sábado, 19 de março de 2011


Tributo ao Japão

O mundo inteiro tem assistido, horrorizado, ao descomunal desastre a que o Japão está sendo acometido. E se acompanhamos a sua dor, ao mesmo tempo nos rendemos à sua extraordinária capacidade de sofrimento e serenidade.
Hoje fui buscar um texto do sempre grande admirador e apaixonado pelo Japão, Wenceslau de Morais, que nos dá uma pequenina idéia da filosofia deste povo, que apesar de tudo não elimina a sua dor. A dor de cada um não há quem possa medir. E toda a dor merece o nosso respeito.
Transcrevi há dias um texto do livro “O Bon-Odori em Tokushima”, mas vem agora a propósito a explicação do título deste livro.

A dança do Bon-Odori

Bon-Odori. Estranha frase japonesa ; mais do que estranha, - incompreensível -, para leitores da minha terra. Eu explico. Bon é um vocábulo budístico, que significa a festa dos mortos. Com efeito, há no Japão, em cada ano, um período, geralmente de 13 a 15 do 7° mês do ano lunar, durante o qual se festejam os mortos; festejam, o que marca profunda distinção entre esta comemoração japonesa e a comemoração católica do Dia de Finados. Odori quer dizer simplesmente: dança. Bon-Odori é pois a dança da festa dos mortos, mística cerimônia congratulatória, persistindo desde os remotos tempos bárbaros, pela qual a família japonesa honrava por todo o império os seus defuntos; honrava e honra ainda, onde a ocidentalização dos costumes, na sua ação demolidora, ainda não abriu brechas nas velhas crenças, nas usanças populares.
Tokushima, onde me encontro, é uma cidade tranqüila da costa da ilha de Shikoku, pouco distante de Osaka e de Kobe; mas cujo povo se mostra estranhamente conservativo nos seus costumes. A cidade é famosa, desde tempo distante até hoje, pelo seu Bon-Odori.
Ora, em Kobe, onde fiz uma longa permanência, gente de Tokushima contava-me frequentemente maravilhas do seu portentoso Bon-odori. Tantas vezes as alusões se repetiram, tantas vezes o shamisen, a guitarra indígena, me tocou aos ouvidos a toada com que a chusma vai rompendo pelas ruas e dançando ao mesmo tempo, que há cerca de seis ou sete anos, desejoso de ver pelos meus olhos o Bon-odori em Tokushima, decidi-me por uma excursão de poucos dias, indo à cidade em época própria. Completa desilusão, porém tempo perdido. A quadra é traiçoeira. É então que se desencadeiam vulgarmente os terríveis tufões do mar da China; atingindo por vezes as costas do Japão, já enfraquecidos de ímpetos, mas ainda bastante tormentosos para causarem no país graves estragos.
Mas falemos da excursão. Já quando eu ia de viagem, a bordo de um pequeno vapor de carreira, de Kobe para Shikoku, o vento começou a soprar rijo, o céu a anuviar-se, o mar a enfurecer.
Em Tokushima, um temporal tremendo, rajadas formidáveis; chuvas diluviais; a cidade inundada; perdas de vidas; destroços importantes; um, de entre muitos, foi a completa demolição da ponte de Tomidá, só há pouco reconstruida. Claramente, não se comemorou naquele ano o Bon-odori em Tokushima.
Há pouco arremessou-me o destino de novo a esta cidade, não por alguns dias, mas por muitos dias; onde venho viver; onde, talvez venho morrer.
Vi, há alguns meses, por uns belos dias estivais, o Bon-Odori em Tokushima, em todo o seu clássico brilhantismo, em todo o seu místico frenesi de festa consagrada a todos os defuntos; dias de excepcional confraternização terrestre entre vivos e mortos, cada qual acarinhando os seus entes queridos que se foram e que envolvem, em espírito, ao lar familiar, por curtas horas; eu, pobre ignaro, de mistura com a multidão dos crentes, evocava também, por sugestão do meio, alguns mortos do meu conhecimento.
Comento agora: provavelmente, continuarei a ver aqui o Bon-Odori, por mais um ano, por mais dois anos, por mais três, eu sei lá... e após um ano virá, próximo, sem dúvida, em que o Bon-Odori volte a animar as ruas da cidade com as suas procissões festivas, Bon-Odori que eu então não verei, mas de cuja comemoração piedosa a minha alma penada, de forasteiro, que teve o capricho de vir aqui depor o mísero despojo do seu invólucro terrestre, poderá reclamar, não sei se com pleno consentimento de Buda, uma parte em seu favor...

