domingo, 11 de abril de 2010


NOTICIAS  DE  LONDRES



Os ingleses têm coisas admiráveis! Não foi a minha primeira visita a este país, talvez a décima, tendo a primeira acontecido há quase cinquenta anos.
Quando me refiro a “coisas admiráveis” não estou a falar do Big Ben, a Tower Bridge, nem os inacessíveis Bentleys, mas à atitude do seu povo no dia a dia. Eles gabam-se de terem sido os primeiros a estabelecer um regime (quase) democrático, quando obrigaram o rei John Lackland a aceitar a Magna Carta, os primeiros a usar máquinas na industrialização, explorando vergonhosamente a mão de obra das classes pobres que se alimentavam de gin e, às vezes um ovo. Também inflam o peito com a gloria dos primeiros sindicatos, dos seus grandes físicos, matemáticos e pensadores, sem esquecer Darwin o “pai” da teoria da evolução.
Armaram piratas e corsários, sobretudo o famoso Sir Walter Raleigh a quem (dizem as más línguas... e as boas) a rainha Elisabeth I emprestava furiosamente os seus amores, antes de se auto-denominar a rainha virgem! Entretanto espalham-se pelo mundo criam o grande império onde o sol nunca se punha e começam a levar para casa alguns hábitos dos novos povos. Espionaram e espionam todo e qualquer detalhe que os puossa favorecer ou aumentar o seu poderio e a sua organização. Viciaram-se no tabaco, elegeram a batata como base da alimentação, e não fizeram do “Five ó clock tea”, essa aguinha chilra e quente, um dos seus modos de vida.
Uma das regiões de grande espionagem, é hoje o Brasil, que, dizem as boas e também as más línguas, não tarda a ser a quinta potencia mundial, tanto mais que os ingleses, depois de terem sido a primeira, não tarda estarão depois da décima!
Posto isto vamos citar algumas das melhores cópias que os ingleses levaram para a sua terra. Primeiro a rede de caminhos de ferro! Igualzinha à do Brasil. “Ligeiramente” maior, mas... E os seus preços! Um grupo de sete pessoas pagou, ida e volta Londres-Brighton, £ 29,00, o que traduzido em Reais dá cerca de 80,00 reais. Todos bem instalados, confortáveis. Cerca de R$ 11,40 por cabeça! Ora como de Londres a Brighton são cerca de 75 quilômetros, equivale à distância entre o Rio de Janeiro e Petrópolis, cujo ônibus – não tem mais linha de trem! – só na ida, custa cerca de $20,00.
Além de mais os trens no Reino Unido partem e chegam a horas rigorosamente certas... tal e qual.
E os bus de Londres? Aqui é flagrante a cópia da organização dos ônibus do Rio, onde há dezenas de empresas a explorar os transportes públicos, cada uma com pior serviço do que outra. Um turista, em Londres, compra um ticket de uma semana e pode andar de ônibus o tempo todo, custando-lhe isso £ 16, (cerca de R$ 45,00). As carrocerias dos ônibus, bem como toda a mecânica é feita em ambos os respectivos países. O Brasil já é autônomo em combustíveis e ainda tem os renováveis, coisa que a Inglaterra não tem, e motoristas, no entanto ganham em Inglaterra mais do dobro do que os do Rio! Porque tanta diferença em serviço, qualidade, preço, etc., é isso o que os espiões da rainha tentam descobrir.
Os bus são impecáveis de limpos, os motoristas educados, as pessoas levantam-se, mesmo, para dar o lugar a idosos, em cada ponto dos bus tem afixado o horário em que cada linha ali passa, enfim viva o Brasil que tanto tem a ensinar ao velho e decrépito mundo.
Outros detalhes: lá pelo país da rainha,quando se repara o piso de uma rua, nem se dá conta de ter havido ali ou um buraco ou uma obra. Já no Rio o pessoal é muito mais clever! Normalmente ao tapar (?!) o buraco – coisa que não se tem feitos há anos, daí estarem as ruas e estradas todas num estado abaixo de lastimoso – os “técnicos tapa buracos”, colocam areia demais, pouca pedra e deixam um calombo! A idéia, interessante, é que com o tempo os carros ao passarem por cima acabam por nivelar o piso! Nunca nivelou, mas... E é conveniente saber que, por hábito, o mesmo buraco é refeito inúmeras vezes! A verdade é que é preciso dar trabalho a empresas contratadas para o efeito, que se fizessem o trabalho bem feito, ao fim de pouco tempo perdiam essa “boquinha”!
E os ingleses nos sinais de trafico! São uns complexados! Ninguém avança o sinal vermelho mesmo que não haja num raio de muitas milhas um simples cidadão que queira atravessar a rua. Tal qual, tal qual, como no Brasil, onde a luz verde significa que se pode passar a 80 quilômetros/hora e o vermelho só a 70!
O mais escandaloso são as escolas publicas. Toda a criança, inglesa ou imigrante, tem que frequentar as escolas. Criança vinda de fora não se lhe exige qualquer certificado: entra na aula da garotada da mesma idade, e como normalmente tem dificuldade em acompanhar o professor – língua nova – as escolas dispõem de educadores suplementares para ajudar estes novos a atingirem o nível que lhes compete.
E os professores não faltam às aulas. Incrível! Nos intervalos das aulas, as crianças ainda aprendem uma porção de jogos: basquete, tênis, futebol e outros, sendo que têm os devidos espaços e campos para praticarem esses desportos.
Estou a lembrar-me duma escola publica em Jacarepaguá onde uma professora de nome dedicado ao sacrifício – Joaninha d`Arc – faltava duas a três vezes por semana as aulas: ou dizia que ia ao medico, ou levava a filha ao medico, ou a mãe! Devia ser a mãe!
E os ingleses com os seus serviços secretos do MI6, tentam captar a filosofia básica dos brasileiros, nestes, e muitos outros aspectos, e levam do Brasil os conhecimentos e organizações para os implantarem em terras de Albion!
Para terminar estas notícias a rainha Elisabeth II ainda está para durar!
Mas...fala serio!
 
09-abr-10

do Brasil, por Francisco G. de Amorim

domingo, 7 de março de 2010

Já referi diversas vezes que em 1971 me ofereci como voluntário e estive seis meses em Moçambique, na Casa do Gaiato. Aqui vão algumas das impressões colhidas nessa ano que, bem espero em Deus, e nos homens, tenham levado um grande modificação para melhor.


O ensino


Entre outros encargos que me foram entregues quando cheguei à Casa do Gaiato, o mais difícil foi dar aulas de português aos alunos das 9ª e 10ª classes, na Escola Comunitária. Logo eu que sempre considerei o Português a disciplina mais difícil de ensinar! Basta consultar em Portugal as pautas de notas das escolas, para se constatar que sempre é esta disciplina a que piores notas tem. E, pior para mim, que ainda tenho estabelecido, desde os meus tempos de estudante, um conceito simples sobre pedagogia: se o aluno não aprende, a culpa é do professor! Ia pôr-me à prova na mais difícil das situações até porque não sou professor, muito menos de português.

A "Obra da Rua" - Casa do Gaiato, em Moçambique

Mas, como ao oferecer-me para colaborar com ta maravilhosa Obra, o pestanejei. Arregalei os olhos! Catei todos os livros que havia disponíveis na escola, li-os e iniciei as aulas por uma rápida apresentação, em que garanti não falar de guerra nem colonialismo, o que seria bater em teclas desagradáveis. E por um teste para avaliar o nível do conhecimento dos alunos. Uma desgraça! Nem na 4ª classe se fazem erros assim. Um vocabulário limitadíssimo, erros ortográficos elementares, total desconhecimento de princípios básicos de gramática, redações na quase totalidade ilegíveis ou incompreensíveis, enfim um panorama aterrador, mais ainda tratando-se de classes avançadas, a 10ª com exame oficial, a teóricos dois anos da faculdade, e somente cinco meses de aulas pela frente!

