quarta-feira, 10 de novembro de 2010


Crónicas ou Crônicas

Portucalenses

- 5ª e última -

(desanimado e saudoso!)

...

Tinha reservado esta última crônica para falar da família, dos amigos, daqueles que, enfim, nos levaram a Portugal.
Mas ao ler, todos os dias, o jornal da manhã, e ver as barbaridades que se cometem neste lindo Brasil, um frenesi me percorre, e o desabafo, somente nestas linhas, é mais forte, quase, do que as saudades!
Há dois dias o jornal dizia que o chefe do MST, o tal movimento de bandoleiros pagos com dinheiro do governo que invadem e arrasam fazendas, matam gado de concurso que vale fortunas, destroem a floresta porque “precisam” de plantar alimentos, destroem também equipamento agrícola e laboratórios de pesquisa florestal porque não gera batatas ou couves, tudo isto com o beneplácito e dinheiro do governo, vai ser condecorado com a Medalha de Mérito Legislativo!
Isto nem absurdo é. Não tem qualificação esta atitude covarde dum governo com medo e sócio desta gente, a quem paga para obter votos, e ainda os condecora! Meus Deus!
E ontem, a madama dona primeira futura presidenta, ao tomar conhecimento de que, segundo a ONU, o Brasil em termos de educação está igual ao Zimbabwe, o país africano com o pior IDH (Indíce de Desenvolvimento Humano) do mundo, também teve o desplante - ou a ignorância? – de dizer que a educação não é das suas prioridades, pois “já está muito bem encaminhada”!

Pobre país, tão rico e tão pobre de inteligência e seriedade. A riqueza é para ser roubada e a ignorância para votar na ignorância!

Voltemos a Portugal.

Rever os irmãos e os amigos, alguns com 90 anos e de ótima saúde, outros menos bem, muitos com oitenta e bastante, a maioria rondando as oito décadas, estar com companheiros da escola primária com quem mantivemos toda a vida uma profunda amizade, onde a conversa parece não acabar num almoço que demora mais de seis horas, lembrando professores bons e aquela horrível “menina de sete olhos” com que todos fomos “acariciados”, um nunca mais acabar de recordar, até sermos corridos do restaurante, é uma benção.
Um colega de estudos fez, de carro, mais de mil quilômetros para nos vermos, e procurarmos saber daqueles que ainda estão vivos dos que terminaram o curso conosco, e são já menos de um terço! Outro foi de Madrid para lembrar os tempos de sempre, desde talvez 1936, de Angola e até lá de Madrid, onde assisti à última corrida de touros em 1977! Para encontrar um outro fui eu que fiz mais de quinhentos quilometros, fora as inúmeras voltas dadas em Lisboa e arredores para não deixar de ver um só deles.
Mas, às duas por três, as forças começaram a fraquejar e não pude cumprir com o que tanto desejava; alguns tiveram que ficar para a próxima vez, se... essa próxima vier a acontecer!
Estar com os irmãos e os primos irmãos de ambos os lados da família é sempre uma experiência única! Contam-se histórias dos pais e tios, algumas que nos fazem chorar a rir, maluqueiras da mocidade, rirmos também, em vez de chorar, com as histórias daqueles que já se foram, nos deixaram a alma menor, mas não saem dos nossos corações. Recordar os momentos alegres da vida faz-nos rejuvenescer.
Encontrar a amiga e vizinha de infância na rua das Trinas, que mais tarde foi também nossa vizinha em Luanda e ainda se lembra do cor do suporte, verde, da nossa máquina de café, quando esta, há meio século, circulava lá no bairro;
Oh! Ana: olhe a máquina de café, com o suporte verde... e que deve ter quase 60 anos !!!


descobrir que o famoso Alberto Gomes, que nos ofereceu a tal caldeirada espetacular,

Olha só o aspeto... e o cheirinho !


