sábado, 26 de setembro de 2009

.
Depois dos “Recuerdos Argentinos”, sobre o que ainda haveria muito a contar, vamos recordar o Peru, “voltinha” que demos há já sete anos, em 2002. Assim, alguns acontecimentos descritos têm que ser colocados na perspectiva daquela data.
Alguém que tenha lido isto na ocasião... talvez já tenha esquecido, nem sequer lá ido ao Peru, e se voltar a ler, quem sabe desta vez se entusiasma e vai!
.

Ó Incas! Ó Incas!...

.
Desde a meninice eu ouvia na família esta exclamação:
“Ó Incas, ó Incas, ó sol da azia!”
Frase que nada significava, além dum gracejo! Também ninguém entendia a graça, nem me recordo já a que propósito se dizia, mas a verdade é que o estribilho foi ficando no ouvido.
Há talvez mais de meio século quando li as primeiras coisas sobre os tais Incas. Livro cheio de lendas, de mistérios, de incógnitas, de incompreensíveis mensagens de alienígenas, astronautas da pré-história, de elogios à sua arte, ao culto do Sol, umas construções silenciosas perdidas no alto das montanhas e, na altura, tudo isto se amalgamava num sonho dificil de realizar: ir lá e ver, sentir, entender aquela gente.
Não sei se foi influência desta graciosa exclamação, a verdade é que sempre me atraiu muito mais ir conhecer os Incas do que Maias ou Astecas, mais ricos.
Acabou chegando o dia, e lá fomos.
Comecemos pela etimologia da palavra Peru: desconhecida!
A divisão administrativa do Peru é feita por Departamentos que seriam os Estados, no Brasil. São vinte e cinco, alguns com uma área de somente 4 mil km2 e 160.000 habitantes.
Pela primeira vez na sua história o Peru votou há dias para Governos Regionais! Já tinha uma tremendamente pesada estrutura administrativa e foi sobrecarregá-la. Acontece que nesta hipotética descentralização, o teórico objetivo primário, quem nomeia os secretários desses governos regionais não é o governador eleito mas sim o executivo central! Como se está mesmo a ver, não vai funcionar, mas criar mais encargos que, para variar, caem sempre em cima do Zé! Desta vez do Zé Inca.
O Peru é rico em minérios – ouro, prata, cobre, ferro, etc. – e terá boas reservas de petróleo. Aqui, também para variar, a maioria do capital das empresas mineradoras não é peruano, mas norte americano. O trivial!
A área agricultável é muito limitada, e quase toda em altitude. Não pode por isso almejar a grandes exportações neste setor. A larga faixa costeira é composta por regiões desertas e o verde só aparece depois da chamada cordilheira oriental, e além disso a região pertencente à bacia amazônica ocupa cerca de 30% de todo o território nacional. Produz um pouco de vinho que não cheguei sequer a provar porque o preço era absurdo, normalmente o dobro de um conhecido vinho chileno ou argentino! Claro que eles podem pedir pelo vinho o preço que entenderem, mas quem vai comprá-lo?
Por todos estas e mais outras, segundo números oficiais, imigram todos os anos do país entre 200 a 250 mil cidadãos! Indício triste, também. Sonham com os USA, mas vão sobretudo para a Argentina, que está agora numa tremenda duma fossa e para o Chile que já não sabe o que fazer com essa gente.
O presidente, na época desta visita, Alejandro Toledo, defensor do estilo caudilho-caciquista, já esgotado e indesejado, intitula-se o Pachacutec, um dos iniciadores do chamado (e mal chamado) Império Inca, o restaurador da nação, etc. que viveu no séc. XV, mas o povo, aquela gente simples que ouvimos na rua, não acredita nele. Aguenta.
Aguentou o japina, Fujimori, e ainda hoje uma parte da população o acolheria de braços abertos. Afinal foi ele que acabou com os grupos guerrilheiros chamados terroristas, deu um razoável impulso à economia do país, privatizando, e nos entretantos aproveitou para resolver também a vida privada dele. O trivial dos caudilhos, e não só.
Mas vamos viajar pelo Peru. Este pequeno intróito serviu para satisfazer a eventual curiosidade de alguns, já que comecei por satisfazer (?) a minha.
Tanta era a vontade de ir para o interior sentir e respirar a cultura inca que me atrevi de entrada a dizer que nem estaria interessado em visitar Lima! Ignorância, claro.
A agência de viagens insistiu e começámos mesmo por Lima, mega capital, criada pelos espanhóis assim chegados a esta terra, porque ficava perto dum local seguro para fundear as suas embarcações.
Mega capital! Dos cerca de 25 milhões de habitantes no Peru mais de um terço vive na capital! São números preocupantes, porque pressupõem pobreza. Não que seja ostensiva, nem muita se vê por onde os turistas andam, mas é impossível que assim não seja. Mas não parece viável que um país, não rico, consiga suportar um terço da sua população a viver na capital.
Lima. Imaginem só uma coisa que eu desconhecia totalmente: em Lima não chove. Nunca. Nunca, mesmo. As ruas não têm nem valetas nem sarjetas - bueiros! É verdade. A famosa corrente fria de Humboldt, que vem dos friozinhos da Antártida e sobe a costa da América do Sul não deixa ali cair uma gota de água, e daí as imensas regiões desertas que começam ao norte de Santiago do Chile e vão até ao Equador!

A grande catedral

Dizia-nos uma das guias de turismo que nos acompanhou: “Se um dia cair uma chuvinha só, nós morremos todos afogados, até porque nem sabemos o que isso é!”
Lima está a 12º de Latitude Sul que no Brasil fica entre Salvador e Aracaju, mas a temperatura é uma delícia, com uma média anual de 21°. Como? A tal corrente! Máxima, em Novembro, 21, mínima, à noite, 15. Querem melhor?
É uma cidade plana, simpática, tem jardins bonitos e bonitas flores, o que é raro ver nas cidades brasileiras, que são cuidadosamente regados.
Num dos bairros hoje de classe alta, San Isidro, encontra-se o que sobrou de uma antiga fazenda onde os espanhóis plantaram um grande olival. Essas oliveiras, bonitas, algumas com perto de quinhentos anos são um dos orgulhos dos limeños, e decoram muito bem o bairro.
Incluído no “pacote” da nossa viagem estavam alguns tours e visitas a igrejas e museus.
A Catedral de Lima... é uma coisa! Na Plaza de Armas, que terá sido traçada pela espada de Pizarro, com jardins com muita flor, a construção da Catedral foi iniciada em 1535. Começou pequena, cresceu, um terremoto derrubou, constrói de novo, maior, mais imponente, outro terremoto reduziu a escombros e assim foi até à imponência de hoje. Interior riquissimo, muita talha dourada, muito ouro, muita prata, muita pintura, a grande maioria de artistas peruanos sob influencia do barroco ibérico. Haja católico para encher aquela igreja! E tem muito mais igrejas. Muito mais, ou não fossem os espanhóis super torquemados quando invadiram as Américas. Destruíram os recintos de culto tradicionais, fizeram inúmeros atos de extirpação de idolatria, e impuseram o cristianismo com incrível violência. (Não foram só eles aliás, só que castelhano sem um a boa mão cheia de sangue não se contenta, enquanto os outros iberos... só de pensar em sangue já caem fora!). Sigamos.

Interior da Igreja de São Francisco

Iglesia y convento de San Francisco el Grande, o meu xará, claro, formam o mais notável e melhor conservado dos monumentos de Lima. Descrever? Não há como. Tem que se ir lá ver, bem como tudo o mais que nós por falta de tempo (e meio$) não pudemos fazer. Há que ver, por dentro, o Palácio do Governo, as casonas coloniales a que nós chamaríamos mansões ou casas apalaçadas, como a Casa de Aliaga, de Pilatos, dos los Marqueses de La Riva, de Torre Tagle, e tantas outras, muitas, reminiscências de um passado de grande fausto, as igrejas de San Pedro, La Merced, Santo Domingo, San Agustin e... por aí vai. Como tem que ver!

