segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A REPETIÇÃO DA HISTÓRIA
 

George III, meio louco, obstinado, teimoso como um rei se permitia ser, não aceitava a declaração de independência dos Estados Unidos da América e, em vez de colaborar com a (ex) colônia decidiu criar ainda mais impostos, que muitos já eram, e enviar vários contingentes militares para acabarem com a “rebelião”!

Durou sete anos esta trágica guerra. Um exército imenso, disciplinado, bem equipado, contra um monte de colonos a defenderem aquilo que o seu esforço e trabalho tinha realizado.

George Washington foi colocado à cabeça dos americanos e a comandar o treinado exército inglês o general Howe.

Logo no primeiro encontro os americanos foram vencidos e tiveram que bater em retirada. Howe achou que já tinha dado uma boa surra nos “colonos” que lutavam até com paus (!) e deixou-se ficar quieto. Os americanos reuniram-se, foram-se organizando, e pouco tempo depois deu-se nova batalha, nova derrota dos americanos e mais uma vez Howe, em vez de os perseguir e, talvez definitivamente, acabar com eles... ficou quieto.

No famoso 11 de Setembro, mas de 1778, Washington volta a atacar os ingleses, em Nova York, e mais um vez é obrigado a retirar-se. E ainda desta vez Howe achou que assim estava de “bom tamanho”, que os americanos, sempre vencidos acabariam por se render, e ficou quieto! Pouco depois, perante a evidência do constante fortalecimento e da tenacidade dos adversários, resignou. Tarde.

Podia ter resolvido a continuação do status colonial na América, mas com a aparente facilidade com que ia derrotando os “colonos”, sem os perseguir depois de cada vitória...

Duzentos e vinte e três anos mais tarde os Estados Unidos, para se vingarem do 11 de Setembro de 2001, decidem invadir o Afeganistão para acabar com os talibãs que se vangloriavam de ter atacado, dentro da sua própria casa, o país mais poderoso do mundo. Num instante as forças invasoras expulsam os talibãs de Cabul e convencem-se que aquela guerra seria uma “guerrinha”, face ao poder bélico das forças aliadas contra “uns quantos” guerrilheiros esparsos. E ficaram quietos, na capital, organizando, para o mundo ver, um governo local, enquanto os talibãs cresciam em número e se fortaleciam. E pior, se difundiam por todo o mundo!

Os americanos esqueceram um monte de lições!

A primeira é que guerrilha não se combate em território estrangeiro, como na Coréia e Vietnam, de onde foram vergonhosamente corridos e derrotados, assim como todos os países colonizadores haviam sido nesse tempo, e que eles mesmos já tinham mostrado aos ingleses. E ainda foram repetir o erro no Iraque, que conseguiram destroçar.

Depois, guerra não se vence na defesa, nem ficando sentado em varanda apreciando o panorama e bebendo “bourbon” para comemorar a primeira vitória!

Toda a gente sabe que, não tarda, vão ter que se retirar, mais uma vez enxovalhados, do Afeganistão! Tal como se retiraram os ingleses em 1840, com as suas forças quase totalmente destroçadas, a URSS em 1989 de cabeça baixa, etc.

Todos com inúmeras baixas em mortos e feridos, que acabam por virar, para os governos, números de estatísticas!

No Brasil não há guerras. Tradicionais! Mas tem narcotráfico, tráfego de armas, etc, mas isso... deixa p´ra lá.

Estamos em vésperas de eleições e desde o primeiro instante ficou definido quem seria o próximo presidente! Já era sabido que ganharia quem escolhesse para presidente do Banco Central quem tivesse o apoio da grande finança mundial! Foi assim que lula ganhou a primeira e segunda vez, mantendo a mamata para os investidores especulativos que daqui levam imensamente mais reembolso em juros do que em qualquer outra parte do mundo.

O PT, diga-se lula ou dilma, asseguraram já a continuidade do atual presidente, que veio dos EUA onde era presidente do Banco de Boston, e conselheiro de muitas outras empresas financeiras americanas.

Era do PSDB, tinha ganho as eleições para deputado federal pelo Estado de Goiás, pelo “seu” PSDB, mas... a finança internacional impôs, logo na entrada de lula na presidência, que ou Banco Central fazia o jogo que eles queriam, ou... e logo recomendou o sr. meirelles!

Os ultra do PT reclamaram, mas o capital fala mais alto.