Gostaria de me juntar a um próximo Bon-Odori. Mas como ocidental, em vez de dançar, eu choraria pelos seus mortos.
Com a lição que o mundo está a receber do civismo e da filosofia dos japoneses, muito lhes desejamos que não deixem enfraquecer, muito menos desaparecer, as suas tão bonitas tradições.

18/03/11

quarta-feira, 16 de março de 2011



COVARDES !!!

 
Estamos a viver uma época de horrores. Não há palavras que possam descrever o que se está a passar no Japão, que nós assistimos estupefatos, horrorizados, boquiabertos, pela televisão, sofrendo por aquele povo que, no meio duma imensa calamidade, está a dar ao mundo uma lição admirável de civismo. E pior, o que ajuda a doer, é nossa total incapacidade de fazer por eles alguma coisa!
Uma desgraça. Mas o Japão vai sair desta, e prosseguir a sua vida. A sua extraordinária filosofia de vida, cada vez mais me espanta, e mais admiro.
Outro, é a guerra na Líbia.
Depois da facilidade da Tunísia e Egito, era de calcular que o facínora, nojento, do Kaddafi, não ia sair de rabo entre as pernas. Ele que foi o centro de irradiação do terrorismo mundial, agora culpa, “para inglês ver”, a Al Qaeda, pelo que se passa no seu país. A chacina já vai grande e será muito maior.
Os bravos libianos, com umas espingarditas e umas metralhadoras, contra tanques e aviões de bombardeamento! Se a comunidade internacional não lhes acudir, serão implacavelmente esmagados. E nós, pela mesma televisão, a assistir.
Vemos o presidente Sarkozi “dar uma de macho”, mas... ficar-se por isso mesmo!
Vemos a Liga Árabe a condenar o Kaddafi, e... mais nada. Por todo o lado congelam-se as contas bancárias do gangster, e... por aí se ficam.
O Conselho de Segurança da ONU, uma autêntica palhaçada, uma vergonha, declarou que “ia impor” o embargo da venda de armas! Isto não é nem ridículo, é por demais ofensivo, porque se sabe que o bandidão tem armas que chegam para uma guerra de vários anos.
O G-8, que não serve também para nada, fica em cima do muro! E o povo líbio a morrer.
Ninguém toma decisões porque a Rússia e a China opõem o seu veto! Que história de veto é esse, em infelicissima hora inventada pelos americanos, que tolhe as ações da ONU?
Claro que a Rússia não pode dar o seu aval ao que quer que seja a favor dos revoltosos. Ela tem os mesmos problemas, pelo menos, na Chéchenia.
E a China? Tem o Tibete a pegar no pé dela.
Parece que não seria muito difícil, à sorrelfa, fazer chegar aos opositores da Líbia, pelo menos, uns quantos mísseis terra-ar e terra-terra. Já dariam cabo dos aviões e dos tanques, tornando a luta menos desigual.
Quem devia fazer isso era a França, que reconheceu como válido o governo dos revoltosos.
Mas... se o Kaddafi os esmagar, o que parece vai acontecer, ele que já está indiciado pelo tribunal internacional a responder por crimes contra a humanidade?
Vai acontecer: NADA.
Devolvem-lhe o dinheiro congelado, continuam a recebê-lo na ONU, e tudo fica por isso mesmo.
Mundo de covardes. Covardes sobretudo os europeus, que bem podiam mandar a Rússia e a China p’rá... e ajudar os revoltosos.
Sempre fui anti Che Guevara, porque ele foi um assassino frio. Implacável. E por isso também covarde. Mas nestas alturas até a mim me dá vontade de me alistar ao lado dos mais fracos.