Antigo refeitório dos frades franciscanos

E os museus! Só para visitar com olhos de ver e com um bom guia – aliás todos os guias que tivémos eram excelentes – o Museu Nacional de Arqueologia, Antropologia e Historia del Peru são necessárias várias horas e repetir a visita várias vezes. Há que apreciar os magníficos têxteis pré colombianos que são de um bom gosto espantoso e a interminável coleção de cerâmicas, algumas com impressionantes detalhes e singular beleza. E tem os metais e os monumentos de pedras e ...
O Museu Larco, numa dessas casonas construída sobre uma antiga pirâmide precolombiana, propriedade da família Larco que juntou e deixou o museu com uma preciosa coleção de “Ouro e Prata do Antigo Peru” além de muitas outras peças, também de cerâmica, têxtil, etc.

Cultura Mochica. 1 - 800 D.C. Epoca Auge
Orejera de oro con incrustaciones de turquesa, lapislázuli,
concha spondylus y nácar representando a guerrero antropomorfo

Mochica. 1 - 800 D.C. Epoca Auge
Fragmento de textil decorado com desenhos antropomorficos


São precisos vários dias para visitar Lima. Tem muito que ver, e apreciar, e ninguém vai morrer de fome porque também se come muito bem!

Para não alongar muito, deixemos Lima e amanhã vamos para Cusco!





segunda-feira, 21 de setembro de 2009

.
Recuerdos argentinos


– 3 –
.


Antes de escrever os "últimos recuerdos", algumas fotos para ajudar a "ver" melhor este país.

Buenos Aires. Muita arborização. Bonitos parque, nesta época, fim de inverno com muita árvore desfolhada


Un pequeno recuerdo: 7 kilos de queijos! Ótimos.

Já em Bariloche. O lago Nahuel Huapi e os Andes

O tango na rua


que a Joaninha aproveitou para treinar...

e os avós para ensaiar!

e a nossa Joaninha, bem melhor, cheia de frio, com a neve ao fundo!


Um aspeto doloroso no estudo da história de todas as Américas, é a parte dos índios. Nem um único dos colonizadores tem a consciência tranqüila, pressupondo que alguns tenham qualquer consciência. No Brasil clamam muito com a atitude dos portugueses, mas comparada aos espanhóis ou com os norte americanos na sua “caminhada para Oeste”, os portugueses foram quase iguais à Madre Tereza!
Além dos espanhóis terem cometido barbaridades incríveis, não foi só com os índios que o fizeram. Entre eles matavam-se entre si com uma displicência total. No Peru o conquistador Pizzarro decapitou o companheiro Almagro, o filho deste matou Pizarro, e até ao século XX os golpes militares, a inveja sócio-política, a ferocidade do sangue espanhol, matou com toda a tranqüilidade.
Na Argentina, os criollos, os descendentes de espanhóis, à medida que avançavam por territórios novos, “Terra de Índios” como ainda lhe chamavam quase no final de XIX, foram empurrando e matando os nativos, e a alguns, por prémio (!) davam-lhes um pouco de terra para que sobrevivessem. Um pouco da terra que sempre fora deles e agora era de uma nação usurpadora.
As leis, desde Fernando e Isabel foram explícitas: os índios são humanos – os doutores das leis e cientistas depois de estudarem os primeiros “exemplares exóticos” levados a Espanha por Colombo, concluiram que afinal não eram bestas, mas gente – e assim deveriam ser tratados, em pé de igualdade, com humanidade e o cuidado necessário por serem criaturas simples.
Mas sempre a lei foi uma coisa e a ganância dos homens outra. Os “cristãos” foram-se expandindo e para os milenares habitantes daquelas terras, para os poucos que sobraram, ficaram as terras inacessíveis, os refúgios, a pobreza, a vergonha, a cultura destruída.
À Tierra del Fuego chegaram os “enviados do governo de Buenos Aires” em finais do XIX, para fundar Ushuaia. Em meia dúzia de anos começaram a ocupar todas as terras, a enchê-las de criação de ovelhas, a vedá-las com arame farpado, ignorando os tradicionais criadores de guanacos. Em menos de 20 vinte anos a população dos Onas estava quase desaparecida! As matanças, a fome e as doenças dizimaram-nos.
E assim foi em todo o lado.
A Argentina é um país maravilhoso. Mas tem um tremendo débito social para com os seus primitivos habitantes, que, pelos vistos, jamais vai pagar e não parece preocupar-se com isso. É uma nódoa imensa e triste na vida duma nação, e que não desaparecerá nunca.
Esquecendo um pouco esta tristeza, e virando novamente turista, abram o link abaixo que, sempre com o tango, mostra o orgulho argentino: o eternamente adorado Carlos Gardel, o tradicional bairro Boca, o largo do Obelisco onde se fazem as manifestações de alegria, sobretudo do futebol que agora... (felizmente o tenista Del Potro veio dar algum ânimo ao desporto local), o famoso “Dulche de Leche”, uma especialidade, bem como os Alfajores, os bolinhos “nacionais”, o tradicional chimarron, mostra até o controvertido Perón, ditador violento, demagogo, que levantou o poder de compra da classe média mas desarticulou toda a infra estrutura de produção, inclusive a agrícola, explorando violentamente os produtores e arrecadando fortunas com o diferencial da exportação, a venerada Evita, que fanatizou o marido, permitindo-lhe fortalecer a ditadura, e até o Maradona no tempo em que era um grande craque.
Mas... não fala dos índios!


E pronto. Chegamos ao fim destes rápidos recuerdos! E nada melhor para fechar este último “capítulo” do que usar as palavras com que um historiador argentino, Felix Luna, termina seu livro, deixando-as com o autêntino sabor original:
“Créanme, tenemos um buen país. Lo único que nos falta,
a los argentinos de estos finales del siglo XX,
es merecerlo”!

(Não se passará o mesmo com os ... , e os ... e até os... ?)




quinta-feira, 17 de setembro de 2009

.
Recuerdos argentinos



- 2 -


É bem possível que o “capítulo 1”, anterior, provoque reações estranhas a alguns argentinos, mas o que se escreveu não foi uma “história”, mas recuerdos. E cada um guarda os recuerdos que o tocaram. Falar da Argentina sem falar de tango é pior do que ir a Roma e não ver o Papa, ou não ver no Egito as Pirâmides! O tango é um monumento argentino!
Voltemos a Buenos Aires que Carlos Gardel nos vai apresentar com

Passados 74 anos da sua morte, Gardel ainda é o número um do tango, mundial. Mas tudo evoluiu, a cidade cresceu, aprimorou-se ainda mais, há poucos anos recuperou a abandonada área do antigo porto, onde hoje estão belos apartamentos, hotéis e uma interminável quantidade de restaurantes e bares de alto nível, e do mesmo modo o tango, que se dividiu em dois aspetos: o clássico, que se continua a dançar em clubes, com o charme dos anos 30 e o espetacular, tipo Broadway, onde obrigatoriamente vão os turistas e também os próprios argentinos

E a todos, ao ouvir essas músicas, o pé começa a puxar...
Uma visita ao bairro Boca deve ser a porta de entrada em Buenos Aires. Bairro antigo, pobre, onde talvez o tango tenha nascido, é hoje um centro alegre com suas casas pintadas de coloridos vivos, cheias de artesanato e recuerdos. Ali está um pouco da alma dos porteños!
Já vimos que a primeira “moeda” daquele povo foram os couros, e a seguir a carne, a lã e os vinhos! O couro argentino é uma beleza: tudo o que se imagine que possa ser feito em couro eles têm, e do melhor que existe. Se os preços já eram convidativos por ser um produto tradicional, com a moeda um tanto desvalorizada o estrangeiro fica abismado com o que vê! E o mesmo com os artigos de lã: belíssimos e com preços incríveis. Para quem vive no Rio... roupa de couro e/ou lã é só para olhar!
Sucedem-se as “feiras” de artesanato ao ar livre, tentadoras, as lojas de marcas sofisticadas e as simples mas com os mesmos artigos de qualidade e o turista... vai gastando! Em compensação sabe que leva coisa boa.
Mas um bife de chorizo, ou um ojo de bife, mal passado ou al punto, ou umas costillitas de cordero patagon... acompanhados por papas al horno e regado a Malbec 2003 de Mendoza ou da Patagônia... os franceses podem esquecer o seu cordon bleu gastronomique!

