domingo, 11 de julho de 2010

Casos de Polícia - 3 -



Quinze anos depois de Angola se ter tornado independente, tive que voltar a Luanda, e também num sábado lá fui, com um amigo, fazer a volta habitual pela ilha. Beber umas cervejas na Barracuda na ponta norte da ilha, um lugar lindo, e na volta comprar lagostas e mariscos na feira que fazem os pescadores na sua aldeia. Lagosta, peixe e mariscos, tudo fresquissimo e de qualidade inigualável. Comprámos umas quantas lagostas e gambas que depois, em casa, grelhámos para o almoço.
No regresso, surgem atrás de nós duas motos Harley Davidson novinhas, lindonas, brilhando, com dois polícias muito bem fardados, a condizer com o estado das máquinas, que nos fazem sinal para encostar.
Com ar impecável pedem os documentos, verificam, olhar professoral e superficial, o estado do carro, e quando se certificam que tudo estava em ordem, mandam-nos seguir. Montam nas motos e partem na nossa frente.
Nem quinhentos metros adiante, na rotunda à saída da ponte, estão outros dois polícias, com equipamento mais velho, meio a cair aos pedaços, também a controlar o trânsito. Os das motos novas param para cumprimentar os colegas e aproveitar para exibirem o status que lhes dava todo aquele equipamento e fardamento. Tudo novo.
Ao passarmos por eles, os mesmos guardas mandam-nos parar outra vez.
- Oh! Seu guarda. Vocês mandaram-nos parar agora mesmo ali atrás.
- Onde?
- Ali mesmo. Logo adiante da ponte. Em frente ao Hotel Panorama.
- É verdade. Tem razão.- perfila-se, faz a continência, e diz: - Então tenham um ótimo fim de semana!

Quanda esta "fotografia" foi tirada, ainda não havia ponte para a Ilha
 
*     *     *

Pelas estradas do Brasil as histórias são mais do que muitas, mas neste país temos que levar em consideração algo que não existe no resto do planeta: o jogo de cintura, a simpatia latente, a alegria do povo que muito tem a ver com a disciplinada indisciplina! Parece contra senso? Como é possível haver indisciplina disciplinada? Não se explica, mas a verdade é que o Brasil é assim. É o jeitinho brasileiro. Há outro parecido? Não há.
Vejam-se as escolas de samba. Onde já se viu maior bagunça aparente, mas onde reina uma organização e uma disciplina impecáveis? Nos desfiles dessas escolas vão, lado a lado, empresários, polícias, assaltantes, artistas, traficantes, funcionários, representantes de todos os setores da sociedade. Não é verdade que se fala à boca pequena e grande que os donos da máfia ou do jogo do bicho (oficialmente ilegal, mas que se pode jogar em qualquer esquina!), ou quaisquer outros importantes do Rio são os grandes alavancadores das escolas de samba? Não faço a menor idéia se é verdade ou mentira, nem qualquer um dos cento e oitenta milhões de brasileiros está preocupado com isso. Com jogo do bicho ou sem ele as escolas de samba têm que existir e mostram ao mundo inteiro como é este país, que com todos os defeitos que lhe queiram imputar é o maior transmissor mundial de alegria.
E as torcidas da seleção brasileira de futebol? Já se viu outra mais animada? Verdadeiras escolas de samba futebolístico. A torcida brasileira não admite, nunca, por hipótese alguma, que o Brasil não ganhe todas as copas do mundo, todas as olimpíadas, todos os torneios americanos e sul americanos, mesmo que no fim não ganhe. E quem mais anima esses torneios? Experimentem um dia não levar a seleção do Brasil a um campeonato desses e verão os estádios ficar com metade dos lugares por preencher. O sonho de todas as seleções é jogar a final com o Brasil. E a gente assiste, sofrendo que nem condenado a jogos mal jogados, equipa desorganizada, selecionador xingado de tudo o que a vocabulária inventou e ainda vai inventar, mas não perde a esperança de ganhar sempre mais um titulo. E lá vai ganhando. Alguns. Às vezes.
Isto são as escolas de samba, as torcidas, o povo. O país. Dança, xinga, sofre e dá risada.
A polícia é composta de gente do povo. Desfila em escolas de samba, torce pelo futebol, bebe a sua cervejinha estupidamente gelada, não desgruda os olhos da mulata gostosona que passa na rua a gingar e exibir a bunda redondona, porque sabe que todos os olhos são para ela, mas também há uns quantos que fazem hora extra, por conta própria, com as próprias armas da polícia! Para quê comprar uma arma para assaltar se a corporação já lha fornece e com balas de graça? Os polícias são como todos os outros homens. Não podem ser diferentes. São só homens.
E então num país que tem tudo isto de exótico e muito mais, quando os mesmos cento e oitenta milhões estão cansados de todos os dias, através dos órgãos de informação serem informados da corrupção que envolve tantos políticos, governantes, funcionários, fiscais de tudo o que se possa imaginar, compradores de empresas, estatais e privadas, ninguém se vai privar, por qualquer meio que esteja ao seu alcance, de tentar convencer o policial, sobretudo o rodoviário, a esquecer aquela infraçãozinha, que muitas das vezes não prejudicou alguém. Claro que não vai.
E para tudo há jeito, com um mínimo de boa vontade e educação. O policial está investido de funções que para quem gosta de bagunça são uma chatice, e uma ameaça à libertinagem selvática! Tem que fazer cara séria, mas é igualzinho a qualquer outro cidadão, e como tal tem que ser tratado.

Neste alegre rodopio, quem vai querer multar ???