16/03/11

terça-feira, 15 de março de 2011


Curiosidades

Portugal - 1814


É difícil imaginar o descalabro que foi, durante vários reinados, o governo “português” nos antigamentes, mas vamos dar uma pálida idéia do que se passava em 1814.
Só entre 1808 e 1814 devem ter morrido centenas de milhares de homens, mulheres e crianças, com a guerra, a miséria e a fome.
Com a família real no Rio de Janeiro, Portugal foi pasto dos exércitos ingleses. Eles, só, mandavam. Mas é impressionante ver a quantidade de oficiais, nas Forças Armadas, tanto em Portugal quanto no Brasil, sabendo-se que no Brasil praticamente não havia nem exército nem marinha, e o português estava desmantelado.
Era “rei” de Portugal o Duque de Wellington, que não abriu mão de ter no comando da maioria do exército, oficiais ingleses. Os portugueses “enchiam” os postos de major para baixo, os mais altos eram de nomeação inglesa.
Ficaram de fora os regimentos de artilharia e cavalaria, porque certamente eram menos importantes do que a infantaria, e nesse tempo não havia tanques!
Do mesmo modo a “marinha portuguesa”, i.é, os seus poucos navios, mantiveram os seus comandantes, uma vez que todos eles estavam subjugados à marinha inglesa.
Mas o que mais espanta é a exorbitante quantidade de marechais, generais, coronéis, etc., portugueses, quando se sabe que o nosso exército estava extremamente reduzido.
Também impressiona a quantidade de oficiais que foram atrás de D. João VI para o Brasil.
Se a corte já era mal administrada, perdulária, basta imaginar o que seriam estas largas centenas de oficiais, a grande maioria sem nada o que fazer, a não ser espavonear-se nas suas fardas cheias de enfeites, quais carnavalescos!
Para se ter uma idéia da organização das Forças Armadas em Portugal basta ver um pouco da sua composição, segundo o Almanach de Lisboa de 1814:

Estado Maior do Exércitos
Marechal General – Arthur Wellesley, Conde do Vimeiro, Marquez de Wellington e de Torres Vedras, Duque de Ciudad Rodrigo e da Victoria, Grande de Hespanha de primeira classe, Cavaleiro da mui distincta Ordem Militar do Banho, Grão Cruz e Comendador da Torre e Espada, e da Militar e Nacional de S. Fernando de Hespanha, Feld Marechal do Exército de Sua Magestade Britânica, Generalissimo dos Exércitos de Sua Majestade Católica, do Conselho do Príncipe Regente de Portugal, Marechal Real dos seus Exércitos, e Comandante em Chefe das forças aliadas na Península.

Marechal dos Exércitos - William Carr de Beresford, Marquez de Campo Maior, Conde de Trancoso.
Havia um terceiro Marechal de Exército, graduado - Marquez de Vagos... no Rio de Janeiro!

E mais:

Vinte e três Tenentes Generais, dezanove Marechais de Campo efectivos, sete Marechais de Campo graduados, oito Marechais de Campo reformados, vinte e cinco Brigadeiros efectivos, dos quais oito eram ingleses, cinco Brigadeiros graduados e quinze Brigadeiros reformados.
Além de inúmeros outros oficiais de menor patente.
Estado Maior do Marechal General Duque da Victoria
O coronel, João de Vasconcellos e Sá e mais dois ingleses, um coronel e um capitão
Estado Maior do Marechal Marquez de Campo Maior
Quartelmestre General, inglês, brig., além de cinco ajudantes às ordens, dois ingleses e três portugueses
Comando Geral da Engenharia (Todos portugueses)
Comandante Geral Mathias Dias Azedo, Ten.Gen., e mais um Marechal de Campo, três Brigadeiros, dez Coronéis, Tenentes Coronéis, Majores e mais um monte de capitães.
Inspeção Geral de Infantaria
Inspetor geral, John Hamilton, Ten.Gen.
Dos vinte e quatro Regimentos de Infantaria, dezesseis eram comandados por ingleses. Dos oito restantes, sete tinham como segundo comandante um inglês!
Mais doze Batalhões de Caçadores, dez comandados por ingleses
Depósito Geral de Recrutamento da Infantaria e Caçadores
Inspetor geral, Richard Blunt, Marechal de Campo
Cor. John Watling
Regimentos de Cavalaria
Dezesseis Regimentos, um só comandado por ingleses
Depósito Geral de Recrutamento da Cavalaria
Com. Cor. John Browe e Ten. William Leach
Marinha de Guerra
Nove Chefes de Esquadra, dos quais cinco no Rio de Janeiro, vinte seis Chefes de Divisão, vinte e um no Brasil, cinquenta e cinco Capitães de Fragata, mais quarenta e cinco no Rio de Janeiro, e um “mar” de outros oficiais.
Tudo isto além de muita outra gente colocada especificamente no Brasil.