Não comam! Cheirem só este OJO DE BIFE! Huuummm!

Vamos agora deixar Buenos Aires a caminho dos Andes, para Bariloche, situada a cerca de 750 metros de altitude junto ao lago formado pelo degelo das neves andinas, com cerca de 500 km2, o Nahuel Huapi. Rodeada pelos Andes, por onde os ventos sopram e se tornam gelados, Bariloche tem um clima maravilhoso no verão e no inverno é uma das maiores estâncias de sky do mundo.
Está a cerca de 41,5° de latitude sul (bem mais ao sul que Capetown, a 35!). A subida a um dos pontos altos (2.000 metros) de onde partem os esquiadores, é um espetáculo de uma grandiosidade e beleza incomparáveis! Olhando para o poente, sul e norte são os Andes, cobertos de neve, a perder de vista, uma cadeia interminável, uma demonstração da tremenda força da natureza! Não se pode ficar por muito tempo enamorado daquela beleza porque os -10°C fustigados por um vento cortante, parecem querer mostrar-nos que aquela terra é sagrada e protegida pelos deuses!

Bariloche, o lago Nahuel Huapi e algumas das montanhas à volta


Para o nascente, em dias de céu limpo vê-se parte do planalto da Patagônia até onde o horizonte nos esconde a visão, como a desafiar-nos para que visitemos também essas bandas.
Em 1670 alguns jesuítas descobriram este lago e nas suas margens estabeleceram uma missão que foi abandonada em 1718 depois do assassinato de 5 religiosos. Só em 1895 os europeus chegaram para se estabelecer! Bariloche, nome que vem da língua Mapuche significa “povo de trás das montanhas” porque terão vindo do lado do Chile, tal como vieram os primeiros colonos, alemães, suíços e italianos.
Não levou muito tempo a que a estação de sky fosse conhecida e já nos começos do século XX os primeros hotéis começaram a funcionar.
Com os conhecimentos trazidos de suas terras de origem os novos povoadores especializaram-se em doces de leite e chocolates que representam hoje uma das importantes fontes de renda da cidade que vive essencialmente do turismo, todo o ano. Ou vêm os esquiadores, ou os veranistas, ou simplesmente os turistas gozar aquelas belezas, que, lamento muito, mas tenho que afirmar que metem a Suíça num chinelo!
E como não podia deixar de ser também lá se comem os bifes de chorizo, cordero, etc. que ao fim de poucos dias nos fazem clamar por uma canjinha para sossegar o estômago! De qualquer modo sempre com uma garrafinha de Malbec à ilharga para ajudar a digestão!
Os passeios ao longo dos lagos, e são muitos, as subidas às montanhas, os parques naturais, o clima, e a gentileza do povo, obrigam-nos a regressar com a mala cheia de saudade e vontade de voltar!

No próximo “capítulo”, mais um restinho!

do Brasil, por Francisco G. de Amorim

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

.
Recuerdos argentinos
 em 3 capítulos !

