sexta-feira, 16 de abril de 2010


Memórias e Entretantos


I – O Entorno


Claro que sei quando ele nasceu. O Martins. Está escrito nos seus documentos, estão sempre a fazer-lhe essa pergunta, e depois isso só se esquece quando o mundo à nossa volta acaba, não restando mais do que algumas funções chamadas vitais para deixar o corpo, animal, vegetar por algum tempo, enquanto as despesas médicas aceleram à exorbitância, para..., para nada. Vegetal rega-se quando necessário e nada mais. Pode misturar-se um pouco de esterco à terra onde ele vai crescer e procura-se ter atenção não vão os insetos devorá-lo antes de nós. Com os Martins e semelhantes é diferente. Ao lado de um animal vegetando, fala-se baixo, como se um espinafre se espinafrasse com barulho, e tenta-se limpar o esterco que o, ainda, animal, expele.
Contra-sensos da vida, deixar de ser animal para virar vegetal. Coisa que deveria ser da ficção científica e é o dia a dia, aliás dia e noite de muita gente.
Mas entre saber quando se nasceu e lembrar-se daqueles tempos que o entornaram, quando o entornaram para o entorno da sua circunstância, vai larga distância. Volta e meia olha-se para umas velhas e desfocadas fotografias dos tempos da meninice e ainda da pré desta, acha-se interessante, mostram-se aos filhos e netos quem ali aparece, mas...não se vai muito além.
O físico vai aguentando menos, os anos pesam em cima em aceleração logarítmica, e a cabeça é a única coisa que ainda se deseja que se mantenha como o vinho do Porto, a melhorar com a idade! Ilusões.
Enquanto a cabeça não se vegetaliza também, virando abóbora ou coco, duro, fibroso, que é pior ainda, vamos batendo carinhosamente nas teclas do computador para tentar contar um pouco da vida do entornado, e ver se aparece no monitor, confuso e baralhado, o seu pensa-mento. Inteligível.
O ano em que nasceu, dizem os livros, há muito passado, foi um ano importante, apesar dos tempos difíceis, dificílimos, com a economia mundial virada do avesso. Não que essa econo-mia tivesse passado da mão dos poderosos para os oprimidos, o que seria, isso sim, ipsis ver-bis, uma grande virada. Não foi assim. Os poderosos só estavam um pouco menos poderosos e os oprimidos... menos esmagados. Assim como nesta época, nas anteriores e nas posteriores. A diferença só está no afastamento entre os poderosos e os esmagados! Quase leva a concluir que... deixa p´ra lá. Nada muda.

II – As Políticas



Começa a importância desse ano, com toda a evidência, pelo fato de ele ter proporcionado o nascimento de tão ilustre pessoa, porque para o próprio, sem ser egoísta ou narcisista, o centro do mundo é ele mesmo, e não só mas também, como lhe ensinaria alguns anos depois a pro-fessora de Português, pela qualidade que permitiu que não houvesse qualquer lapso que desli-gasse o ano interior do seguinte. São os dois fatos mais marcantes daquele ido, durante o qual se fundou em Portugal o jornal Avante, que ele se orgulha de jamais ter lido! Para extremista basta qualquer governo, qualquer parlamento, qualquer força bruta, provenha ela da finança, indústria, compadrio, etc. A única força que ele respeita e admira é a que vem do conhecimen-to, e pode ser distribuída a todos.
Em resposta ao jornal Avante, dois meses depois o governo português começa também a pu-blicar o Diário da Manhã, lido sobretudo pelos que tinham medo dos que liam o outro! Um pretenso desequilíbrio de forças!
Aconteceram muito mais coisas nesse tal ido de há muitos tempos atrás. Houve, ainda em Portugal, “tentativas” de revoltas militares e civis contra a ditadura, manifestações estudantis e populares que logo foram reprimidas pelas forças “leais ao governo”! Começaram as pri-meiras prisões, deportações e demissões da função pública, atividades que de “tão promissor início da Revolução Nacional” se prolongaram por quase mais quarenta anos! Também nesse ano, as “autoridades” fecharam a sede nacional da Maçonaria portuguesa. (Não se lembram da Revolução dos Cravos? Quantos foram demitidos, presos, tiveram que fugir e quantas institu-ições foram fechadas? Revolução, de esquerda ou direita é a mesma... Enfim.)
Já se começa a ver que o nosso biografado chega à luz do dia numa ocasião em que uma outra variante da inquisição, herdada da Europa central, e que tivera uma efémera vida de cerca de quatrocentos horrorosos anos em Portugal, se estava a instalar novamente no país, a bem da Nação, e para que conste aos presentes e vindouros, nesse ano o neófito limitou-se a mamar, mijar nas fraldas e sujá-las de outro modo menos líquido. O trivial.
Como toda a política é teatralizada, nesse ano, para mostrar que a maioria da população estava muito contente com a tal ditadura (e até estava, vejam só!) promoveu-se uma grande manifes-tação em Lisboa de apoio ao regime e aos seus presidentes, em que os entusiásticos manifes-tantes são levados de todo o país em comboios especiais (de graça, como é de bom tom) para dar gritos de ”Viva este e aquele e mais a União Nacional” e assistir a cortejos fluviais, co-mícios na rua e no Coliseu, e para encerrar a festa o chefe da banda pronunciou, no Teatro de São Carlos, como epílogo de toda aquela encenação, um famoso discurso explicando porque a ditadura era fundamental! Toda a gente gostou muito da explicação. Ainda nesse ano a Polícia Internacional Portuguesa é entregue ao Ministério do Interior dando origem àquela que mais tarde veio a ser conhecida por Pide! Foi um ano e tanto.