Com toda esta parafernália, e os ingleses estavam unicamente interessados em manter Portugal como base para proteção das suas bases no Mediterrâneo, como Gibraltar, ameaçada pelas forças de Napoleão, e a prova desse desprezo pelo “pequenino aliado”, está por exemplo em permitir que as tropas francesas ao retirarem do país, vexadas, após as derrotas que sofreram, saqueassem igrejas, conventos, palácios, etc. “Essas coisas” não preocupavam o senhor Wellington. Portugal que empobrecesse...
A Universidade de Coimbra, tinha a seguinte estrutura:
O Reformador Reitor, o Bispo de Coimbra, e o Conde Arganil que vivia em Lisboa.
Mais um Cancellario, um Vice Reitor e um Secretário da Reforma que vivia também em Lisboa.
Na Faculdade de Teologia, oito lentes, mais sete substitutos e dezesseis “oppositores matriculados” *;
Na Faculdade de Canones, oito lentes e oito substitutos e quinze “oppositores matriculados”;
Faculdade de Leis, nove lentes, sete lentes substitutos e oito “oppositores”;
Faculdade de Medecina; seis lentes, quatro substitutos e seis “oppositores”, entre este os “demonstradores” de Anatomia, em Lisboa (!), e de Matéria Médica;
Faculdade de Matemática, sete lentes, três substitutos e quatro “oppositores”
Faculdade de Filosofia: cinco lentes, dois substitutos e cinco “oppositores”
Real Colégio das Artes

Professores de Filosofia e moral, Antiguidades e história, Rhetórica e Poetica, dois de Língua grega, dois de Língua latina, além dois outros sem função anotada, mais seis substitutos;

Lisboa tinha cerca de setenta médicos e quase cem cirurgiões! Negociantes “nacionais” no Rio de Janeiro eram cerca de duzentos!

Podiam indicar-se mais um imensa quantidade de números de ocupações que hoje nos parecem absurdas, porque produzir-se... produzia-se muito pouco!
Foram complicados aqueles tempos... e continuam ainda hoje! A diferença é que hoje não são as ordens religiosas e a imensidão de militares “penduras” que empobrecem o país, mas a sua substituição por uma democracia partidária, que permite a uns quantos da camarilha que esbanjem, destruam e roubem o quanto quiserem, enquanto a miséria, que é visível, cresce nesse velho torrão lusitano.
* Oppositores - Eram os candidatos ao lugar de professores. Possivelmente doutorandos, estagiários.