- 1 -


Aqui mesmo ao lado – quase 3 horas de vôo Rio-Buenos Aires – e só agora surgiu a oportunidade de fazer uma rápida visita!
Cidade bonita, bem traçada, muito bem arborizada, largas avenidas e enormes e bonitos parques, clima magnífico, uma gastronomia, sobretudo nas carnes, que não tem confronto, ótimas massas – pastas – e uma imensa e sempre excelente variedade de vinhos. Moral da história: valeu a pena! E não foi só Buenos Aires.
Pelo que se consegue acompanhar através do noticiário internacional, a Argentina atravessa uma crise difícil, não só econômica, mas talvez até de identidade. Um país que no começo do século XX tinha conseguido elevar-se ao nível internacional do primeiro mundo, sendo, de longe o carro chefe de toda a América Latina, atraindo milhares de imigrantes, com uma imensa e forte classe média, parece não saber agora encontrar uma saída para os seus problemas, com um “casal presidente” a enriquecer, a querer perpetuar-se no poder, e a sobrecarregar ferozmente de impostos a economia, debilitada.
Continua a ter como “carro chefe” da sua economia a produção de trigo, milho e soja, carne e lã, e os famosos vinhos. Sendo o 5° produtor vinícola mundial exporta somente 20% da sua produção, já que o argentino, e os turistas, como eu por exemplo, não dão trégua a “coisa boa”!
Para compreender qualquer povo há que saber um pouco da sua história. Por hábito, nas minhas viagens sempre procuro comprar alguns livros de história do país. Sobretudo dos países dos “novos mundos” que ainda há relativamente poucos anos não tinham qualquer estrutura, saíram de colônias e tiveram que se fazer, Deus sabe com que lutas e sacrifícios.Não se pode resumir a meia dúzia de linhas a história de quem quer que seja, mas alguns aspectos são importantes para traçar as linhas mestras.
Buenos Aires começa com um punhado de náufragos, no princípio do séc. XVI, ali abandonados, miseráveis, quase sem comida, sofrendo a pressão dos aborígines, e onde só raramente passava algum navio que lhes pudesse aliviar o sofrimento. Ao fim de um, dois e até cinco anos lá vinha uma vela, uma “esmola”. Foram os portugueses do Brasil os que começaram a aparecer para com eles fazerem algumas trocas!
Sair daquele improvisado “refúgio” e penetrar nas pampas à procura de comida, de algum animal, era uma aventura difícil e perigosíssima: a planície, imensa, a perder de vista, não tinha pontos de referência. O regresso era uma loteria! Um dia um grupo de aventureiros encontrou um manancial que parecia inesgotável: manadas de gado vacuum, aos milhares, bravos, abandonados a si próprios, que naquelas terras ricas tinham encontrado comida abundante e excelentes condições de reprodução! Mas era impossível aproveitar a sua carne; não havia como transportá-la para a dividir com os outros, menos ainda como conservá-la. Os “pamperos” limitavam-se a abater as rezes, tirar-lhes o couro e deixar a carne para os ratos e outros animais da planície. Começa com couros a “moeda” dessa gente.
Aos espanhóis o que lhes interessava, depois da pilhagem do ouro dos incas, maias, aztecas, etc. era a prata de Potosi. Isso continuava a enriquecer a corte espanhola, mas a um custo elevado: toda a mercadoria enviada da “corte” para abastecer Lima e o Alto Peru, viajava em galeões até ao Panamá, atravessava aquele istmo no dorso de mulas, voltava a ser embarcada em navios no Pacífico até Lima, novamente carregada em mulas para atingir as minas, onde viviam uns quantos milionários e uma imensidão de trabalhadores, escravos e livres. A prata das minas fazia de volta o mesmo quase interminável, e caro, caminho.
Sonhava o vice-rei do Peru com uma saída para o Atlântico, que tornasse as viagens mais rápidas e baratas. Através do Brasil, era difícil porque os portugueses haviam de querer “direitos” de passagem e alfândega. Para o sul, Montevideo não existia e em Buenos Aires a coroa havia estabelecido um “virrey”, fora da jurisdição do “virreynado del Peru”! E por aqui começa o tráfego para o Alto Peru e o crescer do porto de Buenos Aires. A rota seguia por Cordova, Santiago del Estero, Tucuman e Jujuy, e pelo caminho se algum lucro ficava, era sobretudo para os “porteños”. Todos os colonos dependiam de um ou outro “virrey” mas o que os crioulos – espanhóis nascidos nas colônias, como no Brasil que separavam os brasileiros dos reinóis – procuravam era a independência financeira, já que política não lhes dizia respeito.
Com a invasão da Espanha por Napoleão, e da vergonha que reinava naquele país, que chegou a ter um irmão de Bonaparte como rei, os povoadores dos “virreynados” das Américas entenderam que nada deviam à nova majestade, trataram de despejar o “virrey” e montar uma junta governativa. Mas à boa moda espanhola, cada um por si! Buenos Aires tinha o porto de entrada das mercadorias e ficava com a totalidade das receitas da “aduana”, e as outras regiões da atual Argentina, o interior, que se...
Para se tornarem autênticos argentinos, sendo praticamente todos filhos ou descendentes de espanhóis, criaram contra estes uma guerra absurda: filhos contra pais e avós, chegando ao ponto de correrem da cidade com os espanhóis solteiros e alguns comerciantes já endinheirados que aproveitaram para espoliar! No interior os governantes sucediam-se, a maioria em situação de pouco mais do que penúria, e com a rapidez com que uma faca corta um pescoço! Era o método mais usual para troca de governo!
Entretanto Buenos Aires crescia, fomentava a criação de carneiros e organizava a de bovinos, em meados do século XIX sobrava-lhe dinheiro e, muito inteligentemente, planificou uma magnífica cidade, importou espécies arborícolas sobretudo da Europa, lançou linhas de caminhos de ferro para todo o lado (ainda hoje a rede ferroviária é superior ao somatório de todas as linhas dos restantes países da América do Sul, Brasil incluído) fomentou a educação criando a obrigatoriedade do ensino primário e estabelecendo a gratuidade no secundário e nas universidades (três delas fundadas no século XVI). O interior... pedia esmola!
Um dia os argentinos descobrem no seu país (ainda 1/3 do território era terra dos índios) as famosas terras roxas, talvez as melhores do mundo para agricultura, enchem os celeiros de trigo e milho, desenvolvem a vinha nas “orillas” dos Andes, e quando finalmente conseguem uma máquina para fazer frio, as suas imensas manadas de gado logo vão abastecer a Europa, sobretudo a Inglaterra.
Mas, e os índios? Os índios... atrapalhavam os “assentamentos cristãos”, e “houve que” lhes dar caça! Chegaram a pagar a caçadores de índios pelas orelhas que traziam! Mas história vergonhosa e triste não interessa.
"Comício a la Peron" no tradicional bairro La Boca
Até aos anos 30 do século XX Buenos Aires desenvolveu-se muito e já não tratava o interior como bastardos! A Argentina atraiu imigrantes sobretudo para a agricultura e pecuária, cresceu, o povo alfabetizado, a classe média forte, mas as idéias socialistas e anarquistas fizeram também a sua aparição! E com eles a chegada dos militares ao poder, e do maior apoio das oligarquias tradicionais! Vem a 2ª. Guerra Mundial e as exportações de alimentos tornam-se mais difíceis, apesar do enorme aumento do valor dos produtos. Em 46 assume Perón, ditador sem experiência nem idéias, pactuando e desarticulando à esquerda e à direita, a Evita a querer ajudar os mais desafortunados, e o inevitável golpe militar que culmina com o desespero da Guerra das Malvinas para ver se calavam a opinião pública que clamava não só pela situação econômica, mas pelas centenas de milhares de ativistas e estudantes que o poder das armas havia feito desaparecer. Até hoje! Centenas de milhares.
Voltam os civis e depois disso só um governo poderia ter dado certo não fosse a mesma herança castellana “si hay gobierno, yo soy contra”: Alfonsin. A saga prossegue, e talvez sobretudo agora, porque os momentos que atravessamos são sempre os mais percebidos, sente-se um descontentamento geral, uma insegurança face às atitudes do “casal presidente”, e assiste-se até à imigração de argentinos para qualquer lugar onde se sintam mais seguros!
Com tanto desgoverno algumas universidades estaduais perderam a hegemonia e qualidade propiciando a abertura de outras privadas.
Depois falaremos dete tango !...
De qualquer modo a Argentina é um país que vale muito a pena... tudo!
No próximo capítulo vamos falar até de tango, e como não podia deixar de ser, do imortal Carlos Gardel! Quem não gosta?
do Brasil, por Francisco G. de Amorim

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

.
O  grande  caçador  Maia 
-  2 -
.
(continuação...)