A Dutra é a rodovia mais importante do Brasil. Auto estrada, Rio-São Paulo, entre as duas maiores cidades do país, com um movimento imenso de veículos de todos os tamanhos e qualidades, condutores bons e péssimos, conscientes e inconscientes, e como seria de esperar, patrulhas ao longo de todo o trajeto. Tem que ter.
De vez em quando o governo faz umas leis gozadas. Épocas há em que a velocidade máxima permitida é de 100 km/hora, outras 80, outras ainda 120. Coisa de político que gosta de viver sobre a rama sem ir à raiz da maioria dos problemas, e fica muito contente com estas alterações que por sua iniciativa propõe ao legislativo, que com isto perde tempo e vai esquecendo os hospitais, os aposentados, as tão famosas e faladas dívidas interna, e social, a guerreada reforma agrária, as favelas, etc.
Esquece. Estamos a tratar de outras coisas, que não política.
80 km/hora, mesmo quando a Dutra estava com o piso bastante deteriorado, era ridículo. Mas era a lei. Então a polícia rodoviária facilitava a lei. Deixava ir a 100! Já melhorava um pouco.
Uma tarde, de regresso a São Paulo, seguia tranquilo naquela estrada larga, e estava até convencido de que ia devagar, para quem, como eu, gosta de pisar no acelerador. De repente a polícia manda-me parar. Radar!
- O que foi senhor guarda?
- Excesso de velocidade.
- Excesso de velocidade??? Não pode ser. A quanto eu ia?
- Cento e um.
- Oh! Seu guarda! Cento e um?!
- A velocidade máxima permitida por lei é oitenta, mas nós até cem fechamos os olhos.
- Só unzinho a mais seu guarda?
- É. Mas tem que haver um limite, quando não daqui a pouco vem outro a cento e dois, três e por aí vai.
- Mas unzinho só a mais é muito azar.
- Lá isso é verdade.
- E não dá p’ra... esquecer?
- Não. Eu não posso. Está ali o chefe, o senhor fale com ele.
Saí do carro e fui falar com o chefe, ar de chefe, sentado meio dentro, meio fora do carro, à sombra da árvore que escondia o carro da vista da estrada, ao lado do radar, talonários de multas na mão.
- Seu chefe. Olhe o meu azar: cento e um. Não dá para o senhor perdoar esta?
Sem levantar os olhos, o chefe, depois de me pedir os documentos e tê-los examinado:
- Continue fazendo cara de quem está sendo autuado.
- ???!!!
Aí complicou. Eu não estava muito alegre, como é de supor, mas de repente ter que fazer cara de cara sendo autuado, foi demais! Comecei a pensar como deveria ser essa cara, e quanto mais tentava a mímica, virado para a estrada, para que todos me vissem com ar triste pela punição que me estaria a ser imposta por alguma irregularidade, mais vontade de rir me dava. Mas não podia rir, se não estava ferrado!
O chefe tinha dois blocos na mão. Sempre sem olhar para mim, ar grave, calmo, tira o bloco que estava por baixo e passa-o para cima. Os dois rigorosamente do mesmo tamanho. Um de folhas brancas, para autuações, o que passou para cima, verdes.
Escreveu devagar o meu nome numa das folhas que depois arrancou. Devolveu-me os documentos e mais a folha verde, voltando a avisar:
- Só deve ler este papel quando entrar no carro.
- Muito obrigado.
De volta ao carro digo à minha mulher:
- Só posso rir daqui a quinhentos metros. Até lá tenho que fazer cara de quem foi multado.
- Como assim? Ele multou?
- Olha a multa!
O papel verde dizia o seguinte:
A Polícia Rodoviária Federal avisa o Sr. F...... que deve dirigir com cuidado e atenção, manter sempre a viatura em condições de segurança, observar os sinais de trânsito, etc. etc. e terminava com um simpático “Boa Viagem”!
Onde já se viu maneira mais bonita de esquecer uma infração, que quase não seria infração, sem perder a postura e a autoridade?
Imagine-se um polícia alemão ou um americano a fazerem isto! Ou um português!

Escrito em 1998

domingo, 4 de julho de 2010

Um pouco de história de Lourenço Marques

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Um pouco de história de

Lourenço Marques,

Xilunguine ou Maputo.

Em 1894 o jornalista e dramaturgo António Enes, que dentro da sua profissão, já havia visitado Moçambique, que vivia num caos de desordem e guerrilhas/matanças, e manifestado os erros que por lá encontrou, foi convidado para assumir o cargo de Alto Comissário.
Levou consigo um pequeno Estado Maior, escol de militares que mostraram a sua bravura e disciplina e ficaram na história: Freire de Andrade, o médico Rodrigues Braga e Paiva Couceiro. Foram ainda Aires de Ornelas e Ferreira da Costa
O texto que segue, tirado do livro “A Guerra de África em 1895”, de António Ennes, relata a chegada desta “equipa” a Lourenço Marques, em 18 de Janeiro de 1895.

Passei o resto do dia tomando providencias urgentes, foi-me solicitada a atenção para a falta de meios de descarga das mercadorias que estavam afluindo ao porto para demandar o Transval, verifiquei com meus próprios olhos a necessidade de mudar os aquartelamentos das tropas, e à noite fui instalar-me na pequena casa da Ponta-Vermelha,


