quarta-feira, 18 de novembro de 2009

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A  caminho  do  muito  frio


Antártica  2

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Estávamos a voar de Pelotas para Punta Arenas no Chile, cruzando a Patagónia e deixado o Uruguai para trás, cheio de sol!

Seis horas de vôo, no “conforto” dum cargueiro, mais de metade do tempo com os pés gelados – preparação para o que estava para vir – serviço de bordo impecável, dadas as circunstâncias, e sempre sob a responsabilidade da “tia” Alice (só faltou um ou dois copitos de vinho!), visita à cabine de comando do avião, boa parte do tempo circulando em pouco mais de meio metro quadrado, para aliviar o frio e aproveitar para ir conhecendo, aos gritos, os parceiros da viagem, finalmente chegámos.

Olha o "conforto" e o "luxo" do cargueiro!
Visita à cabine do avião, com um dos Almirantes

Desembarque no aeroporto, que é base militar muito bem estruturada – parece estar à espera dum ataque “inimigo” – onde a alfândega só se preocupou em saber se levávamos frutas ou quaisquer outros vegetais ou comestíveis. Proibidissimo!

Temperatura: 1° C, vento forte, e sensação de freezer!

O programa previa, e cumpriu-se, pernoita em Punta Arenas, e no regresso da Antártica mais duas noites, com um dia livre, de modo que, antes do gelo (quase) absoluto vamos falar de Punta Arenas.

Fica ali mesmo! No Estreito de Magalhães! Antes da abertura do Canal do Panamá, passagem obrigatória entre os oceanos, hoje uma cidade com cerca de 150 mil habitantes. Praticamente plana, muito ordenada e limpissima – não se vê no chão um único pedacinho de papel, cigarro ou qualquer lixo - ninguém atravessa a rua sem ser nas passarelas para pedestres, e assim mesmo quando tiver o sinal verde e, para vergonha de muita terra que todos nós conhecemos, tem quatro museus. Interessantes.
Hotel – ficámos no Rey Don Filipe, simpático e confortável, um café da manhã miserável e uma cozinha de primeira! Contradições incompreensíveis! – e por toda a cidade uma razoável variedade de bons restaurantes, com preços sem exploração.


À porta do hotel, o General, o Ministro, o vovô, a sempre jovem "tia" Alice e um Advogado da Poupex
Não vai a Punta Arenas quem não experimentar a “santoja” (santola) de que há diversos criaderos, deliciosas, a merluza negra ou o congro! Peixes daqueles frios mares, de primeira ordem! Como na Argentina, hay también muy buenas carnes, como el lomo de cordero, acompanhado com quinoa, um cereal nativo das Andes, riquissimo, e uma garrafinha de Carmenére... magnifico. Tudo isto, mesmo parecendo pleonasmo há que referir, acompanhado sem falhas do vinho chileno, que o tem de todos os tipos e gran calidad!

Com o decorrer da viagem e várias refeições em conjunto, iam-se conhecendo melhor aqueles com quem se criaram vínculos mais fortes, seja pelo tipo de interesses gerais e, opiniões durante as conversas, talvez uma ligeira identidade na gourmandise ou na apreciação dum bom copo. Mas novas personalidades se conheciam, algumas que ajudaram a marcar esta aventura Antártica com um ambiente, não gelado do frio, mas caloroso entre muitos participantes. Seria uma tremenda vergonha referir só alguns e arriscar a hipótese de esquecer outros. De qualquer forma fica aqui um abraço para os que mais marcaram estas novas amizades. Eles, se lerem isto saberão bem a quem me refiro.

Punta Arenas tem uma zona franca, e aí se encontram, sobretudo eletrônicos, por preços incríveis, e muitos aproveitaram para dar um up-grade nos seus televisores, máquinas fotográficas, e outros. Vinhos, em qualquer supermercado, com preços demasiado apetecíveis! A vida no Chile é mais barata que no Brasil.

Uma tarde entrou no hotel um dos mais jovens membros da nossa expedição, radiante porque tinha comprado uma mala muito barata. Aproximei-me, ouvi a explicação e perguntei quanto lhe tinha custado: US$ 16. Barato.

- Onde comprou? Lá me explicou em qual loja, e se ofereceu de imediato para voltar lá e comprar uma para mim!

- Mas eu não tenho dinheiro. Vim só com o cartão de crédito porque nem sabia que teríamos tempos livres durante as etapas.

- Não tem problema. Eu compro e depois o senhor manda-me o dinheiro.

Sumiu. Talvez nem uma hora depois voltava com a minha mala! Tomei nota do seu nome e conta bancária, e depois de lhe agradecer, disse para com os meus botões: Isto só mesmo brasileiro é que faz! Obrigado mais uma vez, Ramoncito Ferreira Marques Junior, nome de sabor castelhano, mas simpatia brasileira! Motorista do Almirante!
Na véspera do regresso ao Brasil fomos visitar um Parque Nacional, La Pinguinera Seno Otways, a cerca de 70 kms a NW de Punta Arenas.




Trilhas bem definidas para os visitantes, das quais não podem sair para não perturbar a vida selvagem, e maravilhosa. Infelizmente o dia estava frio e chuvoso. Mas ver os pinguins, estar com eles ali mesmo ao lado, sem sequer se preocuparem a perder tempo a olhar para os visitantes, é uma graça. E creio que não há animal mais gracioso do que o pinguim com aquele seu ar de milionário arruinado, andar desengonçado, e casamento para toda a vida.


Lá vão eles, talvez procurar uma refeição
A turma na praia e na água

Mesmo quando perde a parceira, “enviúva”, o pinguim não procura outra companheira! Nem vai para as boates atrás das gatas/os, não discute se o aborto é bom ou criminoso, não usa preservativo nem outros anti concepcionais! Mesmo estando arriscado a ser comido por uma foca ou uma orca, talvez fosse bom ser um pinguim! Porque não?
Os pinguins gostam de emigrar, se aventurar pelos mares a caminho de lugares mais quentes! Sobem pelas correntes frias, em parte do ano pela corrente das Malvinas que atinge a costa do Brasil, e pela de Benguela, pelo menos até ao sul de Angola.
Quem se lembra desta maravilha
http://www.youtube.com/watch?v=YMSIzoKUbhM  ?
(Abram este link e sonhem...)

Em, talvez, 1964, trabalhava eu em Angola, na Cuca, responsável comercial da Companhia que tinha duas fábricas de cervejas: Luanda e Nova Lisboa. Um belo dia o diretor da fábrica de Nova Lisboa, o meu querido amigo Alfredo Duarte Figueiredo, telefona-me: – Acabei de receber aqui um presente que te mandaram. – Para mim??? Eu não recebo presentes de ninguém! Quem mandou? – O nosso agente de Moçamedes. – - - Um presente? O que é? – Um pingüim!
De fato receber um pingüim de presente, até àquela data eu não sabia de alguém a quem tal tivesse acontecido. Um pingüim!?!?