A bonita e simples capela

Para se ter uma idéia aqui ficam alguns exemplos recolhidos, e que no final do ano constituiu “uma recordação” entregue a todos os “autores”!
Excertos de redações, mantidos os erros:
- O céu é um espaço do universo, que sempre que sinto uma pequena variação de temperatura, chega-me a vontade de querer olhar para o céu. Às vezes sinto a variação de temperatura quando estou a dormir. Neste caso não sinto essa vontade que me tem aparecido quando não estou a dormir. ...tem estrelas mais brilhantes, outras polares e outras que parecem pequenas e agromeladas uma próxima das outras.
- O céu é um universo que incanta todos os seres humanos, vegetais e seres inanimados. O universo faz com a terra e as águas onde habita todos os seres vivos seja bem aprecida. Durante a noite as estrelas formam uma galáxia em forma de algumas figuras geométricas. São milhares de estrelas que existem no céu formando um percurso de ano luz.
- Quando vamos para a floresta nos antepenultimos dias as pessoas comecaram confusão comigo. - - Nos dias de regresso pidi alguem para mandar quên estava ao meu lado. ... Que é que você pretende anós.
- Palestra é um tipo de converça sobre um determinado tema;
- Prezada Talucha, é do meu licencioso e expontánea vontade, que desejo saber da tua opulenta saúde. Bom, para ser franco, no dia 3 entregaram-nos os boletins da Escola. O prol foi muito fraco.
- ... envergonhado que a familia esta-lhe esquecido;
- Freud foi em escritor de alguns livros moçambicanos. ou por outra é um nome adaptado na capa do livro!
Palavras da família do enunciado, como por ex. carro - carroça, carroceiro, etc.:
Abrir: abril, abri-latas, abrigar, abraçar, arbitro, fechar, tampar, abelinha, abel, abrigarafa, abretinho
Guia: guia dos professores, guiné, conduzir, dirigir, guidaster, guiagem, guiande, guiadouro, indicar, boletim, guida, guiaxa, guim, guinar, guiadinho, guiana, recepcionista;
Mar: mar vermelho, oceano, praia, mareco, marta, maria, banho maria, porção de água, etc.
Mel: melão, melancia, melagem, mesa, menos, medigno, melita, doce, açúcar, melagem, ...
Plural de cidadão: citadinos, e até citrinos!!!
Os numerais ordinais:
3 - trípula, triplu, treceiro
7 - sétuplo, sentilha
12 - dosi, duze, déssimo segundo, desimo segungo, duzia
50 - quingésimo, quinsézimo, sinquenta
63 - sicenta..., sexta gezimo, secenta
87 - oitavono e setímo, oitavo gezimo setimo
95 - nonogono e quitímo
154 - uma sentézimo e quinto gezimo quinto
E como estas, ou ainda pior, se possível, muito mais. Não podia desistir! O desafio tornou-se cansativo, mas aliciante, e tive ocasião de confirmar tudo aquilo que eu tinha como certo: o português é difícil de ensinar e se os alunos não aprendem a culpa é dos professores. Sem dúvida. E agora ali estava a experiência a mostrá-lo.
Tática usada: mandá-los ler muito, fazer muitas cópias, fazer muitos exercícios elementares como indicar o plural ou singular de algumas palavras, escrever frases em que entrem preposições, ou advérbios, selecionar adjetivos de textos e transformá-los em outros graus ou substitui-los por outras palavras, etc., etc. Aquilo que no meu tempo se fazia na Instrução Primária.
Aqueles jovens, entre os 15 e os 20 anos, mal habituados, a grande maioria com uma tremenda preguiça mental, aparentemente desinteressados, esperando talvez que a resposta lhes caísse do alto, como as ajudas que chegam a Moçambique para resolver todos os problemas do país. De entrada começaram a lamentar-se que lhes dava muito trabalho para casa! Alguns deles ou não faziam ou disfarçavam fazendo só uma pequena parte. Alteração de estratégia: a partir de hoje as notas vão ser dadas pelo aproveitamento do trabalho de casa. Melhorou. Exercícios nas aulas, exercícios para casa, comentários nas aulas, enfim, trabalhar. Foi difícil. Talvez tenham aprendido alguma coisa mais, recuperado um pouco, só um pouco, do tanto tempo já perdido, mas a partir de certa altura comecei a notar que os trabalhos de casa eram já feitos depois de pensados. Antes eram só para encher a folha de papel e deixar correr! Foi um progresso e tanto! Muitas vezes tive que lhes dizer que não adiantava tentarem enganar o professor: os enganados eram eles mesmos! Eu não estava ali para receber ordenado no fim do mês, muito menos à espera duma promoção. Eles não. Eles procuravam, os que queriam, uma promoção, que seria a passagem de ano.
Paralelamente tinha que lhes ir ensinando comportamento. Moral e cívico. Noções básicas de civismo e de respeito. Devagar e sempre, fui falando disto, e os últimos dias de aulas as redações foram sobre estes temas. Valeu a pena.
A turma da 10ª tinha dez rapazes e quatro moças, e da 9ª quinze mais seis. Os rapazes sempre mais metidos a vivaços, num país onde é normal um homem ter tantas mulheres quantas quiser! Uma das primeiras redações que os mandei fazer foi sobre o namoro. No dia seguinte trouxeram os trabalhos. Genericamente todos diziam que ainda eram muito novos para pensar nisso, que tinham muito que estudar, que isso era coisa de mais velhos, etc. Depois de os ler, comecei a aula:
- Vocês são uma cambada de mentirosos! Quem querem vocês convencer que ninguém tem namoro, nem quer, nem tem tempo? O trabalho que vos dei para fazer em casa não era para mentir. E se escreverem mentiras jamais vão escrever algo que preste. Só os bons escritores o conseguem fazer.
Muitos deles, e sobretudo elas, tinham ou o seu namorico, ou queriam tê-lo, e ainda por cima ninguém estudava nada e queriam com isso disfarçar!
- Vocês pensam que o professor é o quê? Que não foi jovem como vocês? Que não teve namoro? Que não fazia as suas malandrices?
Mandei-os fazer tudo de novo. Mentiram menos!
Alguns dos rapazes, mesmo os mais velhos, tinham alguns hábitos terríveis. Gente sem família, vindos do último degrau da sociedade, para eles, enfiar o dedão nariz acima, era coisa normal. De vez em quando lá se via um na carteira querendo furiosamente perfurar o cérebro via ventas!
Como falar nisso sem melindrar diretamente nenhum deles?
- Curioso como alguns de vocês procuram as respostas aos exercícios! Eu sempre que tenho dificuldade em ultrapassar uma questão, penso, olho para o alto, para os lados, respiro fundo, apoio a cabeça na mão, etc., mas nunca me tinha ocorrido usar o vosso método que é genial!
Silêncio.
- Ir buscar as respostas às questões, que certamente estão armazenadas no cérebro, via ventas, assim ó... e eu mesmo enfiava com aparente fúria o dedo no nariz, girando-o para um e outro lado e ainda procurando empurrá-lo com outro braço, acho o método sensacional, só que duvido que se consiga extrair alguma coisa por essa via!
Gargalhada geral. Todos olham para os habitués. Riram muito mas nunca mais algum deles repetiu a cena! Na aula.
Um outro assistia, não participava, assistia às aulas esparramadão na cadeira. Um dos convencidos lá do pedaço! Uma perna para cada lado, os pésões bem à frente, dificultando até a circulação nos corredores entre as carteiras. Na terceira aula tive que montar o teatro:
- A partir de hoje vou comportar-me como um moçambicano. Alterar a minha postura na vossa frente. Tenho-me comportado como me lembro de ter visto fazer aos meus professores, mas penso que terei que me adaptar às técnicas daqui.
Coloquei a minha cadeira bem na frente de todos, sentei-me recostei-me para trás e estiquei uma perna para cada lado. Não foi necessário dizer mais. O visado encolheu as pernas, endireitou-se na carteira, sob o riso quase convulsivo dos colegas, e nunca mais deixou de estar com postura correta.
Muitas outras cenas semelhantes se passaram.

 
A Aldeia da Casa vista da lagoa, onde, todos os dias,
centenas de patos bravos vão passar a noite.
A escola ocupa os três edifícios em primeiro plano,
e a capela destaca-se no alto.
Rimos em muita ocasião, trabalhámos, e por vezes tive também que representar o drama:

- Vocês não querem fazer os trabalhos de casa? Não se interessam por estudar mais, continuam a fazer um monte de burrice e eu que nada ganho com isto, o que estou aqui a fazer? Se vocês não querem, quem vai querer? Eu? Não. Então não vou continuar a dar aulas.
Sentava-me na cadeira, relógio na frente, e deixava correr uns bons minutos em total silêncio. Ouvia-se o voo de um mosquito se ali estivesse. As caras de todos eles mostravam preocupação e perturbação, e quaisquer minutos em silêncio total é uma eternidade. Mas é muito bom para que pensem um pouco com alguma profundidade. Ao fim desse tempo mandava anotar o trabalho de casa, que podiam começar a fazer mesmo dentro da aula porque ainda faltariam uns dez minutos para a saída. No dia seguinte o trabalho vinha bem feito.
No último dia entrei nas salas com um sentimento estranho: ainda não me tinha separado daqueles jovens e um aperto interior me dizia que já estava a sentir saudades! Espero muito que o meu trabalho lhes tenha sido útil, e que alguns ensinamentos, sobretudo os de conduta cívica, não deixem de ajudar a nortear as suas vidas.
* * *

