terça-feira, 29 de junho de 2010

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CASOS  DE  POLÍCIA - 2




Nas vésperas de sair de Angola, como muitos outros, mandei dar um trato no meu carro, uma Variant, cor bege, para ver se o conseguia despachar para algum comprador. Disfarçar um ou outro ponto com ferrugem e dar um polimento. Pouco mais. O carro ficou com boa aparência.
A ilha de Luanda é uma língua de terra com uma meia dúzia de quilometros de comprimento, em frente à cidade, que dá forma à baía e abrigo a um magnifico porto. Quase sempre estreita, tem na sua parte mais larga, talvez uns duzentos metros de largura, baía-mar, uma aldeia grande de pescadores. As praias ficam tanto do lado do mar, como a seguir a essa aldeia do lado da baía, sendo estas ideais para crianças, porque aí o mar não é mais agitado do que uma piscina. Águas sempre limpissimas. Isto há muitos anos porque agora a baía está cheia de navios fundeados e...


A ponte da Ilha - quando ainda era ponte! - em 1924

A ilha, é ligada ao continente por uma ponte, aterrada, bem em frente ao morro onde está a bonita fortaleza de São Miguel. Para o lado norte fica a maior porção da ilha, com suas praias, aldeias, etc., e para sul tem só uns centos de metros de comprimento. Aqui, do lado do mar é sustentada da ondulação por paredões de pedra, que atraem muito peixe. Esta ponta sul habitada desde há muitos anos, tinha além de umas quantas casas de habitação, parte delas construídas em madeira, antigas, três boites para machos e dois restaurantes. Ali estava concentrada grande parte da noite de Luanda. Um dos restaurantes, o Mar e Sol servia mariscos estupendos e no seu cardápio constava, entre outras iguarias Omoleta e o Flá Minhão! Mas era ótimo, um primeiro andar tipo varandão, que a brisa da tarde, fresca e carregada de umidade, obrigava a descontrair o ambiente e a beber bastante cerveja!
Domingo de tarde, no regresso da praia, lá do fundo norte da ilha de Luanda, mulher e uns quantos filhos pequenos dentro da tal Variant, bem devagar para gozar os lindissimos fins de tarde daquela terra. O mar de um azul profundo, dengosamente ondulado com o vento regular que à tarde, no verão, sempre sopra no sentido da terra, todos já olhando para aquilo com ar de despedida e a certeza de em breve ter que ir embora.
Passámos a rotunda de ligação à ponte e decidimos ir até ao lado sul, sempre cheia de pescadores amadores, que nunca voltavam para casa com as mãos vazias. Era mais uma distração ver aquela gente tirando peixe do mar. 

Nos anos 60 já não era ponte

A rua naquele lugar, em frente às boites, era muito larga e consentia com facilidade o estacionamento de carros na perpendicular de ambos os passeios e ainda deixava espaço para circularem à vontade, lado a lado, mais três carros. Não sei quantos metros media, mas era muito larga. Espaço não faltava.
Em sentido contrário aproxima-se outro carro de cor escura, também devagar, vindo direto a mim, completamente fora de mão. Para o alertar toquei a buzina e guinei ostensivamente o meu carro para cima dele, o que foi o mesmo que nada. O sujeito viajava noutro planeta, porque continuou o seu percurso imperturbável. Devia estar pensando ou no futuro, incerto para todos, ou nalguma garota daqueles cabarés, sem ver que eu estava pela frente dele. Resultado, os carros passaram de raspão um no outro, fazendo um barulho medonho, mas sem mais consequências do que ficarem ambos com um risco, o meu escuro e o dele bege. Até que os riscos ficaram bonitinhos, certinhos, apesar de não fazerem parte da pintura original! Nada mais do que isto. Parámos um metro adiante cada um, o que evidencia que circulávamos bem devagar. O atingido sai do carro, analisa os estragos e parte para cima de mim a reclamar:
- Está a ver o que o senhor fez?
- Ah! O que EU que fiz?
- O senhor atirou o carro para cima do meu.
- Oiça aí, ainda não deu conta que está completamente fora de mão?
- Mas o senhor atirou o carro para cima de mim - insistia o sujeito, um tanto avermelhado com a fúria da razão que supunha lhe assistia, e era em parte meia verdade.
- Vá chamar a polícia.
- Tenha paciência, mas chamar a polícia, eu, não vou. Trabalho a semana toda fazendo o que os patrões mandam, e ao domingo só faço o que quero. Se quiser chamar a polícia, chame. Eu é que não vou. Não quero.
- O senhor não vai?
- Não.
- Então vou eu.
- Vá.
- Mas o senhor não vai embora.
- Não.