E o neném, lá, só a mamar.
Lá fora, o Fuehrer Adolph era o chefe incontestado do maior partido político da derrotada e miserável Alemanha, o nacional socialismo, o Japão invadiu a Manchúria, com o que o presi-dente dos Estados Unidos, o senhor Herbert Clark Hoover, que andava cheio de problemas com a tremenda recessão provocada pela famosa, de má memória, queda da bolsa de Nova York, pouco antes acontecida, ficou chateado e impôs algumas retaliações aos japinas, mas negou-se, ao contrário do que faz hoje o pretenso dono do mundo, o tal George W. Bush, a ser o condutor da política mundial.
Em Espanha Manuel Azaña depois de ter mandado o rei Alfonso XII para o exílio tornou-se o ministro da defesa e depois o chefe do governo, no Equador um golpe militar tirou do poder uns reaças e colocou outros, a Prússia, mal conduzida, era ainda um estado constituinte da República de Weimar, aliás o mais importante, em França o senhor Blum também não sabia o que fazer com o desastre económico mundial, e na Inglaterra o rei George V da casa de Saxe-Coburg-Gotha (later changed to Windsor) estava numa boa, instaladão em algum dos seus inúmeros e sumptuosos palácios, com o seu filho Edward ainda se preocupando com o país e o povo, que depois trocou por uma mulher qualquer, enquanto na Rússia e suas Repúblicas Socialistas Soviéticas o tal Iosif Vissarionovich Dzhugashvili, conhecido como Stalin, nome que ele mesmo, modestamente, criou e significa “homem de aço”, mandava milhares, milhões de compatriotas para a Sibéria em trabalho abaixo de escravo.
No Brasil mandava já o manhoso Getúlio. Macho. Gaúcho. Perante a grave crise do café de-cidiu que o governo compraria os estoques dos produtores para contornar o problema que se apresentava com a possível falência da primeira economia do país. O mercado mundial não reagia e a solução foi queimar grande parte do estoque, contra o espanto do país, atitude que hoje pode ser considerada normal! O Getúlio era vivaço.



III – As Novidades



Para alegrar as artes, Chagal pintava a Equestriana, Picasso já tinha torcido um monte de mu-lheres, Salvador Dali apresenta A Persistência da Memória, uma porção de relógios também torcidos, derretendo, Paul Klee mostra o Ad Parnassum que certamente veio a inspirar o bra-sileiro Alfredo Volpi, e por essa época Di Cavalcanti pinta Nu e arlequins.
Josephine Baker estréia no Folies Bergère, Duke Elington compunha Mood Indigo, George Gershwin Of Thee I Sing, a primeira comédia musical a ganhar o prémio Pulitzer, Maurice Ravel, aquele do Bolero chato e comprido, a sua maior obra, o Concerto para Piano para a mão esquerda, para o pianista vienense Paul Wittgenstein, Villa Lobos começa a compor as Bachianas, Louis Armstrong era já um sucesso espantoso e o grande Alfredo Marceneiro can-tava no Parque Mayer e tinha já gravado o primeiro disco.
Nas colónias portuguesas entrara em vigor o Acto Colonial que dizia proteger os indígenas de trabalho forçado para terceiros, mas que podiam trabalhar para o Estado. Simpático! Gover-nava Angola um senhor oficial do exército cheio de medalhas e condecorações, Ferreira Via-na, que... e em Moçambique outro, idem, idem, Pereira Cabral, que...