12/03/11















sexta-feira, 11 de março de 2011


Grandes homens - 1


Muito se fala de David Livingstone e das suas explorações em África. Sobretudo por causa do famoso encontro com o jornalista Stanley, e da inusitada frase deste ao encontrar o explorador, missionário e comerciante: “Dr. Livingstone, I presume?”
O grande sertanejo Silva Porto, nascido no Porto em 1817, e onde estudou as primeiras letras, chamou-se Antonio Francisco Ferreira da Silva. De família pobre, seu pai tinha sido condecorado com distinção, como soldado do 18° regimento de infantaria, na chamada Campanha Peninsular, e sua mãe, criada em casa duma família. Aos 12 anos, terminada a instrução primária, seu pai pergunta-lhe que profissão queria seguir e ele respondeu logo: “o comércio, mas no Brasil”, porque “desde a infância sonhava com uma linda árvore cheia de patacas”; embarca então para o Rio de Janeiro, onde foi trabalhar na rua de S. José, armazém de louça de Gregório José Teixeira. “Um dia recebi uma bofetada de um serviçal, por ter vendido uma peça de louça e ter colocado o dinheiro em cima da mesa e não na gaveta. Sebastião, que assim se chamava o meu agressor, chegando próximo e por detraz, assenta-me a bofetada, e eu voltando-me, retribuo a ofensa com outra bofetada, mas criança, ferida no meu pundonor, ponho-me a chorar. N’este entrementes entrando meu amo, e informando-se do ocorrido, ao contrário de mandar castigar o preto, passa a repreender-me do meu descuido; eu porém não o deixei acabar. Pego no chapeo, que ponho na cabeça, e incontinente ponho os pés na rua. Que havia de ocorrer? Ir queixar-me a D. Pedro II e pedir-lhe emprego!”
Não chegou a tanto, porque no meio do caminho, depois de ter passado “a rua de S. José, Largo da Carioca e Rocio, Campo de Sant’Anna ao tempo, e mais ruas da cidade, até chegar na de São Christovam,” é abordado pelo dono de uma taberna que lhe deu abrigo até encontrar novo trabalho.
Espírito irrequieto, criança ainda, na sua estadia no Rio passou por nove empregos, mas desejoso de independência, em 1835 vai para a Bahia, e em 1836 adota o sobrenome de Silva Porto, não só em homenagem à sua terra natal, mas para evitar confusões com outras pessoas que tinham o mesmo nome.
Em 1837, na sumaca(1) Novo São José, vai a caminho de Angola, onde não lhe corre bem a vida; regressa à Bahia, que encontra em plena revolução do Sabino, que paralisara todos os negócios, e no ano seguinte está de novo em Luanda, a trabalhar num pequeno estabelecimento pré falido!
Depois de dois empregos em tabernas pobres, e “na impossibilidade de continuar ao serviço de um comerciante pobre, e das idéias com que estava, influenciado com as entradas de todos os pontos do interior, e desgostoso por me fazerem sentar praça no batalhão de voluntários de Loanda”, reduziu as suas pequenas economias à compra de algumas “fazendas”(2), e ainda em 1839, “dei princípio à minha carreira de sertanejo”, que só terminaria, em tragédia, em 1890, quando se sentindo desprestigiado e desamparado pelas autoridades, pôs fim à vida, enrolado na bandeira portuguesa, fazendo explodir oito barris de pólvora.


Estátua de Silva Porto que esteve na cidade que começou sua existência com o seu nome, hoje se chama Kuito... e a estátua... sumiu! Além disso parece que Silva Porto, quando usou barba, e foi pouco tempo, teria a barba curta!