- Bem... guarda-o bem, vai-lhe dando uns peixes, que não tarda vou aí!

Passados poucos dias lá fui ver o “meu” presente. Tinha sido enviado numa grade de madeira. Assim que cheguei abri a tampa para ver bem o “presente” e logo fui acarinhado com uma bicada!

Resolvemos fazer, no terreno da fábrica, um pequeno lago, com uma cerca à volta, e lá deixar o bichinho que virou atração! A notícia correu e passado um ano ou dois foram chegando mais presentes à fábrica: um leopardo, um leão, alguns antílopes e assim se criou um mini zôo!

Mas nós estávamos em La Pinguinera. Além dos simpáticos pinguins, tomando banho de mar, regressando da pesca, ou caminhando entre a praia e as suas tocas, algumas lebres, bonitas, grandes, passaram, também sem grande pressa, uma delas muito fotogênica deixando-se fotografar e seguindo depois o fotógrafo!

A região é uma espécie de tundra, mas a visita a parques naturais é sempre um “must”, e este está muito bem organizado, como aliás tudo quanto vimos no Chile.


A "casinha" do José Nogueira

A praça principal da cidade tem de um lado um belo edifício apalaçado, hoje monumento nacional, que foi mandado construir em 1890 por um emigrante português, José Nogueira, que ali chegara 30 anos antes.
Marinheiro e típico colonizador português, segundo a história que dele se conta, juntou imensa fortuna e construiu a sua bela mansão, que é hoje um hotel de luxo, um bar demasiado fumegante, e um ótimo restaurante, muito bem decorado, onde se come também por preço aceitável, e onde a tal santoja estava ótima, mais ainda na companhia dos amigos e dum “Chardonnay 2005”! Huummm...


No "José Nogueira", ainda sem o "Chardonnay"
Reitor, Diretor da Funcep, o velhote, Presidente do Instituto Chico Mendes e Assessora Parlamentar. Falta o General que foi o fotógrafo

No centro da praça uma bela estátua a Fernão de Magalhães – Fernando de Magallanes – que tem na base, além duma sereia, um índio, tudo em bronze. Dizem por lá que aqueles que apertarem o dedão do pé do índio, um dia voltarão. Está polido o tal dedão de tanto ser esfregado, e pode-se ver na foto.


Vejam o dedão do índio... polido!

Como é de calcular eu fui dos que não perdeu essa hipótese e esperança!


Até à próxima, na Antártica!


19 nov. 09

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

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Impressões... Antárticas !
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Já diversas vezes escrevi sobre “Amigos”. Mas quando se atinge uma (provecta) idade e não só se mantém como se aumenta o número de amigos, e que todos eles são cada vez mais chegados, mesmo quando vivem longe, há que louvar a Deus e agradecer-Lhe esta benção!
Dia5/nov – recebo um email: “Como não o encontrei on line, p.f. ligue para o meu telefone...”
Assim que li a mensagem chamei. Só à noite consegui ligação, e lá surge a voz dum amigo, querido, que vive em Brasília, sempre atarefado. Após a troca nas normais saudações e saber das respectivas famílias, diz-me:
- Queria convidá-lo para ir a um lugar onde você nunca foi! Está preparado para isso?
A primeira coisa que me ocorreu, já que ele estava a chegar ao Rio, foi que me estaria a convidar para nos encontrarmos nalgum novo restaurante. De qualquer modo a resposta foi rápida:
- Sempre pronto! Mas que lugar é esse?
- Antártica.
Eu sabia que este amigo, Comandante da Marinha, há já talvez dois anos, Sub Chefe do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) era o responsável pela Logística e Operações da Estação Antártica Brasileira Comandante Ferraz. Assim que o soube neste cargo, lhe dissera que, “quando tivesse uma vaga... me levasse até lá”! Nunca mais havia pensado nisso e de repente a tal “vaga” surge!
- Quando vamos?
- Talvez dia 21; amanhã lhe telefono com mais detalhes. Agora tenho que desligar!
Fiquei parado a pensar na maravilha da possibilidade que se me deparava!
Dia 06 à tarde liga o amigo:
- É um pouco chato avisá-lo assim de repente mas para ir, é amanhã! O que acha?
- Eu vou até agora à noite! O que tenho que levar? Roupa, etc.?
- Roupa nós fornecemos, só tem que levar passaporte, carteira de identidade e xerox de ambos os documentos. E estar amanhã às 07H30 no Aeroporto do Galeão Velho, a Base Aérea, no Terminal de Passageiros do Correio Aéreo. A viagem não é em avião comum. Vamos num Hércules C 130, militar, com uns assentos... meio incómodos.
- Maravilha!


O barrigudo e barulhento Hércules C 130

Em Pelotas, o meu amigo, o "decano" da expedição, e o meu novo amigo e
meu xará, o almirante chefe do PROANTAR

Preparei uma pequena mala, alguma roupa menos carioca e no dia seguinte lá estava eu, à hora exata prevista, com mais cinqüenta, entre convidados e membros do PROANTAR. Um ministro do STM, um general, almirantes, brigadeiros, o reitor da Universidade Federal de Roraima, assessores parlamentares, comandantes da Marinha de todas as graduações, sargentos e marinheiros, técnicos para revisão dos equipamentos mecânicos e eletrônicos da Estação Antártica, além de outros convidados especiais. E, evidente, o meu amigo.
Abraços, algumas apresentações, uma ligeira burocracia com os passaportes, que eu nem tive porque a organização tem uma oficial que se encarrega disso – simpática e eficiente esta oficial – um pequeno briefing dando as coordenadas e etapas dos vôos, e aí vamos nós para o Hércules. Lugares marcados para evitar confusões, diretos a Pelotas, primeira escala.
A bordo a primeira surpresa: a comissária de bordo! A “tia” Alice, uma fantástica jovem de 82 anos, alegre, sempre preocupada com o bem estar dos passageiros que fazia a sua 176ª. viagem à Antártica!
À chegada a Pelotas – temperatura de 5º mas com sensação térmica de 1º! - foram-nos entregues as roupas especiais, botas, capuz, etc. para o frio austral. A seguir almoço onde começa a descontração entre os parceiros de viagem, sobretudo pela partilha de algumas garrafas de magnífico vinho, chileno, é claro!