Daí os juros no Brasil se manterem sempre em patamar “conveniente” para Wall Street, City, etc.

O candidato sr. serra começa o seu discurso de candidatura jogando abertamente no “cavalo errado”! Disse ele que o Banco Central não podia ser independente e que uma das suas metas era baixar os juros! Dançou! Logo aí entrou pelo cano!

Grave erro histórico.

Depois tem mantido nos seus pronunciamentos uma atitude ridícula: ataca os programas atuais de saúde, que foram a sua coroa de glória como ministro do governo anterior, mas passa a mão no lula dizendo que “é um grande cara”, e assim, dando uma no cravo e outra no dedo... já perdeu.

Seu serra, batalha não se ganha na defesa. Nem futebol.

E lá vai o Brasil para os vinte anos de governo do PT. Mínimo!

Mas eles têm razão! Aprenderam bem as cartilhas de Maquiavel e Sun Tzu!

Diz Maquiavel que o governante não deve fazer nada! Somente aparecer em público com grande pompa, sempre, fazer discursos que nada digam, não se comprometer, e ocupar o máximo de postos chaves na administração com os seus capangas. O povo leva a nação. Sempre. É o povo que cria riqueza, paga impostos e alimenta esses sanguessugas!

Aqui, é o que se tem feito. Aumentam os investimentos privados, mas com juros beneficiados do Banco de Desenvolvimento, ficando o diferencial entre estes e o custo da taxa básica, por conta da dívida interna que já alcança 67% do PIB. Não há azar: o povo paga!

Sun Tzu também ensina a atacar sempre! Os adversários. Como fez o lula com a “herança maldita”. Os agora “teoricamente” na oposição, teoricamente só, porque no Brasil não há oposição, mas somente luta por cargos públicos.

Não atacou o general inglês, nem os americanos no começo no Afeganistão, nem o candidato serra.

O resultado está definido!
 

N.- Nomes próprios começando com minúscula é intencional.

27-08-20




 