Imaginem a confusão que ia por esse mundo afora quando o Martins se lembrou de nascer. Bom, a verdade é que não foi lembrança dele, mas faz de conta. E não se tinham ainda inven-tado os computadores e os seus vírus, nem os Bin Laden e seus fundamentalistas, nem os Es-tados Unidos e os seus Bushs mandavam no mundo porque mal tinham como olhar para den-tro de si próprios!

Nesse ano a corrida de Le Mans foi ganha por um Alfa Romeu GS 1750cc Grand Sport, uma beleza, o Aston Martin, que tanto se celebrizou nos filmes do “007”, com um motor de 1.500cc de carter seco ficou num modesto 6º em Brooklands, a Audi fabricava um pequeno carro com motor Peugeot de 1100cc - quem diria? - , a Austro-Daimler, de Viena, onde traba-lhou Ferdinand Porsche, fazia um carro lindo de morrer, a BMW só fabricava um carrito pe-queno, sob licença da Austin, a Bugatti fez o que foi talvez seu o melhor carro de corridas, o GP 35, e os mais famosos de todos os carros as Bugatti Royale, type 41, motor de 8 cilindros e 12.7 litros de cilindrada. Só se fabricaram seis e somente três foram vendidos, e hoje os cin-co que sobram valem... ó se valem! A Cadillac lançou um motor V12 de 6 litros, a General Motors ultrapassou a Ford em vendas, com um modelo de 6 cil e 3.2 litros por US$595. Por este preço quem não comprava? A Chrysler tinha entre outros o imponente Imperiale CG 6.3 litros, por pouco mais de US$3.000. A Datsun que hoje é Nissan chamava-se DAT, e antes disso era Kwshininsha, e fazia uns carros mais feios do que Judas! A Delage e a Delahaye, duas marcas francesas que fecharam no mesmo ano, em 1954, faziam carros lindíssimos. A Duesenberg, o orgulho dos americanos, carro para milionários que custavam à volta de US$18.000, tinham embreagem dulpa, seca, suspensão com molas elípticas e amortecedores hidráulicos, travões com servo, e outros luxos. A FIAT lançava o Balila de 6 cil. com freios hidráulicos por £ 335! A Ford! A Ford tinha o seu famoso modelo “A”, fabricava já uma Station Wagon, o que hoje é coqueluxe, e o Sedan com um preço de US$450, tinha vendido quatro milhões e meio de carros em quatro épocas! A Horch, que fazia os carros dos generais alemães, lançou um modelo de 12 cil, 5.990cc, os “600” e “670”, lindões e relativamente baratos - a mão de obra na Alemanha estava pelas ruas da amargura - . A Isotta Fraschini fazia um carraço com motor de 7.4 litros, 120HP, vendido nos USA por US$22.750 e na In-glaterra por £2.900 - olha o câmbio! A Mercedes Benz com o glorioso SSKL, motor 7.1 litros o carro de sport mais rápido, tanto que ganhava competições contra carros especiais de corri-da, a MG com o modelo “M”, motor de 746cc ganhou o Grand Prix da Irlanda e o Troféu de Ulster, e a Peugeot, a veterana das marcas de automóveis, já naquela altura com 42 anos de existência passava a usar bobina de ignição no seu “183” de 6 cil. e 2 litros, e nesse ano ainda a Rolls Royce comprou a Bentley e mantinha o seu alto padrão com o Phantom II, que é de fazer babar! Nascia a S.S. (carros, não a polícia nazi) que deu origem aos Jaguar. Finalmente a Volkswagen: não havia. Nem Toyota, nem Ferrari e a Porsche só apareceria quando o Mar-tins já tinha carta de condução.

Agora que já se definiu o ambiente, o entorno em que foi entornado o bebé, vamos seguir via-gem porque a transmutação do cérebro em abóbora, ou coco - atenção aos acentos na palavra - pelo que se acaba de expor, não está longe.