Esta descrição ( a do Maia a “justificar” ter-se ido meter à frente da bala que lhe atravessou a perna) fez o riso voltar àqueles rostos tensos. Até o Maia de perna atada teve que rir!
De volta ao acampamento, a vontade de caçar tinha-os abandonado. A ceia, sempre um bom momento de alegria e descontração foi comida em silêncio. Triste. No dia seguinte o Maia ficou deitado no acampamento e o Francisco foi só com o Ricardo caçar um ou dois antílopes para arranjar comida para eles e aquele povo.
Entretanto o pisteiro já não apareceu naquela manhã. Tinha sumido! Quando perguntaram por ele as respostas eram evasivas que ele não podia ir mais, tinha outras coisas para fazer, etc. Nova conferencia com o chefe da aldeia para arranjar outro pisteiro, e este do mesmo jeito, com os mesmos rodeios, não tinha outro capaz, estava ausente, e mais isto e aquilo, etc., a verdade é que ficaram sem guia.
Ainda um dia nesse acampamento, para descansarem da emoção do acidente, mas como não se podia esperar mais apoio do povo dali, foram obrigados a ir procurar outro local para continuar a caçada.
Desfazem o acampamento, carregam tudo de volta nos carros e aí vão eles, picada fora tentar continuar a caçada que tão mal começara. Percorreram algumas dezenas de quilómetros até outra sanzala, bem longe da primeira.
Mesma cena de início, conversar com o chefe da nova sanzala onde se depararam com as mesmas respostas, não tinha nenhum pisteiro bom, os animais andavam muito longe, a época não era a melhor, etc., etc. Estranho. Muito estranho. Ninguém mais queria ir caçar com eles. Afinal o que se estaria passando?
Conseguiram a custo saber que naquela região, imensa, se tinha rapidamente espalhado a notícia de que andavam por ali uns brancos que se queriam matar uns aos outros! E como é evidente ninguém queria colaborar com essa guerra!
Para compreender esta atitude é necessário conhecer um pouco a mentalidade daqueles povos simples. Os mais simples, os mais manhosos! Analfabetismo não é sinônimo de burrice.
Quando por qualquer circunstância um homem quer vingar-se de outro, nunca o faz declaradamente. Tem que ser pela calada, sem que jamais possa levantar suspeita. A vingança pode provir de um caso de amor, da perca de uma posição mais influente, de uma acusação pública, até de simples inveja, se inveja pode ser coisa simples.
Sendo a paciência uma das virtudes dos povos simples, a espera não tem pressa porque tempo pouco conta. O momento oportuno sempre acaba por surgir, sobretudo nas reuniões de todos os homens que, em ocasiões especiais, se sentam a noite toda, em círculo, ao redor do fogo, discutindo, pouco, e bebendo, muito. Bebidas fermentadas por eles mesmos preparadas, e sempre de mais elevado teor de álcool para estas quizombas, reuniões a que preside o soba acompanhado pelo quimbanda, o feiticeiro e curandeiro e todos os homens da sanzala.
Para consecução desse ato, o vingador precisa da colaboração de um ajudante, a quem todavia não põe ao corrente do que pretende fazer. Escolhe um dos seus amigos, de amizade consolidada, que sem saber vai ser o cúmplice. Entretanto começa por procurar cativar a confiança de quem se quer vingar, tornando-se seu amigo, o mais prestável, mais humilde, mais intimo, para afastar quaisquer suspeitas entre todos na aldeia, que passa a ver que eles são mesmo amigos.
Com o aproximar do dia da ação, prepara um veneno forte, coisa que não é segredo para ninguém que vive no meio da natureza, e na noite da assembléia o acaba se sentando no meio dos dois amigos. A vitima de um lado, o cúmplice do outro, com o objetivo de afastar ainda mais qualquer suspeita. Ele fica entre os dois maiores amigos, o que é natural.
A bebida é servida em cabaças, continuamente, uma só estando na roda de cada vez, que vai passando de mão em mão, sempre num mesmo sentido de rotação. Cada um bebe uns quantos goles e passa ao seguinte. Do lado por onde ela há-de vir senta-se o cúmplice, do outro a vitima. O veneno, bem forte, leva-o o “vingador” embutido na unha de um polegar. A cabaça com a bebida alcóolica roda a noite toda, passada invariavelmente da esquerda para a direita, só parando quando vazia, para se encher de novo. Numa dessas rodadas a cabaça há-de chegar às mãos do cúmplice só com bebida suficiente para um ou dois beberem. O vingador está atento, e logo que percebe que o momento é chegado, sem que alguém note, o que não é difícil porque o álcool já tolda a maioria deles, não deixa o cúmplice beber, para não perder a oportunidade de receber a cabaça quase vazia. Nessa altura ele bebe um pouco, finge que bebe, enquanto mergulha bem o dedo com o veneno que se vai misturar aos últimos goles da bebida. Feito isto passa a cabaça para o lado, tendo o cuidado de fazer o parceiro beber até a derradeira gota, o que também não é difícil, porque a cabaça já vai quase vazia e todos gostam bem de se embriagar. A festa continua, o álcool vai fechando os olhos de alguns e a mente de todos, mas assim mesmo só pára alta madrugada quando caem os últimos bêbados.
No dia seguinte a ressaca é geral, mais sentida por alguns. A vitima tem uma ressaca muito mais forte, o que a ninguém causa espanto porque há sempre uns a quem a bebida faz pior. Mas a ressaca dele não passa, e ao fim do dia piora. Sente-se mal, com diarréia, febre, fraqueza. Ninguém o mandou beber tanto! Em menos de quarenta e oito horas está morto! O vingador perdeu um amigo! E leva a encenação até ao fim, mostrando-se muito sentido com a falta do amigo!
Foi este mesmo quadro que aquele povo viu naqueles amigos que foram caçar! Muito amigos, mas caçadores com boa pontaria como vai um acertar o outro? De certeza que querem matar-se! Até o tal cúmplice estava presente possivelmente para ajudar a posicionar a vítima no melhor local para levar o tiro! Não puderam convencê-los que entre brancos as coisas não funcionam desse jeito! Não houve maneira.
E esta caçada nas terras do fim do mundo que tinha tudo para ser uma maravilha, acabou por ser um tormento. O objetivo eram os elefantes. Tentaram depois procurá-los, mas sem pisteiro. Andaram muito perto deles, mas nunca em posição de tiro. Ao fim de uma semana foram obrigados a abandonar a região, tristes, tensos, com a perna do Maia dolorida ainda, mas sem dar preocupação de maior.
Levaram dessa caçada esta versão de costumes, estranha, mas autêntica.
O Maia ainda combalido do tiro na perna !
O Maia estava em Angola desde os seus vinte anos. Português, beirão, para ali fora cedo por não querer cumprir o serviço militar! Estava-se em plena Segunda Guerra Mundial, em que Portugal não entrou, mas podia ter sido obrigado a isso, como o obrigaram na de 1914-18.
Logo ali chegado, com algum crédito junto a casas comerciais das cidades principais, foi estabelecer-se na região dos ganguelas, perto de Vila da Ponte onde depois se veio a fixar. Por essa época estava a começar a construção do prolongamento da linha férrea de Lubango às minas de ferro da Jamba. As estradas, se estradas se pode chamar ao que eram os caminhos em Angola naquela época, eram péssimas. Tempo de guerra. Dificuldades de toda a ordem, inclusive de combustível para os caminhões se deslocarem. Alguns queimavam diesel misturado com óleo de dendê, álcool e tudo o mais que pudesse ser encontrado! Parados é que não podiam ficar. Muita gente que era preciso alimentar.
Para obras publicas ou de envergadura importante, em que se empregava bastante mão de obra local, nativa ou não, o governo concedia a experientes caçadores uma licença especial de caçador profissional, que lhes permitia abater peças de caça para fornecer alimentação a esses grupos de trabalho. Eram homens com grande conhecimento das regiões onde atuavam, atiravam muito bem, e sabiam perfeitamente o que podiam e não deviam abater.
O Maia antes de ir para Angola nunca tinha dado um tiro na sua vida, e admirava profundamente o caçador profissional que trabalha naquela região, e que ele recebia com frequência na sua modesta casa de comércio, e com quem já tinha saído algumas vezes. Via o outro apontar e com um só tiro sempre abatia alguma peça de caça, façanha que o fascinava. Um dia perdeu o acanhamento:
- Eu gostava muito de experimentar dar um tiro.
- Quando quiser. Vamos lá.
Maia pega na carabina do amigo faz uma marca numa árvore e dispara. Onde foi parar a bala, ninguém sabe. Ficou um quanto desapontado mas o caçador tranquilizou-o. Ele mesmo no principio tinha dificuldade em acertar, mas tudo era uma questão de hábito.
Maia sonhava em ter uma arma e ir à caça. Ao primeiro caixeiro viajante que depois disto por ali passou, comprando gêneros de produção local e recebendo pedidos de encomendas que seriam depois remetidas pelos camionistas, os caminhoneiros, pediu um favor. Deu-lhe dois mil escudos para que lhe comprasse uma carabina. O dinheiro que sobrasse gastasse todo em balas. E ficou à espera, ansioso. Uns seis meses depois o mesmo viajante voltou, e trazia a arma! Que maravilha! Uma .22 Long e uma quantidade grande de caixas com balas.
Maia mal pôde esperar. Fez uma cruz no muro do pátio da sua casa, enfia uma bala na câmara, afasta-se uns dez metros, dispara, mas o tiro acerta a mais de meio metro do centro! Como era possível? O caçador profissional onde punha o olho punha o tiro e ele nada! Apontou de novo, devagar, e percebeu então porque não acertava. O cano oscilava muito. Tremia. A arma não ficava quieta, e assim ele não conseguia apontar.
- Hummm! É isso. Preciso apoiar o cano.
As janelas da sua casa tinham trancas por dentro. Pega uma delas, com um serrote faz-lhe um corte em V numa das pontas, e vai experimentar de novo apontar. A tranca no chão, o cano apoiado dentro do V, agora sim, a arma ficava quietinha e ele apontava à vontade.
O pequeno cabrito que não ganhou para o susto!
Mal escureceu, chamou um dos seus empregados de mais confiança a quem entregou uma bateria de carro e o farolim, e não foi preciso andarem muito para que logo surgissem a brilhar dois olhos dum pequeno cabrito do mato. Cinzento, o Dik-Dik (Sylviacapra grimmia), bichinho que pesa uns dez a doze quilos, comendo tranquilo umas verduras na sua própria horta. Aproximam-se a uma dúzia de metros, o cabrito despreocupado, não pára de comer.
Farolim apontado, o Maia que tinha levado três balas, mais do que suficiente para o que ele queria - o caçador profissional com cada tiro abatia uma peça - apoia a tranca no chão, assenta o cano da arma na ranhura em V, firme, aponta, dispara, e a bala segue zunindo pela noite. O cabrito, ótimo, cheio de saúde, assustou-se, pestanejou e continuou comendo. Um sinal ao ajudante para que se aproximem um pouco mais. Dez metros, menos ainda. Tranca, arma apoiada, mas a tão curta distância já não era fácil apontar. A tranca era comprida, e dificultava o apontar para baixo. Segundo tiro, e a segunda bala segue correndo atrás da primeira. Atirador mais espantado do que o cabrito!
- Psst! - e novo gesto para que avançassem. Ficaram a uns cinco metros.
Olhem só o cabritinho... tranquilo !

