitão de Ormuz D. Luiz da Gama a hum General, se resolverão a vingar com as armas a injuria que supunhão lhe resultava, e como a Cidade de Ormuz se abastecia de agua, que lhe vinha do Comorão, tratarão os Persas (já nossos inimigos) de nos impedir o conduzi-la para aquella Cidade. Executarão o seu intento, e em breves dias gemerão os nossos moradores sem o preciso alimento, molestia que offendia o brio Lusitano, pois contra a reverencia da nossa Fortaleza, e de todo o Estado, se atreverão huns barbaros a impedir-lhe a agua e a trazer a guerra aos Portuguezes, de quem recebião Leys. Tratarão pois os nossos de castigar o seu orgulho e vaidade. Foy o primeiro que os buscou o Capitão Fernão da Silva, mas não respondeu a fortuna ao seu valor, porque ao tempo em que se começou a batalha, ou por desgraça ou por descuido, prendeo o fogo no payol da polvora, e voarão navio, e Capitão salvando-se unicamente a gloria do seu nome e da valentia com que se houverão em todos os conflictos da Asia. Sentirão os nossos a perda não só pela falta de tão esforçado Capitão, mas tambem os Persas com este acaso se fizerão mais ousados, cobrindo os mares de Ormuz com 300 barcas que infestavão aos amigos do Estado. Chegou n'aquella occasião Nuno Alvares Pereira, e não querendo perder a gloria de ven¬cer aos inimigos, não foy tardo em logo os cometter, e pelejar de modo que depois de algum tempo forão rotos e desbaratados, não escapando das 300 barcas mais do que humas poucas, que servirão para contar o lastimoso estrago que padecerão. Soubemos a grandeza da victoria não só dos inimigos, a quem destroçamos, pelejando mar, mas ainda do grande terror que mostrarão os seus Generaes e o seu Principe, o Sophi, que temendo a geral ruina das suas Costas e Cidades maritimas, escreveo huma Carta ao Visorey, em que se desculpava da guerra de que dava por Author ao Cam de Xiras. O Visorey D. Jeronymo de Azevedo recebeo a satisfacão do Persa, como que estimava não ter guerra com aquelle Monarcha, e se contentava com a gloria de o ver temeroso das armas do Estado, em tempo em que erão combatidas por tantos e tão poderosos inimigos, e devemos ao respeito de tão sinalada Victoria as atenções do mais poderoso Principe, e o commercio das mayores utilidades».


Nefastos

Com que tristeza se assiste hoje à passividade do povo português, prestes a naufragar, desconsiderado mundo fora, sentado no conforto d’alguma cadeira assistindo à Tv, vendo o ex-primeiro ministro, demissionário (!!!???) nomear para postos altos da governança a uma imensidão de comparsas do PS, e não se vê uma única pessoa sair à rua a reclamar contra tamanho descaramento!
Todos os dias aparecem pela Internet piadas do tal sócrates: que é ladrão, que não é engenheiro, que... isto, que... aquilo..., mas ninguém, NINGUÉM, levanta o traseiro da poltrona e vai para as ruas exigir a moralização e o restauro da dignidade dum país que já foi mundialmente respeitado.
É sabido que acabaram impérios antigos e modernos, civilizações que se perderam no tempo e são hoje só curiosidade de arqueólogos, mas permitir, no conforto/desconforto de cada um e de todos, que o governo, aliás des-governo, arraste o país para a bancarrota, para a miséria, é uma demonstração de covardia que não se coaduna com a nossa história, com a dos nossos antepassados.
Milhares, ou milhões, não perdem um capítulo das novelas brasileiras, mas clamam contra o acordo ortográfico, como se isso denegrisse o país.
Milhares ou milhões não aceitam trabalho porque a Segurança Social lhes garante, sem incômodos, o mínimo de sobrevivência.
Milhares ou milhões que fazem falta para o desenvolvimento da agricultura, não querem mais trabalhar no campo. Entretanto há montanhas de imigrantes que se podiam aproveitar para esse fim. Mas quem toma decisões? Ninguém.
E onde está a juventude que sempre foi destemida, descomprometida e valente?
Será que ainda há jovens em Portugal ou está tudo velho, acomodado, vendo o barco afundar sem se incomodar a vestir o colete de salvação?
Sou português de nascença, africano de coração e brasileiro de adoção.
Mas ver tanto relaxamento, passividade e covardia num povo que foi destemido, dói.
Muito.

05/04/2011

segunda-feira, 4 de abril de 2011


O Brasil salva Portugal !!!

VIVA!!!

Mas... é bom que a gente se entenda.