IV – As Comemorações



Para melhor se situar a época do tal nascimento, podemos ainda acrescentar que quinhentos anos antes Nicolaus Copernicus (Nikolaj Kopernik; ele era polonês) escrevia De Revolutioni-bus Orbium Coelestium, que para não ter chatices com Roma dedicou ao papa Paulo III! Exa-tamente cem anos depois, Galileo Galilei escreveu “Diálogo Das Marés”, cujo título foi de-pois alterado para “Diálogo Sobre Os Dois Grandes Sistemas Do Universo” o que provocou uma terrível maca com Roma que o entregou à Inquisição para ser julgado por “grave suspeita de heresia”. Acabou em prisão domiciliar e proibido de discutir por escrito ou mesmo oral-mente as teorias de Copérnico!
Passados mais trezentos anos Joseph Louis Gay-Lussac, o que formulou umas ainda hoje bá-sicas teorias sobre gases, entra para a Câmara dos Deputados, e por fim e definitivamente si-tuar a época do aparecimento neste mundo de mais um dos seus habitantes, cerca de dois mil anos antes, o senhor Hero de Alexandria inventava um sistema de motor a vapor, um aparelho pneumático que fazia jorrar água para o alto, um aparelho ótico para medições geográficas e muitas outras coisas que hoje em dia a maioria das gentes não faz idéia do que seja. Ah! É verdade, exatamente mil e quinhentos anos antes. o conhecido (por quem?) senhor Khosrô I Anourchivan assumia o trono da Pérsia.

Chegou a ocasião de perguntar: o que temos nós com todo esse entorno? Nada, claro, mas quem souber estas coisas, e outras, pode com muito mais facilidade localizar o indivíduo no seu tempo e melhor também compreender o seu desenvolvimento físico e intelectual. Quem não estiver interessado em saber é só deixar de ler o resto que o assunto fica resolvido! Mas como todos sabem que há quem goste de política, ou de música ou belas artes, carros, letras e ou meramente meter o nariz na vida alheia...


II – Um dos entretantos


O Martins não era um rabo de saia, mas... tinha uma habilidade especial para não perder uma só de vista. Tal o esforço que fazia para não perder um só dos detalhes femininos que circula-vam pelos alcançáveis horizontes chegou a ter a capacidade, tal camaleão, de dirigir cada olho para seu lado! Via tudo, tudo. O problema é que a sua placa mãe, o cérebro não conseguia distinguir as duas visões com facilidade o que lhe baralhava as idéias. De quem é a perna de quem, e o decote, e as curvas que se bamboleavam, etc. Mas isso era o de menos porque ao fim e ao cabo o Martins ficava-se quase sempre no olhaste e...

Pouco antes de aparecer à venda o Porshe, o Martins estava habilitado a conduzir! Nada tem uma coisa a ver com a outra, até porque nunca alcançou na vida o status financeiro para com-prar uma máquina dessas, e segundo ele confidenciava ainda há bem pouco tempo a um ami-go, ainda não tinha perdido a esperança de realizar esse sonho simples, uma vez que a espe-rança é a última coisa que morre, ele está vivo, e volta que não volta joga na loteria. Quem sabe?

O seu primeiro carro foi um modesto modelo que quando o comprou tinha só dezanove anos de existência, e contra o que tudo levava a crer ainda andava, e bem. Um olho na estrada outro nas garotas que iam ficando para trás como os eucaliptos que as ladeavam, as estradas, onde há eucaliptos, Martins sentia-se senhor da situação. Jovem, boa pinta, as garotas iam cair. Mas a juventude do carro impedia que alguma caísse, e quando isso acontecia, o carro estava lá longe, depois de dobrada a esquina, bem na sombra de uma frondosa árvore que impedia que a luz dos candeeiros de rua o iluminassem. Disfarçado.

Quartas à tarde e sábados a seguir ao almoço, Martins e sua viatura, iam ao café. As garotas nem notavam o carro, e só os homens para lá de meia idade é que o apreciavam. Um dia surgiu a luz no fundo, no fundo de que mesmo? Vamos ver o que o Martins dirá a respeito. “No fundo... enfim, lá no fundo.” Explicou ele a este seu biógrafo.