Com tranca e tudo a pontaria estava mais difícil e o Maia, de fraca estatura, teve que se pôr nas pontas dos pés para tentar mirar o bichinho. Terceiro tiro. Terceira bala a zunir na noite dos ganguelas. O cabrito? Continuava a pastar, ali mesmo na frente deles.
O Maia admirado com a falta de sorte e já sem balas,
- Kuata espingarda!
Entrega a arma ao ajudante faz-lhe sinal que fique quieto e continue a apontar o farol. Passa fora do foco, vai por detrás do pobre cabrito e dá-lhe uma trancada na cabeça! Matou.
O empregado só disse
- Háca! Patrão! - e riu com vontade.
Patrão foi avisando:
- Você não vai contar nada disto. Diz que patrão matou só no terceiro tiro, porque não está habituado neste espingarda. Ouviu?
- Sim siô. Patrão.
Entrados em casa o empregado num instante põe em cima da mesa tudo o que seria o jantar do patrão e sai para o pátio, onde sempre à volta do fogo, se juntava com os restantes empregados, mesmo de outras casas comerciais. Pouco depois começam a ouvir-se sonoras e gostosas risadas, e o patrão desconfiado vai ver o que se passa. O seu ajudante na caça, aquele a quem pedira segredo absoluto do modo como apanhara o cabrito, de pé, teatralizava a história gesticulando e enfatizando mais ainda o que de ridículo a situação pedia!
Nessa noite o grande segredo ficou sendo do conhecimento de todos os habitantes daquela povoação!
Mas o Maia não desistiu. Só deixou foi de levar ajudante para a caça! Durante meses, sem que o ânimo lhe faltasse, continuou a caçar, mas sempre sem sucesso, e a sua fama de péssimo matador foi-se consolidando. Aliás nem péssimo era. Não era! Sempre que regressava os vizinhos perguntavam
- Oh! Maia! O que caçaste hoje?
Nada. Sempre nada. Até que um dia...
Sempre insistindo, está numa área de capim bem alto e vê, vindo por um trilho, direitas a ele, duas Quissemas ou Burro do Mato ou Côco (Cobus Defassa Penricei). As quissemas são animais com uma altura dorsal de cerca de um metro e vinte, e peso que ultrapassa facilmente os duzentos quilos. Maia esconde-se atrás de uma árvore ao lado do caminho, carrega a arma e espera. Passa o primeiro animal, a uns três metros, e sai o primeiro tiro. Cai uma quissema. A outra fica especada sem saber de que lado estava o perigo, Maia carrega de novo, volta a disparar, e... mata a segunda!
As duas quissemas ausentes do perigo do "caçador" Maia "
Hurrraaah! Hurrraaah! Hurrraaah! Quebrara o enguiço. Tinha finalmente caçado! E logo duas quissemas!
Mas, e agora, como levar os bichões, enormes, para casa? Não tinha a menor condição de levar uma só quanto mais duas, e se fosse pedir ajuda, ninguém o ia acreditar. Solução? Simples. Cortou as quatro orelhas, meteu-as nos bolsos, e tentando aparentar tranquilidade que não tinha, volta com ar feliz à povoação, e vai direto a um vizinho, o único que tinha uma carrinha, pedir ajuda para carregar uns animais que tinha morto ali.
- Você, Maia? Você nunca matou nada! - e gozava.
Este com ar solene mete a mão no bolso e joga em cima do balcão o documento comprobatório:
- Duas quissemas. Duas. Estão a menos de dois quilómetros daqui.
Uma das quissemas ainda com as duas orelhas...
- Puxa. Querem ver que é mesmo verdade!
Comerciante, mulher e filha conferem as orelhas, que eram verdadeiras. Duas do lado esquerdo e duas do direito, tinham que ser de dois animais. Aliás nenhum tem quatro. Querem ver que o Maia caçou mesmo?! A povoação despovoou-se. Todos acorrem ao local indicado, onde as quissemas jaziam. Foi uma festa. Carne para toda a gente. A consagração do Maia que, com esses dois tiros, mesmo disparados à queima roupa, deve ter aprendido como se atirava! Acabou sendo um ótimo caçador, e mais do que isso um estupendo e alegre companheiro de caça, que por fim até passou a saber que as balas fazem ricochete na água!
in "Contos Peregrinos a Preto e Branco", de Francisco G. de Amorim, 1998
(Por onde andará, hoje em dia o meu querido amigo Carlos Vieira da Maia? Quem souber alguma coisa que me avise)
.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