As recordações de Angola dum homem de 90 anos!

e que depois dos oitenta anos virou pintor sem que ninguém o ensinasse, um “naif” encantador; ter a oportunidade de estar presente nas Bodas de Ouro de outros amigos, onde encontrámos as famílias dos dois lados dos noivos, alguns que não víamos há décadas, e imensos convidados também velhos amigos; reunirmo-nos com a “velha” família de Angola, quando todos éramos uns meninos de pouco mais de trinta anos, e ver agora os filhos destes, como os nossos, cheios de netos e até bisnetos; ver aparecer uma “garota” ou um “garotão” de quarenta ou cincoenta, cabelo a esbranquiçar, perguntar-nos: “o tio sabe quem eu sou?”, e de repente lembrá-los meninos de meia dúzia de anos a brincar com os nossos filhos, sentir no abraço de cada um uma saudade e uma amizade que os anos só continuam a fortalecer, e não conseguir, nem querer impedir, que os olhos de vez em quando se encham de água.
Tudo isto faz com que o retorno a casa se torne um misto de alegria e tristeza!
Mas como “a casa da saudade se chama memória”, e o coração,  esperamos que ambos durem ainda muito tempo.
8-nov-10




quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Crónicas ou Crônicas

Portucalenses

- 3 -

(a correr !)

...



As primeiras semanas da estadia em Portugal ficamos hospedados em casa de uma irmã, no “mato” de Vila Franca de Xira, vinte e poucos quilômetros a Norte de Lisboa, ali, bem ao lado das lezírias dos campinos. A caminho de sua casa encontramos uma curiosa fonte, com duas lápides antigas. Uma, com letra mais bem traçada diz: “Feita à custa da Confraria por ordem de Iheronimo P Henriques, sendo juiz em 1658”, (seria um padre hieronimita chamado Henriques?) e a outra, mais modesta “Foi cosertada a custa da confraria... em 1638”! Ficamos sem saber quando foi feita, já que foi “cosertada” em 1638, o que pouco interessa, mas é uma pequena obra, modesta e de traça elegante, do século XVII ou anterior!
Fonte de Santa Sofia

De Vila Franca vai-se muito bem no trem – combóio – para Lisboa, saindo-se de uma estação bonita, bem cuidada, de construção típica dos anos 30 a 40 do éculo XX.
Estação de Vila Franca de Xira

Em vinte minutos desembarca na capital sem se preocupar com o infernal trânsito, ou pior ainda encontrar lugar para estacionar o carro. De modo que o sistema mais prático para se andar em Lisboa é nos transportes públicos. Melhor e mais econômico, desde os clássicos carros elétricos ao Metro e taxis, estes quase todos Mercedes, o que no Brasil é um luxo de ricos!
Por fim um hotel, em Lisboa. Muito central, na Rua Castilho, com uma vista lindíssima para parte da cidade, bem em frente do Parque Eduardo VII.

Amplie para ver melhor: 1.- O Pavilhão dos Desportos; 2.-  A Penha de França; 3.-Castelo de São Jorge; 4.- Sé; 5.- Um pouco abaixo a Estpatua do Marquês de Pombal 

 Foi só atravessar a rua e entrar na Estufa Fria, um dos ex-libris que vale a pena visitar em Lisboa. Aliás tentar entrar! Está em obras; toda a estrutura da cobertura ameaçava ruir e está a ser refeita. É obra grande, mas que vale muito a pena.

O interior da Estufa Fria


Depois de muita insistência junto ao guarda e a seguir ao encarregado da obra, este não podia autorizar a entrada. Tive que aguardar a chegada da engenheira responsável pela obra, que depois dum pequeno “chorinho” da minha parte lá permitiu uma visita rápida acompanhado do encarregado. Valeu a pena. É um lugar que os próprios lisboetas deviam procurar mais. E os turistas, sempre. Respira-se paz ali dentro.
No nosso rápido passeio fui dizendo ao encarregado que ele devia, para a história, deixar o seu nome gravado num dos novos pilares. Que assim se fazia antigamente, o que permite aos estudiosos melhor apreciarem a obra e definirem a sua época com mais exatidão. Ficou espantado com esta observação. E foi-me dizendo que já tinha feito obras mais importantes, como, a restauração da Igreja no Castelo da Alcácer do Sal e da sua Pousada Dom Afonso II. Linda.