quarta-feira, 25 de agosto de 2010

 
O fotógrafo e
 
o creme de barbear

Há muitos anos que deixei de fazer a barba. A causa próxima foi um ligeiro acidente de carro. Já noite, seguia por estrada asfaltada, piso escuro, faróis iluminando bem o caminho. De repente ao sair duma curva, um imenso pneu, daqueles dos moto-scrapers com mais de dois metros de diâmetro, deitado no chão, fechando a estrada que estava em reparação!
À noite, estrada preta e pneu preto, mesmo em África, nem preto vê. Quando me apercebi que tinha um desvio, noventa graus entrando pelo mato, era tarde. Travão a fundo, ainda fui chocar com o pneu. O carro nada sofreu, mas como levava um passageiro no banco traseiro, este com a batida apoiou-se nas minhas costas, e eu bati com a cara no espelho retrovisor interno que se quebrou e cortou-me a beiça superior. Sangue a escorrer para a camisa, parecia até um grave acidente! De qualquer modo tive que levar alguns pontos na dita beiçola. Durante os primeiros dias foi difícil falar, rir só segurando a beiça inchada para não abrir os pontos, então fazer a barba ficou fora de cogitação.
Como fazer a barba todos os dias é uma monotonia, uma chatice, resolvi aproveitar aquela deixa e nunca mais a fazer. Já lá vão quase quarenta anos!
Ainda guardo, para variar, alguns apetrechos cortadores, um deles bem velhinho que foi do meu pai, mas ao pensar em barba, e nos antigamentes, o que mais me lembro é da visita do senhor Williams, o dono do creme de barbear com o seu nome, muito publicitado e vendido mundo afora. Milionário, americano, foi no governo Kennedy talvez secretário de estado para assuntos africanos. Não sei bem se era este o cargo, mas foi o senhor Williams que o senhor J. F. Kennedy mandou a Angola para que ele visse com os seus próprios olhos como, pelos colonos, eram tratados, sobretudo certificar-se como eram destratados, os pretos! Kennedy tinha autorizado a guerra da independência de Angola. Não esqueçamos que foi ele que mandou dinheiro para o Holden Roberto, o que fez deflagrar a matança de 15 de Março de 1961, que foi tão violentamente vergonhosa que ainda hoje, trinta e cinco anos passado sobre a independência de Angola, não há um único membro de qualquer dos partidos políticos que queira assumir a sua responsabilidade. Talvez por isso mesmo o senhor JFK necessitava que um membro do seu governo fosse, in loco, ver as injustiças praticadas pelos portugueses, para se ajudar a justificar-se pela sua quota parte naquela tristíssima matança.
Como se pode imaginar, porque logo se soube da vinda deste emissário e suas intenções, a animosidade para com os americães aumentou, e a recepção ao senhor Williams limitou-se ao estritamente oficial. Sabendo-se a finalidade da visita, e a sua ligação à política ameri-cana anti-portuguesa (é bom ler Kennedy e Salazar - O leão e a raposa, de José Freire Antunes) muita gente deixou de usar o seu creme de barbear, representado em Angola pelo Quintas & Irmão!
O Governo de Angola, recebeu ordens de Lisboa para deixar o inspetor à vontade. Ele que metesse o nariz onde bem quisesse, que ninguém o impediria.
Da parte do cônsul americano em Luanda foi enviado à Cuca um pedido para receber o sobredito em visita à fábrica. Era uma unidade industrial com razoável importância no contexto económico de Angola.
- Pode avançar.
Como não convinha alardear a visita deste sujeito, o diretor geral, o simpático engenheiro geógrafo Albano Martins da Costa, chamou-me e, meio em segredo, pediu-me que o a-companhasse durante a visita e aproveitasse para, discretamente, tirar duas ou três fotogra-fias, mas que não desse o filme a revelar a ninguém, o que não teria qualquer problema porque desde há vários anos eu mesmo revelava e ampliava fotografias em casa, para o que estava convenientemente apetrechado, técnica e materialmente.
A Cuca era uma companhia com duas fábricas de cervejas e uma de rações para gado, bem estruturada industrial, comercial e socialmente, que o digam alguns dos seus colaboradores que a seguir à independência ocuparam imediatamente elevados cargos no governo.
Dia e hora previstos chega um carro com dois gringos, um que seria talvez o vice cônsul em Angola, e o, já de antemão antipático, barbeador.
Na porta da fábrica, para os receber, o DG e eu.
O barbeador era um homem alto, forte, louro, que de tanto creme passar nas bochechas havia esquecido que um sorriso, mesmo quando se está em campos opostos, não faz mal a ninguém.
A conversa, como se pode imaginar era... muda!
O homem não queria nada conosco, e quando viu os primeiros operários africanos, que depois constatou serem a maioria, perguntou de imediato qual o horário de trabalho, salá-rio, etc.
Como eu falava um pouco mais de inglês do que o DG, era a mim que o sujeito dirigia as perguntas. A resposta era simples: chamava-se o funcionário e ele que lhe perguntasse tudo quanto quisesse que o homem do consulado traduzia, para não ficar qualquer dúvida quanto à isenção da nossa atitude.
Perguntou o que quis e ouviu o que não quis, porque nenhum se queixou, nem disse mal dos portugueses, nem sabia de algum caso de canibalismo branco-negro!
No final da visita, como era tradicional lá na Cuca, um copo de cerveja no bar onde rece-bíamos visitas, e assinatura no Livro de Honra. Para que ninguém visse que tínhamos re-cebido um inimigo mandou-se comprar um livro novo, que se ainda existe só deve ter a assinatura dele!
Permanecendo na mesma amável atitude, quando lhe pedimos para deixar escritas as suas impressões, o que o colocava numa posição difícil perante a finalidade condenatória que tinha sido o objetivo pré determinado da sua viagem a Angola, limitou-se a assinar nome e data!
Foi embora com o mesmo sorriso de alarve novo rico americano com que chegara.
Logo de seguida fui eu correndo para casa para revelar, super cuidadosamente, as fotogra-fias, fazer algumas ampliações e mandar para a Administração em Lisboa. A responsabili-dade era muita!... Tanta que, apesar de ter já bons anos de prática, troquei os produtos químicos na hora da revelação, começando pelo fixador que literalmente lavou o negativo inteiro! O negativo fixou-se transparente como vidro!
Quando abri a luz para ver o trabalho e constato que tinha feito uma grande burrice, e que da visita do barbeiro só ficara mesmo a solitária assinatura, num livro de honra exclusivo, deu-me para rir! Naquela altura, fazer o quê? Nada.
Voltei para a fábrica e fui mostrar as fotos ao DG.
O homem, habitualmente calmo e simpático, ficou danado. Eu, ria!
- A visita não era semi confidencial? Agora é que ninguém pode provar que ele esteve aqui!
- Você é maluco.
- Não fique preocupado com isso, porque há muito que isso eu também sei!
Acabámos rindo os dois, e nunca mais usámos o creme de barbear do senhor Williams!