O ensino, de uma forma geral, é muito fraco. Faltam professores capacitados, e também, porque não?, humildade para cada um reconhecer o limite das suas capacidades. O bom mestre tem que saber reconhecer, e confessá-lo, onde terminam os seus conhecimentos, para dar ao aluno a possibilidade de procurar outro degrau acima.
Não adianta querer ensinar a correr, e à sombra de cajueiros, toda a população do país, se no fim assistimos a uma tremenda degradação do nível cultural.
Há um abismo imenso entre o ensino pré e pós independência. Dizem-no os que estudaram no antigamente e hoje têm filhos nas escolas, mesmo nas melhores e mais caras, e até os missionários que desde há um século lecionam em todos os cantos do país.
Até nos seminários, alunos já no curso superior, filosofia, escrevem de tal modo que os professores muitas vezes não conseguem entender. Se fossem só os erros ortográficos, talvez se compreendesse o sentido. Mas a redação é ininteligível!
Será falta de consciência? Como se pode admitir que o reitor da Universidade Eduardo Mondlane, a principal universidade, estadual, tivesse aprovado a admissão de alunos com uma média de 2 e 2,5 valores em 20, só porque algumas províncias, de outro modo, não conseguiriam universitários? O reitor é um político, e se assim for é um inconsequente, ou é o responsável máximo pelo nível intelectual e cultural do país? Neste caso, irresponsável, também. O governo teve que interferir e anular, com toda a lógica e justiça, a decisão.
Aliás isto não é para rir nem admirar, porque no Brasil até analfabeto já foi admitido em universidade! Analfabeto total. Um jornal, para demonstrar a falibilidade do sistema de aprovação para as universidades levou vários analfabetos à prova do vestibular. Só tinham que assinalar o número que correspondia à resposta certa. Tipo loteria! A redação de português, porque analfabeto, não fez. Mas como um deles acertou a maioria das respostas, ficou em 9o lugar, entre mais de um milhar de candidatos, para o curso de Direito, e... foi aprovado! Lindeza, né?
Em visita de estudo passaram pela Casa do Gaiato umas dezenas de professores que lecionam português nas escolas técnicas de todo o país. Estavam num seminário para discutir e procurar soluções para melhorar o ensino. Foram ali ver se algo se fazia de diferente do que nas suas escolas, onde o nível de conhecimento dos alunos era abaixo de lamentável. Acompanhava-os um “mestre”, padre português, peito inflado, certamente de conhecimentos. Por um acaso cruzo-me com eles durante a visita e sou apresentado: um amigo, que está aqui a ajudar-nos e a dar aulas de português à 9ª e 10ª classes. Muito prazer, etc., e a pergunta genérica: e então? Eu não queria falar para não os chocar, mas uma vez que me perguntaram tive que dizer a verdade:
- Uma desgraça!
Intervém o paternalista mestre português:
- Coitados, é a segunda língua deles.
Tocou na ferida! Já não consegui manter a boca fechada:
- Coitados? Aqui não há coitados! Aqui há gente. O que não há é professores capazes. Lamento muito dizê-lo na vossa frente, e eu agora até estou no mesmo lado, mas essa é a verdade que eu sinto e vejo.
Fez-se um frio e um ar de espanto na cara daquelas dezenas de moçambicanos. Voltei ao ataque:
- Porque é que os “coitados” do antigamente, que também tinham que aprender esta segunda língua, chegavam ao fim dos estudos médios e ingressavam nas universidades, em Portugal, com um nível de conhecimentos muitas vezes superior aos da própria metrópole madrasta? Não eram os mesmos “coitados” de hoje? Eu não sou professor de carreira, mas quando estudei fiquei com a certeza de que se os alunos não aprendem a culpa é dos professores, e hoje que estou a dar aulas, confirmo plenamente este pensamento. A culpa não será de nenhum de vós individualmente, mas é de todos como unidade. O governo não vos proporciona meios, bem sei. Mas por causa disso vão ficar de braços cruzados e lamentar-se?
- É. Tem razão. Começava a cativar o auditório.
- Vocês conhecem o livro oficial de português da 10ª classe, não é verdade? De que país é?
- ?!?!?!?!
- Como se chama este país?
- ?!?!?!?!
- Chama-se Frelimo? Renamo, não é. Ou chama-se Moçambique? O livro é ou não somente um meio de propaganda exclusiva da Frelimo? É ou não uma constante naqueles textos o falar mal dos ”inimigos” do partido - os mabandido, a Renamo - e da grande desgraça que foi o colonialismo? Que ganham os jovens em que se lhes fale somente no que é negativo? O que ganham eles com o constante acirrar dos ânimos, quando o colonialismo acabou há 26 anos e a Paz se mantém há quase 10? Onde está o interesse na reconstrução e união do país? E mais, onde estão os exercícios de acompanhamentos dos textos? Onde está a metodologia do ensino da disciplina?
O mestre não piou mais. Os moçambicanos, que se iam chegando e me rodeando, assentiam e só não aplaudiam porque não era caso para tanto. Por fim disse-lhes:
- Meus amigos: a vossa tarefa não é fácil. Mas não desanimem. Alguns terão turmas com sessenta e mais alunos. Não há como ajudar sessenta de cada vez. Tem que ser deficiente o ensino.
- Há turmas até de oitenta!
- Como trabalhar toda essa gente? Vocês têm que exigir muito do governo, obrigá-lo a tirar dos livros os textos negativos e a editar os livros complementares. E se não tiverem gente habilitada para isso, Portugal ou o Brasil podem certamente dar uma boa contribuição, e hão-de fazê-lo com a melhor boa vontade e entusiasmo. Depois exijam que os alunos façam muito, muito trabalho em casa. Que leiam livros, jornais, o que for. Os livros de história, de ciências, matemática. Todos são escritos em português. Mas não lhes dêem folga. O país tem tudo por fazer, e nada fará sem muito esforço e sacrifício. Não esqueçam que vocês são os responsáveis pelo Moçambique de amanhã.
Belo discurso! Assim tenha a semente caído em boa terra. À despedida vieram cumprimentar-me:
- Boa tarde, senhor padre, e obrigado pelo que nos disse.
- De nada. Mas olhe que eu não sou padre!
- Muito obrigado na mesma, senhor doutor.
- Também não sou doutor.
- Então o que é?
- Sou o Francisco.

Escrito em 2001/2

terça-feira, 2 de março de 2010

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Orquídeas e
"Focinho de Porco"


Talvez em 1963, no tempo em que trabalhava para a Cuca, fui em serviço a S. Tomé, onde só tinha passado umas escassas horas durante as escalas que ali faziam os navios entre Lisboa e Angola. Desta vez ia ensinar o pessoal de alguns bares a lidar com cerveja de barril, que pretendíamos enviar também para aquela terra.
“Curso de Tiradores de Cerveja”, bastante badalado na pequena cidade de São Tomé, que passava a ter possibilidade de beber cerveja “a copo, de barril ou à pressão”, as imperiais, os finos, os chopes. No fim de cada aula sempre havia cerveja de borla para os clientes. Era necessário treinar os tiradores! Profissionalmente correu muito bem, e foi um trabalho proveitoso.
Como era obrigado a ficar uma semana na ilha, por causa dos vôos para Luanda, o tempo sobrava e procurei visitar um pouco daquela exuberante terra, sobretudo as plantações de cacau que não conhecia. Os meus cicerones eram ótimos. Amigos e colegas de estudo, um deles até do meu curso, fizeram questão em mostrar-me os mais ínfimos e especiais detalhes. Andámos muito, e vimos muito.
O verde ali é uma coisa! Exatamente sob o equador, calor e umidade certos, só não cresce o que não se deixa crescer. As ilhas de São Tomé e o Príncipe, podem considerar-se uma estufa com cerca de novecentos quilometros quadrados! Tudo aquilo é uma estufa... enquanto não se desmata!

Antúrios que se jogavam fora!
O que mais me impressionou nas plantações de cacau foi ver como se limpava o terreno. Tudo quanto crescia por debaixo das árvores era capinado: desde capins e plantas infestantes ou indesejadas de variadas espécies, a antúrios, lírios, begônias, orquídeas e outras plantas com flores e frutos dum exotismo maravilhoso, as imensas orquídeas cresciam agarradas aos troncos das árvores de sombreamento. Uma beleza. Passámos por caminhos abertos no meio dos cacaueirais ladeados com baunilheiras, planta também da família das orquidáceas, cujo perfume nos fazia pensar estarmos entre uma perfumaria e uma fábrica de bolos.

Begónias (dobradas)

Antes de sair de São Tomé fiz questão de pedir ao governador que me recebesse. Não foi difícil. O tal “Curso de Tiradores de Cerveja” fora comentado, e numa cidade com uma meia dúzia de milhares de habitantes, até um espirro se fica sabendo mesmo antes de ser dado! Sexa concedeu-me uns rápidos minutos pensando que eu ia ao beija mão.
- Senhor Governador, vou daqui impressionado. Esta terra é maravilhosa. Pena que viva quase exclusivamente do cacau. Exporta também um pouco de café, mas no fundo vive do cacau que enriquece meia dúzia de magnates lá em Portugal, e destrói sistematicamente uma riqueza natural que lhe podia dar muito dinheiro.
Sexa deve ter pensado que estava na presença de algum lunático. No mínimo um chato metido a esperto. Continuei.
- Eu vi capinar antúrios e lírios debaixo dos cacaueiros, que ficam no chão a apodrecer, quando na Europa se paga muito dinheiro por estas flores. São Tomé, e certamente o Príncipe, onde tenho pena de não ter podido ir, são estufas naturais. Podem-se produzir belíssimas flores exóticas o ano inteiro e vendê-las por bom dinheiro nos mercados ricos da Europa e Estados Unidos. Viver só do cacau, cultura quase exclusiva, está escrito nos livros, que acaba sendo um desastre no dia em que a cotação internacional baixar, além de esgotar as terras.
Sexa escutou e... boa tarde, passe muito bem!