a propriedade da empresa concessionária do caminho de ferro, em que os governadores do distrito já haviam estabelecido residência, e que eu ia promover a paço do governo e quartel-general, embora a sua modéstia arquitectonica lhe proibisse prosápias, e a sua varanda alpendrada, sobranceira à vastidão da baía e toda afestoada de trepadeiras floridas, lhe desse ares de moradia romântica de alguma Julieta. Pelas 9 horas da noite montámos a cavalo — o capitão Freire de Andrade, o tenente Couceiro e eu, — na praça de Sete de Março, e pusemo-nos a caminho.
A caminho de que? Que sorte nos esperava, sumida na escuridão do futuro, tão compacta, tão impenetrável como as trevas corridas adiante dos nossos passos, apenas furadas aqui e além pelas luzes distantes da avenida de D. Carlos, amarelentas e enfumaçadas como morrões de tochas fúnebres? Sabíamos que nos ficava para trás um murmúrio de maus agouros. Tínhamos sentido, na praça, as frialdades de uma atmosfera de desconfianças e pavores; pequenos grupos de portugueses, parados nos passeios que o arvoredo arrendado mosqueava à sombra e luz, segredavam rezas pelas nossas almas; abancados nos quiosques-bares do jardim, estrangeiros de barbas fulvas plantadas em peles requeimadas, deitavam-nos olhares de desdém e escárnio, puxando fumaças dos cachimbos.
Pensava-se, dizia-se, que o nosso capricho de ir viver na Ponta Vermelha poderia custar-nos caro. 0 lugar havia sido abandonado pelos seus escassos moradores. Ficava muito fora das linhas de defesa. Era considerado à mercê dos rebeldes, que já haviam salteado a Pulana, logo ali adiante: por que não iriam eles também, num lusco-fusco, meter dentro as portas de vidraça, que naquele ermo seriam a única defesa e guarda dos homens recém-vindos da Europa de propósito para os profligarem ? 0 coup de main era tentador, era, e o Maazulo e o Matibejana tinham na cidade, talvez na própria casa do governador, quem lhes mandasse avisos e conselhos! (Em casa do governador do distrito havia um criado preto, da Zichacha, que se tornou tão suspeito de conivência com os revoltosos que o próprio amo, que lhe era muito afeiçoado, mandou-o prender, afinal.)
Era isto o que se murmurava e o que nós mesmos pensávamos; mas, antes de tudo, cumpria-nos restabelecer a confiança, tão quebrantada ainda que raras noites discorriam sem sobressaltos, pânicos e alertas. De Moçambique, quando não conhecíamos bem o estado das coisas, tínhamos mandado preparar, para nossa residência, a casinha da Ponta-Vermelha, e nem sequer nos lembrámos, portanto, de que era possível não irmos lá viver.
Tínhamos a percorrer cerca de quatro quilômetros. A princípio, o caminho é civilizado e policiado; sobe-se a Avenida de D. Carlos, larga como as esperanças e ambições da cidade e do porto. À mão direita, o arvoredo oscilante do Jardim Botânico cobre como um biombo recortado as estrelas baixas do céu, e exalam-se de lá baforadas de umidade e vozearias monótonas de rãs. Depois ainda se vê bruxulearem as lamparinas dolentes das enfermarias do hospital, mas, poucos passos andados sai-se de toda a luz e toda a sociedade passa, sobre areia solta, desta que recua com os pés que a pisam, e por entre fímbrias de arvoredo e mato, costear primeiro as altas dunas escalvadas, e depois a aresta das ribanceiras, cada vez mais altas e aprumadas, que marginam a entrada do porto. Durante largos trechos está-se ali tão só como no entranhado sertão; de dia vêm os macacos do Machaquene fazer gaifonas aos transeuntes do alto das mafurreiras; de noite, só dá fé de que está à beira de uma cidade quem repara que as luzinhas, acesas lá em baixo, estão muito alinhadas para serem estrelas nascentes.
Atravessamos estas trevas ermas a passo, mais guiados pelo instinto dos cavalos do que pelos próprios olhos. Mal nos víamos uns aos outros. 0 canto estrídulo dos ralos acompanhava-nos, tão persistente, tão igual, como se nos seguisse uma escolta dos importunos insectos. Falávamos pouco, porque sentíamos muito. Vínhamos da pátria e da família, e íamos embrenhar-nos num labirinto de perigos formidáveis, de trabalhos esmagadores, de responsabilidades temerosas. Que seria de nós ? Os presságios não eram animadores, não! 0 canal de Moçambique acolhera-nos com dois temporais desfeitos; o vento sul, impróprio da estação, parecera querer desviar-nos da costa portuguesa; a nossa chegada à capital fora festejada com a noticia dum morticínio à margem da linha férrea; a Afonso de Albuquerque encalhara conosco ao dobrar a Ponta-Vermelha. Um grego ou um romano desesperaria de empresa começada sob o influxo de tão porfiado azar. Que mais viria ainda provar-nos a fortaleza de ânimo ? Já seria vento das asas da morte aquela aragem morna e úmida que nos roçava pelas faces? Estariam cafres emboscados no arvoredo rumorejante que nos tapava as estrelas? Uma voz aguda, precipitada, rompeu do escuro:
— Quem vem lá?
— Oficiais! respondemos.
Nem sequer entrevimos o vulto do soldado. Era uma sentinela perdida, um angola, dos vinte e tantos recrutas e inválidos que tinham ficado, como esquecidos, no quartel da Ponta-Vermelha quando a tropa recebera ordem de se concentrar na cidade.