Com a eleição dum palhaço, analfabeto, para deputado federal, seguida da escolha por este de três palhaços para assessores, e não vivendo em Brasília, e face à imunidade de linguagem dum outro deputado, que se permite achincalhar pessoas de cor ou de sexualidade duvidosa, é evidente que o Brasil entrou na era da palhaçada explícita.
Para ajudar a tudo isto, depois de ser votado pelo Congresso uma lei da Ficha Limpa, impedindo a banditagem confessa e condenada, de se candidatar, e muito menos assumir, postos tanto no legislativo como no executivo, o supremáximo tribunal ainda não sabe como aplicar a lei (parece que não quer...), os bandidos continuam a pôr, dispor e... esculhambar.
De modo que os palhaços andam à solta... ganhando bem e com motorista!
O PIB do Brasil, em 2010 foi de R$ 3,675 trilhões, superior em 7,5% a 2009. Mas como em 2009 foi negativo em 0,2%, não se pode dizer que o país tenha crescido na era do cefalópode. A média, aliás, foi inferior à da era FH.
Entretanto, a dívida total líquida da União (Interna e Externa) em Fevereiro de 2011 era de R$ 2.359,9 bilhões, ou seja cerca de 64% do PIB, e como a taxa Selic, determinada pelo Banco Central passou a 11,75%, isto se resolve com uma simples conta de aritmética: o Estado tem que, todos os anos, se não baixar a dívida, pelo menos pagar o juro da mesma, que no momento atinge R$ 442 bilhões, cerca de € 200 bilhões!
Que o Brasil é imparável, é. Mas ter que retirar do orçamento 442 bilhões que poderiam servir para dar um impulso definitivo na educação, saúde, saneamento, estradas, etc., é condenar o país a ficar no “faz que anda mas não anda”! Anda um pouco, com o constante aumento de impostos, como agora, quem viajar ao exterior e pagar contas com cartão de crédito, são penalizados em 7,5% !
Anda sim, e só, a iniciativa privada, com dificuldade!
O (des) governo esquece de orçar, os largos bilhões que são sistematicamente roubados! Diariamente os órgãos de informação nos mostram calamidades consecutivas: é a mulher dum governador que rouba as merendas escolares, é o pessoal dos serviços de saúde que nos últimos doze meses desviou perto de um bilhão, são os obras entregues sem licitação pública a comparsas, que muitas vezes, pagas, nem executadas, são, etc., etc., é uma calamidade constante, e por fim uma aprovação popular absurda, mostrando que 70% dos brasileiros apóia este governo!
E vão a Lisboa os dois principais (des) governados para serem homenageados, na Assembléia Nacional e na vetusta Universidade de Coimbra.
Está muito mal Portugal, ao estender-se aos pés desta gente a pedir esmola! Que vergonha!
Que argumentações falaciosas devem ter usado os proponentes e os concordantes em semelhante palhaçada.
A dona presidenta disse que ia ajudar Portugal, e os babacas lusitanos, babando, aplaudiram-na de pé à espera da esmola, que jamais chegará! O Brasil não tem quem o ajude a si próprio, vai ainda comprar títulos do tesouro português que são considerados abaixo de lixo?
Mas o ex-gerente do circo ficou lindo com aquele capacete bordado de vermelho, a cor que adotou no seu governo, dizendo-se irmão de peitos de Fidel, Chaves, Kadafi, Ahmanidejah e outras belezocas.
Onde pára o bom senso da Universidade de Coimbra? E a sua dignidade? Imagino o que diriam de tudo isto Eça, Camilo, mesmo sem ter terminado o seu curso, Antero, e até o velho doutor António Menano!
Que a Assembléia Nacional de Portugal esteja completamente desacreditada dos portugueses, e por isso homenageie quem quer que seja... não há problema algum, porque ela perdeu toda a credibilidade e autoridade moral, até para dizer bom dia ao contribuinte!
Mas Coimbra!...
Dom Dinis deve ter-se virado no seu túmulo para não ver estas baixarias. Ele que estava entretido com os bobos...

03/04/2011



sexta-feira, 1 de abril de 2011


Grandes Homens - 4

Portugal declarou guerra
 
a Tripoli !