Do livro “Se as minhas Imbambas falassem”,2000, Rio, semi inédito!!!

24.08.2004

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

.
J O B

Do livro "ANGOLA - 10 Bilhetes Postais", 1955, de A. G. Videira (o famoso Dr. Videira) com ilustrações de Neves e Sousa (o maior pintor de Angola!)


É velho, e velho nasceu. Ou, sem descendência, em milenária decrepitude, aguarda, conformado, a extinção da espécie, se o seu destine não e a eternidade no sofrimento da vida.
Reproduz-se, ainda, o embondeiro?
— Quem topou, jamais, um embondeiro pequeno?!
Tartarin?
— Aquele triste baobab que, no exótico Jardim de Tarascon, «tenait a l'aise dans un pot de reseda», e simples travessura da fantasia de Daudet.
Há, pelo menos, cinco ou seis mil anos (Adanson e Humboldt) que o embondeiro, a malvácea gigante, não conhece mocidade.
Estranha família que a desolação dos trópicos povoa!... Família?! Sem pais, nem filhos. Tudo irmãos, qual deles o mais idoso. 0 sertão e para o baobab um seco e avaro asilo de invalidez.

 

Em África, nesta África ardente, pelo menos, o céu e, em regra, pesado e depressivo. A atmosfera, ensopada de humidade, tem arrepios de maleitas, espalhando chispas de luz que estonteiam e cegam, se nuvens em édredon ou novelos, asfixiantes, serpeando em anéis pelo sopé pedregoso dos cômoros, não descem a rastejar nas baixuras, rolando e esfarrapando-se na copa dos arvoredos. Parda ou dum vermelho torrado e agressivo e a crosta bexigosa da terra; e o cascalho de lascas soltas ou grosso burgau polido, semeado no pálido e mirrado capim que os ruminantes enjeitam, cobre-se do musgo verde-amarelado do tempo, como miserável enfeite duma senilidade pelintra. Minguados riachos, que a seca lambeu, abrem-se em apertadas fendas, de mau hálito, como bocas negras, torcidas no desespero da sede; ou, transbordando, ruidosos, do chuveiro torrencial espalham, ao largo, o esterco fétido dos detritos apodrecidos e a vasa repugnante do leito empapado, Bojudos troncos vencidos pela idade, abatidos pela doença, roídos pelos vermes ou derrubados pela tempestade e pelo raio, do denso sombrio da floresta fazem calmo e recôndito cemitério.
A alegria, a expansão, a exuberância não convida, realmente, a natureza.
Contudo, reagindo à opressão ambiente, na planície brincam os coelhos e as corças, nos bosques florescem as arvores e as trepadeiras, a coberto e à sombra das quais pincham, lépidos, os felinos, e pelos ares, no folguedo de miúdos traquinas, voam e cantam pássaros, divertidos.
Só ele, o colosso real monstruoso e envergonhado, à margem fica, lúgubre e mudo, na trágica escravidão da sua magoa.