Nos anos 70, vendo-se bem como já não era ponte
Lá foi o homem procurar um telefone num daqueles restaurantes, gesticulando, maldizendo de certeza a minha pessoa, que ficou à espera, encostada ao carro enquanto os filhos aproveitavam para gozar um pouco a habilidade ou sorte dos pescadores.
Quinze ou trinta minutos passados regressa o homem esbaforido.
- A polícia ainda não veio?
- Não.
Nervoso, vai-se lamentando:
- E eu que tinha mandado arranjar o carro para o levar para a metrópole, e agora já tem um risco destes!
- Não precisa ficar nervoso, e o seu caso não é único, nem nenhuma desgraça. Eu também tinha mandado arranjar o meu e ficou com o mesmo risco, só que de outra cor. Qualquer deles sai com um pouco de polimento.
A polícia não chegava, e o homem, agitado, vai de novo telefonar. Nestes entrementes lá vem aparecendo um polícia de trânsito, e o nosso homem, que o vê de longe, corre para ele.
O polícia sai da moto e pergunta:
- O que houve?
- O que está vendo.
- Onde está o condutor daquele carro?
- É aquele que vem ali a correr.
Este logo que se aproxima vai direto:
- Senhor polícia, o senhor está a ver? Ele veio para cima de mim e bateu no meu carro.
O polícia vendo o disparate da situação, com dois carros quase encostados, ambos do mesmo lado da rua, logo mandou calar o reclamante.
- Mas foi ele que veio para cima de mim.
- Cale-se, por favor.
Com uma cara meio chateada, passo lento, foi à moto buscar uma fita métrica e medir a largura da rua, a distância de cada um carros aos passeios, etc. Fazer o croquis do acidente. Era evidente que ao outro não assistia a menor razão. Tudo medido, vira-se para mim e pergunta:
- O senhor quer apresentar queixa?
- Eu não. Ele é que quis chamar a polícia. Com dois minutos de massa de polir o carro fica como novo.
O atingido é que não se dava por vencido, e insistia:
- Mas foi ele, o culpado. Ele é que veio para cima de mim.
- Então vamos até à esquadra, disse o polícia.
- Vamos embora. É mais uma variante para a monotonia dos domingos.
Voltam os filhos a entrar no carro e lá nos encaminhamos todos para a esquadra, polícia na frente com a moto, os dois carros atrás. Ali chegados manda-nos aguardar e entra para falar com o chefe, a dar contas do acidente! Foi a vez do chefe interferir. Chama os dois envolvidos e repete para mim a pergunta do guarda:
- O senhor quer apresentar queixa?
- Não senhor, respondi.
- Bom, - virando-se para o outro - se o senhor quiser apresentar queixa, pode fazê-lo, claro. Não sou eu que julgo. É o juiz, no tribunal. Mas como eu ando nesta vida há mais de vinte anos até já sei o que o juiz vai decidir: circular na faixa contrária dá apreensão de carta por seis meses, multa, pagamento dos estragos de terceiros, custas do processo, etc. Se o senhor quiser...
O palerma do atingido, ainda pensava continuar a reclamar, e nem a evidencia da situação conseguia convencê-lo que estava totalmente errado. Como é de imaginar não fez qualquer queixa.
Despedimo-nos dos polícias, e à saída da esquadra o babaca ainda voltou a dizer:
- E esta, hein! O senhor é que bate no meu carro, e a culpa acaba por ser é minha!
- É. Por acaso o senhor não estava a conduzir em Londres?
- Não. Porquê?
- Deixa p’ra lá.

in "Contos Peregrinos a Preto e Branco", 1988

segunda-feira, 21 de junho de 2010

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CASOS  DE  POLÍCIA



Quem não teve na vida uma ou diversas andanças com a polícia, no seu país ou até mesmo no estrangeiro? Polícia da cidade, em Portugal simplesmente PSP, a polícia de segurança publica que no Brasil é PM, polícia militar, de trânsito em Portugal, rodoviária no Brasil, de fronteiras ou federal, lá ou aqui, tanto fazendo que o aqui seja lá como vice versa, guarda fiscal nas alfândegas, e outras tantas variantes.
Tem muita variedade, ou especialidade de polícia, como ainda a judicial ou civil, e até, mesmo disfarçada, a secreta e os bufos.
Em países de primeiro mundo a polícia há já muitos anos é composta só por elementos com educação e cultura, e salário correspondente. Polícia competente.
Noutros, o caso não é bem assim, e tempo houve, que com a graça de Deus vai pertencendo ao passado, em que em Portugal se dizia que polícia era três furos abaixo de cão! Não que exatamente o fosse, mas onde havia fumo sempre houve fogo. Também por lá se dizia que só ia para polícia quem não sabia fazer mais nada.
De uma forma um quanto genérica, em países onde a polícia não representa a verdadeira autoridade constituída, a lei do teórico direito igual para todos, sem prepotência, ela é detestada. Também é mal paga, e talvez por isso mesmo quantas vezes se arroga uma força, que a farda lhe não confere, de que assim mesmo abusa.
Sempre houve polícias magníficos, cumpridores, zelosos, conscientes, educados, pobres, mas por menor que a nódoa seja o pano não está mais limpo. E ninguém jamais soube ao certo qual o tamanho da nódoa!
No entanto há polícias que ficam na memória.


O famoso "cara d'Aço"


Há mais de meio século, em Lisboa houve um, no trânsito, sem qualquer graduação, conhecido pelo Cara d’Aço. Não sorria, nem dava colher de chá, era temido mas tempo respeitado e admirado. Correto e incorrupto.
O Cara d’Aço quando aparecia, ou o motorista tinha tudo em ordem, ou não havia presidente, ministro ou general que conseguisse escapar das suas multas. Sempre justas, e assim indiscutíveis.
Durante a guerra, lá pelos anos 1940-44, com a tremenda dificuldade de combustível generalizada, em Portugal, os carros particulares só podiam circular às quartas e sábados. E além disso ainda tinham que previamente adquirir senhas, que sem elas não se abasteciam. Era o racionamento. Limitadissima quantidade por cada carro e por mês. Nos restantes dias só taxis, carros de serviços públicos ou de alguns particulares que, com autorização especial os utilizavam em serviço do Estado.