Um dos almoços na melhor companhia: à direita o Almirante e o Ministro,
à esquerda o General, o vovô e o Presidente do Instituto Cico Mendes

Escala importante esta por várias razões: a primeira porque foi onde nasceu o meu avô! Talvez mais do que isso porque foi aqui que o pai deste, meu bisavô João Driesel Frick, reuniu em seu escritório, em 1869, a primeira Sociedade Abolicionista do Brasil, tendo nessa ocasião pago a libertação de quatro mulheres, e sobretudo pela visita ao Museu Oceanográfico Prof. Eliézer Rios, onde fomos recebidos pelo prof. Lauro Barcelo. Museu muito interessante pela recolha e exposição de espécimes, muito visitado por escolas e pesquisadores. O Museu dispõe duma área de recuperação de animais marinhos, para cuidar deles e devolve-los sãos ao seu ambiente. Todos os anos são centenas, às vezes milhares de pinguins que vêm visitar o Brasil... e aqui se juntam até que as condições permitam devolvê-los ao mar. Desta vez só lá restava um. Quando os visitantes se aproximaram do tanque onde nadava pacificamente, ficou animadíssimo e corria – nadava – rapidinho dum lado para o outro a olhar para cima e ver as caras dos amigos que acabam de chegar! Os amigos visitantes moviam-se e ele seguia-os! Simpático, como todos os pinguins.
Ao lado, outro tanque com um belo leão marinho que pesaria uns 300 quilos! Tranquilão, só saiu da água quando o professor o chamou. Arrastou-se, olhou à volta, sem se preocupar com os circunstantes e ali ficou a olhar “para a sua filosofia”!
Este bichinho tem uma história incrível. Chegou ali há 17 anos, recolhido cheio de óleo, faminto. Foi tratado, alimentado e assim que estava em condições, devolvido ao mar. Não demorou a voltar. Mais uns dias e novamente levado ao mar. Mas o “leão” não estava disposto a ir embora e tentou várias vezes subir em embarcações de pescadores, virando algumas. Queria voltar para terra. Recolheram-no outra vez e ainda hoje lá está, “numa boa”, certamente feliz, alimentado, sem querer saber de mar para coisa alguma! Quando o professor terminou esta descrição do nosso "hóspede", sai este comentário de um dos visitantes que estava a meu lado: “O Zelaya”!
Tirando o gelo da Antártica, este foi um dos pontos altos de toda a viagem! E só podia ter saído duma mente clara e inteligente, o Ministro que nos acompanhou!
Ainda agora o “Zelaya” não me sai da idéia. Vejam bem o ar “zelayado” de quem está “na maior” a viver à custa do Brasil!


Vejam bem a "cara" do Zelaya! Cansado de estar "numa boa"!


Uma pequena área do "C&A"

Antes de nos recolhermos ao hotel, para jantar, sempre honrando o vinho do país que nos ia receber, e passar a noite, fizemos uma rápida visita à Estação de Apoio Antártico, onde entre outras coisas se guardam e cuidam das roupas que se emprestam aos visitantes, pesquisadores, etc. Um armazém imenso! Chamam-lhe o C&A (para quem não sabe o que é: uma enorme loja de roupas que está em praticamente todos os shoppings do Brasil!)
Manhã seguinte, bem cedo, já semi equipados para o frio que nos aguardava em Punta Arenas – 1ºC, mas sensação bem abaixo – de volta ao Hércules, vôo de 6 horas com céu quase sempre limpo, um miserável frio nos pés e uma bela vista ao sobrevoar Montevideu, no Uruguai.


Lá ficava Montevideu!
Continua...

17 nov. 09

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

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Menina e moça !



Luanda
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Nada de confusões com o fado de Coimbra! Estamos a falar de Luanda. Já não era tão menina, mas ainda era moça a Luanda dos anos cinqüenta! Menos de dez por cento dos habitantes que terá hoje!
Diz o fado que “Coimbra... era o rouxinol de Bernardim...”. Era! E Luanda, no Bairro que se chamou da CAOP, que ainda hoje tem uma rua com o nome do nosso grande poeta e escritor do século XVI? Nosso, por todas as razões e porque era em português que se expressava, tal como o angolano de hoje.
“Menina e Moça” é o nome do poema mais conhecido de Bernardim que foi publicado com o título “Saudades”!
Que título mais apropriado para quem lembra aquela terra bonita e, pior ainda para quem morou naquela rua!
Por isso, peço desculpa à grande maioria dos leitores deste blog, saudosos de Angola, mas este texto tem que ser dedicado aos vizinhos. Aos daquela rua e duma outra, cuja porta de entrada não ficava a mais de 20 metros da nossa! A Ana e o António Ravara Belo e a Madalena e António Nuno Melícias! Todos, jovens, claro, viram filhas e filhos ali nascerem!
Na foto abaixo vê-se a rua e as três casas assinaladas com o nome de cada família! Distância máxima de uma a outra... sessenta metros!


A rua Bernardim Riberio que terminava no larguinho!

Como era bonita e simples aquela vida! E lembram tantas histórias que ali se passaram. Aqui vão algumas. Com os vizinhos.
Todos fazíamos o nosso café, depois das refeições, com o velho e melhor sistema do mundo: a “máquina do balão e da tulipa”. Vai aqui uma foto para a lembrar a quem conheceu e mostrar a quem não conhece. Balão e tulipa de vidro, volta e meia, por muito cuidado que se tivesse... lá quebrava. Ou a parte de cima, ou de baixo. E como só se encontravam acessórios em Portugal, e era uma tarefa delicada pedir alguém para trazer de Lisboa uma peça assim frágil, a solução era recorrer ao vizinho. E lá vai o criadito. “Vai lá pedir à dona Ana se pode emprestar o balão para quatro xícaras”! Ou então “a dona Madalena manda pedir emprestada a tulipa! Outras vezes facilitava-se o assunto ou indo tomar o café com os vizinhos ou levando até a “máquina” para o preparar em casa dos outros. E andavam os “balões” e as “tulipas” passeando, horas mortas pelo calor do meio dia ou pela suposta frescura da noite, pela Bernardim Ribeiro!


 A melhor maneira de se preparar o melhor café !

Mesmo em frente da casa onde nós, os Amorim, morávamos, foi instalado um poste de iluminação pública. Ótimo, progresso, mais segurança, apesar de normalmente as portas jamais se fecharem à chave, e durante o dia e até à hora de ir para a cama ficavam bem abertas para ventilar. Ar condicionado não existia!
O poste era alto e a lâmpada potente. Acontece que o ângulo do refletor é que estava errado e a luz, forte, acertava em cheio na minha cara quando me deitava! Ensaiou-se um varal com algo pendurado, mas o resultado era insignificante, e a aversão àquela lâmpada foi crescendo, crescendo... até que uma bela noite, espingardinha de pressão de ar, sem que alguém visse ou ouvisse... puff... lá se foi a lâmpada! E nessas noites, bem escurinhas, uma teórica aragem permitindo não suar muito, e os menos de trinta anos de idade, dormia-se bem, sono profundo e tranqüilo.


A nossa casa, o "velho" Simca Aronde, e... quem sabe se o lençol não tentava esconder a agressiva luz!