Desde que, em 1551, o corsário turco Dragut, transformou a pequena enseada de Tripoli num ninho de piratas, o mediterrâneo passou a ter menos sossego. Entretanto os franceses e os venezianos, por diversas vezes bombardearam fortemente aquele reduto.
Durante a guerra entre a Inglaterra e a França de Napoleão, Portugal foi solicitado pela sua “grande” aliada, para juntar forças e atacar o Imperador.
Assim, uma pequena esquadra portuguesa foi incorporada à do Lord Nelson, que começou por combater os inimigos no mediterrâneo, uma vez que o Canal da Mancha tinha defesa assegurada.
Em 1799 a esquadra conjunta estava fundeada em Palermo. Portugal continuava em guerra com os piratas do Magrebe, e os franceses tinham ocupado Tripoli para melhor controlarem o Mediterrâneo.
Nelson, também em paz com o bachá de Tripoli, recebeu no seu navio o chefe da esquadra portuguesa, o Marquês de Nisa, Dom Domingos Xavier de Lima, quando ali estava também Simão Lucas, cônsul britânico em Tripoli. O Marquês entendeu que através da intermediação de Nelson e do consul, poderia obter uma paz vantajosa com o Bachá. Nelson gostou da idéia, mas disse que, além da paz, o Bachá deveria entregar o cônsul e outros cidadãos franceses. O Marquês achou a exigência bárbara, mas, pôs o projeto em marcha, dispondo a nau Afonso de Albuquerque em ordem para esse serviço, que poucos dias depois, hasteando a bandeira inglesa, fundeou a um tiro de espingarda das baterias de Tripoli, num fundo de somente quatro braças! Com a mesma bandeira mandou um escaler a terra com o cônsul medianeiro, que voltou uma hora depois dizendo que o Bachá estava disposto a negociar a paz com os portugueses. Logo se hasteou a bandeira portuguesa na nau, que foi saudada de terra, e da nau.
O comandante tinha dado pouco tempo ao cônsul para obter o acordo, porque estava em condições difíceis de manobrar se o vento mudasse. O Bachá então requereu a presença do comandante, e o Marquês entregou o comando ao capitão de fragata José Maria Almeida, com ordens, por escrito, de empregar todas as medidas enérgicas contra a cidade, se ele não voltasse a bordo naquela noite.
Volta o Marquês com a palavra do Bachá que dentro de dias despachava os franceses para Constantinopla, e a nau levantou ferro porque o tempo estava a piorar e, depois dum temporal, em mar aberto, regressa a Tripoli. Nessa madrugada entrou no ancoradouro uma polacra (veleiro de três mastros) que fundeou bem por baixo das baterias da cidade e abriu fogo com as suas dezoito peças de bateria e diversos mosquetes, contra a nau, que respondeu só para as da fortaleza, uma vez que não queria danificar o outro navio, mas tomá-lo de abordagem. Saíram da nau três escaleres com trinta voluntários, sob o comando de José de Almeida, levando uma única peça, e do lado de terra acorreu a guarnição do vice-almirante do Bachá, carregando escopetas e arcabuzes, em auxílio dos cento e cinqüenta tripulantes.
Dos escaleres não se deu um tiro, enquanto não chegaram à queima roupa e saltassem à abordagem com espadas e pistolas. Invadem a embarcação, de parte a parte fazem-se prodígios, mas os portugueses são invencíveis. Dos trinta, todos ficam feridos e um morto com os miolos de fora. Dos mouros, cinqüenta mortos, e os outros atiraram-se ao mar. Os vencedores rebocam o navio conquistado para junto da nau, e daí respondem ao fogo da fortaleza.
No dia seguinte continua o ataque à cidade, quando se avistam duas embarcações ao largo. O chefe da esquadra manda içar a bandeira tripolina, e dá ordens à polacra que, quando em posição conveniente desse uma “banda” à maior que parecia uma fragata, e se apossasse dela e do brigue! Assim se fez. Fogo bem dirigido e manobra rápida, os tripolinos não esperavam o ataque, mas travam com os portugueses um terrível combate.
A polacra servia de escudo à nau Afonso; as duas embarcações inimigas tinham mais de quatrocentos homens de guarnição, mas assim mesmo foram abordados e conquistados!
O Marquês manda a seguir que levem a polacra para perto de terra com ordem de a incendiarem.
À vista de tamanho destroço, e receio de maior mal, o Bachá mandou içar a bandeira branca, e foi obrigado a aceder a todas as demandas, não só do tratado de paz como à entrega dos franceses!
A única coisa que o Bachá pedia era que lhe restituíssem os dois navios e a tripulação que se aprisionara.
Avaliou-se a fragata em trinta mil pesos, um terço dos quais o Bachá pagaria aos valentes marinheiros, e o brigue, em nome de Sua Alteza o Príncipe de Portugal, se lhe fazia de presente, como era costume sempre que se contratava com os otomanos.
Aceites as condições salvaram as baterias de terra e as duas embarcações prisioneiras, com a bandeira portuguesa no tope dos mastros, em sinal de respeito, respondendo a nau, que se foi afastando sempre com a bandeira nacional hasteada até perder terra de vista!
Conhecido pelo Príncipe Regente tão valoroso feito, promoveu todos os intervenientes, por distinção em combate, aos postos acima.

in “Quadros Navais”, do Almirante Celestino Soares.

N.- O que se passa com os portugueses de hoje, que deixam, inertes, que lhe destruam o país?

31/03/2011