Ilídio Azevedo era um técnico de máquinas agrícolas, funcionário do Estado, autorizado a usar o seu carro, oficialmente, em serviço. Um carrinho pequeno dos anos trinta, descapotável, daqueles que além de abrir a capota ainda deitava o pára-brisas para a frente. Uma gracinha de carro.

Descia uma das principais avenidas de Lisboa, e lá estava o Cara d’Aço imperturbável no controle do pouco trânsito da época. Manda-o parar, com educação o cumprimenta e pede-lhe os documentos.

Ilídio, ar gozador, investido da importância que o poder andar no seu carro supostamente lhe daria, foi tirando da carteira todos documentos que carregava consigo e colocando-os alinhados em cima do pára-brisas, deitado sobre o capô. Bilhete de identidade, livrete do carro, licença de caça, carteira profissional, cartão de sócio do Benfica, e de outras agremiações desportivas ou culturais, e mais uns tantos outros deixando para o fim a tal licença que lhe permitia circular todos os dias, convencido que estava a levar grande vantagem sobre o polícia. Este, continuando a observar os outros poucos carros que circulavam, aguardava imperturbável o final da gracinha do motorista.
Tudo muito bem exposto e alinhado, o Cara d’Aço, sem baixar os olhos para aquela exibição, olhando bem nos olhos do motorista, diz-lhe com ar tranquilo e seco:
- Muito obrigado. Tome atenção que a sua licença de circular vence amanhã. Boa tarde.

Virou costas e deixou o engraçadinho ali especado, ao lado do carro, cara de bobo. Ele que esperava gozar com o polícia acabou ficando enxovalhado, catando de volta à carteira toda a papelada. O mais curioso é que ele nem fazia idéia que a licença ia caducar! Se fosse apanhado dois dias mais tarde teria o carro apreendido e pagava multa, que era pesada!

Naquele tempo, e naquelas circunstâncias da guerra os carros eram poucos, e a sensação geral era que o Cara d’Aço conhecia todos os carros e todos os motoristas. Ele só mandava parar alguém quando sabia - ou pressentia? - que alguma coisa não estava em perfeita ordem. Era um sujeito incrível, e impecável.
A uma senhora, metida a fina, a chic, que circulava em Lisboa, já depois da guerra, num vistoso carro americano conversível, com matrícula estrangeira, que depois de entrar em Portugal só podia circular no país durante três ou seis meses, o Cara d’Aço um dia pediu-lhe os documentos, que estavam em ordem. Mas fez um aviso:
- A senhora tome atenção porque o prazo para circular em Portugal termina em dez dias.
A dona chic entrou no carro, ar arrogante, e seguiu. O marido seria gente importante e nisso ela confiava. Se ele nela, que se andava a pavonear pela cidade... isso é outro papo que não vem agora para o caso. Nas vésperas de caducar o prazo que a lei concedia, o Cara d’Aço manda de novo pará-la e sempre com a mesma cara, e a mesma postura, educado:

- Não esqueça que só pode circular em Portugal mais dois dias. Bom dia.

Três dias depois, vem a senhora, o carro aberto, ar de grande madame, descendo a avenida. Ali estava também o nosso Cara d’Aço!

Manda parar o carro, pede os documentos, o prazo tinha expirado!
- Minha senhora: este carro está apreendido!
A senhora corou, berrou, blasfemou, mas o carro ficou ali mesmo e ela teve que seguir a pé! Apesar do marido importante ninguém a livrou da lei.



O Osório



Em Luanda, na fábrica de cervejas da Cuca trabalhou em tempos um pedreiro, rapaz novo, português, que mal sabia assinar o seu nome. Nem como pedreiro bom era, e como pessoa podia até ser ótimo, mas burro que nem um tijolo. Um belo dia despediu-se da empresa e não apareceu mais. Também não fez falta. Passaram-se meses e um dia tive que ir ao aeroporto, nem sei já o que fazer, mas qualquer coisa muito rápida. Parei o carro em frente à entrada, onde não era permitido estacionar. O estacionamento era ali mesmo ao lado, só contornar o passeio, mais umas dezenas de metros, mas como não havia movimento de aviões, o que supõe o aeroporto vazio de gente e carros, pareceu-me que não faria grande mal parar ali mesmo por uns momentos. Um polícia aproximou-se, tentou aprumar-se e disse:
- V.Exa. não pode estacionar aí.
- Eu não vou estacionar. Não demoro nada. Vou só ali dentro perguntar a que horas chega o vôo X.
- Mas não pode. Aqui não pode parar.
Como não valia a pena insistir com o polícia, fui para o estacionamento. Quando saí do carro e olhei melhor para o dito representante da autoridade, vejo-o sorrindo para mim e reconheci aquela cara, mas não sabia de onde.
- Eu conheço você, não conheço?
- Trabalhei na Cuca como pedreiro. Sou o Osório.
É verdade. Só podia ser ele mesmo! Aí a exclamação de espanto foi mais forte do que a musculatura que devia manter a minha boca fechada e acabou saindo o que não queria:
- Realmente, Osório, você só mesmo na polícia!
Penso que ele recebeu isto como um cumprimento, porque ficou com um sorriso idiota estampado na cara!
Era muito assim na polícia, e por esse mundo afora ainda tem alguns osórios, uns bem piores do que este que ainda mostrou os dentes com um sorriso. Idiota, mas sorriso. Felizmente é uma espécie, em muitos lugares, em vias de extinção!