Passados uns dias vinha o serviço de manutenção da Câmara Municipal e colocava lâmpada nova. Recomeçava a má disposição a crescer e não tardava saía mais um tirinho e voltava a tranqüila escuridão.
Não havia como torcer o refletor para apontar a luz para baixo... a solução foi ir atirando ao alvo! Os homens que trocavam a lâmpada nunca entenderam o que se passava porque era a única que aparecia quebrada em toda aquela rua!
Coisas da juventude e de Bernardim!
Sobretudo aos sábados à noite, porque naquele tempo a semana “inglesa”, de trabalho, só terminava ao meio dia de sábado, havia em casa de uns ou de outros, mesmo em muitas outras ruas, reuniões de parceiros para jogar cartas. Uma das vezes foi em casa dos Belo, à noite, fresquinho bom, na varanda. O quarto parceiro o Xico d’Água, Francisco Rebelo de Andrade, nosso primeiro medalhista Olímpico na vela, 1952 em Helsínquia! Ele, com os homens, para a mesa de Bridge e a Gracinha com as senhoras para a Canasta.
Rua calma, noite tranqüila, ninguém fala muito alto para não perturbar a grande concentração que o jogo exigia – jogava-se a dinheiro, mas pouco mais que tostões – iam-se bebendo umas Cucas, e o tempo corria com os filhos a crescer.
De repente surge da única rua que ali desaguava um garoto experimentando uma motorizada cujo escapamento fazia um barulho horrível a violentar a tranqüilidade do bairro. Abrandava na curva e logo a seguir aquela maquineta infernal seguia rua fora deixando todos incomodados. Não tardava muito voltava o “corredor” e repetia a cena, e assim mais algumas vezes deixando todos com os nervos estimulados. À quarta ou quinta volta o artista, possivelmente mais confiado no treino que fazia, entrou na curva mais depressa, derrapa, cai da motoreta que foi bater num muro passando ao lado do meu carro, e fica esparramado no chão. Todos largámos as cartas e corremos em socorro daquele chato que nos estava a perturbar.
O cara no chão ainda, perguntámos-lhe: “Você está ferido? Machucado"? O garotão ainda meio zonzo sentou-se, conferiu a própria anatomia e respondeu: “Não! Felizmente não foi nada. Estou bem”! Nessa altura o Xico d’Água, com vontade de lhe torcer o pescoço, dentes cerrados: “QUE PEEENA!”
O “corredor” levantou-se, pegou na motoca toda torcida e foi embora a pé. Nós, depois de termos rido bastante, voltámos ainda um pouco ao nosso joguinho até a dona da casa trazer uns bolinhos e mais umas bebidas, quando a reunião terminava.
Naquele tempo as mamãs tinham os filhos em casa. Estava para nascer a Helena, nossa filha, já a número quatro, e a Avó Zé tinha ido de Lisboa para estar presente ao acontecimento. Esta Senhora tinha tal fobia de cobras que só de ouvir esta palavra já ficava a levantar os pés do chão. Grande parte da cidade não tinha ainda saneamento, esgotos, mas todas as casas tinham fossas que sempre funcionaram perfeitamente. Final de Março, tempo de chuva grossa, uma noite caiu um toró respeitável, e de manhã, nas traseiras da casa as águas tinham aberto uma “cratera” talvez com um metro de diâmetro. Vovó Zé, logo de manhã quis ver os estragos! Naquele momento saía do buraco uma distraída cobra a quem também apeteceu um pouco do belo sol da manhã! Quando a minha Mãe viu aquele horrível monstro apanhou um susto de tal ordem que correu para dentro de casa, subiu em lapsos de segundos para o andar dos quartos e foi pôr-se em cima duma cama com as saias levantadas! Foi um problema convencê-la a descer novamente, mesmo com a garantia dada pelo heróico filho de que já tinha matado a fera e levado os despojos para longe de casa!
Poucos dias depois as dores do parto chegaram. Chama-se a parteira da Cuca, a grande parteira Adriana, eficientíssima, bem disposta e alegre, e no dia cinco de Abril a Helena viu a luz do dia!
Pela mesma época as outras duas casas foram igualmente presenteadas com duas garotinhas, lindas como seria de esperar: a Ana Melícias e a Leonor Belo!
Alegria, muitos cuidados de todos os amigos de Luanda, sobretudo dos geograficamente mais chegados, incansáveis a querer ajudar!
Depois eu conto mais enquanto não vamos para a rua Cabral Moncada!