O Castelo de Alcácer so Sal e a Pousada D. Afonso II

Como é evidente não deixou marca sua, mas foi contando que durante os trabalhos foram encontrados, sobretudo na cripta da Igreja, inúmeros objetos, desde ossadas a espadas, cerâmicas, pontas de flechas, etc, e – agora não vou acrescentar uma só vírgula – “uma placa de chumbo de uns 40 cm por 25cm com uma inscrição que os primeiros arqueólogos não conseguiram identificar. Enviada para a Universidade de Coimbra, terão identificado como sendo da época de Cleópatra!”
E o que dizia a placa? “Fazia referência a uma mulher, que tinha morrido e possivelmente ali enterrada, e o marido como prova de amor cortara com a espada os seus genitais!”
Devia ser linda a tal mulher e tamanha prova de amor jamais ouvi que se tivesse passado! Mas que é bonito, é... para os outros!
Se é verdade ou não, esta é a versão que o encarregado da obra me contou. Alguém, agora, aí em Portugal, que vá tentar descobrir a tal placa que estará na Cripta Arqueológica do Museu do Castelo. E depois me mande dizer o que efetivamente está escrito na placa e em que língua, que por ser da Cleópatra (?!) será em grego clássico!
Mesmo que não seja só para confirmar a veracidade desta história, qualquer visita ao Castelo de Alcácer do Sal e à sua Pousada, serão certamente educativas e gratificantes.

Que tal umas férias, aqui, com a Cleopatra?

Aliás qualquer Museu sempre vale a pena ser visitado.
Foi o que aconteceu em Lisboa, à saída da Estação de Santa Apolónia, onde, mesmo em frente está o Museu do Exército. Interessante, merecia mais tempo do que dispúnhamos naquela ocasião, mas foi suficiente para ali descobrir, entre muita coisa interessante, o retrato dum grande general, antepassado do nosso amigo Alberto, não o do Algarve mas o do Rio de Janeiro, mais a súmula dos seus feitos!
Fotografados estes dois itens, após o nosso regresso entregues ao descendente, este considerou um dos melhores presentes que sempre recebeu!

Olha o General Silveira, meio de lado para evitar o reflexo do vidro!

Coisas simples são as que têm valor.

(na próxima continuação, uma apreciação sócio econômica... que me perdoem os técnicos! E por fim... um abraço aos amigos.)


03/11/10






.
Crónicas ou Crônicas

Portucalenses

- 4 -

(a chorar !)

...