 
Ao sol candente, no areal ingrato, onde nada mais se cria, leva o embondeiro o atroz suplício do seu abandono. No próprio seio, cavernoso, roído pelo tempo como os pulmões dum tísico, recolhe e guarda a gota de água que lhe há-de matar a sede. E, fincado no solo a que, em dolorosa e constante penetração, suga o escasso húmus que o alimenta, estende ao céu, na súplica dum pouco de oxigénio» que o ar, rarefeito, em lavaredas, lhe regateia» os braços carnudos, grotescos, torcidos de angustia.Quasimodo do reino vegetal a sua obesa fealdade de hidrópico aleijado de varizes e tumores, ofende a esbelta elegância das mafumeiras, tacangas, muanzas e cabendes, que, no permanente sabbat da floresta, se dão as mãos entrelaçadas de trepadeiras. Até as aves dele fogem, apavoradas da sua congénita deformidade. Só as bembas carnívoras» carregando mirrados gravetos no agressivo bico adunco, no coto mutilado dum ramo fazem os aldrabados ninhos.
A própria liana, ingénua e irrequieta, apenas por escárnio e a leviana maldade de juventude, uma vez ou outra, lhe concede o efémero calor dum abraço e disfarça a calvície com uma postiça cabeleira de verdura. É a sangrenta irrisão da coroa de espinhos, redentora catástrofe do Gólgota.
Por isso, o baobab sofre. Quando, furioso, o vento sopra, na avançada tempestade que se aproxima, tira do ridículo arcaboiço deste monstro resignado terríveis lamentos que vão sobressaltar as feras nos bosques.
Por isso, o baobab suspira. Na torreira escaldante das sestas Março, como coiro ressequido torcendo-se e crepitando nas brasas a sua pele grossa e macia, empolada dos cáusticos chupões do sol, geme, em tímidos, sumidos ais, não a ferroada penetrante das queimaduras, mas a humilhação cruel da troça e do desdém.
Por isso o baobab chora. Pelo cair da tarde, os seus frutos esguios, pendentes de longas e finas hastes, são lágrimas de gigante na projeção dos poentes sanguíneos dos dias de calor.
Nunca sentiu o suave conforto dum carinho, a comiserarão duma ternura. Da sua copa, de rara e mesquinha folhagem, desertam as abelhas aloiradas. E o amor tirânico, profundo, que o devora, na pungente volúpia de perpétua insatisfação, nunca teve o consolo duma semente a germinar.
Ali, ao lado, na bacanal da mata, desafia-o e perturba-o a descarada luxúria do arvoredo; ralam-no de desejos e ciúmes a musica dos casais e os beijos, sem recato, das acácias, no cio da floração.
Tudo, a roda, o excita e provoca.
E tudo se lhe nega.
Morrer?!
— Até a paz do aniquilamento lhe é vedada. Poupam-no a tempestade, o raio e o fogo das queimadas; despreza-o o machado da derruba. A idade enruga-o, desfeia-o, cobre-o de mazelas, mas não o vence; não há moléstia que o tombe. E séculos sem fim passam por ele, tormentos, apenas, acumulando sobre tormentos, a dor, nova dor acrescentando.
A tudo resiste; tudo suporta... com bondade. Solitário amigo! Na amargura da sua pena, é, ainda, o escudo protector contra a cega investida do búfalo ferido; a sentinela vigilante da propriedade; o marco seguro dos geômetras; o guia, sempre atento, dos caminhantes; o cauto sinaleiro do mato. E, quantas vezes, com os bichos e com os homens, reparte, generoso e perdulário, a pinga de água que guardou da chuva!
No martírio e na resignação, o baobab é o Job do sertão africano.

* * *

Há quem, ainda agora, negue os sentidos, a inteligência e a alma das plantas e, encolhendo os ombros com desdém, tenha como de mero e mecânico instinto, as surpreendentes manifestações de vontade e consciência que põem em todos os prodigiosos actos do amor, da reprodução, do crescimento e da morte. Eu, não. Meditando, sem preconceitos nem grilhetas de escola, sobre os reduzidos mas eloquentes dados da minha própria observação, e dos outros recolhendo o que, pelo estudo, pude aprender, — penso que os vegetais, do mesmo modo que as lesmas e os homens, reagem consciente e subconscientemente a percepção do exterior; sentem, vêem e tocam; têm coraçao e têm cérebro.
Sem embargo, porém, a doce paisagem de Entre Douro e Minho que me viu nascer, não logrou despertar a minha sensibilidade embotada.
E, hoje, já velho, mais me comovem as chispas rubras duma forja, enquanto, na bigorna, o ferreiro esmaga e molda o metal incandescente, do que a delambida suavidade duns campos em flor. A harmonia das cores, a beleza plástica, se um sopro de vida humana as não anima, ora, mais que nunca, carecem de sentido na receptibilidade rudimentar da minha alma selvagem, primitiva, E os meus olhos, cansados de ver a tragédia do Mundo, já não abrem para o coração senão o caminho da desgraça, Dai, talvez...

 

Daí talvez, provirá a emoção que me causa ainda a silhueta bárbara do embondeiro, baobab, adansonia digitada, ou, como melhor dizer se deva, no quadro lúgubre da natureza que, como exalações mefíticas, Deus tirou, não do nada, mas deste principio eminentemente positivo que se chama a morte.
Como um monge o vejo, um asceta cativo na rígida clausura do chão que» pelas raízes, quais tentáculos de chumbo, inchados de elefantíase, a si o prende, envolto no sujo e esfarrapado burel do manto. E escuto-o. No acabrunhante silêncio da noite, quando, na planura de bissapas e espinheiros, em tenebrosa projeção sobre a orla da mata, a lua o desenha de medonho, colossal fantasma, alma com alma, ao mesmo ritmo pulsando, eu oiço-o e entendo os louvores que ao céu ergue, no esplêndido êxtase do próprio sofrimento.
Entendo, e aflijo-me, e, ao seu hino de bênçãos e renúncia, faz o meu coração, comovido, o soturno acompanhamento dum hino trovejante de maldições.
0 baobab!...