Seguimos adiante. Um traço negro projectado sobre a neblina luminosa da via-lactea, fez-nos reconhecer, pelo mastro da bandeira, a estação da companhia inglesa do telégrafo. Mais avante descortinamos à distância ramarias altas tingidas por uma vermelhidão afogueada e trémula, sobre a qual passavam flocos alvacentos de fumo: havia por ali indígenas, que se aqueciam à fogueira. As trevas eram cada vez mais densas. Perdemos de todo a noção dos lugares. Não demos pela bifurcação das estradas; mas já íamos descendo, e havíamos portanto entrado na vasta plataforma da Ponta-Vermelha. Ali, o terreno é todo retalhado por vedações de fio de arame farpado, em que os cavalos poderiam tropeçar; lembrei-me desse perigo e avisei dele os meus desprevenidos companheiros.
— Eu vou adiante! ofereceu logo o tenente Couceiro, sempre pressuroso de se atirar para a frente.
— Vou eu, conheço melhor o caminho; opôs Freire de Andrade. Nisto o meu cavalo esbarrou violentamente no que quer que fosse, cujo contacto duro também senti na perna esquerda; atirou-se para o lado e partiu às upas, levando-me destribado, desequilibrado, cego pelas trevas, inconsciente da situação, de encontro a umas ramagens que o fizeram estacar e me apalparam a face e o corpo todo com os galhos rijos e frios. Ao mesmo tempo ouvi, para trás de mim sons confusos de embates, interjeições abafadas de surpresa, o baque de um corpo pesado, e, no meio do meu próprio desconcerto, pressenti que algum desastre sucedera aos outros cavaleiros. Interroguei-os de longe.
— Foi o cavalo que caiu comigo; respondeu Freire de Andrade, com o seu habitual tom de voz, baixa e arrastada.
— Espera que eu me apeie! dizia Couceiro, com sobressalto.
— Molestou-se ?
— Não posso levantar-me; volveu Andrade com a mesma inflexão serena; mas não é nada.
Continuava o azar a perseguir-nos! Diligenciava apear-me, quando avistei a pouca distância uma luz movendo-se por detrás de folhagens ralas; chamei, gritei, respondeu-me a voz de um criado preto, que logo surgiu, açodado, com uma lanterna acesa. A cem passos da alta sebe de miosporos que detivera o meu cavalo na carreira, estava Freire de Andrade prostrado na areia profundamente escavada, forcejando por levantar-se e ter-se em pé amparado pelos braços de Couceiro; muito pálido, mal podendo reprimir contrações faciais de dor, forcejava por se rir da sua triste aventura, repetindo sempre:
— Não é nada! Não se aflijam! A luz permitiu reconhecer a causa e o processo do desastre. No momento em que eu me recordara das vedações de arame, estávamos a dois passos da que fechava pelo lado da cidade o quintal da casa em que íamos residir, e que era interrompida ali por uma larga cancela de ferro. Estava aberta essa cancela, e pelo seu vão passou desempedidamente o tenente Couceiro, que cavalgava a minha direita; o meu cavalo esbarrou num umbral, e o de Freire de Andrade, tendo batido em cheio com o peito na vedação farpada, feriu-se, empinou-se, saltou, quebrou o fio de arame mais alto, prenderam-se-lhe os pés nos fios inferiores, e chapou-se entalando debaixo do corpo a perna esquerda do cavaleiro. O pobre rapaz parecia ter fractura na articulação do pé. Couceiro e o negro pegaram-lhe ao colo, e a nossa entrada no paço do governo da África Oriental Portuguesa, no quartel-general das tropas apelidadas para renovar a fama dos lusos feitos medievais, teve a desoladora solenidade de um cortejo de dor transpondo o limiar de um hospital à luz baça de uma lâmpada, que me fez lembrar, a mim, a que acompanha de noite a Extrema- Unção.

Tive um momento de desanimo. Que agouros! Que estréia! Em curtos dias, duas tempestades, a notícia duma façanha bárbara dos revoltosos, um encalhe à entrada do porto, e a entrada de casa um desastre, que inutilizava por largo tempo um dos meus companheiros devotados!
Vinte minutos depois chegava em nosso auxílio o Dr. Rodrigues Braga, que nos seguira em machila, fiando-se corajosamente dos ombros a lealdade de quatro malandrins negros, que a policia fora buscar à cadeia para o transportarem através das trevas e dos pavores. Também teve aventuras. Os machileiros extraviaram-se, foram parar às vizinhanças do quartel de Caçadores 3, e o doutor, que não sabia já por onde andava, foi surpreendido por um grito açodado de quem vem lá? que rompeu da escuridão impenetrável. Oficial! respondeu; mas ouviu logo o estalido seco dum cão de espingarda a armar-se, e se não se tem ido rapidamente da machila abaixo correndo para a sentinela e falando-lhe, teria levado um tiro quási à queima-roupa.
— Porque não disseste escamarada ? observou-lhe o recruta negro, que não conhecia a fórmula de reconhecimento.
Freire de Andrade foi então examinado e tratado com fraternal carinho. Não havia fractura, felizmente. A causa das violentas dores que o torturavam era uma entorse, tão grave, porém, que o reteve mais de quinze dias no leito e fez-se lembrada durante meses.

Imagens de autor desconhecido impressos no Centário da Cidade de Maputo em 1887.

terça-feira, 29 de junho de 2010

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CASOS  DE  POLÍCIA - 2




Nas vésperas de sair de Angola, como muitos outros, mandei dar um trato no meu carro, uma Variant, cor bege, para ver se o conseguia despachar para algum comprador. Disfarçar um ou outro ponto com ferrugem e dar um polimento. Pouco mais. O carro ficou com boa aparência.
A ilha de Luanda é uma língua de terra com uma meia dúzia de quilometros de comprimento, em frente à cidade, que dá forma à baía e abrigo a um magnifico porto. Quase sempre estreita, tem na sua parte mais larga, talvez uns duzentos metros de largura, baía-mar, uma aldeia grande de pescadores. As praias ficam tanto do lado do mar, como a seguir a essa aldeia do lado da baía, sendo estas ideais para crianças, porque aí o mar não é mais agitado do que uma piscina. Águas sempre limpissimas. Isto há muitos anos porque agora a baía está cheia de navios fundeados e...


A ponte da Ilha - quando ainda era ponte! - em 1924

A ilha, é ligada ao continente por uma ponte, aterrada, bem em frente ao morro onde está a bonita fortaleza de São Miguel. Para o lado norte fica a maior porção da ilha, com suas praias, aldeias, etc., e para sul tem só uns centos de metros de comprimento. Aqui, do lado do mar é sustentada da ondulação por paredões de pedra, que atraem muito peixe. Esta ponta sul habitada desde há muitos anos, tinha além de umas quantas casas de habitação, parte delas construídas em madeira, antigas, três boites para machos e dois restaurantes. Ali estava concentrada grande parte da noite de Luanda. Um dos restaurantes, o Mar e Sol servia mariscos estupendos e no seu cardápio constava, entre outras iguarias Omoleta e o Flá Minhão! Mas era ótimo, um primeiro andar tipo varandão, que a brisa da tarde, fresca e carregada de umidade, obrigava a descontrair o ambiente e a beber bastante cerveja!
Domingo de tarde, no regresso da praia, lá do fundo norte da ilha de Luanda, mulher e uns quantos filhos pequenos dentro da tal Variant, bem devagar para gozar os lindissimos fins de tarde daquela terra. O mar de um azul profundo, dengosamente ondulado com o vento regular que à tarde, no verão, sempre sopra no sentido da terra, todos já olhando para aquilo com ar de despedida e a certeza de em breve ter que ir embora.
Passámos a rotunda de ligação à ponte e decidimos ir até ao lado sul, sempre cheia de pescadores amadores, que nunca voltavam para casa com as mãos vazias. Era mais uma distração ver aquela gente tirando peixe do mar. 