in "Contos Peregrinos a Preto e Branco, de 1998

sexta-feira, 18 de junho de 2010

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O Contrabandista



Quem se lembra do fado-canção de Alberto Ribeiro, que foi grande sucesso lá pelos anos 40 ou 50, “O Contrabandista”?
“Ai! Não há maior desengano / nem vida que dê mais pena / do que a vida do cigano. / Atravessar a fronteira / para ser atravessado / por uma bala certeira. / E tudo porque o destino / que fez dele um peregrino, / companheiro de luar / um triste judeu errante / que não tem pátria nem lar”!
Portugal com a sua economia também triste, e com uns dois milhares de quilômetros de fronteiras terrestres e marítimas, sempre foi uma atração e um mercado para os arrojados contrabandistas, perseguidos, às vezes, pela guarda fiscal, quando esta não fazia vista grossa. Também eram clientes!

Não era ainda tempo, que bom, do imenso contrabando que hoje domina o mundo, das armas e sobretudo das drogas, a que deixou de dar o nome de contrabando e passou à “categoria” de tráfico.

Hoje trafica-se tudo, incluindo crianças, mulheres e também os “inocentes” e baratos produtos chineses.

Lá no antigamente eram mercadorias “comezinhas” como alguns frascos da boa “água de Colônia” que faziam os vizinhos espanhóis, nosso maior fornecedor de contrabando. Lembro especialmente o famoso “Coñac Três Cepas” de Pedro Domecq, bem mais barato e melhor do que a maioria das aguardentes portuguesas, que ainda hoje se encontra até pela Internet, e do “Fundador”, de mais categoria.

No início dos anos 50 conheci um jovem militar, tenente, incorporado na Guarda Republicana, cuja primeira função foi comandar o posto fronteiriço de Chaves (para quem não sabe, Chaves fica no Norte de Portugal, a uns escassos dez quilômetros da fronteira com a Espanha) que, rindo, nos contou a sua primeira aventura na “luta” contra o contrabando.
Jovem, saído há pouco da Escola do Exército, resolvido a endireitar o mundo, como a mocidade em geral julga ser capaz, decidiu que havia de acabar com o contrabando que, naquela região, era intenso.

Informado com os guardas que conheciam os principais fornecedores além fronteiras, um dia meteu-se no seu carro particular, desfardado, para tentar passar por um “turista” qualquer, aí vai ele a Espanha. Em dois ou três lugares comprou uma jaqueta de couro (ótimas as que vinham de Espanha), umas garrafas de conhaque e mais algumas coisas assim banais.

Compra efetuada, pergunta aos comerciantes se lhe podiam entregar a mercadoria em sua casa. Em Portugal. Todos, com a mais natural simplicidade, lhe disseram que sim.

Regressou a casa, sentou-se numa cadeira e ficou esperando que o entregador viesse, e aí ele então se preparava para o obrigar a explicar como o sistema funcionava.

Não esperou muito. Nem meia hora depois batem à porta, aparece um garoto de talvez uns doze anos, pergunta se ele o senhor “F”, e na afirmativa, entrega-lhe todas as compras que o glorioso tenente havia feito em Espanha.

Como é natural espantou-se com a velocidade da entrega e obrigou o garoto a dizer-lhe como tinha conseguido tal proeza.

Muito naturalmente o garoto disse-lhe que, sabendo que ele era o comandante do posto de fronteira, ninguém iria abrir a mala do seu carro. Então, foi simples: ele fora na mala do carro, esperou um pouco para se certificar que ali seria a sua casa, e... pronto!

Finalizava, mais tarde o glorioso defensor das nossas fronteiras:

- Não há como lutar com esta gente. Eles inventam mil e uma maneiras de nos enganarem!

Ainda hoje assim é!



17-jun-10

sexta-feira, 4 de junho de 2010

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Anedotas de Moçambique.
Em 2001.




Não vale a pena ver sempre tudo pelo lado trágico mas, vez por outra, encarar as situações com boa disposição. Faz até bem à saúde.


Multa por osmose



Um grupo de portugueses que há pouco tempoa visitou a África do Sul, alugou meia dúzia de carros e aí vai em passeio pelo Kruger Park, e Suazilandia. Da capital da Suazi à fronteira de Moçambique são uns escassos 150 quilómetros. Porque não ir lá almoçar? Lá vão os seis carros, passam a fronteira mesmo sem visto, deixando os passaportes no controle de fronteiras, porque se tratava de uma visita de um só dia. Um pouco adiante na estrada, a polícia. Manda parar os da frente e começa a multá-los porque não levavam os cintos de segurança colocados. O último carro parou também, mesmo sem que tivesse recebido ordens para isso, mas porque viajava com o grupo. Aproxima-se o polícia:
- Tu também estás multado.
- Multa de quê?
- Cinto de segurança.
- Mas eu tenho o cinto colocado, como vê. Só parei porque venho junto com aqueles carros.
- Paraste, não paraste? Então também vais pagar a multa.
- ?!