Tarde de sábado, um mulheraço entrou também no café e as duas vezes mais olhos do que os frequentadores e funcionários presentes, seguiram-na com atenção, no todo e perscrutando nos detalhes. Os olhos masculinos com pensamentos óbvios e desejosos e os femininos inve-josos. Martins incluído nos primeiros, o café estagnado no palato, não desgrudou a vista, os dois olhos em simultâneo naquelas curvas, e não só, como na saia justa dum verde entre oliva e tenra folha de parra e blusa da mesma folha após vindima e o Martins, pensando como seria aquela afrodite só com a folha de parra, qualquer que fosse o estágio do seu desenvolvimento vegetativo.
Martins sentado numa mesa bem ao lado do balcão onde a divina, em pé, tomava o seu café, enebriava-se com o cheiro que ele nem percebia que era mesmo do quente e preto robusta que lhe estava na frente. Aspirava Christian Dior dos poros da sua imaginação e fragância vínica do colorido da roupagem que envolvia a bacana bacante.
- Não tenho troco – foi a frase mágica que o despertou. Pensou que se estava a gerar um con-flito entre o balconista e a cliente, por causa de merreca. Num pulo, café ultrapassando a glo-te, está o Martins a dizer: – Se me permite... enquanto entrega umas moedas para pagar o café da dona.

Sorriso pestanudo de agradecimento, vénia corada do Martins, às ordens, foi um prazer, lá vai o sonho bamboleando porta fora, todos os mesmos olhos que a seguiram na entrada a acom-panhavam na saída voltando à posição vegetativa pré sintonizada. Martins, esqueceu-se de se voltar a sentar. Pagou ainda o seu café, e saiu também sonhando e aspirando, olhos semi cer-rados para não tropeçar nos outros circunstantes, o imaginário perfume que lhe ficara gravado.

Maio.09

quinta-feira, 15 de abril de 2010


Apreciem a beleza desta descrição do grande mestre Óscar Ribas:


UANGA (feitiço)

Romance Folclórico angolano
de Óscar Ribas
Editora : União dos Escritores Angolanos
Retirada do Canto "Festa de Núpcias ''
Páginas 44 – 47

Conheceram-se numa massemba.
Este bailado, rico de fogosidade e elegância, persistiu do caduque, dança de Ambaca. Como afinidade, persistiu a característica fundamental - a semba ou umbigada. O caduque executava-se ao ar livre sob a toada do goma (tambor comprido), dicanza (chocalho de bordão ) e uma lata vibrada com duas baquetas grosseiras. Com o aparecimento da harmônica, nasceu então a massemba: substituiu-se o tambor e a lata por aquele instrumento, pela sala trocou-se o ambiente campestre.
Ultimamente, o instrumental associou o pandeiro, os ferrinhos e a garrafa, funcionando esta como aparelho de sopro. O fogope - voz de comando para a semba - passou a determinar o ritmo da musica, circunstância que releva a melodia. A indumentária também se requintou: as damas chegaram a trajar de igual, poupando até, num sarau, duas mudas; e os cavalheiros embora menos rigorosos , já se apresentam com a mesma uniformidade inclusivamente de smoking.
Apesar da evolução, a messemba tende a desaparecer: os bailes invadem as esferas humildes, e vestimenta européia, hodiernamente proferida pelo elemento feminino , não se harmoniza com ela. Entretanto sua glória repreenderá através das páginas do folclore angolano: Alimentou a folia durante séculos. Em séculos, em seus volteios recrearam-se muitos colonos, alguns do nosso escol.
Outra famosa dança campal era a jimba. Exercitava-se sob o acompanhamento de canto, com puíta (tambor feito com uma ancoreta , sendo aberto um fundo e outro tapado com uma pele, a qual prende interiormente um caniço , vibrado com uma corda ) e bendo (pífaro de caniço).Mais teatral que a massemba, movimentava-se em círculos determinados pelos dançadores: com cabriolas, pelos homens, com saracoteios, pelas mulheres. Mais tarde originou a quimuala.
Ambas já não se praticam e pertenciam as camadas inferiores.
Essas e outras diversões mortas, porém subsistem debaixo de diferentes aspectos, pela transplantação de antigos escravos, procriaram em países remotos, mormente o Brasil. Mas como bons filhos essas mesmas assinalam sua procedência: a mágoa nos cantares, o viço no folguedo.
E todo o mundo, no arrebatamento do prazer, aquece-se ao eletrizante calor da saudosa prole africana.
Na massemba em que o casal se relacionou, soluçava a harmônica em ais de amor, ria a dicanza em loucas gargalhadas. E, em aprazível orfeão, homens de flor na lapela, mulheres de fita pendente do turbante, todos vaidosamente trajados, cantavam com delírio:

Soou o tiro,
Ó gentes que somos do senhor Quinjango
Quinjango é forasteiro ilustre,
Como militar anda por muitos caminhos.