Visitar Portugal e alhear-se dos problemas que o país está atravessando, parece-me cômodo e distante demais.
De economia, segundo já por diversas vezes afirmei, só sei que ou se gasta menos do que se ganha, ou... a vaca vai pró brejo!
Apesar de Portugal estar hoje metido no meio do “barulho” da EU, não é possível esquecer a situação em que se encontrava em 1926/1928, e como foi fácil reverter o problema. Pode-se não gostar do Salazar. Cada um come do que gosta, mas não lhe reconhecer o mérito de ter, em poucos meses, endireitado as finanças do país que fizeram do Escudo uma moeda forte durante quarenta anos, é ser-se cego, surdo ou estúpido.
Desde há mais de trinta anos que o país vem gastando o que tem e não tem, recorrendo para isso a créditos internacionais. E a conta chegou agora para ser paga!
O que parece infame no meio de tudo isto é ir-se ao bolso do aposentado, que se já vivia num aperto vai ficar num só desespero na sua velhice, mantendo aposentadorias e salários milionários para os camaradas do partido. Isso é mais do que infame.
Há dias mais um banco, o BPN entrou no buraco que ele próprio abriu. Parece que prenderam os administradores. E o Estado teve que entrar com uns muitos milhões para não prejudicar totalmente os pequenos clientes. Mas porque deixaram chegar a esse ponto? Compadrio! Para que serve o Banco de Portugal?
Não há muito tempo para um outro banco foi nomeado presidente um homem “da cor política”, reconhecidamente sem experiência bancária... nem outra! Algum tempo depois indagado por um colega dos tempos de estudante o que tinha ido fazer para o banco, respondeu, com todo o desplante, que a sua missão era basicamente “lixar” a vida do outro presidente que era da “cor” contrária!
Com este tipo de visão administrativa, e não só, o país tem que cair na bancarrota!
Em Inglaterra o governo vai dispensar meio milhão de funcionários. E em Portugal? E os salários escandalosos, mais as mordomias de carro, motorista, etc., etc., de tantos amigalhaços? E para quê 230 deputados? Não chegariam 100, ou menos?
Em 1943, África do Sul, fase aguda da II Guerra Mundial, apartheid “indiscutível” e pesado, o governo branco aumentou o preço do transporte de um dos bairros “só para africanos” para a cidade de Johannesburg, de quatro para cinco pence. O povo reagiu. Não andou mais de bus, durante nove dias, até que os preço regrediram para o valor anterior! Esmagados pelo apartheid, mas eram gente valente.
Uns vinte anos antes disto, um jovem, pertencente à família real do sudeste da África do Sul, assistia às assembléias convocadas pelo rei. Vinham os chefes e membros da família de todos os lados, e gente simples do povo. A todos era dada a palavra para exporem os seus problemas. E todos eram ouvidos com o mesmo respeito. Por fim ou se chegava a um consenso ou nova assembléia era convocada. Era a verdadeira democracia, onde ainda não tinha chegado a desgraça a que hoje se assiste com a “maioria” a esmagar a “minoria”, nem esta a tropedear as propostas daquela. E quererem continuar a chamar a isto democracia! Hoje não há consenso; há ganância desmedida, e se isso se verifica em Portugal, o exemplo maior parece vir dos Estados Unidos. Mexeu-se nos lucros dos grandões e estes querem acabar com o Presidente!
Aquele jovem africano, um pouco mais tarde, quando o quiseram envolver na política, viu claramente, com a experiencia já adquirida, que “os políticos nada mais eram do que uns vigaristas (racket) para roubar dinheiro do povo”!
Esse jovem foi depois uma das maiores figuras do século XX, Nelson Mandela.
Os tempos não mudam os homens. Parece que só pioram.
Vejam o que se passa no Brasil. As “pesquisas” de opinião davam ao lula 80% de aprovação, mas as urnas só lhe deram 56%! A máquina do PT foi eficiente. Mentiu, mentiu, mentiu, durante oito anos, até nas perspectivas de produção de petróleo chegando a inflacionar em mais de 300% os cálculos dos técnicos para dar melhor cara ao “cara” em vésperas de eleição. Com tudo isto conseguiu eleger alguém que lhe tome conta do lugar por quatro anos e ele voltar em “toda a sua glória e esplendor” em 2014.
Mas a “democracia” deste país é diferente: a oposição compra-se. Barato. Os maiores adversários de há dez ou vinte anos, hoje beijam-se (até na boca e chamam-se de Tarzans). O PT enquanto oposição conseguiu vetar uma série de leis, que depois aprovou com a sua “maioria” guardando-lhe os louros. Entretanto o povo... chamou-lhe de “pai”!
Tudo na política é um absurdo. Uma ladroagem. Aqui, em Portugal e em todo o lado.
Mas... eu que, para não morrer tão cedo (?!) tomo 9 a 10 comprimidos por dia, comprei, aqui no Brasil, a necessária quantidade para 30 dias, que me custou cerca de R$ 270,00, o equivalente a € 112,50. Repeti essa compra em Portugal e paguei € 18!
Pode-se com um absurdo destes?
E mais: o Brasil está a produzir apreciável quantidade de vinho. Bem mais do que em Portugal. Enquanto aqui uma garrafa – de vinho de uva vinifera européia – custa, barato, uns R$ 12 a 14 – igual a €5 ou 6 ! – em Portugal um BOM vinho corrente custa menos da metade disto!
E no fim o Brasil cresce, cresce e continuará a crescer, e Portugal a encolher.
Será porque “os pássaros dessa terra não gorgeiam com cá”, como em sentido inverso cantou o grande poeta brasileiro Gonçalves Dias enquanto estudante em Coimbra, saudoso do seu Brasil?