Nos anos 60 já não era ponte

A rua naquele lugar, em frente às boites, era muito larga e consentia com facilidade o estacionamento de carros na perpendicular de ambos os passeios e ainda deixava espaço para circularem à vontade, lado a lado, mais três carros. Não sei quantos metros media, mas era muito larga. Espaço não faltava.
Em sentido contrário aproxima-se outro carro de cor escura, também devagar, vindo direto a mim, completamente fora de mão. Para o alertar toquei a buzina e guinei ostensivamente o meu carro para cima dele, o que foi o mesmo que nada. O sujeito viajava noutro planeta, porque continuou o seu percurso imperturbável. Devia estar pensando ou no futuro, incerto para todos, ou nalguma garota daqueles cabarés, sem ver que eu estava pela frente dele. Resultado, os carros passaram de raspão um no outro, fazendo um barulho medonho, mas sem mais consequências do que ficarem ambos com um risco, o meu escuro e o dele bege. Até que os riscos ficaram bonitinhos, certinhos, apesar de não fazerem parte da pintura original! Nada mais do que isto. Parámos um metro adiante cada um, o que evidencia que circulávamos bem devagar. O atingido sai do carro, analisa os estragos e parte para cima de mim a reclamar:
- Está a ver o que o senhor fez?
- Ah! O que EU que fiz?
- O senhor atirou o carro para cima do meu.
- Oiça aí, ainda não deu conta que está completamente fora de mão?
- Mas o senhor atirou o carro para cima de mim - insistia o sujeito, um tanto avermelhado com a fúria da razão que supunha lhe assistia, e era em parte meia verdade.
- Vá chamar a polícia.
- Tenha paciência, mas chamar a polícia, eu, não vou. Trabalho a semana toda fazendo o que os patrões mandam, e ao domingo só faço o que quero. Se quiser chamar a polícia, chame. Eu é que não vou. Não quero.
- O senhor não vai?
- Não.
- Então vou eu.
- Vá.
- Mas o senhor não vai embora.
- Não.

Nos anos 70, vendo-se bem como já não era ponte
Lá foi o homem procurar um telefone num daqueles restaurantes, gesticulando, maldizendo de certeza a minha pessoa, que ficou à espera, encostada ao carro enquanto os filhos aproveitavam para gozar um pouco a habilidade ou sorte dos pescadores.
Quinze ou trinta minutos passados regressa o homem esbaforido.
- A polícia ainda não veio?
- Não.
Nervoso, vai-se lamentando:
- E eu que tinha mandado arranjar o carro para o levar para a metrópole, e agora já tem um risco destes!
- Não precisa ficar nervoso, e o seu caso não é único, nem nenhuma desgraça. Eu também tinha mandado arranjar o meu e ficou com o mesmo risco, só que de outra cor. Qualquer deles sai com um pouco de polimento.
A polícia não chegava, e o homem, agitado, vai de novo telefonar. Nestes entrementes lá vem aparecendo um polícia de trânsito, e o nosso homem, que o vê de longe, corre para ele.
O polícia sai da moto e pergunta:
- O que houve?
- O que está vendo.
- Onde está o condutor daquele carro?
- É aquele que vem ali a correr.
Este logo que se aproxima vai direto:
- Senhor polícia, o senhor está a ver? Ele veio para cima de mim e bateu no meu carro.
O polícia vendo o disparate da situação, com dois carros quase encostados, ambos do mesmo lado da rua, logo mandou calar o reclamante.
- Mas foi ele que veio para cima de mim.
- Cale-se, por favor.
Com uma cara meio chateada, passo lento, foi à moto buscar uma fita métrica e medir a largura da rua, a distância de cada um carros aos passeios, etc. Fazer o croquis do acidente. Era evidente que ao outro não assistia a menor razão. Tudo medido, vira-se para mim e pergunta:
- O senhor quer apresentar queixa?
- Eu não. Ele é que quis chamar a polícia. Com dois minutos de massa de polir o carro fica como novo.
O atingido é que não se dava por vencido, e insistia:
- Mas foi ele, o culpado. Ele é que veio para cima de mim.
- Então vamos até à esquadra, disse o polícia.
- Vamos embora. É mais uma variante para a monotonia dos domingos.
Voltam os filhos a entrar no carro e lá nos encaminhamos todos para a esquadra, polícia na frente com a moto, os dois carros atrás. Ali chegados manda-nos aguardar e entra para falar com o chefe, a dar contas do acidente! Foi a vez do chefe interferir. Chama os dois envolvidos e repete para mim a pergunta do guarda:
- O senhor quer apresentar queixa?
- Não senhor, respondi.
- Bom, - virando-se para o outro - se o senhor quiser apresentar queixa, pode fazê-lo, claro. Não sou eu que julgo. É o juiz, no tribunal. Mas como eu ando nesta vida há mais de vinte anos até já sei o que o juiz vai decidir: circular na faixa contrária dá apreensão de carta por seis meses, multa, pagamento dos estragos de terceiros, custas do processo, etc. Se o senhor quiser...
O palerma do atingido, ainda pensava continuar a reclamar, e nem a evidencia da situação conseguia convencê-lo que estava totalmente errado. Como é de imaginar não fez qualquer queixa.
Despedimo-nos dos polícias, e à saída da esquadra o babaca ainda voltou a dizer:
- E esta, hein! O senhor é que bate no meu carro, e a culpa acaba por ser é minha!
- É. Por acaso o senhor não estava a conduzir em Londres?
- Não. Porquê?
- Deixa p’ra lá.