Contados-lhe os dias
Hoje chegou Quinjango
Ele é forasteiro ilustre,
Como militar anda por muitos caminhos.

A patroa deu à luz
A escrava abortou, Quinjango:
Quinjango é forasteiro ilustre,
Como militar anda por muitos caminhos.

Comprastes uma galinha-do-mato
Mistura com galinha de casa, Quinjango
Quando fugir a galinha-do-mato,
Fica a galinha de casa, Quinjango.

O dinheiro, para ti,
Vale mais que mais a vida, Quinjango:
Ele é forasteiro ilustre
Como militar anda por muitos caminhos.

O mestre-sala comanda:
- Com elas!
Nas rodas dos dançantes - pá - rebenta uma palma uníssona.
Ao centro, depois dum breve saracoteio, detém-se em frente deste ou daquela, com a mão espalmada no peito saúda-os com uma vénia, que é correspondida com outra.
E: “Damas e cavaleiros para o centro!” – os saudados saem dos lugares, serpeiam pela sala, e – “Fogope!” - entrechocam-se com um figurante do círculo. Por sua vez, esse irrompe do cêrco, o outro preenche-lhe o posto, e as sembas sucedem-se na mesma cadência.
E à luz rutilante de dois candeeiros de carboneto, cavalheiros e damas, cada qual primando no donaire do volteio, rodopiam sobre si mesmos, ondulam garbosamente, dançam a famosa massemba, o típico bailado de Luanda.
A animação lateja no ambiente: havia elasticidade nos movimentos, ardência nas entoações. A harmônica, sempre súplice, gerava afetuosos sentimentos, ao passo que a dicanza, galhofeira por índole, desvairadamente se ria das pieguices despertadas. Mas ninguém ligava importância ao chocalho de bordão: ele era insensato, apenas sabia cachinar.
Pela sua veleidade, os corações só escutavam os lamentos da harmônica: falava em amor, amor concebia.



Lições de Agostinho da Silva


Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu, do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus. Se o criador o tivesse querido juntar a mim não teríamos talvez dois corpos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.



Agostinho da Silva

terça-feira, 13 de abril de 2010


“Quando as Rolas Deixam de Arrolhar”





Este o título do livro que Inácio Rebelo de Andrade acaba de publicar pelas Edições Colibri.

Inácio tem um percurso de vida impecável. Começou em Angola, onde nasceu em Nova Lisboa, como Regente Agrícola, passou a Engenheiro Agrônomo, e hoje é Professor Catedrático Aposentado da Universidade de Évora.

Além de todos os trabalhos técnico-científicos que apresentou durante a sua vida profissional, e foram muitos, desde 1994 vem desenvolvendo e publicando uma quantidade impressionante de romances.

Quase todos, ou todos, baseados na sua vivência angolana.

Sem linguagem acadêmica, mas simples sem ser pobre, o que dá aos seus escritos um valor especial, e nos proporciona uma leitura agradável, quase um tipo de conversa entre amigos.

Sobressai seus nos romances e contos uma ética infelizmente rara nos dias de hoje, e até os temas mais íntimos, como as intimidades de marido e mulher na cama, são tratados com respeito e subtileza.

No final de cada conto deste livro fica no ar uma mensagem, por vezes fria, do egoísmo humano, mas sempre como um recado dado com a sabedoria da simplicidade e dignidade.

Gostei, Inácio, e por isso coloco esta “crítica” no meu blog.