 
4 nov. 10

sábado, 30 de outubro de 2010

.
Crónicas ou Crônicas
.  
Portucalenses

- 2 -

(ao correr da pena)

 
Se Portugal vale a pena, um passeio pelo Alentejo é sempre algo maior! Aquelas planuras imensas com uma luz andaluza, os sobreiros com as suas copas abertas lembrando as acácias das savanas de África e, como símbolo da vitalidade de um país antigo (aliás o mais antigo do mundo com suas fronteiras definidas!), os milhares de hectares com novas plantações de oliveiras e até, para meu grande espanto, plantações de sobreiros que os proprietários sabem, primeiro da sua dificuldade em “pegar” e depois que só vão tirar rendimento destas maravilhosas árvores ao fim de 30 anos!

E como se come bem no Alentejo!... Beber, tem muita escolha dos vinhos regionais alentejanos, de que é difícil eleger o melhor. Podem bebê-los todos que são sempre bons.

E também se roda bem nas ótimas estradas que o retalham de vila em vila!

A brancura das suas casas, a lhaneza das gentes, uma anedota dos próprios sobre si mesmos, um castelo aqui e uma fortaleza do tempo dos árabes, além.

Além da sua beleza, o Alentejo é uma terapia para a alma! A quietude, ou espaço que chama à elevação, à meditação, ao sossego.

E o Algarve? O Al Garb, o velho Ocidente de toda a Península Ibérica, assim chamado pelos árabes.
Não há que o comparar ao Alentejo. Cada região sua beleza. O Algarve, atração turística por excelência em toda a Europa, com as suas praias lindas, um clima ameno praticamente todo o ano, mais de uma dezena de campos de golfe, montes de hotéis, cassino, prédios, sobretudo de veranistas, que saem do chão a toda a hora, o que mais falta para ser um lugar de eleição?
Voltemos à gastronomia, e aqui é o mar que impera.
No entanto não foram todas estas maravilhas que me levaram ao Algarve, mas sim encontrar e abraçar o meu amigo Alberto Gomes, “O Alberto” de quem já falei neste blog, e não via há mais de 47 anos! Recebeu-nos principescamente com uma caldeirada à moda da Baía das Pipas, uma verdadeira obra de arte culinária, mas sobretudo com seu enorme coração, sempre forte e rijo, com imenso calor humano e uma simplicidade que continua a captar a admiração e a amizade de quem o conhece.
O peixe para a caldeirada teve que o ir buscar a Olhão porque na Quateira o peixe parece ser pequenino e inapropriado!

E o vinho, além e de umas garrafinhas da vizinha Adega Cooperativa de Lagoa mais duas dum novo Alvarinho “Reguengo de Melgaço”, todas para serem bebidas de pé... mas apesar destas excelências, a caldeirada sobrepujou ou vinicultores!

Alberto ainda é um homem rijo e forte, em vésperas de completar 91 anos! Uma memória que envergonha qualquer elefante, e sempre uma história divertida para contar.

Descendente de pescadores algarvios pelo pai e neto dum chefe Mucubal pela mãe, foi um dia assistir a um casamento desta sua gente. Boi não se mata habitualmente; só em cerimônias especiais, como funeral ou casamento, e nesse dia o melhor boi, gordo e grande, foi o escolhido para abate. Vários homens correram, mas o bicho era forte e correndo, a todos ia sacudindo, não se deixando apanhar. Devia calcular a sorte que o esperava! No meio da confusão o nosso amigo Alberto esperava impassível o desenrolar do acontecimento, quando o boi corre em direção a ele. Alberto só tem tempo de o agarrar pelos chifres e, com toda a sua força, não largava o bicho! Este, deseperado sacode-se violentamente e consegue fugir. Mas os dois chifres ficaram na mão do Alberto!