A “doença” da pele



O Jorge é um trabalhador moçambicano, escuro, como seria de imaginar, que presta serviço na carpintaria da Casa do Gaiato. O “mestre” é um antigo gaiato de Portugal, português de sotaque fechado lá da bimbas do Minho, louro. Trata todo o mundo como se fossem cães infiéis! Foi possivelmente assim que o trataram em pequeno até ser recolhido em Paço de Sousa, para se tornar homem. Berra muito, com todos, mas não passa de berraria, e a maioria já o deixa a falar sozinho. De qualquer modo não é agradável passar o tempo todo a ouvir um sujeito berrar, tanto mais que não parece ser esse o melhor método de ensino. Mas...
Um dia o Jorge, depois de ter feito uma série de asneiras na montagem dumas janelas, ouviu uns “porros” a mais e foi queixar-se. No calor das suas queixosas divagações teve a infelicidade de apontar para o pulso e dizer ameaçadoramente:
- Se não fosse esta pele.
Eu, que estava assistindo, não participando, do problema, avancei para o Jorge, peguei no braço dele e:
- Não me diga que você está com um problema de pele. Chegue aqui à luz. Deixe ver. O melhor é você ir ao posto médico. Pode ser contagioso.
O Jorge entupiu. Entendeu a mensagem e riu. Daí em diante quando passava por ele sempre lhe perguntava se estava melhor da pele! Ganhei outro amigo!
 

Lá vai o combóio, lá vai...

Portugal, quando senhor de Moçambique, seguiu à letra a filosofia do homem de visão, cujas idéias foram desumanamente aplicadas, António Enes. Assim, em condições que na maioria dos casos se consideram hoje condenáveis, habilitou-se a colônia, ou província, com uma razoável rede de caminhos de ferro, com mais de 3.500 quilómetros de extensão. Isso permitiu desenvolver o país, e continua a ser uma das fontes de divisas, pelos serviços prestados aos vizinhos Suazilandia, África do Sul, Zimbabwe, Zâmbia e Malawi. Mal ou bem, depois da devastadora guerra fratricida, os combóios continuam a circular, a maioria do equipamento muito degradado.


“Apeadeiro Diogo”. Ao fundo a Casa do Gaiato

Uma das linhas faz Maputo-Suazilandia, sobretudo para daqui trazer o açúcar e outros produtos de exportação deste vizinho. A quarenta quilómetros da capital, passado Boane, o terreno sobre um pouco, muito pouco, e lá vem a formação, uma locomotiva e trinta e cinco vagões, a ter que vencer aquela serra de uns quarenta metros de altitude!
Durante as primeiras semanas que ali estive assisti a algo interessante. As locomotivas não tinham força para carregar aquela parafernália toda por ali “a cima”! O declive não será talvez de 0,5 por cento, mas a verdade é que num determinado lugar o trem parava. O maquinista descia, andava a pé pouco mais de mil metros e ia à Casa do Gaiato pedir para telefonar para a estação central. Ficava por lá um bocado na conversa, até que uma a duas horas depois chegava outra locomotiva a dar o empurrãozinho necessário para tirar o trem dali! Não aconteceu uma vez só. Durante várias semanas isto acontecia quase sistematicamente. Por fim devem ter reparado os motores e o problema ficou resolvido!]No ano anterior, ali mesmo em frente à Casa, onde está a moderna estação-apeadeiro, “Diogo”, nome do antigo proprietário português daquela machamba, e onde no tempo da guerra algumas formações ferroviárias foram dinamitadas e destruídas, voltava da Suazilandia mais um combóio, sempre com os mesmos trinta e cinco vagões a reboque. Desta vez o trem desce. As grandes inundações afetaram tudo, até a estrutura dos aterros de assentamento da linha, a que se pode juntar aquilo que normalmente se chamaria falta de conveniente manutenção. Um dos carris não aguentou, abriu e... lá vão vinte e seis vagões descarrilados. Uns com açúcar, outros com combustível, outros com carga diversa. O maquinista seguiu viagem. Quando parou na estação seguinte é que lhe perguntaram:
- Ha! Ha! Como tu só traz nove vagões? Onde estão os outros, pá?
- Não sei!
Não sabia. Nem se deu conta que a máquina puxava mais folgada. Era a descer. Da Casa do Gaiato é que viram o acidente, para lá correram, alertou-se a central e mandaram vir bombeiros e ambulâncias porque no meio daquelas ferragens estavam dois homens presos! Lá vieram. Primeiro, soldados para não deixar que o povo saqueasse o açúcar e outros alimentos. Sete horas depois o socorro aos homens. Um entretanto não necessitava mais de socorro!

Um dos vagões ainda lá está... “perdido”!

Dez. 2001

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Três histórias de Moçambique


Escrito em 2001. Em Moçambique.