13 nov. 09

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

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África no coração
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A casa da saudade chama-se memória!
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“Tenho uma lágrima no canto do olho...” lá diz o Bonga!
Porque será que praticamente toda a gente que passou por Angola, e Moçambique, e ali viveu mais ou menos tempo, guarda no coração uma saudade profunda, bonita, quase triste, e continua a sonhar com essa época que tanto marcou a sua vida?
Pergunta esta que me tem sido feita inúmeras vezes. Mas só por gente que nunca por lá viveu.
É um fenômeno curioso, que devia ser analisado por psicólogos, se é que não foi já, mas que não é difícil de compreender.
Conheci há alguns anos uma senhora que nascera em Magude, Moçambique, em 1908, e, por morte do pai, com problemas de saúde, saiu de Lourenço Marques para Portugal com 16 anos de idade e nunca mais lá voltou. O que era Magude no princípio do século XIX? E até Lourenço Marques, onde viviam umas dúzias de europeus? Terras inóspitas, até insalubres. Mas essa senhora, quando a conheci, com oitenta e muitos anos, era comigo que ela gostava de conversar, recordar a sua terra de que sentia uma saudade que não sabia explicar!
Lá por meados do século passado, Portugal finalmente começou a olhar para Angola. Até aí esta tinha vivido a época do tráfego, alguma cera e pouco mais, ou nada mais até acabar o século XIX. O XX começa com um Portugal desfeito em politiquices, intrigas e falência econômica. A seguir a I Grande Guerra, a fobia anti-clerical, o crash de 29, a ditadura, o receio, pavor, do comunismo, a Guerra Civil de Espanha, a II Grande – enorme – Guerra, e assim metade do século se eclipsou no meio de tanta vergonha e insânia.
A Europa tentava se recompor da guerra, comércio mundial em grande penúria, e Portugal... foi quando, e só, se despertou para Angola. Moçambique vivia ainda sob os resquícios dos “prazos”, alguns transformados em companhias majestáticas, dos portos da Beira e Lourenço Marques e seus caminhos de ferro para a (ex) Zambézia e África do Sul, das economias dos trabalhadores moçambicanos nas minas do Transvaal, que a África do Sul pagava em ouro e Portugal lhes entregava em “vales”, produzia um pouco de chá, açúcar e algum algodão que alimentava as precárias indústrias têxteis do norte e assim ia vivendo.
Angola por essa época quase só tinha a Companhia dos Diamantes, a Cotonang dos algodões, e o café, cuja procura mundial crescia e atraía investimentos e, desde 1931 o Caminho de Ferro de Benguela que ligava o porto do Lobito ao Catanga. E madeira das florestas do Maiombe e de diversos outras áreas de Angola.
Só nessa altura é que a tal Metrópole percebeu que as colónias tinham imenso potencial e estavam fora dos problemas comerciais que afetavam o mundo!
Angola precisava de gente para se desenvolver. Técnicos, professores, administradores.
Dois ou três liceus, em Luanda, Sá da Bandeira e Nova Lisboa, o primeiro com um ensino de altíssima qualidade, tal a dedicação dos professores, o ensino primário, fora das cidades, entregues às missões religiosas e, ainda em 1954, menos de 100 quilômetros de estradas asfaltadas, e raras indústrias.
Começaram a chegar técnicos. Gente nova, cheia daquela vontade própria da juventude, voluntariosa, que aceita o desafio para trabalhar em terras longínquas, desconhecidas, ainda cheia de mistérios e pouco conforto. Não foram poucos os que desembarcaram de faca na cintura com medo de encontrar um perigosa cobra logo ali, no cais do porto, à sua espera! Mas animada com o desafio, um campo quase virgem para trabalhar, e longe da saturada atmosfera dum país pequeno, com politicagem e polícias secretas, futuro minúsculo, sem desafios, e ainda com os problemas de quase sempre ter que carregar a família nas costas, mesmo que não economicamente, socialmente. Aniversário, casamento, batizado, havia que convidar tios, primos e acessórios, os simpáticos e os chatos, tornando tantas vezes essas “festas” num sacrifício social e financeiro desperdiçado. Mas obrigatório! Havia o “parece mal...”.
Em Angola essa juventude encontrou liberdade. Finalmente entregues a si próprios! A PIDE, quase inexistente, pouco tinha o que fazer e só veio a desenvolver-se, e muito, para combater as idéias e gente que decidiu apoiar os movimentos de libertação. Falar mal do Salazar, ou votar contra o governo, mesmo em eleições pré-definidas, não preocupavam a polícia, mas animavam aquela gente que se orgulhava de mandar o recado a Salazar: “não gostamos de você!”
A família que fica longe é evidente que sempre faz falta, aqueles de quem gostamos, e de quem guardamos imensa saudade, não os chatos e invejosos ou inchados de vaidade, e a solução encontrada em África para a substituir foi simples: os amigos, muitos dos quais já se conheciam da Metrópole, desde tenra idade ou haviam sido colegas de estudo, casais novos com filhos a nascer, logo se encontraram e criaram laços fortes. Muito fortes. Como irmãos.
A maioria, por razões óbvias, teve de abandonar África com a independência e tremenda convulsão e anarquia que se lhe seguiu, mas ainda hoje esses amigos são a verdadeira família que cada um criou à sua volta.
Claro que influi nesta saudade todo um ambiente especial.
O povo do interior, do “mato”, para quem teve oportunidade de lidar com ele, é recordado com um carinho especial perante a sua simplicidade e até humildade. Tal como dizia Gilberto Freire quando, para estudar os ancestrais do povo brasileiro, foi ao interior de Portugal conhecer aquela gente humilde das aldeias e se encantou, afirmando que “adorava analfabetos”! Os analfabetos podem não saber ler nem escrever, mas não são ignorantes e têm um profundo conhecimento da vida simples, o que lhes dá uma dimensão moral e humana, que a maioria de nós, pseudo cultos, não consegue alcançar. Mas respeita e admira. Muito mais ignorantes são os que leem e escrevem e não compreendem o Outro.
O espaço, a imensidão de Angola, apresentava, e apresenta ainda hoje, um permanente desafio à capacidade de realização de cada um, junto à beleza de um pôr de sol, na costa ou no planalto, que obriga a meditar, além de praias lindas e o mar generoso e cheio do melhor peixe do planeta...
Nem todos se aventuraram pelo “mato”. Uns, talvez só uma rápida visita às Quedas do Duque, hoje Calandula, sentir-se formiguinha ao contemplar a majestade das Pedras Negras de Pungo Andongo, a Tundavala ou as florestas dos Dembos, talvez o Xai-Xai, Inhaca, Inhambane, Ilha de Moçambique. Mas mesmo sem ter visto isso, e muito, muito mais, as raízes da saudade penetraram fundo.
Foi a visão duma terra cheia de belezas, o pôr do sol, as praias, o soberbo clima das regiões planálticas que o encheu de saudades? Talvez um pouco. Mas foram as amizades criadas e sobretudo a liberdade que se respirava e o largo espaço ajudava a aumentar.
Quem se atreve a recordar esses tempos, família constituída, há pouco saídos da mocidade, e pensar na liberdade que gozava, e nos amigos que criou e ficaram para todo o sempre, e vê os filhos, agora espalhados pelo mundo, hoje gente nos cinqüenta e tantos anos a manterem como irmãos os amigos daquela infância, sem que lhe apareça, indiscreta e irreprimível, “uma lágrima no canto do olho”?