O grande Alberto Gomes e toda a sua juventude de 90 anos

Podem achar que é balela dele. É preciso conhecê-lo, além da fama de no seu tempo ser talvez o homem mais forte da região de Moçamedes, hoje Namibe, para se ter a certeza de que isto foi verdade!

Foi uma grande jornada de muita amizade e recordações de um bonito passado que só volta nestes encontros.

31-out-10

(continua)

















quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Do Brasil por Francisco G. de Amorim

.
Crónicas ou Crônicas Portucalenses - 1 -


(ao correr da pena!)





Visitar Portugal, aliás irmãos e amigos, que são os que lá nos levam, é algo que, à medida que os anos nos vão pesando nos ombros (e no resto...) se torna uma emoção só!
Todos, ou quase, a ficarem como eu, velhotinhos, mas onde a amizade e a saudade parecem que vão crescendo com o tempo e a longa distância física que nos separa.
Se é uma benção encontrar tantos amigos, é uma tortura a impossibilidade de arranjar tempo para ver todos, abraçar todos, e ter com todos palavras que quebrem a emoção, recordem o bom tempo que passámos juntos, e mitiguem assim um pouco dessa saudade que logo a seguir cresce ainda mais!
De qualquer modo visitar e passear por Portugal no Outono, é uma beleza. Tempo lindo, temperatura agradável, muita e magnífica fruta, do vinho nem se fala, e de gastronomia não me venham com sofisticações, “maitres” franceses, etc., porque em qualquer tasquinha daquele país se come maravilhosamente. E barato.
São as sardinhas assadas, o cozido à portuguesa, a feijoada de feijão branco com farinheira, as ameijoas à Bulhão Pato e o peixe, e o bacalhau! Ah! O bacalhau, sobretudo o do meu amigo Pereira, do Restaurante Laurentina, em Lisboa, o melhor bacalhau do mundo... e arredores! E os chouriços, paios, paiolas e presuntos, de porco preto ou branco, as alheiras e farinheiras, os queijos frescos e curados de Serpa e Évora, os cremosos de Azeitão e o glorioso queijo da Serra! Sem esquecer os pasteis de nata!
Não há como alguém se livrar de regressar a casa com uns quilitos a mais na barriga e uma imensa saudade. Inclusive por não ter conseguido oportunidade de ir beber umas ginginhas na velha “Tendinha”, no Rossio!
Vontade de voltar há sempre. O que é difícil é a viagem não ser de borla, além da imensa canseira que são as horas de espera nos aeroportos e as nove horas e meia de vôo. Pior ainda quando ao Rio de Janeiro chegam vários aviões ao mesmo tempo, formando imensas filas para o controle da Polícia que demora, demora, demora..., e depois as malas que para saírem demoram, demoram, demoram... Amontoam-se os passageiros, só há duas esteiras para retirar as bagagens, e quer o Rio sediar as Olimpíadas!
Desta vez SÓ ficámos no aeroporto, depois do avião pousar, mais de duas horas! Se os pés já chegam inchados como barriga de elefante, este final é dramático.
Voltemos a Portugal. Estradas de primeira qualidade por todo o país, as ruas das cidades sem buraqueira, muita automação, um cada vez maior respeito pelo pedestre que atravessas as ruas, enfim um país integrado, mesmo com dificuldades, no chamado primeiro mundo.
Problemas, uma vez mais nos aguardam na “volta a casa”: o tal respeito pelos pedestres... cada um que atravesse a rua onde quiser e correndinho que o automobilista está com pressa! E depois a triste sensação de encontrar o carro que deixámos na garagem em bom estado, afinal está com a suspensão toda estragada! Mas como é possível se o carro não andou durante a ausência do dono? Mistério! Chama-se o mecânico que confirma que está tudo em ordem! Mas logo vem à memória o que havíamos esquecido: as ruas da cidade!!! Uma buraqueira de fazer trincar os dentes! Sobretudo nos bairros menos “nobres” da cidade, onde vive a maioria da população que, mesmo com dificuldade, paga os seus impostos!
Agora os fados? Paixão da minha mocidade, parece estar crescendo em força. Que bom. Lá estão as herdeiras da Amália, da Lucília do Carmo, do Marceneiro, e tantos outros, e os exímios guitarristas “chorando” o fado menor! Ouvir um fadinho bem cantado, enquanto se saboreiam algumas “tapas” e uns copos do bom vinho... sempre nos faz rejuvenescer!
No Tejo já não se vêm as fragatas usadas sobretudo no transporte de cargas. Barcos lindos, cheios de tipicidade, de que só se encontram hoje raros exemplares. É pena, mas a evolução não tem coração.
Mas ficaram os carros elétricos, cheios de turistas de todas as nacionalidades, o elevador de Santa Justa onde estes fazem longas filas para não perder o espetáculo de ver a Baixa pelo alto, e, sobretudo e infelizmente, a passividade do povo português face à grave crise que está e vai atravessar!
Deu vivas ao Salazar, depois ao “glorioso vintecincobarraquatro” que arruinou as finanças do país, sorriu e aplaudiu o Cavaco e os montes de dinheiro que veio da CEE, deixou que os governos gastassem “à tripa forra”, com salários milionários aos comparsas dos partidos políticos, e agora que a crise subiu à tona, xingam os governantes e os políticos, mas cada um tranquilamente sentado no seu habitual canto do café, misturando a “desgraça do aperto de cinto” que aí vem, com os resultados do Benfica ou do Porto!
Mas tudo isto acaba por ser folclore! Vejam-se os hotéis cheios, turistas do mundo inteiro, um povo sisudo mas cortês, um sol maravilhoso e um bom petisco em cada esquina!
Portugal vale a pena!