Orquídeas que podiam ser de mil variedades

Falei sobre isto com muita gente. Com os meus amigos, técnicos, que mais não eram do que empregados dos donos das roças, para quem o único interesse era o chorudo lucro que dali lhes chegava todos os anos aos bolsos, lá... longe. Um dos maiores proprietários, e das melhores terras, tal como acontecia em Angola, Moçambique e ali em São Tomé, era o Banco Nacional Ultramarino, que cresceu imensamente à custa da sua política monetária de agiota. Criado para desenvolver a agricultura das colónias, os juros dos seus empréstimos foram sempre de tal montante que os agricultores que caíram nessa esparrela acabaram por ter que entregar as terras ao banco. Este, financiava-se a custo zero de juros! Pudera, o dinheiro era dos depositantes. Mas enfim, tinha previsto não falar de problemas políticos ou sócio-económicos neste texto, porque os considerandos poderiam levar a muitas páginas mais. Enfim, preguei no deserto. Estava bom assim. Para quem?

De todo aquele exotismo acabei colhendo umas hastes lenhosas com uns cinco a seis milímetros de espessura, de onde saíam uns frutos, não comestíveis, que nunca havia visto nada similar. Imagine-se uma pêra, bem amarela, cor viva, lisa, agarrada à haste não pela ponta estreita mas exatamente pelo lado oposto, ao contrário do caju, sem pedúnculo, bem encostada ao caule. Isso, assim, ao contrário. Imaginem ainda que a pêra não estava pendurada, como as que todo a gente conhece, nem de cabeça para baixo. Ficavam praticamente em posição horizontal. Da parte mais larga saem uma espécie de orelhas gordas, duas a três, parte integrante do mesmo fruto, e por isso com a mesma cor. Em cada haste, com uns sessenta a setenta centímetros de comprimento, o tamanho com que as colhi, entre três a quatro daqueles frutos. Conhecem a cara daquela boneca da tv a Piggy? Lembram-se dos Três Porquinhos? Algo da mesma família! A verdade é que lá em São Tomé tudo quanto consegui saber sobre esta planta é que lhe chamavam Focinho de Porco.
Colhi uma braçada, talvez uma dúzia destas hastes, lindíssimas, que guardei no hotel com o maior cuidado para chegar com elas intactas, a Luanda. No regresso a casa carreguei-as sempre na mão.
No aeroporto, quase a embarcar, um indivíduo desconhecido aproximou-se:
- Bonito, isso. Onde o senhor arranjou?
- Apanhei no mato. Na roça... lá debaixo do cacau.
Olhou, remirou:
- Interessante. Como se chama?
- Não sei. O único nome que me souberam indicar foi “Focinho de Porco”.
O sujeito franziu a testa, deu meia volta e desandou. Quem estava por perto começou a rir disfarçadamente. Eu, achei estranho, mas não só não entendi o que se estava passando como nem me interessava entender. Fiquei quieto, aguardando que me chamassem para o vôo.
Logo a seguir um outro indivíduo que estava por ali pergunta-me:
- Sabe quem era aquele homem?
- Não faço idéia. Nunca o vi antes.
- É o comandante da polícia.
- Muito bem. E depois?
- Aqui chamam-lhe o “Focinho de Porco”!
As flores, aliás os frutos, chegaram a Luanda em ótimas condições e, durante anos, sim, duraram anos, sempre fizeram um grande sucesso nas jarras de flores lá de casa.
Na jarra, a única coisa que se trocava era a folhagem verde que compunha o arranjo, por cima da qual aqueles lindos focinhitos de porco pareciam participar, interessados, em tudo quanto se passava na sala de nossa casa.
Orgulhosos, talvez agradecidos, porque finalmente alguém lhes reconhecera a beleza e valor, que pelos vistos, depois disto ninguém mais o fez.
Que pena. E São Tomé que tanto precisa que se faça algo pelo seu povo, que vive uma miséria grande.
Os “focinhos de porco”, os antúrios, os lírios, as orquídeas e tantas outras maravilhas, que além de terem um preço compensador, exigem boa qualidade e quantidade de mão obra, que não falta naquela terra, talvez ajudassem a minimizar o problema.
Quem sabe?

N.- Isto foi escrito antes de se ter declarado a descoberta de petróleo naquela terra. São Tomé pode viver agora melhor, mas o que é habitual é que o rendimento do petróleo fique com meia dúzia, e promova, com muita rapidez, a corrupção. Que Deus permita isto não venha a acontecer ali! O rendimento da produção agrícola, neste caso de flores, pode ficar nas mãos de centenas ou milhares de trabalhadores.
Alguém, algum político está interessado nisso?

Do livro “Loisas da Arca do Velho”, por Francisco G. de Amorim (inédito)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Coisas dos mares de
Angola



Vamos esquecer por uns momentos as políticas e as epidermes, e pensar um pouco naquela geografia do Atlântico sul, costa ocidental.
Já tantas vezes cantei aquelas águas, e a atração que elas exerciam sobre os meus genes de marinheiro, que um dia, com sacrifício financeiro, acabei por me fazer ao mar.
Se o tivesse feito sem qualquer dificuldade, o gozo seria incomparavelmente menor, se é que há gozo naquilo que nada nos custa, como pouco existe num encontro com as chamadas mulheres fáceis!
Só se aprecia em profundidade aquilo que nos apareceu primeiro através de sonhos, e destes, mal nós sabemos às vezes como, através de muita luta e perseverança, à sua concretização.
Um dia consegui concretizar o sonho de navegar à vela, naquela baía de Luanda e nos mares que a circundam, rumo ao norte até à foz do Dande, e sul ao paradisíaco Mussulo, chamado de ilha, como a Ilha de Luanda, mas que de ilhas pouco têm. Lugares de encantamento que o homem, qualquer homem, vai destruindo com velocidade rápida, sem que no amanhã os nossos filhos e netos possam sequer vir a compreender como era possível achar tudo aquilo uma benção da natureza.
A vela, apesar daqueles apelos, estava pouco desenvolvida em Angola, que tudo tinha para ser um grande centro deste desporto, onde não é necessário ser-se milionário para o praticar. Uma prancha de madeira, leve, que muita ainda se encontra por Angola fora, uma vara a fazer de mastro e uns panos.
Aos muxiluandos não há que ensinar coisa alguma neste aspeto, eles sabem muito bem como fazê-lo. Há só que os estimular, a eles também, e todos os que não sendo da samba, podem tirar do mar um prazer imenso.
Que ajuda podia ser dada para criar mais interesse pelas coisas do mar, quer seja vela, pesca, ou simplesmente praia?
Aquele mar sempre a cutucar na minha cabeça, com mais força do que gostosos quifunes, como a dizer-me faz alguma coisa, desperta essa gente que ainda não aproveita todas as maravilhas que, de graça, lhes oferece!
Um belo dia acordei com a idéia de organizar em Luanda um “Salão Náutico”, à imagem do que se fazia mundo afora, reduzido, como é óbvio à escala de país pequeno.
Enquanto matutava nisto, fui perguntando a outros aficionados do mar o que achavam da idéia. O primeiro perguntou-me se estava louco, porque fazer uma coisa daquelas em Angola era o mesmo que pregar no deserto. O segundo não ficou muito fora da mesma linha de raciocínio. Finalmente o terceiro foi bem mais objetivo: este gajo deve estar doente! Se matematicamente menos por menos dá mais, três vezes menos deveria dar muito mais!
E com o patrocínio do banco, para quem estava a fazer este trabalho de relações públicas, meti mãos à obra. Os primeiros contatos com gente ligada a atividades com o mar não foram muito promissores, mas aquela velha história de dizer ao segundo que o primeiro tinha abarcado a idéia com entusiasmo, e de ninguém querer ficar para trás, em pouco tempo os expositores já brigavam por melhor posição dentro do espaço conseguido para este evento, a estrutura do que se tornaria mais tarde o Hotel Panorama na Ilha de Nossa Senhora do Cabo de Luanda, a seguir ao Clube Naval, em cima da baía, olhando a cidade. Um lugar de eleição. Espetacular.
Não sei porque motivo as obras desse hotel estiveram embargadas durante muito tempo (seria alguma briga pela posse do terreno?), e a construção não tinha mais do que as estruturas de concreto em dois andares, além duma área externa, cimentada, que deve depois ter sido uma magnífica esplanada.
Compareceram construtores de barcos, entre eles um famoso, que tinha o estaleiro na Ilha, e que só o seu nome ter dito que sim, arrastou todos os outros, que apresentou uma traineira de pesca em estado de meia construção, tendo levado até carpinteiros para ali trabalharem durante a semana que durou o Salão. Também se expôs um belo dongo que os pescadores da ponta da Ilha, amável e alegremente cederam, com todo o seu equipamento de pesca dentro, e que só isso foi um sucesso, motores marítimos, desde os menores outboards aos grandes para embarcações de pesca, material de segurança no mar, material de pesca, fabricantes de velas, lojas de modas com roupa de praia, material de campismo, o que se puder imaginar relacionado ao mar, como pesca desportiva e comercial, vela e motor, surf, lazer, elegância e até alimentos enlatados que o mar fornecia.
Não faltaram maquetes dos navios das companhias de navegação, sempre uma atração para grandes e pequenos, e até um hobbista que construía pequenas réplicas de navios antigos foi descoberto na cidade e apresentou talvez uma dúzia de trabalhos lindíssimos.
Falou-se com o comando naval. Um almirante simpático que se prontificou a colaborar, mandando ir de Portugal dois grandes quadros com amostras de cordas e nós feitos na velha Fábrica Nacional de Cordoaria, que no fim da festa eu quis guardar mas... o almirante também, e pendurou na sua sala. Talvez ainda lá estejam até hoje! Quem sabe?
Tinha que se fazer um logotipo, um emblema, para anunciar e dar a conhecer o que ia acontecer. Para isso procurei o arquiteto do banco, expliquei-lhe o projeto e que queria um emblema. Ele, sarcástico e gozador diz-me:
- Um peixinho à vela, hein?
Eu não achei muita graça à observação porque estava levando aquele trabalho muito a sério, e respondi-lhe no mesmo tom:
- Sim. E com um motor de popa no cu!
De repente, naquela instantânea troca de gracejos, eu vi o emblema, rabisquei-o num papel e
- É isso mesmo. Um peixinho à vela com um motor no cu. Fica completo. Boa! Olhe! Agora desenhe isso bonitinho que é a sua arte!