4 nov. 09

sábado, 31 de outubro de 2009

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A Garota que caiu dos céus

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“Ninguém pode afirmar que tem coragem,
se não enfrentou o perigo”.
François de La Rochefoucauld. 1613-1680
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Corriam tranquilos os primeiros meses dos anos sessenta, em Luanda.
Os céus, por incrível que pareça, estavam ainda longe de ameaçar a tempestade que pouco depois começou a desabar em cima de Angola, primeiro com a guerra colonial, e depois muito mais violenta e devastadora com a guerra interna, que se pode chamar de muitas maneiras, nenhuma delas correspondendo à verdade absoluta: civil, tribal, político partidária (dificilmente esta versão), leste-oeste ou comunismo versus capitalismo, simples (simples?) ambição individual, etc.
Em Angola a vida corria, pode dizer-se tranquila. Não para todos, infelizmente, como em toda a par-te do mundo, que parece ser eternamente só para alguns.
Entretanto jovens angolanos, a maioria deles que tinha ido para Portugal estudar nas universidades, começavam a redespertar para o que estava acontecendo mundo afora, relativamente à subjugação dos povos através do colonialismo.
Decidiram, de entrada somente uns poucos, criar um Movimento que mostrasse ao mundo as injusti-ças praticadas nas colónias portuguesas, bem como a injustiça intrínseca do próprio sentido colonial, procurando apoio internacional para uma ação mais vasta e completa, que se preciso fosse levasse à luta armada, uma vez que sabiam que o governo português não ia largar da mão, de graça, os territórios que considerava seus e, no total, eram vinte e tantas vezes maiores do que a própria Metrópole. Alguns deles ricos, muitos ricos, Angola sobretudo.
Não eram só os de pele café que queriam livrar-se da tal Metrópole. Não. Eram todos os que ali viviam e passaram a considerar Angola como a sua terra.
O governo central e suas sofisticadas técnicas de espionagem próprias, herdadas da secular experiên-cia da Inquisição e seu mestre grande, um dos maiores e mais completos biltres e criminosos de toda a história da humanidade, que se alinha com Stalin, Mao Tsé Tung e Hitler, chamado Torquemada, sabia de tudo quanto se passava em Portugal, colónias e mesmo no estrangeiro.
Fazia prisões de cafés, leites e quaisquer outros matizes que não se mostrassem da cor do governo. Os que conseguiam escapar imigravam para a Europa central, para o Leste europeu e para alguns pa-íses já independentes em África, os únicos que obviamente os apoiavam, como os Congos, Ghana e Guiné-Conackry, e até Algéria, esta batendo-se ainda pela sua própria independência.
Em silêncio, Portugal ia-se preparando para defender militarmente os seus territórios, o que se pode ver pelos orçamentos das províncias, que votaram, já em 1959, para as forças armadas, o dobro das verbas destinadas à educação, cuja falta foi talvez o maior crime cometido por Portugal nas suas co-lónias, crime com atenuantes atendendo à sua tradição de país com o maior índice de analfabetização na Europa!
Os órgãos de informação rigorosamente controlados, proibidos de falar em quaisquer movimentos ou idéias independentistas ou separatistas, os investimentos a crescer na indústria, leis coloniais traves-tidas em ultramarinas para fingir que estava tudo bem, afirmando-se que um minhoto era igual a um boximane ou um macúa ou um timorense, enfim, o interior de Angola estabilizado com as populações rurais fixadas, utilizando-se de uma rede de estabelecimentos comerciais que alcançavam até ao mais recôndito das terras do fim do mundo, onde se adquiriam os excedentes de produção, encami-nhados depois para as principais cidades.
Viajar por esse interior, ao encontro de uma natureza ainda muito virgem, era algo que até hoje a memória guarda como um privilégio. As estradas eram poucas e na altura das chuvas dividiam-se em pouco mais do que duas categorias: passa ou não passa! Quando não passa, passava-se por vezes um, dois e mais dias à espera que a situação se revertesse, ali, no mato, socorrendo-se o viajante do prés-timo do chamado nativo, sempre pronto a ajudar. Nesses momentos, difíceis, incómodos, porque o carro era o hotel, a melhor solução era tirar partido da parte positiva que a espera e os obstáculos im-punham, e mesmo não falando a língua local, apreciar um pouco aquelas rodas de conversa à noite, à volta de uma fogueira, pedindo ajuda a algum intérprete que nos pusesse ao corrente do que se ia contando.
Lamento hoje, e o lamentar tardiamente, é sinal de arrependimento, sendo este próprio dos fracos, mas..., não ter na altura sido despertado para uma maior penetração na alma e sentir daquele povo, aprendendo a sua língua. Para a vida quotidiana e profissional nunca fez falta, nem mesmo para andar pelo interior, onde praticamente em todo o lado se encontrava quem falasse melhor ou pior o por-tuguês. Em muito lado podiam não falar com perfeição, mas o entendimento nunca deixou de se fazer, usando uma mistura de todas as palavras que se conheciam de parte a parte.
Lá, nos planaltos, as noites frescas, o céu lindo, estrelado, a fumaça da fogueira subindo ao ritmo do batuque e danças e dos contadores de histórias. De vez em quando uma estrela cadente rasgava por entre todo aquele cintilar, e no mesmo instante um pedido se elevava, que fizesse durar aquela paz e tranquilidade por todo o sempre!
Os céus de Luanda eram mais pesados. Junto à costa, muito maior a umidade do ar, assim mesmo muitas noites aquelas estrelas lá ficavam vaidosas mirando-se e refletindo-se na quietude das águas da baía, deixando a cidade dormir em sossego. Clima tropical, turvavam-se de vez em quando os a-res, anunciando chuvas ou simplesmente pairando incómodas, no cacimbo, baixando a temperatura mas aumentando desagradavelmente a umidade relativa do ar.
Luanda no cacimbo ficava mais triste. O sol passava com dificuldade através daquelas nuvens e em casa o que não se arejava, embolorava!
As épocas melhores são sempre as intermediárias, que se na Europa se chamam Primavera e Outono, ali eram o fim das chuvas, início do cacimbo, por decreto oficial marcado para o dia 15 de Maio, em que efetivamente não chovia mais, mesmo que na véspera, a 14, tivesse caído uma boa chuvarada como despedida, e o fim deste, início das chuvas, a 15 de Setembro, quando, exatamente nesse dia, em muito lugar caíam as primeiras chuvas oficiais, como que a dizer-nos: cumprido o decreto!
Durante o cacimbo não se ia à praia! Estava frio! E se alguém se aventurava a enfrentar esse gelo, ia até lá vestido, calça e camisa, para se sentar naquelas rochas e ali ficar gozando o eternamente belo espetáculo do mar. Outros, mais desportistas, pescavam, e aquele mar generoso a todos contemplava com alguma coisa. E coisas boas tinha aquele mar...
Voltemos aos céus. As forças armadas em Angola, nesse tempo eram em número pouco mais do que teórico, mas começavam a crescer.
Para inaugurar o início das atividades da Força Aérea, até ali ausentes de África, organizou-se uma espécie de “festival” aéreo, com uma dúzia de aviões que para lá tinham sido destacados, aprovei-tando-se para se fazer também uma exibição dos homens que vêem dos céus!