*

0 baobab e o branco! Dois gigantes esquecidos, dois irmãos na dor! Símbolos sublimes da persistência, e do abandono, e da miséria!
Ambos, debalde, procuram na terra a alegria de viver que a terra, madrasta, impiedosamente lhes nega. Ambos sofrem; ambos choram; ambos se resignam, na ilusória esperança — dir-se-á — duma consolação espiritual de além-túmulo.
Homem da minha cor! O embondeiro, gotoso, cansado, amesquinhado, desprotegido, desprezado, proscrito, é o teu irmão na desventura! Contigo realiza a mesma síntese: desolação!
Angola: o embondeiro e o homem; nada mais.
Resumo: — Job!





terça-feira, 27 de julho de 2010

.
Os Albertos



Meu Deus! Como a vida é curta! Há dias éramos uns meninos, logo adolescentes, jovens, maduros, passados e, por fim... velhos, idosos ou velhinhos!
Não sei o que se passa com a memória, mas à medida que os anos avançam, e já bem avançados, principiamos a esquecer o que se passou ontem, na semana passada ou há pouco tempo, e lembramos passagens da vida tanto tempo esquecidas, da juventude.
A nossa memória é como a de um computador: tem capacidade limitada, com o uso, os “programas” incompatibilizam-se uns com os outros, o “disco” vai apagando o que sobra ou já não interessa, “desfragmenta-se” e tudo fica cada vez mais lento em reagir!
E daí, as histórias que os vovôs gostam de contar! Todos os vovôs gostam. Sobretudo cenas de “naquele tempo”... que não se sabe bem se foi ontem ou há muito tempo!
Sabemos, ou desconfiamos, que o “homo sapiens” apareceu na Terra há uns 50.000 anos, e que isso nada é em relação ao surgimento da própria Terra! Ninguém acredita na “conversa” do Matusalém ter vivido 969 anos, nem Noé 950, e tendo o primeiro filho aos 500! Mesmo contando os anos como os balinescos, de 210 dias... eu só teria 136!
Se assim fosse e com o constante aumento de perspectiva de vida que se tem verificado nos últimos tempos, estaríamos ainda hoje com Dom Afonso Henriques, em vez de tantos imbecis governantes que nos têm perturbado a vida, pediríamos ao Cabral para nos explicar melhor como “achou” as terras de Vera Cruz, e ainda ouviríamos o próprio Vatsayana contar como foi que estudou para escrever o Kamasutra! Etc.
E certamente não deixaríamos também de pedir ao Hamurabi que voltasse a impor a sua lei contra bandidos, ladrões, e outros congêneres como políticos, etc.
Mas, “naquele tempo”... ainda estudante, tive um colega, companheiro, com quem criei uma ótima relação de amizade e de farra, que se chamava, e chama, Alberto.
O Alberto "brasileiro" !

Com dezenove anos, depois de assistir ao desbaratar de todos os bens da família, pelo pai e tio, jogadores inveterados, não lhe foi difícil ver que não havia mais dinheiro para continuar os seus estudos, e imigrou para o Brasil. Aqui fez a sua vida, prosperou profissionalmente, teve várias mulheres de papel passado e boa variedade de outras acidentais, mas nunca enriqueceu a trabalhar para “outrem”, para patrões! Ganhou experiência, o que é evidente, e continua a ser um senhor, porque o berço o marcou!
Estivémos quarenta anos sem saber um do outro. Sem nos vermos! Pouco mais do que desconfiávamos que o “outro” estaria vivo! O reencontro foi uma festa! Falámos de filhos, netos, colegas “perdidos” e outros já idos. Hoje vivemos na mesma cidade, entrados em bons anos, encontramo-nos regularmente, falamos sobre os tempos da juventude e sobre filosofias diversas quando nada mais há para dizer, e essa amizade, de tantos anos, parece fortalecer-se cada vez mais! Conversas sempre acompanhadas com um bom copo de vinho!
Os quarenta anos sem nos vermos sumiu já da nossa memória, mas foi uma perca grande!
Já escrevi neste blog sobre um outro amigo, também Alberto, pescador, filho, neto e... de pescadores, que conheci na Baía das Pipas, no sul de Angola, talvez em 1963. Há quase 50 anos! Tivémos pouco contato nas ocasiões que o visitei, mas sempre guardei uma bela recordação deste amigo. Durante quase todo este tempo tinha o seu rasto como perdido, sabendo somente que saíra de Angola assentara arraiais em Tavira, no Algarve, mas... isso não era suficiente para o encontrar. E a dúvida a perturbar, sem saber se continuava entre nós ou se já tinha, também “ido”!
O Alberto, angolano, na "juventude dos seus 91 anos !