Saiu um emblema, cartaz, ótimo. Fez sucesso e as pessoas quando o viram exposto iam-se interessando pelo que estava para acontecer.
Inauguração, dia 15 de Agosto de 1970, feriado da cidade que em tempos mais antigos se chamou São Paulo da Assunção de Luanda.
Fiz questão de convidar o Governador Geral para inaugurar este 1º Salão Náutico de Angola, que procurou declinar o frete. Insisti e ele acabou por dar o seu acordo desde que não houvesse discurso, e que não se demorasse lá dentro mais do que uns dez minutos. Combinado. Tudo pronto, dia e hora certos, chega Sexa. Autoridades, sabendo que ia o Governador Geral, não faltou uma só! Pudera.
Eu, responsável por aquela festa, à entrada para o receber. Mal se abre a porta do carro, o Governador olhou para mim e fez-se sinal, em silêncio, de que não havia discurso. Confirmei. Cumprimentou-me, ou antes, eu o cumprimentei, claro, nada de inverter as hierarquias, mesmo coloniais, e a seguir aqueles muene-mputus todos vieram também saudar o chefe, que não sei se teria muito defeitos, porque só falei com ele duas ou três vezes, uma delas esta, e sempre se mostrou um homem simpático.
A seguir aos cumprimentos agarra no meu braço e disse:
- Vamos dar uma volta rápida.
Interessou-se por tudo quanto ali estava, e acabou por se demorar mais de hora e meia, o que foi para mim um prémio (deixemos as políticas de lado). Se ele se interessou, o público em geral deveria corresponder do mesmo modo. E assim foi.
O policiamento e a guarda de tudo quanto estava exposto, durante as horas em que ficava aberto ao público, ficou a cargo do grupo de Escoteiros Marítimos de Angola, garotos entre os oito e talvez catorze anos, todos muito bem fardados, simpáticos, eficientes. (Nota: havia escoteiros de todas as cores!)

Um dongo em Luanda. Início séc. XX
Foi feito um catálogo da exposição, com nome e anúncios dos expositores, história de algumas maquetes, da fábrica de cordas, etc., que era vendido aos visitantes pelo preço de custo. O dinheiro arrecadado revertia inteiramente para a obra dos escuteiros.
No dia seguinte os jornais noticiaram o acontecimento com termos elogiosos, mas um jornalista, de “A Província de Angola” no final na notícia colocou uma observação desagradável:

"Se o banco... é que organizou este evento porque receber dinheiro pelos catálogos? Devia também oferecê-los."

Telefonei para o chefe da redação e comentei o assunto.
- Escreva para o jornal a explicar que a verba se destina aos escuteiros, que nós publicamos.
Sem prática de polémica nos jornais, assim foi feito, e no outro dia lá vinha
Recebemos do banco... a carta que a seguir transcrevemos.
E no final a mesma observação do jornalista:

"Continuamos sem entender porque o banco não ofereceu os catálogos."

Liguei de novo para o jornal:
- Já não me lembrava que não adianta discutir com quem tem acesso diário ao jornal e pode dizer o que lhe apetece. As minhas armas são outras: enquanto eu estiver neste banco, e sou eu que destino as verbas de publicidade, nem mais um cêntimo irá para o vosso jornal. Passe bem.
Era o principal jornal de Angola. Mas até eu sair daquela terra, não lhe foi dada nem mais uma linha de publicidade
Cada um luta com as armas de que dispõe, além de que amor com amor se paga!

de "Loisas da Arca do Velho" de Francisco G. de Amorim, 2001, inédito !
 
 
25.fev.10

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Histórias (não tão) secretas
de Angola
.
.O  BOATO.


Angola. 1963.