28-out-10



(continua)

sábado, 25 de setembro de 2010

.
O Big Bang e a Vida Eterna !

Filosofia descontraída!



Lembro os tempos da meninice. Da instrução primária. Já não usávamos fraldas- há bons anos, aliás – mas éramos tratados como seres quase irracionais. E o nosso grande objetivo era estar no secundário, ser um rapagão, jogar o futebol a sério; mais tarde, a vontade de usar calça comprida – à homem – e logo o desejo de ver as aulas terminarem, chegarem as férias, começar a deitar o olho às “gatinhas”, e não tardou a que, de repente, o bom tempo de estudante tivesse ido embora!
A seguir, casar. Como? O rendimento do primeiro emprego não dava para quase nada. Apesar disso não tardou a chegar a possibilidade de criar nova família. E vieram os filhos, os problemas, as brigas profissionais, a mudança de casa e de continente, a luta para sobreviver, apareceram os netos para nos trazer um ar de frescura e muita saudade, e nisto, num repente, se foi quase a vida toda. Já pouca sobra.
Entretanto, por muito que não queiramos, o pós-morte, dá que pensar. Medo, não, porque toda a gente sabe que isso é o mais certo que temos, mas o desejo de não se afastar “já”, ficar “só por mais alguns anos”, para não desamparar aqueles que ainda precisam de nós. Nada mais.
No dia em que o último suspiro for dado, quando se separa o corpo, já inútil, da alma, ou espírito, como será a “vida eterna”?
E aqui começa o pensamento às voltas, não à procura duma resposta, mas dum mínimo de entendimento.
Se a alma ou espírito, entram na vida eterna, começamos por uma contradição evidente: se essa vida é eterna, não teve nem terá fim, nem princípio, porque o que é eterno e infinito não tem limitação! E se não tem princípio, como é que a alma, só agora entra nessa vida? Não pode “pegar o bonde andando”!
De duas uma: ou essa conversa de vida eterna é “uma furada”, ou o que parece mais lógico, se bem que em aspetos metafísicos nada tenha muita lógica, a alma já existe desde sempre, e somente renova de “embalagem”.
O grande cientista Stephen Hawking, uma invulgar mente, sempre se considerou agnóstico, mas durante muito tempo
"reconhecia que as leis da vida podem ter sido criadas por Deus, mas que Deus não intervém para quebrar essas leis". Lógico. Se foi Deus quem criou as leis, e a tal Bíblia diz que depois de criar o mundo Ele viu que “tudo estava bem feito”, e descansou, porque quebrá-las?
Mas agora o mesmo cientista vem dizer que "Deus pode não ter criado o Universo porque o Big Bang foi uma inevitável consequência das leis da física".
O problema, que me desculpe o professor Hawking, é saber então quem criou o Big Bang ou essa física e mais suas leis?
E tudo volta ao princípio!