.
O  MAIA
.
O interior de Angola, sobretudo o centro e sul é um planalto com altitude média acima dos 1.000 a 1.200 metros, o que lhe proporciona um clima seco, independente da quantidade de chuvas que caem, noites frias, madrugadas geladas formando com facilidade camadas de gelo na água que fica ao relento em tinas ou baldes, e temperaturas que durante o dia ultrapassam os 40º C. Nunca nessas áreas faltava cerveja gelada! Durante a noite ficavam as garrafas expostas ao frio, e de madrugada antes de se sair para a caça guardavam-se em caixas de papelão que por sua vez se embrulhavam em pesados cobertores de papa, indispensáveis para se poder dormir dentro das barracas de campismo, normalmente gélidas, e depois colocadas na melhor sombra das árvores. Ao meio dia, sob um calor de quarenta graus ou mais, os caçadores no regresso ao acampamento, sequiosos, encontrarem no meio do mato, a centenas de quilometros do que se podia chamar civilização, uma cerveja muito gelada, era o máximo!
Nessas regiões, a saída de madrugada sob um frio que gelava até as idéias, obrigava os caçadores a agasalharem-se com múltiplas peças de roupa quente, cachecol, chapéu, luvas e tudo que pudesse proteger daquele frio imenso em cima de jeeps abertos! Assim que o sol nascia começava o streap tease! Primeiro o cachecol, depois o blusão pesado, depois as luvas e as lãs, que tudo se ia jogando para dentro do carro, até que por fim seguiam só em camisa quando não tiravam esta também! Ao lado do condutor ficava um monte de roupa!
Longe eram as chamadas terras do fim do mundo, lá no sul de Angola, região dos cuanhamas, dos ganguelas, dos cussos e de muitos mais, onde uma caçada pressupunha uma estadia mínima de uma semana, sendo necessário levar todo o indispensável equipamento de campismo, primeiros socorros para qualquer emergência, boas reservas de cerveja e vinho para beber e oferecer aos sobas que disponibilizassem pisteiros, que não saíam sem sua autorização, e ainda arroz, batatas, sal, café, conservas, frutas e mais um monte de bicuatas, que incluía cadeiras, mesas, camas de campanha, candeeiros Petromax, sacos de lona especiais para água de beber, que pendurados na frente do carro, com o deslocar deste mantinham a água fresca apesar do sol escaldante, enfim tudo o que uma semana daquelas dava direito. Muitas vezes levava-se cozinheiro que ficava feliz com esta variante da sua vida insossa na cidade. E até um barco, a remos ou com motor de popa quando se previa ter que atravessar algum rio mais largo.
Eram centenas de quilômetros para se atingir o coração da região, onde mais facilmente se podiam encontrar os grandes animais como o elefante. Cruzavam-se no caminho planuras imensas, savanas, chanas ou anharas (pastos úmidos e férteis) cheias de caça diversa, sobretudo antílopes desde a minúscula Seixa aos Nunces, Songos, Quissemas, e até Gnus e as enormes Gungas, e muitas outras espécies, que à noite os faróis dos carros refletindo nos seus olhos pontilhavam de luzes. Espetáculo magnífico. Algumas áreas pareciam cidades iluminadas.
Um dos animais que habita nessas anharas é o Cuio ou lebre saltadora (Pedestes capensis). Não chega ao dobro do tamanho de uma lebre e lembra um canguru pequeno com membros anteriores muito desenvolvidos, sobre os quais se desloca saltando, e os posteriores muito pequenos de tamanho suficiente só para ajudar a levar a comida à boca. Herbívoro inofensivo, vive durante o dia em tocas, só à noite sai para se alimentar. Seus olhos refletem a luz com imenso brilho, vendo-se, quando se lhes apontam os faróis, uns pontos luminosos moverem-se aos saltos!
O simpático Cuio
No caminho para as tais terras do fim do mundo, um grupo de caçadores de que fazia parte o Carlos Vieira da Maia, homem dos seus quarenta anos, baixo, seco e rijo, muito vivo e alegre, comerciante em Vila da Ponte que se chamou Vila Artur de Paiva e hoje é Kuvango, ao atravessar uma dessas chanas ou anharas, já noite, farol ligado varrendo os lados da picada para se gozar o espetáculo, avistam bem perto do carro um desses cuios.
- Vamos pegá-lo!
Do grupo fazia parte, como caçadores o Francisco e o Maia, e mais um filho deste na altura com uns quinze anos que levou um amigo da sua idade, além de outro parceiro o Ricardo, não caçador mas que iria conduzir o jeep nas caçadas. O Maia de cima do carro continuou a farolinar, sem perder o cuio de vista.. Os dois rapazes saltaram logo fora e no meio duma noite escura em que se via unicamente a estreita faixa que o farol iluminava, correram para pegar o cuio, que com a forte luz a bater-lhe nos olhos saltava também sem saber para onde, mas aproximando-se do carro.
Tropeçavam em troncos caídos que naquele contraste luz-escuridão não se distinguiam, davam tombos formidáveis, mas o divertimento era superior e por nada deste mundo interrompiam aquela caçada, à mão, sem no entanto alcançarem o animal, que igualmente perdido, conseguia assim mesmo enganá-los.
Francisco encostado à traseira do jeep ria com aquele espetáculo simples e caricato. De repente o pobre cuio num dos seus saltos, cego com a luz, bate na lateral do jeep e cai estonteado. Francisco num instante despe o blusão, cobre o bicho e segura-o! Estava terminado o pega-pega!
E agora o que fazer com ele? Adaptou-se um engradado com uma das caixas que levava os mantimentos e levaram-no.
A meio da noite chegam ao local previsto para acamparem, como sempre junto a uma sanzala para que se aproveitassem da companhia e infra-estrutura daquelas gentes. Descarrega tudo dos carros, arma-se a tenda de campismo, prepara-se uma refeição rápida, deixa-se o cuio no engradado de madeira, e deita-se a turma.
Durante toda a noite o cuio fez um incómodo barulho roendo as tábuas da caixa e esse ruído no meio do profundo silêncio do interior de África era suficiente para não deixar dormir bem quem tivesse o sono leve!
De manhã constatou-se que o bichinho tinha roído quase uns cinco centímetros duma das tábuas e pouco faltou para ter alcançado a liberdade. Pena que não tivesse conseguido. O esforço foi meritório e de qualquer modo estava decidido soltá-lo, contra a vontade do povo daquela sanzala que queria aproveitar o petisco. Resolveu-se no entanto dar uma chance ao cuio: primeiro dava-se-lhe a liberdade e só quando ele se tivesse distanciado uns cem metros podia alguém começar a correr para o pegar! Foi outra cena.
Visão artística do Cuio
O cuio, habituado somente a sair de noite, de dia vive escondido em tocas, e por isso vê muito mal. Assim que foi solto começou a correr, sempre aos saltos, ziguezagueando, estonteado. A criançada, só ela autorizada a pegar o animal, esperava ansiosa o sinal da largada para sair atrás. Este dado, uns vinte dispararam numa tremenda algazarra para ver quem o apanhava. Acabaram mesmo por pegá-lo, e com o destino numa panela acabou este bichinho simpático.
Antes de qualquer procedimento de caça é preciso ir cumprimentar o chefe da aldeia. Conversar com ele sem pressas, oferecer-lhe alguma coisa, sendo o mais comum um ou dois garrafões de vinho, dizer-lhe ao que se vai, e pedir-lhe que arranje um pisteiro bom.
Chefe, sentado numa quibaca, os restantes homens no chão. Conversa lenta, pausada, dando a sensação de ser assunto que necessita de muito pensar! Isto levou a manhã toda.
Ali ao lado, o rio Cubango, a mais de quinhentos quilômetros da nascente, era já um rio largo, caudaloso, apesar da época não ser de chuvas. Por vezes atravessa área pedregosa transformando o seu leito tranquilo numa série de rápidos, que deixam para montante as águas mais paradas formando quase um lago, onde as margens se afastam uma ou duas centenas de metros.
Não só o pisteiro como todo o povo mostraram-se desde logo muito interessados em falar sobre os muitos hipopótamos que estavam ali, nesses rápidos. Não era intenção dos caçadores caçar hipopótamos, animal tranquilo, por essa ocasião uma das espécies cuja extinção estava já ameaçada, mas sim elefantes. Todavia um daqueles imensos hipopótamos seria uma magnífica prenda para aquela gente. Ficariam abastecidos de carne por um bom tempo, e por isso tanto interesse em falarem neles. O peso médio dum macho é de duas toneladas e meia. Caçar esta montanha de carne seria a melhor maneira de cair nas graças das gentes daquela sanzala, e o chefe mostrou-se nisso vivamente interessado, porquanto seria sempre ele a proceder à divisão da carne. E quem parte e reparte...
Foi decidido aproveitar o resto da tarde desse primeiro dia para ir procurá-los. Lá estavam, a razoável distância de tiro, parecendo tomar banho em piscina, mais de uma dúzia desses enormes bichos.
A aproximação para toda a caça deve ser cautelosa, mas como os caçadores eram seguidos não só pelo pisteiro como por umas dezenas de garotos, que todos queriam ver caçar um bichão, a cautela foi só teórica.
Com "boa vontade" veem-se dois hipopotamos a aparecer nas águas!