Um dos "F 84" que foram para Angola

Na altura dizia-se que aqueles aviões tinham sido cedidos pela OTAN (NATO), em que Portugal es-tava integrado, para exercícios de defesa da Europa. Manhosamente, Salazar, convenceu os parceiros que fazia os exercícios de treinamento em África! Ninguém engoliu tão esfarrapada mentira, mas to-dos fizeram ouvidos de mercador. E, como é cronicamente sabido, os piores diplomatas do mundo são os americanos. Cegos, todos, por dinheiro, tudo Tio Patinhas, cederam aviões para a OTAN e quando souberam que eles estavam em África, e os seus interesses visavam também o chamado Co-ne sul africano, ou o Atlântico Sul, ou a rota do petróleo e mais as riquezas africanas - África do Sul, Rodésias, Moçambique, Angola e Congo – acharam que não seria má idéia disfarçar e ajudarem a manter o status quo dessa zona de África... até ver.
Os Estados Unidos e a sua clássica incapacidade de política externa ainda não tinham despertado pa-ra o mundo novo, os novos países africanos, que se voltavam para a União Soviética, que abertamen-te os apoiavam. Só mais tarde é que decidiram ajudar e financiar alguns grupos rebeldes, não tanto independentistas, como o FNLA, porque as suas ligações e/ou compromissos com o Congo, nunca ficaram muito bem esclarecidas!
A verdade é que Portugal, levou de graça para Angola uma dúzia de caças a jato!
Independente do aspeto político que representava para os povos que queriam a sua independência a chegada de uma nova força de repressão, o espetáculo anunciado seria interessante, sobretudo se pensarmos que foi em África, há mais de quarenta anos, onde praticamente não havia pára-quedismo. Ninguém queria perder a oportunidade de ver descer dos céus aqueles pequenos cogumelos, devagar, que aumentavam de volume até se desfazerem de encontro ao chão.
Sabendo que esse festival aéreo daria início à instalação de mais uma força, certamente para não só intimidar, mas combater pretensões de independência, um dos partidos, todos ainda muito incipien-tes, dando os primeiros passos, distribuiu clandestinamente um panfleto-manifesto alertando as po-pulações para o significado desse tal festival, aconselhando-as a não comparecerem. Distribuído com a maior dificuldade, porque clandestino, alcançou pouca gente, e muita desta assim mesmo ainda quis ir ver o que seria essa nova ameaça.
Os jatos da força aérea evoluíram por cima da cidade, vôos de espetáculo, e os de transporte de tro-pas soltaram umas dezenas de homens pelos ares. A surpresa maior estava reservada para o final, e essa nada tinha a ver com a guerra que acabaria por eclodir: o primeiro salto de pára-quedas de uma mulher! Um acontecimento na história da evolução dos povos, quando por esse tempo a mulher pou-co mais fazia do que parir e cuidar de filhos e marido!
O tempo estava meio fechado no fim daquela manhã, quando o grande feito ia acontecer, por cima do Aeroporto.
Todos os muene-mputu presentes, desde o nguvulu aos secretários, os cabitangu, respectivas esposas e povo em geral.
Tinha vinte e quatro anos a mocinha que se ia atrever a tamanha temeridade. Os machos pára-quedistas e outros elementos da Força Aérea, terrivelmente preocupados com o que poderia aconte-cer à frágil e feminina atrevida.
Avião escolhido para a aventura: um velho Dragon Rapid, que atingia a vertiginosa velocidade de cruzeiro de 213 km/hora, bimotor, asa dupla, estrutura tubular, forrado a lona, para transporte de pas-sageiros em linhas “regulares”. Passageiros, não recordo bem, mas o máximo de sete! Grande avião.

Deve ter sido nesta "amarvilha" que a aventura se passou!
Aqui recebendo passageiros, talvez em Benguela. Ou Moçamedes?

O mesmo "Dragon Rapid", restaurado e pertença de colecionador

Piloto, um amigo, experiente comandante da Divisão de Transportes Aéreos de Angola, a DTA, do mesmo modo igualmente preocupado com a responsabilidade de “largar a primeira moça nos ares de Angola”, o Jorge Verde.
Chegada a hora, entram no avião, o piloto, fundamental, a destemida aventureira, um fotógrafo para documentar o histórico salto, e este, que hoje, tantos anos passados, “faz a reportagem”, amigo de in-fância da heroína, privilegiado assim para de mais perto e melhor ver o famoso salto!
Em terra, silêncio! Tensão. Céu meio encoberto de nuvens. O Dragon ganhou altura, e ficou voando em círculos bem por cima do Aeroporto, onde o salto se devia efetuar. O piloto, nervoso também por causa do natural machismo e porque não conseguia ver o chão com clareza, ordenava que a mocinha só devia saltar quando ele mandasse. Lá de cima, a pista, pequenina, aparecia e sumia logo encoberta com as nuvens. Já íamos talvez na quarta volta, o tempo seguia, que é o único que não se preocupa com tristezas ou alegrias, sol ou chuva. Páraquedista junto à porta, fotógrafo à ilharga, eu no centro daquele aviãozão. O Jorge Verde:
- Não saltes ainda. Espera que eu te diga.
Ordem que eu retransmitia. Porta do avião aberta, o fotógrafo amarrado a um banco com medo de ser levado porta fora mesmo sem pára-quedas, eu atrevidamente mal assomava com a cabeça a um me-tro da porta, e a valente moça, tranquila, mas desesperada para saltar logo.
-Espera mais um pouco.
A dada altura sai e fica em pé na asa! Imaginem só a loucura! O fotógrafo e eu arrepiados, talvez mesmo apavorados e com mais vertigens do que jamais havíamos pensado. E o piloto:
- Ainda não estamos na posição certa. Espera.
Neste momento a frágil e feminina aventureira, diz:
- Não vou esperar mais. De repente, lá vai ela. Saltou!
Nós, dentro do avião deixámos de a ver no mesmo instante, e ninguém se atrevia a pôr a cabeça de fora para ver aonde ela ia! Deus nos livre.
Tínhamos ambos a sensação de que se puséssemos a cabeça de fora, no mesmo segundo saíamos dali mesmo sem páraquedas. Passado um pouco ouve-se novamente o piloto:
- Espera só mais um pouco. Vamos agora passar bem em cima.
- Não te preocupes mais. Já voou!
- Mas ela é maluca! Não devia ter saído sem eu lhe dizer!
- Pois é. Mas agora já lá deve estar em baixo!
A única solução foi regressar à base. Nada mais havia a fazer lá nas alturas. Quando aterrámos, já ela estava, pés bem no chão, rodeada de gente. O povo espectador aplaudia, os machos da aviação ralhavam com a menina:
- Foi uma temeridade... que loucura... tanto tempo em queda livre... que perigo... não foi para isso que você aqui veio... podia ter acontecido um desastre e nós éramos os responsáveis, e outras obser-vações dentro da mesma tónica.
Os homens ainda não estavam habituados a que as mulheres rivalizassem com eles em situações de coragem! Raros os que se lembram por exemplo de uma Brites de Almeida, a terrível padeira de Aljubarrota, ou de uma Joana d’Arc!
Cumprimentos, despedidas, muitos obrigados, etc., acabou a festa, e a mocinha, nossa hóspede, foi conosco para casa. Ligámos logo a telefonia para ouvir a reportagem, em diferido, como hoje se diz, porque ainda não havia o em direto, ou ao vivo, e enquanto almoçávamos fomos ouvindo o locutor e o seu relato.
- Estamos no aeroporto, presentes as diversas excelências, etc. e vamos agora assistir ao primeiro salto de páraquedas de uma mulher, nestas terras de Angola. Jovem, enfermeira páraquedista, veio de Lisboa expressamente para nos mostrar o quanto as mulheres podem fazer, saltando dos ares, quando necessário, para levar a saúde e a esperança a feridos e doentes, em lugares onde outro tipo de ajuda pode fazer perigar a vida do doente. O exemplo desta jovem deve ser admirado e seguido.
O avião, com a destemida rapariga, já levantou aqui do aeroporto, e está a ganhar altura. O tempo está bastante encoberto o que não permite que daqui de baixo o possamos acompanhar o tempo to-do. Ouvimos o ronco do seu motor, mas mal o adivinhamos quando de repente passa entre duas nu-vens...
Olha, passou agora. Ihh! Já deixámos novamente de o ver... O avião anda lá por cima às voltas. Vamos ver quando nos aparece a pára-quedista. OLHEM! Apareceu agora. Lá vem ela. Mas... o pára-quedas não se abriu!... Meu Deus! O páraquedas nunca mais se abre. Que horror... ela vai cair. Já vem a cair há uns cinco minutos e o páraquedas não se abre!...
Nesta altura a voz do locutor está ofegante, cansada! Ele já antevê uma tragédia! A emoção mais forte do que ele.
- F I N A L M E N T E ! Graças a Deus! O páraquedas abriu-se... lá vem ela... descendo... devaga-rinho. Lá vem... Está agora... a pousar... no chão... para lá... já se encaminham... os que a vão re-ceber... e felicitar. Uff! Que grande susto nós levámos!
Um pouco mais tarde, almoçando tranquilamente, a então jovem e hoje vovó Isabel Bandeira de Melo Rilvas - reviveu esta “apavorante” descrição da sua aventura... “ao vivo”!
Estávamos em 1960!