Vivia-se intensamente a guerra colonial, e à imagem do que tinha acontecido por toda a África, só quem não queria é que não antevia o desfecho que veio a ter: a independência das colónias. Uns não queriam ver, outros não podiam, outros iam fingindo não pensar nisso, como a grande maioria, à espera que o tempo resolvesse as coisas a contento de todos. Impossível. O tempo não resolve nada. Quando muito ajuda a esquecer.
A guerra só se sentia nas cidades pelo movimento intenso de tropas e a chegada, constante, de feridos ou mortos dos dois lados da contenda. A guerra passava-se sobretudo entre militares, de ambos os lados, que se confrontavam nas matas, em emboscadas, em luta de guerrilha. As cidades viviam em paz, e a prova disso é que as famílias continuavam ali, com filhos a nascer, as escolas a funcionarem normalmente, e a cada vez chegarem mais imigrantes e investimentos.
Parecia um contrassenso, mas a realidade estava à vista. A sensação era de que a guerra seria uma coisa lá entre eles, na mata, tal como o que se passa com o povo brasileiro em relação aos políticos e às eleições: aquilo é negócio deles (se é!). Gente sabendo que guerra toda a que é sempre uma coisa estúpida, persistia em não abandonar uma ténue esperança de que pudesse um dia acabar e Angola alcançar uma independência multirracial. Um outro Brasil. Ilusão pura, idílica, idiota. Podia ter sido assim se cinquenta anos antes se tivesse pensado nisso e atuado. Os homens que desenvolveram o dom da fala para se entenderem, não queriam mais entender-se, e o mundo também já não queria esse entendimento. Era tarde.
Angola poucos anos antes do inicio da grande arrancada da guerra de libertação, no começo de 1961, arrancou também para um crescimento económico de forma incrível. Deve ter-se feito mais nos últimos vinte anos de domínio colonial do que nos vários séculos anteriores, e todo o tempo posterior! Havia já as bases, é verdade, mas parece que nunca terá havido interesse ou facilidades do governo metropolitano para o seu desenvolvimento. Dos responsáveis houve atitudes tão estúpidas como as de um então ministro das Colónias, a quem os colonos de Moçâmedes foram orgulhosamente mostrar as vinhas e oliveiras que ali davam esplêndidas uvas e azeitonas. Mandou arrancar tudo, proibiu a sua plantação e exploração para que não fizessem concorrência às da metrópole! Outra ordem absurda - ou também criminosa? - foi a de à última hora ter sido proibida a fabricação de fósforos em Luanda, com a fábrica pronta a entrar em funcionamento, edifício próprio construído para essa finalidade, maquinaria, tudo, porque Portugal ia perder aquele mercado!
Mais incrível ainda era apôr-se nas certidões dos brancos nascidos nas colónias um carimbo com Branco de 2ª, atitude esta que só acabou quando a um familiar de um ministro, o mesmo das vinhas e oliveiras, nasceu uma criança, não parecendo bem aos competentes responsáveis desse serviço - cartório - que se taxasse um parente do ministro como de 2ª! O homem podia não gostar, e assim acabou esse hábito infamante!
Portugal sempre pensou nas colônias unicamente como fornecedor de matérias primas!
Aliás o pensamento de Salazar, um pacóvio (ver dicionário) era dificultar a imigração para as colónias, porque podia perdê-las para os brancos como tinha acontecido com o Brasil. Preferiu perdê-las para os pretos! Quais? Aquela ínfima minoria que hoje rouba às escâncaras deixando o povo morrer de fome? Se tivesse visão podia tê-las ganho para todos!
Mas governante, só o chinês sabe definir: o que prevê o futuro. Os outros são gerentes, e nisso, que perdoem os eventuais saudosos salazaristas, este homem foi uma excelente dona Maria. Daquelas velhas governantas gordas ou magras, sérias, solteironas, dedicadas, buço como um sargento de cavalaria, que, na abstenção das Donas Sinhás administravam a casa senhorial com zelo, devoção e muita parcimônia, deixando o futuro a Deus. Assim foi a visão do tal Pacóvio de Santa Comba, grande professor acadêmico, um autêntico provinciano sem a menor visão do amanhã! Futuro é palavra que parece não entrar na mente dos governantes da terrinha! Até em relação ao Brasil, cuja independência só reconheceu oficialmente três anos depois do famoso Grito do Ipiranga!
Mas em Angola, depois de 1961 foi um frenesi económico. Investimentos contínuos em muitas áreas industriais, estradas, que em 1954 só tinham noventa quilometros asfaltados e em 1974 ultrapassava os três mil, prolongamento de vias férreas, exploração de petróleo, mineira, agrícola. Chegou a ser o segundo exportador mundial de café, exportava também milho para todas as outras colônias e metrópole, algodão, tabaco, sisal no tempo da guerra, celulose e papel, mariscos, peixe e farinha de peixe, de tão boa qualidade quanto a melhor do Peru, etc., etc. Sem falar no petróleo, diamantes, cobre, ferro, e até carne bovina. Quer isto dizer que era um país com autonomia económica folgada. Se todo este interesse tivesse começado no principio do século, Angola teria alcançado na mesma a sua independência, porque era inevitável, mas com muito mais estabilidade, e com paz.
Mas como poderia ter isso acontecido numa colônia, quando a metrópole nunca evoluiu e só teve visão nos primeiros séculos da sua existência?
A Cuca era a maior companhia de cervejas, e dominava largamente o mercado, não só civil, como nas forças armadas, que beneficiavam de um preço muito inferior ao do mercado, uma vez que não pagavam impostos. Cerca de metade do preço. E os soldados consumiam bem.
Aquartelados, a grande maioria pelo interior do país, ou guerreavam, ou patrulhavam, ou bebiam cerveja! Mais ainda num clima tropical, e sem outras distrações.
Nessa altura era eu o responsável comercial da companhia. Tinha que me deslocar por todo o país com regularidade. Apesar da situação instável, a maioria das estradas eram transitáveis sem preocupação de maior, e o carro o melhor meio de deslocação porque permitia chegar quase a todo o canto.
Com o hábito de viajar de noite, por encontrar as estradas sem trânsito, mais frescas - ar condicionado em carros nem ficção era! - e poder andar mais depressa porque os faróis sempre mostravam se vinha alguém em sentido contrário, regresso uma noite a Luanda, de uma dessas viagens, chegando a casa de madrugada.
No dia seguinte levantei-me mais tarde, e enquanto tomava banho foi lá a casa a parteira da companhia, ver se a mãe e sexta criança a nascer estavam passando bem. Estavam, com saúde e a graça de Deus!
Como a parteira, simpática e ótima profissional, não vivia sem meter o nariz na vida dos outros, estando com ela logo se tomava ciência de tudo o que se tinha passado e até o que se ia passar! Sabia tudo, e de todos!
Quando ela saiu perguntei por desfastio, à minha mulher:
- Que novidade trouxe ela hoje?
- Nada de especial. Disse que o Manuel Vinhas deu duzentos contos aos terroristas.
- Ah! Ótimo. Interessante. Duzentos contos também não é lá grande coisa!
Manuel Vinhas era administrador da Cuca, o homem com mais influência nos destinos da companhia. Baixinho, esperto, inteligente, e vaidoso. Gostava de aparecer, de ser notado e falado.
Como a notícia era absurda, ridícula, a conversa ficou por ali. Desta vez parecia que a fofoca era pura invenção de quem nada mais tinha a dizer.
Fui para a companhia, a meio da manhã, e comecei a preparar o relatório da viagem. Pouco depois entra na minha sala um colega, o Samuel, o que sabia de tudo dentro da empresa, com voz abaixada e ar de segredo:
- Já sabe o que se passa?
- Não sei nada. Acabo de chegar.
- O patrão Manel deu quatrocentos contos aos turras!
- Puxa. Há pouco eram só duzentos, segundo a Adriana.
- Olhe, que parece que é verdade.
Saiu com ar grave. Continuei achando um absurdo aquela conversa, e sem pensar mais nisso tentava coordenar idéias, enquanto frescas, para redigir o relatório.
Não tardou que entrasse outro colega, o Antonio Nuno, que me diz com um ar ainda mais grave, aliás o ar dele, mesmo que não seja para mais do que perguntar as horas, voz rouca e pausada, congénito ar patriarcal, costas meio curvadas, mirando desconfiado ao derredor como fazem os saloios quando querem negociar uma besta por preço especulativo:
- Sabes da última?
- A última não.
- O Manel Vinhas deu oitocentos contos ao MPLA.
MPLA era o Movimento Popular de Libertação de Angola, que depois da independência assumiu o governo de Angola. Até hoje.
- SENSACIONAL! Imagina que quando estava a tomar banho a Adriana foi lá a casa e disse que ele tinha dado duzentos contos. Mal tinha acabado de chegar aqui o Samuel veio contar, em segredo, claro, que eram quatrocentos. Agora tu já vens com oitocentos. Por este andar o homem vai à falência. A dobrar a parada com esta velocidade... é preciso uma estrutura financeira e tanto!
- Tu nunca levas nada a sério, e o assunto é grave. Um dia ainda te lixas.
- Olha lá, nós sabemos que o patrão é metido a intelectual e adoraria estar na política, por Angola, mas estúpido não é. Por alma de quem ele ia dar duzentos ou oitocentos contos aos turras?
- Sei lá, mas parece que é verdade.
- Estás louco, tu. Se ele se quisesse pôr ao lado do MPLA não ia dar uma esmola desse valor, mas com os conhecimentos que tem conseguiria arranjar muitissimo mais do que isso. De qualquer forma a conversa cheira mal. Essa coisa do parece que é verdade, a mim sempre cheirou mal. Olha, vou cumprimentar o Albano, e perguntar-lhe o que está acontecendo.
Albano era o diretor geral da companhia. Ótima pessoa, incapaz de resolver o que quer que fosse, há muitos anos em Angola, com conhecimentos que facilitavam não se sabe bem em que circunstâncias a vida da companhia junto aos órgãos oficiais. De qualquer modo eu teria que lhe fazer um relato sucinto da viagem, mas preferia ter começado por alinhavar as idéias, o que a insistência deste boato não permitiu.
Entro na sala do diretor.
- Bom dia.
- Bom dia. Fez boa viagem?
- Ótima. Mas antes de falarmos nisso, diga-me, por favor: quanto dinheiro o patrão Manel deu aos turras?
O homem deu um salto, quase cai da cadeira, ficou roxo, e mandou-me calar.