12.Abril.2010

NOTICIAS  DE  LONDRES   -2-



Já lhes falei nos “péssimos” serviços de transportes públicos ingleses, quando comparados com os brasileiros!
E os hospitais públicos ?!
Disso então nem se fala. Como o frio em Londres estava pior do que no Pólo Sul, com aquele ventinho que entra até pelos tímpanos e nos arrefece as idéias – quando as temos - sensação térmica de 1°C positivo a 1°C negativo, a saúde dum velho mamífero tropical... foi-se abaixo!
Dor de garganta, febre alta e outros inconvenientes, obrigaram-no, apesar de levar um seguro de saúde que poderia ser atendido por médicos particulares, a recorrer, já noite, a um hospital.
Agora, para quem conhece a maioria dos hospitais do Rio de Janeiro fará uma idéia do que era aquele, hospital universitário. A rapidez do atendimento e sua simplicidade – nome, morada, telefone e que sintomas tem – a sala de espera, certamente acabada de pintar e lavar sabendo que um visitante estrangeiro poderia comentar, as cadeiras confortáveis, e cerca de uns quinze minutos depois, já a ser atendido!
Exatamente como aqui no Rio! Simplicidade, rapidez, limpeza e organização, tudo, tudo, copiado dos nossos serviços de “saúde”! ... de saúde?
O primeiro médico deu-lhe logo alguns comprimidos para baixar a febre e encaminhou-o para um GP- general practice.
- No outro pavilhão ali em frente.
Passou ao outro pavilhão. A mesma impecável “sujeira”. Atendimento e sala de espera, com cadeiras confortáveis.
Nova e rápida inscrição, aguarde um pouco, e, de fato, não tardou a ser atendido. Simpático, o médico diagnosticou uma laringite forte, e passou uma receita de Amoxilina 500. Quando lhe disse que não se dava bem com esse medicamento tirou-lhe logo da mão a receita que havia feito e substituiu por outro.
Eram cerca de nove horas da noite. E agora onde encontrar uma farmácia aberta? Logo um dos atendentes indicou qual farmácia, que estava a caminho de casa.
Ali passaram; entregue a receita ao sujeito que estava a atender, espera um pouco e volta ele com o medicamento.
O velho tirou da carteira uma nota de £ 20, para pagar. O farmacêutico olhou-o com ar de espanto: “This is what for?”
Foi nesse momento que ele se apercebru que os medicamentos receitados no hospital são gratuitos!
Valeu a pena ter apanhado aquela laringite para poder comparar o que faz um país, organizado, mas que não admira porque copia tudo o que os governos do Brasil têm feito!

Fala sério... ó meu!