Foi através do blog que um seu amigo me avisou que este Alberto, seu conhecido, vivia mesmo em Tavira, estava com 90 anos, e com mais saúde do que muito rapaz de 20!
Foi uma alegria muito grande. Escrevemo-nos, falamos pelo telefone, e ficou “combinado” que se eu voltasse um dia a Portugal, que faria uma caldeirada à pescador “como manda a tradição”! Bastava isto para me dar uma terrível vontade de atravessar o Atlântico!
De um dos Albertos, o da minha juventude, estive sem nada dele saber por quarenta anos, até que finalmente, e por uma série de coincidências curiosas, nos voltamos a encontrar.
Agora estou a preparar-me para ir abraçar o outro Alberto. O da Baía das Pipas. Vamos ter muito que conversar, sabendo que jamais conseguimos recuperar o tempo que as vicissitudes na vida nos obrigou a vivermos separados.
Mas ao olhar para o tempo “perdido” longe dos amigos, que nos parece uma eternidade, ao final das contas, vemos que foi um quase relâmpago. Um instante. Um átimo, como melhor soa aos ouvidos dos físicos.
E pensamos: quantos “relâmpagos” deste tipo desperdiçamos na vida?
Cada momento que nos surge, some logo a seguir. Se não o aproveitamos com todas as nossas forças, empobrecemos.
Amigo não só não é para esquecer, como custa viver longe deles!

22-jul-10

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Graças e desgraças de um

luso-angolano

nos países baixos!