Diz ainda Hawking, “porque existe uma lei como a gravidade, o universo pode e vai criar-se a partir do nada. Criação espontânea é a razão pela qual existe algo melhor do que nada, e o universo existe porque nós existimos. Não é necessário invocar a Deus para iluminar o papel de definir como o universo vai".
Em outras palavras: "o Big Bang não era fortuito. Era simplesmente inevitável".”
Confuso. Os cientistas bem querem provar que Deus não teve nada a ver com nada. Mas Alguém teve a ver com os elementos – por exemplo, a gravidade, as tais leis da física – para que do hipotético Nada, tivesse surgido Tudo!
Dizem que o Bing Bang terá ocorrido há uns treze ou quinze bilhões de anos. Tanto faz. Mas porque explodiu? Porque terá concentrado todo o universo numa força gravitacional incomensurável, e voltou uma vez mais a explodir. Este Bing Bang de que se fala foi o primeiro? Ou antes dele houve “n” outros?
Voltemos à nossa alma, e começamos a nos deparar com o pensamento hinduísta da reencarnação, o cristão com a ressurreição dos mortos, e outros de religiões da antiguidade.
Parece que no fundo é tudo igual, só que a interpretação tem ligeiras divergências. Quase podemos concluir que a nossa alma, o nosso espírito, o que nos dá o “sophos”, vem desde sempre e será para sempre.
Dizem os cristãos que os “bons” vão para o céu, os hindus que um indivíduo que se comportou santamente vai finalmente incorporar-se em Deus ficando parte integrante d’Este, e assim para todo o sempre, sem mais necessidade de voltar à terra!
Também se diz na cerimônia cristã que o finado “descanse em paz eternamente”!
A Via Lactea e seus Buracos Negros"...

 
Quem sabe se no momento do último suspiro a minha alma não entra logo noutro ser, noutra “embalagem” para, de castigo, ficar vagando pela terra até... Se possível, meu Deus, que não volte para um político, um corrupto. Se for puder escolher, antes um burro, com sua quase ilimitada humildade, trabalhando sempre sem se queixar!
Mas ninguém se deve preocupar muito com isso.
De acordo com o calendário maia, e seus extraordinários e reconhecidos conhecimentos de astrologia, o tal fim do mundo, quem sabe se outro pré Bing Bang está muito próximo. No dia 21 de Dezembro de 2012, a Terra, o Sol e Venus estarão em perfeito alinhamento com a Via Láctea, no seu centro mais escuro, talvez onde exista um “Buraco Negro”. Nesse dia, no exato momento do solstício de verão no hemisfério Sul, a força gravitacional que resulta desse alinhamento previsto... sugará tudo!
O "templo" (?) de Chicen Iza

Como em pouco mais de dois anos nada vai mudar neste planeta, talvez ainda só para pior, que cada um medite sobre a sua alma e onde ela vai parar!
Se nada acontecer em 2012... também a verdade é que ninguém perdeu tempo com essa meditação!

 
23-09-2010