12-abr-10

Já do Brasil, por Francisco G. de Amorim

domingo, 11 de abril de 2010


NOTICIAS  DE  LONDRES



Os ingleses têm coisas admiráveis! Não foi a minha primeira visita a este país, talvez a décima, tendo a primeira acontecido há quase cinquenta anos.
Quando me refiro a “coisas admiráveis” não estou a falar do Big Ben, a Tower Bridge, nem os inacessíveis Bentleys, mas à atitude do seu povo no dia a dia. Eles gabam-se de terem sido os primeiros a estabelecer um regime (quase) democrático, quando obrigaram o rei John Lackland a aceitar a Magna Carta, os primeiros a usar máquinas na industrialização, explorando vergonhosamente a mão de obra das classes pobres que se alimentavam de gin e, às vezes um ovo. Também inflam o peito com a gloria dos primeiros sindicatos, dos seus grandes físicos, matemáticos e pensadores, sem esquecer Darwin o “pai” da teoria da evolução.
Armaram piratas e corsários, sobretudo o famoso Sir Walter Raleigh a quem (dizem as más línguas... e as boas) a rainha Elisabeth I emprestava furiosamente os seus amores, antes de se auto-denominar a rainha virgem! Entretanto espalham-se pelo mundo criam o grande império onde o sol nunca se punha e começam a levar para casa alguns hábitos dos novos povos. Espionaram e espionam todo e qualquer detalhe que os puossa favorecer ou aumentar o seu poderio e a sua organização. Viciaram-se no tabaco, elegeram a batata como base da alimentação, e não fizeram do “Five ó clock tea”, essa aguinha chilra e quente, um dos seus modos de vida.
Uma das regiões de grande espionagem, é hoje o Brasil, que, dizem as boas e também as más línguas, não tarda a ser a quinta potencia mundial, tanto mais que os ingleses, depois de terem sido a primeira, não tarda estarão depois da décima!
Posto isto vamos citar algumas das melhores cópias que os ingleses levaram para a sua terra. Primeiro a rede de caminhos de ferro! Igualzinha à do Brasil. “Ligeiramente” maior, mas... E os seus preços! Um grupo de sete pessoas pagou, ida e volta Londres-Brighton, £ 29,00, o que traduzido em Reais dá cerca de 80,00 reais. Todos bem instalados, confortáveis. Cerca de R$ 11,40 por cabeça! Ora como de Londres a Brighton são cerca de 75 quilômetros, equivale à distância entre o Rio de Janeiro e Petrópolis, cujo ônibus – não tem mais linha de trem! – só na ida, custa cerca de $20,00.
Além de mais os trens no Reino Unido partem e chegam a horas rigorosamente certas... tal e qual.
E os bus de Londres? Aqui é flagrante a cópia da organização dos ônibus do Rio, onde há dezenas de empresas a explorar os transportes públicos, cada uma com pior serviço do que outra. Um turista, em Londres, compra um ticket de uma semana e pode andar de ônibus o tempo todo, custando-lhe isso £ 16, (cerca de R$ 45,00). As carrocerias dos ônibus, bem como toda a mecânica é feita em ambos os respectivos países. O Brasil já é autônomo em combustíveis e ainda tem os renováveis, coisa que a Inglaterra não tem, e motoristas, no entanto ganham em Inglaterra mais do dobro do que os do Rio! Porque tanta diferença em serviço, qualidade, preço, etc., é isso o que os espiões da rainha tentam descobrir.
Os bus são impecáveis de limpos, os motoristas educados, as pessoas levantam-se, mesmo, para dar o lugar a idosos, em cada ponto dos bus tem afixado o horário em que cada linha ali passa, enfim viva o Brasil que tanto tem a ensinar ao velho e decrépito mundo.
Outros detalhes: lá pelo país da rainha,quando se repara o piso de uma rua, nem se dá conta de ter havido ali ou um buraco ou uma obra. Já no Rio o pessoal é muito mais clever! Normalmente ao tapar (?!) o buraco – coisa que não se tem feitos há anos, daí estarem as ruas e estradas todas num estado abaixo de lastimoso – os “técnicos tapa buracos”, colocam areia demais, pouca pedra e deixam um calombo! A idéia, interessante, é que com o tempo os carros ao passarem por cima acabam por nivelar o piso! Nunca nivelou, mas... E é conveniente saber que, por hábito, o mesmo buraco é refeito inúmeras vezes! A verdade é que é preciso dar trabalho a empresas contratadas para o efeito, que se fizessem o trabalho bem feito, ao fim de pouco tempo perdiam essa “boquinha”!
E os ingleses nos sinais de trafico! São uns complexados! Ninguém avança o sinal vermelho mesmo que não haja num raio de muitas milhas um simples cidadão que queira atravessar a rua. Tal qual, tal qual, como no Brasil, onde a luz verde significa que se pode passar a 80 quilômetros/hora e o vermelho só a 70!
O mais escandaloso são as escolas publicas. Toda a criança, inglesa ou imigrante, tem que frequentar as escolas. Criança vinda de fora não se lhe exige qualquer certificado: entra na aula da garotada da mesma idade, e como normalmente tem dificuldade em acompanhar o professor – língua nova – as escolas dispõem de educadores suplementares para ajudar estes novos a atingirem o nível que lhes compete.
E os professores não faltam às aulas. Incrível! Nos intervalos das aulas, as crianças ainda aprendem uma porção de jogos: basquete, tênis, futebol e outros, sendo que têm os devidos espaços e campos para praticarem esses desportos.
Estou a lembrar-me duma escola publica em Jacarepaguá onde uma professora de nome dedicado ao sacrifício – Joaninha d`Arc – faltava duas a três vezes por semana as aulas: ou dizia que ia ao medico, ou levava a filha ao medico, ou a mãe! Devia ser a mãe!
E os ingleses com os seus serviços secretos do MI6, tentam captar a filosofia básica dos brasileiros, nestes, e muitos outros aspectos, e levam do Brasil os conhecimentos e organizações para os implantarem em terras de Albion!
Para terminar estas notícias a rainha Elisabeth II ainda está para durar!
Mas...fala serio!
 
09-abr-10

do Brasil, por Francisco G. de Amorim