- Você é doido. A falar assim alto, e as janelas aqui todas abertas!
- Mas qual é o problema? O senhor acredita nisso?
- Não... sim... eu não. Nada! Deve ser mentira, com certeza. Mas nós é que não devemos falar nisso.
- Espere um pouco. Se corre por aí um boato desses, gravissimo, para o homem, e por reflexo para a companhia, como é que podemos ficar aqui quietos e calados? Alguma coisa temos que fazer. E na minha opinião, se quer ouvi-la, a primeira coisa é falar com o patrão para que ele se explique. Eu não acredito, nem um pouco, nisso tudo, mas não posso é ficar de braços cruzados.
- Mas eu também não posso falar numa coisa dessas pelo telefone.
- Então meta-se num avião e vá a Lisboa, mas faça alguma coisa.
Como de costume, nada fez. O boato, como todo o boato, sobretudo numa terra pequena e quando se refere a alguém conhecido e de destaque, cresce rápido, e como é fácil bater em quem está caído, muitos aproveitaram para malhar no homem, cada um inventando as patranhas mais absurdas sobre ele e a companhia. A Cuca.
Os carregamentos de cerveja para os soldados aquartelados bem no meio da mata, de difícil acesso, quando chegavam ao destino, faziam a festa. A rapaziada não esperava. Bebia até a cerveja quente. O risco do transporte, quer de tropas como de mantimentos era grande. Estradas desertas, no meio de matas cerradas, as emboscadas eram frequentes. O transporte tinha que se organizar em comboios, escoltados, e assim os aquartelamentos lá dentro das matas chegavam a estar semanas sem nada mais para beber do que água dos rios. E o acesso aos rios era muitas vezes também um risco tremendo.
Um dia chega-nos a notícia de que um carregamento com a nossa cerveja tinha sido devolvido intacto pelos soldados de um desses aquartelamentos perdidos no meio da mata.
- Não querem mais Cuca. Dizem que beber Cuca é dar dinheiro aos turras!
Agora só queriam a da concorrência, que até àquela altura não representava nem vinte cinco por cento do mercado militar!
Onde já ia o boato! O caso estava a ficar demasiado sério.
Aluguei um pequeno avião monomotor e fui direto ao interior, visitar um regimento espalhado por uma zona quente de guerra. Conhecia bem o comandante, e queria ouvir dele como o boato estava a correr, sua possível origem e os efeitos que produzia.
Ouvi. De entrada uma porção de piadas indiretas de alguns capitãesinhos metidos a espertos. Depois de falar com o comandante que me disse que as notícias, como tudo o mais, vinham de Luanda, até do Quartel General, perdi um pouco a calma, e adverti aquela gente:
- Se alguém aqui tem a certeza do que diz, que o prove. Vocês que são oficiais do exército sabem que a melhor arma do inimigo é o boato. Qualquer que ele seja. Todo o boato tem por finalidade desmoralizar, desestabilizar. Agora, atenção, se falam só porque alguém disse, ou ouviu dizer a não sei quem, ou à vizinha, ou parece que, isso é uma covardia incrível. E até hoje não me consta que o nosso exército tenha alguma vez sido composto de covardes.
Fez-se algum silêncio, uns quantos engoliram em seco, e entretanto naquele regimento o assunto ficou pelo menos tranquilo. Mas em Angola estavam cinquenta mil militares, e pelo exemplo que acabara de ver tudo devia estar minado. A concorrência a rir, claro, e quem sabe se a ajudar! Não constou nem que sim nem que não!
Regressei a Luanda e no dia seguinte logo cedo fui ao QG onde tinha amigos com quem podia falar à vontade.
Nada havia de oficializado, como era de esperar, mas o boato corria à boca cheia. E boato é mal que não se extirpa com facilidade. O que é fato, é que as pessoas têm dificuldade em acreditar nas verdades, mas no boato, por mais inverosímil, mais disparatado, todo o mundo acredita, e espalha.
Num golpe de teatro, que eu sabia não levar a lugar algum, pedi para falar ao general comandante a quem manifestei o meu espanto por permitir que no seu Quartel General um boato estúpido e maldoso, grassasse.
- Tem razão. - e morreu o assunto.
Era um homem já velho, de idade e espírito, que poucos meses depois passou à reforma. Nunca devia ter sido mandado para Angola um homem que todos sabiam que seis meses depois atingia o limite de idade! Mas foi, e como é de supor, nada fez. Ou antes, na minha presença, eu vi, assinou uma requisição de quatro vassouras! Ah! Grande general!
Continuei a minha batalha, o tempo a passar e ninguém tomava qualquer atitude, nem em Portugal, onde, covardemente, o governo e a polícia deixavam o assunto correr.
Talvez um mês depois do começo disto o Manuel Vinhas ao passar pela polícia de controle de fronteiras no aeroporto de Lisboa, a famigerada PIDE, com destino a Copenhagen, para a convenção anual dos cervejeiros, vê-lhe interditada a saída do país.
- Porquê?
- Isso eu não sei, respondeu secamente o polícia. Não pode sair do país.
Estupefacto, homem importante, ficou vexado. Não lhe deram qualquer explicação, e isso só acontecia a quem tinha algum delito grave. Covardia de polícia política. Soube depois, através de amigos influentes no governo, que estava com residência fixa e não podia ausentar-se de Portugal, nem para ir a Angola, que supostamente era também parte de Portugal. Com que acusação? Nenhuma. Prepotência de governo ditatorial!
A coisa estava preta para ele. E até alguns amigos, os da onça, começaram a abandoná-lo. Outros mais espertos faziam piada do assunto e ajudavam a espalhar a dúvida, o boato!
Com o evoluir da economia, não ficava bem as empresas continuarem a manter a sua administração em Portugal, e somente um diretor em Angola. Foi então nomeado administrador residente da Cuca, um homem que tinha saído do governo local, simpático, tranquilo, mas cuja função pouco mais era do que relações publicas. Figura decorativa. As instruções continuavam imanando todas de Portugal, e como a cerveja dava bastante dinheiro, não valia a pena mexer nas estruturas.
Tive com este administrador um longa conversa sobre a crise que nos estava a atingir, a queda nas vendas, a boataria a crescer e contra a qual os meios de luta são difíceis quando não impossíveis, e que de Lisboa não vinha uma única palavra de orientação.
- O senhor faça um relatório sobre isso. Confidencial, claro. Eu tenho que escrever hoje para lá e vou já avisando que em breve segue um relatório seu.
Comecei a preparar esse difícil relatório. Se não era fácil falar sobre o assunto, pô-lo num relatório era bico de obra. Esquematizei o que deveria ser exposto, e deixei ficar uns dias na gaveta à espera que me viesse inspiração para escrever tudo sem ferir alguém.
Dias depois recebo um telefonema de Lisboa, de um outro administrador, o João Matos Chaves, grande amigo:
- Você está sozinho?
- Não. Estou com mais dois aqui na sala.
- Então ligue para mim, de sua casa, à hora do almoço, mas não fale com ninguém sobre isto.
Mistério! Fiquei preocupado. Naquela manhã não via as horas passarem. Saí mais cedo do que o habitual para ir telefonar. Ligo para Lisboa.
- Não mande o relatório.
- O relatório? Qual relatório? - eu já nem me lembrava do que estava a ser preparado.
- O que o administrador daí disse que você ia mandar.
- Porquê?
- Você sabe que eu sou seu amigo. Confie em mim, e não fale mais nisso. Um abraço.
Fiquei ainda mais encucado. Não mandar o relatório, porquê? Que mal haveria? Porquê não me dizem nada, vendo as vendas caírem vertiginosamente?
Tudo isso me intrigava, mas conhecendo e confiando bem no administrador e amigo que me telefonara, de volta à companhia rasguei o rascunho, e procurei esquecer o assunto, o que era impossível, porque todos os dias algo tinha que enfrentar de desagradável na área comercial, sempre com base na evolução do mesmo problema.
Os meses corriam, as vendas depois de uma queda muito grande estabilizaram por baixo!
A Marinha e a Força Aérea tinham pouca gente em Angola, e não levaram o boato tão a sério. Nestes dois ramos a luta foi menos dura, e a recuperação mais rápida, mas nunca total. No exército, que teria talvez noventa por cento dos efetivos, as consequências foram muito mais graves e estavam difíceis de reverter. Para estes a cerveja era comprada pela Manutenção Militar -MM- com quem sempre procurámos manter as melhores relações. Tínhamos até um promotor de vendas exclusivo, o Luis Monteiro, que bem arrancava os cabelos para tentar reverter a situação, sem qualquer resultado. A gravidade do caso levava a atacar o assunto diretamente, e um dia recebo um telefonema de um dos chefes de departamento da MM, um capitão, conhecido e amigo dos tempos de rapaz. Estavam em Luanda todos os seus colegas para reunião com o diretor, e vinham convidar-se para uma visita à fábrica, onde aliás quase todos tinham já estado individualmente .
Achei a idéia magnifica, mas estranhei que uma condição tivesse sido colocada: só eu devia recebê-los! Nem promotores de vendas, nem diretores. Só eu!
Finda a visita às instalações, era de praxe provar a cerveja, aliás beber uns copos dela, acompanhados de muita variedade de aperitivos, num bar próprio para receber visitas, muito confortável, e onde normalmente se bebia muito. Ora não, a cerveja era ótima e barata!
O major diretor, oito capitães, e eu. Ninguém mais para podermos estar à vontade. Até o barman foi dispensado.
Conversámos, bebemos, bastante, e pelas nove da noite terminou a festa. Foram saindo de barriga cheia de finos e bons petiscos, cabeça um tanto alta.
O meu amigo foi-se deixando ficar para trás e pediu-me que o levasse a casa porque estava sem carro. Pretexto. Quando todos os outros tinham ido embora:
- Nós somos amigos há muitos anos, e todos os meus camaradas sabem disso. Por essa razão me escolheram para ser o porta voz da seguinte mensagem, que é de todos os chefes da MM. Eu também incluído, quer queira ou não, e não posso ser ovelha ranhosa. Tu já me conheces e vais compreender.
- Desembucha.
- Com esta brincadeira do boato, as vossas vendas para a MM caíram de setenta e cinco para vinte e cinco por cento! É incrível mas é verdade. E não baixa mais ainda porque todos nós temos feito força para isso. Como não podemos lutar contra a vontade das companhias e regimentos que requisitam a cerveja, e com a argumentação, meio furada, de não queremos perder tempo com promotores de vendas, o máximo que podemos fazer é dar uma ordem lá dentro para se passar a comprar cinquenta por cento de cada fábrica.