in "Contos Peregrinos a Preto e Branco", 1988

segunda-feira, 21 de junho de 2010

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CASOS  DE  POLÍCIA



Quem não teve na vida uma ou diversas andanças com a polícia, no seu país ou até mesmo no estrangeiro? Polícia da cidade, em Portugal simplesmente PSP, a polícia de segurança publica que no Brasil é PM, polícia militar, de trânsito em Portugal, rodoviária no Brasil, de fronteiras ou federal, lá ou aqui, tanto fazendo que o aqui seja lá como vice versa, guarda fiscal nas alfândegas, e outras tantas variantes.
Tem muita variedade, ou especialidade de polícia, como ainda a judicial ou civil, e até, mesmo disfarçada, a secreta e os bufos.
Em países de primeiro mundo a polícia há já muitos anos é composta só por elementos com educação e cultura, e salário correspondente. Polícia competente.
Noutros, o caso não é bem assim, e tempo houve, que com a graça de Deus vai pertencendo ao passado, em que em Portugal se dizia que polícia era três furos abaixo de cão! Não que exatamente o fosse, mas onde havia fumo sempre houve fogo. Também por lá se dizia que só ia para polícia quem não sabia fazer mais nada.
De uma forma um quanto genérica, em países onde a polícia não representa a verdadeira autoridade constituída, a lei do teórico direito igual para todos, sem prepotência, ela é detestada. Também é mal paga, e talvez por isso mesmo quantas vezes se arroga uma força, que a farda lhe não confere, de que assim mesmo abusa.
Sempre houve polícias magníficos, cumpridores, zelosos, conscientes, educados, pobres, mas por menor que a nódoa seja o pano não está mais limpo. E ninguém jamais soube ao certo qual o tamanho da nódoa!
No entanto há polícias que ficam na memória.


O famoso "cara d'Aço"


Há mais de meio século, em Lisboa houve um, no trânsito, sem qualquer graduação, conhecido pelo Cara d’Aço. Não sorria, nem dava colher de chá, era temido mas tempo respeitado e admirado. Correto e incorrupto.
O Cara d’Aço quando aparecia, ou o motorista tinha tudo em ordem, ou não havia presidente, ministro ou general que conseguisse escapar das suas multas. Sempre justas, e assim indiscutíveis.
Durante a guerra, lá pelos anos 1940-44, com a tremenda dificuldade de combustível generalizada, em Portugal, os carros particulares só podiam circular às quartas e sábados. E além disso ainda tinham que previamente adquirir senhas, que sem elas não se abasteciam. Era o racionamento. Limitadissima quantidade por cada carro e por mês. Nos restantes dias só taxis, carros de serviços públicos ou de alguns particulares que, com autorização especial os utilizavam em serviço do Estado.

Ilídio Azevedo era um técnico de máquinas agrícolas, funcionário do Estado, autorizado a usar o seu carro, oficialmente, em serviço. Um carrinho pequeno dos anos trinta, descapotável, daqueles que além de abrir a capota ainda deitava o pára-brisas para a frente. Uma gracinha de carro.

Descia uma das principais avenidas de Lisboa, e lá estava o Cara d’Aço imperturbável no controle do pouco trânsito da época. Manda-o parar, com educação o cumprimenta e pede-lhe os documentos.

Ilídio, ar gozador, investido da importância que o poder andar no seu carro supostamente lhe daria, foi tirando da carteira todos documentos que carregava consigo e colocando-os alinhados em cima do pára-brisas, deitado sobre o capô. Bilhete de identidade, livrete do carro, licença de caça, carteira profissional, cartão de sócio do Benfica, e de outras agremiações desportivas ou culturais, e mais uns tantos outros deixando para o fim a tal licença que lhe permitia circular todos os dias, convencido que estava a levar grande vantagem sobre o polícia. Este, continuando a observar os outros poucos carros que circulavam, aguardava imperturbável o final da gracinha do motorista.
Tudo muito bem exposto e alinhado, o Cara d’Aço, sem baixar os olhos para aquela exibição, olhando bem nos olhos do motorista, diz-lhe com ar tranquilo e seco:
- Muito obrigado. Tome atenção que a sua licença de circular vence amanhã. Boa tarde.

Virou costas e deixou o engraçadinho ali especado, ao lado do carro, cara de bobo. Ele que esperava gozar com o polícia acabou ficando enxovalhado, catando de volta à carteira toda a papelada. O mais curioso é que ele nem fazia idéia que a licença ia caducar! Se fosse apanhado dois dias mais tarde teria o carro apreendido e pagava multa, que era pesada!

Naquele tempo, e naquelas circunstâncias da guerra os carros eram poucos, e a sensação geral era que o Cara d’Aço conhecia todos os carros e todos os motoristas. Ele só mandava parar alguém quando sabia - ou pressentia? - que alguma coisa não estava em perfeita ordem. Era um sujeito incrível, e impecável.
A uma senhora, metida a fina, a chic, que circulava em Lisboa, já depois da guerra, num vistoso carro americano conversível, com matrícula estrangeira, que depois de entrar em Portugal só podia circular no país durante três ou seis meses, o Cara d’Aço um dia pediu-lhe os documentos, que estavam em ordem. Mas fez um aviso:
- A senhora tome atenção porque o prazo para circular em Portugal termina em dez dias.
A dona chic entrou no carro, ar arrogante, e seguiu. O marido seria gente importante e nisso ela confiava. Se ele nela, que se andava a pavonear pela cidade... isso é outro papo que não vem agora para o caso. Nas vésperas de caducar o prazo que a lei concedia, o Cara d’Aço manda de novo pará-la e sempre com a mesma cara, e a mesma postura, educado:

- Não esqueça que só pode circular em Portugal mais dois dias. Bom dia.

Três dias depois, vem a senhora, o carro aberto, ar de grande madame, descendo a avenida. Ali estava também o nosso Cara d’Aço!