A Sudoeste de Maputo, Boane, e dali para o Sul mais uns 15 quilometros está a aldeia da Massaca. Mais um pouco e é a Casa do Gaiato.
Numa das deambulações pela Massaca, para captar em foto algumas imagens do povo, passei junto a uma casa onde estava uma mulher sentada à sombra a peneirar farinha. Ao lado um filhote de uns 2 anos. Disse-lhes adeus, sorriram e corresponderam, descontraídos, com muitos outros adeus! Segui em frente. O filhote levantou-se e veio até à esquina da casa sempre a olhar para mim. Parei, para ver por onde seguir, qual rua escolher, olhei para trás e lá estava ele, ali a uns escassos metros. Disse-lhe adeus de novo. Sorriu e saiu a correr para mim! Quando chegou ao meu lado agarrou logo na minha mão. A mãe levantou-se veio atrás e quando o viu ao meu lado chamou-o: Zé! O tal de Zé disse logo “Não” e não largava a minha mão, com uma cara muito bem disposta! Devia querer ir passear comigo! A mãe tirou para fora um recheado peitão a ver se ele se interessava pela comida. “Não”, sempre com uma cara divertida, mas com a certeza de saber que naquele momento não era esse o programa que o atraía. A mãe aproximou-se (peitão já recolhido dentro da blusa, como é óbvio), ele largou a minha mão e fugiu. Lá foi ela atrás, apanhou-o, deu-lhe a mão, e quando os dois voltavam da grande “fuga”, uns cinco ou seis metros, fotografei-os. Vai aqui a foto deles. Muito simpático “O Zé”!


O Zé!


* * *

O eclipse do sol

21 de Junho de 2001, o eclipse do sol, total nalguns lugares no centro de Moçambique, Zâmbia e Angola. Um eclipse do sol é sempre um espetáculo interessante, não só pela raridade, mas sobretudo quanto é total. A Zâmbia tirou grande proveito turístico do evento, Angola, a muito custo conseguiu reunir um pequeno número de cientistas, e Moçambique? Podia ter ficado quieto, mas...
Moçambique soltou um alarme de tal forma aterrorizante sobre os efeitos do eclipse, que o povo, não só o povo simples do interior, mas o “evoluído” da capital, ficou à espera de nova catástrofe! Habituado a catástrofes – secas, inundações, guerra, pragas de insetos, secas, inundações, ... – agora chegava mais este: o eclipse do sol.
Um dos jornais publica, página inteira, um artigo dedicado ao assunto com quase duas semanas de antecedência, e com a manchete: Cuidado com o eclipse, as pessoas podem ficar cegas! Entrevista aos Drº (sic) Rogério Utui, especialista em Física Nuclear e Cardoso Homem (do Aeroclube). Começa assim o artigo: “Isto é perigoso. As pessoas podem ficar cegas.” Outro jornal publicou que “mais cego é quem não quer ver e que existem dados segundo os quais no dia do eclipse será instalada uma barraca em Quelimane (?) para os curandeiros porem à prova dos turistas os seus dotes em matéria de medicina tradicional em trabalho a ser feito em conjunto com a AMETRAMO (Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique). Isto é ridículo. Mais adiante: “É bonito sim senhor. O fenómeno é espectacular mas as pessoas devem resistir à tentação. O País pode cegar. ... fica um bocadinho frio, os animais ficam baralhados, os galos cantam. Mas deixemo-nos de rodeios. O eclipse para as condições nossas é um risco à saúde pública. Com ele pode aparecer um “boom” de doenças de vista, o que logo à priori poderia significar ter alunos sem estudar, e por exemplo uma povoação cega.”
E seguiu por aí fora a quantidade de artigos nos jornais. Até a Administração de um Distrito distribuiu um Aviso: “Avisa-se à população em geral e as Direcções das Escolas, que no dia 21 de Junho do ano em curso haverá eclipse do sol durante algumas horas a observância da Luz solar nesse dia será perigoso. Se insistir poderá perder a vista ou ter problemas mais complicados com a vista ou desaparecimento total da retina. Apela-se a compreensão que será o bem da saúde.”(sic)
O governo chegou a antever a possibilidade de, ainda mais uma vez, pedir ajuda internacional, para atender aos flagelados do eclipse. O drama era a possibilidade de cegueira! “Se não se usarem óculos próprios é alto o risco de cegueira!”
Ninguém disse nem como, nem porquê se corria esse risco, que é muito maior sem eclipse, com o sol na sua plenitude! Em qualquer dia do ano olhar demoradamente para o sol pode causar danos, irreversíveis, aos olhos, é verdade. Mas quem aguenta abrir o olhão e encarar de frente o astro rei? Nem com óculos escuros que para pouco mais servem do que enfeitar a cabeça de meninas e meninos que se julgam assim mais... E partem, as rádios e Tvs a anunciar: “Cuidado com o eclipse. NESSE dia não olhe para o sol. Pode cegar!” “Não SAIA DE CASA sem óculos especiais!”, e outras barbaridades na mesma tónica!
O governo, face ao implacável e imparável avanço desta nova calamidade, decreta tolerância de ponto. (Atenção: foi tolerância de ponto só para os nacionais! Os estrangeiros, era lá com eles, e quem sabe se estariam equipados com alguma tecnologia de ponta que os preservasse da desgraça!) As mães avisam que nesse dia não poderão ir trabalhar porque têm que segurar os filhos dentro de casa, o pastor aflige-se porque o gado está no pasto e não tem como recolhê-lo e abrigá-lo dos apocalípticos efeitos do eclipse. O país aterroriza-se.
Houve até quem, recolhido com a família dentro da sua palhota, mas através do seu telefone celular consultasse a emissora de rádio sobre a capacidade de proteção do tecto de palha! Na capital, no Maputo, a partir do meio dia (o eclipse começava às 14h e 30m) as ruas desertificam-se, as pessoas recolhem a casa.
Se aqui estivesse o Astérix, ao ouvir todo este alarmismo, deveria pensar que desta vez é que o céu lhe ia cair em cima da cabeça!
Passou o eclipse. Foi interessante. Reportaram-se as autoridades administrativas: “Não aconteceu nem um só caso de cegueira. Nem nas pessoas nem nos bois!”
Moçambique perdeu a oportunidade de pedir nova ajuda internacional!