Apesar de ter só a instrução primária, escreveu, sempre, muito, e os seus apontamentos são uma magnífica fonte de conhecimento do interior de Angola.
Um dos assuntos que também muito o “ofenderam” foi a maneira como Livingstone descreve a sua caminhada por África.
Primeiro, porque se vangloria de ter descoberto “tudo” por onde os portugueses andavam já há muito, muito, tempo. Mas Livingstone percorreu África sempre com bastante dinheiro e acompanhado dum engenheiro, que lhe permitiu definir com mais precisão a região que era conhecida por pouco mais do que “a tantos dias de viagem”, sem qualquer rigor geográfico.
Além disso, pela forma como trata Silva Porto, que se prontificou a ajudá-lo em tudo quanto necessitasse, inclusive lhe arranjando guias para poder ir a Luanda.
No seu trabalho, Livingstone, diz, que quando estava em Naliele (3) os negros eram tão negros como os de Barotse, às margens do Zambeze, mas “vive entre eles grande número de mulatos, distintos pela sua cor peculiar de amarelo doente!” Mais adiante: “os mulatos, os portugueses nativos, todos sabem ler e escrever e o chefe do bando, se realmente não é português, tem o cabelo europeu!” O “chefe do bando” era Silva Porto!
Também afirma nos seus escritos, o inglês, que se vangloria de ter estado em regiões onde jamais qualquer branco tinha aparecido, o que Silva Porto refuta categoricamente, e ainda que tenha sido o primeiro branco a atravessar o continente de costa a costa.
Em 1802, o também sertanejo tenente coronel Honorato da Costa, foi encarregado de promover a travessia de Angola a Moçambique. Os angolanos Pedro João Baptista e (seu irmão?) Amaro José – há ainda algumas notícias de um terceiro acompanhante, Anastácio Francisco – saem de Luanda em 1804, e após terem ficado detidos durante quatro anos em Cazembe (4), chegam finalmente a Tete em 1811. (Estava Livingstone ainda sem ter entrado sequer na barriga de sua mãe). Em 1815 os mesmos estavam de regresso a Angola. Mas... não eram brancos. Eram angolanos portugueses.
Em 1798 Francisco José Lacerda de Almeida, nascido em S. Paulo em 1750, licenciado em Matemáticas em Coimbra, de regresso ao Brasil, trabalhou na comissão da definição de limites Sul do Brasil. Oficial da Marinha, matemático e geógrafo, feito sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa, foi por esta encarregado, em 1798, de fazer a ligação entre as duas costas, aproveitando para explorar geograficamente o continente. Saiu de Tete em 1798, mas morreu ao chegar ao Cazembe em 1802. No mesmo lugar onde poucos depois os emissários de Angola ficariam retidos por quatro anos.
Voltaremos a Silva Porto, mas por ora deixemos só o esclarecimento de que, muitos anos antes do Sr. Livingstone, já os portugueses, quer fossem brancos ou pretos, ou “mulatos com cabelo europeu” haviam detalhado conhecimento do interior de África.

(1) - Pequena embarcação americana de dois mastros
(2) - Fazendas eram chamadas todas as mercadorias que levavam para o sertão para negociar
(3) - Localidade na margem direita do Zambeze
(4) – Cazembe. Região Norte da hoje Zambia

03/03/2011




domingo, 6 de março de 2011



Mais umas “Máximas”...
 
de quem?

(O primeiro a responder, e a acertar, com o nome de quem disse, e escreveu, estas máximas...
terá direito a um prémio!!!)

Só se pode ter orgulho de uma nação, quando nela não haja uma classe que a envergonhe.

Não há princípio que, considerado objetivamente, seja tão errado como o princípio parlamentar...

O parlamentarismo é uma estufa onde se cultiva a irresponsabilidade.

Que pode fazer o estadista que só consegue pela lisonja conquistar o favor da aglomeração parlamentar para os seus planos?

Uma nação em que metade da sua população vive na miséria, trabalhada pelas maiores preocupações, ou mesmo corrompida, dá de si uma impressão tão pouco edificante, que ninguém por ela pode sentir orgulho.
 
A massa popular, nos seus profundos sentimentos, não é consciente e deliberadamente má. Devido à simplicidade do seu caracter e menos corrompida, é mais frequentemente vítima das grandes mais do que das pequenas mentiras. Em pequenas coisas elas também mentem, mas das grandes têm vergonha.
 
O maior perigo que pode ameaçar um movimento é o exagero no número de adeptos adquiridos em conseqüência do êxito fácil.
 
É prejudialissimo erro julgar que a grande massa é tola: é-o menos do que parece.
 
O efeito imediato de uma guerra é o devorar os melhores entre os melhores.
 
A idéia de poder dividir para sempre o mundo em Estados com direitos desiguais, será sempre aceita apenas por uma das partes.

Os armamentos são uma ameaça para a paz, e então são-no em todos os Estados; ou não constituem ameaça de guerra, e, nesse caso, não o são em nenhum Estado. O que não é admissível é que um grupo de Estados apresente os seus armamentos com um pacífico ramo de oliveira e ou outros como a forquilha do diabo.
 