- Mas como é que assim eu posso vir a recuperar um dia os meus setenta e cinco?
- Não podes, nem creio que isso venha a acontecer tão depressa, da maneira como as coisas estão.
- Bonito serviço! Paciência. Se não tem outro remédio...
- Se aceitas a proposta, o que te vou dizer só pode ficar entre nós os dois. Ninguém mais pode tomar conhecimento.
- Prossegue.
- O major quer quatrocentos contos, postos em Portugal. Metade logo que os possas arranjar e a outra metade dois ou três meses depois. Ele se encarrega de dividir o dinheiro entre todos. Espero que não me leves a mal, mas eu por muito que quisesse, não posso ficar de fora!
Fiquei perplexo! Nunca esperava ouvir tal coisa.
- Mas eu não tenho como conseguir esse dinheiro sem que ele saia da administração. Eu não sou o dono disto. Infelizmente.
- Problema teu. Mas não esqueças, é super confidencial. Quando tiveres notícias telefona para minha casa.
Fomos embora. Eu com a batata quente na mão! Como sair desta?
A primeira coisa que fiz na manhã seguinte foi falar com o diretor geral adjunto. Era um indivíduo mais válido, a quem pus o problema. Passei-lhe a batata quente para as mãos. O problema não era mais meu!
Ele não podia falar com Lisboa pelo telefone, porque se a conversa fosse ouvida seria o fim da picada, e era bem possível que os telefones tivessem escuta! A solução foi escrever ali mesmo, à mão, para os patrões de Lisboa, a proposta que tínhamos recebido e ir ao Aeroporto na esperança de encontrar alguém conhecido que levasse pessoalmente a carta, o que não foi difícil.
Dois dias depois chegou a resposta, quase em cifra.
- De acordo. Como proceder?
- O chefe da banda segue para Lisboa de férias, no avião do dia tal, e vai hospedar-se no hotel X só no dia da chegada, porque depois vai para a terra dele lá no norte.
A administração confirma, e dá-me instruções para seguir no mesmo vôo. Assim que chegasse, fosse à sede da companhia receber o dinheiro e depois levá-lo ao tal hotel.
Assim se fez. Recebi um envelope, gordo, que não abri, corri ao hotel, passei-o às mãos do major, e... boa tarde.
A segunda parcela foi muito mais fácil e descarada! Chegada a altura, ele mesmo voltou a Lisboa e se entendeu com um dos administradores! Corrupção habitua! Até se torna rotineira.
Eu quase me senti um agente secreto. Tomaram conhecimento desta negociação, dentro da empresa, só o tal diretor geral adjunto e eu, além dos patrões que soltaram a grana. Durante muitos anos, e até ao fim de Angola colônia, nunca alguém soube porquê o exército nunca mais quis saber de promotores de vendas de qualquer marca de cerveja. Cinquenta-cinquenta, e estava o assunto resolvido.
A companhia pagou e eles cumpriram!
Nessa ida a Lisboa para entrega da primeira parcela de dinheiro, a minha demora naquela cidade foi somente de um dia e meio. As primeiras horas foram dedicadas às finanças que assim entregues me liberaram. Voltei à companhia onde fiquei sabendo que o caso do patrão era complicado porque ninguém assumia, nem o acusavam de coisa alguma. Nada. O próprio acusado não fazia idéia do que lhe estava acontecendo! Continuava com residência fixa. Era uma situação enxovalhante. Nem o sogro, pessoa de muita influência junto ao governo salazarista conseguia romper aquele mutismo covarde.
Meu sogro, juiz de direito em Lisboa, a quem expus a situação, sabia que isso só podia ser da alçada do Ministério do Interior, e naquela altura, por coincidência, o chefe do gabinete do ministro era um antigo delegado seu junto a uma das comarcas por onde passou.
- Vamos falar com ele.
Recebeu-nos muito bem, com a maior simpatia e consideração para quem tinha sido o juiz da comarca onde começara a sua carreira e, depois de exposto o assunto Manuel Vinhas, disse que já tinha ouvido falar nisso lá no ministério, e até lhe parecia não haver nada de concreto. Mas ia informar-se.
- Vou falar com o ministro e a seguir ao almoço lhe dou notícias.
À hora prevista telefona ao meu sogro e diz-lhe que o ministro, considerando que não havia qualquer acusação nem provas, tinha mandado arquivar o processo. Que eu fosse lá ainda nessa tarde que me entregaria uma carta dirigida ao interessado com esse despacho! E assim foi.
A carta, assinada pelo ministro dizia simplesmente que o processo que sobre V. corria neste ministério, foi arquivado. Tchau e bençãos!
Finalmente o assunto estava oficialmente enterrado. Podia até sair do país.
Por um mero acaso, acabou sendo por meu intermédio que, passando em Lisboa pouco mais de trinta e seis horas, se conseguira resolver o problema! Incrível.
No entanto para mim o assunto não estava resolvido. O que de fato se tinha passado? Porquê uma acusação que não tinha acusação? Donde tinha surgido toda esta trama?
A PIDE conseguia obter provas de tudo, mesmo quando não existissem! Constava até que os egiptólogos quando se viam em dificuldade para decifrar alguma descoberta arqueológica, sobretudo múmias, recorriam à PIDE que num instante as obrigavam a confessar-se! Técnicas de persuasão.
Alguma coisa de estranho ficara no ar, por decifrar. Decidi continuar a pesquisar.
Pouco a pouco, uma informação daqui, outra dali, o puzzle começou a mostrar os seus contornos.
Quando da sua última estadia em Angola, o Manuel Vinhas regressara a Portugal, via aérea, como é de supor, mas em vez de ir num vôo direto, Luanda-Lisboa, foi via Genève na Suíça, onde sua mulher tinha ido tratar dos dentes! Rico é assim, trata os dentes na Suíça. Nós, os outros, às vezes temos mesmo que usar o alicate porque o custo dos dentistas é fogo! Mas tudo bem, problema dele.
Os vôos para Genève, saíam de Leopoldville, hoje Kinshasa, no Zaire, na altura ainda Congo ex-Belga, e entre a chegada do vôo de Luanda àquela cidade até à saída do avião da Suissair, havia uma espera de quase oito horas. O que fazer todo esse tempo?
Na Cuca tinha trabalhado alguns anos antes uma mulata, bonitona, talvez mesmo mais do que bonitona. Segundo constava pela língua dos invejosos, o Manuel Vinhas tinha devidamente apreciado, com mais intimidade do que os que só olhavam e falavam, aquela estátua de apetecíveis carnes vivas. E se não havia esquecido, é porque as tais carnes deviam ser muito saborosas.
Verdade? Mentira? Indiferente para mim, porque não é coisa que me preocupe.
Entretanto essa mulher teria casado com um sueco, que trabalhava para a ONU em missão no Zaire, e viveriam nessa altura em Leopoldville. Ela daria a sua colaboração na sede do MPLA, o que era natural.
O Manuel Vinhas, sempre metido, gostando de aparecer e estar bem informado, de meter o nariz onde não era conveniente nem chamado, mandou que procurassem a boazuda, para a informarem da sua passagem por aquela cidade, que gostava de a rever, de conversar com ela, etc.
Para a localizarem movimentou-se pessoal de dentro e fora da companhia que tivesse quaisquer ligações com o Zaire, tentaram-se vários telefonemas, mas as comunicações telefônicas nesse tempo não eram fáceis.
Nas vésperas da sua saída de Luanda, convencido ainda que ia encontrar a garota, esteve, durante uma recepção no consulado americano, com um jornalista conhecido e muito chegado ao governo. No meio da conversa disse-lhe o que fazia tenções de fazer durante as oito horas de espera de passagem no país vizinho, com quem Angola não mantinha relações diplomáticas, por causa da guerra colonial.
- Você que é jornalista, e tem fácil acesso ao governador - ao tempo o coronel Silvino Silvério Marques, um homem reto, sisudo e duro - pergunte-lhe se ele quer que eu tente saber alguma coisa do MPLA. Conheço lá uma garota.... e contou a historia.
O jornalista, malandro, querendo marcar mais pontos junto ao governo, que sempre alimenta quem lhe puxa o saco, foi falar com o governador e contou quase a mesma coisa, mas covardemente só quase:
- Governador! O Dr. Manuel Vinhas vai amanhã a Leopoldville falar com o MPLA! E mandou perguntar se o senhor quer que ele trate de algum problema com eles!
A meia verdade! Menos de meia. A virgula fora do lugar! Uma ou outra palavrinha a menos! Não era exatamente assim! Dito deste modo era delatar e condenar um traidor.
O governador ficou bravo com a pretensa intromissão de um civil em assuntos graves, mais ainda em se tratando da sede de um movimento que combatia a presença portuguesa, e avisou imediatamente para Lisboa o que tinha ouvido, entregando o caso à tal PIDE, aquela polícia simpática.
O boato, saído da boca de um jornalista, espalhou-se como água em dia de temporal! Fácil.
Já em Lisboa, depois de ter passado pela Suíça, Manuel Vinhas foi chamado à PIDE.
- O que o senhor foi fazer a Leopoldville?
- Nada. Conexão do vôo para a Suíça, onde estava a minha mulher.
- Com quem o senhor se encontrou naquela cidade?
- Ninguém. Nem saí do aeroporto.
Era a verdade. Por mais esforços que se tivessem desenvolvido em Luanda para localizar a tal mulher bonita, tudo foi em vão. Ninguém soube mais do seu paradeiro. O viajante esteve mesmo as tais oito horas previstas, sentadão num desconfortável banco do desconfortável aeroporto em Leopodville até embarcar na Swissair!
A PIDE bem deve ter procurado provas. Mas encontrá-las, onde? A estadia tinha sido só aquilo.
O boato voou muito mais longe, pelos quatro cantos, com uma velocidade incrível, e teve consequências funestas. Tudo resultado de uma vaidadezinha idiota e da covardia da grande maioria dos homens.
Tudo o que fiz foi procurar a verdade. Julgo tê-la encontrado. Como agradecimento pelo que lutei, sozinho, porque todos os outros sempre tiveram receio que alguma coisa se tivesse passado, e também por ter conseguido o arquivamento do tal processo, tudo quanto recebi foram... dois coices!
Parece que o anúncio daquele relatório, que não cheguei a fazer, terá ferido a vaidade do patrão! Ele não gostou e depois de ter a sua liberdade recuperada, para me agradecer, "marrou" comigo.
E fui-me embora da Cuca!

De "Contos Peregrinos a Preto e Branco", 1998, por Francisco G. de Amorim