* * *

Quem são os corruptos ?

Quando a fome se repete, dia após dia, com a mesma regularidade com que o sol nasce e se esconde, também todos os dias, ininterruptamente, não parece redundância falar em corrupção.
No Brasil já nem adianta. Mesmo quando aparece num Editorial de um jornal, não de bairro, mas larga tiragem, que um empresa contratada para avaliar o volume de roubo que se pratica no país aos cofres públicos conclui que ultrapassa R$ 100 bilhões de reais, mais de quatrocentos milhões de dólares, e tudo acaba ficando por isso mesmo. Pobre Brasil rico!
Afinal o que é, mesmo, corrupção? Qualquer dicionário responderá a esta pergunta com ato ou efeito de corromper, estragar, infectar, desnaturar, tornar podre, perverter, etc. Quem não sabe o que isto é ou não conhece, pelo menos de nome, um corrupto? Quem não hesitou já sobre o seu próprio preço, a sua fronteira entre honestidade e podridão? Isto por aqui, por Moçambique, é, no mínimo, curioso. Moçambique, por muitos fatores é um país pobre, arrasado pela política, pela guerra e pelas intempéries naturais, que teimam em se alternar entre secas e inundações e pragas. Algumas de violência incrível. Afluem ajudas de todos os cantos do mundo, inclusive de países que estão por sua vez a ser ajudados. É assim a solidariedade humana. Quando se tem pouco parece mais fácil dividir com quem nada tem.
Mas quem conhece África já sabe que quando um animal agoniza, os abutres, os chamados urubus no Brasil, ficam voando, lá no alto, em círculos, sobre a preposta refeição. E, muitas vezes, ainda o moribundo tem uma réstia de vida, já os carniceiros começam a devorá-lo. Não é só em África, não. Abutres, urubus, há-os em toda a parte do mundo. Como neste país tudo, ou quase tudo, está por fazer, o que tem de urubu espreitando é inacreditável.
Amavelmente aparecem propostas de ofertas, doações, para ajudar à reconstrução. Vagueiam pelo país personagens de ar tétrico, quase diria shakesperiano não fosse o receio de ofender o grande dramaturgo, à caça de projetos. Desembarcam de muitos países, e vêem oferecer projetos, dádivas. Uns oferecem voluntários, normalmente desempregados nas suas terras, recebendo seguro de desemprego e voluntariando-se para em África ganhar uns milhares de dólares, ainda com a vantagem de depois poderem propor-se para uma tese de mestrado! Outros oferecem equipamentos agrícolas, industriais, de transporte, o que for. Vendedores. Ferozes vendedores, porque nem é o comprador último que paga! Estranho isto.
A estrutura judiciária do país, pobre, repetir não faz mal nem desonra, necessitava de cinco mil dólares para custear um seminário, duração de cinco dias, para atualização de conhecimentos e normas para juízes. Logo surgiu um desses urubus que se prontificou a ajudar. Voou para o alto, foi fazer o seu estudo e voltou com a proposta: oferta de cem mil dólares! O responsável, moçambicano, mentalidade de justiça, antes de responder ou aceitar, quis saber para que seriam os noventa e cinco mil remanescentes. Controle do projeto, técnicos estrangeiros para acompanhar o mesmo, viagens Europa-Moçambique e volta, hospedagem, viatura às ordens, etc.! Havia que satisfazer os urubus do controle! Não aceitou, o juiz. Ele sabe que há corrupção no país. Mas não aceitou a amável oferta nem o paternalismo do controle.
Outra proposta simpática. Um outro país europeu fez saber que queria fazer um donativo. Uma entidade, de intocável honestidade e capacidade, fez um estudo, detalhado, sério, e pediu, para desenvolvimento na área rural, USD$ 120.000. Os ofertantes, retiraram, voaram alto e para longe (olha os urubus!), estudaram e refizeram o projeto, e alguns meses depois de “exaustivo trabalho”, a refazer o feito, voltaram, pelo ar, em 1ª classe (urubu não viaja em classe económica), com a proposta da oferta definitiva. Era só assinar o contrato: valor USD$ 500.000, para se gastarem, na ajuda real, USD$ 120.000.
Incluía agora o projeto dois técnicos europeus, impunha o regresso de dois ex expatriados, casa mobiliada para cada um, carro novo, idem, salário de alguns milhares de dólares, idem, ajudas de custo, idem, viagens ao país de origem a cada seis meses (cegonha, prima do urubu, só viaja uma vez por ano!), e etc., e etc., e etc.
Resultado: o projeto não se executou porque a entidade, que todos os dias, há uma dezena de anos, está ao lado do povo a trabalhar, de graça, não aceitou participar no festim dos carniceiros!
É assim, em Moçambique. Fica no ar a pergunta: Afinal, quem são os corruptos?

sexta-feira, 28 de maio de 2010

VISITA AOS CONGOS - 2-

(continuação)


Já de volta a Brazzaville, onde reinava a tranqüilidade, a seguir ao jantar no hotel, noite escura, decidi ir dar uma volta a pé. Depois de atravessar aquele pedaço de estrada ou caminho deserto em que me cruzei somente com meia dúzia de pessoas que me ignoraram, cheguei a um cruzamento onde havia uma espécie de boate, bar, clube. Povo. Aproximo-me, o que espanta aquela gente, talvez porque ali nunca tivesse entrado europeu algum, e pergunto se posso entrar e tomar uma cerveja.