Os direitos humanos estão acima dos direitos do Estado.
 
A autoridade do Estado não se apóia no palavrório dos parlamentares, nas leis de proteção ou nas sentenças judiciais destinadas a amedrontar os covardes e mentirosos, mas na confiança geral que a direção política e administrativa de um país deve inspirar.
 
A economia não pode prosperar se não se encontrar uma síntese entre liberdade do espírito criador e a obrigação da coletividade nacional.
 
A economia dirigida é um empreendimento perigoso. Facilmente provoca a burocratização e com ela o estrangulamento da iniciativa individual, ternamente criadora.

No domínio da vida econômica há uma lei que determinará todos os atos: O povo não vive para a economia e a economia não existe para o capital. O capital serve a economia e esta o povo.

Foi possível que o dinheiro se tornasse o poder dominante na vida de hoje, mas um dia virá em que os homens venerarão outros valores bem mais elevados.
O sindicato, só por si, não é um elemento de luta de classes. O marxismo é que fez dela o seu instrumento.
 
Não há doutrina que se possa impor como doutrina de destruição, pois tudo tem que servir a vida.
 
Toda a força que não provém duma firme base espiritual torna-se indecisa e vaga. Faltar-lhe-á certa estabilidade que só repousará no fanatismo.
 
O mundo não foi feito para os covardes.
 
A humanidade tornou-se grande na luta eterna; na eternidade ela perecerá.
 
Não se deve estudar história somente para saber o que aconteceu, mas para que ela possa orientar o futuro das nações.
 
A escola deve reservar mais tempo para os exercícios físicos. A função dos esportes não é somente tornar os indivíduos ágeis e destemidos, mas ainda de prepará-los para suportarem todas as reações.
 
A fé, auxiliando o homem a elevar-se acima do nível da vida vulgar, contribui verdadeiramente para a firmeza e segurança da sua existência.
 
Para o chefe político, as idéias e as instituições religiosas do seu povo, devem permanecer sempre invioláveis.
 
Em todas as épocas houve indivíduos sem consciência que não tiveram pejo de fazer da religião um instrumento dos seus interesses políticos.
 
É fácil iludir os homens, não é possível subornar o Céu.
 
O mais alto resultado obtido pela comunidade humana, ao contrário do que pensam em particular os economistas, não é o que se chama a economia, mas a cultura.
 
O nosso ideal de beleza deverá ser sempre a saúde.
 
Nenhum povo sobrevive se não subsistirem as obras que testemunham a sua cultura.

Rio, 20/02/2011

terça-feira, 1 de março de 2011


A crise da crise !