27-out-2009

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

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Voltemos a Angola!
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À  Baía  das  Pipas
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Depois deste passeio pelos incas, mapuches, peruanos e argentinos, vamos voltar a falar do nosso amigo O ALBERTO, sobre quem escrevi nos “Contos Peregrinos...” e transcrevi para o blog no último dia de 05 de Agosto.

Os blogs vão sendo conhecidos, palavra puxa palavra, o princesadonaimbe passou palavra, contatou o memoriaseraizes que, e aqui surge a grande surpresa e alegria, conhece e vive perto do famoso “O Alberto”, no Algarve!

Neste último – http://www.memoriaseraizes.blogspot.com/ – está a história da família Gomes, algarvios da gema, que em meados do século XIX partiu à aventura para as águas ricas de peixe, e se fixou na orla do deserto do Namibe, tanto em Porto Alexandre, hoje Tômbua (o nome gentílico da famosa e misteriosa Welwitschia Mirabilis) como em Moçamedes, agora Namibe.
Dessa família, há quase noventa anos, nasce o nosso Alberto, ainda hoje cheio de vida e histórias para contar e, apesar da idade, sempre forte e a criar à sua volta uma aura de simpatia, simplicidade e amizades.
Hoje recebi todas essas notícias, com algumas das fotos que aqui ficam, no seguinte e-mail:

Caro sr. Francisco Amorim
O meu nome é Telmo e sou de Moçamedes.
Através do blog da minha amiga Nidia Jardim (Princesa do Namibe) descobri o seu blogue onde tem desfiado as belas histórias sobre africa e não só.
Mas a que me interessou, foi claro, a história do Alberto Gomes.
E isto porque já tinha ouvido parte da história do encontro na fragata, o ano passado quando fui com o meu amigo Claúdio Frota a casa do Alberto, onde assisti ao vivo ao grande contador de histórias que é Alberto Gomes, ainda hoje, com quase 90 anos.
O Alberto e "seus oficiais"! À sua esquerda o ten. Emídio Navarro

E contou a historia, porque tinha lá na parede afixada uma foto desse encontro na fragata: e perante isso, pedi-lhe a dita para digitalizar e eventualmente incluir no texto que o Claúdio estava a escrever para o seu blogue ( http://memoriaseraizes.blogspot.com ).
Mas como as histórias foram tantas, essa foi uma de algumas que ficaram de fora do texto, bem como a foto: aqui vai ela se quiser utiliza-la no seu blogue.
Mas perante a bela história que o Francisco escreveu: falei com o Claúdio e decidimos dar conhecimento ao Alberto, que vive a alguns kms de nós, em Quarteira.

 

O Alberto, seus jovens 90 anos, na terra de seus avós!

E claro que Alberto Gomes nos recebeu de braços abertos como é costume e desfiou um rol de historias, inclusive quando o Claúdio estava a ler o seu texto.
Além de confirmar as historias que ia ouvindo com: "É VERDADE, SIM SENHOR!!"
Ao ouvir a historia ficou muito sensibilizado pela forma como foi recordado por si,pois é uma das belas recordações que trouxe de áfrica (uma de muitas que tem recordado nas conversas) e por fim agradeceu e pediu para lhe mandar "UM GRANDE ABRAÇO de saudades!"
Além do texto, também lhe mostrei algumas das fotos que tem no seu blogue (das férias na Argentina e da viagem no Mussulo em 2006).
E depois resolvemos tirar algumas fotos (no porto de pesca em Quarteira e em Vilamoura) para lhe enviar, que seguem em anexo.
Cumprimentos,
Telmo

A história da visita à fragata, foi muito sucintamente contada. Deve ter-se passado, como está na foto, em 1963. Já lá vão quarenta e seis anos!

 

Um ano antes, acompanhado do meu muito querido amigo, irmão, Alfredo Duarte Figueiredo, nessa altura diretor da Cuca em Nova Lisboa, sendo eu o responsável comercial da Companhia, decidimos fazer uma viagem de trabalho pela zona sul da Angola, região para onde era vendida a cerveja produzida naquela unidade. Moçamedes foi uma das cidades visitadas. O fim de semana chegou na mesma ocasião (creio que organizei a viagem já com esse objetivo!) e uma visita à família Gomes na Baía das Pipas, estava mais do que assente! Era fundamental.
Muita alegria, festa, banquete de frutos do mar, um pé de dança ainda hoje guardado em fita de vídeo, filmado na altura em 8 mm, uma pequena caçada pelo deserto (quando encontrámos as zebras), e todo aquele ambiente paradisíaco, que entra tão fundo no nosso ser que jamais sai!
O Alfredo era tio do Emídio Navarro que estava em Angola a cumprir serviço militar na Marinha como tenente engenheiro. E “tão mal” ouviu falar sobre o Alberto, que logo no seu navio, a fragata “Pacheco Pereira”, o comandante (creio que era o capitão de fragata Manuel Perestrello) decidiu que na próxima ida ao sul passariam na Baía das Pipas a visitar esta nobre e amiga figura.
Foi assim que, como descrito, uma bela manhã, surge para espanto daquela gente, nas tranqüilas águas da Baía das Pipas um “imenso” navio de guerra, donde baixa um escaler para buscar o nosso Alberto a ser recebido com “honras” a bordo!
Imaginem este navio "imenso" (93,7 metros de comprimento) a entrar na Baía das Pipas!

 

Na foto do grupoa, tirada ainda dentro do navio, há só um pequeno erro, quando indica como “brigadeiro” Navarro o que era na altura o tenente engenheiro!
Fica prometido para... quando... se... uma ida ao Algarve abraçar o meu querido amigo. O único problema é que daqui do Rio de Janeiro a Quarteira são mais de 10.000 km. e muitos dólares. Se assim não fosse hoje mesmo estaria a caminho!
Fica o abraço “virtual” enquanto a oportunidade real não surgir!
Saúde, sempre, meu amigo Alberto.