- Bien sur! Porquois pas?

Lá dentro, muita conversa e muita dança. Dizer que a dança estava animada seria pleonasmo porque em África dança e música são a vida daquela gente. Em pé, no bar, sob o olhar curioso dos presentes, fui apreciando o ambiente e bebendo devagar a minha cerveja. Não tardou que me viessem perguntar o que eu fazia ali naquele lugar, parecendo perdido.

- Nada.

De fato tudo quanto fazia era passear um pouco. E ver. Ver o que se passava à minha volta. Acabei por dizer quem era, onde vivia, o que estava a fazer no Congo, como era a vida em Angola, e não tardou que tivesse razoável auditório à minha volta. Eu era, naquele meio, a avis rara. Conversámos, bebemos mais uma ou outra cerveja e quando achei que era hora de me ir deitar, a conta estava paga!

Esta era a África que eu conheci e amei.

Como a viagem ainda teve algumas peripécias mais, vamos seguir. Domingo, dez horas da manhã no aeroporto para apanhar o vôo para Pointe Noire.

- O vôo está atrasado, porque só sai depois que chegar o vôo de Paris.

- Quanto tempo de atraso?

Não sabiam. Comprei um livro qualquer e sentei-me ali, a ler e olhar para um pequeno avião de vôo à vela, que descia daqueles céus com uma calma impressionante. Sempre me atraiu o vôo à vela. E nunca fiz!

Encurtando a história, o vôo de Paris chegou com seis horas de atraso! Seis. Deu para ler o livro todo e ainda tive tempo de o oferecer à moça da companhia aérea a quem entretanto perguntei cem vezes se ainda faltava muito para sair!

Finalmente em Pointe Noire a estadia prevista era de dois dias. O suficiente para contatar os possíveis clientes, e a saída de regresso a Luanda prevista para quarta feira seguinte às nove e meia da manhã. O aeroporto era a cinco minutos do hotel, e bastava lá estar com meia hora de antecedência porque normalmente não embarcava vivalma! No dia do regresso saí cedo do hotel para ir comprar alguma recordação para os filhos, já que em Pointe Noire os artigos de importação, sobretudo franceses quase não pagavam direitos alfandegários, e quando voltei bem antes das nove horas o gerente do hotel, aflito:

- Telefonaram do aeroporto a dizer que mudou o horário do vôo e vai sair uma hora mais cedo!

- Meu Deus! Está na hora.

Peguei nas malas e corri para um taxi. Quando este começa a andar, por cima de nós passou o avião! Perdido! Depois de ter esperado seis horas em Luanda e mais seis em Brazzaville, agora perdia o vôo, único semanal, porque adiantaram, sem me dar conhecimento, o horário! Fiquei com uma raiva...

Esperar uma semana em Pointe Noire, terra de mais ou menos nada... não era programa que me interessasse. Fui procurar saber como sair dali.

- Há sempre carros tanques de gasoil (óleo diesel) a sair daqui para Cabinda. Procure informar-se ali na Mobil.

Por sorte ia sair um, que se prontificou a levar-me, avisando que parecendo ser perto, em linha reta talvez menos de cinquenta quilómetros, até à fronteira de Cabinda, a estrada daí para a frente seguia pelo interior, pela floresta, e naquela época, Abril, de muita chuva, o tempo de viagem seria o que fosse! Antes um dia de viagem de caminhão do que uma semana em Pointe Noire.

Lá fomos. Dia seguinte, de manhã, bem cedo, já muitas horas de viagem no lombo, estrada esburacada e conforto de caminhão, a uns escassos trinta quilómetros de Lândana, a que houve pretensões de chamar Vila Guilherme Capelo em homenagem ao oficial da marinha portuguesa que assinou pelo rei de Portugal o Tratado de Simulambuco, e que já se chamou Cacongo, as chuvas tinham cortado a passagem no meio da floresta.

Carros querendo seguir para o interior, atravessar o lago que se formara, e nós na nossa “margem” sem podermos passar para a costa.

Mas valeu a pena atravessar, mais uma vez a floresta do Maiombe! É uma beleza, imponente.

Agradeci muito a boleia que me deram, arregacei as calças, mala e sapatos na mão, atravessei o lamacento lago e convenci um outro caminhão a regressar a Lândana, onde apanhei um taxi que, voando me levou a Cabinda. No último minuto, já o avião a fechar as portas, consegui entrar no vôo da DTA para casa. Foi uma odisséia e tanto.

Mas África tinha destas coisas (e muitas outras) que são páginas inesquecíveis da nossa história, e muitas delas, apesar da idade, gostaria de repetir.

Do livro “Loisas da Arca do Velho”, inédito, 2001