Manda parar o carro, pede os documentos, o prazo tinha expirado!
- Minha senhora: este carro está apreendido!
A senhora corou, berrou, blasfemou, mas o carro ficou ali mesmo e ela teve que seguir a pé! Apesar do marido importante ninguém a livrou da lei.



O Osório



Em Luanda, na fábrica de cervejas da Cuca trabalhou em tempos um pedreiro, rapaz novo, português, que mal sabia assinar o seu nome. Nem como pedreiro bom era, e como pessoa podia até ser ótimo, mas burro que nem um tijolo. Um belo dia despediu-se da empresa e não apareceu mais. Também não fez falta. Passaram-se meses e um dia tive que ir ao aeroporto, nem sei já o que fazer, mas qualquer coisa muito rápida. Parei o carro em frente à entrada, onde não era permitido estacionar. O estacionamento era ali mesmo ao lado, só contornar o passeio, mais umas dezenas de metros, mas como não havia movimento de aviões, o que supõe o aeroporto vazio de gente e carros, pareceu-me que não faria grande mal parar ali mesmo por uns momentos. Um polícia aproximou-se, tentou aprumar-se e disse:
- V.Exa. não pode estacionar aí.
- Eu não vou estacionar. Não demoro nada. Vou só ali dentro perguntar a que horas chega o vôo X.
- Mas não pode. Aqui não pode parar.
Como não valia a pena insistir com o polícia, fui para o estacionamento. Quando saí do carro e olhei melhor para o dito representante da autoridade, vejo-o sorrindo para mim e reconheci aquela cara, mas não sabia de onde.
- Eu conheço você, não conheço?
- Trabalhei na Cuca como pedreiro. Sou o Osório.
É verdade. Só podia ser ele mesmo! Aí a exclamação de espanto foi mais forte do que a musculatura que devia manter a minha boca fechada e acabou saindo o que não queria:
- Realmente, Osório, você só mesmo na polícia!
Penso que ele recebeu isto como um cumprimento, porque ficou com um sorriso idiota estampado na cara!
Era muito assim na polícia, e por esse mundo afora ainda tem alguns osórios, uns bem piores do que este que ainda mostrou os dentes com um sorriso. Idiota, mas sorriso. Felizmente é uma espécie, em muitos lugares, em vias de extinção!

in "Contos Peregrinos a Preto e Branco, de 1998

sexta-feira, 18 de junho de 2010

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O Contrabandista



Quem se lembra do fado-canção de Alberto Ribeiro, que foi grande sucesso lá pelos anos 40 ou 50, “O Contrabandista”?
“Ai! Não há maior desengano / nem vida que dê mais pena / do que a vida do cigano. / Atravessar a fronteira / para ser atravessado / por uma bala certeira. / E tudo porque o destino / que fez dele um peregrino, / companheiro de luar / um triste judeu errante / que não tem pátria nem lar”!
Portugal com a sua economia também triste, e com uns dois milhares de quilômetros de fronteiras terrestres e marítimas, sempre foi uma atração e um mercado para os arrojados contrabandistas, perseguidos, às vezes, pela guarda fiscal, quando esta não fazia vista grossa. Também eram clientes!

Não era ainda tempo, que bom, do imenso contrabando que hoje domina o mundo, das armas e sobretudo das drogas, a que deixou de dar o nome de contrabando e passou à “categoria” de tráfico.

Hoje trafica-se tudo, incluindo crianças, mulheres e também os “inocentes” e baratos produtos chineses.

Lá no antigamente eram mercadorias “comezinhas” como alguns frascos da boa “água de Colônia” que faziam os vizinhos espanhóis, nosso maior fornecedor de contrabando. Lembro especialmente o famoso “Coñac Três Cepas” de Pedro Domecq, bem mais barato e melhor do que a maioria das aguardentes portuguesas, que ainda hoje se encontra até pela Internet, e do “Fundador”, de mais categoria.

No início dos anos 50 conheci um jovem militar, tenente, incorporado na Guarda Republicana, cuja primeira função foi comandar o posto fronteiriço de Chaves (para quem não sabe, Chaves fica no Norte de Portugal, a uns escassos dez quilômetros da fronteira com a Espanha) que, rindo, nos contou a sua primeira aventura na “luta” contra o contrabando.
Jovem, saído há pouco da Escola do Exército, resolvido a endireitar o mundo, como a mocidade em geral julga ser capaz, decidiu que havia de acabar com o contrabando que, naquela região, era intenso.

Informado com os guardas que conheciam os principais fornecedores além fronteiras, um dia meteu-se no seu carro particular, desfardado, para tentar passar por um “turista” qualquer, aí vai ele a Espanha. Em dois ou três lugares comprou uma jaqueta de couro (ótimas as que vinham de Espanha), umas garrafas de conhaque e mais algumas coisas assim banais.

Compra efetuada, pergunta aos comerciantes se lhe podiam entregar a mercadoria em sua casa. Em Portugal. Todos, com a mais natural simplicidade, lhe disseram que sim.

Regressou a casa, sentou-se numa cadeira e ficou esperando que o entregador viesse, e aí ele então se preparava para o obrigar a explicar como o sistema funcionava.

Não esperou muito. Nem meia hora depois batem à porta, aparece um garoto de talvez uns doze anos, pergunta se ele o senhor “F”, e na afirmativa, entrega-lhe todas as compras que o glorioso tenente havia feito em Espanha.

Como é natural espantou-se com a velocidade da entrega e obrigou o garoto a dizer-lhe como tinha conseguido tal proeza.

Muito naturalmente o garoto disse-lhe que, sabendo que ele era o comandante do posto de fronteira, ninguém iria abrir a mala do seu carro. Então, foi simples: ele fora na mala do carro, esperou um pouco para se certificar que ali seria a sua casa, e... pronto!

Finalizava, mais tarde o glorioso defensor das nossas fronteiras:

- Não há como lutar com esta gente. Eles inventam mil e uma maneiras de nos enganarem!