Quase lá nos antigamentes, já vão 45 anos, fui para a Europa fazer uma série de estágios e visitas a fábricas de material fotográfico, microscopia, raios X, etc.
De Munich a Leverkusen, a seguir Antuérpia, na Gevaert - que Deus tenha em sua memória - para mexer com filmes de artes gráficas.]Perto do final do estágio, muito amável, o diretor de exportação que tinha África a seu cargo, convidou-me para jantar em sua casa, um tanto fora do centro da cidade. Eu tinha comprado um carro, usado, mas ótimo, e com um pequeno esquema que o anfitrião me passou, consegui chegar no horário combinado.
Só ele e a mulher. Sentámo-nos na sala onde já estava em cima da mesa uma garrafa de whisky e dois copos - daqueles largos e não tão baixos – e o dono da casa, sempre amável, encheu o meu copo até acima, sem gelo nem nada. O dele, igual. Quando vi aquela brutalidade de bebida pensei que não conseguiria depois sair dali, mas fomos bebendo, devagar, e eu, sem saber bem como, consegui tragar tudo e ficar mais ou menos normal. O dono da casa, ainda amável, perguntou se eu queria repetir a dose que recusei. Para ele, mais meio copo.
Entretanto a dona da casa avisa que o jantar está servido e lá fomos os três para a mesa onde, amáveis, estava, aberta, uma garrafa de Casal Garcia (!). A meio do primeiro prato o nosso amigo empurra o prato, talheres e copos, afasta tudo quanto tem na frente, deita a cabeça na mesa e... ali fica ressonando que nem um porco.
A senhora, envergonhada, quis justificar, dizendo que o marido andava com muito trabalho, cansado, etc., mas ele estava era bebedissimo. Ficou a senhora à mesa e eu, sem dizermos uma palavra, ela a levantar-se para levar os pratos à cozinha e trazer outras comidas, e por fim aparece com um bolo daqueles que embucham o mais destemido, que eu aproveitei para ver se ajudava a abafar o tanto whisky que tinha bebido, além do copo do vinho que, por honra do país e para não fazer má figura, fui obrigado a beber!
Acabou o jantar e nessa altura o bêbado acorda e novamente tenta servir-me mais bebida. Como a conversa não tinha a menor hipótese de se fazer, porque o homem não abria mais do que um olho de cada vez, agradeci muito e fui embora, alegando que era tarde, etc. Aquelas desculpas esfarrapadas mas necessárias.
Entrei no carro e nessa altura o esquema do caminho a percorrer choca no primeiro obstáculo: a rua por onde viera agora era contramão! Procurei uma “paralela” que desse retorno, e comecei a dar voltas àquela área, meio perdido, sem encontrar o caminho. Ninguém nas ruas a quem perguntar, eis se não quando surge um autocarro – ônibus – e, esperto, eu, pensando que ele iria para o centro onde estava o meu hotel, decidi segui-lo. Andei, parei, andei, parei e cada vez me parecia que mais me afastava, quando de repente o dito autocarro entrou num portão e sumiu. Era a sua garagem e encerrava o dia de trabalho!
Esperei algum tempo até que um outro carro sai da garagem. E eu atrás. Anda, pára, anda, pára e ao fim de quase uma hora, desde que saí daquele “magnífico” jantar, reconheci uma rua do centro e cheguei ao hotel!
Se fosse hoje e a polícia me mandasse soprar no “bafômetro”, teria ido direto para a prisão!
O estágio a chegar ao fim, no último dia os vários estagiários – cinco – decidiram convidar o “mestre”, um jovem e simpático engenheiro, para um jantar de despedida. Comemos “moulles marinières”, uma delícia que ainda hoje me faz água na boca. Ninguém se embebedou!
E no dia seguinte a caminho de Amsterdam. Bem me avisaram que a meteorologia previa intenso nevoeiro vinal da Mancha, e que as estradas ficavam perigosas, mas assim mesmo no fim do dia resolvi arriscar.
Ao passar em Rotterdam, já noite, dentro da cidade, não se via um palmo adiante do nariz, nem sequer as placas indicando as estradas.
Entrei numa rotunda e depois de me terem informado que devia sair na segunda rua à direita, andando com o carro a passo de caracol e junto ao passeio, os olhos bem abertos à procura da tal segunda rua, a verdade é que não conseguia distinguir nenhuma “saída”.
Passado um pouco ouço uma sirene da polícia atrás de mim. Parei. Sai do carro um polícia, atencioso, e pergunta o que ando ali a fazer.
“Á procura da estrada para Amsterdam, mas não consigo encontrar!”
“O senhor já deu três voltas à rotunda! Venha atrás de nós que lhe mostramos o caminho, mas tenha muito cuidado que a estrada está toda assim!”
Quando chegamos à estrada e não havia mais que errar, deixaram-me seguir, sempre avisando que o caminho estava perigoso. E estava. Muito.
E lá vou, ainda a passo de caracol. Já me doíam os olhos e a cabeça com o esforço para não sair da estrada.
A certa altura um “anjo salvador”: um letreiro luminoso indicava ali um hotel! Chegava ao fim o meu sofrimento!
No dia seguinte de manhã segui viagem, sem nevoeiro, atravessando aqueles campos lindos e cheguei ao meu destino!


17-jul-10





quarta-feira, 14 de julho de 2010

...

LOURENÇO  MARQUES

 desde 1876 até  1930

Algumas fotos

Quando a "cidade" era só a parte baixa, em 1876
Com o Forte, a casa do Governador, a Alfândega, as fortificações de defesa,
a Igreja, o Cemitério e o canal de drenagem


Gravura de época, mostrando a chegada de António Ennes a LM em 1894, vendo-se a Fortaleza,
mais tarde quase no meio da Praça 7 de Março


O "Cinematographo", em 1898
(Não tinha ar condicionado!)


A famosa Rua Araujo.
À direita é o lugar onde mais tarde foi o BCCI
(Banco de Crédito Comercial e Industrial)


Foi neste local que esteve o BCCI

Os "Automóveis de Praça", em 1930
Ao fundo o Bazar ABC, na Praça 7 de Março

Em 1902. Refugiados boers da Segunda Guerra do Transvaal,
aguardam no Cais o embarque para Lisboa

Nota: todas as fotografias foram tiradas do belo livro "LOURENÇO MARQUES, XILUNGUÍNE", do Dr. Monteiro Lobato, editado em Lisboa em 1970