A Anti-Crise


Em Setembro de 2008 escrevi:
Crise é como mosca, mosquito e jacaré: existem há centenas de milhões de anos e não se antevê que acabem. Nem os jacarés, tão perseguidos por causa da sua pele.
Diz a Bíblia que houve uma “crise” quando se construía a Torre de Babel, e assim a construção foi interrompida; houve graves crises nos vários impérios que se esfumaram na história – sassânida, egípcio, persa, romano, inglês e até o pseudo português – e agora chegou a crise que demorou a manifestar-se: a da ganância e da roubalheira!
Mal fazia idéia do agravamento que iria ter esta pseudo crise. Pseudo porque assistiu-se aos governos de todo o mundo a sustentar os bancos com milhões ou trilhões, e nem seis meses eram passados e já todos eles tinham lucro suficiente para pagar a “ajuda” que receberam. Até a General Motors, agonizando, pré falida, no ano seguinte tem o maior lucro de toda a sua história.
A França luta com um crescente desemprego, a que não sabe como dar fim, mas no último mês, diminuiu o número de “demandeurs d’emploi”, dos que estão inscritos aguardando um posto de trabalho. Como isto aconteceu? Onde está a crescer o mercado? Nos bancos, corretores de bolsa, empresas de produtos de alto luxo, como a de relógios que se vendem entre dez e cem mil euros, nas “grifes” de roupas extravagantes e caríssimas, perfumaria sofisticada, etc.
Nunca se venderam tantos carros de luxo, relógios de ouro com diamantes e tantos aviões para particulares. Até a Rolls Royce decidiu fazer um modelo exclusivo para venda na China!
Nunca, jamais, em tão pouco tempo surgiram do nada, como fungos e cogumelos (não comestíveis, venenosos) tantos milionários, biliardários! E a pobreza cresce no mundo.
Mas que diabo de contra senso! Alguma coisa está profundamente errada em tudo isto, o que nos leva a imaginar que o “efeito Tunísia” não vai ficar pelos países árabes, mas espalhar-se por todo o mundo!
Os órgãos de informação andam excitadíssimos com o, em breve, casamento do príncipe William e a mulher com quem já vive maritalmente há vários anos. Logo ele que vai ser o chefe da Igreja Anglicana! Prepara-se uma festa “a la royale” para uns 2.000 convidados! Revistas de fofoca estão loucas para serem as primeiras a darem essa importantíssima reportagem ao mundo, a BBC vai ganhar uma fortuna, e os noivos, aliás, os amancebados, receberão uma grossa parte de toda essa encenação teatralizada, que vai fazer vibrar os peitos de milhões de babacas de ambos os sexos por esse mundo de “republicanos”!
É difícil imaginar o quanto vai custar ao tal príncipe regularizar, perante a lei e a igreja, a sua situação de concubinato conhecido e aplaudido. Os dois milhares de convidados “especiais” vão, além de aplaudir, também gastar fortunas em presentes, vestidos novos, exibição de jóias, hospedagem e deslocações até ao local da boda, etc.
E à nossa volta, milhões, milhões, mesmo de súbditos dessa majestade, passam mal. Pior ainda os pseudo súbditos da Commomwealth, como alguns países africanos, que a única migalha que vão receber desse fausto, será a fotografia do casal, cheio de medalhadas, tiaras, brilhantes, e outros adornos, e ainda terão de pagar esse papel com os noivos a rir da miséria.
Lembra-me aquela maravilhosa canção com Bing Crosby e Louis Armstrong: “What’s the reason for the celebration?”... Mais ainda porque o “hoje” não tem nada a ver com aquele “What a wonderful world”!!!
No Brasil 38% dos jovens na faixa dos vinte anos não conseguem trabalho. O índice de criminalidade entre esses jovens é o mais alto do mundo.
E as empresas públicas e os bancos têm lucros recorde na sua história. Em toda a história. Nem os Rothschild quando eram praticamente os únicos a explorar, violentamente, como todos os banqueiros, o “grande império” britânico.
Não é o Ben Ali, nem Mubarak ou o louco do Gadafi que estão errados. É o mundo todo que está de cabeça para baixo, e como os Três Macacos Sábios, ninguém quer saber do Outro. Nem do planeta em que vivemos, que está doente, doentíssimo.
O mundo árabe está à procura do seu futuro. Luta, mostra que as “coisas” não se podem eternizar só para benefício de uns quantos e... os especuladores de petróleo aproveitam para fazer subir os preços em flecha.
A Líbia produz somente 1 a 2% do petróleo mundial; reduziu a produção para menos de 50%; a Arábia Saudita já disse que aumenta a sua caso seja necessário e os preços não pararem de subir!
E não há ninguém que vá em cima desses especuladores e os meta na cadeia, como ao sr. Madoff. Porque a corrupção é assim mesmo: uma mão lava a outra! Como na política.
Não tarda a que o fenômeno “Tunísia” atravesse o Mediterrâneo e outros mares. A “Alternativa” de que falamos em texto anterior, só pode acontecer quando a população se dê conta da força que tem... quando culta e unida!
Não é pelo voto que se lá chega. Por enquanto. Porque a verdadeira crise está na falta de Homens (ou Mulheres!).
Lembrai-vos de S.Paulo na Iª aos Coríntios: “Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões; antes sejais unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer.”

25/02/2011

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