Ainda hoje assim é!



17-jun-10

sexta-feira, 4 de junho de 2010

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Anedotas de Moçambique.
Em 2001.




Não vale a pena ver sempre tudo pelo lado trágico mas, vez por outra, encarar as situações com boa disposição. Faz até bem à saúde.


Multa por osmose



Um grupo de portugueses que há pouco tempoa visitou a África do Sul, alugou meia dúzia de carros e aí vai em passeio pelo Kruger Park, e Suazilandia. Da capital da Suazi à fronteira de Moçambique são uns escassos 150 quilómetros. Porque não ir lá almoçar? Lá vão os seis carros, passam a fronteira mesmo sem visto, deixando os passaportes no controle de fronteiras, porque se tratava de uma visita de um só dia. Um pouco adiante na estrada, a polícia. Manda parar os da frente e começa a multá-los porque não levavam os cintos de segurança colocados. O último carro parou também, mesmo sem que tivesse recebido ordens para isso, mas porque viajava com o grupo. Aproxima-se o polícia:
- Tu também estás multado.
- Multa de quê?
- Cinto de segurança.
- Mas eu tenho o cinto colocado, como vê. Só parei porque venho junto com aqueles carros.
- Paraste, não paraste? Então também vais pagar a multa.
- ?!

A “doença” da pele



O Jorge é um trabalhador moçambicano, escuro, como seria de imaginar, que presta serviço na carpintaria da Casa do Gaiato. O “mestre” é um antigo gaiato de Portugal, português de sotaque fechado lá da bimbas do Minho, louro. Trata todo o mundo como se fossem cães infiéis! Foi possivelmente assim que o trataram em pequeno até ser recolhido em Paço de Sousa, para se tornar homem. Berra muito, com todos, mas não passa de berraria, e a maioria já o deixa a falar sozinho. De qualquer modo não é agradável passar o tempo todo a ouvir um sujeito berrar, tanto mais que não parece ser esse o melhor método de ensino. Mas...
Um dia o Jorge, depois de ter feito uma série de asneiras na montagem dumas janelas, ouviu uns “porros” a mais e foi queixar-se. No calor das suas queixosas divagações teve a infelicidade de apontar para o pulso e dizer ameaçadoramente:
- Se não fosse esta pele.
Eu, que estava assistindo, não participando, do problema, avancei para o Jorge, peguei no braço dele e:
- Não me diga que você está com um problema de pele. Chegue aqui à luz. Deixe ver. O melhor é você ir ao posto médico. Pode ser contagioso.
O Jorge entupiu. Entendeu a mensagem e riu. Daí em diante quando passava por ele sempre lhe perguntava se estava melhor da pele! Ganhei outro amigo!
 

Lá vai o combóio, lá vai...

Portugal, quando senhor de Moçambique, seguiu à letra a filosofia do homem de visão, cujas idéias foram desumanamente aplicadas, António Enes. Assim, em condições que na maioria dos casos se consideram hoje condenáveis, habilitou-se a colônia, ou província, com uma razoável rede de caminhos de ferro, com mais de 3.500 quilómetros de extensão. Isso permitiu desenvolver o país, e continua a ser uma das fontes de divisas, pelos serviços prestados aos vizinhos Suazilandia, África do Sul, Zimbabwe, Zâmbia e Malawi. Mal ou bem, depois da devastadora guerra fratricida, os combóios continuam a circular, a maioria do equipamento muito degradado.


“Apeadeiro Diogo”. Ao fundo a Casa do Gaiato

Uma das linhas faz Maputo-Suazilandia, sobretudo para daqui trazer o açúcar e outros produtos de exportação deste vizinho. A quarenta quilómetros da capital, passado Boane, o terreno sobre um pouco, muito pouco, e lá vem a formação, uma locomotiva e trinta e cinco vagões, a ter que vencer aquela serra de uns quarenta metros de altitude!
Durante as primeiras semanas que ali estive assisti a algo interessante. As locomotivas não tinham força para carregar aquela parafernália toda por ali “a cima”! O declive não será talvez de 0,5 por cento, mas a verdade é que num determinado lugar o trem parava. O maquinista descia, andava a pé pouco mais de mil metros e ia à Casa do Gaiato pedir para telefonar para a estação central. Ficava por lá um bocado na conversa, até que uma a duas horas depois chegava outra locomotiva a dar o empurrãozinho necessário para tirar o trem dali! Não aconteceu uma vez só. Durante várias semanas isto acontecia quase sistematicamente. Por fim devem ter reparado os motores e o problema ficou resolvido!]No ano anterior, ali mesmo em frente à Casa, onde está a moderna estação-apeadeiro, “Diogo”, nome do antigo proprietário português daquela machamba, e onde no tempo da guerra algumas formações ferroviárias foram dinamitadas e destruídas, voltava da Suazilandia mais um combóio, sempre com os mesmos trinta e cinco vagões a reboque. Desta vez o trem desce. As grandes inundações afetaram tudo, até a estrutura dos aterros de assentamento da linha, a que se pode juntar aquilo que normalmente se chamaria falta de conveniente manutenção. Um dos carris não aguentou, abriu e... lá vão vinte e seis vagões descarrilados. Uns com açúcar, outros com combustível, outros com carga diversa. O maquinista seguiu viagem. Quando parou na estação seguinte é que lhe perguntaram:
- Ha! Ha! Como tu só traz nove vagões? Onde estão os outros, pá?
- Não sei!
Não sabia. Nem se deu conta que a máquina puxava mais folgada. Era a descer. Da Casa do Gaiato é que viram o acidente, para lá correram, alertou-se a central e mandaram vir bombeiros e ambulâncias porque no meio daquelas ferragens estavam dois homens presos! Lá vieram. Primeiro, soldados para não deixar que o povo saqueasse o açúcar e outros alimentos. Sete horas depois o socorro aos homens. Um entretanto não necessitava mais de socorro!

Um dos vagões ainda lá está... “perdido”!

Dez. 2001