Os animais pressentindo a aproximação de gente vinham à superfície muito rapidamente respirar, não mostrando por mais de escassos segundos a ponta das narinas e os olhos, dificultando assim a hipótese de tiro, que para ser fatal deve atingir uma área muito restrita atrás da orelha. Esperou-se algum tempo para ver se algum mais curioso se expunha melhor, o que não era impossível de acontecer, porque a curiosidade é uma das características destes simpáticos monstros. Não estava fácil, mas assim mesmo Francisco arriscou atirar logo que viu alguma possibilidade de sucesso, com a sua carabina equipada com óculo. Tiro preciso, o animal sente o impacto da bala, revolve-se na água, ferido e muito agitado, entusiasmando todo o grupo que já antevia comida farta, mas mergulha e desaparece. O resto da manada sumiu também, submergindo para ir depois aparecer bem longe, em lugar mais abrigado, sem perigo aparente.
Começava o dia a declinar e como já não valia a pena tentar procurar os animais, ficou decidido voltar na manhã seguinte. Se o animal tivesse sido ferido de morte algumas horas mais tarde apareceria a boiar, quando não teria que ser procurado. À noite, à roda do fogo, entre outras conversas, comentou-se a precisão do tiro. Fora bom, e pelo modo como o animal o acusou devia estar morto. De qualquer modo não duraria muito.
Manhã cedo, ainda mal se preparava o matabicho, uma porção de garotos de roda dos caçadores avisava que os cavalo-maria haviam subido o rio. Já os tinham localizado e igualmente alertado. Volta a equipa, sempre acompanhada por uma pequena multidão de garotos, ao local onde tinham atirado na véspera, para começar a procura do animal. Ninguém queria perder o espetáculo. Se estivesse morto a corrente do rio já o teria arrastado para as rochas dos rápidos. Ali não estava. De acordo com a informação pré matinal, a manada tinha subido o rio e estavam ali, a cerca de mil metros.
- Vamos lá ver se encontramos o ferido.
Para a hipótese de terem que atravessar o rio, levaram o barco.
O Maia tinha uma carabina 9,3 mm com dois gatilhos, um primeiro para soltar a folga do segundo que depois ao mais leve toque dispara, o que dá maior precisão de tiro. Propõe:
- Eu vou para a outra margem, e atira aquele de nós que tiver os animais mais perto!
- Cruzar fogo por cima da água? Tá louco! Nunca.
- Porquê? Qual é o problema?
- Porque a bala faz ricochete na água e nós vamos ficar a atirar um no outro.
- Qual ricochete, qual quê! Eu caço há mais de vinte anos e nunca vi tal coisa. Pelo contrário, a água amortece a bala.
- Maia, eu sei que faz ricochete. Já vi muita bala bater na água e seguir viagem. Portanto se você quer atravessar o rio vai que eu fico aqui à espera.
- Não, senhor. A caçada é sua, e o hipopótamo ferido foi também um tiro seu. Vamos seguir as suas instruções.
- Que fique bem assente: não só não vamos cruzar tiros por cima da água como ninguém vai para o outro lado, porque como sabe o diabo disparou uma tranca, e eu vou atirar deste lado.
- Está certo. Então eu aguardo aqui.
Francisco deixou os companheiros sentados debaixo duma frondosa árvore, e seguido ainda por uns quatro ou cinco garotos foi subindo pela margem do rio para se aproximar da manada. Como na caça todo cuidado na aproximação é pouco acabou correndo com a garotada. Só atrapalhavam e era mais barulho e gente a aparecer. Caminhou com cautela bem junto à água, afundando por vezes os pés na terra encharcada. Por fim lá estavam os bichos, longe, junto à margem oposta, a uns cento e cinquenta metros, o que não aconselhava a atirar, dada a precisão que o tiro requer. Cautelosos como na véspera, continuavam atentos, até porque a garotada os havia alertado, e nesta situação mantêm-se submersos o máximo de tempo possível, e só sobem à superfície para respirar a intervalos de largos minutos, mal aparecendo, tornando assim a espera muito morosa e cansativa. Era necessário esperar com paciência. Francisco procurou um lugar meio escondido, sentou-se numa árvore caída, e para dar mais precisão ao tiro cortou um galho da mesma árvore para lhe servir de apoio ao cano da arma.
Ao fim de uma hora e tanto as cabeças começaram a mostrar-se um pouco mais fora e Francisco, mirando com todo o cuidado através do óculo, arriscou um tiro. Estando quase ao nível da água e atirando a uma distância grande, o angulo formado com a superfície era mínimo. A bala, blindada, rasou e tocou na água, seguiu, voltou a bater na água um pouco mais adiante, e o Francisco até pensou pena o Maia não estar aqui que teria visto o tal ricochete.
Ainda tentou um segundo tiro, sem senso, porque àquela distância e sem angulo era praticamente impossível atingir um alvo de cinco centímetros de diâmetro, a parte vulnerável do hipopótamo, e matá-lo. Felizmente não parece ter acertado em nenhuma das duas tentativas. Ferir e não matar era pouco digno de um caçador. Desistiu e levantou-se para retornar.
Neste momento chega o Ricardo, de jeep, lívido:
- Venha depressa. O Maia levou um tiro numa perna. E acho que foi um tiro seu.
- Um tiro??? Como? Um tiro meu?
- Sim. O primeiro.
- Não me diga que vocês atravessaram o rio e subiram a outra margem, contrariando o que havíamos combinado?
- Foi. O Maia, quando ficámos ali sozinhos, disse que essa coisa de ricochete era conversa, e fomo-nos colocar mesmo em frente dos hipopótamos.
- Meu Deus! Atingiu algum osso? Sangra muito?
- Não. Quase não sangra.
Num instante estavam no local onde se tinham separado. O Maia sentado no chão debaixo da mesma árvore frondosa, perna estendida, ar de profunda desolação, duas lágrimas na cara magra, ainda por secar. Pisteiro e garotada à volta com ar de espanto.
- Oh! Maia! Que maneira estúpida de aprender que as balas fazem mesmo ricochete na água!
- Pois é. Tem razão.
- Deixe ver a perna.
Calça abaixo. Ferimento milagroso! Por muita sorte foi uma bala blindada, com forte poder de penetração, que não espalha nem estilhaça. Entrou na parte superior da coxa e saiu uns doze centímetros adiante. Não apanhou o femur nem a artéria femural, que naquele local, longe de tudo e de todos, teria sido fatal! Fez um pequeno buraco na entrada, ligeiramente maior na saída, mas a velocidade com que atravessou o músculo deixara o caminho como que cauterizado e sem aparente perigo de infecção. De qualquer modo havia que o levar a um posto de enfermagem para ser visto. O mais perto, perdido no meio daquela imensidão, ficava a cinquenta quilometros dali.
Quando lá chegaram a perna estava um tanto escura do hematoma causado pela pancada do tiro potente, mas o enfermeiro limitou-se a fazer um pequeno penso na entrada e saída da bala, passar uma ligadura para segurar os pensos e recomendar uma medicação simples, que faria bom efeito porque o Maia, homem saudável, nunca até aquela altura da sua vida tinha tomado um único comprimido!
Regresso ao acampamento em silêncio. A caçada estava estragada. Francisco não sendo responsável pelo disparate do amigo, sentia-se mal, e quis saber exatamente como se tinha passado tudo aquilo. Ricardo fez o relato.
- O Maia disse que isso de ricochete na água era conversa! Então atravessámos o rio no barco, e subimos pela outra margem até que avistámos os hipopótamos, e fomo-nos colocar o mais perto possível. Aí uns trinta metros. Escondemo-nos atrás dum muxito, sentados de cócoras. Os animais estavam tão perto que o Maia carregou a arma, e preparou-se para atirar. Tirou a folga soltando o primeiro gatilho, e apoiou a arma na perna. Logo a seguir ouvimos um tiro, a arma dele sacode, sente uma pancada na perna, que lhe deu a sensação de ser o coice do tiro da sua própria arma e espantado diz:
- Olha, disparou-se a minha arma! - levanta-a e vê o percutor armado.
- E esta? O percutor armado! - abre a culatra e a bala estava lá dentro! - Como é possível? A bala está aqui! Como é que isto disparou?
Nessa altura eu olhei para o lado para tentar descobrir o mistério do tiro que não havia saído da arma dele, e vejo a perna a sangrar.
-Oh! Maia, você levou um tiro na perna, e foi uma bala do Francisco!
O Maia sem acreditar: - Levei um tiro onde?
- Aí na sua perna.
O Maia vê a sua perna ferida, porém continua sem entender o que se passava.
- Vamos embora daqui. Dê-me a mão que eu o ajudo a levantar-se.
- Não é preciso. Estou bem. Não sinto nada.
Levantámo-nos e começámos a andar. Uns poucos metros adiante o Maia senta-se no chão e com as lágrimas a romperem-lhe dos olhos diz:
- Ai! Que eu vou morrer!
Eu fiquei aflito, mas não me parecia que fosse caso para isso, e perguntei-lhe:
- Vai morrer porquê? Foi só um tiro na perna e até sangra pouco!
O meu amigo Maia descansando depois do susto... e do tiro!
- É sim. Mas eu já vi antílopes levarem um tiro que a gente pensa que não acertou, continuarem a correr como se nada fosse com eles, e de repente caírem para o lado, mortos! Comigo vai acontecer o mesmo!
Esta descrição fez o riso voltar aqueles rostos tensos. Até o Maia de perna atada teve que rir!
(continua...)
in "Contos Peregrinos a Preto e Branco", de Francisco G. de Amorim, 1998